O interior do estado de São Paulo foi palco de um dos episódios mais estarrecedores, sombrios e profundamente dolorosos da crônica policial brasileira contemporânea. O que inicialmente foi reportado às autoridades e tratado pela comunidade local como um misterioso e angustiante desaparecimento de uma jovem mãe e de seus três filhos pequenos desdobrou-se, em questão de dias, em uma teia macabra de violência doméstica, mentiras calculadas, cumplicidade familiar e assassinatos em série. No centro dessa tragédia que chocou a opinião pública nacional estão Milton Gonçalves Filho, um caseiro de 48 anos de idade, e seu próprio filho, Leonardo Gonçalves Filho, de 21 anos. Juntos, pai e filho não apenas planejaram e executaram de maneira bárbara Sabrina de Almeida Lima, de 27 anos, e as crianças Eduardo Felipe, de 10 anos, Víctor Hugo, de 8 anos, e Luís Henrique, de apenas 6 anos, como também trouxeram à tona o fantasma de uma quinta vítima, assassinada pelo mesmo双o no ano anterior sob circunstâncias assustadoramente idênticas.
A calmaria característica da zona rural de Jaboticabal, município paulista de médio porte, começou a ser desfeita na noite de quinta-feira, 18 de dezembro de 2025. Sabrina de Almeida Lima residia em uma das casas destinadas aos funcionários de uma propriedade agrícola na região, onde seu companheiro, Milton, exercia as funções de caseiro e administrador de rotinas. No mesmo perímetro, convivia o jovem Leonardo. A rotina daquela quinta-feira parecia seguir o fluxo natural dos dias anteriores. No período da tarde, Sabrina havia se deslocado até a área urbana para visitar sua mãe, Joviniana, e sua avó, a quem levou algumas mangas colhidas na fazenda como um gesto rotineiro de carinho e proximidade familiar. Aqueles que cruzaram com a jovem naquela tarde descreveram-na como serena, sorridente e focada nos preparativos para as celebrações de fim de ano que se aproximavam. Nada, absolutamente nenhum detalhe em seu comportamento ou nas interações com os familiares, sugeria que aquela seria a última vez que ela seria vista com vida fora dos limites da fazenda.
O horror começou a se desenhar poucas horas após o retorno de Sabrina à propriedade rural. De acordo com as investigações conduzidas posteriormente pela Polícia Civil, uma forte discussão de caráter doméstico teve início na área externa da residência entre Milton e Sabrina. Os motivos banais do desentendimento logo foram sufocados por um surto de violência física desmedida. Em meio aos gritos e à tensão crescente, o jovem Leonardo tomou partido do pai de forma radical. Armado com um facão de uso agrícola, o rapaz de 21 anos desferiu os primeiros golpes contra a cabeça da madrasta. Sabrina caiu ao solo gravemente ferida, ensanguentada e incapaz de esboçar qualquer reação de defesa eficaz.
O cenário de selvageria que se seguiu no interior daquela residência rural atingiu níveis de perversidade dificilmente compreensíveis pela psicologia humana. O filho do meio de Sabrina, Víctor Hugo, de apenas 8 anos de idade, ao testemunhar a mãe caída e sendo brutalmente agredida na área externa, correu em sua direção tomado pelo desespero e pelo instinto puro de proteção filial. Chorando copiosamente e implorando para que as agressões contra a mãe cessassem, a criança de 8 anos tentou postar-se como um escudo humano sobre o corpo de Sabrina. Longe de despertar qualquer senso de compaixão ou freio moral nos agressores, o ato heróico do menino selou o seu destino de forma trágica. Milton, munido de uma marreta pesada utilizada nos trabalhos pesados da fazenda, desferiu um golpe violento contra a região craniana de Víctor Hugo, fazendo com que o menino desabasse sem vida ao lado da mãe.

A fúria homicida de Milton e Leonardo não encontrou barreiras na inocência das demais crianças. No interior da cozinha da residência, os outros dois irmãos, Eduardo Felipe, de 10 anos, o mais velho dos três, e o pequeno Luís Henrique, de apenas 6 anos, encontravam-se encurralados e paralisados pelo som dos gritos e pelo terror que emanava do quintal. Demonstrando uma frieza mecânica e assustadora, Milton adentrou o recinto, conteve os dois meninos segurando-os firmemente pelos braços e, de forma sequencial, utilizou a mesma marreta para golpear as cabeças de ambos. Em questão de poucos minutos, quatro vidas humanas haviam sido ceifadas dentro de uma propriedade que deveria servir de lar e refúgio. Os laudos técnicos emitidos posteriormente pela equipe médica e pericial da funerária e do Instituto Médico Legal (IML) confirmaram de maneira inequívoca a brutalidade do ataque: todas as três crianças sofreram traumatismo craniano grave de caráter imediato, e uma delas ainda ostentava ferimentos profundos provocados por arma branca na região facial, evidenciando o uso combinado do facão e da marreta durante a execução do massacre.
Consumados os homicídios, a dupla deu início a um meticuloso e gélido processo de ocultação dos cadáveres e eliminação de vestígios que pudessem incriminá-los. Utilizando rolos de sacos de silagem — um tipo de material espesso e impermeável amplamente utilizado no meio agrícola para a conservação de forragem, cuja textura se assemelha visualmente a folhas espessas de alumínio —, Milton e Leonardo envolveram cuidadosamente os corpos de Sabrina e das três crianças. A escolha do material visava conter o fluxo de fluidos biológicos e retardar a emanação de odores decorrentes do processo natural de decomposição, facilitando o transporte e dificultando a localização por parte de cães farejadores. Antes de deixar a fazenda, Milton dirigiu-se ao padrão central de eletricidade da propriedade e desligou a chave geral da energia, uma manobra calculada para interromper o funcionamento do sistema de monitoramento por câmeras de segurança e evitar que o veículo utilizado na desova dos corpos fosse registrado pelas lentes do circuito interno.
Os corpos foram acomodados em um automóvel cuja propriedade tornou-se um dos pontos centrais de investigação para a polícia. As checagens iniciais indicaram que o carro utilizado na noite do crime não pertencia formalmente nem a Milton e tampouco a Leonardo, levantando fortes suspeitas por parte das autoridades sobre a possibilidade de uma terceira pessoa ter fornecido apoio logístico ou material para a execução da desova. O destino final escolhido pelos criminosos foi uma área de mata fechada e vegetação densa, situada a aproximadamente cinco quilômetros de distância da sede da fazenda. Naquele local isolado, pai e filho trabalharam em conjunto para cavar duas covas rasas no solo. Em uma delas, foram depositados os corpos de Sabrina e de seu filho mais velho, Eduardo Felipe; na cova adjacente, foram colocados os restos mortais dos dois menores, Víctor Hugo e Luís Henrique. Após cobrirem as valas com terra, folhagem e galhos secos para camuflar as alterações no terreno, os dois retornaram para a residência e retomaram suas rotinas habituais como se nada de extraordinário tivesse ocorrido na propriedade naquela noite.
A farsa montada por Milton começou a ser operada junto aos familiares de Sabrina com o intuito de ganhar tempo e desviar o foco das atenções. O caseiro optou por aguardar até o sábado, 20 de dezembro — dois dias após o fatídico massacre —, para comunicar formalmente o suposto desaparecimento da companheira e das crianças à família materna. A justificativa apresentada por ele era uma narrativa meticulosamente construída para manchar a reputação de Sabrina e justificar sua ausência sem levantar suspeitas criminais imediatas. Milton alegou que, durante uma súbita queda de energia elétrica na região na noite de quinta-feira, Sabrina havia entrado em um severo surto decorrente de crises de abstinência química. Segundo a versão do caseiro, a jovem teria recolhido quantias em dinheiro e peças de roupa de forma caótica, pegado as três crianças pelos braços e abandonado a fazenda a pé na escuridão, com o objetivo de buscar substâncias ilícitas em pontos de venda de drogas na cidade.
No entanto, a teia de mentiras começou a ruir quase imediatamente devido à firmeza e ao conhecimento profundo que a família de Sabrina possuía sobre a sua rotina e seu processo de reabilitação. A mãe da jovem, Joviniana, contestou com veemência e indignação a versão apresentada pelo genro desde o primeiro instante em que tomou conhecimento do relato. Joviniana esclareceu às autoridades que, embora Sabrina tivesse enfrentado problemas com a dependência química no passado, a filha encontrava-se completamente limpa, sóbria e afastada de qualquer substância ilícita há mais de dez meses. O processo de recuperação era motivo de imenso orgulho para toda a família, e a própria Sabrina fazia questão de celebrar publicamente a conquista de cada mês de sobriedade ao lado de seus entes queridos. A ideia de que ela sofreria uma recaída tão violenta a ponto de arrastar três crianças pequenas para a zona urbana a pé e no meio da noite mostrava-se completamente inverossímil para todos que a conheciam.
Outro familiar cuja desconfiança foi crucial para o início das investigações foi o tio de Sabrina, Anderson Braz. Ele relatou aos investigadores que na própria sexta-feira, 19 de dezembro — dia seguinte aos assassinatos —, havia enviado mensagens de texto para o telefone celular de Milton. Na comunicação, Anderson solicitava que Sabrina comparecesse à residência da mãe para retirar medicamentos que haviam sido comprados especificamente para o tratamento de saúde das crianças. Embora o aplicativo indicasse que Milton havia visualizado a mensagem quase em tempo real, o caseiro optou por não emitir nenhuma resposta, mantendo um silêncio absoluto. Quando finalmente compareceu à casa dos familiares no sábado para anunciar o sumiço, Milton demonstrou uma postura que Anderson considerou extremamente suspeita e desprovida de sentido prático: o caseiro limitou-se a afirmar que Sabrina havia desaparecido da fazenda, sem sequer questionar os parentes se a jovem e os netos haviam procurado abrigo ou se encontravam na residência da própria mãe ou de outros tios.
Diante dos fortes indícios de que a narrativa do caseiro ocultava algo muito mais grave, a Polícia Civil foi formalmente acionada, desencadeando uma grande operação de busca e salvamento a partir do domingo, 21 de dezembro. O contingente mobilizado para a varredura da zona rural de Jaboticabal foi expressivo, incluindo equipes do Corpo de Bombeiros, viaturas da Polícia Militar, ambulâncias do SAMU e o suporte especializado do Grupamento de Ações Emergenciais e Desastres do Estado de São Paulo, que trouxe para o teatro de operações cães farejadores altamente treinados na localização de pessoas desaparecidas em áreas de difícil acesso. Durante as primeiras horas de buscas, o clima geral entre os voluntários e familiares ainda era de tênue esperança; muitos acreditavam na possibilidade de que Sabrina e os três meninos pudessem estar perdidos, desorientados ou feridos em algum quadrante da densa mata nativa que circunda a propriedade agrícola.
Paralelamente aos esforços físicos de busca no campo, o trabalho de inteligência e investigação cartorária liderado pelo Delegado Titular da Polícia Civil, Dr. Osvaldo José da Silva, começou a fechar o cerco em torno da figura de Milton Gonçalves Filho. O ponto de virada na linha de investigação ocorreu quando os peritos decidiram checar a veracidade técnica da alegação de Milton sobre a queda de energia que supostamente teria desativado as câmeras de segurança na noite de quinta-feira. Os investigadores realizaram entrevistas detalhadas com os proprietários e administradores das fazendas e sítios vizinhos, além de consultarem formalmente os registros de fornecimento da concessionária de energia elétrica responsável pela região. O resultado foi categórico: não houve qualquer interrupção, oscilação ou falta de energia elétrica naquela coordenada geográfica na data informada pelo suspeito. A constatação técnica de que Milton havia mentido deliberadamente sobre o apagão transformou o caseiro de mero comunicador de desaparecimento em principal suspeito de um crime de homicídio.
Diante do robustecimento das evidências de contradição, o Dr. Osvaldo José da Silva emitiu uma nova ordem de intimação para que Milton comparecesse à delegacia de polícia na terça-feira, 23 de dezembro, com o objetivo de prestar um depoimento definitivo sob a ótica dos novos fatos descobertos. Confrontado na sala de interrogatório pelos investigadores, que apresentaram os laudos técnicos sobre a energia elétrica e os furos cronológicos de sua versão, a resistência de Milton desmoronou. Sob intensa pressão psicológica e ciente de que as evidências materiais eram incontornáveis, o caseiro rompeu o silêncio e confessou a autoria dos crimes. Contudo, a magnitude de seu depoimento ultrapassou qualquer prognóstico inicial da equipe policial: Milton não apenas forneceu os detalhes sórdidos sobre como ele e o filho Leonardo haviam dizimado a família de Sabrina, como também revelou de forma espontânea que a dupla carregava nas costas a autoria de um quinto assassinato, cuja vítima era outra ex-companheira do caseiro, desaparecida há mais de um ano sem que a polícia tivesse pistas sobre o seu paradeiro.
A quinta vítima mencionada na estarrecedora confissão foi identificada como Jéssica Fernanda Rizo, que tinha 33 anos de idade no momento de seu desaparecimento, registrado em agosto de 2024. A história de vida de Jéssica já era marcada por dores profundas antes de cruzar o caminho de Milton. Meses antes de conhecer o caseiro, ela havia sofrido a perda trágica de sua filha de apenas 7 anos de idade, que faleceu em decorrência de um engasgamento fatal no município vizinho de Barrinha. O trauma psicológico decorrente da perda mergulhou Jéssica em um período de severa vulnerabilidade emocional, culminando no envolvimento com substâncias ilícitas e, por consequência, na perda judicial da guarda de seus outros dois filhos menores, que contavam com 5 e 7 anos. Apesar do quadro de dependência e das dificuldades estruturais, os familiares de Jéssica destacaram que ela jamais cortou os laços de afeto com as crianças; de forma regular e persistente, ela visitava o filho mais novo, levando mantimentos, roupas e demonstrando uma preocupação constante com o bem-estar dos menores.
Jéssica iniciou um relacionamento afetivo com Milton que durou apenas três meses, passando a residir com ele na mesma fazenda em Jaboticabal. Em agosto de 2024, de forma abrupta, ela sumiu sem deixar rastros. Na ocasião, Milton utilizou com precisão cirúrgica a mesma estratégia discursiva que mais tarde aplicaria no caso de Sabrina: procurou os familiares de Jéssica e afirmou que, após uma ríspida discussão motivada por ciúmes e dinheiro, a mulher teria exigido valores em espécie sob a alegação de que estava sendo ameaçada de morte por traficantes de drogas a quem devia favores, abandonando a propriedade para nunca mais retornar. Embora a família de Jéssica tenha aceitado a explicação em um primeiro momento devido ao histórico de vulnerabilidade da jovem, uma semente de desconfiança permaneceu plantada na mente de seus parentes, que sabiam que ela jamais abandonaria o estado de São Paulo sem se despedir ou sem continuar prestando assistência aos filhos que tanto amava.
A farsa que envolveu a morte de Jéssica Fernanda Rizo permaneceu sepultada por mais de dezesseis meses, até o momento em que o caso do desaparecimento de Sabrina de Almeida Lima ganhou as manchetes dos telejornais locais em dezembro de 2025. Ao assistir às reportagens na televisão e ouvir a descrição dos fatos feita por Milton — que repetia textualmente os argumentos sobre surtos por abstinência, fugas na calada da noite e supostas quedas de energia elétrica para justificar o não funcionamento das câmeras —, a sobrinha de Jéssica, Evelyn, experimentou uma imediata e avassaladora sensação de conexão entre os dois casos. Percebendo que o modus operandi e as desculpas utilizadas pelo caseiro eram rigorosamente idênticos em um intervalo de pouco mais de um ano, Evelyn deslocou-se imediatamente até a delegacia de polícia de Jaboticabal para relatar suas suspeitas ao delegado responsável. A intuição da jovem provou-se correta: confrontados com o nome de Jéssica durante o interrogatório de terça-feira, Milton e Leonardo admitiram que também haviam tirado a vida da mulher de 33 anos utilizando o mesmo método brutal de golpes de marreta na cabeça, ocultando o cadáver nas imediações de um córrego que corta os fundos da fazenda.
Um dos detalhes mais perturbadores e psicologicamente aberrantes extraídos dos depoimentos dos criminosos diz respeito à natureza da dinâmica de poder e recompensa estabelecida entre pai e filho. Milton declarou formalmente aos investigadores que, logo após a execução do assassinato de Jéssica Fernanda Rizo em 2024 — ocasião na qual o jovem Leonardo, então com 20 anos, prestou auxílio direto para subjugar a vítima e ocultar o corpo —, ele decidiu recompensar a lealdade e a cumplicidade do filho com um prêmio material de valor significativo para os padrões da família: Milton comprou e presenteou Leonardo com um automóvel usado como forma de agradecimento e compensação pelo auxílio prestado no cometimento do feminicídio. A revelação de que um pai utilizou um bem de consumo como moeda de troca e incentivo para transformar o próprio filho em um assassino cúmplice chocou até mesmo os policiais mais veteranos, evidenciando uma total inversão de valores morais e uma ausência absoluta de qualquer freio ético no ambiente familiar da dupla.
A frieza demonstrada por Milton e Leonardo durante a reconstituição verbal dos crimes e a indicação dos locais de desova dos corpos causou profunda perplexidade na equipe policial e nas autoridades judiciárias. O Dr. Osvaldo José da Silva fez questão de ressaltar esse aspecto em suas declarações formais à imprensa regional. Segundo o delegado, em nenhum momento do interrogatório — seja ao descreverem as pauladas desferidas contra a jovem mãe ou ao detalharem os golpes de marreta que esmagaram os crânios das três crianças que choravam e imploravam pela vida —, pai e filho demonstraram qualquer sinal mínimo de remorso, hesitação, quebra na voz ou arrependimento. Ambos expressavam-se com uma firmeza assustadora, segurança sintática e um tom monocórdico, como se estivessem relatando uma atividade banal da rotina agrícola da fazenda ou descrevendo o manejo técnico de animais de corte. A total ausência de empatia ou apreço pela dignidade do ser humano chocou os investigadores, que classificaram a dupla como detentora de um perfil psicopático de alta periculosidade social.
O aprofundamento das buscas técnicas na propriedade rural foi agendado para a sexta-feira, 26 de dezembro, com o objetivo principal de localizar os restos mortais de Jéssica Fernanda Rizo no ponto indicado pelo caseiro, próximo ao córrego da fazenda. Os trabalhos iniciais de varredura manual e uso de cães farejadores na área específica não resultaram na localização imediata da cova, devido ao longo tempo transcorrido desde o crime e às alterações geográficas provocadas pelas chuvas e pelo crescimento da vegetação ao longo de mais de um ano. Diante desse cenário complexo, o comando das investigações determinou a suspensão temporária dos trabalhos de campo para traçar uma nova estratégia operacional, que incluiu a requisição de maquinário pesado, como retroescavadeiras e equipamentos de movimentação de terra. A expectativa dos peritos do Instituto de Criminalística é de que, devido ao avançado estado de decomposição decorrente do período de dezesseis meses sob o solo úmido da beira do córrego, as equipes encontrem apenas estruturas ósseas e fragmentos de roupas que precisarão ser submetidos a exames minuciosos de DNA para a confirmação antropológica e legal da identidade de Jéssica.
A análise do material digital e das comunicações telefônicas dos suspeitos trouxe à tona novos elementos que ajudaram a jogar luz sobre os bastidores psicológicos que antecederam o massacre de 18 de dezembro. A imprensa de São Paulo teve acesso exclusivo a uma série de mensagens de áudio gravadas e enviadas por Leonardo Gonçalves Filho a um amigo pessoal através de um aplicativo de mensagens na própria noite em que os crimes foram cometidos. Os arquivos de áudio revelam um poço profundo de ressentimento, rancor acumulado e ódio direcionado à figura de Sabrina e de seus filhos pequenos. Nas gravações, efetuadas em dois horários distintos, o jovem de 21 anos utiliza termos chulos e ofensivos para se referir à madrasta, classificando-a como uma “praga” e acusando-a de ter “estragado o seu dia” devido a discussões rotineiras ocorridas no ambiente doméstico.
No primeiro bloco de áudios, registrado por volta das 19h00 daquela quinta-feira, Leonardo expressa sua indignação ao amigo, queixando-se de que Sabrina teria consumido bebidas alcoólicas e iniciado uma série de críticas verbais direcionadas a ele, à sua irmã e ao seu próprio pai. O jovem demonstra irritação pelo fato de Sabrina exaltar as qualidades de seus próprios filhos em detrimento dos filhos de Milton, gerando um ambiente de forte atrito. Leonardo chega a afirmar textualmente no áudio que estava “tremendo de tanto nervoso” e questionava a decisão de seu pai de continuar convivendo e tolerando a presença da mulher na fazenda. O detalhe mais estarrecedor e cronologicamente perturbador surge no segundo bloco de comunicações, registrado às 19h58 da mesma noite. Nesse momento, conforme a linha do tempo estabelecida pela perícia técnica, os assassinatos de Sabrina e das três crianças já haviam sido consumados no quintal e na cozinha da residência. Na mensagem de texto enviada nesse horário, Leonardo adota um tom premonitório e frio, afirmando ao amigo que, muito provavelmente, o colega precisaria “levar cigarros e cobertas para ele na cadeia” em um futuro muito próximo, demonstrando que o jovem tinha plena consciência da gravidade do ato que acabara de praticar e do desfecho legal que o aguardava.