A realidade das periferias urbanas brasileiras muitas vezes caminha paralelamente a um sistema de leis invisível, mas rigidamente imposto por organizações criminosas. Nas regiões metropolitanas, onde o poder do Estado disputa espaço com o domínio de facções, o cotidiano de jovens e adolescentes é frequentemente moldado por influências perigosas. No submundo do crime organizado, existem diretrizes informais que os integrantes consideram invioláveis. Entre elas, o ato de cobiçar a mulher de outro membro, a troca de facção ou, a mais grave de todas, a delação — popularmente conhecida como “caguetagem” ou ser um “X9”. A quebra dessa última regra costuma ser punida com a morte, aplicada por meio de estruturas paralelas conhecidas como tribunais do crime ou tabuleiros. Foi exatamente nessa engrenagem de violência e paranoia que se viu presa Caylane Cristina Pinto Cavalcante, uma adolescente de apenas 14 anos, cuja história na cidade de Marituba, no Pará, tornou-se o retrato de uma juventude tragada pela criminalidade e pela brutalidade das leis das ruas.
Marituba é um município geograficamente colado a Ananindeua que, por sua vez, faz limite com Belém, a capital do estado. Toda essa região metropolitana sofre, há anos, com a forte presença e a expansão territorial da facção Comando Vermelho (CV). Nesse cenário, o tribunal do crime estabelecido pela organização ganhou contornos de extrema crueldade, onde os julgamentos ocorrem à revelia das leis constitucionais e as sentenças são executadas de forma sumária. Quando alguém é acusado de um ato visto como alta traição pela cúpula, como repassar informações estratégicas para as forças policiais, a possibilidade de absolvição é praticamente nula. A dinâmica desses julgamentos ilegais geralmente envolve duas ou três pessoas conduzindo o interrogatório em locais isolados, como matagais ou áreas de mangue, enquanto lideranças da facção acompanham o processo e decretam o veredito à distância, por meio de chamadas de vídeo ou mensagens de celular.
Caylane Cristina era uma jovem de 14 anos que, embora devesse estar focada exclusivamente nos estudos e no desenvolvimento de sua adolescência, já transitava ativamente pelos círculos de influência do crime organizado em seu bairro. Nas redes sociais, a adolescente adotava uma postura que buscava demonstrar uma maturidade e uma vivência muito superiores à sua idade real, ostentando amizades com indivíduos diretamente ligados ao Comando Vermelho. Entre os membros da facção, ela passou a ser conhecida pelo apelido de “Capetinha”, refletindo sua proximidade e simpatia pelas atividades do grupo, embora não fizesse parte da estrutura hierárquica formal da organização. Ela estava constantemente acompanhada por uma de suas melhores amigas, uma jovem chamada Liliane. As duas eram inseparáveis, vistas juntas em festas, esquinas e pelas ruas de Marituba, compartilhando uma rotina que misturava a ingenuidade da juventude com o perigo iminente do submundo.
A virada dramática na vida de Caylane começou quando uma operação policial resultou na prisão de importantes membros locais do Comando Vermelho em Marituba. A cúpula da facção, desconfiada de que as prisões haviam sido motivadas por uma delação interna, iniciou uma investigação informal para descobrir quem teria repassado a localização e as atividades dos “irmãos” para a polícia. Em um ambiente dominado pela desconfiança mútua, os olhares do grupo criminoso se voltaram para Caylane e Liliane, devido ao livre trânsito que as duas tinham entre os integrantes e ao conhecimento de detalhes da rotina da boca de fumo. A acusação formalizada internamente foi de “dobra” — termo utilizado no jargão criminal da região para designar o ato de traição ou dupla conversa, onde o indivíduo atua como informante das forças de segurança enquanto finge lealdade à facção. Sob essa grave suspeita, uma armadilha foi montada para capturar as duas jovens e submetê-las ao tabuleiro do crime.

O relógio marcou o último registro de vida de Caylane e Liliane no dia 9 de outubro de 2020, uma sexta-feira. Elas foram vistas caminhando na esquina de uma rua movimentada no bairro Almir Gabriel, em Marituba. Naquele momento, as duas foram abordadas e levadas à força por integrantes da facção para uma área de manguezal de difícil acesso, um local escolhido estrategicamente por seu isolamento para servir como a corte do tribunal do crime. Para a condução do julgamento e posterior cumprimento da ordem, foram escalados dois criminosos conhecidos por sua frieza e atuação violenta na região: Marcos, apelidado de “Belenzão”, e Danilo. Ambos ocupavam posições operacionais de escalão inferior na hierarquia do Comando Vermelho e funcionavam como executores das ordens emanadas pelas lideranças que controlavam o tráfico de dentro dos presídios ou de locais distantes.
Durante o interrogatório no mangue, os executores utilizaram telefones celulares para filmar o processo, uma prática comum entre as facções para servir como prestação de contas às lideranças e como mecanismo de intimidação e propaganda de terror nas redes sociais. Dois vídeos específicos circularam amplamente na internet na época, documentando o horror daquela tarde. No primeiro vídeo, focado na fase de esclarecimento, Caylane aparece visivelmente assustada, tentando usar o seu direito de resposta para salvar a própria vida. Diante das perguntas agressivas dos criminosos, a adolescente nega ter repassado informações aos policiais e tenta desviar a acusação de si, apontando uma terceira jovem como a verdadeira responsável pela delação. Com a voz trêmula de medo, ela afirma: “Foi assim que a Juliana jogava com ela, ela dava os caras entenderam? Mas em nenhum momento saía da minha boca que os caras vendiam em tal canto, que chegava droga para os caras em tal canto, entendeu? Em nenhum momento saiu da minha boca para mim falar com os policiais. Mas sim, ela jogava com eles, ela dava os caras sim. Foi por isso que a maioria saiu perdendo. No dia também que eu esqueci de falar da Katheln, que os policiais pegaram ela com um carro prata, foi a Juliana que deu ela, entendeu? Mas é assim, eu só não falava porque eu tinha medo, entendeu? Tinha muito medo”.
Apesar dos apelos e das tentativas de Caylane de transferir a culpa para outra pessoa, o destino da adolescente já havia sido selado antes mesmo do início da gravação. A cúpula da facção já havia analisado mensagens interceptadas e decidido que a morte era a única punição aceitável para o caso, visando dar um exemplo claro para o restante da comunidade. Mensagens recuperadas posteriormente pelas investigações policiais demonstraram o nível de fúria e determinação das lideranças da facção. Em uma das conversas escritas, os criminosos expressavam pânico e raiva: “Não pode deixar escapar. Já falaram que vão invadir aqui em casa, mano. Qual é a parada? Os vermes estão até com o nosso número agora. Quem deu para eles? Mete o caralho nessa Capetinha aí, nunca mais vai compactuar com safadeza de ninguém. É sal! Ficha isso mesmo, tem que dar o val”. A expressão “é sal” e “dar o val” são gírias do crime que significam, respectivamente, decretar a morte e executar a sentença.
O segundo vídeo registrado no manguezal capturou o veredito final e os últimos segundos de vida de Caylane Cavalcante. A gravação exibe os executores humilhando a jovem e exigindo que ela repetisse frases de submissão antes da execução. Em meio ao matagal, os sons de agressões verbais são seguidos imediatamente pela sequência de disparos de arma de fogo. Foram efetuados quatro tiros contra a adolescente à queima-roupa. As vozes dos algozes na gravação revelam a barbárie do ato, com os criminosos disputando quem efetuaria os disparos: “Fala tu, safada! Dá esse vídeo aqui, fala safada, fala… Deixa eu dar o meu, mano, para aí. Deixa eu dar o meu aqui, filho. Tá bom, tá bom, calma mano. Deixa eu dar o meu aqui mano, aqui ó… Safada, safado aí ó, dá, dá, dá-lhe um. Só um, só um, isso! O meu mano, bota o meu mano… Tá bom, dá, dá… Dá-lhe um, dá-lhe um, dá isso aí mano. Sal na safada aí ó, verme aí safado aí ó meus irmãos. Não vai aguentar ninguém, essa aí não vai aguentar mais ninguém aí meus irmãos”. A adolescente caiu sem vida no chão do mangue, e seu corpo foi enterrado ali mesmo, em uma cova rasa cavada às pressas pelos criminosos para ocultar o cadáver.
Após o dia 9 de outubro, o sumiço de Caylane e Liliane mobilizou familiares que, aflitos, iniciaram buscas pela cidade e registraram o boletim de ocorrência por desaparecimento. O mistério começou a se dissipar à medida que os vídeos da execução começaram a ser compartilhados e viralizaram em grupos de mensagens locais, confirmando o pior desfecho possível. A brutalidade das imagens chocou os moradores de Marituba e chamou a atenção das divisões de homicídios da Polícia Civil. Sabendo que o crime havia ocorrido em uma área de mata, equipes policiais passaram a realizar incursões diárias no perímetro. Finalmente, no dia 15 de outubro de 2020, seis dias após o assassinato, o corpo de Caylane foi localizado em avançado estado de decomposição dentro de um matagal denso na região próxima à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Marituba, localizada às margens da rodovia BR-316. O local era de difícil acesso, o que justificou a demora das equipes de busca em encontrar a cova. Quanto à amiga Liliane, que estava com Caylane no momento da abordagem na esquina do bairro Almir Gabriel, o destino permanece uma incógnita. Não foram encontradas pistas se ela também foi executada e enterrada em outro ponto isolado ou se conseguiu fugir e permanece escondida sob forte esquema de proteção e medo de represálias.
A repercussão do vídeo e a localização do corpo de Caylane colocaram os executores “Belenzão” e Danilo no topo da lista de procurados da segurança pública do Pará. A polícia civil e o serviço de inteligência militar passaram a monitorar os passos da dupla, sabendo que eles continuavam homiziados nas áreas periféricas da região metropolitana. A caçada humana chegou ao fim na madrugada do dia 20 de outubro de 2020, por volta das 3 horas da manhã. Uma guarnição do Batalhão de Operações Especiais da 21ª Companhia Independente da Polícia Militar interceptou os dois criminosos na região da Alça Viária, uma importante rodovia de ligação no estado. Ao receberem ordem de parada, Marcos e Danilo, fiéis à postura de enfrentamento da facção, optaram por reagir e abriram fogo contra os policiais civis e militares utilizando pistolas e revólveres. O confronto que se seguiu foi intenso e resultou no baleamento de ambos os suspeitos. Eles foram colocados na caçamba da viatura e socorridos até a UPA de Marituba, mas as investigações e os relatórios médicos indicaram que os dois já chegaram ao balcão de atendimento sem sinais vitais, tendo os óbitos confirmados de imediato. Fotos da intervenção policial circularam na imprensa, encerrando a linha de vida dos dois algozes de Caylane.
Para quem imaginava que a morte da adolescente e o subsequente óbito de seus executores diretos colocariam um ponto final na história, as engrenagens de violência movidas pela paranoia do Comando Vermelho provaram o contrário. No depoimento gravado que Caylane deu no manguezal para tentar se defender, ela mencionou repetidamente o nome de outra jovem, a quem chamou de “Juliana”. As investigações criminais posteriores descobriram que o nome real da pessoa mencionada era Joyce Roberta Santana de Oliveira, uma jovem de 18 anos de idade. Diferentemente de Caylane, que era apenas uma simpatizante da periferia, Joyce possuía uma participação muito mais ativa e consolidada na estrutura operacional do tráfico de drogas em Marituba. Ela residia e atuava no bairro Dom Aristides, mais especificamente na Rua Padre De Boar. Devido às declarações gravadas de Caylane que circularam nas redes e às suspeitas que já pairavam sobre ela dentro da própria facção por ser usuária de entorpecentes e ter um comportamento considerado instável pelas lideranças, Joyce foi a próxima a ser apontada como traidora e sentenciada ao tribunal do crime.
Em uma repetição quase idêntica do modus operandi, Joyce Roberta desapareceu de sua residência no dia 8 de dezembro de 2020, quase dois meses após a morte de sua amiga. A engrenagem do submundo agiu de forma rápida. O corpo de Joyce foi descoberto logo no dia seguinte, 9 de dezembro, jogado em uma área erma de Marituba. A localização do cadáver foi possível graças a uma denúncia anônima feita ao Centro de Operações, que a polícia suspeita ter partido dos próprios executores do crime como forma de sinalizar que a “limpeza” interna da facção havia sido concluída. No bairro onde Joyce morava, imperou a lei do silêncio; vizinhos e testemunhas se recusaram a fornecer detalhes sobre quem teria abordado a jovem ou sobre a movimentação de veículos na noite do desaparecimento, temendo sofrer retaliações violentas por parte do crime organizado que controla o território.
O desfecho do caso de Caylane Cristina e a subsequente cadeia de mortes que se arrastou por meses em Marituba trazem à tona uma reflexão profunda e dolorosa sobre o impacto do narcotráfico na vida de adolescentes nas periferias brasileiras. Uma sucessão de eventos iniciada com a prisão de traficantes gerou uma onda de paranoia digital e física que resultou no assassinato brutal de uma menor de 14 anos, na morte de seus dois executores em confronto com as forças do Estado, no desaparecimento misterioso de uma testemunha e na execução de outra jovem de 18 anos devido a acusações mútuas de delação. Especialistas em segurança pública apontam que a facilidade com que o crime organizado coopta e descarta vidas jovens evidencia a urgência de intervenções estruturais nas comunidades, oferecendo alternativas de educação, esporte e cultura para evitar que o status ilusório das facções continue sendo um atrativo fatal. Se estivesse viva, Caylane Cristina estaria completando 19 anos de idade, mas sua história foi precocemente interrompida, transformando seu nome em mais um número frio nas estatísticas de homicídios decorrentes da guerra invisível que dita as regras nas sombras das grandes cidades.