Posted in

Uma falsa festa de boas-vindas e um pedido de resgate forjado foram as armas usadas por Uê para dizimar seus rivais e assumir o controle absoluto do tráfico nos anos 90. Pioneiro nas conexões internacionais com o Paraguai, ele acumulou aviões e fortunas, mas o rastro de traições deixou inimigos poderosos como Fernandinho Beiramar em seu encalço. O acerto de contas definitivo transformou o presídio de Bangu 1 em um cenário de horror. Confira a crônica detalhada desse império erguido sobre o sangue e a deslealdade clicando no link nos comentários.

A Gênese do Homem Mais Odiado do Submundo Carioca

A crônica policial da cidade do Rio de Janeiro é repleta de personagens cujas trajetórias se misturam com a própria evolução das estruturas do narcotráfico e das facções criminosas. No entanto, poucos nomes evocam um sentimento tão profundo de aversão e ressentimento no submundo quanto o de Ernaldo Pinto de Medeiros, amplamente conhecido pela alcunha de “Uê”. Personagem central da transição do crime organizado fluminense para uma era marcada pelo pragmatismo comercial, pela ausência de códigos éticos e pela violência hiperbólica, Uê transformou-se no arquétipo do traidor dentro da cultura periférica e no homem cuja ambição desmedida redesenhou o mapa das facções cariocas durante a década de 1990.

A formação da personalidade criminosa de Ernaldo teve início ainda na infância, no interior de uma comunidade carente da zona norte do Rio de Janeiro. Ao contrário de outras lideranças que ingressaram no crime por falta crônica de oportunidades, a introdução de Uê no universo das drogas deu-se por meio de uma perigosa simbiose familiar. Seu pai, embora não atuasse diretamente como um traficante de linha de frente, mantinha estreitas relações de compadrio e amizade com os barões que controlavam o morro. O patriarca desempenhava a função de “guarda-roupa” — jargão utilizado para designar indivíduos de fachada limpa que ocultavam armamentos e carregamentos de entorpecentes em suas residências para evitar as buscas policiais.

Essa convivência precoce com fuzis, pistolas e fardos de cocaína moldou o imaginário do jovem Ernaldo. O ambiente doméstico, saturado pela influência do crime local, funcionou como uma escola preparatória. Ainda na adolescência, Uê abandonou os bancos escolares, registrando elevados índices de evasão para atuar na função de “olheiro” ou “fogueteiro”, monitorando os acessos da comunidade e alertando os gerentes sobre a aproximação de viaturas da Polícia Militar. A desenvoltura e a frieza demonstradas no cumprimento das tarefas garantiram-lhe uma ascensão meteórica. Em pouco tempo, ao lado de seu irmão, Ernaldo progrediu para a “contenção”, integrando o braço armado encarregado da segurança física dos pontos de venda de drogas, conhecidos popularmente como bocas de fumo.

A grande oportunidade de assumir o protagonismo criminoso surgiu com a morte de seu pai e a subsequente prisão do chefe da comunidade, que vinha a ser o antigo amigo e protetor da família. Reconhecido pela coragem física e pela ousadia demonstrada nos tiroteios diários contra forças policiais e quadrilhas rivais, Uê foi aclamado pelas bases como o novo líder do morro. Contudo, foi nesse momento que sua verdadeira natureza, desprovida de qualquer senso de gratidão ou lealdade, revelou-se. Quando o antigo chefe obteve a liberdade e retornou à comunidade esperando retomar seu posto de comando, Ernaldo fingiu aceitar a transição. Ele organizou um fausto churrasco de boas-vindas na favela, uma celebração aparente que ocultava uma armadilha meticulosa. Durante o evento, Uê e seus comparsas executaram o antigo mentor e todos os seus homens de confiança, selando o controle da comunidade por meio do terror e da eliminação sumária daqueles que o haviam ajudado a dar os primeiros passos no crime.

A Chacina do Túnel: A Traição a Orlando Jogador

Consolidado como uma liderança emergente, Uê integrava as fileiras do Comando Vermelho (CV), a mais antiga e poderosa facção do estado, que operava sob um rígido estatuto de solidariedade mútua e respeito às lideranças veteranas. No entanto, o espírito expansionista e corporativo de Ernaldo colidia frontalmente com as diretrizes da organização. Sua ambição voltou-se para o Complexo do Alemão, um gigantesco conglomerado de comunidades na zona norte que abrigava pelo menos 18 pontos de venda de drogas altamente lucrativos, controlados com mão de ferro por Orlando da Conceição, o “Orlando Jogador”.

Orlando Jogador era uma lenda viva dentro do Comando Vermelho. No comando desde 1990, ele chefiava um exército particular de aproximadamente 100 homens armados, dos quais 20 compunham sua guarda pretoriana pessoal. Jogador era respeitado não apenas pelo poder de fogo, mas pela capacidade gerencial de garantir o refino e a distribuição de uma cocaína de elevado grau de pureza, o que conferia estabilidade econômica à facção. Uê era considerado um de seus principais pupilos e braço direito na operação das favelas periféricas, como o Morro do Adeus. Mas, para Ernaldo, a proximidade com o mentor era apenas uma ferramenta para mapear suas vulnerabilidades.

A disputa interna pelo controle dos lucros do Complexo do Alemão azedou as relações entre o mestre e o aprendiz, dando início a uma guerra fria nos bastidores do crime. Ciente de que não possuía força militar suficiente para destronar Orlando Jogador em um confronto aberto, Uê concebeu um plano fraudulento focado na quebra da boa-fé de seu protetor. Em meados de julho de 1994, Ernaldo forjou o próprio sequestro, enviando uma mensagem desesperada a Orlando Jogador afirmando que havia sido capturado por uma equipe de policiais civis corruptos e por agentes do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE). Uê solicitou a quantia de 60 mil dólares como resgate para evitar sua suposta execução.

Apesar das desavenças recentes, o senso de camaradagem e o afeto que nutria pelo pupilo fizeram com que Orlando Jogador mobilizasse seus contatos, reunindo o montante em dinheiro em tempo recorde. O encontro para a entrega do valor e a suposta libertação de Uê foi agendado para a noite de 13 de julho de 1994, no interior do Complexo do Alemão. Jogador deslocou-se até o ponto de encontro acompanhado de sua segurança pessoal. O que se seguiu foi um dos episódios mais sangrentos e traumáticos da crônica policial fluminense.

Ao adentrarem um túnel estratégico utilizado pela logística do tráfico na comunidade, Orlando Jogador e sua comitiva foram cercados por mais de 100 homens armados sob o comando direto de Uê. Sem qualquer oportunidade de reação ou rendição, o grupo foi submetido a um fuzilamento em massa. Orlando Jogador e outros 10 traficantes do Comando Vermelho foram sumariamente executados em um banho de sangue que durou vários minutos. A “Chacina do Alemão” não apenas eliminou a principal liderança da facção, mas rompeu em definitivo o pacto de não agressão interna que regia o crime carioca, inaugurando uma era de barbárie onde o lucro financeiro imediato suplantava qualquer juramento de irmandade.

O Nascimento da ADA e a Conexão Internacional Paraguai

A repercussão da morte de Orlando Jogador abalou as estruturas do crime e provocou a fúria dos fundadores do Comando Vermelho, que se encontravam confinados no sistema prisional. A cúpula da facção emitiu uma ordem de execução imediata e irrevogável contra Ernaldo Pinto de Medeiros, transformando-o no inimigo número um da organização e no alvo principal de uma caçada humana que se estendeu pelas favelas e asfalto do Rio de Janeiro. Expulso e jurado de morte, Uê compreendeu que precisava de uma estrutura corporativa robusta para sobreviver ao cerco do CV.

Ele buscou refúgio e aliança com o Terceiro Comando (TC), facção rival que controlava complexos importantes na zona norte e oeste. Unindo seu vasto capital financeiro ao poder militar de Celsinho da Vila Vintém, Uê articulou a fundação de uma nova e agressiva organização criminosa: os Amigos dos Amigos (ADA). A nova facção nasceu com uma mentalidade puramente empresarial, focada na otimização dos lucros, na redução de custos operacionais e no pragmatismo político, fragmentando o controle do tráfico carioca em um triunvirato de forças rivais.

Financiada pela fortuna acumulada por Uê, a ADA expandiu seus domínios com velocidade, fincando bandeira nos morros do Adeus, Juramento, Primavera, Para-Pedro e no Complexo do Caju, criando um corredor estratégico para o escoamento de ilícitos. Ernaldo diferenciou-se dos chefes de morro tradicionais da época por sua visão macroeconômica. Ele percebeu que o verdadeiro lucro do narcotráfico não residia na venda varejista nas bocas de fumo, mas no controle das rotas de importação de insumos. Uê tornou-se o primeiro traficante carioca a estabelecer canais diretos de comunicação e fornecimento com os grandes produtores e distribuidores de armas e drogas baseados no Paraguai e na Bolívia.

Essa rede internacional de contrabando elevou Uê ao posto de maior fornecedor de cocaína e armamento pesado do estado do Rio de Janeiro até o final da década de 1990. Seu poder econômico atingiu cifras astronômicas. Relatos detalhados pela deputada e ex-chefe da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE), Marina Magessi, apontam que Ernaldo mantinha uma frota exclusiva de três aviões bimotores operando na fronteira do Brasil com a Bolívia, encarregados do transporte de toneladas de pasta-base de cocaína e fuzis automáticos.

Além da eficiência na importação, Uê demonstrou pioneirismo na lavagem de dinheiro e na ocultação de ativos de origem ilícita. Ele estruturou uma complexa rede imobiliária na cidade de Novo Hamburgo, no estado do Rio Grande do Sul, adquirindo dezenas de apartamentos, salas comerciais e propriedades de alto padrão. Esses bens materiais eram registrados em nome de sua esposa, Mônica Constantino da Costa, que utilizava identidades e documentos falsificados para burlar o rastreamento do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) e da Polícia Federal, consolidando o traficante como um verdadeiro barão do crime organizado moderno.

A Captura em Fortaleza e o Confinamento em Bangu 1

O estilo de vida nabutesco e a necessidade de manter-se longe do alcance dos fuzis do Comando Vermelho forçaram Uê a estabelecer sua base residencial fora do território fluminense. Ele migrou para a região Nordeste, passando a viver sob identidade falsa em Fortaleza, capital do Ceará. Na nova cidade, Ernaldo portava-se como um empresário bem-sucedido do ramo da construção civil, habitando mansões e frequentando hotéis de luxo da orla cearense, de onde comandava as operações da ADA por meio de telefonemas criptografados e mensageiros.

No entanto, o cerco estatal contra as lideranças do narcotráfico intensificou-se em meados dos anos 90. Após meses de monitoramento técnico e cruzamento de dados de inteligência, uma força-tarefa composta por policiais civis da antiga Metropolitana do Rio de Janeiro localizou o paradeiro do criminoso. Na manhã de 5 de março de 1996, por volta das 10h, os agentes invadiram o hotel de luxo onde Uê encontrava-se hospedado em Fortaleza, efetuando sua prisão em flagrante sem que o traficante tivesse tempo de esboçar reação ou acionar sua escolta armada.

Recambiado para o Rio de Janeiro sob forte esquema de segurança aérea, Ernaldo Pinto de Medeiros foi submetido a uma série de julgamentos perante o Tribunal do Júri do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJRJ). A acusação, capitaneada pelo Ministério Público, imputou ao réu a autoria intelectual e material de 11 homicídios qualificados: as 10 vítimas da Chacina do Complexo do Alemão e um policial militar executado por sua quadrilha em um evento pretérito. Diante da robustez das provas testemunhais e técnicas, Uê recebeu uma condenação unificada de 209 anos de reclusão em regime fechado.

Para o cumprimento da reprimenda, o megatraficante foi transferido para a Penitenciária de Segurança Máxima Alfredo Tranjan, conhecida historicamente como Bangu 1, localizada no Complexo Penitenciário de Gericinó, na zona oeste do Rio. A arquitetura de Bangu 1 havia sido projetada justamente para isolar os líderes das facções, distribuindo os detentos em alas separadas de acordo com suas afinidades criminosas. No interior do presídio, Uê uniu-se a outros dissidentes e fundadores de facções rivais ao Comando Vermelho, como José Carlos dos Reis Encantado, o “Escadinha”, e o próprio Celsinho da Vila Vintém, buscando consolidar o poder da ADA mesmo atrás das grades e coordenar a resistência contra seus antigos aliados.