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A pacata cidade de Três Lagoas, no Mato Grosso do Sul, foi estraçalhada pela notícia de uma execução sumária com 40 facadas às margens do Rio Sucuriú. Uma jovem mãe de 29 anos, que cumpria prisão domiciliar, foi arrancada de casa por uma facção criminosa diante dos olhos impotentes de sua própria mãe. O que parecia ser mais uma disputa banal por território esconde, na verdade, a descoberta de um crime hediondo que revoltou até mesmo os criminosos mais cruéis do estado. Conheça os bastidores assustadores dessa investigação no link dos comentários.

A Ilusão da Calmaria no Interior Sul-Mato-Grossense

O município de Três Lagoas, situado no leste do estado de Mato Grosso do Sul, na exata divisa com o estado de São Paulo, é historicamente conhecido por seu forte polo industrial, crescimento econômico e por uma rotina comunitária típica das cidades do interior. Cercada por rios e marcada por uma calmaria aparente, a localidade raramente figurava nas páginas da crônica policial nacional por eventos de extrema violência ou execuções orquestradas por grandes facções. No entanto, o isolamento geográfico e as fronteiras invisíveis do crime organizado transformaram a cidade no palco de um dos episódios mais complexos, chocantes e eivados de reviravoltas da história da segurança pública do estado, cuja elucidação expôs a existência de uma rede de perversidade oculta e a aplicação de uma justiça paralela e implacável.

No centro desse turbilhão estava Érica Rodrigues Ribeiro, uma jovem de 29 anos de idade, mãe de um garoto. Perante a sociedade e no convívio com os moradores de uma região mais isolada da periferia de Três Lagoas, Érica mantinha uma postura rigorosamente discreta. Sua presença nas plataformas digitais era contida; ela administrava três perfis distintos na rede social Facebook, mas limitava suas postagens a fotografias comuns de seu cotidiano e registros afetivos ao lado de seu filho menor. Para qualquer observador casual ou vizinho de parede, Érica era uma figura comum que passaria facilmente despercebida, uma mulher que buscava viver longe de holofotes ou conflitos públicos.

Contudo, os arquivos do Poder Judiciário do Estado de Mato Grosso do Sul revelavam que a discrição de Érica camuflava um histórico recente de envolvimento com o submundo da criminalidade. Em 2018, a jovem havia se envolvido em um grave acidente automobilístico que chamou a atenção das autoridades e, em um desdobramento subsequente, restou presa em flagrante por envolvimento direto com o tráfico de entorpecentes e comércio ilegal de substâncias ilícitas.

Seu núcleo familiar mais íntimo também se encontrava imerso nessa dinâmica: seu marido cumpria pena em regime fechado em um estabelecimento prisional do estado pelo mesmo crime de tráfico de drogas. Por ser mãe de um filho pequeno e preencher requisitos humanitários previstos no ordenamento jurídico brasileiro, Érica conseguiu obter uma liminar de progressão de regime, garantindo o direito de cumprir sua pena privativa de liberdade em regime de prisão domiciliar. Foi justamente sob a proteção das paredes de seu lar, enquanto deveria estar em processo de ressocialização, que a jovem deu início à prática de uma conduta perversa e subterrânea que selaria seu destino final de forma trágica.

A Prática Oculta e a Produção de Arquivos Visuais Macabros

Beneficiando-se do isolamento imposto pelo regime de prisão domiciliar e da total ausência de vigilância estatal contínua, Érica Rodrigues Ribeiro passou a cometer abusos sistemáticos contra uma criança do sexo feminino. A vítima não pertencia ao seu núcleo familiar imediato e não possuía qualquer grau de parentesco com a agressora; tratava-se de uma menina da comunidade, cuja mãe mantinha uma relação de confiança com Érica. Os detalhes sobre como a menor ficava sob a guarda da indiciada permanecem sob segredo de justiça: investigações preliminares apontavam para a possibilidade de Érica atuar como babá informal ou de a menina frequentar a residência sob o pretexto de brincar com o filho menor da dona da casa.

A perversidade da conduta de Érica transcendia o abuso físico individual. Adotando um comportamento que configurava o perfil de uma criminosa em ambiente digital privado (off-line), a jovem utilizava a câmera de seu aparelho celular para filmar, fotografar e catalogar em alta definição cada uma das agressões perpetradas contra a menor de idade. Esse acervo de arquivos visuais de forte teor de horror era produzido com uma finalidade específica e perturbadora: servir como material de exibição e entretenimento durante os dias de visita íntima e social ao seu marido no complexo penitenciário.

Durante os procedimentos de visitação na cadeia, Érica burlava a segurança e exibia as gravações das agressões ao companheiro trancafiado. Ambos compartilhavam o consumo daquele material abusivo, transformando o sofrimento de uma criança em um elo de conexão entre o casal do tráfico. Essa rotina de abusos e produções de mídias digitais estendeu-se de forma oculta por um período contínuo de aproximadamente um ano, sem que a mãe biológica da vítima ou os moradores do bairro suspeitassem que, por trás da fachada de mãe responsável e discreta, Érica operava um dos crimes mais repudiados pela consciência humana. O castelo de cartas da impunidade ruiu no momento em que as gravações vazaram das telas dos celulares e atingiram os olhos de terceiros no ecossistema do crime organizado.

O Comando Feminino e a Figura da ‘Viúva Negra’

Para compreender a velocidade e a natureza da reação que se seguiu à descoberta dos crimes de Érica, faz-se necessário contextualizar o funcionamento interno dos tribunais do crime coordenados pelas grandes facções que operam no território sul-mato-grossense. No código de conduta marginal que governa esses grupos, crimes envolvendo abusos contra crianças, estupros e condutas classificadas como “jack” (gíria do submundo para estupradores) recebem a punição de morte sumária imediata, sendo considerados intoleráveis até mesmo pelos criminosos mais violentos.

Adicionalmente, no modus operandi dessas facções, quando o alvo de um julgamento sumário ou “tabuleiro” é uma mulher, as diretrizes internas determinam que a condução, o interrogatório e a execução material do veredito sejam executados majoritariamente por núcleos compostos por mulheres faccionadas, uma dinâmica tática de gênero observada em outros casos célebres do tribunal do crime no país.

A liderança do julgamento de Érica Rodrigues foi assumida de forma direta por uma das figuras mais temidas e influentes do crime organizado em Mato Grosso do Sul: Delice Aparecida Queiróz Honorato, de 38 anos de idade, conhecida no submundo pela alcunha de “Viúva Negra”. Delice ocupava o cargo de alta relevância técnica denominado “Sintonia” dentro da hierarquia da facção — uma posição equivalente à de uma gerente regional encarregada de coordenar as atividades econômicas do tráfico, gerenciar o fluxo de caixa, autorizar execuções e manter a disciplina interna nas cidades do interior do estado através de aplicativos de mensagens criptografadas. A “Viúva Negra” comandava um exército de soldados com mão de ferro, e a denúncia sobre as ações de Érica chegou diretamente à sua mesa de comando.

O Sequestro Diante dos Olhos da Mãe e o Telefone de Despedida

A engrenagem do Tribunal do Crime foi ativada na noite de 2 de setembro de 2019, por volta das 20 horas. Érica encontrava-se em sua residência na companhia de sua mãe, uma funcionária de longa data da empresa funerária municipal de Três Lagoas. Duas mulheres vinculadas à facção da “Viúva Negra” aproximaram-se do portão do imóvel e chamaram por Érica de forma amigável. A mãe da jovem saiu para verificar a presença das visitantes e, demonstrando a hospitalidade típica do interior, atendeu ao pedido de uma das mulheres que solicitou um copo de água filtrada.

No instante em que a mãe adentrou a cozinha para buscar o líquido, as duas criminosas invadiram o perímetro residencial e agarraram Érica Rodrigues à força. Ao ouvir os gritos de socorro e o desespero da filha, a mãe correu em direção ao quintal e tentou intervir fisicamente para impedir o arrebatamento. No entanto, a reação de defesa foi imediatamente neutralizada por um homem armado que desembarcou de um veículo modelo Chevrolet Vectra de cor branca que dava apoio tático à ação na calçada. Sob severas ameaças de morte direcionadas à mãe, o grupo arrastou Érica para o interior do automóvel e fugiu em alta velocidade em direção a uma área rural isolada da cidade.

Horas após o sequestro, em um desdobramento que gerou confusão inicial nas investigações, o telefone celular da mãe tocou. Era Érica Rodrigues Ribeiro. Em uma ligação curta e com a voz controlada, a jovem afirmou para a mãe que estava tudo bem, que o mal-entendido havia sido resolvido e que ela já se encontrava em deslocamento de retorno para a residência.

A investigação policial concluiu posteriormente que a ligação foi efetuada sob total coação moral e física; os faccionados forçaram Érica a mentir para tranquilizar a família e atrasar o acionamento das patrulhas da Polícia Militar. A mãe, ciente de que a filha cumpria pena em regime domiciliar e não poderia violar o toque de recolher noturno sob risco de regressão de pena, permaneceu em estado de vigília e angústia profunda, pressentindo que o telefonema funcionava, na verdade, como um adeus involuntário.

A Execução por Conferência e as 40 Facadas no Sucuriú

Érica Rodrigues foi conduzida para uma clareira na região de mata conhecida como Cascalheira, localizada às margens do Rio Sucuriú, um ponto turístico e geográfico isolado na periferia de Três Lagoas. Ali instalou-se formalmente o “Tabuleiro” ou Tribunal do Crime para a leitura das acusações e aplicação da pena sumária. O julgamento não ocorreu de forma isolada no campo; foi executado por meio de uma conferência telefônica de longa duração, conectando em tempo real lideranças da facção distribuídas por diversas cidades de Mato Grosso do Sul.

O relatório policial detalhou que a conferência contou com a participação de 21 pessoas envolvidas diretamente na estrutura do veredito. Estavam conectados na linha o “Geral do Estado”, o “Geral de Rua” e as lideranças locais da cidade de Três Lagoas, tanto homens quanto mulheres de alta patente. As provas documentais dos abusos contra a criança — as fotos e vídeos que a própria Érica havia gravado — foram apresentadas na conferência virtual do crime.

A revelação das imagens causou repulsa até mesmo nos conselheiros da facção. O veredito de morte foi decretado e assinado digitalmente pela “Sintonia” Delice, a “Viúva Negra”, que determinou a aplicação de uma punição de extrema crueza para servir de exemplo pedagógico no submundo.

Érica Rodrigues Ribeiro foi executada com extrema brutalidade, recebendo uma sequência de 40 facadas desferidas por múltiplos executores que se revezavam no ato, concentradas majoritariamente nas regiões do tórax e abdômen, além de sofrer um corte profundo e extenso na região da garganta (esgorjamento), que causou sua morte por choque hipovolêmico e asfixia. O corpo desfigurado da jovem de 29 anos foi sumariamente jogado em meio à vegetação e ao lixo às margens do Rio Sucuriú, sendo descoberto por pescadores locais na manhã do dia seguinte, 3 de setembro de 2019.

O desdobramento das investigações revelou um detalhe surpreendente (plot twist) sobre a autoria da denúncia que selou o destino de Érica. Quem acionou o Tribunal do Crime e entregou o acervo de vídeos de Érica para a facção foi o próprio tio da criança abusada, um indivíduo que cumpria pena em regime semiaberto por comércio ilegal e que mantinha conexões diretas com o Primeiro Comando da capital. O tio, em conjunto com a mãe biológica da vítima e a avó da menor, descobriu as gravações no celular e, em vez de recorrer aos canais formais da Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA), optou por acionar o braço armado da facção para vingar a honra da família no tribunal paralelo.

A Caçada Policial e o Exílio da ‘Viúva Negra’

O encontro do corpo de Érica Rodrigues e o vazamento dos vídeos de sua execução nas redes sociais provocaram comoção pública e forçaram uma resposta imediata e enérgica por parte do Grupo de Atuação Especial de Repressão sa Crime Organizado (GAECO) do Ministério Público e da Polícia Civil de Mato Grosso do Sul. A brutalidade do crime e o nível de organização demonstrado pelos faccionados acenderam o sinal de alerta das autoridades estaduais contra a expansão dos “tabuleiros” na região de divisa com São Paulo.

Uma megaoperação foi deflagrada, resultando na expedição de 19 mandados de prisão temporária e preventiva contra os integrantes do conselho do crime. A gravidade das investigações e a caçada policial subsequente foram tão intensas que a própria “Sintonia” do estado, Delice Aparecida, a “Viúva Negra”, viu-se forçada a abandonar suas bases operacionais em Mato Grosso do Sul, fugindo e buscando exílio na cidade de Araçatuba, no interior paulista. Mesmo à distância e escondida em solo paulista, a criminosa continuou a gerenciar o comércio ilegal e a emitir ordens para a facção até ser finalmente localizada, identificada e capturada em uma ação conjunta das polícias civis dos dois estados.

Entre os indiciados e presos na operação policial figuravam personagens que transitavam entre a condição de familiares da vítima de abuso e coautores do homicídio de Érica. A mãe da criança abusada foi alvo dos mandados de captura, sendo ouvida pelas autoridades, liberada provisoriamente e submetida ao monitoramento eletrônico por meio do uso de tornozeleira judicial. O tio da menor e a própria avó da criança restaram formalmente denunciados por homicídio triplamente qualificado e ocultação de cadáver, sob a acusação de terem planejado, incentivado e participado ativamente da montagem da emboscada que retirou Érica de sua residência, entregando-a nas mãos dos sicários da “Viúva Negra”. O veículo Vectra branco utilizado no sequestro foi localizado abandonado em uma oficina mecânica da periferia, servindo como prova pericial material do crime conexo.