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O que deveria ser uma partida de futebol informal entre amigos no interior do Maranhão transformou-se em uma das maiores explosões de violência primitiva já registradas no Brasil. Após expulsar um jogador, um árbitro voluntário de 19 anos reagiu a agressões com golpes de faca fatais. O que se seguiu na calada daquela tarde foi um linchamento brutal, com decapitação e desmembramento cometidos por uma multidão enfurecida. Conheça os detalhes chocantes desse duplo homicídio que expôs a ausência do estado e deixou marcas eternas na comunidade acessando o artigo completo nos comentários.

A Explosão da Violência Primitiva no Interior Maranhense

O futebol é, historicamente, o maior elemento de congraçamento social, lazer e identidade cultural das comunidades brasileiras, estendendo seus laços das arenas modernas dos grandes centros urbanos até os campos de terra batida e traves de madeira improvisadas nas zonas rurais mais isoladas do país. Nesses espaços periféricos, as chamadas “peladas” de final de semana funcionam como o principal ponto de encontro entre amigos, parentes e vizinhos que buscam aliviar o estresse da rotina de trabalho. No entanto, quando a paixão desportiva colide com o consumo abusivo de bebidas alcoólicas, ressentimentos pessoais e, fundamentalmente, com a ausência crônica de estruturas de segurança pública e justiça estatal, o ambiente de festa pode converter-se, em frações de segundo, em um palco de horror absoluto.

Foi precisamente essa transição dramática e trágica que se materializou no dia 30 de junho de 2013, um domingo comum de sol, no Povoado Centro do Meio, uma localidade de características rurais situada no município de Pio XII, no interior do estado do Maranhão. O evento, que se iniciou como uma competição informal de bairro, escalou rapidamente para uma sequência de homicídios cruzados marcada por uma crueldade e selvageria que romperam as fronteiras do estado, chocando a opinião pública nacional e ganhando espaço nas páginas da imprensa internacional como um dos retratos mais contundentes da barbárie e da falha do pacto social.

No centro da tragédia encontravam-se dois jovens da comunidade: Otávio Jordão da Silva Cantanhede, de 19 anos de idade, e Josemir dos Santos Abreu, de 31 anos. A dinâmica das mortes revelou uma reação em cadeia onde a brutalidade de um ato desencadeou a fúria animal do outro. O campo de terra batida do Povoado Centro do Meio transformou-se em um perímetro de sangue e mutilação que estigmatizou a região e deixou marcas psicológicas profundas e duradouras nos moradores locais, explicitando o abismo que se instala quando a vingança privada assume o comando das ações na ausência das forças da lei.

O Estopim em Campo: Da Conversa Banal ao Golpe Fatal

A cronologia dos fatos desenhou-se de forma comum ao longo daquela tarde de domingo. Otávio Jordão havia comparecido ao campo na companhia de seu irmão, George, para participar da partida informal de futebol entre moradores da vila. No primeiro tempo do jogo, Otávio atuou na linha de defesa de sua equipe, mas sofreu uma lesão no pé ou no tornozelo que o impossibilitou de continuar correndo no gramado de terra. Movido pelo desejo de continuar colaborando com o lazer dos amigos, o jovem de 19 anos voluntariou-se para assumir a função de árbitro da partida durante a segunda metade do confronto, um arranjo rotineiro em competições amadoras de bairro.

Por volta do meio do segundo tempo, uma jogada polêmica desencadeou o início da crise. De acordo com relatos colhidos posteriormente pelos investigadores da Polícia Civil, Otávio Jordão aplicou um cartão e determinou a expulsão do jogador Josemir dos Santos Abreu, de 31 anos. Os motivos exatos que fundamentaram a aplicação da penalidade máxima desportiva permanecem nebulosos na literatura do inquérito: testemunhas apontavam que Josemir teria reclamado de forma veemente com o juiz, desferido um chute na bola em sinal de protesto ou se revoltado contra uma infração marcada por Otávio a favor da equipe de seu irmão, George.

Inconformado com a decisão do árbitro voluntário e sentindo-se publicamente afrontado perante os vizinhos, Josemir recusou-se a deixar as linhas do campo, dando início a uma discussão verbal acalorada e repleta de ofensas mútuas com Otávio Jordão. A contenda escalou rapidamente para a agressão física generalizada. O jogador avançou contra o jovem árbitro, desferindo-click um soco violento contra o seu rosto e uma sequência de chutes em suas pernas. Otávio foi projetado contra o chão de terra batida devido ao impacto dos golpes.

Ao se levantar, tomado por um misto de humilhação e fúria, Otávio sacou uma faca de corte que trazia oculta junto ao seu corpo. Testemunhas relataram que o jovem de 19 anos havia adotado o hábito de andar armado desde o mês de fevereiro daquele mesmo ano, período em que havia sido vítima de uma tentativa de homicídio por esfaqueamento durante as festividades de Carnaval na região, passando a portar a lâmina por puro medo de novas agressões.

A visualização da arma branca não intimidou Josemir. A discussão atingiu o ponto de não retorno quando Otávio chamou o jogador de “palhaço”, e este respondeu proferindo um xingamento de forte calão contra a mãe falecida do árbitro, qualificando-a como prostituta. Diante da ofensa grave à memória de sua mãe, Otávio Jordão avançou contra Josemir e desferiu dois golpes de faca contra o lado esquerdo de seu corpo, atingindo a região do peito e das costelas. Um dos golpes perfurou diretamente o tecido cardíaco do jogador. Josemir desabou sangrando no centro do campo, sendo socorrido às pressas por um morador em um veículo particular, mas não resistiu à gravidade da hemorragia interna e teve o óbito confirmado antes de dar entrada no balcão do hospital municipal.

A Falha Estrutural do Estado e o Cerco ao Árbitro

No instante subsequente à queda de Josemir Abreu, o pânico e a indignação tomaram conta dos jogadores e espectadores que circundavam o campo de terra do Povoado Centro do Meio. Compreendendo a gravidade do ato que havia acabado de praticar, Otávio Jordão da Silva Cantanhede tentou esboçar uma fuga do local, mas foi imediatamente cercado e contido pela multidão enfurecida. O jovem foi derrubado e teve suas mãos e pés firmemente amarrados com uma corda grossa por moradores que, em um primeiro momento, manifestavam a intenção de mantê-lo custodiado e imobilizado até que uma patrulha da Polícia Militar chegasse para efetuar a prisão legal em flagrante.

Foi nesse momento crítico que a ausência estrutural do estado revelou-se de forma trágica, abrindo as comportas para a barbárie. Testemunhas e lideranças comunitárias acionaram repetidas vezes as linhas telefônicas de emergência da Delegacia de Polícia de Pio XII buscando relatar o homicídio e solicitar o envio urgente de viaturas para realizar a escolta do autor do crime e garantir a segurança do perímetro. No entanto, todas as chamadas efetuadas caíram sistematicamente no sistema de caixa postal ou foram interrompidas por falta de conexão.

O contingente policial de plantão naquele domingo na sede do município consistia em apenas dois agentes públicos. Os policiais encontravam-se empenhados no atendimento de uma ocorrência de furto em uma área rural oposta e isolada, trafegando por regiões de relevo acidentado onde não havia captação de sinal de telefonia móvel por parte das antenas das operadoras, deixando o Povoado Centro do Meio completamente desprovido de policiamento por um intervalo de mais de uma hora. Esse vácuo de autoridade estatal e a falta de socorro legal duraram o tempo necessário para que a revolta popular sofresse uma metamorfose perversa, transformando o desejo de justiça comunitária em uma das mais selvagens manifestações de vingança privada da história contemporânea do país.

A Chegada do Bando e o Início do Linchamento Selvagem

À medida que os minutos avançavam e a notícia de que Josemir dos Santos Abreu havia falecido a caminho do hospital atingia o Povoado Centro do Meio, a atmosfera no campo de terra batida sofreu uma guinada de extrema violência. Amigos, parentes e aliados do jogador falecido — muitos dos quais passavam o domingo consumindo grandes volumes de cachaça e cerveja em bares situados nas proximidades do canteiro esportivo — invadiram o gramado tomados por um sentimento de ódio cego e desejo imediato de retaliação.

O primeiro indivíduo a romper a barreira da contenção física e iniciar as agressões diretas contra o árbitro amarrado foi Luís Moraes de Souza, de 27 anos de idade, amigo de infância e confidente de Josemir. Luís, que confessou posteriormente ter ingerido cerca de quatro garrafas inteiras de cachaça de fabricação artesanal naquela tarde, aproximou-se de Otávio Jordão portando uma garrafa de vidro cheia. Sem emitir avisos, o agressor chocou o objeto de vidro diretamente contra a face do jovem de 19 anos, estraçalhando a garrafa e provocando cortes profundos e hemorragias imediatas em seu rosto e pescoço com os estilhaços pontiagudos.

Não satisfeito com o impacto do vidro, Luís Moraes utilizou um pedaço de madeira pesada para desferir golpes contínuos contra a calota craniana de Otávio, culminando em um ato de extrema perversidade ao introduzir uma estaca pontiaguda de madeira diretamente na região da garganta do jovem amarrado, destruindo suas pregas vocais e impedindo que a vítima continuasse a emitir seus clamores desesperados por socorro e pedidos para ser entregue à custódia da polícia.

O gesto de Luís Moraes funcionou como um sinal verde para que a massa de espectadores bêbados aderisse ao linchamento. Otávio Jordão foi submetido a uma sessão de espancamento coletivo contínuo, sendo alvejado por dezenas de pedradas, pauladas e chutes desferidos por múltiplos agressores que se revezavam ao redor do corpo inerte. George, o irmão da vítima que assistia ao início da barbárie de forma impotente, foi ameaçado de morte com paus e facas pelo bando enfurecido, vendo-se forçado a subir em uma motocicleta e fugir em alta velocidade pelas estradas de terra da zona rural para preservar a própria integridade física.

Chico Góis e o Horror da Decapitação e Esquartejamento

A selvageria que já havia ceifado a vida de Otávio Jordão atingiu o seu ápice de crueldade e contornos de sadismo primitivo com a chegada ao campo de futebol de Francisco Edson Moraes de Souza, de 32 anos de idade, irmão de Luís Moraes e amplamente conhecido no Povoado Centro do Meio pela alcunha de “Chico Góis”. Francisco era apontado pelos moradores locais como um usuário crônico de substâncias entorpecentes ilícitas e, naquela tarde de domingo, encontrava-se em um estado de severa alucinação mental induzida pelo consumo combinado de drogas e álcool.

Chico Góis adentrou o perímetro do campo empunhando uma foice de uso agrícola de lâmina longa e afiada, gesticulando de forma maníaca e proferindo ameaças de morte contra qualquer testemunha que ousasse se aproximar ou tentar frear a ação do bando. Posicionando-se sobre o corpo de Otávio Cantanhede, que já não manifestava sinais vitais decorrentes do espancamento sofrido, Francisco Edson utilizou a foice para desferir golpes mecânicos contínuos contra a região cervical do jovem de 19 anos, executando o processo completo de decapitação da vítima.

Em uma demonstração de barbárie que chocou até mesmo os agressores que compunham a linha de frente do linchamento, Chico Góis ergueu a cabeça decepada de Otávio Jordão pelos cabelos, exibindo-a diante da multidão silenciada como se tratasse de um troféu de caça. Ato contínuo, o executor caminhou até a linha divisória do campo de futebol e fincou a cabeça do juiz voluntário no topo de uma estaca de madeira pertencente a uma cerca de arame farpado que delimitava a propriedade rural vizinha, deixando as feições desfiguradas do jovem expostas em praça pública voltadas em direção ao gramado.

Demonstrando uma total ausência de freios morais ou respeito à dignidade humana, Francisco Edson retornou ao tronco inerte de Otávio e passou a desferir golpes de foice contra as articulações da vítima, promovendo o esquartejamento e separação completa de ambas as pernas em relação ao quadril. O agressor iniciou o mesmo procedimento mecânico de corte nas articulações dos braços e das mãos, interrompendo a mutilação do cadáver minutos depois, possivelmente devido ao esgotamento físico decorrente do esforço despendido com a foice pesada.

A escalada de agressões ao cadáver contou ainda com a participação ativa de Raimundo da Costa Marçal, de 31 anos de idade, conhecido na vila pelo apelido de “Novinho”. Raimundo, que declarou em seus depoimentos formais ter consumido mais de 30 garrafas de cerveja misturadas a doses de vinho e cachaça ao longo do domingo, subiu a bordo de uma motocicleta de alta cilindrada e acelerou o veículo contra os restos mortais de Otávio Jordão. Novinho conduziu a motocicleta por cima do tronco e dos membros esquartejados da vítima por pelo menos três vezes consecutivas, utilizando os pneus do veículo para esmagar e triturar as estruturas ósseas remanescentes da vítima antes de evadir-se do perímetro sob os olhares de pavor da comunidade.

A Descoberta da Tia Enfermeira e o Estigma de Vila Amaldiçoada

Com a dissipação da fúria coletiva e o recuo dos principais agressores do campo de futebol, um clima de silêncio sepulcral e horror paralisou os moradores do Povoado Centro do Meio. Compreendendo a extensão do crime bárbaro que havia sido perpetrado em praça pública, testemunhas assustadas acionaram o serviço de atendimento médico do hospital municipal de Pio XII solicitando o envio imediato de uma equipe de socorro e de uma ambulância para realizar o recolhimento das partes do corpo que jaziam no asfalto de terra batida.

Por uma ironia trágica e dolorosa que marcou o desfecho do episódio, a técnica de enfermagem plantonista escalada para tripular a ambulância de socorro naquela tarde era uma moradora da região que vinha a ser, por laços de sangue diretos, tia materna de Otávio Jordão da Silva Cantanhede. Ao atingir o perímetro do campo de futebol e desembarcar com a maca de atendimento, a profissional de saúde deparou-se com a cena de mutilação de seu próprio sobrinho. Foi a tia quem teve de realizar o procedimento técnico e emocional de retirar a cabeça decepada de Otávio do topo da estaca de arame farpado, emitindo um grito de dor e desespero que ecoou pelas casas da vila e que sintetizou o luto e a destruição da estrutura familiar dos Cantanhede.

Em declarações prestadas posteriormente à imprensa local durante os atos fúnebres, a enfermeira externou a revolta e a perplexidade que consumiam os familiares diante do nível de sadismo empregado pelos executores: “Se eles tivessem apenas matado o Otávio em uma reação de briga pelo Josemir, nós compreenderíamos o peso da vingança do crime. Mas o que eles fizeram aqui não foi apenas uma morte; eles o retalharam, o desmembraram e zombaram de sua carne como se ele não fosse um ser humano. Isso não é justiça, é selvageria animal que não possui perdão”.

Quando as equipes do plantão da Polícia Civil e os peritos criminais finalmente atingiram o Povoado Centro do Meio, encontraram uma comunidade sitiada pelo medo e pela lei do silêncio. Assustados com a possibilidade de sofrerem represálias por parte dos familiares das vítimas ou de serem indiciados como coautores do linchamento, os moradores recolheram-se ao interior de suas casas e trancaram as portas, se recusando a fornecer detalhes ou apontar os nomes dos executores aos investigadores. O campo de futebol onde ocorreu a partida foi completamente abandonado pelas lideranças comunitárias; as traves de madeira foram arrancadas e nenhum evento esportivo ou reunião social voltou a ser realizada naquele espaço, que se transformou em um perímetro mudo e evitado por todos, como se a própria terra estivesse assombrada pelo sangue derramado.

A repercussão nacional das imagens do esquartejamento capturadas por telefones celulares impôs ao Povoado Centro do Meio um severo e duradouro estigma social de “vila amaldiçoada”. Os moradores da localidade passaram a enfrentar episódios graves de preconceito, isolamento comercial e xingamentos verbais por parte de cidadãos de municípios vizinhos da região central do Maranhão. Crianças vindas do Centro do Meio eram hostilizadas e apontadas nos colégios regionais por colegas de classe através de frases intimidatórias como “Olha lá os filhos dos assassinos da pelada, não mexe com eles se não eles vão cortar a sua cabeça com uma foice”, gerando traumas psicológicos e forçando famílias inteiras a abandonarem suas propriedades rurais para buscar refúgio em outras capitais do país. O preconceito atingiu tal escala que motoristas de transporte alternativo e viajantes de fora da província adotavam o hábito supersticioso de realizar o sinal da cruz e proferir orações de proteção espiritual sempre que eram forçados a trafegar pelas estradas de acesso ou a pronunciar o nome do povoado maranhense.