No dia 14 de agosto de 2015, às 6:12 da manhã, uma carrinha Sprinter branca com placa de Marabá saiu do parque de estacionamento de uma pousada no município de Altamira, no Pará, com nove passageiros a bordo. O motorista era Raimundo Sérgio Bonfim, de 58 anos, que fazia o percurso entre Altamira e Itaituba pela Transamazónica havia mais de uma década.
Os nove passageiros eram jovens, o mais velho tinha 27 anos, a mais nova 19. Vinham de estados diferentes, Goiás, Minas Gerais, Maranhão, o próprio Pará, e tinhamse conhecido semanas antes numa comunidade online de mochileiros que organizava travessias por estradas remotas do norte do Brasil. Nenhum deles tinha parentesco entre si.
Nenhum deles tinha antecedentes. Todos transportavam mochilas, tendas ligeiros e a expectativa de chegar a Itaituba antes do anoitecer para seguir viagem de barco até Santarém. Munavan nunca chegou a Itaituba. O primeiro sinal de que algo estava errado veio três dias depois, quando Dalva Cristina Prado, mãe de uma das passageiras, ligou para a polícia civil de Altamira, dizendo que a filha não atendia o telemóvel desde amanhã do dia 14.
O atendente perguntou-lhe se tinha a certeza de que a filha não estava apenas fora de área. A Dalva disse que sim, que tinha certeza. O atendente anotou o nome, pediu que aguardasse 72 horas e desligou. 72 horas em plena Transamazónica, em agosto de 2015, era tempo suficiente para que qualquer rasto desaparecesse sob a lama, debaixo do mato, debaixo da chuva que cai quase toda a tarde naquela região.
Era tempo suficiente para que uma carrinha inteira desaparecesse do mapa sem que ninguém estranhasse no porquê naquele trecho de quase 500 km entre Altamira e Itaituba, o normal era o silêncio. Não havia sinal de telemóvel em boa parte do percurso, não havia postos de combustível regulares, não havia câmaras.
O que havia era barro vermelho, ponte de madeira sobre ribeiro, troço interditado por atoleiro e a mata a fechar dos dois lados da estrada, como se quisesse engolir tudo de volta. Esta é a história de nove jovens e um motorista que desapareceram numa sexta-feira de manhã numa das rodovias mais conhecidas e menos vigiadas do Brasil e de uma carrinha que foi encontrada 8 anos depois, em 2023, a 400 m da estrada engolida pela vegetação, com todos os cintos de segurança ainda afivelados e nenhum corpo no seu interior.
A BR230, a Transamazónica corta o Brasil de leste a oeste por mais de 4.000 km. Foi aberta nos anos 1970 como promessa de integração nacional, nunca foi concluída. O troço entre Altamira e Itaituba é um dos mais precários do país. Na época das chuvas, há semanas em que simplesmente não se passa.
Na época da seca, o pó vermelho cobre tudo. Pára-brisas, roupa, pulmão. Os moradores das comunidades, ao longo da estrada conhecem cada lamaçal, cada ponte que range, cada curva onde já tombou o camião. Conhecem também o silêncio que se instala quando alguém pergunta por um veículo que passou e não chegou. Raimundo Sérgio conhecia aquela estrada como conhecia o próprio quintal.
Tinha uma carta de condução, categoria D, revisão em dia e um caderninho onde anotava quilometragem, hora de partida e hora de chegada de cada viagem. Era metódico, não bebia, não circulava à noite naquele troço. Quem o contratava sabia que ele parava em Uruará para almoçar, que conferia os pneus na Medicilândia e que nunca, em 12 anos de estrada tinha chegado com mais de 2 horas de atraso.
Nesse dia, saiu no horário habitual. O dono da pousada em Altamira viu a Van partir. Um frentista em Medicilândia confirmou depois de ter abastecido o veículo por volta das 9 horas da manhã. Depois disso, mais ninguém viu a Sprinter Branca. 10 pessoas entraram naquela carrinha. Nenhuma saiu. E quando a carrinha quase uma década depois, o que estava dentro dela era mais difícil de explicar do que o próprio desaparecimento.
Se este tipo de história lhe interessa, o tipo que não aparece nos noticiários e que não tem resposta fácil, pode se subscrever o canal e deixar o seu comentário. A partir daqui, a história avança devagar e precisa de ser contada assim. Durante quanto tempo uma família consegue manter a esperança quando o estado diz que não há mais nada a fazer? O que acontece a um grupo de jovens quando é que a astrada acaba e o mato começa? O que significa encontrar uma carrinha intacta, com os cintos afivelados, sem qualquer
vestígio humano no interior, 8 anos depois? E o que faz uma mãe quando recebe a notícia de que encontraram o veículo onde estava a filha, mas não encontraram a filha. Estamos na Transamazónica em agosto de 2015. O Brasil vive uma crise política que ocupa todas as manchetes. Ninguém está a olhar para o Pará.
Ninguém está a contar quantas carrinhas passam ou deixam de passar entre Altamira e Itaituba. O mundo continua a girar e em algum ponto daquela estrada de barro vermelho, entre a floresta e o rio, desaparecem 10 pessoas sem fazer barulho. Tudo começou num grupo de Facebook chamado Mochileiros do Norte BR, criado em 2014 por um estudante de geografia de imperatriz no Maranhão, que queria organizar travessias baratas por estradas que os guias de turismo ignoravam.
O grupo tinha pouco mais de 1200 membros, a maioria entre os 18 e os 30 anos. Gente que viajava à boleia, de ônibus intermunicipal ou rachando combustível. Colocavam fotos de estradas de terra batida, de pontes de madeira sobre rios barrentos, de redes armadas em árvores no meio do nada trocavam dicas sobre como conseguir boleia com camionista, onde acampar sem pagar.
E quais os troços da BR319 e da BR230 ainda se podia passar na época das chuvas? Era um grupo de gente jovem com pouco dinheiro e muita vontade de conhecer um Brasil que a maioria dos brasileiros nunca vai ver de perto. Em junho de 2015, e um membro do grupo chamado Felipe Augusto Rezende, de 25 anos de Montes Claros, Minas Gerais, postou a ideia de uma travessia pela Transamazónica.
O plano era sair de Altamira, seguir de Carrinha até Itaituba e de lá apanhar um barco até Santarém, descendo o Tapajós. A post era simples, escrito sem floreios. Dizia que ele já tinha feito o troço de autocarro duas vezes e que conhecia um motorista de confiança em Alta Mira, que fazia o transporte por um preço acessível.
pedia que quem tivesse interesse enviasse mensagem no privado. A publicação recebeu 43 gostos e 22 comentários. A maioria dos comentários era de pessoas a dizer que tinham vontade, mas não podia. Outros pediam mais detalhes sobre o custo e a duração. Dos 22, nove comprometeram-se de verdade. Eram nove pessoas de locais diferentes do Brasil, de convidas diferentes e histórias que não se cruzariam em nenhuma outra circunstância.
Camila Prado, 22 anos, estudante de biologia em Goiânia, que tinha trancado o semestre para viajar e não contou que para a mãe. Tiago Nascimento dos Reis, 27 anos, técnico de refrigeração de imperatriz, que juntou dinheiro durante seis meses a vender açaí à porta de casa para pagar a viagem. Lucas Gabriel Ferreira, de 20 anos, de Tucuruí, no Pará.
que trabalhava como auxiliar de eletricista na central e nunca tinha saído do Estado. Ana Beatriz Souza Lima, 19 anos de Belém, a mais nova do grupo, que disse para os pais que ia visitar uma prima em Santarém. Diego Henrique Barros, 24 anos, estudante de engenharia florestal em Marabá, que conhecia a Transamazónica por causa do trabalho de campo da faculdade.
Renata de Cásia Oliveira, de 23 anos, de São Luís, e que abandonou um estágio num escritório de advogados porque, segundo uma amiga, achava que a vida era curta demais para estar sentada atrás de uma mesa. João Pedro Monteiro, de 21 anos, de Paragominas, que viajava sozinho desde os 17 e mantinha um blogue onde escrevia sobre estradas do interior do norte.
Marcos Vinícius Almeida, de 26 anos, de Montes Claros, amigo de infância de Felipe e o único do grupo que já conhecia o condutor da carrinha e o próprio Felipe, que organizou tudo, que fez a lista de participantes, que combinava a data e o ponto de encontro, e que mandou a última mensagem no grupo de WhatsApp da viagem às 23:47 do dia 13 de agosto, dizendo que estava tudo certo, que a carrinha ia buscar todo mundo na pousada às 6 horas da manhã e que era para ninguém atrasar.
Nenhum deles era imprudente no sentido clássico da palavra. Nos eram jovens que viajavam com pouco, que se adaptavam a qualquer situação e que tinham uma confiança natural na estrada, no próximo, e na ideia de que o Brasil, por mais bruto que fosse, era um lugar onde as coisas acabavam por dar certo. Essa confiança era o que os unia e talvez tenha sido também o que os impediu de perceber que certas as estradas não perdoam a confiança.
Na noite anterior à viagem, todos dormiam na mesma pousada em Altamira, um estabelecimento simples denominado Pousada Rio Xingu, no bairro do Centro. Quartos com ventilador de teto, casa de banho partilhado, pequeno-almoço com pão, manteiga e café coado. Filipe e Marcos Vinícius partilharam um quarto, as meninas ficaram noutro.
O restante acomodou-se onde havia vaga. Conversaram no corredor até quase à meia-noite, planeando os próximos dias. Nick Camila mostrou no telemóvel um mapa offline do troço até Itaituba. Diego explicou que havia troços onde a estrada se transformava em trilho e que a carrinha podia atolar. O João Pedro disse que já tinha passado por pior na BR319 e que não era para ninguém se preocupar.
Riam. Estavam animados. tinham a tranquilidade de quem sabe que o dia seguinte vai ser longo, cansativo e inesquecível. Às 5h30 da manhã, o despertador de O Filipe tocou. Às 6 horas, todos estavam no parque de estacionamento da pousada com as mochilas prontas. A carrinha já lá estava. Raimundo Sérgio Bonfim nasceu em Altamira em 1957, filho de um barqueiro do Xingu e de uma professora primária que dava aulas debaixo de um barracão de palha no bairro da Aparecida.
Cresceu a ver o rio e a estrada como as duas únicas saídas possíveis daquele lugar. O pai queria que fosse barqueiro e a mãe queria que estudasse. Raimundo não fez nem uma coisa nem outra da forma que esperavam. Aos 16 anos, abandonou a escola e começou a trabalhar como ajudante num camião que levava o tronco de mogno do interior até ao porto de Altamira.
Era a época da exploração madeireira pesada na região, quando a Transamazónica servia mais para escoar madeira do que para transportar gente. Raimundo aprendeu a conduzir naqueles camiões em estradas que não tinham nome e que mudavam de lugar a cada estação de chuva. Aos 25 tirou a habilitação. Aos 30 comprou uma Kombi utilizada e começou a fazer transporte entre Altamira e Vitória do Xingu.
Depois trocou a Kombi por uma carrinha. Depois trocou a carrinha por outra melhor. Em 2008 comprou a Sprinter Branca que usaria até o dia do desaparecimento. Pagou em 12 prestações com o dinheiro que ganhava levando passageiros. encomendas e por vezes carga miúda para comerciantes do interior. Era um homem que não se queixava, que não se enganava no horário e que tratava a carrinha como se fosse uma extensão do próprio corpo.
Os vizinhos do bairro do Mutirão, onde vivia com a dona Nazaré e dois filhos já crescidos, chamavam-lhe seu Raimundo Relógio, porque saía todos os dias no mesmo horário e regressava no mesmo horário, como se o tempo lhe obedecesse, e não o contrário. A Dona Nazaré era uma mulher forte, de mãos grossas e olhar firme, que vendia farinha de mandioca na feira do bairro da Aparecida desde os 18 anos.
Conhecia Raimundo desde a adolescência. Casaram em 1982 numa cerimónia simples na igreja de São Sebastião em Altamira e nunca se separaram. Ela contou depois num depoimento à polícia que durou menos de 15 minutos, que na noite do dia 13 de agosto, véspera da viagem. O Raimundo saiu de casa depois do jantar, dirigiu-se à garagem, acendeu a lanterna e verificou os quatro pneus da carrinha, um a um.
Voltou a lá dentro, tomou um copo de água e disse que ia ser uma viagem tranquila, que eram apenas uns meninos que queriam conhecer a estrada. A Dona Nazaré perguntou quantos eram. Ele disse que eram nove. Ela perguntou se não era gente a mais. Disse que a carrinha levava 15. Depois desligou a luz e foi dormir.
Na manhã seguinte saiu de casa 5:30, como sempre. A Dona Nazaré ouviu o motor da carrinha a ligar e viu a luz dos faróis a passar pela janela do quarto. Não se levantou, não despediu-se. Tinha aprendido em mais de 30 anos de casamento que Raimundo não gostava de despedidas. Ele ia e vinha. Voltou sempre até ao dia em que não voltou.
E o que se sabe sobre Raimundo Sérgio é que era um homem de rotina que conhecia cada quilómetro da Transamazónica entre Altamira e Itaituba, que sabia onde parar, onde abastecer, onde não parar de maneira nenhuma, que levava sempre um galão de água de de reserva, um macaco hidráulico, duas latas de sardinha e um rolo de arame no compartimento de ferramentas da carrinha que nunca teve multa.
registada no sistema que nunca foi referido em nenhum boletim de ocorrência, nem como autor, nem como vítima, nem como testemunha. Era o tipo de pessoa que atravessa a vida inteira sem chamar a atenção e que precisamente por isso, quando desaparece deixa um buraco que ninguém consegue explicar. A Medicilândia fica a cerca de A 150 km de Altamira, no troço da Transamazónica que corta a região cacaoeira do Pará.
É uma pequena cidade e quase toda de rua sem asfalto, onde o cheiro a cacau seco mistura-se com o cheiro a gasóleo dos camiões que passam rumo ao comércio é simples. Mercearia, loja de material de construção, farmácia com fachada de azulejo branco. A igreja matriz fica numa praça de cimento rachado, com um banco de madeira onde os velhos sentam-se ao fim da tarde para ver o movimento, que nunca é muito.
É o tipo de cidade que existe por causa da estrada e que morreria sem ela. O posto cacau ficava à entrada da cidade, do lado esquerdo de quem vem de Altamira. Duas bombas, uma cobertura de zinco, um casa de banho nos fundos e um frigorífico com refrigerante e água mineral. Edivaldo Moreira Lopes trabalhava ali desde 2009.
Tinha 34 anos em agosto de 2015. Era um homem magro, de bigode ralo, que vivia com a mãe e os dois irmãos mais novos num sítio a três km da cidade. Conhecia cada motorista que fazia o percurso regular. Sabia de core quem pedia gasóleo, quem pedia gasolina, quem pagava em dinheiro e quem pedia fiado.
No dia 14 de agosto, por volta das 9h, uma sprinter branca parou no posto. Edivaldo reconheceu o condutor. Era o senhor Raimundo de Altamira. Não era a primeira vez que abastecia ali. Raimundo desceu, pediu para encher o depósito e, enquanto o diesel entrava, foi até aos pneus com um calibrador de mão que trazia no bolso da calça.
Edivaldo reparou que a carrinha estava cheia. Havia jovens lá dentro. Alguns dormiam com a cabeça encostada à janela. Outros estavam acordados a tirar fotografias com o telemóvel. Uma menina de cabelo encaracolado estava sentada no banco da frente do lado do passageiro, caiu olhando para um mapa no telemóvel. Edivaldo não falou com nenhum deles.
Não era seu costume puxar conversa. Raimundo pagou em dinheiro, como sempre, notas dobradas que tirou do bolso da camisa. Não pediu troco, disse obrigado. Subiu para a carrinha, ligou o motor e arrancou. Edivaldo viu o veículo seguir pela Transamazónica em direção a Uruará, levantando poeira vermelha que demorou quase um minuto para descarregar.
Meses depois, quando a polícia foi finalmente até Medicilândia fazer perguntas, Edivaldo repetiu tudo isto com a precisão de quem viu uma cena comum e só percebeu que não era comum quando alguém veio perguntar por ela. disse que a carrinha parecia normal, que o condutor parecia normal, que os jovens pareciam normais, que nada, absolutamente nada, indicava que aquela paragem no posto seria o último registo conhecido de 10 pessoas vivas. E foi.
E a partir daí, a Sprinter Branca entrou num troço de 250 km de estrada, onde não havia mais testemunhas, não havia mais combustível e já não havia sinal. Apenas barro, ponte de madeira, mata de lado a lado, e o silêncio da transaónica, que não guarda nada e não conta nada a ninguém.
Dalva Cristina Prado vivia em Anápolis, Goiás. numa casa de dois quartos no bairro Jundiaí, com o marido reformado e um cão viraata chamado Pretinho. A casa tinha um quintal de terra batida, um pé de manga no canto e um estendal de arame onde a roupa secava em menos de uma hora no calor de agosto. Era uma casa simples, organizada com o cuidado de quem tem pouco e cuida de tudo.
sala, um sofá de corino castanho, uma televisão de tubo e na parede três portaretratos. O casamento é a formatura do filho mais velho na Polícia Militar de Goiás e um foto de Camila aos 15 anos de vestido azul na festa de aniversário que fizeram no quintal com bolo de chocolate e guaraná. Camila era a mais nova, a filha que Dalva não planeou e que chegou quando ela já pensava que não teria mais filhos.
Nasceu em 1993, numa maternidade pública de Anápolis, num parto difícil que Dalva carregava no corpo até hoje. Uma dor nas costas que voltava sempre que chovia. Camila cresceu diferente do irmão. Não era quieta, não era obediente no sentido que Dalva entendia a palavra. Era o tipo de menina que fazia as coisas primeiro e explicava depois, que regressava a casa com o joelho esfolado e um sorriso, que pedia desculpa com tanta sinceridade que era impossível ficar zangado por mais de 5 minutos.
Quando entrou na faculdade de biologia na UFG, Idalva sentiu um orgulho que não sabia colocar em palavras. Ninguém na família tinha chegado à universidade. A Camila chegou, mas a Camila também era a filha que viajava. E esta parte da alva nunca compreendeu completamente. Não compreendia porque é que alguém que tinha casa, comida e família queria dormir em tenda no meio do mato, apanhar boleia com desconhecido e ir para locais que nem casa de banho tinham.
A Dalva tinha medo. Não o medo dramático que aparece em filme, mas o medo quotidiano constante de mãe brasileira, que sabe o que pode acontecer a uma menina sozinha numa estrada do interior. Cada vez que a Camila dizia que ia viajar, Dalva sentia o estômago apertar, mas não impedia. tinha aprendido que impedir Camila de alguma coisa era empurrá-la com mais força no sentido contrário.
No no dia 14 de agosto, às 5:48 da manhã, Li Camila enviou uma mensagem pelo WhatsApp. A mensagem dizia: “Mãe, vou sair de Altamira agora. Vou ficar sem sinal cerca de dois dias. Não se preocupa. Amo-te. A Dalva acordou às 6:15. viu a mensagem e respondeu: “Está bem, minha filha, avisa-me quando chegares. Se cuida.
” A mensagem foi entregue, foi lida. A Dalva viu os dois tiques azuis e sentiu o alívio breve de saber que a filha estava viva naquele instante. Depois foi fazer café. No dia 15, não estranhou o silêncio. A Camila tinha avisado que ficaria sem sinal. No dia 16 começou a estranhar. Mandou uma mensagem que ficou com um tique só.
Tentou ligar caixa postal. No dia 17 às 7 da manhã, ligou para o irmão da Camila, o que era PM em Goiânia. Ele disse que provavelmente era apenas falta de sinal, que aquela região do Pará era assim, que era para a mãe se acalmar. Dalva tentou se acalmar. Não conseguiu. Às 11 horas, ligou para da Polícia Civil de Altamira. Nem sabia o número.
Procurou na internet, no computador velho que ficava no quarto do filho e ligou do telefone fixo porque era mais barato. O atendente foi educado. Perguntou o nome da filha, a idade, quando tinha sido o último contacto. A Dalva explicou tudo. Explicou sobre a carrinha, sobre o grupo de mochileiros. sobre a viagem até Itaituba.
O atendente anotou, disse que ia registar, disse que o procedimento era aguardar 72 horas. Dalva perguntou 72 horas a partir de quando? O atendente disse: “A partir do registo”. Dalva perguntou se ninguém ia sair para procurar. O atendente disse que ia encaminhar. Dalva desligou o telefone e ficou parada na cozinha com o mão no aparelho, olhando para a janela onde a luz do meio-dia entrava sem pressa. Nessa noite a Dalva não dormiu.
Ficou sentada na sala com o telemóvel no colo, esperando uma mensagem que não veio. O telemóvel de Camila continuava indo para a caixa de correio e cada vez que a voz gravada dizia: “O número chamado não pode ser completado, algo dentro de Dalva entendia que aquilo não era falta de sinal, era outra coisa, uma coisa que elas ainda não tinham nome para chamar, mas que já vivia no corpo como um peso que não saía do peito.
Quando Dalva ligou para a Polícia Civil de Altamira, no dia 17 de agosto, três dias depois da partida da carrinha, foi assistida por um escrivão que anotou o nome da filha num formulário e explicou o procedimento padrão. A orientação era aguardar. A expressão utilizada foi aguardar o prazo. Dalva não compreendeu que prazo era esse e o escrivão explicou que os desaparecimentos de adultos só geravam procura ativa após confirmação de que não se tratava de ausência voluntária e que a região da A Transamazónica era conhecida por deixar
viajantes incomunicáveis por períodos longos. Dalva insistiu, disse que eram nove pessoas, que havia um motorista experiente, que alguém precisava verificar a estrada. O escrivão disse que ia registar. Registou. O boletim de ocorrência número 15.000 008.1 247 foi aberto às 14:20 do dia 17 de agosto de 2015.
Nenhum viatura saiu da esquadra nessa tarde. É preciso perceber o que significava em 2015 registar um desaparecimento na Transamazónica. A esquadra de Altamira cobria uma área maior do que muitos países europeus. tinha um delegado titular, dois escrivães, quatro investigadores e três viaturas, de das quais uma estava com o motor fundido desde abril.
O efetivo era insuficiente para atender os casos urbanos, homicídios, furtos, violência doméstica, tráfico miúdo e praticamente inexistente para qualquer ocorrência fora do perímetro da cidade. A Transamazónica naquele troço, não era a jurisdição clara de ninguém. Ficava num limbo entre a Polícia Civil estadual, a Polícia Rodoviária Federal e os concelhos ao longo da estrada, cada um com a sua própria precariedade.
O Sinalid, o sistema nacional de localização de pessoas desaparecidas, existia desde 2012, mas em agosto de 2015 ainda não estava integrado entre todos os estados. Um desaparecimento registado no Pará não aparecia automaticamente no sistema de Goiás, de Minas Gerais ou do Maranhão. Cada família teria de registar o seu próprio auto de notícia no seu próprio estado e esperar que alguém em algum lugar cruzasse a informação.
Ninguém cruzou. Nos quatro dias seguintes ao registo de Dalva, outras famílias começaram a ligar. A mãe de Thago, de Imperatriz ligou para a esquadra de lá. O pai de Lucas de Tucuruí foi pessoalmente à esquadra local. Os pais de Ana Beatriz em Belém procuraram a Polícia Federal porque a filha tinha disse que ia visitar uma prima e eles descobriram que não era verdade.
Cada família ligava para um local diferente. Cada família contava uma parte da história. Ninguém via a história inteira. A esquadra de Altamira recebeu pelo menos cinco chamadas de familiares entre os dias 17 e 20 de agosto. Todas foram registadas, todas seguiram o mesmo procedimento, todas receberam a mesma orientação. Aguardar.
E o escrivão que atendeu a Dalva no dia 17 atendia uma média de 14 ocorrências por dia. O caso da carrinha não era para ele diferente dos outros. Era mais um formulário, mais um nome, mais uma família do outro lado da linha a pedir algo que a esquadra não tinha como oferecer naquele momento. E enquanto as famílias telefonavam e aguardavam, os dias passavam, e cada dia que passava era mais um dia de chuva na Transamazónica, mais um dia de lama cobrindo marcas de pneus, mais um dia de mato crescendo sobre qualquer rasto que
uma carrinha pudesse ter deixado ao sair da estrada. O tempo naquela região não trabalha a favor de quem procura, trabalha a favor de quem desaparece. No dia 20 de agosto, uma semana depois da partida da carrinha, Dalva ligou de novo para Altamira. Desta vez não foi atendida pelo escrivão e foi atendida por um investigador que informou que a esquadra estava a organizar uma equipe de busca em conjunto com a Defesa Civil Municipal.
A Dalva perguntou quando é que a equipa ia sair. O investigador disse que dependia de logística. A Dalva perguntou o que significava logística. O investigador explicou que não havia combustível suficiente para a viatura fazer o troço completo até Itaituba e que estavam tentando obter apoio do exército que mantinha um batalhão de engenharia em Uruará.
Dalva desligou e chorou pela primeira vez desde o dia 14. Não chorou de desespero, chorou de cansaço, de perceber que ninguém ia procurar a filha dela com a mesma urgência que ela. A primeira equipa de busca saiu de Altamira no dia 21 de agosto, exatamente uma semana após o desaparecimento. Não era se operação que as famílias esperavam, mas não havia helicóptero, não havia equipa de mergulho, não havia cães farejadores.
Era um grupo de quatro pessoas numa picap com o depósito cheio e três dias de prazo. dois polícias militares do batalhão de Altamira, um agente da Defesa Civil Municipal e um morador da região de Uruará chamado Antônio Pereira da Luz, de 62 anos, que tinha vivido a vida inteira nas margens da Transamazónica e que foi convidado como guia porque conhecia cada ramal, cada desvio e cada atalho entre a medicilândia e as placas.
Levavam um rádio HT com alcance limitado, um GPS de mão cuja bateria durava 8 horas, mantimentos básicos, farinha, tubarão, café, bolacha de água e sal. E a expectativa realista de que se a carrinha tivesse saído da estrada principal, as probabilidades de encontrá-la eram reduzidas. A floresta naquela região é densa.
Não é o tipo de vegetação que se atravessa a pé em facão. Os ramais que cortam perpendicularmente à Transamazónica são caminhos abertos pelos madeireiros, garimpeiros e lavradores, sem sinalização, sem manutenção e sem registo em nenhum mapa oficial. Na época das chuvas, a vegetação avança sobre estes ramais em questão de semanas.
Um veículo que entrasse por um deles em agosto poderia estar completamente coberto de mato em outubro. A equipe seguiu pela Transamazónica parando em cada comunidade, em cada exploração, em cada ponto onde houvesse alguém para perguntar. Em Uruará, conversaram com proprietários de um restaurante, de uma pousada, de borracharia.

Ninguém tinha visto a Sprinter Branca depois de Medicilândia. Ninguém se lembrava de um grupo de jovens. Ninguém tinha ouvido barulho de acidente, de travagem, de nada. A estrada estava como sempre e indiferente. Seguiram até placas, cerca de 180 km adiante. Pararam em serrações clandestinas que funcionavam mata dentro, onde homens de olhar desconfiado respondiam às perguntas com monossílabos e regressavam ao trabalho antes que a conversa terminasse.
pararam em comunidades ribeirinhas, onde as crianças corriam para ver a picap da polícia, e os adultos ficavam parados na porta de casa, de braços cruzados esperando. Ninguém sabia de nada, ou ninguém queria saber. O seu Antônio, o guia sugeriu entrar por três ramais que conhecia como possíveis desvios. Entraram pelos três.
O primeiro levava uma quinta de gado abandonada. O segundo terminava num lamaçal, onde a picap quase não conseguiu sair. O terceiro seguia por quatro km até uma clareira, onde se encontravam restos de uma serração desmontada e nada mais. Em nenhum dos três encontrou marcas de pneu compatíveis com a carrinha. Mas o senhor António disse, com a franqueza de quem não tem motivos para mentir, que havia dezenas de outros ramais que ele não conhecia, que novos caminhos eram abertos e abandonados a todo o momento, e que uma carrinha daquele tamanho podia estar
a 300 m da estrada sem que ninguém visse. No terceiro dia, a equipa voltou para Altamira. O combustível estava a terminar, o prazo estava vencido. O relatório escrito à mão pelo agente da Defesa Civil e dactilografado depois por um escrivão da esquadra tinha duas páginas: descrevia os locais percorridos, as pessoas consultadas e a ausência total de vestígios.
A conclusão era uma frase que dizia tudo e não dizia nada. Não foram encontrados indícios da localização do veículo ou dos passageiros no troço investigado, sendo recomendável a ampliação da área de busca mediante recursos adicionais. Os recursos adicionais não vieram, não nesse mês. O Corpo de Bombeiros do Pará, sediado em Belém não foi acionado formalmente.
O exército, que tinha o batalhão de engenharia em Uruará, informou que a busca de civis desaparecidos não estava entre as suas atribuições operacionais naquele momento. A Polícia Rodoviária Federal disse que o troço não era da sua competência direta, por não ser uma rodovia federal pavimentada na sua totalidade. Cada instituição apontava para outra e, entretanto, a estrada seguia engolindo o que tinha para engolir.
Nos meses que se seguiram ao desaparecimento, aconteceu algo que nenhuma esquadra previu e que nenhum protocolo de segurança pública contemplava. As famílias dos nove passageiros começaram a encontrar-se, não por acaso, não pela proximidade geográfica, mas pela força bruta do desespero partilhado. Dalva foi a primeira a agir.
Conseguiu o número de telefone da mãe de Thago, Nascimento dos Reis, através de uma publicação antiga no grupo de Facebook, onde a viagem foi organizada. Ligou numa noite de setembro. apresentou-se e disse que a sua filha também estava naquela carrinha. A mãe do Thago, a dona Irene, atendeu chorando.
Disse que ninguém em imperatriz acreditava nela. Disse que os vizinhos achavam que o filho tinha fugido, que devia dinheiro, que se tinha metido em coisa errada. disse que o delegado de lá nem quis abrir BO porque o desaparecimento tinha sido no Pará e não no Maranhão. Dalva ouviu tudo. Não tinha resposta para nada, mas ouviu.
Na semana seguinte, Dalva criou um grupo de WhatsApp com o nome Os Nossos Filhos Voltam. convidou a dona Irene, depois a mãe de Lucas de Tucuruí, depois os pais de Ana Beatriz de Belém, depois a irmã de Renata de São Luís. Um por um foi juntando os pedaços. Nem todos atendiam à primeira. Alguns tinham vergonha, outros tinham medo.
O pai de Diego de Marabá demorou três semanas para responder. Quando respondeu, enviou um áudio de 4 minutos em que falava sem parar, sem pontuação, sem pausa, contando tudo o que sabia e tudo o que não sabia. E no final perguntava se alguém tinha notícia de alguma coisa. Qualquer coisa, por amor de Deus. Aquele grupo de WhatsApp tornou-se, durante os meses seguintes, a única instância funcional de investigação do caso.
As famílias trocavam informações, documentos, números de telefone de esquadras, nomes de investigadores, dicas dos moradores da região. Dona Irene, que tinha um sobrinho que trabalhava no Ministério Público em São Luís, conseguiu que uma procuradora de justiça redigisse um ofício a pedir informações à Polícia Civil do Pará sobre o andamento do inquérito.
O ofício demorou dois meses a ser respondido. A resposta quando veio, dizia que o inquérito estava em curso e que diligências estavam a ser realizadas. Não especificava quais. Dalva, por sua conta, escreveu cartas. Escreveu para o Ministério Público, para a Defensoria Pública da União, para a Secretaria de Segurança Pública do Pará, para a Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados.
Escreveu à mão em papel pautado com a letra redonda que aprendeu na escola pública de Anápolis nos anos 70. Enviou pelo correio porque não sabia usar o e-mail direito. A maioria das cartas nunca foi respondida. T2 receberam respostas genéricas informando que o caso tinha sido encaminhado para o órgão competente.
O que o Estado não fez em semanas, aquelas famílias tentaram fazer com chamada de telemóvel pré-pago, bilhete de autocarro comprado em prestação e uma determinação que não cabia em nenhum orçamento. A Dona Irene vendeu uma novilha que tinha no sítio em Imperatriz para pagar o bilhete até Altamira. foi de autocarro 36 horas de viagem e embateu no porta da esquadra sem avisar.
O delegado recebeu-a durante 10 minutos, disse que estava a fazer o possível e pediu paciência. A Dona Irene regressou à Imperatriz no dia seguinte, com o mesmo autocarro, sem nenhuma informação nova. O pai do Lucas, seu Valdomiro, foi até à Medicilândia por conta própria e conversou com Edivaldo, o frentista.
ouviu dele o que a polícia já sabia, que a carrinha tinha parado e abastecido e seguido viagem, nada mais, nada mais nada menos. Em novembro de 2015, 3 meses depois do desaparecimento, Dalva organizou uma reunião presencial com as famílias que conseguiram viajar. Encontraram-se em Belém numa sala emprestada por uma paróquia do bairro da Cremação.
Vieram cinco mães, dois pais e uma irmã. Sentaram-se em cadeiras de plástico branco debaixo de um ventilador que fazia barulho, mas não refrescava, e passaram 4 horas a partilhar o que sabiam, o que suspeitavam e o que sentiam. Não havia agenda, não havia coordenador, havia apenas gente que tinha perdido alguém e que precisava olhar nos olhos de outra pessoa que compreendia aquela dor sem precisar de explicação.
Nessa reunião decidiram três coisas. Primeira, que não iam aceitar o arquivamento do processo enquanto não houvesse uma procura de verdade. E segunda, que iam procurar apoio junto da imprensa, mesmo sabendo que uma carrinha desaparecida na Transamazónica não tinha o mesmo peso mediático que um caso no Sudeste.
Terceira, que iam continuar juntos, porque juntos eram 10 vozes, e 10 vozes fazem mais barulho que uma. O ruído, no entanto, não foi suficiente. Não naquele momento. A imprensa regional publicou algumas notas curtas. Um portal de notícias de Belém fez uma reportagem de 500 palavras com o título: “Famílias cobram respostas sobre os mochileiros desaparecidos na Transamazónica.
A matéria teve poucas visualizações e nenhum desdobramento. A imprensa nacional não cobriu. Em agosto de 2015, o Brasil estava ocupado com outra coisa. Entre 2016 e 2022, o caso dos mochileiros da Transamazónica existiu num limbo que é mais comum do que se imagina no sistema de justiça brasileiro. Não estava encerrado, não estava arquivado formalmente, mas não estava a ser investigado de forma ativa.
O inquérito permanecia aberto na esquadra de Altamira, numa pasta que mudou de gaveta pelo menos três vezes, acompanhando a rotação de delegados que passavam pelo cargo como se fosse estação de comboios. Chegavam, ficavam alguns meses, pediam transferência e iam embora, levando consigo qualquer continuidade que o caso pudesse ter.
Em 2016, o inquérito foi transferido para a Polícia Federal por determinação do Ministério Público Federal, que acolheu um pedido das famílias, colocando a possibilidade de que o desaparecimento tivesse relação com rotas de tráfico de droga que usavam a Transamazónica como corredor logístico. A PF abriu uma investigação paralela.
Ne ouviu três informantes da região de Rurópolis e requisitou dados de satélite ao IMP para verificar se imagens de agosto de 2015 mostravam alguma movimentação atípica nas proximidades da estrada. Os dados foram inconclusivos. Os informantes não tinham informação específica sobre a carrinha. Seis meses depois, a PF devolveu o caso à Polícia Civil estadual por falta de elementos que justificassem a competência federal.
O caso voltou a Altamira e aí ficou. Neste vazio institucional, as teorias se multiplicaram-se com a naturalidade com que o mato cresce sobre uma estrada abandonada. Cada pessoa que ouvia o história acrescentava uma camada, uma possibilidade, uma explicação que se enquadrava mais no medo do que nos factos.
Moradores da região entre Uruará e placas falavam em emboscada de grileiros. a Transamazónica naquele troço e corta áreas de violenta disputa fundiária, onde os agricultores, madeireiros, poceiros e as comunidades tradicionais coexistem numa tensão que de tempos a tempos explode em morte. Não era raro, diziam, que veículos fossem parados em troços remotos por homens armados que controlavam o acesso a determinadas áreas. Não era incomum as pessoas desaparecerem.
Os camionistas que faziam a rota Altamira e Itaituba com regularidade mencionavam em conversas de posto de abastecimento de combustível e de restaurante de beira de estrada trechos onde os veículos simplesmente desapareciam. Não de forma sobrenatural, de forma prática. veículos que eram tomados, desmontados e vendidos em peças no Surinami ou na Guiana Francesa, cruzando fronteiras por caminhos que nenhum mapa regista.
Pessoas que eram levadas e nunca mais apareciam. A estrada, diziam, tinha as suas próprias regras e quem não as conhecia pagava o preço. Num fórum de internet dedicado à casos não resolvidos, um utilizador anónimo colocou a hipótese de que a carrinha tivesse caído de uma das pontes de madeira que atravessam riachos ao longo do troço.
Estas pontes são estruturas precárias, muitas vezes construídas pelos próprios moradores, sem cálculo de engenharia e sem manutenção. Quando cedem, cedem sem aviso. Um veículo que caísse de uma destas pontes poderia ser engolido pela água e pela vegetação em causa de dias, especialmente durante a estação chuvosa.
A teoria era plausível, mas não explicava porque é que nenhum morador da região terá ouvido o barulho de uma carrinha a cair de uma ponte, nem porque nenhum rasto teria sido encontrado nas margens do igarapés. Outra teoria e repetida em voz baixa nas comunidades ao longo da estrada e nunca formalizada em qualquer depoimento policial era mais simples e mais perturbadora.
dizia que a carrinha tinha sido parada, que as pessoas tinham sido levadas, que alguém sabia exatamente o que tinha acontecido e que esse alguém vivia ali perto, caminhava pela mesma estrada, comprava na mesma mercearia e sentava-se na mesma praça de Uruará ou de placas ou de Rurópolis, sem que ninguém fizesse perguntas.
Porque naquela região fazer perguntas podia custar mais do que ficar em silêncio. As famílias ouviam tudo. Cada teoria era uma faca que entrava devagar. Dalva em Anápolis passou a ter insónia crónica. Dona Irene em Imperatriz desenvolveu uma pressão alta que não tinha antes. O Sr. Valdomiro, em Tucuruí começou a beber. A irmã de Renata em São Luís deixou o emprego e esteve seis meses sem sair de casa.
O grupo de WhatsApp, que nos primeiros meses era ativo e combativo, foi ficando mais silencioso. Não por desistência, por exaustão. Há um limite para o tempo que uma pessoa consegue viver com uma questão que não tem resposta. E este limite não é igual para todo o mundo. Em 2018, 3 anos depois do desaparecimento, o caso foi mencionado pela primeira vez num relatório da Comissão dos Direitos Humanos da Assembleia Legislativa da Pará numa lista de desaparecimentos não resolvidos na região da Transamazónica.
A menção ocupava duas linhas, não gerou nenhuma providência. Em 2020, durante a pandemia, Dalva gravou um vídeo de 4 minutos ao telemóvel, sentada na sala de casa em Anápolis, pedindo a quem soubesse de alguma coisa que entrasse em contacto. Nenhum vídeo foi publicado no YouTube e teve 800 visualizações. Nos comentários havia mensagens de solidariedade, teorias da conspiração e dois comentários que diziam que a história era inventada.
Dalva não respondeu a nenhum. O tempo passou e o silêncio da Transamazónica permaneceu intacto, como sempre esteve. Em março de 2023, uma equipa de topografia contratada por uma empresa mineira com sede em Parauapebas estava a fazer levantamento geodésico numa zona de floresta densa a 12 km a sul da Transamazónica. entre os concelhos de Rurópolis e Placas.
O trabalho era rotineiro. A empresa pretendia solicitar autorização de pesquisa mineral ao DNPM e necessitava de mapas atualizados do terreno. A equipa era composta por três técnicos e um operador de drone que sobrevoava a área em quadrantes para gerar imagens de alta resolução. Se no terceiro dia de trabalho, o operador do drone reparou em algo no monitor.
Uma das imagens captadas a 40 m de altitude aparecia uma forma retangular sob a copa das árvores, parcialmente coberta por vegetação, mas com contornos que não correspondiam a qualquer formação natural. Poderia ser um contentor abandonado, uma estrutura de madeira antiga ou um veículo. O operador marcou as coordenadas e mostrou a imagem para o restante equipa.
Decidiram descer a pé para verificar. O percurso do ponto onde estavam até ao forma detectada pelo drone demorou 40 minutos. 40 minutos a abrir caminho com um facão, pisando em raiz, desviando-se de si pó, espantando mosquito, suando dentro de uma camisa de manga comprida que usavam para se protegerem da carraça. A mata ali era fechada no sentido real da palavra, se o sol entrava em feixes finos que mal chegavam ao chão.
cheiro era de terra húmida, de folha em decomposição, de vida vegetal que cresce sobre si mesma sem parar. Quando chegaram, pararam. Ficaram em silêncio durante alguns segundos. Diante deles, coberta de sipó e trepadeira, com as janelas escurecidas por uma camada de musgo e pó acumulado durante anos, estava uma carrinha Sprinter branca.
As rodas estavam enterradas até metade no solo. A pintura onde ainda era visível estava descascada e manchada de ferrugem. Um arbusto tinha crescido através da grelha dianteira. As janelas estavam fechadas, as portas estavam trancadas, o veículo estava ali inteiro, como se tivesse sido estacionado no meio da floresta e esquecido.
O chefe da equipa de topografia, um engenheiro de nome Márcio Tavares de Souza, fotografou o veículo e anotou as coordenadas GPS e voltou a a base. ligou para a polícia civil de Rurópolis, que por sua vez acionou a A esquadra de Altamira, que por sua vez confirmou que havia um inquérito aberto desde 2015, referente a um sprinter branca com placa de marabá desaparecida na Transamazónica.
No dia seguinte, uma equipa policial saiu de Altamira em direção ao ponto indicado. Levaram um perito criminal, dois investigadores e um serralheiro para abrir o veículo sem danificar as fechaduras. Chegaram ao local a meio da tarde. O serralheiro abriu a porta lateral. O perito entrou primeiro. O que ele encontrou não fazia sentido e ito anos de espera não tinham preparado ninguém para aquilo.
Os 10 cintos de segurança estavam afivelados, todos eles. O cinto do condutor, os cintos dos nove bancos de passageiro. Cada um deles estava bloqueado na posição normal, como se 10 pessoas estivessem ali sentadas e tivessem simplesmente desaparecido sem soltar os cintos. Os assentos estavam na posição vertical. Não havia sinais de impacto, não havia sangue, não havia marcas de luta, não havia qualquer vestígio biológico visível, nem cabelo, nem pele, nem mancha, nada que a olho nu indicasse que os seres humanos tinham estado ali recentemente ou remotamente.
As mochilas estavam no porta-bagagens traseiro, nove mochilas, cada uma com roupa, tenda, lanterna e objetos pessoais. Numa delas estava um caderno com notas de viagem e desenhos de paisagens. Noutra, um saco plástico com documentos RGCPF, cartão do SNS. Os documentos de Raimundo Sérgio estavam no porta-luvas juntamente com o caderninho onde anotava quilometragem e horários.
A última anotação dizia: 14 de agosto. Saí da Altamira 6:12. A chave da carrinha não estava na ignição, não estava em lado nenhum dentro do veículo. O depósito de combustível estava vazio, o câmbio estava em ponto morto. O travão de mão estava puxado. O perito passou 3 horas dentro e à volta da carrinha. fotografou tudo, recolheu amostras dos bancos, dos cintos, do volante, do painel, verificou os chassis, os pneus, o sistema de escape.
Não encontrou projécteis, não encontrou perfurações, não encontrou sinais de arrombamento externo, não encontrou marcas de reboque ou de deslocação forçada. Avan estava ali como se tivesse chegado sozinha de forma voluntária e tivesse ficado. O que o perito também não encontrou, e isso é talvez o mais perturbador, foi qualquer rasto que indicasse ele como saíram 10 pessoas daquela carrinha.
E não havia pegadas preservadas na envolvente, o que era esperado depois de oito anos de chuva e vegetação. Mas também não havia cortes nos cintos, não havia sinais de que as portas tivessem sido arrombadas a partir do interior. Não havia marcas de unhas ou de desespero em nenhuma superfície. Os cintos estavam afivelados de forma convencional, sem torção, sem força anormal, como se cada um dos 10 ocupantes tivesse colocado o cinto, sentado em silêncio e depois simplesmente deixado de estar ali.
O relatório pericial preliminar foi concluído em junho de 2023, 3 meses depois da descoberta da carrinha. Era um documento de 26 páginas, técnico e meticuloso, que confirmava tudo o que a equipa de campo já sabia e não oferecia qualquer explicação para o que não sabia. Confirmou que o veículo era a Sprinter branca, placa de Marabá, registada em nome de Raimundo Sérgio Bonfim, a mesma que partiu de Altamira na manhã do dia 14 de de agosto de 2015.
A identificação foi feita pelo número do chassis, pela chapa, ainda legível sob a camada de sujidade e pelo documento do veículo encontrado no porta-luvas. Confirmou que os 10 cintos de segurança estavam afivelados de forma convencional, sem sinais de bloqueio forçado, ruptura ou manipulação externa. confirmou que não existiam marcas de impacto, capotamento, incêndio ou submersão.
A carroçaria estava íntegra, os vidros intactos, as portas funcionais, o motor não apresentava danos mecânicos visíveis, embora o tanque estivesse completamente vazio e a bateria naturalmente sem carga. O câmbio estava em ponto morto, o travão de mão puxado. A chave não foi encontrada em nenhum ponto do interior ou da envolvente imediata do veículo.
A perícia não encontrou projécteis, perfurações, fragmentos de arma de fogo, nem sinais de arrombamento. também não encontrou nas amostras recolhidos dos assentos e superfícies internas material biológico humano em quantidade suficiente para a análise de ADN, o que, segundo o relatório, poderia ser atribuído à degradação natural ao longo de 8 anos de exposição ao calor, humidade e ação de microrganismos, ou poderia não ser.
O relatório incluía ainda uma análise do terreno em redor da carrinha. A vegetação, segundo o perito, era consistente com um crescimento de aproximadamente 6 a 8 anos, o que coincidia com a data do desaparecimento. Não havia sinais de que o terreno tivesse sido escavado, revolvido ou alterado de forma significativa, não havia restos de fogueira, de acampamento, de construção provisória.
Não havia ossos, não havia tecido, não não havia nada que indicasse que 10 pessoas tivessem vivido, morrido ou permanecido naquele local por qualquer período de tempo. O delegado responsável pelo caso em 2023 era André Luciano Mendes, 41 anos, transferido de Santarém para Altamira 2 meses antes da descoberta da carrinha.
Mendes era um delegado experiente, com passagens pela esquadra de conflitos agrários e por Santarém. Não era o tipo que se impressionava facilmente, mas quando leu o relatório e visitou o local pessoalmente, ficou em silêncio por um tempo que os seus colegas acharam demasiado longo. Mendes deu uma única entrevista a um portal de notícias local denominado Fato Amazónico, publicada em julho de 2023.
Na entrevista foi económico nas palavras. Os disse que o caso estava sendo tratado como desaparecimento coletivo em circunstâncias não esclarecidas. disse que novas diligências estavam a sendo realizadas, incluindo análise de imagens de satélite e consulta de bases de dados de outros estados. Disse que as famílias estavam a ser informadas.
Quando o repórter perguntou de forma direta como era possível que 10 pessoas saíssem de uma carrinha com os cintos afivelados sem deixar qualquer rasto, o delegado ficou em silêncio durante 4 segundos. Um tempo longo para quem está a ser gravado. Antes de responder, que esta era exatamente a pergunta que ele também gostaria de responder, a Dalva soube da descoberta da carrinha por uma ligação do delegado Mendes no dia 23 de março de 2023.
Estava na cozinha de casa em Anápolis fritar ovo para o almoço quando o telefone tocou. O delegado se identificou. L disse que o veículo tinha sido localizado e explicou com a cautela de quem sabe que cada palavra pode destruir ou reconstruir alguma coisa, que não tinham sido encontrados restos humanos no interior do veículo, nem nas imediações.
Dalva ouviu tudo de pé, com a frigideira ainda no fogo. Quando desligou, desligou também o fogão, sentou-se na cadeira da cozinha e ficou ali sem se mexer. durante um tempo que ela depois não soube precisar. Não era alívio, não era desespero, era uma coisa sem nome que ocupava o espaço entre os dois e que A Dalva, passados 8 anos, já conhecia como se conhece uma dor crónica, presente, constante, parte do corpo.
No grupo de WhatsApp, a notícia caiu como uma pedra num poço fundo. Don Irene enviou um áudio a chorar. Seu Valdomiro enviou uma mensagem de texto com apenas duas palavras. E agora? A irmã de Renata não respondeu nessa noite. Respondeu dois dias depois, dizendo que não sabia se a descoberta da carrinha tornava as coisas melhores ou piores.
Ninguém soube responder. O inquérito continua aberto. Não há previsão de conclusão. Não há suspeitos. Não há corpos. Não há explicação. Há uma carrinha encontrada no meio da mata com 10 cintos afivelados e nenhuma pessoa lá dentro. E há 10 famílias espalhadas pelo Brasil que continuam vivendo com uma questão que ninguém conseguiu responder.
Passaram os anos e Dalva continua a viver na mesma casa em Anápolis. A foto de Camila, aos 15 anos continua na parede da sala. O telemóvel da Camila, o número pelo menos ainda está guardado nos contactos de Dalva. Por vezes, sem motivo aparente, ela liga, vai diretamente para a caixa de correio. A voz gravada da operadora diz o mesmo de sempre. Dalva ouve. Vespera, desliga.
Não sabe porque continua a fazê-lo. Ou talvez saiba e não queira dizer em voz alta. A Dona Nazaré em Altamira ainda vem farinha na feira do bairro Aparecida. A garagem onde Raimundo Sérgio guardava a vanzia. A Dona Nazaré não aluga, não usa, não entra. A porta está fechada com um cadeado que ela própria colocou em setembro de 2015 e que nunca mais abriu.
Quando alguém pergunta pelo marido, ela diz que ele saiu para trabalhar. Não diz mais nada. Em Tucuruí, o senhor Valdomiro deixou de beber em 2021, depois de um enfarte que quase o levou. voltou a trabalhar na lavoura. Não fala mais do filho, mas os vizinhos dizem que de vez em quando pára no meio da estrada de terra que liga o sítio à cidade, olha para o horizonte e fica ali parado, como se estivesse à espera de alguém que deveria aparecer no fim do caminho.
A Transamazónica continua ali. A estrada continua de terra em boa parte do trecho. As pontes continuam a ser de madeira. O mato continua a fechar dos dois lados. De vez em quando, uma carrinha ou um camião passa levantando poeira vermelha e a poeira demora a baixar. E quando baixa, tudo está como antes, como se ninguém tivesse passado, como se ninguém tivesse estado ali.
10 pessoas entraram numa carrinha numa manhã de Agosto. A carrinha, as pessoas não. E no espaço entre estes dois factos, entre a carrinha e as pessoas que deveriam estar dentro dela, existe uma questão que o relatório não respondeu, que o delegado não respondeu, que 8 anos de silêncio não responderam. Uma questão que 10 famílias transportam todos os dias, desde o pequeno-almoço até ao hora de dormir e que talvez continuem carregando para o resto da vida.
Porque certas perguntas não foram feitas para terem resposta, foram feitas para lembrar que o mundo, por vezes, não faz o menor sentido e que continuamos vivendo nele si mesmo? M.