A Ascensão Incomum: Da Classe Média ao Topo do Crime Carioca
No início dos anos 1980, mais especificamente em 1982, nascia Celso Pinheiro Pimenta. Ao contrário do estereótipo comum que envolve a criminalidade carioca, Celso não cresceu em uma comunidade carente, tampouco enfrentou a escassez de recursos na infância. Ele nasceu na classe média do Rio de Janeiro e cresceu no tradicional bairro de Laranjeiras, uma região de classe média e classe média alta na Zona Sul da cidade.
O ambiente familiar oferecia estabilidade econômica. Seu pai era um trabalhador autônomo, proprietário de uma banca de jornal. Entre os anos 1980 e 1990, possuir uma banca de jornal representava uma fonte de renda sólida e garantia uma qualidade de vida confortável, visto que era o principal ponto de acesso a revistas, jornais e informações cotidianas. Graças a essa condição, Celso teve a oportunidade de estudar em escolas particulares durante a sua formação.
A transição para a criminalidade começou na adolescência. Aos 15 anos de idade, ele passou a realizar roubos em bairros nobres e de classe média da Zona Sul, como Botafogo. Nessa fase inicial, entre os 15 e 16 anos, ele operava sob o codinome de “Mamadeira”.
A trajetória de jovens da classe média que migram para o crime sempre despertou um misto de fascínio e grande preocupação na sociedade carioca. O Rio de Janeiro já havia testemunhado fenômenos semelhantes em décadas anteriores, como o caso de Lúcio Flávio nos anos 1960 e 1970, um criminoso oriundo da classe média que desafiou as autoridades. Nos anos 1990, o cenário foi marcado pelo movimento dos pit boys — conhecidos pela agressividade em baladas e festas, o que levou muitos jovens à criminalidade — e pela figura do “Mauricinho de Botafogo”, que ganhou ampla notoriedade na imprensa. A cobertura jornalística sobre esses jovens de classe média gerava forte repercussão entre os leitores da própria classe média, temerosos pelo futuro de seus filhos, o que consequentemente ampliava a venda de jornais.

O Elo com Pedro Dom e o Primeiro Contato com o Tráfico
A trajetória de Celso Pinheiro Pimenta sofreu uma mudança drástica quando ele conheceu Pedro Machado lomba Neto, amplamente conhecido como Pedro Dom. Celso, que já atuava no crime de forma periférica como ladrão de carros e praticando pequenos roubos, elevou seu status no submundo ao integrar a quadrilha de Pedro Dom, especializada em assaltos a residências e condomínios de luxo.
Pedro Dom também era um jovem de classe média da Zona Sul do Rio de Janeiro, filho de um policial militar de destaque. Ele articulou uma quadrilha focada em invadir imóveis de alto padrão nas áreas mais abastadas da cidade. A dinâmica do grupo baseava-se fortemente na “passabilidade” de Pedro Dom: por ser branco e possuir a fisionomia típica de um jovem morador da Zona Sul, ele transitava sem levantar suspeitas em ambientes de elite, conseguindo acessar locais controlados com maior facilidade.
Celso tornou-se o último remanescente da quadrilha de Pedro Dom a permanecer em liberdade. A conexão com Pedro Dom foi o canal definitivo que introduziu Celso ao universo do tráfico de drogas. A quadrilha realizava frequentes assaltos na região de São Conrado, bairro vizinho à comunidade da Rocinha. Para escapar das ações policiais após os roubos, Pedro Dom e seus comparsas utilizavam a Rocinha como esconderijo.
Na comunidade, o grupo interagia diretamente com lideranças locais do narcotráfico, como os traficantes Lulu da Rocinha e Bem-Te-Vi. Ambos faziam parte da facção criminosa Amigo dos Amigos (ADA). Pedro Dom mantinha uma relação constante com as favelas, e parte de sua organização era composta por moradores dessas comunidades, evidenciando a interseção mútua no submundo do crime, independentemente da modalidade delitiva praticada. Foi a partir do contato estreito com Bem-Te-Vi que Celso começou a compreender o funcionamento do tráfico de drogas e a se aproximar da estrutura que viria a integrar formalmente anos mais tarde.
O Golpe na Aeronáutica e o Batismo na ADA
Em 2005, Pedro Dom foi morto pelas forças de segurança. Sendo o único integrante da quadrilha que não havia sido preso, Celso buscou uma mudança temporária de rumo. Por intermédio de um padrinho, ele conseguiu ingressar nas Forças Armadas, passando a servir como soldado na Aeronáutica.
A permanência na instituição, contudo, foi interrompida de forma abrupta por uma ação planejada. No dia anterior à realização da prova para a patente de sargento, Celso decidiu executar o furto de 22 fuzis HK pertencentes ao estoque de armamentos da Aeronáutica. No mercado ilegal da época, cada fuzil possuía um valor estimado entre 20 mil e 40 mil reais. Ao desviar o lote, Celso obteve um patrimônio em armamentos avaliado em cerca de 1 milhão de reais, adquirindo um poder de fogo altamente valorizado em contextos de disputas territoriais.
Ele transportou os 22 fuzis para a Ilha do Governador, especificamente para o Morro do Dendê, que enfrentava um período de intensos confrontos armados. O armamento foi entregue a Fernandinho Guarabu, uma das lideranças criminosas mais conhecidas da região. Guarabu controlava o Dendê sob uma doutrina própria, por ele denominada de “sistema evangélico” de gerenciar o tráfico, que incluía medidas como a expulsão de terreiros de umbanda da comunidade e a proibição da transmissão de filmes adultos na rede clandestina de TV a cabo (“gato net”). A Ilha do Governador vivenciava uma guerra complexa que envolvia quatro frentes lideradas por Fernandinho Guarabu, Noquinha, Bizulai e Marcelo PKD.
A aliança com Fernandinho Guarabu foi desfeita devido a um desacordo comercial: Guarabu não realizou o pagamento estipulado pelas armas. Em resposta, Celso furtou novamente os mesmos fuzis do Morro do Dendê e os retirou da comunidade. Ele transferiu o armamento para o Complexo da Maré, onde estabeleceu contato com o traficante Sassá. Diante do aporte do poder de fogo, Sassá o batizou oficialmente na facção Amigo dos Amigos (ADA). A partir desse momento, Celso consolidou sua nova identidade no crime, passando a ser conhecido expressivamente como Playboy.
Nesse período, a movimentação de lideranças criminosas entre diferentes comunidades exigia grandes aparatos logísticos. Os deslocamentos não ocorriam de forma isolada, mas em “bondes” compostos por oito a dez veículos blindados por fuzis. Diante de comboios desse porte, as patrulhas rotineiras da polícia, compostas geralmente por uma viatura e quatro policiais armados com pistolas calibre .40, encontravam-se em severa desvantagem operacional, restando frequentemente a opção de evitar o confronto direto para preservar a integridade da equipe.
A Era das UPPs e a Fama de Invasor de Morros
A consolidação de Playboy na estrutura da ADA coincidiu com uma transformação profunda na segurança pública do Rio de Janeiro: a implementação das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). Esse projeto alterou radicalmente a dinâmica criminal do estado. As forças policiais ocupavam os morros, instalavam bases operacionais em contêineres e desalojavam os grupos que controlavam o comércio de drogas nessas localidades.
A política das UPPs concentrou-se inicialmente nas regiões de interesse turístico e comercial, sobretudo na Zona Sul da capital. Essa ocupação forçou a migração em massa de traficantes para outras áreas do município, desencadeando um período de intensas disputas territoriais, conhecido como a “guerra dos morros” ou a era das invasões. Enquanto a Zona Oeste assistia à expansão das milícias, a Zona Norte tornou-se o principal palco de confrontos entre facções rivais por novas bases operacionais.
Os traficantes desalojados da Zona Sul buscavam refúgio e novas fontes de receita invadindo territórios de grupos oponentes. Comunidades controladas pelo Comando Vermelho (CV) passaram a ser alvos sistemáticos da ADA, e vice-versa. Nesse cenário, o controle de armamento pesado era o fator decisivo para o sucesso das incursões. Portando os fuzis HK obtidos anteriormente, Playboy destacou-se pela capacidade operacional de liderar táticas de tomada de territórios, ganhando a reputação de “invasor de morros”.
“O bagulho é bala até o final. Você é uma facção, eu sou outra. É guerra de gangue.”
Diante de seu desempenho, a cúpula da ADA enviou Playboy para o Complexo da Pedreira, na Zona Norte, um dos principais redutos da facção. Ele recebeu a missão de administrar o complexo e capitanear o avanço sobre as comunidades vizinhas. Essa ascensão colocou Playboy em rota de colisão direta com o traficante Marreta, apontado pelas autoridades como um dos principais líderes do Comando Vermelho especializado em invasões de favelas. A rivalidade entre Playboy e Marreta estendeu-se por cerca de quatro anos, entre 2010 e 2014, alternando intensos tiroteios com provocações diretas e episódios singulares no cotidiano do crime.
Provocações de Quinta Série e os R$ 400 do Almoço
A disputa entre as duas lideranças era marcada por uma forte vertente psicológica. Playboy utilizava canais de comunicação para ironizar e provocar Marreta de forma contínua. Em uma ocasião, aproveitando a proximidade do território de Marreta com as obras do Centro Olímpico — que estava sendo preparado para sediar os Jogos Olímpicos —, Playboy realizou uma incursão armada ao local. Durante a invasão, ele tirou fotos portando fuzis dentro da piscina do complexo esportivo e enviou uma mensagem de áudio direcionada ao rival.
No áudio, Playboy desdenhava da segurança do oponente e ironizava o controle territorial:
“Ó a piscina aqui da sua região, tá maravilhosa. Adorei a piscina, adorei a piscina. Esculachou, se ligou? Complexão tá tudo dominado. E outra coisa, hein: pode vir com bondão da onde for, parceiro. Eu adentro o seu território o momento que eu quiser portando bico de fuzil. Esse é o recado.”
O confronto pessoal consistia em constantes tomadas e retomadas de territórios, com destaque para a disputa pelo Morro do Jorge Turco, alvo frequente das incursões de Playboy, enquanto Marreta tentava manter as posições do Comando Vermelho.
Paralelamente às ações beligerantes, Playboy adotava posturas ambíguas que surpreendiam os agentes de segurança. Durante um período eleitoral, uma equipe composta por quatro policiais militares foi designada para realizar a guarda das urnas eletrônicas no interior do Complexo da Pedreira. A equipe foi surpreendida pela chegada de um comboio de quatro carros tripulados pelo bando de Playboy. Em nítida desvantagem de poder de fogo, os policiais anteveram um confronto fatal. No entanto, o próprio Playboy aproximou-se do sargento responsável pela operação para estabelecer um entendimento. Ele garantiu que a ação do grupo não era direcionada àquela equipe e que o trabalho institucional dos policiais seria respeitado. Ao notar que os agentes não haviam recebido suporte para alimentação, Playboy deixou a quantia de R$ 400 para que fizessem o almoço, retirando-se em seguida sem disparar contra os policiais.
Em outro episódio, durante o período de expansão das UPPs nos arredores da Pedreira, Playboy efetuou uma ligação telefônica para a base local da unidade policial. Ele solicitou formalmente uma trégua de 24 horas, comprometendo-se a não realizar disparos contra os policiais desde que a recíproca fosse mantida. O motivo alegado foi a necessidade de realizar a distribuição de presentes de Natal para as crianças moradoras da comunidade. A ação foi executada sem o registro de confrontos naquele dia.
Essa postura diferenciava Playboy de parte da nova geração de chefes do tráfico que emergia no Rio de Janeiro. Devido à alta rotatividade provocada pela guerra dos morros, muitas lideranças eram jovens violentos e sem vínculos afetivos ou históricos com as comunidades que passavam a gerenciar. Era comum que um indivíduo nascido na Serrinha passasse a controlar o Morro do Juramento estritamente como um emissário focado em manter o domínio pela força. Playboy, de forma oposta, buscou construir uma base de sustentação fundamentada no assistencialismo e no carisma local.
O Comando em Comodato e o Desafio ao Estado
Na estrutura do crime organizado do Rio de Janeiro, os verdadeiros proprietários dos territórios e complexos de favelas frequentemente encontram-se custodiados em unidades do sistema penitenciário estadual ou federal. Quem atua em liberdade exerce a função de “frente” da comunidade — o indivíduo responsável pela gestão operacional e pela defesa armada do território a qualquer custo. Durante o auge das UPPs, a pressão das forças de segurança elevou a exigência sobre essa função. Aqueles que demonstravam habilidade para manter o controle territorial sob forte pressão externa ganhavam prestígio e assumiam o comando em regime de comodato. Playboy consolidou-se nessa posição, tornando-se o chefe operacional e o principal articulador da ADA nas ruas, mantendo a facção em patamar competitivo.
O nome de Playboy entrou definitivamente no radar prioritário das autoridades de segurança pública após um episódio de grande repercussão em uma via expressa do Rio de Janeiro. Durante um intenso tiroteio entre o bando da Pedreira e a facção rival do Morro da Mineira, projéteis atingiram veículos e feriram civis que transitavam pela avenida. Diante do impacto da ação na opinião pública, Playboy realizou uma ligação telefônica para o chefe da facção rival para propor uma cessação mútua das hostilidades, argumentando que as mortes de civis prejudicavam as operações comerciais de ambos os lados.
“Cara, vamos cessar fogo que tá morrendo gente da população, tá ficando ruim para todo mundo. É um papo de homem, se ligou? Bandido para bandido. O bagulho é cessar fogo, mano. Cessar fogo tanto de um lado quanto do outro. Se nós pegar para trocar tiro, 10 a 0 nós troca em qualquer favela aí.”
A superexposição de Playboy — que passou a ser homenageado em composições de funk carioca e a frequentar bailes públicos com regularidade — acelerou a reação do Estado. A cobertura midiática diária transformou sua captura em uma meta prioritária para o governo.
A tensão escalou quando Playboy concedeu uma entrevista gravada a José Júnior, liderança da organização social AfroReggae. Na gravação, ao ser questionado sobre sua identidade e seus objetivos, ele declarou:
“Sou um ser humano que tentou ser trabalhador, mas a circunstância da vida não permitiu. Eles me chamam pelo vulgo de Playboy. Meu objetivo é ter uma vida tranquila, porque a gente só dá valor às vezes àquilo que a gente perde. Eu tenho consciência das minhas pendências com a justiça. Mas o que chega para mim é que não querem me prender.”
A veiculação da entrevista na televisão e nos jornais foi interpretada pela cúpula do governo fluminense como uma afronta direta às instituições de segurança, visto que um dos criminosos mais procurados do estado exibia-se publicamente enquanto a polícia não conseguia localizá-lo. A partir desse momento, iniciou-se uma mobilização interagências para sua captura.
O estopim definitivo ocorreu na virada do ano de 2014, quando Playboy foi acusado de planejar e ordenar o roubo em massa de cerca de 200 motocicletas acauteladas no pátio do Detran do Rio de Janeiro, situado na Zona Norte. A ação foi executada como uma demonstração ostensiva de poder: um comboio composto por 193 motocicletas circulou pelas vias públicas da Zona Norte sob o comando de sua quadrilha, enviando uma mensagem de desafio direto à autoridade do Estado. Após esse evento, a Coordenadoria de Recursos Especiais (CORE), unidade de elite da Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro, assumiu a responsabilidade direta pelas investigações e incursões focadas na localização do traficante.
O Fim da Caçada e o Mito Comunitário
Ciente de que era o principal alvo das forças de segurança e que facções rivais também colaboravam com informações para retirá-lo de circulação, Playboy adotou uma rotina estrita de fuga. Ele evitava pernoitar por duas noites consecutivas no mesmo endereço, realizando um rodízio constante entre residências e comunidades controladas por aliados da facção ADA. No entanto, o cerco operacional da CORE mantinha uma pressão contínua.
A caçada terminou durante uma operação conjunta que envolveu a Polícia Civil, a Polícia Federal e setores de inteligência militar no Complexo da Pedreira. O desfecho da incursão resultou na morte de Celso Pinheiro Pimenta. De acordo com os relatórios oficiais da CORE, houve resistência armada por parte do traficante e de seus seguranças, gerando um confronto no qual Playboy foi baleado e não resistiu aos ferimentos. Entre moradores da comunidade, contudo, perpetuou-se a versão de que não teria ocorrido reação por parte do criminoso no momento da abordagem.
A trajetória de Playboy evidenciou uma capacidade acentuada de identificar e explorar oportunidades no ambiente do crime organizado. Ele migrou de pequenos roubos na Zona Sul para uma quadrilha de assaltos de alto padrão; utilizou sua passagem pelas Forças Armadas para capitanear um arsenal que lhe garantiu trânsito e alianças com grandes chefes do tráfico; e capitalizou o cenário de instabilidade gerado pelas UPPs para estruturar um modelo operacional baseado na retomada de territórios, alcançando o topo da pirâmide do crime fluminense ao assumir o controle de um complexo de favelas.
O funeral e o sepultamento de Playboy refletiram o impacto de sua figura na região da Pedreira. Estimativas apontaram a presença de 500 a 600 pessoas nos atos fúnebres. Enquanto os setores institucionais e a imprensa o apontavam como um elemento nocivo e violento para a sociedade, parcelas significativas dos moradores locais o tratavam com contornos de herói comunitário, devido às práticas assistencialistas adotadas durante a sua gestão.
A cobertura jornalística do funeral foi marcada por hostilidades. Equipes de reportagem que acompanhavam o caso há meses foram recebidas com violência por parte dos presentes, resultando em agressões físicas contra profissionais de imprensa e na destruição de equipamentos de filmagem. O evento contou com o envio de mais de 100 coroas de flores e episódios de desentendimento familiar entre suas companheiras no interior do cemitério, demonstrando que a repercussão e as controvérsias em torno de Celso Pinheiro Pimenta estenderam-se para além de sua morte.
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