A história num relato baseado em factos reais da vida de um camionista que aconteceu na BR319 vai surpreender-te. Aperte aí o cinto com força e vem, meu amigo, vem, minha amiga, descobrir o que acontece nas estradas do Brasil. João Cléber parou o camião perto do marco do qum 832 da estrada BR319 no troço mais isolado, conhecido por todos como vazio absoluto.
Conhecia cada palmo daquele troço, cada ponto de paragem improvisada, cada curva perigosa, cada ponte precária, cada silêncio que dizia mais do que mil vozes. Naquele final de tarde abafado, ele apenas queria encontrar um local seguro para passar as próximas 2 horas antes de seguir viagem para Manaus com a carga de equipamento hospitalares.
Estava a terminar o último gole de refrigerante quando avistou o figura feminina a caminhar no acostamento. Vestia branco dos pés à cabeça e o vestido comprido colado ao corpo, destacava-se de tudo. Andava devagar, como quem não tinha pressa ou destino certo. João reduziu a marcha e encostou. Desceu o vitro da porta do boleia e disse: “Vais para onde, rapariga?” Ela olhou para ele com uma expressão que não mostrava medo nem simpatia, apenas uma presença firme e direta.
“Vais para onde?”, devolveu ela sem hesitar. “Manaus, queres boleia? Aqui é perigoso para estar a andar a pé desse jeito. Ela juntou as mãos sobre o vestido e fez um ligeiro gesto com a cabeça. Aceito. O João abriu a porta. Ela subiu para a cabine e ajeitou-se no banco. O camionista ligou o motor e voltou para a estrada.
Nenhum dos dois disse nada nos primeiros 20 minutos. Ele apenas o observava pelo canto do olho. Ela mantinha as mãos no colo, os olhos fixos no painel. Você vai para Manaus também?”, perguntou o João, quebrando silêncio. “Talvez”, respondeu ela. “Tô indo para algum lado.” João estranhou o forma vaga de responder.
Esperava no mínimo um nome, um bairro, uma história, mas ela não ofereceu nada. E o seu nome posso saber? Não tenho qualquer importância. Sou só uma mulher por aí. A resposta ecoou dentro da cabine como uma porta sendo fechada. O João coçou a nuca e resolveu não insistir. Ela parecia limpa, arranjada e educada, mas havia algo deslocado.
O vestido era de noiva, com vel dobrado nos ombros e um pormenor prateado nas costas. Nenhum sapato, estava descalça. O João engoliu a vontade de perguntar mais alguma coisa. Tá com fome? Ten aqui uns pães com mortadela. Aceito apenas um pedaço. Ela pegou com delicadeza e comeu devagar. Cada dentada parecia calculada, como se estivesse comendo pela última vez.
Não pediu água, não agradeceu, apenas entregou o papel de volta dobrado com cuidado. Depois de algumas horas, a estrada começou a escurecer. O João ligou os máximos e manteve a velocidade constante. “Você fugiu de algum casamento?”, perguntou ele, tentando quebrar o clima. “Eu não fugi, fui deixada. No altar, ela abanou a cabeça negativamente.
Na vida, o João engoliu em seco. A conversa não rendia, mas era impossível não ficar intrigado. A mulher falava pouco, mas cada frase vinha carregada de peso. O silêncio entre uma frase e outra dizia muito. “Tem para onde ir?”, insistiu ele. “Tenho, mas não é para hoje.” O João olhou para o relógio no painel.
O marcador estava com um problema, como sempre. Ele guiava-se pelo próprio instinto de estrada, pelos olhos, pela exaustão do corpo. A gente vai parar logo mais num ponto de apoio que eu conheço. Pode descansar um pouco se quiser. Ela não respondeu, apenas ficou olhando pela janela, como se estivesse ver algo que só ela conseguia enxergar.
15 minutos depois, o João entrou numa zona de paragem improvisada, um barracão abandonado que servia de abrigo para quem já conhecia a região. Apagou as luzes, desligou o motor, respirou fundo e virou-se para a mulher. Aqui é tranquilo. Pode ficar na cama de trás se quiser. Eu fico aqui à frente. Ela sorriu pela primeira vez. Um sorriso breve, enigmático.
És gentil, João Cléber. Como sabe o meu nome? Você tem um autocolante com o seu nome no painel e tem cara de homem que ajuda mesmo que não devesse. A mulher foi para a cama atrás da cabine, deitou-se sem silêncio. Ele percebeu que já não havia o que perguntar. Dormiu de olhos abertos, desconfiado, sem sono real. Durante a madrugada, acordou com a porta do camião a abrir.
Levantou-se num pulo, olhou para trás. A cama estava vazia. A porta lateral estava entreaberta. Saiu correndo. Procurou com o olhar. Nada. Nenhum sinal da mulher, nenhuma pegada, nenhum rasto. abriu o baú do camião, verificou se algo havia sido levado. Tudo intacto, o frigorífico de esferovite fechado, os bens pessoais no mesmo local, tudo igual, menos a presença dela.
Voltou paraa cabine. No banco onde ela sentou-se, havia um pedaço do vestido rasgado e em cima dele um bilhete escrito à mão: “Obrigada por não ter perguntado demais. Mulheres como eu não t resposta, apenas partida. O João ficou imóvel, passou as mãos no rosto, virou o bilhete do avesso. Nenhuma assinatura, nenhuma pista, apenas aquilo.
Nessa noite, o João não conseguiu mais dormir. Passou o resto do tempo acordado com os olhos fixos no retrovisor, como se esperasse que ela aparecesse de novo. Mas ela não apareceu. João Cléber acordou com o sol já alto, o camião parado no mesmo lugar e o bilhete ainda sobre o banco do carona. Leu mais uma vez aquelas palavras escritas com letra fina, letra de mulher.
Obrigada por não ter perguntado demais. Mulheres como eu não t resposta, apenas partida. Dobrou o papel com cuidado, guardou-o dentro da carteira, como quem reconhece que algo invulgar tinha acabado de acontecer. Virou a chave do camião, ajeitou a coluna, engatou a primeira e voltou a estrada. Mas o motor estava pesado, como se arrastasse consigo mais do que carga.
A cabeça rodava. João Cléber era um homem vivido, 47 anos, mais de 20 na estrada, dormindo posto, comendo que dava, conhecendo gente dos quatro cantos do país. Mas aquilo aquilo não era comum. Caramba, estranho”, murmurou para si mesmo com a mão esquerda apoiada no volante. “Viajo há tantos anos pelas estradas do Brasil, mas encontrar uma noiva perdida por aqui na BR319, uma mulher misteriosa, calada daquele jeito, esta é a primeira vez que acontece comigo.
” Ligou o som do camião, mas não deixou tocar mais do que 2 minutos. Desligou. A mente estava demasiado inquieta. precisava de colocar as ideias no lugar. Decidiu parar na próxima cidade que tivesse sinal. Precisava de saber se aquilo era coisa só dele ou se alguém mais já tinha vivido algo semelhante.
Encostou-se numa venda improvisada à entrada de Careiro Castanho. Era ali mesmo. Estacionou o camião, pegou no telemóvel e abriu a agenda de contactos. A primeira ligação foi para Dalma, um parceiro antigo que circulava por aquela região há pelo 15 anos. atendeu logo ao primeiro toque. Fala, João. Andas por onde? Tô aqui na BR319, à altura do careeriro.
Jalma, posso perguntar-te uma coisa meio doida? Manda. Alguma vez viu ou ouviu falar de alguma mulher tipo noiva andar sozinha por aqui? Do outro lado da linha, silêncio. Depois de alguns segundos, noiva sozinha aqui nesta estrada. É uma mulher com um vestido de noiva branca, descalço, não quis dizer o nome, disse que era apenas uma mulher por aí. João, vou falar-te real.
Já vi maluco a andar pelado. Já vi camião sem freio a descer a colina, já vi assombração em curva de madrugada, mas noiva a andar sozinha aqui, nunca vi. Porreiro, obrigado. Desligou, rolou a lista de contactos e ligou para outro colega, o Alexandre, que fazia percurso entre uma Itá e Porto Velho. Alô. Fala, Xandão.
Deixa-me perguntar-te uma coisa esquisita. Se for sobre dinheiro, já estou devendo. Se for sobre mulheres, manda. Já cruzou por aqui na BR319 com alguma mulher vestida de noiva, andando a pé sozinha? Alexandre riu alto. Tá a brincar comigo? Estou a falar sério. Tá doido, João. Aqui o que aparece de mulher é apenas imposto e mesmo assim é raro.
Noiva, então, só se for a uma penada. A terceira chamada foi para Newton, conhecido como o velho Newton, a rodar há 32 anos, experiente, tranquilo, homem de palavra. João, tu está bem? Estou, mas estou intrigado. O que foi? Já ouviu algum caso ouviu com os seus próprios olhos uma mulher vestida de noiva a passear por aqui na BR? Nunca.
Mas agora que falaste, houve um gajo que comentou uma vez sobre uma mulher vestida de branco que desapareceu do nada. Isto foi há uns 4 anos, mas ninguém levou a sério. Disseram que ele estava bêbado. Lembra-se quem era? Um tal de Marquinhos de Porto Velho desapareceu da estrada. O camião dele foi achado parado, vazio, com a porta aberta.
Disseram que abandonou tudo. João ficou calado. O nome não lhe era estranho. Lembrava-se vagamente de ter ouvido aquela história numa roda de camionistas anos atrás, mas não tinha dado atenção. Pensou em ligar para mais alguém, mas decidiu guardar aquilo para si por enquanto. Guardou o telemóvel no bolso, comprou um refrigerante quente e um pacote de bolachas recheadas na venda e voltou para o camião.
O peso da dúvida não saía da cabeça. Os colegas, todos rodados, experientes, riram-se da história. Negaram qualquer experiência semelhante. Ninguém conhecia aquela mulher. Ninguém nunca tinha ouvido falar em noiva perdida na BR3119. Ligou o motor, pegou no volante com firmeza, engrenou a marcha. A estrada seguiu em frente, mas ele ficou parado por dentro.
João Cléber precisava de seguir viagem, mas antes ainda tinha uma obrigação pendente naquela região, transportar uma carga de soja. A empresa que contratou o frete aguardava-o numa propriedade nos arredores de Careiro da Vársia. Como a estrada principal tinha desvio por causa de uma ponte interditada, ele decidiu pegar um atalho.
Nesse caminho, notou que o pneu traseiro do lado direito estava com a pressão baixa. Era melhor não arriscar. Do outro lado, um senhor muito idoso, de corpo magro, calças antigas e uma camisa desbotada, trabalhava com esforço. Estava encurvado, mas ainda era firme nas mãos. A mulher, dona do carro, aguardava sentada em um tamborete, sem pressa.
João estacionou o caminhão e desceu devagar. Bateu na porta do carona duas vezes, como fazia sempre que parava em algum canto mais afastado. Era mania. aproximou-se com respeito e puxou o assunto com o senhor. E aí, amigo? Bom dia. O velho virou o rosto devagar, limpou as mãos num pano escuro e respondeu com voz arrastada: “Bom dia, companheiro.
Problema no pneu? Tá baixo de trás, mas antes de falar disso, me tira uma dúvida. Uma coisa fora do comum, posso?” O borrachiro limpou o suor da testa e apenas fez um gesto com a mão para que João continuasse. Você já ouviu alguma história por aqui dessas de mulher que fugiu de casamento, mulher que largou marido, vestida de noiva pedindo carona para caminhoneiro? Tipo uma noiva perambulando por essas bandas? O velho parou, deixou a chave de roda cair no chão com cuidado, ficou olhando o chão por alguns segundos.
O silêncio pesou, depois falou baixo. Você viu a noiva? João deu um passo para trás, surpreso com a pergunta direta. Eu vi, dei carona, mas ela sumiu. Sumiu mesmo. Não sei o que pensar. O borracheiro coçou a cabeça, andou até uma pilha de pneus velhos e puxou um caixote de madeira. sentou-se com dificuldade.
A mulher do carro continuava calada, observando de longe. Essa noiva aí, ela aparece de vez em quando. Só para alguns já me contaram sobre ela faz muito tempo. Tinha um caminhoneiro que parava aqui nos anos 90. Ele dizia que um dia viu uma mulher vestida de noiva andando no meio da estrada. Era perto da meia-noite. Ele pensou em parar, mas algo travou.
Quando olhou no retrovisor, não tinha mais ninguém. João cruzou os braços, encostado no para-choque do caminhão. O velho continuou. Teve outro chamado Carlão, que rodava muito por essa rodovia. Jurou que viu ela duas vezes, uma em 1998, outra em 2005, sempre no mesmo trecho, vestido branco, vé, descalça, andando devagar.
Ele dizia que parecia uma coisa de outro mundo, mas nunca teve coragem de parar. João coçou o queixo pensativo. E esses caras, eles falavam de onde ela vinha? Quem era? Ninguém sabe. Uns dizem que era uma moça que morreu esperando o noivo no altar. Outros falam que ela foi assassinada por engano, confundida com outra mulher.
Tem até quem diga que ela se matou porque o marido foi embora com a irmã, mas ninguém nunca provou nada. João tirou o boné, bateu contra a perna e voltou a falar. Cara, eu acredito em disco voador. Juro, já vi coisa esquisita demais nessa estrada. Mas noiva do lenha aparecendo e sumindo. Primeira vez que isso me pega de frente. O borracheiro respirou fundo e disse: “Você não é o primeiro, mas foi o primeiro que me contou que deu carona para ela.
Os outros todos só viram, nunca tiveram coragem. Você teve.” João esfregou as mãos e olhou de volta pra estrada, tentando organizar tudo dentro da cabeça. Eu conversei com ela, ela comeu pão comigo, subiu no meu caminhão, dormiu lá, depois sumiu e deixou um bilhete. Disse que era só uma mulher por aí. O velho fechou os olhos por um instante, como se ouvisse aquilo pela centésima vez, mas vindo de outra duca.
Essa frase, já ouvi ela antes. Um rapaz chamado Marquinhos falou isso antes de sumir. Ele deixou um áudio paraa esposa dele dizendo que encontrou uma mulher sem nome, que só dizia que era uma mulher qualquer, uma mulher por aí. Depois disso, ninguém mais viu ele. O caminhão apareceu no acostamento, mas ele nada. João arregalou os olhos.
O nome Marquinhos tinha voltado pela segunda vez naquela semana. já tinha ouvido isso ao telefone com Newton. Você lembra o sobrenome dele? Não. Só sei que era de Porto Velho e rodava com caminhão trucado vermelho. João assentiu com a cabeça e ficou em silêncio. O borracheiro levantou devagar e apontou para o pneu. Vou encher para você.
Tá baixo mesmo. Melhor garantir antes de carregar a soja. Valeu, parceiro. Enquanto o velho cuidava do pneu, João voltou pra cabine do caminhão. Ficou ali parado, com a mão no bilhete dentro da carteira. O que antes parecia um encontro estranho, agora se tornava um mistério crescente. Aquela mulher não era comum, não era passageira.
Era alguma coisa que o tempo tentou apagar, mas que ainda insistia em aparecer de tempos em tempos. A estrada chamou de novo. João precisava seguir, mas algo nele já não era o mesmo. João Cléber já tinha saído da borracharia. A carga de soja foi colocada no caminhão sem imprevistos. Assinou os papéis, conferiu o selo, verificou os pneus, as luzes, a parte elétrica e seguiu em direção a Manaus.
Mas a sua cabeça não estava na viagem. Os olhos acompanhavam o asfalto, os radares e os desvios, mas os pensamentos estavam presos ao excerto anterior, a mulher de branco ao banco do pendura vazio. No silêncio da cabine, com o radioamador desligado, João escutava apenas o leve ruído do motor.
O ruído era quase um zumbido distante, entrando pela parte inferior da porta e espalhando-se pelo banco. Aquilo que antes trazia conforto, parecia agora uma banda sonora de perguntas sem resposta. Olhou para um lado, depois para o outro. Ninguém na estrada, nenhum carro à frente, nenhum veículo atrás, apenas ele e os próprios pensamentos embaralhados, misturados com o cheiro do estofo antigo e os ecos de uma voz feminina que só tinha dito frases curtas, secas, demasiado diretas para serem ignoradas.
Ele esticou o braço e ligou o som do camião. O volume baixo encheu a cabine com uma moda sertaneja antiga dos ecrãs que falam de abandono, de partida e de silêncio. A a música entrou como uma memória embutida no ar. João não cantou, apenas ouviu e pensava. Será que aquela mulher queria avisar-me de alguma coisa? disse em voz alta, encarando o retrovisor como se a imagem dela ainda lá estivesse.

Era uma pergunta sincera que o acompanharia por muitos dias, meses talvez. Ele não tinha medo do que aconteceu, de pessoas desaparecida, de cargas que desapareceram, de camionistas que foram encontrados três cidades depois, sem saberem como chegaram lá. Mas aquela noiva era diferente. Ela não ameaçou, não pediu nada, não fugiu.
Ela apenas apareceu, entrou, dividiu o silêncio e depois foi-se embora. Por que alguém faz isso? Porque é que alguém se veste de noiva, caminha descalça por uma estrada deserta, entra no camião de um estranho, fala como se soubesse da vida dele e depois desaparece sem deixar sequer uma marca no chão? O João se lembrava-se dos pormenores, o modo como ela olhava para o painel, como pegava no pão com mortadela, como ajeitava o vel dobrado nos ombros, como respondeu que era só uma mulher por aí. Estas palavras, ditas
sem emoção, eram o que mais incomodava. Eram demasiado simples, demasiado vagas, mas transportavam alguma coisa que ele não conseguia nomear. “O que será que eu tenho de fazer?”, murmurava, apertando o volante com mais força. Será que ela queria que eu ajudasse alguém? Será que aquilo foi um teste? Será que era para mim? Ou foi por acaso? O João não gostava de pergunta sem resposta.
Camionista velho gosta de estrada, mas gosta ainda mais de explicação. E dessa vez a estrada não explicou nada, não deixou pista, apenas deixou o bilhete. E o bilhete não dizia porquê. Quando entregou a carga, o João ficou o mínimo de tempo possível em Manaus. Não quis rodar mais naquele estado.
Não quis prolongar a estadia. Dormiu num posto, acordou cedo, abasteceu e seguiu de volta para casa, no interior de Rondônia. A cabeça continuava cheia, mas a estrada, essa seguiu muda. Ao chegar a casa, foi recebido com o mesmo carinho de sempre. A esposa preparou o almoço, os netos vieram brincar no fim de semana. A rotina tomou conta das horas, mas o João por dentro estava diferente.
À noite, quando todos dormiam, levantava-se e dirigia-se à garagem, sentava-se na escada do lado do camião e ficava a olhar para porta do pendura. Ficava ali quieto por minutos, às vezes horas, a recordar. A vida voltou ao normal. Ele fez novas viagens, entregou outras cargas, atravessou por outros estados, mas nunca mais viu a mulher, nunca mais ouviu falar dela.
Nunca mais alguém lhe contou qualquer história semelhante. Ligava o rádio nas paradas, ouvia os colegas de estrada falando de roubos, buracos, preços, bloqueios. Ninguém mencionava noivas, ninguém falava de desaparecimentos. A história parecia ter morrido ali naquela semana, naquela estrada, naquele banco. Mas a Joana sabia.
Ele sabia o que viveu. O bilhete continuava guardado. Nunca mostrou a ninguém, nem a esposa, nem para os colegas mais próximos. Dizia a todos que era só mais uma viagem, com um pneu furado e uma carga fácil. mentia com facilidade, não por maldade, mas por proteção. Aquilo era dele. E quanto mais o tempo passava, mais a dúvida crescia.
Por quê? Repetia sozinho cada vez que pegava no volante. Porquê eu? A estrada da BR319 ficou para trás. O excerto onde ela apareceu, o local onde desapareceu, o banco onde se sentou. E assim, com o passar dos meses, o mistério transformou-se em silêncio. A estrada seguiu, os pneus rodaram, mas dentro de Joan Cléber, a questão permaneceu.
Quem era aquela mulher? Meses tinham passado desde o desaparecimento da mulher misteriosa. João Cléber seguiu a sua vida, cumpriu contratos, percorreu o Brasil de canto a canto, mas nenhuma viagem o marcou como aquela. Aquela mulher vestida de noiva pedindo boleia. falando pouco, deixando apenas um bilhete e desaparecendo como se tivesse evaporado no ar.
João guardava tudo para si, já não falava com ninguém sobre o assunto. Aquilo passou a fazer parte da vida silenciosa dele, como uma gaveta trancada no fundo da mente. Até que numa tarde, num posto de beira de estrada, encontrou com Boquinha. Boquinha não era camionista, mas era considerado parte da estrada. vivia nos arredores da BR364, vender peças, reparar rádio amador, fazendo favores, organizando rodas de conversa e trocando notícias.
Era pequeno, magro, falador e observador. Tinha uma memória apurada e uma cabeça que funcionava 24 horas por dia. Nessa tarde, enquanto os dois tomavam refrigerante sentados em duas cadeiras de plástico, o João comentou por alto: “Houve uma coisa que me aconteceu, mas é difícil de explicar. Boquinha, que já conhecia o estranho mundo das histórias rodoviárias, ergueu a sobrancelha e cruzou os braços.
Conta lá, João. Nesta estrada nada é tão tão simples quanto parece. João resumiu o que viveu. Falou da mulher de branco, da boleia, do silêncio dela, do bilhete, do desaparecimento, da borracharia, do velho que reconheceu a história, dos colegas que disseram nunca ter visto nada. A Buquinha ouviu tudo sem interromper.
Quando o João terminou, ficou em silêncio durante alguns segundos, depois falou: “João, pára para pensar comigo. Manda. Às vezes esta mulher que te pediu boleia vestida de noiva, talvez não quisesse ser ajudada no sentido físico. Talvez o que ela quisesse era ser lembrada. Talvez tudo aquilo fosse uma tentativa de manter viva uma memória que, por algum motivo, foi apagada.
Às vezes não era propriamente ela. Percebe o que quero dizer? O João franziu o senho intrigado. Explica melhor. Pensa assim: “E se ela estivesse ali para que alguém fosse lembrado? Pode ter sido uma irmana, uma amiga, até mesmo a mãe. Alguém que teve uma história interrompida e precisava que alguém voltasse os olhos para isso? Você foi o escolhido.
E porquê? Porque não é do tipo que ignora. Você é dos poucos que para ajudar. Talvez ela soubesse disso. Talvez ela esperasse justamente por alguém como você. O João olhou para o chão por alguns instantes. Aquilo fazia sentido. Nunca tinha pensado por este lado. Boquinha continuou. E outra, a BR319, é conhecida, tem invisibilidade, tem camionista de todo o tipo passando por lá.
Se ela aparecesse numa ruazinha qualquer, numa aldeia esquecida, ninguém falaria disso. Mas ali ela apareceu no lugar certo. E logo tu, um gajo experiente, antigo de estrada, bom de palavra, foi o escolhido para carregar aquela imagem, aquela mensagem. João respirou fundo. O Boquinha falava com firmeza. E há mais, João? Já pensou se esta mulher não era a noiva original, mas sim a irmã dela? Ou alguém que foi impactado com a morte, ou com o desaparecimento, ou com uma injustiça? Talvez ela só vista o vestido como um símbolo, um modo de provocar. Talvez
tudo seja uma encenação do além, um lembrete de que alguma história ficou mal resolvida e que esta história precisa de ser esclarecida. E quem seria o alvo disto tudo? perguntou o João com a voz baixa. Pode ser qualquer um. Pode ser algum camionista das antigas mal intencionado, que fez algo de errado e nunca foi cobrado.
Pode ser um ex-noivo cobarde. Pode até ser um grupo de homens que riu, troçava, largou alguém no altar ou a deixou morrer sem socorro. Esta mulher pode ser o último recurso para fazer justiça e talvez tenha sido apenas o veículo para tal. O João coçou o queixo pensativo. Pá, você tá me deixando-o louco, mas ao mesmo tempo faz sentido.
O Boquinha sorriu, levantou-se da cadeira e deu dois toques no ombro do amigo. Não é uma questão de fazer sentido, João. É uma questão de fazer eco. Tem histórias que não vêm para ser compreendidas, vêm reverberar. O João ficou parado a olhar para o nada. Pela primeira vez desde que tudo aconteceu, já não se sentia confuso. Agora havia uma possibilidade.
Não era uma resposta, mas era um rumo. E para quem vive da estrada, qualquer rumo já é muito melhor do que estar parado no acostamento da dúvida. João Cléber olhou para a boquinha com firmeza. O refrigerante já estava quente. A conversa tinha arrefecido, mas dentro dele crescia uma decisão.
Era como se algo estivesse a apertar, a pressionar por dentro. As palavras saíram-lhe da boca como se já tivessem sido pensadas por dias. Boquinha, sabes o que vou fazer? Manda, João. Vou ligar para alguma transportadora ali da zona da BR319. Vou tentar mais uma carga por lá. Se eu conseguir, ponho o gasóleo do meu bolso, desengato o cavalinho da carreta e saio rodando apenas com a cabine.
Quero passar por onde estive nesse dia. Quero ver se esta mulher aparece de novo. Eu preciso ver, nem que seja para ficar parado por horas em silêncio. Boquinha abriu um sorriso discreto. Não por deboche, mas por entender que o João não é o tipo que deixava as coisas mal resolvidas. faz isso. Por vezes, o que precisa de aparecer não aparece quando queremos, mas quando a gente volta.
O João não perdeu tempo, ligou para três transportadoras, duas recusaram. A terceira, uma pequena firma de equipamentos agrícolas, ofereceu uma carga leve a ser retirada numa Itá e entregue em Manaus. Nada muito lucrativo, mas suficiente para dar a desculpa que precisava. Aceitou. Três dias depois, João Cléber já estava na estrada, pegou no cavalo da carreta, reviu tudo por conta própria, encheu o tanque com o seu próprio dinheiro, deixou a reboque no estaleiro da empresa em Rondia e seguiu viagem apenas com a cabine.
Fez o percurso completo até ao Maitá, depois subiu de novo em direção à BR319, entrando nos mesmos troços, refazendo os mesmos caminhos. Estava diferente, mais atento, mais disposto. Os olhos varriam a estrada como se procurassem uma agulha no asfalto. A cabeça procurava algum pormenor que escapou antes, uma placa, uma paragem, um desvio.
A cabine estava limpa, organizada, o banco do pendura vazio, como se a qualquer momento fosse ocupado novamente. Durante o dia, ele andava devagar, parava nos mesmos pontos, voltava às vendinhas, aos postos, até ao barracão onde ela desapareceu. Não encontrou nada. Ninguém não se lembrava de nada, ninguém sabia de nada, nem o velho borracheiro estava lá.
O local onde tinha encontrado o senhor Adalto estava fechado, abandonado. A cadeira de madeira, que estava encostada na parede, já não estava lá. À tarde, o João desligava o som e ouvia apenas o motor. Não ligava a rádio, não falava com ninguém. Às vezes comia bolacha e bebia refrigerante morno. Às vezes apenas parava e ficava a olhar para o berma na expectativa de que, como dessa vez, uma mulher aparecesse do nada andando sozinha, sem pressas, descalça, olhando em frente como se carregasse o tempo nas mãos. À noite
dormia com a porta trancada, deixava uma garrafa de água no painel e o bilhete sempre por perto. Lia o bilhete de tempos a tempos. As palavras não mudavam, mas pareciam cada vez mais densas. Obrigada por não ter perguntado demais. Mulheres como eu não t resposta, apenas partida. Releu aquilo pelo menos 20 vezes só nessa semana.
Não conseguia interpretar, não conseguia esquecer e agora, mais do que nunca, queria reencontrá-la, queria perguntar mais, queria ir contra o que ela pedia, porque o silêncio dela transformou-se num buraco dentro dele. A madrugada parecia ser o momento certo. O João abrandava a velocidade, deixava os faróis baixos, guiava como se estivesse à procura de um vulto, mas a estrada apenas entregava o som dos pneus no asfalto, o barulho do motor e o ranger ocasional da suspensão.
Nenhuma mulher, nenhuma sombra, nenhuma noiva. Passou por onde ela tinha subido. Nada. Passou pelo local onde ela desapareceu. Nada. Refez tudo durante mais dois dias. parou novamente em careiro castanho, perguntou a camionistas, borracheiros, vendedores de beira de estrada. Todos abanavam a cabeça e diziam a mesma coisa.
Mulher de noiva aqui, nunca ouvi falar. O nome de Marquinhos, o desaparecido, voltou à sua mente. Pensou em procurar pela família do rapaz, mas não tinha apelido nem cidade exacta, apenas Porto Velho e a história perdida no tempo. Na última noite da busca, Joan parou o camião onde tudo tinha começado. Deixou o motor desligado, abriu os vidros e ficou ali dentro da cabine, de braços cruzados, olhando para o banco do pendura.
O João ligou o motor, pegou no bilhete pela última vez e olhou firme para as palavras escritas ali. Dobrou-o com cuidado, colocou-o dentro do porta-luvas e disse em voz baixa: “Eu tentei”. engrenou a marcha e seguiu. O caminho de volta foi longo, mas ainda mais longo era o vazio que carregava consigo. João voltou para casa com a cabeça mais leve, não porque tivesse encontrado a mulher misteriosa, mas porque sabia que tinha feito que estava ao seu alcance.
tinha ido até ao fim, voltado aos mesmos lugares, andado pelos mesmos quilómetros e escutado o mesmo silêncio. E agora, finalmente, podia guardar aquela história em algum canto da vida. Um canto que ele visitaria de vez em quando, só para lembrar que algumas as coisas não têm resposta e talvez nem precisem de ter.
Chegado a casa, entrou na garagem, desligou o motor, abriu a porta da cabine, pegou no bilhete e desceu. A esposa estava na cozinha, os netos já tinham regressado à cidade. O rádio da casa passava moda e sertanejas como pano de fundo da vida. João caminhou até ao quarto dos fundos, abriu o armário antigo e puxou-o debaixo da cama uma mala velha de couro castanho gasta nos cantos.
Aquela mala tinha rodado o país com ele nos anos 90. Transportava camisas, cuecas, ferramentas, papéis de frete e saudades. Abriu a mala, ajeitou o bilhete entre duas t-shirts dobradas e fechou o fecho. Guardou como se estivesse a colocar um segredo dentro de um cofre. Depois voltou para a sala e passou ali a tarde, sentado na poltrona de sempre, tomando refrigerantes e ver televisão sem prestar atenção em nada.
Nos meses que se seguiram, João seguiu trabalhando. As viagens não pararam. Foram cargas de arroz, cimento, madeira, eletrodomésticos. Rodou pelo Acre, Pará, Mato Grosso, Tocantins, Maranhão. Rodou tudo o que podia rodar. E em cada viagem, uma vez outra, surgia alguma conversa entre amigos de estrada. Ô, João, já viu alguma coisa estranha nas rodovias? Alguma mulher te parou na estrada de noite? O João já viveu alguma coisa em que ninguém acreditaria? Era nessa altura que ele dava uma gargalhada discreta, coçava o queixo e respondia com aquele jeito debochado de quem
transporta um segredo. Já aconteceu sim, mas se eu vos contar vão rir. E contava. Contava sobre a mulher vestida de noiva que encontrou na BR319. dizia que ela pediu boleia, que comeu pão com mortadela, que dormiu na cabine e desapareceu de madrugada. Contava do bilhete, contava do borracheiro que conhecia a história, falava de boquinha, do frete inventado só para lá voltar, dizia que rodou de novo os mesmos trechos, procurando-a, e não encontrou nada. Os colegas escutavam em silêncio.
Uns davam gargalhadas, outros zombavam, outros ficavam pensativos, mas o João encerrava sempre do mesmo jeito. Eu não sei o que era aquilo, o recado que aquela menina misteriosa da BR319 queria passar. Mas uma coisa eu sei. Fazia uma pausa. A vida tem de seguir. E agora o tapetão preto do Brasil me aguarda.
Levantava-se, colocava o boné, dava o último gole do refrigerante e dizia: “Fiquem todos com Deus”. E saía caminhando em direção ao camião, como quem fecha uma história com chave de ouro e engrena a marcha para a próxima. A noiva da estrada tornou-se parte da lenda dele, mas já não dominava os seus dias. Já não era um peso, era uma recordação, um mistério que já não fazia questão de decifrar, porque entendeu que a estrada está cheia destas coisas.
Mensagens que não são para ser compreendidas, mas apenas levadas avante. Como o vento no interior da cabine, como o música sertaneja que toca baixo no som, como as gargalhadas nos postos, como os silêncios nas bermas. Joana Cléber não procurou mais respostas. A mala continuou guardada, o bilhete continuou dobrado, a história continuou viva e a BR319 seguiu sendo aquela estrada longa, vazia, esquecida por muitos, mas eternamente marcada por um encontro que mais ninguém viu, mais ninguém tocou, mais ninguém viveu, apenas ele e para
ele bastava. Ah.