18 Anos Depois, O Mistério das 14 Crianças Desaparecidas em Uma Excursão Escolar em 2007 Ganha Uma
Em 12 de outubro de 2007, uma sexta-feira de feriado prolongado, 14 crianças entre os 9 e os 11 anos subiram num autocarro escolar branco à porta da Escola Municipal Professora Olinda Brito de Souza, no bairro do Parque das Laranjeiras, em Manaus. O ônibus pertencia à câmara municipal. O motorista era funcionário terceirizzado.
A excursão tinha como destino o balneário do Tarumã a cerca de 20 km do centro da cidade, numa zona de ribeiros que as famílias da zona norte conheciam bem. Duas professoras acompanhavam o grupo. Uma delas, Marinalva dos Santos Queiroz, de 52 anos, assinou a lista de presença às 7h12 da manhã com 14 nomes. Às 7:15, o autocarro saiu.
Às 8:40, não das professoras ligou para a coordenação da escola, dizendo que tinham chegado e que as crianças já estavam a descer para a beira do ribeiro. Foi a última comunicação registada. O autocarro foi encontrado às 16 horas do mesmo dia, estacionado na berma da AM010, a 11 km do balneário, com os bancos vazios, as janelas abertas e o motor frio.
No interior havia mochilas, garrafas de água pela metade, uma sandália de criança no corredor e a lista de presenças assinado por Marinalva, dobrado no painel. As duas professoras foram localizadas nessa noite, andando pela margem da estrada em direção a Manaus, em estado de choque. Nenhuma das duas conseguiu dar um relato coerente sobre o que tinha acontecido.
As crianças não estavam com elas, não estavam no balneário, não estavam na estrada, não estavam em lado nenhum. Esta não é a história de um acidente fluvial. Embora a imprensa tenha tratado assim nas primeiras semanas, não é a história de um sequestro coletivo. Embora a polícia tenha trabalhado com esta hipótese durante meses, é a história de 14 famílias do mesmo bairro, da mesma escola, do mesmo autocarro, que numa manhã de feriado mandaram os filhos para um passeio de um dia e passaram 18 anos sem uma resposta que fizesse
sentido. é a história de uma cidade que parou, de uma investigação que se desdobrou em três inquéritos, duas CP estaduais e um processo federal que nunca chegou a julgamento. E é a história do que foi encontrado em 2025 numa zona de floresta densa a 7 km do balneário por uma equipa de topografia que fazia medição para uma linha de transmissão, algo que não encerrou o caso, nem mais que mudou para sempre o que se acreditava saber sobre ele.
O bairro do Parque das Laranjeiras fica na zona norte de Manaus, numa região de casas simples, ruas de asfalto irregular e quintais onde se ouve o barulho dos vizinhos o dia inteiro. Em 2007, a escola Olinda Brito de Souza atendia cerca de 400 crianças do ensino fundamental. A excursão Altar human a tradição de final de ano, um prémio para os alunos com melhor frequência.
Os pais assinaram autorizações, alguns prepararam lanche. Outros deram 2€ para o filho comprar picolé na beira do rio. Nenhum deles imaginou que aquela manhã de sexta-feira seria a última vez que veriam os filhos a sair de casa com a mochila às costas e o chinelo nos pés. Se este tipo de história faz repensar o quanto sabemos verdadeiramente sobre o que acontece longe dos centros urbanos e onde a floresta e o silêncio guardam o que a cidade esquece, podes subscrever o canal e deixar o seu comentário.

A partir daqui, a história avança devagar. Cada detalhe precisa de ser contado pela ordem em que aconteceu, porque a ordem faz parte do que nunca foi explicado. Quantas horas espera uma mãe antes de sair à procura sozinha? O que acontece quando 14 famílias descobrem ao mesmo tempo que os filhos não regressaram? Em que ponto o estado reconhece que perdeu 14 crianças e não sabe dizer como? O que se encontra numa mata depois de 18 anos? E o que significa para quem nunca deixou de esperar? Estamos em Manaus em Outubro de 2007.
O calor é de 34º desde as 6 da manhã. O rio Negro está na vazante. Os ribeiros da zona norte estão baixos, mas com bancos de areia expostos onde as crianças costumam brincar. O Corpo de Bombeiros de Manaus tem três equipas de busca para uma área metropolitana que se espalha por mais de 11.000 km questa urbana e periurbana.
A esquadra mais próxima do balneário do Tarumã é o 19º distrito integrado de polícia, que nesse feriado funcionava com efetivo reduzido. A lista estava escrita à mão, a caneta azul numa folha de caderno pautada que Marinalva tinha arrancado do bloco da secretaria. 14 nomes, 14 idades, 14 assinaturas de responsáveis colhidas nos dias anteriores.
No Alto da Folha, a data, 12 de de outubro de 2007. E o destino, Balneário do Tarumã. Saída às 7 horas, regresso previsto às 15 horas. A coordenadora da escola, Rosângela Pimentel, conferiu a lista e carimbou. Depois da colocou uma cópia na pasta de eventos do semestre e foi tomar café. Quando ass polícia pediu esta cópia 48 horas depois, Rosângela não conseguiu encontrar a pasta.
Disse que talvez estivesse na sala da diretora, que estava de férias. A lista só voltou a aparecer 11 dias depois, dentro de um ficheiro morto, com um café derramado sobre três dos 14 nomes, tornando-os ilegíveis. A identificação completa das crianças demorou mais quatro dias. Esta demora não era em comum para os padrões da rede municipal de ensino de Manaus naquele período.
A escola funcionava com três turnos, quase 1000 alunos no total e um secretaria que operava com duas funcionárias para toda a documentação. Os arquivos eram físicos, guardados em pastas de plástico dentro de armários de aço que enferrujavam com a humidade. Não havia digitalização, não havia backup. A pasta de eventos do semestre ficava junto com atas de reunião, recibos de almoço e ofícios da Departamento de Educação que ninguém lia.
Era o tipo de organização que funciona no dia a dia, mas que se desmorona quando alguém precisa de uma informação com urgência. O comissário Airton Brandão Teixeira, responsável pelo caso, registou no seu relatório preliminar que a demora na identificação completa das crianças comprometeu as primeiras 48 horas da investigação.
Sem saber com precisão quem eram as 14 crianças, não era possível notificar todas as famílias ao mesmo tempo, nem cruzar informações sobre quem tinha visto o que antes da partida do autocarro. Três das famílias só foram localizadas no dia 14 de outubro, dois dias após o desaparecimento. Uma delas, a família Monteiro Duarte, vivia numa ocupação ilegal na beira de um riacho.
no bairro de Santa Eeluvina, sem morada formal, sem telefone fixo e sem vizinho registado na escola. O pai Raimundo Monteiro Duarte trabalhava como ajudante de pedreiro numa obra do outro lado da cidade e só soube que o filho tinha desaparecido quando regressou a casa na noite de domingo e encontrou um bilhete da polícia preso à porta com fita adesiva.
A lista de presenças original, a que Marinalva assinou e deixou em dobro no painel do autocarro, foi recolhida pela perícia e analisada. A caligrafia era de Marinalva. A tinta era compatível com uma esferográfica comum, mas houve um pormenor que só foi notado semanas depois, quando o perito grafotécnico reviu o documento a requerimento do Ministério Público.
Ao lado de dois dos nomes, ele havia pequenas marcas a lápis, dois riscos diagonais, quase invisíveis a olho nu, como se alguém tivesse assinalado aqueles nomes por um motivo específico. Marinalva, quando questionada, referiu que não se lembrava de ter feito aquelas marcas. A perícia não conseguiu determinar se a marca tinha sido feita antes ou depois do embarque.
Os dois nomes assinalados pertenciam a irmãos gémeos, Lucas e Luan Figueira Barbosa, de 10 anos. A mãe, Neusa Figueira, se era merendeira na mesma escola. Naquela manhã, a Neusa tinha ajudado a preparar os lanches e colocado os dois filhos no autocarro com as próprias mãos. Ela não sabia o que significavam aqueles marcas. Ninguém sabia.
O que se sabia era que a lista existia, que os nomes eram reais, que as crianças tinham entrado no autocarro e que em algum ponto entre a saída da escola e o fim daquela tarde, desapareceram todas sem que restasse uma explicação plausível. A lista era a única prova documental de que aquele passeio tinha acontecido e durante anos foi tratada pela investigação como pouco mais do que um registo burocrático.
Só muito depois, é que alguém se apercebeu que talvez fosse a peça mais importante do caso e que tinha estado 11 dias perdida dentro de um armário enferrujado, coberta de café. O autocarro branco com a inscrição Câmara Municipal de Manaus, educação na lateral foi encontrado por um camionista chamado Osvaldo Bentes Cavalcante, que fazia o percurso entre Manaus e Itaquatiara, e parou para urinar no acostamento.
Eram 4:12 da tarde. Osvaldo reparou que o veículo estava com as portas abertas e as janelas para baixo, mas não havia ninguém por perto e achou estranho porque aquele troço da AM010 não tinha ponto de paragem nem acesso a sítio. Era mata de ambos os lados, cerrada, com cheiro de terra molhada que fica no ar depois da chuva rápida do meio-dia.
Osvaldo olhou para dentro e viu as mochilas espalhadas pelos bancos, uma garrafa térmica no chão e a sandália de criança no corredor. Não mexeu em nada. Ligou para a PRF a partir de um telefone público no posto de abastecimento mais próximo a 6 km dali. A Polícia Rodoviária Federal levou 40 minutos para chegar ao local.
Quando os dois agentes saíram da viatura, o sol já estava baixo e a luz filtrava-se pela copa das árvores naquele tom alaranjado que precede o anoitecer na Amazónia. O autocarro estava exatamente como Osvaldo havia descrito. As portas da frente e de trás abertas, o motor desligado e frio ao toque, e as teclas não estavam na ignição.
O painel não apresentava sinais de avaria. O odómetro marcava uma quilometragem incompatível com o percurso entre o escola e o balneário, mais os 11 km adicionais até àquele ponto da auto-estrada. Não havia marcas de travagem no asfalto, não havia sinais de colisão, não havia sangue nem dentro, nem fora do veículo. Os agentes fizeram o registo fotográfico com uma câmara digital compacto, 13 fotos ao todo, que mais tarde seriam anexadas ao inquérito.
Uma das fotos mostrava o banco do condutor com o encosto reclinado para trás, como se alguém tivesse ajustado para descansar. Outra mostrava o corredor central com quatro mochilas caídas no chão, uma delas aberta com um caderno escolar parcialmente visível. A foto mais reproduzida nos anos seguintes, a que apareceu nos jornais e nos programas de televisão, era a da sandália infantil de borracha, cor-de-rosa, tamanho 32, abandonada entre o segundo e o terceiro banco do lado direito.
Nunca se determinou a qual das crianças pertencia. Nenhuma das famílias a reconheceu com certeza. Três mães disseram que poderia ser do seu filho ou filha. A sandália ficou no depósito de provas da Polícia Civil durante anos dentro de um saco de plástico transparente com etiqueta amarela. O que chamou a atenção dos peritos quando finalmente examinaram o veículo dois dias depois foi à disposição dos objetos.
As mochilas não estavam nos bancos onde as crianças presumivelmente haviam sentado. Estavam redistribuídas de forma irregular, como se alguém tivesse movido de lugar. Algumas estavam abertas, outras fechadas, e duas estavam empilhadas no banco traseiro, que é normalmente o menos ocupado. Não havia lancheiras. As que os pais tinham preparado não foram encontradas no autocarro.
Não havia garrafas de água com os nomes das crianças, embora várias mães tenham declarado que mandaram garrafinhas identificadas. O que havia eram garrafas genéricas, sem rótulo, com água até metade, do tipo que se compra num distribuidor. Ninguém soube explicar de onde vieram. O ônibus foi rebocado para o pátio do 19º D IP, na manhã seguinte, e isolado com fita-cola.
Ali ficou durante 8 meses exposto ao sol e à chuva até que a perícia complementar fosse solicitada. Quando fizeram a segunda análise, em junho de 2008, parte das superfícies internas já apresentava bolor e deterioração, e as digitais recolhidas na primeira análise eram insuficientes para o cruzamento.
A maioria era parcial ou sobreposta. Nenhuma digital do condutor foi identificada, o que era tecnicamente impossível se ele tivesse conduzido o veículo naquela manhã. Ou as impressões digitais tinham sido apagadas, ou Edivaldo Nonato de Souza nunca tocou nesse volante. A polícia rodoviária encontrou Marinalva dos Santos Queiroz e a segunda professora Aparecida Lima Fonseca, caminhando pelo berma da AM010 em direção a Manaus por volta das 8 da noite.
Marinalva estava sem sapatos e com o vestido rasgado na altura do ombro. Aparecida, levava a própria bolsa e chorava sem parar, mas não produzia som. Era um choro mudo, de boca aberta, que o polícia rodoviário, que as resgatou descreveu no relatório como estado de choque severo. Nenhuma das duas conseguiu explicar onde estavam as crianças.
Marinalva repetia que elas estavam a brincar e que o mato fechou. Aparecida não disse nada nas primeiras seis horas. foram levadas ao serviço de urgência 28 de agosto e medicadas. O depoimento formal só aconteceu três dias depois e quando aconteceu as versões das duas não coincidiam em quase nenhum ponto. Marinalva tinha 52 anos e era professora da rede concelhia havia 23.
Conhecia o balneário do Tarumã porque já havia levado turmas anteriores ao mesmo local. pelo menos quatro vezes desde 2002. Era o tipo de professora que os pais conheciam pelo nome, que cumprimentava na padaria e que quando passava na rua, as mães chamavam para tomar um café. Não tinha antecedentes, não tinha problemas com a direção da escola e não tinha nenhum registo de incidente em excursões anteriores.
Era viúva, vivia sozinha num apartamento no conjunto Francisca Mendes e dedicava o tempo livre à Igreja Evangélica do Bairro. Ninguém no Parque das Laranjeiras tinha motivo para desconfiar de Marinalva. E isso tornou tudo mais difícil de entender. Aparecida Lima Fonseca era mais novo, tinha 34 anos e estava na escola havia apenas dois.
Era professora substituta, contratada a tempo determinado e aquela era a sua primeira excursão com alunos. Conhecia as crianças, mas não tão de perto como Marinalva. morava no bairro do novo Aleixo com o marido e um filho de 4 anos. O marido Wellington Fonseca declarou à polícia que Aparecida tinha saído de casa animada nessa manhã, que tinha preparado um bolo de milho para levar e que parecia tranquila na quando encontraram-na na estrada, 8 horas depois da última comunicação com a escola, Aparecida não tinha o bolo, não tinha a
bolsa com os documentos. Na verdade, a bolsa que transportava não era dela. Era uma bolsa preta de nylon que nenhuma das duas reconheceu como sua e não tinha resposta a nenhuma pergunta. Nas Urgências, 28 de agosto, ambas foram avaliadas por uma equipa de plantão. Marinalva apresentava desidratação ligeira, escoriações nos pés compatíveis com marcha prolongada sem calçado, e um corte superficial no ombro direito que ela disse ter sido causado por um ramo.
parecida, apresentava arranhões nas pernas e nos braços, terra sob as unhas, uma ligeira contusão no joelho esquerdo e o mesmo quadro de desidratação. O médico de serviço anotou que nenhuma das duas tinha ferimentos graves e mais que o estado emocional era incompatível com um simples passeio pela estrada. Marinalva alternava entre frases desconexas e um silêncio catatónico.
Aparecida tremia sem parar, mesmo depois da medicação. O que disse Marinalva nos dias seguintes variou de sessão para sessão. Na primeira, contou que as crianças estavam a brincar na beira do riacho e que ela tinha ido ao autocarro procurar protetor solar. disse que quando regressou não encontrou ninguém, nem as crianças, nem a Aparecida, nem o motorista.
Disse que chamou, gritou, procurou pela margem do Igarapé e depois entrou no mato, mas não encontrou ninguém. disse que em algum momento decidiu voltar para a estrada e caminhar em direção à cidade. Não soube explicar como Aparecida apareceu ao lado dela na estrada, nem em que momento este aconteceu. Na segunda sessão, três dias depois, o Esmarinalva incluiu um elemento novo.
disse que antes de ir para o autocarro viu um homem de camisa verde a aproximar-se pelo trilho e que as crianças foram na direção dele. Quando o delegado perguntou porque não tinha mencionado o homem antes, Marinalva disse que não tinha a certeza se tinha visto ou se tinha sonhado.
Na terceira sessão, já com o advogado presente, Marinalva disse apenas que não se lembrava de nada entre o momento em que saíram do autocarro e o momento em que se encontrava na estrada. Disse que havia um vazio na memória. Disse que queria ajudar, mas que não conseguia. Aparecida, manteve a sua versão nas três sessões. Estava a dormir no ônibus.
disse que tinha dores de cabeça, que tomou um comprimido depois de chegarem ao balneário e que adormeceu no banco de trás, enquanto as crianças desciam com Marinalva. e disse que acordou com o autocarro em movimento, que olhava pela janela e não reconheceu onde estava e que a dada altura o autocarro parou e ela saiu.
Não soube dizer quem estava condução, não soube dizer se as crianças estavam no veículo quando este se moveu. Não soube dizer quanto tempo dormiu. O delegado perguntou como é que ela explicava, os arranhões nos braços e as marcas de terra nas pernas. se estava a dormir dentro do autocarro. Aparecida não respondeu.
Olhou para o advogado que pediu a suspensão da sessão. Naquele ponto da investigação, o comissário Airton Brandão Teixeira tinha duas testemunhas que tinham estado presentes no momento do desaparecimento de 14 crianças, e nenhuma das duas era capaz de oferecer uma versão que sustentasse as evidências físicas. A contradição entre os relatos não era subtil, era aberta, evidente e mes para quem lia os altos, profundamente perturbadora.
A notícia chegou ao Parque das Laranjeiras de forma desordenada, como costuma acontecer em bairros onde toda a gente se conhece e onde o telefone fixo é ainda mais fiável do que o telemóvel. Por volta das 18 horas, a mãe de um dos alunos, Dalva Cristina Rebolsas ligou para aquela escola, perguntando porque é que o autocarro ainda não tinha voltado. Ninguém atendeu.
Dalva ligou para a vizinha, que era mãe de outra criança do grupo. A vizinha também não sabia de nada. Em menos de uma hora, sete mães estavam à porta da escola, que estava fechado e com as luzes apagadas. Nenhuma autoridade tinha entrado em contacto. Nenhum comunicado havia sido feito.
O porteiro noturno, que chegou à sete, não sabia de nenhuma excursão. Dalva era costureira, trabalhava em casa, mas numa máquina singer que estava na sala, junto à janela que dava para a rua. Naquela sexta-feira tinha ficado costurar o dia inteiro, ouvir rádio e à espera que o filho volte para assistir televisão juntos à noite, como faziam sempre que não tinha aulas no dia seguinte.
O filho Bruno Henrique Rebolsas de Lima tinha 10 anos, usava óculos desde os sete e era o tipo de menino que preferia ler banda desenhada a jogar bola. Dalva não se preocupou até às 5 da tarde, porque a previsão era de regresso às 3 e os atrasos dos autocarros escolares eram comuns. Às 5:30 ligou para o telemóvel de Marinalva desligado. Ligou de novo às 6.
Desligado. Ligou para ser a escola. Ninguém atendeu. Foi aí que saiu de casa. A cena à porta da escola naquela noite foi-se formando aos poucos. Primeiro as sete mães, depois no dois pais que regressaram do trabalho e foram avisados pela esposa. Depois uma avó que tomava conta de um dos alunos enquanto a mãe trabalhava num supermercado do centro.
Depois vizinhos que não tinham filhos na excursão, mas que ouviram o barulho e vieram saber o que se passava. Por volta das 9 da noite, havia cerca de 40 pessoas no passeio da escola e nenhuma delas tinha informação. Não havia polícia, não havia representante da câmara municipal, não havia ninguém da Departamento de Educação.
O porteiro, um senhor de nome Cícero, tentou ligar para a diretora e para a coordenadora. A diretora não atendeu. Rosângela Pimentel atendeu e disse que ia verificar, mas não apareceu. Foi Dalva quem decidiu ir à esquadra. Pegou num autocarro de linha com outra mãe, Francisca das Chagas Oliveira, e foram ao 19º Dip. Lá chegaram por volta das 10 da noite.
O de serviço estava com um único investigador que ouviu o relato das duas mulheres. Anotou os dados num formulário de ocorrência e disse que precisava de esperar 72 horas para registar o desaparecimento formalmente. Dalva perguntou-lhe se estava a entender que eram 14 crianças. O investigador disse que compreendia, mas que o procedimento era esse.
A Dalva perguntou se tinha filhos. O investigador não respondeu. Pediu que voltassem na segunda-feira. Francisca das Chagas voltou para casa e não dormiu. Ficou sentada na cozinha com a luz acesa, olhando para o relógio da parede. O marido, que trabalhava como vigilante noturno, ligou do serviço e ela contou o que estava a acontecer.
Ele disse que ia pedir para sair mais cedo, não conseguiu. A Francisca ficou sozinha até ao amanhecer, deco. Alva também não dormiu, mas em vez de ficar em casa, voltou a sair. Às 5 da manhã do dia 13, apanhou o outro autocarro e dirigiu-se ao balneário do Tarumã, sozinha, no escuro. Chegou ao local quando o sol estava a nascer e caminhou pela margem do Igarapé durante duas horas, chamando o nome do filho.
Não encontrou nada, não viu ninguém. regressou a casa às 9 da manhã, com os pés cortados e o rosto queimado pelo sol, e encontrou duas viaturas da Polícia Civil paradas na porta da escola. A busca oficial estava começando 18 horas depois de as crianças tinham desaparecido. Nessa noite, algo mudou no Parque das Laranjeiras. Não foi uma coisa visível.
Não foi algo que alguém pudesse apontar com o dedo. Foi uma alteração no tecido do bairro, uma fenda que correu por baixo de cada casa, de cada quintal e de cada conversa de portão. 14 famílias tinham mandado os filhos para a escola e os filhos não tinham regressado. E ninguém, ninguém tinha avisado. O Corpo de Bombeiros de Manaus iniciaram a operação de busca na manhã do dia 13 de outubro, 18 horas após o último contacto das professoras com a escola.
A equipa era composta por 12 homens e dois cães farejadores. A área designada para a varredura inicial foi a envolvente do balneário do Tarumã, num raio de 3 km. Em cinco dias de buscas intensivas, com apoio do exército, a partir do terceiro dia, não foi encontrado qualquer vestígio material das crianças, nenhuma peça de roupa, nenhum calçado, nenhum resto de alimento, nenhuma pegada identificável.
Os cães farejadores treinados para localizar presença humana recente não indicaram rasto em nenhuma direção a partir do balneário. O capitão responsável pela operação, Humberto Farias Monteiro, declarou à imprensa que aquilo não era normal, que 14 crianças não desaparecem sem deixar um único sinal.
A zona do balneário do Tarumã, em Outubro de 2007 era um espaço semiurbanizado na zona oeste de Manaus, onde o Igarapé do Tarumã desembocava numa praia fluvial que aos fins de semana e feriados recebia centenas de famílias. Havia barracas de comida, estacionamento improvisado na terra batida, casas de banho precários e um trilho de acesso que descia por um barranco de terra vermelha até à margem da água.
Nos dias de movimento, era possível encontrar vendedores de açaí, crianças a saltar dos ramos, música alta, sair dos carros estacionados e o cheiro a peixe frito misturado com o de protetor solar barato. Noss no feriado de 12 de outubro, no entanto, o balneário não estava no seu horário de ponta quando o autocarro chegou.
Às 8h40 da manhã, o local estava praticamente vazio. Os bombeiros que chegaram no dia seguinte encontraram as barracas fechadas, e nenhum morador das imediações que dissesse ter visto um autocarro escolar ou um grupo de crianças naquela manhã. Isso fazia parte do problema. Em 2007 não existiam câmaras de segurança na zona do balneário, não existia uma guarita, não havia controlo de acesso, não existia registo de entrada ou saída de veículos.
O único ponto de referência era um bar chamado Cantinho do Tarumã, que ficava a 300 m da descida para o Igarapé e que nesse feriado abriu só depois das 11 da manhã. O dono do bar, Sebastião Vieira Lopes, disse à polícia que não viu nada de diferente. Disse que quando abriu e não havia autocarro nenhum estacionado por perto e que a manhã estava sossegada.
Os bombeiros alargaram o raio de pesquisa para 5 km no terceiro dia e para 8 km no. Entraram na mata com catanas, abriram picadas em áreas de vegetação densa, percorreram as margens do ribeiro, rio acima e rio abaixo. Verificaram poços naturais, alagados sazonais e grotas onde a água acumula na época da vazante. Os mergulhadores desceram em três pontos do ribeiro, onde a profundidade passava de 2 m.
Não encontraram nada, nem os mergulhadores, nem os cães, nem os Os soldados do exército que entraram na operação com equipamento de selva. O capitão Humberto Farias Monteiro deu uma entrevista à TVI no quinto dia de buscas. Era um homem de fala pausada, com 30 anos de serviço e não era dado a declarações dramáticas. Mas nessa entrevista, de pé, à beira do ribeiro, com o uniforme sujo de lama, disse algo que ficou gravado na memória de quem acompanhou o caso.
Eu já procurei muita gente nesta floresta. Adultos, crianças, ribeirinhos, turistas, há sempre alguma coisa. Uma pegada, um pedaço de pano, um rasto na lama. Aqui não há nada. É como se estas crianças nunca tivessem pisado aquele chão. No sétimo dia, a operação foi reduzida. No décimo, encerrada oficialmente, o Corpo de Bombeiros emitiu um relatório de 14 páginas, concluindo que as buscas terrestres e aquáticas na região do balneário do Taruman e em redor não resultaram na localização das crianças, nem na identificação de vestígios que pudessem
indicar a sua presença no local após o horário de chegada registado pelas professoras. O relatório recomendava a abertura de uma investigação criminal para apurar as circunstâncias do desaparecimento. A investigação criminal já estava aberta, mas não estava a avançar. O inquérito policial conduzido pelo delegado Airton Brandão Teixeira do 19º DP tomou o depoimento das duas professoras em três sessões distintas ao longo de Outubro de 2007.
Na primeira sessão, Marinalva disse que as crianças estavam a brincar na margem do riacho, quando ela foi ao autocarro procurar protetor solar e, ao regressar, não encontrou mais ninguém. Na segunda, alterou a versão. Disse que um homem de camisa verde apareceu no trilho e que as crianças foram atrás dele a pensar que era o guia.
Na terceira disse que não não se lembrava de nada entre o momento em que saíram do autocarro e o momento em que estava a andar na estrada. Aparecida em as suas três sessões, manteve uma única frase em todas. Não vi o que aconteceu. Eu estava a dormir no ônibus. Mas o relatório do hospital registava marcas de terra e arranhões nas pernas e nos braços dos Aparecida, incompatíveis com alguém que tivesse permanecido sentada no veículo.
O comissário Airton tinha 48 anos e tinha passado a maior parte da sua carreira em esquadras de bairro da zona norte de Manaus. Não era um investigador de casos complexos, não tinha equipa especializada, trabalhava com dois investigadores, um escrivão e uma estrutura que o próprio descreveu anos depois, numa entrevista a um jornal local, como insuficiente para apurar um furto de bicicleta, quanto mais o desaparecimento de 14 crianças.
Mas foi ele quem recebeu o caso e foi ele quem teve de trabalhar com o que tinha. Nos primeiros 30 dias, Niirton tomou o depoimento de 42 pessoas. As duas professoras, a coordenadora Rosângela, funcionários da escola, pais e mães das crianças, moradores das imediações do balneário, funcionários da Trans Rotas Norte e dois militares da PM que faziam Honda na AM010 nesse dia.
Nenhum depoimento trouxe uma pista concreta. Os militares da PM disseram que não viram o autocarro parado na estrada durante a Honda da manhã, mas admitiram que a Honda cobria um troço de 80 km e que era impossível ver tudo. Os moradores do entorno do balneário, na maioria ribeirinhos que viviam em casas de Palafita, a 1 ou 2 km do Igarapé, disseram que o dia 12 de outubro foi um dia como outro qualquer.
Ninguém ouviu gritos, ninguém viu movimento fora do comum. Ninguém viu um autocarro branco. O que incomodava o delegado era a ausência total de coerência entre as versões dos duas únicas testemunhas adultas. Num caso com 14 vítimas e duas pessoas presentes, era razoável esperar alguma divergência nos detalhes. Horários, sequência de eventos, posição das crianças.
Mas o que Airton encontrou não foi divergência, era contradição estrutural. Marinalva dizia que as crianças estavam à beira do ribeiro. Aparecida dizia que estava a dormir e não viu nada. Marinalva dizia que foi para o autocarro e quando regressou não encontrou ninguém. Aparecida dizia que esteve no autocarro o tempo todo e não viu Marinalva chegar.
Marinalva mencionava um homem de camisa verde. Aparecida nunca mencionou ninguém. Marinalva mudava a versão a cada sessão. Aparecida repetia a mesma frase com precisão mecânica. O delegado solicitou ao Ministério Público que autorizasse a realização de exames psicológicos nas duas professoras para avaliar se estavam em condições de depor ou se apresentavam algum quadro dissociativo que pudesse explicar as contradições.
O exame foi feito em Novembro de 2007 por uma psicóloga forense da Secretaria de Segurança Pública que concluiu que ambas apresentavam sinais de traumatismo agudo, mas que estavam aptas a depor. A psicóloga acrescentou numa nota no final do relatório que o padrão de respostas dos Aparecida, repetição exata da mesma frase, ausência de variações emocionais, recusa a elaborar, era compatível tanto com trauma severo como com ensaio prévio.
Não era possível distinguir uma coisa da outra sem acompanhamento prolongado, que nunca foi autorizado. As famílias acompanharam o inquérito de longe. E porque ninguém as convidou para perto. Dalva Cristina Rebolsas pediu três vezes para ser ouvida, para além do depoimento inicial. Queria contar sobre o comportamento dos Marinalva nos dias anteriores à excursão, sobre uma conversa que teve com ela à porta da escola, sobre um pormenor que achava importante.
O delegado disse que iria anotar. Dalva nunca foi chamada de volta. O motorista do autocarro registado nos documentos da autarquia como Edivaldo Nonato de Souza, de 41 anos, contratado por uma empresa terceirizada chamada Transrotas Norte, não foi localizado em nenhum momento após o desaparecimento. A empresa informou que Edivaldo tinha sido contratado há dois meses e que os seus documentos estavam em ordem, mas quando a polícia foi verificar, o CPF era de uma pessoa falecida em 2003 em Porto Velho. O endereço fornecido no
contrato não existia e a foto no crachá da empresa não correspondia a qualquer registo nos bancos de dados disponíveis. Edivaldo Nonato de Souza, se esse era de facto o seu nome, nunca foi encontrado. Nenhuma testemunha fora da escola conseguiu descrevê-lo com precisão. Os funcionários da Transrotas Norte disseram que era um sujeito sossegado, que chegava cedo e não conversava com ninguém.
A TransRotas Norte era uma pequena empresa registada em 2005, com sede num barracão no Distrito Industrial de Manaus. O contrato com a autarquia previa o fornecimento de motoristas e veículos para transporte escolar em cinco zonas da cidade. A empresa tinha oito autocarros inscritos e 12 motoristas no quadro. Os contratos eram renovados anualmente por concurso simplificado e as exigências documentais, segundo o que se apurou depois, e eram mínimas.
Carteira de habilitação, categoria D, certificado de antecedentes e comprovativo de residência. Não havia verificação biométrica, não havia verificação cruzada de CPF com registos de óbito, não havia entrevista presencial conduzida pela câmara municipal. O processo era burocrático no papel e frouxo na prática.
Edivaldo Nonato de Souza, ou quem quer que usasse este nome, tinha começado a trabalhar na Transrotas Norte em Agosto de 2007. Dirigia o percurso do Parque das Laranjeiras havia dois meses, quando a excursão aconteceu. Os colaboradores da empresa, que foram ouvidos pela polícia deram descrições vagas e, por vezes, contraditórias.
O responsável operacional Nelson Praia Monteiro disse que Edivaldo era um homem de estatura média, moreno, cabelo curto, que usava boné e falava pouco. A secretária Ivone Sarmento disse que ele era alto e magro e que não usava boné, mas uma boina escura. O mecânico que tomava conta dos autocarros disse que nunca viu o rosto de Edivaldo direito, porque ele chegava quando a oficina ainda estava fechada e saía antes da hora comercial.
Nenhum deles tinha uma foto pessoal. A única foto disponível era a do crachá da empresa, uma imagem de baixa resolução impressa em papel fotográfico comum que mostrava um rosto parcialmente coberto por um boné de aba larga. Quando a polícia tentou rodar esta imagem nos sistemas de reconhecimento disponíveis na época, não obteve correspondência.
O endereço fornecido por Edivaldo no contrato de trabalho era a rua Japurá. 114, bairro Lírio do Vale. A polícia foi ao local e encontrou um terreno baldio com uma construção abandonada. Os vizinhos disseram que ninguém ali morava havia pelo menos 3 anos. Nem o NIF informado pertencia a um homem chamado Edivaldo Nonato de Souza, nascido em 1966 em Porto Velho, Rondônia, que havia faleceu em Março de 2003 num acidente de trânsito na BR364.
O certificado de óbito estava registado no cartório do segundo ofício do Porto Velho. Quando o comissário Airton solicitou ao notário uma cópia do registo, recebeu confirmação de que a pessoa estava de facto morta. Alguém tinha usado a identidade de um homem morto para se contratar como motorista escolar numa cidade a 2000 km de distância.
A Transrotas Norte foi intimada a fornecer cópias de todos os documentos relativos à contratação de Edivaldo. A empresa entregou o que tinha, uma ficha de inscrição preenchida à mão, uma cópia da CNH, que depois se revelou falsificada, e o contrato de prestação de serviço com a assinatura do gerente.
Não havia registo de admissão em carteira de trabalho, não havia exame admissional, não existia nenhum curso de formação para transporte escolar, obrigatório por lei desde 2004. O Ministério Público do Amazonas abriu um procedimento paralelo contra a Transrotas Norte por irregularidades na contratação, mas a empresa encerrou as atividades em fevereiro de 2008, antes que o procedimento fosse concluído.
O O armazém do distrito industrial foi devolvido. Os autocarros foram vendidos. Nelson Praia Monteiro mudou-se para a Boa Vista e não foi mais localizado. A A secretária Ivone Sarmento continuou vivendo em Manaus, mas recusou-se a dar novos depoimentos, alegando que já tinha dito tudo o que sabia.
O fantasma de Edivaldo Nonato de Souza pairava sobre o caso durante anos. Quem era ele? Por que utilizava documentos falsos? Para onde foi? E a polícia emitiu um mandado de busca e apreensão em nome do CPF real e do nome fictício, que foi distribuído aos esquadras de Manaus, Porto Velho, Boa Vista e Belém.
Ninguém com aquela descrição foi encontrado. Ninguém com aquele nome apareceu em nenhum registo posterior, nem criminal, nem laboral, nem eleitoral. Era como se a pessoa que conduziu o autocarro naquela manhã tivesse existido apenas durante dois meses, apenas para aquela função e depois se tivesse dissolvido. Em 2009, o inquérito foi arquivado pela primeira vez por falta de provas materiais e ausência de indiciados.
O Ministério Público do Amazonas recorreu e o caso foi reaberto em 2010 sob a relatoria de uma nova procuradora, Fernanda Lúcia Barroso. Fernanda pediu a reconstituição do percurso do autocarro e a análise dos contratos da Transrotas Norte e a audição de todos os residentes num raio de 5 km do balneário. Nada disto foi cumprido integralmente.
Em 2012, foi instalada uma CPI estadual na Assembleia Legislativa do Amazonas para investigar o caso, mas encerrou os trabalhos em 8 meses sem conclusão. Uma segunda CPI em 2016 produziu um relatório de 340 páginas que recomendava a federalização do caso. A recomendação nunca foi acatada.
As famílias, neste intervalo, organizaram vigílias, caminhadas e abaixo assinados. Nenhum teve repercussão fora do Amazonas. O arquivamento de 2009 chegou às famílias através de uma carta registada enviada pelo cartório do 19º DEP. A carta era padronizada com o número do inquérito, a data do despacho e uma linha que dizia que o procedimento tinha sido arquivado por ausência de elementos suficientes para o oferecimento de denúncia.
Dalva Cristina Rebolsas recebeu a sua numa terça-feira à tarde, quando estava a costurar. Leu duas vezes, colocou a carta em cima da máquina de costura, sentou-se na cadeira e ficou ali sem se mexer. durante quase uma hora. Depois ligou a Francisca das Chagas, que já tinha recebido a dela. A Francisca estava a chorar, disse que não conseguia acreditar.
Dalva disse que conseguia. A procuradora Fernanda Lúcia Barroso assumiu o caso em janeiro de 2010, depois de o recurso do Ministério Público contra o arquivamento foi acolhido. Fernanda tinha 36 anos, era natural de Parentins e tinha-se especializado em crimes contra menores na Escola Superior do Ministério Público em Brasília e era o perfil certo para o caso e talvez por isso tenha sido escolhida.
Mas o que encontrou Fernanda quando abriu os autos de inquérito não era promissor. Faltavam peças. As fotos da perícia do autocarro estavam incompletas. Das 13 originais, apenas nove tinham sido digitalizadas. A lista de presenças com as marcas a lápis não tinha relatório conclusivo. Os depoimentos das professoras conham erros de transcrição que o escrivão não havia corrigido.
E a ficha de registo de Edivaldo Nonato de Souza na Transrotas Norte tinha desaparecido do processo físico. Fernanda pediu a reconstituição dos autos. O pedido demorou 14 meses a ser parcialmente atendido. Em 2011, Fernanda conseguiu autorização para refazer o percurso do autocarro com um veículo semelhante, medindo tempos de deslocamento de pontos de visibilidade e troços da AM010, onde seria possível parar sem ser visto por outros condutores.
A reconstituição revelou que entre o balneário do Tarumã e o ponto onde o autocarro foi encontrado, existiam pelo menos quatro acessos não pavimentados que conduziam a zonas de mata fechada, estradas de terra batida utilizadas por madeireiros ilegais e por moradores de ocupações irregulares. Nenhum destes acessos havia sido verificado na pesquisa original dos bombeiros, porque estavam fora do raio de 3 km inicialmente estabelecido.
Fernanda solicitou uma nova operação de pesquisa nessas áreas. O pedido foi negado pela Secretaria de Segurança Pública por falta de efetivo. A CP Pirridge 2012 foi instalada a pedido de um deputado estatal cujo sobrinho estudava na mesma escola, embora não estivesse na excursão, não é? A comissão ouviu 28 depoentes ao longo de 8 meses, incluindo o comissário Airton, a procuradora Fernanda, representantes da autarquia, funcionários da Secretaria de Educação e três das mães.
As sessões eram abertas ao público, mas raramente tinham mais de 10 pessoas na plateia. Os jornais locais cobriam as audiências nas páginas internas com notas curtas. A TVI Amazonas dedicou duas reportagens ao tema, ambas no horário da tarde. Fora do Amazonas, o caso era praticamente desconhecido. A CPPIRO encerrou os trabalhos em abril de 2013, sem conclusão formal, com um relatório que listava falhas no atendimento policial e irregularidades no contrato da Transrotas Norte e a necessidade de aprofundar a investigação.
Recomendações que foram remetidas ao executivo do Estado e nunca receberam resposta. A segunda CPI em 2016 foi mais ambiciosa. Já produziu 340 páginas de relatório, ouviu 51 depoentes, incluindo peritos federais, e um especialista em desaparecimentos da Interpol, que estava de passagem por Brasília, e aceitou colaborar informalmente.
O relatório concluía que o caso apresentava características incompatíveis com as hipóteses de acidente ou afogamento, que a investigação original tinha sido negligente em pontos críticos e que a federalização, a transferência do caso para a Polícia Federal e para a justiça federal era recomendável face à incapacidade demonstrada pelas instâncias estaduais.
A recomendação foi enviada ao procurador geral da República, nunca foi acatada. O argumento formal era que não havia elementos novos que justificassem a federalização. O argumento real, segundo fontes do próprio MP, que falaram aos jornalistas sobre o anonimato, era que ninguém queria herdar um caso sem solução e com potencial de desgaste político.
Enquanto isso, as famílias faziam o que podiam. A Dalva e a Francisca organizaram a primeira vigília em outubro de 2008, no aniversário de um ano do desaparecimento. Montaram uma mesa no passeio da escola com 14 velas e 14 fotos. Vieram cerca de 50 pessoas. Em 2009, foram 60. Em 2010, 40. Em 2015, 22. Em 2020, 9.
Cada ano menos gente. Cada ano os rostos nas fotos ficavam mais distantes, mais difíceis de associar a uma criança real que um dia correu por aquelas ruas. As velas continuavam as mesmas. Dalva comprava no mesmo armazém do bairro, sempre brancas, sempre 14. As caminhadas pela cidade aconteceram três vezes em 2009, 2012 e 2017. A maior em 2009.
Reuniu cerca de 300 pessoas que saíram do Parque das Laranjeiras e foram até à sede da Secretaria de Segurança Pública no centro, transportando faixas com os rostos das crianças e pedindo a reabertura do processo. O secretário não recebeu o grupo. Um assessor desceu, pegou numa carta e disse que o governo estava atento.
O abaixo assinado de 2012, com 4.000 assinaturas, foi protocolado na Assembleia Legislativa e motivou a segunda CPI. O de 2017, com 2000 assinaturas, foi enviado ao Ministério da Justiça em Brasília e nunca recebeu resposta formal. Em algum momento entre a segunda CPI e a descoberta de 2025, o caso deixou de ser notícia e passou a ser memória.
Uma memória que pertencia a um bairro, a um grupo de famílias. L a uma escola que mudou de nome em 2014, passou a designar-se Escola Municipal Professor Raimundo Nonato e que pintou as paredes, trocou os portões e tentou, de forma silenciosa, apagar a associação com o episódio. As crianças que ali estudavam em 2007 e que não estavam na excursão cresceram sabendo que algo tinha acontecido, mas sem perceber bem o quê.
Algumas mudaram de escola, outras ficaram e aprenderam a não perguntar. Os Os professores novos não conheciam a história. Os antigos não queriam lembrar. A placa da escola Olinda Brito de Souza foi retirada e guardada num depósito da Secretaria de Educação, onde provavelmente ainda está. Em março de 2025, uma equipa de topografia da A Eletronorte realizava medições para a implementação de uma nova linha de transmissão na zona rural a norte de Manaus, dando uma faixa de floresta secundária a 7 km do antigo balneário do
Tarumã. O técnico responsável Jonas Rebelo de Araújo notou que o terreno apresentava uma irregularidade no relevo, uma depressão retangular coberta de vegetação rasteira, diferente do padrão natural do solo amazónico. Ao comunicar a anomalia à supervisão, a equipa solicitou uma sondagem. O que encontraram a 1,40 de profundidade interrompeu os trabalhos por tempo indeterminado e fez com que a Polícia Federal fosse accionado em menos de 24 horas.
Jonas Rebelo de Araújo tinha 29 anos e trabalhava na Eletronorte desde 2021. Não conhecia o caso das crianças do Parque das Laranjeiras. Não era de Manaus, era natural de Santarém, tinha vindo para a capital para estudar no IFAN e ficou. Naquele dia de março, estive com três colegas fazendo o levantamento topográfico de um corredor de 20 km onde passaria a linha de transmissão.
O trabalho era técnico e repetitivo, medição com estação total, demarcação de pontos, análise do perfil do terreno. O troço onde encontraram a anomalia ficava numa zona de floresta secundária, vegetação que tinha crescido depois de um antigo desmatamento, provavelmente dos anos 90, e que agora formava um denso corredor de árvores finas, arbustos e cpós.
A depressão no terreno media aproximadamente 6 m de comprimento por 2,5 de largura. A forma era regular, com bordos definidos, e o vegetação que a cobria era diferente do envolvente, rasteira, menos densa, como se o solo ali tivesse sido revolvido em algum momento e a floresta não tivesse conseguido recuperar completamente.
E Jonas anotou a anomalia no relatório de campo e tirou quatro fotografias com o telemóvel. À noite, no hotel em Manaus, mostrou as fotos ao supervisor, que disse que poderia ser um antigo poço de extração de argila ou uma fossa desativada. Mas Jonas achava que não. A forma era demasiado regular.
A profundidade do rebaixamento, visível a olho nu, sugeria algo que tinha sido escavado com propósito. A sondagem foi autorizada dois dias depois. Uma retroescavadora compacta fez a abertura inicial, removendo a camada de vegetação e os primeiros 60 cm de solo. Aos 80 cm, o operador reparou que a Terra mudava de cor.
Passava do castanho avermelhado, típico do solo amazónico para um tom mais escuro, quase negro, com consistência diferente. Aos 120 cm, e a pá mecânica trouxe à superfície um fragmento de tecido sintético, deteriorado, mas reconhecível. Era azul, com um padrão às riscas que fazia lembrar tecido de mochila escolar. O operador parou a máquina.
Jonas desceu à vala, olhou para o fragmento, olhou para o solo em redor, pediu que todos parasse. A Polícia Federal em Manaus recebeu a comunicação às 16 horas desse mesmo dia. Uma equipa da A Superintendência Regional chegou ao local na manhã seguinte, acompanhada de peritos do Instituto Nacional de Criminalística e de um antropólogo forense do IML do Amazonas.
A área foi isolada num raio de 50 m. As escavações passaram a ser manuais, com pincel e colher de pedreiro, seguindo o protocolo de esumação forense. Ao longo dos 10 dias seguintes, a equipa recuperou do solo fragmentos de tecido, os pedaços de borracha compatíveis com solas de calçado infantil, restos de metal oxidado, que pareciam ser fivelas ou fechos, e material orgânico em avançado estado de decomposição, que foi enviado para o laboratório de genética forense de Brasília para análise de ADN.
A profundidade máxima escavada foi de 1,80 m. A depressão continha material distribuído em camadas, como se tivesse sido preenchida por etapas. Não havia caixão, nem invólucro, nem estrutura de contenção. O material estava diretamente no solo, misturado com terra e raízes. O relatório preliminar da Polícia Federal emitido em abril de 2025 confirmou que o material encontrado era consistente com restos humanos de múltiplos indivíduos de baixa estatura e que os fragmentos de tecido e calçado eram compatíveis com
As vestes infantis do período entre 2005 e 2010. E o relatório não confirmou a identidade das vítimas. A análise de ADN demoraria meses, nem estabeleceu a causa da morte. Mas para quem acompanhava o caso, havia 18 anos. O relatório dizia o suficiente. A notícia chegou às famílias antes de ser publicada na imprensa.
A Polícia Federal enviou agentes ao Parque das Laranjeiras para comunicar pessoalmente aos pais e mães inscritos no inquérito que material possivelmente relacionado ao caso tinha sido encontrado. Dalva Cristina Rebolsas recebeu a visita num sábado de manhã. Dois agentes federais, um homem e uma mulher, sentaram-se na sala da sua casa e explicaram, em termos cuidadosos, que haviam sido localizados vestígios numa zona próxima do balneário do Tarumã e que seria necessário recolher material genético dos familiares para comparação. Dalva ouviu sem interromper
e quando os agentes terminaram, perguntou apenas uma coisa: “Encontraram óculos? O filho de Dalva, Bruno Henrique usava óculos. Os agentes disseram que não podiam dar pormenores sobre os objetos encontrados. Dalva assentiu com a cabeça e assinou o termo de consentimento para a recolha de ADN. Francisca das Chagas.
Oliveira recebeu a visita logo a seguir. Reagiu de forma diferente. Não perguntou nada. não assinou nada nesse dia. Pediu que os agentes regressassem na segunda-feira quando o marido estivesse em casa. Os agentes voltaram. Francisca assinou, mas não disse uma palavra durante todo o procedimento. A imprensa nacional cobriu a descoberta com destaque durante cerca de duas semanas.
O Jornal Nacional dedicou 3 minutos ao caso. O Fantástico produziu uma reportagem de 8 minutos. com imagens aéreas do local da escavação e entrevistas com familiares. Pela primeira vez em 18 anos, o caso das crianças do Parque das Laranjeiras foi discutido fora do Amazonas. Redes sociais amplificaram a história. Surgiram teorias, especulações, acusações.
Nada disto alterou o andamento da investigação, que seguiu ao ritmo da ciência forense, lento, metódico e silencioso. 18 anos separam a manhã de Outubro de 2007, da descoberta de março de 2025. Neste intervalo, seis das 14 famílias se mudaram do Parque das Laranjeiras. Duas mães faleceram, uma vítima de cancro, outra de enfarte.
Um pai foi internado com quadro psiquiátrico permanente. Os irmãos das crianças desaparecidas cresceram carregando um peso que nenhum laudo descreve e nenhuma indemnização compensa. Dalva Cristina Rebolsas, que foi a primeira mãe a ligar para a escola naquela noite de outubro, continua vivendo na mesma casa, na mesma rua, com o quarto do filho da mesma forma.
Quando a notícia da descoberta no Taruman chegou, Dalva não ligou a televisão, sentou-se na cadeira da varanda e ficou olhando para a rua até escurecer. O quarto de Bruno Henrique ficou intocado desde 12 de outubro de 2007. A cama de solteiro com a colxa do O Homem-Aranha, o ventilador de tecto que faz barulho quando liga, os livros de banda desenhada da Turma da Mônica empilhados na prateleira de contraplacado que o avô fez antes de morrer.
O par de óculos de reserva que Dalva tinha comprado na Ótica do Centro em Setembro de 2007 e que nunca chegou a ser utilizado. guardado dentro do estojo na gaveta do criado mudo. A porta do quarto fica aberta durante o dia. Dalva passa por ali várias vezes, nem indo da sala para a cozinha, da cozinha para o quintal. Não entra, não fecha, não mexe.
Francisca das Chagas. Oliveira mudou-se do Parque das Laranjeiras em 2013, depois do marido conseguiu transferência para uma fábrica no distrito industrial. E alugaram uma casa novo aleixo. A Francisca disse a uma amiga que já não aguentava mais passar pela escola todos os dias, que cada vez que via crianças fardadas na calçada, o corpo inteiro trava, que precisava de ir para um lugar onde ninguém soubesse.
Novo Aleixo, Francisca começou a frequentar uma igreja católica e a participar num grupo de mães em luto que se reunia às quartas-feiras à noite no salão paroquial. O grupo não tinha nome oficial. As mulheres sentavam-se em círculo, tomavam café e falavam sobre os filhos. Algumas tinham perdido filhos para a violência, outras e para as doenças.
A Francisca era a única que não sabia o que tinha acontecido com o seu. Disse uma vez ao grupo que o pior não era a dor, era a incerteza. A dor tinha um lugar no corpo. A incerteza não não ficava em lado nenhum e, ao mesmo tempo, estava em todo o lado. Neusa Figueira, a merendeira que era mãe dos gémeos Lucas e Luan, nunca saiu do Parque das Laranjeiras.
continuou a trabalhar na escola até 2014, quando o nome foi alterado e o o contrato dela não foi renovado. Ninguém deu uma explicação formal. Neusa entendeu que a nova direção não queria por perto alguém que se lembrasse das pessoas do que tinha acontecido. Depois disso, Neusa trabalhou como cozinheira em duas cafetarias do bairro, sem contrato, até que a saúde não permitiu mais.
Em 2019, N foi diagnosticada com depressão grave e passou a receber o benefício de prestação continuada do INSS. Vivia sozinha. O marido tinha ido embora em 2011. Os vizinhos diziam que Neusa quase não saía de casa e que às vezes ouviam-na a falar sozinha em voz baixa, como se estivesse a falar com alguém que não estava ali.
Raimundo Monteiro Duarte, o ajudante de pedreiro, que só soube do desaparecimento do filho dois dias depois, foi internado em 2015 no hospital psiquiátrico Eduardo Ribeiro em Manaus, com um quadro de psicose que os médicos associaram ao luto prolongado e não processado. Raimundo tinha passado anos à procura do filho por conta própria, entrando em zonas de floresta nos fins de semana, percorrendo ramais e garapés da zona rural de Manaus, perguntando ao Ribeirinho se alguém tinha visto alguma coisa em Outubro de 2007 e nunca encontrou nada, nunca recebeu
uma pista, mas não parava. A esposa disse que saía de casa no sábado de manhã e regressava no domingo à noite, sujo, exausto, por vezes com febre. Um dia não voltou no domingo. Foi encontrado na terça-feira, sentado numa clareira perto do tarumã a dizer coisas que não faziam sentido. Não reconheceu a esposa quando esta chegou.
foi internado nessa semana e nunca mais teve alta definitiva. Os irmãos das crianças desaparecidas, os que ficaram, formaram entre si uma rede silenciosa que nenhum jornal noticiou. cresceram juntos no mesmo bairro, nas mesmas ruas, e partilhavam algo que ninguém de fora conseguia compreender completamente. Sabiam o que era chegar a casa e ver a mãe a olhar para o nada.
Sabiam o que era ouvir o pai falar do irmão no presente, não como se ele fosse voltar a qualquer momento. Sabiam o que era a data de 12 de outubro para o resto do país, feriado da criança. Para eles, o dia que partiu a família ao meio. Alguns desses irmãos tornaram-se adultos funcionais com trabalho, família, rotina. Outros não conseguiram.
Dois deles abandonaram a escola antes de terminar o ensino secundário. Um teve problemas com o álcool. Uma foi viver com uma tia em Belém para se afastar de tudo. Nenhum deles fala publicamente sobre o caso. Nenhum deles precisa. A descoberta de março de 2025 reabriu feridas que nunca tinham cicatrizado porque nunca tinham sido tratadas.
As famílias que ainda viviam em Manaus foram chamadas para reuniões com a Polícia Federal, com o Ministério Público Federal e com a Defensoria Pública da União. Foram informadas de que a análise de ADN poderia demorar de 6 meses a um ano. foram informadas de que, mesmo com identificação positiva, a determinação da causa da morte dependia do estado de conservação dos restos, que após 18 anos no solo amazónico poderia ser insuficiente para conclusões definitivas.
foram informadas, por outras palavras, de que a resposta que esperavam havia 18 anos talvez viesse incompleta, ou talvez não viesse. Dalva ouviu tudo isto numa sala de reuniões da superintendência da PF, sentada numa cadeira de plástico com a bolsa no colo e os olhos secos. Ao lado dela, a Francisca. Atrás delas, Neusa, que tinha sido trazida por uma sobrinha.
No fundo da sala, três irmãos adultos de crianças desaparecidas que pediram para assistir, mas não quiseram sentar-se à mesa. O procurador federal, que conduziu a reunião, falou durante 40 minutos com termos técnicos e cautela jurídica. No final, perguntou se alguém tinha dúvidas. Dalva levantou a mão, perguntou a mesma coisa que tinha perguntado aos agentes na sala da sua casa.
Vocês encontraram óculos? O procurador olhou para os papéis, disse que não podia confirmar os itens específicos recuperados no local. Dalva baixou a mão, não perguntou mais nada. Do lado de fora da superintendência, um repórter de um portal de notícias esperava com um cinegrafista. Quando as famílias saíram, ele aproximou-se de Dalva e perguntou-lhe como é que ela se sentia.
Dalva olhou para ele, olhou para a câmara e disse: “Sinto-me do da mesma forma que me sinto há 18 anos.” Depois virou costas e foi-se embora. Marinalva dos Santos Queiróz faleceu no dia 2021 de causas naturais e no hospital público de Manaus. Tinha 66 anos. Nunca foi formalmente indiciada no caso. Nunca alterou a última versão do depoimento, a de que não se lembrava de nada.
Nos seus últimos anos viveu reclusa, não saía de casa e não recebia visitas para além da irmã, que vivia no Bairro de São José. Os vizinhos do conjunto Francisca Mendes diziam que Marinalva tinha envelhecido depressa depois de 2007, que deixou de ir à igreja. que as cortinas da janela ficavam sempre fechadas.
Quando morreu, o enterro teve seis pessoas. Nenhuma das famílias das crianças compareceu. Ninguém esperava que comparecessem. Aparecida Lima Fonseca continua viva. Mora em Manaus em endereço que não é público. Nunca deu entrevista, nunca foi indiciada. E a aversão dela, eu estava a dormir no autocarro, permanece nos altos como o último registo formal das suas palavras sobre o caso.
O marido Wellington pediu baixa do trabalho em 2008 por motivos de saúde da família e nunca voltou. O que aconteceu dentro daquela casa entre 2007 e hoje ninguém sabe. Ninguém perguntou. Ninguém tem o direito de exigir que ela fale. Mas o silêncio de Aparecida continua a ser, para as famílias e para quem acompanhou o caso, um dos elementos mais difíceis de aceitar.
O caso das crianças do Parque das Laranjeiras mantém-se aberto na Polícia Federal. A análise de ADN do material encontrado em março de 2025 está em curso no laboratório de genética forense do Instituto Nacional de Criminalística em Brasília. Não há prazo oficial para a conclusão. Não há suspeitos formais e não há explicação que liga todos os pontos.
A lista com as marcas a lápis, o autocarro deslocado 11 km do percurso, as professoras na estrada, o condutor fantasma, os cães que não encontraram rasto, o material enterrado a 7 km do balneário. Cada peça do caso aponta para uma direção. Nenhuma completa o quadro. Passaram os anos e o Parque das Laranjeiras continuou a ser aquilo que sempre foi.
Um bairro de gente simples, de ruas onde as crianças brincam até escurecer, de casas com a porta entreaberta e o som da televisão a vazar pela janela. A escola mudou de nome, mas a calçada é a mesma. O ponto de autocarro na esquina é o mesmo. As mangueiras que faziam sombra na altura da saída continuam ali, mais velhas, mais grossas, com as raízes a levantarem o asfalto.
Quem hoje passa por ali e não conhece a história, não vê nada de diferente. É só um bairro, é só uma escola, é apenas uma rua como tantas outras em Manaus, em qualquer cidade do Brasil, onde a vida segue, porque não há alternativa. Mas para quem viveu o que aconteceu em 12 de outubro de 2007, aquele pedaço de cidade nunca mais foi o mesmo.
Há uma fratura que não aparece no mapa, que não consta em qualquer relatório, que nenhuma CPRI documentou. É a fratura que fica dentro de quem acordou um dia. E o filho não estava na cama, o chinelo não estava à porta, a mochila não estava no chão da sala. É o espaço que se abre entre a última imagem, a criança a subir para o autocarro, acenando pela janela, desaparecendo na curva e o silêncio que veio depois.
18 anos de silêncio. 18 anos de um telefone que não toca. e 18 anos de uma porta que abre-se toda a noite com a mesma esperança e fecha-se com o mesmo vazio. As famílias que esperaram não pediram muito, pediram uma resposta. Pediram que alguém olhasse para elas e dissesse o que aconteceu. Não pediram justiça grandiosa, não pediram homenagens.
Pediram o mínimo que qualquer pai ou mãe pede quando o filho não regressa a casa. Saber, apenas saber. E durante 18 anos, essa resposta não veio. Talvez venha agora incompleta, traduzida em relatórios e códigos genéticos e termos que ninguém naquele bairro utiliza no dia a dia. Ou talvez não venha.
Talvez o caso se termine um dia com um relatório técnico que explique uma parte e deixe o resto no escuro, como acontece com tantos outros casos neste país, onde as pessoas desaparecem com mais facilidade do que se imagina e onde a memória de quem ficou é é muitas vezes a única prova de que alguém existiu. Hoje, quando sabemos onde estão as pessoas que amamos, quando enviamos uma mensagem e esta é respondida, quando ouvimos a chave na fechadura e sabemos quem é, é fácil esquecer o que significa não saber, o que significa olhar para o
porta e não ter a certeza. O que significa andar com uma foto no bolso durante anos? Mostrar a desconhecidos, perguntar se viram, se ouviram, se sabem de alguma coisa. O que significa deitar-se de noite e não fechar os olhos direito, porque a cabeça não desliga, porque a pergunta não pára, porque o silêncio do quarto é o mesmo silêncio do telefone, da esquadra, da escola, de todo o aparato que deveria ter protegido e não protegeu.
A história não termina com uma explicação, termina como termina a maioria dos histórias reais, com questões que continuam abertas, no com pessoas que aprenderam a viver ao lado do que nunca conseguiram resolver e com a certeza silenciosa de que algures neste país, neste preciso momento, alguém ainda está à espera. Não.