O Massacre da Família Pereira: O CONFLITO Que Destruiu TRÊS GERAÇÕES em Goiás – 1976
Já ouviu falar de uma história de amor que terminou com três gerações inteiras de uma mesma família sendo exterminadas? Pois, isso aconteceu de verdade, bem no coração do Brasil, num lugar onde ninguém imaginava que uma tragédia deste tamanho pudesse acontecer. E o pior, começou com algo tão simples, tão comum, que qualquer pessoa de nós poderia ter vivido uma situação semelhante, mas ninguém, absolutamente ninguém, imaginou que ia terminar daquele jeito.
Olha, eu passei os últimos dois meses mergulhado nos arquivos policiais de Goiás, conversando com pessoas que viviam na região na época, lendo jornais antigos que quase ninguém mais se lembra que existem, procurando cada pedacinho desta história que me pudesse ajudar a perceber como é que algo assim poôde acontecer.
E esta história aqui me deixou sem dormir durante várias noites. Não é só sobre violência, não é sobre como o o orgulho, a vingança e o amor podem tornar-se misturar de uma forma tão doentia que transforma-se numa bola de neve impossível de parar. É sobre como pequenas decisões podem ter consequências gigantescas. é sobre como às vezes ficamos tão preso nas próprias convicções que não consegue ver o precipício que está logo ali à frente.
Antes de eu continuar, preciso de te avisar. Esta história é pesada, muito pesada. Há partes que eu mesmo fiquei chocado quando descobri os detalhes. Há momentos que precisei parar a pesquisa, respirar fundo e dar-me perguntar se eu queria mesmo continuar a cavar. Mas é real. Cada palavra que vai ouvir aqui aconteceu realmente com pessoas reais, num lugar real, numa época não tão distante assim.
E talvez seja precisamente por isso é que esta história precisa de ser contada, porque precisamos de lembrar que por detrás de cada estatística, de cada notícia de violência, há pessoas, tem famílias, tem sonhos que foram destruídos. Era uma quinta-feira, dia 15 de janeiro de 1976. Fazia um calor insuportável na zona rural de Goiânia, daqueles calores que deixam o ar pesado, que nos fazem suar só de estar parado.
Naquela época, Goiânia ainda estava a crescer, ainda era uma cidade que tinha muito mais quinta do que edifício, muito mais área rural do que urbana. As famílias viviam meio isoladas umas das outras, com quilómetros de distância entre uma propriedade e outra. As notícias demoravam a chegar, a polícia demorava ainda mais tempo.
E quando algo acontecia dentro de uma propriedade, só quem morava por perto ficava a saber. E às vezes nem eles ficavam. A família Pereira era conhecida na região. Não eram ricos, longe disso, mas também não passavam necessidade. Tinham uma propriedade de tamanho médio, cerca de 200 haares de terra boa para criar gado e plantar.
A casa era simples, mas sólida, feita de tijolo e madeira, com uma varanda grande na frente, onde a família reunia-se ao final do dia para conversar e tomar um café. Tinham umas 20 cabeças de gado, galinhas, porcos, uma horta que dava comida durante todo o ano. Era uma vida simples, mas era uma vida honesta. O patriarca da família, o senhor António Pereira, era um homem de 58 anos, daqueles tipos antigos, sabe? homem de poucas palavras, mas quando falava todo o mundo escutava.

A sua palavra era lei dentro de casa e ninguém questionava. Tinha crescido naquela região, tinha recebido aquela terra do pai dele e pretendia passar para os filhos quando chegasse a hora. Era um homem justo no trabalho. Pagava bem os poucos peões que trabalhavam para ele, mas era inflexível quando o assunto era a família.
Para ele existia o certo e o errado, e não tinha meio termo, não havia conversa, não havia negociação. A esposa, dona Maria Pereira, tinha 54 anos e era o oposto dele em quase tudo. Ela era calma, carinhosa, tentando sempre apaziguar as coisas quando os ânimos aqueciam. Era ela quem acalmava o marido quando este zangava-se com os filhos.
Era ela quem consolava as crianças quando o pai era muito duro, mas mesmo assim ela nunca contrariava o marido à frente dos outros. Na cultura daquela época, naquela região, o homem era o chefe da casa e a mulher apoiava, mesmo quando não concordava. Eles tinham cinco filhos, três homens e duas mulheres, cada um com a sua personalidade, os seus sonhos, os seus medos.
O mais velho era o João, com 32 anos. Era praticamente uma cópia do pai. Sério, trabalhador, acordava antes do sol nascer para cuidar do gado. Era casado há 8 anos com a Teresa, uma rapariga da quinta vizinha que tinha conhecido numa festa junina. Tinham dois filhos pequenos, o O Pedrinho de 6 anos e a Aninha de quatro. O João era o braço direito do pai.
Era ele quem tomava as decisões sobre o gado, sobre a plantação, sobre as vendas. O seu António confiava nele completamente. Depois vinha o Carlos com 29 anos. Carlos era diferente do irmão mais velho, era mais expansivo, ria mais fácil, gostava de conversar com todos os mundo, mas na hora do trabalho era tão dedicado como o João.
Era casado há 7 anos com a Lurdes e tinham três filhos. O Carlinhos de 6 anos, a Ju de quatro e o bebé, o Marcelo, que tinha acabado de fazer um ano. Carlos sonhava em aumentar a criação de gado da família, em comprar mais terra, em crescer. Ele tinha planos. A primeira filha, mulher, era a Helena, com 26 anos.
Ela tinha casado há 4 anos com o Fernando, um rapaz de uma quinta a uns 15 km dali. Era um casamento bom, tranquilo. A Helena era parecida com a mãe, carinhosa, paciente, tentando sempre manter a paz. Ela ainda não tinha filhos, mas queria muito. Visitava a família dos pais todos os fins de semana, ajudava a mãe com a casa, conversava com os irmãos.
Depois tinha o Pedro com 23 anos. Pedro era o filho mais quieto. Não falava muito, mas quando falava era sempre algo importante. Ele trabalhava na quinta com os irmãos, mas passava muito tempo sozinho, a ler, a pensar. Seu António pensava que ele tinha a cabeça nas nuvens demais, que precisava de se concentrar mais no trabalho, mas no fundo tinha um especial carinho pelo filho.
O Pedro era solteiro, nunca tinha um namorado a sério. dizia que ainda não tinha encontrado a pessoa certa e tinha a mais nova, a Mariana, com apenas 19 anos. A Mariana era diferente de todos os irmãos. Ela tinha aquele jeito mais sonhador, mais rebelde, mais inquieto. Não queria a vida que as irmãs tinham tido. Não queria casar cedo, não queria ficar presa na lavoura toda a vida, cozinhando, lavar roupa, criar filho.
Ela falava em ir para a cidade grande, estudar, ser professora. queria conhecer o mundo, queria viver coisas diferentes. O pai dela detestava essas ideias. Para ele, mulher tinha de casar, cuidar da casa, ter um filho. Ponto final. Não tinha essa história de estudar, de carreira, de independência.
Isso era coisa de cidade e não tinha lugar na vida deles. Mariana e o pai discutiam muito por causa disso. Ela insistia, ele proibia, ela argumentava, ele gritava. Era um conflito constante que deixava a dona Maria aflita, tentando mediar, tentando fazer com que os dois se entendam, mas não adiantava. Nenhum dos dois cedia. Em meados de 1975, A Mariana conheceu um rapaz, o nome dele era Ricardo Silva.
E aqui é onde tudo começa a descambar, onde a história que podia ser apenas uma família comum vira uma tragédia sem retorno. O Ricardo não era da região. Ele tinha aparecido em Goiânia há cerca de seis meses, vindo de Minas Gerais, mas especificamente de uma pequena cidade perto de Uberlândia. Ninguém sabia muito sobre o seu passado e que naquele tipo de lugar, naquela altura já era um problema.
As pessoas desconfiavam de quem aparecia do nada, sem raízes, sem família por perto. O Ricardo dizia que tinha vindo procurar trabalho, que a sua família tinha morrido toda num acidente de viação, que estava a recomeçar a vida do zero, mas havia algo nele que não batia direito. Ele bebia demais, arranjava confusão fácil nos bares da cidade e tinha uma cicatriz enorme no lado esquerdo do rosto que ia da têmpora até o queixo.
Ele nunca explicava bem como tinha conseguido aquela cicatriz. Cada vez que alguém perguntava, ele dava uma resposta diferente. Acidente de trabalho, briga de bar, queda de mota. Ninguém sabia qual era a verdade. Ricardo trabalhava como peão volante, apanhando serviço onde aparecesse. Às vezes era numa quinta, outras vezes era na construção civil na cidade, por vezes ficava semanas sem trabalhar, só a beber e a jogar bilhar nos botecos.
Ele morava num quartinho nos fundos de uma pensão barata no centro de Goiânia. Dividia casa de banho com mais cinco pessoas. Comia quando tinha dinheiro. Era uma vida precária, instável. A Mariana conheceu-o numa feira da cidade num sábado de tarde, de junho de 1975. Tinha ido com a mãe comprar tecido para fazer roupa e acabou por parar num banquinho para beber uma água de coco.
O Ricardo estava no bar do lado e quando viu Mariana não conseguiu desviar o olhar. Ele foi ter com ela, meteu conversa. Ela achou-o interessante, diferente de todos os rapazes da lavoura que ela conhecia. Tinha um jeito de falar que parecia que tinha visto o mundo, que tinha vivido coisas que ela só sonhava em viver. Eles começaram a conversar.
Ele contou histórias sobre Minas Gerais, sobre os locais que tinha conhecido, sobre os trabalhos que tinha feito. Ela falou sobre os seus sonhos, sobre querer sair dali, sobre encaixar na vida que a família esperava dela. E nessa tarde nasceu uma ligação, uma ligação perigosa. Trocaram olhares, combinaram ver-se de novo na próxima feira. E assim começou.
encontros escondidos, sempre longe dos olhares da família dela. Eles encontravam-se na beira do rio, naquela parte onde a floresta era mais fechada e ninguém passava. Se encontravam na mata mesmo, n caminhos que só quem conhecia a região sabia que existia. Às vezes, ia até perto da quinta dos Pereira à noite e ela fugia escondida depois de todos dormirem.
Ficavam horas conversando, sonhando, planeando um futuro que só existia na cabeça deles. A Mariana se apaixonou-se perdidamente por ele e olha, não era só atração física, não. Claro que tinha isso também. Ela era jovem. Era o primeiro gajo que dava atenção para ela daquela maneira. Mas era mais do que isso.
Ela via nele alguém que também não encaixava, alguém que também estava lutando contra um mundo que tentava empurrá-lo para um lugar que ele não queria ficar. Ela havia nele um parceiro para fugir daquela vida que sufocava ela. O que ela não via, o que ela não tinha como ver, era o lado obscuro dele. Porque o Ricardo não era apenas um tipo que bebia demais.
Tinha um passado bem mais sombrio do que lhe contava. Lá em Minas Gerais, Ricardo tinha-se envolvido com gente muito errada. Ele jogava, devia dinheiro a agiotas, tinha participado em uns roubos pequenos, tinha-se metido em brigas que acabaram com pessoas no hospital. A cicatriz na cara dele tinha sido de uma luta com um tipo que ele devia dinheiro.
O tipo tinha puxado de uma faca e cortado-lhe o rosto de cima a baixo. O Ricardo quase morreu e quando melhorou, o gajo ainda tava a cobrar. Foi por isso que fugiu para Goiás. Não foi recomeçar a vida, foi fugir de pessoas que queria acertar contas com ele. Mas A Mariana não sabia de nada disto. Para ela, ele era apenas um tipo incompreendido, alguém que o mundo tinha sido injusto, alguém que merecia uma segunda oportunidade e ela queria ser esta segunda oportunidade para ele.
Os meses foram passando, junho, julho, agosto. Os encontros continuavam, faziam planos. Ele dizia que ia juntar dinheiro, arranjar um emprego fixo e depois iam fugir juntos para São Paulo. Lá iam começar do zero. Ela ia poder estudar, ser professora. Ele ia trabalhar de verdade, construir uma vida de verdade. Eram planos bonitos, planos impossíveis.
Quando chegou setembro, a dona Maria começou a desconfiar que tinha algo de errado com a filha. Mariana estava diferente, mais distraída, mais distante, saía escondida à noite, achando que ninguém se apercebia. Uma noite, a dona Maria seguiu a filha, viu-a a encontrando-se com Ricardo à beira do rio. Viu os dois a beijarem-se, a abraçarem-se.
O coração da dona Maria apertou. Ela conhecia aquele tipo de rapaz, conhecia aquele jeito de homem que só ia trazer problema. Ela não contou ao marido ainda, não. Primeiro ela tentou conversar com a filha, chamou a Mariana num canto quando estavam sozinhas na cozinha e perguntou: “Filha, estás ver alguém?” Mariana negou no início, mas a dona Maria insistiu com aquele jeito de mãe que sabe quando a filha está mentindo.
E Mariana desabou, contou tudo, contou sobre o Ricardo, sobre os encontros, sobre os planos e implorou para a mãe não contar ao pai. Dona Maria ficou numa situação impossível. De um lado, a filha que amava, implorando pelo seu primeiro amor. Do outro, o marido, que ela sabia que ia explodir quando descobrisse. E ela sabia que ele ia descobrir.
Mais cedo ou mais tarde, ele ia descobrir. Ela tentou fazer um acordo com Mariana, pediu à filha deixar de ver o rapaz, pelo menos por enquanto. pediu-lhe para dar um tempo, deixar a poeira assentar e quem sabe no futuro, se o rapaz fosse mesmo sério, podiam tentar falar com o pai, mas a Mariana não quis ouvir. Ela estava apaixonada demais, sonhando demais, demasiado esperançosa.
No final do setembro, o senhor António descobriu e descobriu da pior maneira possível. Ele tinha ido à cidade vender umas cabeças de gado e acabou por parar num barveja antes de regressar a casa. Enquanto estava lá, ouviu dois homens a conversar no balcão. Um deles comentou rindo sobre o feliz contemplado do Ricardo que estava com aquela menina gira da quinta dos Pereira.
O outro respondeu também a rir: “Pois, mas vai ver quando o velho descobre. Vai correr mal. Seu António congelou. Ele não disse nada. Não perguntou nada, apenas pagou a cerveja e foi embora. Mas a raiva ia crescendo dentro dele, a cada quilómetro de volta para casa. Quando chegou, era de noite. Todo mundo estava a jantar. Ele entrou na cozinha, olhou para a Mariana e perguntou com aquela voz baixa e controlada que era mais assustadora do que qualquer grito.
Quem é o Ricardo? O silêncio que caiu naquela cozinha foi pesado. Mariana ficou branca. A Dona Maria fechou os olhos. Os irmãos deixaram de comer, sentindo a tensão no ar. Eu perguntei: “Quem é o Ricardo?” O senhor Antônio repetiu: “Mais alto desta vez a Mariana tentou falar, mas a voz não saiu. Foi dona Maria quem respondeu.
António, depois a gente conversa sobre isso. Agora não é hora. Agora é exatamente a hora.” Ele cortou e depois olhou diretamente para Mariana. “Estás a ver um homem escondido de mim?” A Mariana não conseguia mentir-lhe olhando nos olhos. Ela baixou a cabeça e murmurou: “Amo-o, pai. O que aconteceu depois foi explosivo.
O senhor António agarrou Mariana pelo braço, puxou-a da cadeira e gritou mais alto do que qualquer um já tinha-o ouvido gritar: “Amas-lo? Ama um vagabundo que ninguém conhece, que apareceu do nada e você vem dizer-me que o ama”. Ele bateu-lhe. uma bofetada na cara que fez a cabeça dela virar-se para o lado. A Dona Maria gritou, tentou segurar o marido, mas este empurrou-a.
O João e o Carlos se levantaram-se, tentaram segurar o pai, mas continuava a gritar fora de si: “Não vai ver mais este homem. Você ouviu? Nunca mais. O Pedro ajudou a mãe a levar a Mariana para o quarto dela. O rosto da menina estava vermelho, marcado. Ela chorava, mas era um choro silencioso de quem está em choque.
Naquela noite, o seu O António trancou a Mariana no quarto, literalmente, colocou um cadeado na porta por fora. Nos dias seguintes, a A casa dos Pereira transformou-se num campo de guerra silenciosa. A Mariana ficava fechada no quarto, só saía para a casa de banho com a mãe a vigiar. O seu Antônio não falava com ela, tratava como se ela não existisse.
A Dona Maria levava comida para o quarto, tentava consolar a filha, mas A Mariana mal comia, só chorava e olhava pela janela. A Helena veio visitar, tentou falar com o pai, pedir-lhe para ter um pouco de compaixão, mas não quis ouvir. Ela desobedeceu, mentiu. Ela precisa de aprender. Foi tudo o que ele disse. Ricardo, quando descobriu que A Mariana tinha sido fechada em casa, tentou ir até lá.
Foi numa tarde, bateu no portão, pediu para falar com o seu António. O João foi quem atendeu. Ele olhou para Ricardo, viu o tipo de homem que era e disse simplesmente: “Sai daqui. Se voltar, a gente não vai só mandar embora”. insistiu Ricardo. Eu só quero falar com ela. Só 5 minutos. Eu disse-lhe para sair. O João repetiu. Desta vez com a mão no revólver que carregava à cintura.
O Ricardo foi embora, mas ele não desistiu. Tentou enviar recado através de gente da cidade que conhecia a família. Tentou falar com dona Maria numa feira, mas nada funcionou. A família Pereira tinha fechado-lhe as portas. Passaram-se semanas assim. Outubro veio, novembro, dezembro. Mariana continuava presa. Ela tinha emagrecido.
O brilho nos olhos tinha desaparecido. A Dona Maria implorava pro marido deixar a rapariga sair, nem que fosse para dar uma volta ao quintal. Mas não cedia. Ela vai ficar lá até compreender que o que ela fez foi errado. Ele dizia. Mas depois veio o dia 3 de Janeiro de 1976 e tudo mudou de novo. A Mariana tinha apercebeu-se que estava atrasada fazia umas duas semanas, mas não tinha tido coragem de pensar no que aquilo podia significar.
Mas quando chegou janeiro e nada aconteceu, ela não teve mais como negar. Chamou a mãe, fechou a porta do quarto e disse com a voz trémula: “Mãe, acho que estou grávida”. Dona Maria sentiu o mundo desabá. Ela sabia o que isso significava. Sabia que quando o marido descobrisse ia ser muito pior do que tinha sido até agora.
Ela abraçou a filha, as duas choraram juntas e depois ela disse: “Precisamos de ter a certeza. Vou levar-te à cidade amanhã. A gente vai a um médico. No dia seguinte, a dona A Maria inventou uma desculpa qualquer e levou a Mariana até à cidade. Foram num médico que atendia nos fundos de uma farmácia, um homem velho que não fazia perguntas.
Ele examinou Mariana e confirmou. Ela estava grávida. De uns dois meses, mais ou menos, quando voltaram para casa, a dona Maria não sabia o que fazer. Ela sabia que tinha de contar para o marido, mas também sabia que ele ia surtar. Ela tentou ganhar tempo, tentou pensar numa solução, mas não tinha solução. A situação era impossível.
A Mariana queria contar ao Ricardo. Ela implorou à mãe que a deixasse mandar um recado para ele. Mas a dona Maria tinha medo. Medo do que o marido ia fazer se descobrisse. Medo do que Ricardo ia fazer quando soubesse. Medo de tudo. Mas A Mariana conseguiu. Numa tarde que a mãe saiu para o quintal, ela chamou a prima mais nova, a Ritinha, que vivia numa quinta vizinha e tinha vindo visitar.
pediu-lhe para levar um bilhete para Ricardo. A Ritinha, com 14 anos e sem compreender a gravidade da situação, concordou. O bilhete dizia: “Eu estou grávida. O meu pai não pode saber. Tira-me daqui, por favor.” Quando Ricardo recebeu o bilhete, três dias depois, ele entrou em completo pânico. Ele não estava preparado para isso.
Ele não tinha dinheiro, não tinha casa, não não tinha nada. e agora ia ter um filho com uma menina cujo pai o queria matar. Bebeu muito nessa noite, tentando pensar no que fazer. No dia seguinte, 8 de janeiro, o senhor António descobriu sobre a gravidez. A Dona Maria não teve escolha, ela precisava de contar.
Quando ela contou, ficou em silêncio durante um minuto inteiro, um silêncio assustador, e depois explodiu. Ele subiu até ao quarto de Mariana, arrancou o cadeado da porta e entrou e puxou a filha pelos cabelos, arrastou-a até à sala, onde todos os filhos estavam, e ali à frente de todo o mundo, ele bateu-lhe.
bateu muito com o cinto, com as mãos, gritando que ela tinha deshonrado a família, que tinha trazido vergonha para casa, que ela não merecia ser filha dele. João e Carlos tentaram segurar o pai, mas este estava fora de controlo. Foi Pedro quem conseguiu finalmente tirar Mariana de perto dele, carregando a irmã de volta para o quarto, enquanto ela sangrava pelo nariz e pela boca.
A Helena gritava, chorava, tentava fazer o pai parar. Nessa noite, o senhor António fez uma declaração que ecoou pela casa toda. Ela vai ter esse filho e quando nascer a gente vai dar a quem quiser e ela nunca mais vai sair desta casa. Ela vai viver aqui trabalhando, pagando pela vergonha que nos trouxe. E se aquele vagabundo do Ricardo aparecer aqui, vou matá-lo com as minhas próprias mãos. Isso é uma promessa.
A Mariana no quarto ouviu tudo e naquele momento algo se partiu dentro dela. Ela percebeu que já não tinha saída. Não tinha como convencer o pai. Não tinha como esperar. Se ela ficasse ali, ia ter o filho, iam tirar-lhe o bebé e ela ia viver o resto da vida como prisioneira. Ela precisava de fugir e precisava que Ricardo a ajudasse.
No dia 10 de janeiro, ela conseguiu enviar outro recado para o Ricardo, desta vez através de um peão que trabalhava na quinta e que ela tinha convencido com uma pulseira de ouro que a avó lhe tinha deixado. O recado era desesperado. O meu pai vai me matar. Tirem-me daqui ou vou morrer aqui dentro.
Quando Ricardo recebeu este segundo recado, soube que não tinha mais como fugir da situação. Ele precisava de fazer alguma coisa. Mas o quê? Ele não podia simplesmente ir até lá e pedir a mão dela em casamento? O seu O António ia matá-lo antes dele conseguir falar. Ele precisava de ajuda e foi aí que cometeu o erro fatal. O Ricardo conhecia uns tipos em Goiânia.
Rapazes que faziam trabalho sujo por dinheiro, tipos que não faziam perguntas. Ele foi atrás deles. Os nomes eram José Almeida e Miguel Santos. José tinha 34 anos. Já tinha rodado pela polícia várias vezes por roubo e agressão. O Miguel tinha 28, tinha cumprido do anos de cadeia por assalto à mão armada.
Eram conhecidos nos círculos errados da cidade como caras que resolviam problemas desde que você pagasse o preço certo. O Ricardo foi até ao bar onde costumavam ficar. Era um lugar sujo, escuro, onde só ia gente que não queria ser vista. Ele explicou a situação. Disse que precisava de tirar uma menina de uma quinta, que o pai dela não a deixava sair, que precisava de gente armada para garantir que nada ia correr mal.
José e Miguel ouviram, beberam um gole de cachaça e deram o preço. 3.000 cruzeiros. Era muito dinheiro para a época. O Ricardo não tinha nem metade disso. Ele implorou, negociou, prometeu que ia pagar mais tarde, que ia conseguir de qualquer maneira. Eles riram. A gente não faz fiado, amigo. José disse.
Mas Ricardo insistiu tanto, prometeram tanto, que finalmente concordaram, mas com uma condição. Se não pagasse, iam atrás dele. E sabia o que isso significava. O plano foi montado. Eles iam entrar na propriedade dos Pereira na noite de 14 de de janeiro, uma quarta-feira. Iam na calada da noite, quando já todos tivesse dormido.
O Ricardo conhecia a disposição da casa, sabia qual era o quarto da Mariana. O plano era simples, entrar silenciosamente, pegar na Mariana e sair. Rápido, limpo, sem violência. Mas os planos nunca correm como a gente espera, não é verdade? Na noite de 14 de janeiro de 1976, O Ricardo, o José e o Miguel encontraram-se num ponto combinado a cerca de 3 km da quinta dos Pereira.
Eles tinham ido cada um no seu carro, carros velhos, barulhentos, que deixaram escondidos numa pequena estrada de terra batida. De lá foram a pé. O José e o Miguel estavam armados. José tinha um revólver calibre 38. Miguel tinha uma pistola calibre 32 que tinha roubado de um polícia há anos. O Ricardo não tinha arma.
Ele tinha insistido que não ia precisar de uma arma, que só precisavam de ir lá, buscar a menina e sair. Mas José tinha insistido em levar as armas. Só por precaução, disse, a gente nunca sabe. Eles chegaram à propriedade por volta das 11h30 da noite. A lua estava cheia, o que ajudava a ver, mas também significava que podiam ser vistos mais facilmente.
Eles pularam acerca dos fundos, onde não tinha um portão, onde era só arame farpado e madeira velha. O Miguel rasgou as calças na cerca, sussurrou um palavrão, mas continuou. A casa estava a cerca de 200 m dali. Dava para ver a luz do candeeiro aceso na sala, o que significava que ainda havia gente acordada.
Eles esconderam-se atrás de um barracão, à espera que a luz se apagar. ficaram ali quase 40 minutos agachados, em silêncio, apenas ouvindo o barulho dos grilos e do vento nas árvores. Finalmente, a luz apagou-se. Esperaram mais 10 minutos só para garantir e depois começaram a se aproximar da casa devagar, passo por passo, tentando fazer barulho.
O coração de Ricardo batia tão forte que achava que os outros iam conseguir ouvir. Estavam a uns 50 m da casa quando o cão ladrou. A família Pereira tinha um cão velho, um viralata castanho que passava o dia deitado à sombra e que ninguém levava muito a sério. Mas nessa noite ele ouviu os estranhos e ladrou alto, insistente. Merda! José sussurrou.
Eles tentaram continuar mais depressa agora porque sabiam que o ladrar ia acordar alguém e acordou. O seu Antônio foi o primeiro a levantar. Ele estava a dormir leve a dias, preocupado com tanta coisa. E o ladrar do cão acordou-o na hora. Ele picou a esposa. Maria, você ouviu? Ela murmurou algo ainda meio dormindo.
Ele levantou-se, pegou na espingarda que guardava sempre debaixo da cama, uma espingarda calibre 12 de dois canos, velha, mas bem cuidada, e foi até à janela. Olhou para fora. Não não viu nada no início, mas depois viu as sombras, três vultos movendo-se em direção à casa. “Há gente aqui”, ele disse, “maais para si do que paraa mulher”.
E depois gritou: “João, Carlos, levanta-te!” Nos outros quartos, os filhos acordaram com o grito do pai. O João saltou da cama, pegou no revólver que tinha na gaveta. O Carlos fez o mesmo. Pedro acordou confuso, tentando perceber o que estava a acontecer. O senhor Antônio abriu a porta da frente. Ele não tinha medo. Tinha raiva.
Raiva de que alguém ousasse invadir a sua propriedade. Quando abriu a porta, viu os três homens agora correndo em direção à casa. Ele não pensou duas vezes, não gritou aviso, não perguntou quem eram. Ele levantou a espingarda e tirou-a. O tiro foi alto, ruidoso como um trovão rasgando a noite. Os chumbos espalharam-se e alguns atingiram o ombro do Miguel, que gritou e caiu no chão, rebolando de dor.
Tá baleado, estou baleado? Ele gritou. José, ao lado dele, tinha sacado do revólver. Ele não queria disparar. O plano não era esse, mas o instinto de sobrevivência falou mais alto. Disparou em direção à porta. O tiro passou a rasar a ombreira, levantando aparas de madeira. O senhor Antônio atirou-se para o lado, protegido pela parede.
Ele recarregou a espingarda, abriu de novo a porta e disparou novamente. Desta vez acertou a perna de José, que gritou e cambaleou, mas continuou de pé. E aí começou o inferno de verdade. O João tinha chegado na sala armado. Ele foi até à janela e começou a disparar também. O Carlos saiu pela porta das traseiras, deu a volta pela casa, tentando flanquear os invasores.
A noite tornou-se um caos de tiros, gritos, fumo de pólvora. Ricardo estava em pânico. Ele tinha-se atirado no chão quando começaram os disparos. Tava rastejando, tentando chegar até ao lateral da casa onde estava o quarto de Mariana. Não tinha arma, não podia ajudar o José e o Miguel. Só conseguia pensar em chegar à Mariana e tirá-la dali.
Miguel, mesmo ferido no ombro, tinha conseguido levantar-se. Ele estava a sangrar muito, a camisa já encharcada de sangue, mas a adrenalina mantinha-o de pé. Viu o João à janela e atirou. O tiro atravessou o vidro e atingiu João no pescoço. O João levou a mão ao pescoço, largou a arma e caiu para trás. João! O senhor António gritou vendo o filho cair.
Saiu pela porta exposto, atirando descontroladamente. Atingiu José no estômago. José dobrou no meio, caiu de joelhos, mas ainda segurava o revólver. Carlos tinha dado a volta e estava agora atrás de Miguel. Disparou, atingindo Miguel nas costas. Miguel caiu de bruços, a arma voando da mão dele, mas José, mesmo ferido, ainda estava vivo.
Levantou o revólver com a mão a tremer e disparou sobre Carlos. Acertou-lhe no peito. Carlos parou, olhou para o próprio peito, vendo o sangue alastrou pela camisa e caiu de joelhos. O senhor António viu mais um filho cair. Ele sentiu algo a quebrar dentro dele. Já não se tratava de defender a propriedade, era sobre vingança. Ele avançou em direção a José, recarregando a espingarda enquanto corria.
Chegou perto de José, apontou a espingarda ao rosto dele a uma distância de menos de 2 m e disparou. O tiro arrancou metade da cabeça de José. Caiu para trás, morto antes de tocar no chão. Seu António virou-se, procurando pelos outros invasores. Viu Miguel caído, ainda se mexendo, foi ter com ele, virou-o com o pé e apontou a espingarda.
Mas quando foi puxar o gatilho, a espingarda encravou. Tentou desbloquear, xingando as mãos tremendo de raiva e adrenalina. Miguel, reunindo as últimas forças que tinha, pegou na pistola que tinha caído perto dele, levantou o braço, apontou para o peito do senhor António e atirou. O tiro acertou em cheio.
O Seu Antônio sentiu como se tivesse levado um soco de um gigante. Caiu de costas, a espingarda a voar da sua mão, batendo no chão duro dentro da casa. Dona Maria tinha ouvido os tiros, os gritos. Ela estava com os netos pequenos, as crianças do João e do Carlos tentando acalmá-los, mas elas choravam desesperadas.
Quando ela ouviu o último tiro, algo dentro dela disse que precisava de ir lá para fora, que precisava de ver os filhos, o marido. Ela saiu a correr pela porta da frente, sem pensar, sem raciocinar. Quando saiu, viu o marido caído, viu o João caído perto da janela, viu Carlos caído mais longe e gritou, gritou como nunca tinha gritado na vida.
Miguel, ainda no chão, tonto de dor e de perda de sangue, ouviu o grito. Viu uma mulher a correr. O seu dedo apertou o gatilho no reflexo, quase sem querer. O tiro atingiu a dona Maria no peito. Ela tropeçou, caiu de lado, bateu com a cabeça numa pedra, ficou ali, de olhos abertos, olhando para as estrelas, sem compreender como tinha chegado àquele ponto.
Pedro tinha ficado paralisado dentro da casa, ouvindo tudo, sem saber o que fazer. Mas quando ouviu a mãe gritar e depois silenciar, algo nele acordou. Ele pegou a espingarda do pai que estava apoiada numa parede, verificou se tinha bala e saiu pela janela das traseiras. Ele deu a volta, ficou à sombra, a observar, viu Miguel caído, ainda agarrado à arma.
Viu os corpos do pai, da mãe, dos irmãos. Sentiu uma raiva fria, calma, mortal. Ele apontou e disparou. O tiro atingiu as costas de Miguel, que deu um último suspiro, e deixou de se mexer. Três invasores mortos, três membros da família Pereira mortos, e ainda faltava um invasor. O Ricardo tinha conseguido chegar ao quarto de Mariana durante o tiroteio.
Tinha arrombado a janela, entrou, encontrou Mariana escondida debaixo da cama em pânico total. “Vamos, vamos agora!”, gritou, puxando-a pelo braço, mas a Mariana estava em choque. Ela tinha ouvido os tiros, os gritos. Sabia que algo terrível tinha acontecido. O que fizeste, Ricardo? O que fez? Depois falamos. Agora precisamos de sair daqui.
Ele tentou arrastá-la pela janela, mas ela resistia, chorava, gritava. Foi aí que O Pedro entrou no quarto. O Pedro olhou para O Ricardo, olhou para a irmã e percebeu tudo na hora. Esse era o gajo. O tipo que tinha causado tudo aquilo. O gajo por a quem a irmã tinha desobedecido ao pai, o tipo que tinha trazido esses homens armados para matar a sua família.
Ele não disse nada, apenas levantou a espingarda e atirou. O tiro atingiu Ricardo no pescoço. Ricardo largou Mariana, levou as mãos ao pescoço, tentando estancar o sangue que jorrava, fez um som estranho de gargarejar e caiu de lado na cama. gritou a Mariana. Ela atirou-se em cima de Ricardo, tentando segurar o sangue com as mãos, gritando o seu nome, implorando para que não morresse.
Mas era tarde. Ricardo afogou-se no próprio sangue em menos de um minuto. Pedro largou a espingarda e saiu do quarto. Foi até onde estava o pai. O seu Antônio ainda estava vivo, mas mal conseguia respirar. Cada respiração vinha com sangue pela boca. Olhou para o filho, tentou falar, mas apenas conseguiu fazer um som rouco.
O Pedro ajoelhou-se ao lado dele. Pai, aguenta. Eu vou procurar ajuda. Mas o seu António abanou a cabeça leve. Ele sabia que não ia sobreviver. Ele levantou a mão, agarrou a camisa do filho com uma força surpreendente e sussurrou algo que Pedro mal conseguiu ouvir. Acaba com isso. O Pedro não percebeu logo o que o pai queria dizer, mas ia compreender.
Ia perceber muito em breve. O João tinha morrido ali mesmo, segundos depois de ter sido baleado no pescoço. O tiro tinha perfurado a artéria carótida. Nem teve tempo de perceber o que tinha acontecido. Carlos ainda era vivo quando Pedro chegou perto dele. Ele estava deitado de costas, respirando rápido, superficial, uma poça de sangue a formar-se embaixo dele.
Olhou para o irmão e sussurrou: “Cuida das crianças, cuida da Lurdes”. E depois ele também se foi. Dona Maria tinha morrido quando bateu com a cabeça na pedra. O tiro no peito já a ia matar, mas a pancada na cabeça foi instantânea. Quando o sol nasceu, no dia 15 de janeiro de 1976, a quinta dos Pereira aparecia um campo de batalha.
Seis corpos espalhados pelo terreiro, sangue na terra, nas paredes da casa, nas janelas. Os três netos pequenos choravam dentro da casa sem perceber o que tinha acontecido. Mariana estava sentada no chão do quarto, coberta de sangue, em estado de choque, olhando para nada. O Pedro estava sentado na varanda, a olhar para os corpos, processando o que tinha acontecido, tentando perceber como a vida da família dele se tinha desmoronado em questão de minutos.
Um vizinho tinha ouvido os tiros na noite anterior, mas nessa região somjava longe e distorcido. Ele não tinha a certeza de onde vinham os tiros. E de qualquer forma não era incomum ouvir tiro na zona rural. Às vezes era gente a caçar. Às vezes era alguém a espantar animal. Mas quando amanheceu e ele viu os abutres a começar a circular sobre a propriedade dos Pereira, soube que algo tinha dado muito errado.
Montou no cavalo e foi até lá. Quando chegou perto da casa e viu a cena, quase vomitou. Ele tinha servido no exército, tinha visto coisas maus, mas nada comparado à aquilo. Ele gritou por Pedro, que levantou a cabeça devagar, como se tivesse acabado de acordar de um pesadelo. O que aconteceu aqui, menino? Por amor de Deus, o que aconteceu?” Pedro tentou explicar, mas as palavras não saíam bem.
Ele apontou para os corpos dos invasores, tentou dizer que tinham vindo atacar, que o pai tinha defendido a família, mas tudo saía confuso, embaralhado. O vizinho não perdeu tempo. Ele galopou de volta até à sua quinta e mandou o filho ir à cidade buscar a polícia. Demorou quase 2 horas até que a polícia chegar.
Dois polícias militares numa velha carrinha, seguidos por mais um carro com o delegado. Quando chegaram e viram a cena, mesmo os polícias que já tinham visto muita coisa, ficaram chocados. Era muita morte, muito sangue, muito horror para processar de uma só vez. Eles começaram a perícia da forma que podiam. Tiraram fotos com uma máquina fotográfica antiga, mediram distâncias, recolheram as armas, fizeram desenhos da cena, cobriram os corpos com lençóis que apanharam dentro da casa, chamaram o rabecão da cidade para levar os mortos. Pedro deu o depoimento,
contou tudo o que tinha acontecido desde o início da noite até ao último disparo. Explicou que os invasores tinham entrado na propriedade, que o pai tinha disparado em legítima defesa, que tudo tinha escalado demasiado rápido. “E a rapariga ali dentro?”, perguntou o delegado, apontando para casa.
Quem é ela? “A minha irmã?» Pedro respondeu à voz cansada: “Mariana, e o que é que ela tem a ver com isso?” Pedro hesitou, mas não tinha como mentir agora. Contou sobre Ricardo, sobre o romance escondido, sobre a gravidez, sobre o plano de fuga que tinha terminado naquela tragédia. O delegado ouviu tudo anotando no caderninho dele.
Quando Pedro terminou, o delegado suspirou fundo. “Que desperdício!”, disse. “Que raio desperdício.” A Mariana foi levada para cidade. Tentaram fazê-la falar, prestar o depoimento, mas ela não conseguia. Ficava só a repetir: “Eu matei-os. Eu matei-os a todos, mesmo que não tivesse disparado sobre ninguém”. Veio um médico, deu um calmante nela e mandaram-na ficar na casa de uma tia na cidade, a irmã de dona Maria.
A investigação foi relativamente rápida. Os polícias identificaram o José e o Miguel através das digitais. Descobriram as fichas criminais dos mesmos, os antecedentes. Descobriram que Ricardo tinha uma passagem pela polícia em Minas Gerais. A conclusão foi óbvia. Os três tinham invadido a propriedade com intenção de raptar a Mariana.
A família tinha reagido em legítima defesa e o resultado tinha sido aquele banho de sangue. Ninguém ia ser preso, ninguém ia ser acusado. Era legítima defesa. Caso encerrado. Os funerais realizaram-se dois dias depois numa pequena igreja da zona rural. Foi um dos funerais mais tristes que aquela região já tinha visto.
Quatro caixões enfileirados em frente da igreja. o senhor António, a senhora Maria, o João e Carlos. A igreja estava lotada. Todo mundo da região tinha vindo prestar as condolências. Helena estava destroçada, amparada pelo marido. O Pedro estava sentado sozinho num canto, olhando para os caixões, sem chorar, sem falar, apenas existindo. Mariana não foi ao funeral.
Ela não tinha condição emocional para ver os caixões dos pais e dos irmãos. As viúvas de João e Carlos estavam ali com os filhos pequenos. Teresa, a viúva de João, chorava silenciosamente, agarrado a mão dos dois filhos. Lourdes, a viúva de Carlos, estava um pouco mais controlada, mas só porque tinha tomado tantos calmantes que mal conseguia processar o que estava a acontecer.
Os cinco netos pequenos não compreendiam direito o que estava a acontecer. Só sabiam que o pai tinha ido embora e não ia voltar. Depois do funeral, a família teve de decidir o que fazer com a propriedade, com os bens, com tudo, mas ninguém tinha cabeça para isso. Helena e o marido voltaram paraa casa deles. A Teresa foi viver com os pais dela, levando os dois filhos.
Lurdes ficou na casa que ela e Carlos tinham alugado na cidade, tentando descobrir como ia sustentar três crianças sozinha. Pedro voltou para a fazenda. Alguém precisava cuidar dos animais, da terra, de tudo o que tinha ficado para trás. Ele passou os dias seguintes numa rotina mecânica. Acordava, tratava do gado, arranjava o que precisava de ser arranjado, comia alguma coisa quando se lembrava e ia dormir.
Não recebia visitas, não conversava com ninguém, só trabalhava e tentava não pensar. A Mariana continuava em casa da tia, na cidade. Ela tinha deixou de repetir que a culpa era dela, mas também tinha deixado de falar qualquer outra coisa. Ficava hora sentada na cadeira da varanda, olhando para o nada, uma mão sempre no ventre, onde o bebé crescia.
A tia tentava conversar com ela, tentava que comesse direito, descansar, pensar no futuro. Vais ter um filho, Mariana. Você precisa de cuidar de si pelo bem da criança. Mas a Mariana parecia não ouvir. As semanas passaram, janeiro tornou-se fevereiro. A vida na região foi regressando ao normal, pelo menos para quem não era da família Pereira.
As pessoas comentavam a tragédia por alguns dias. Depois começaram a comentar sobre outras coisas, sobre a seca que estava começando, sobre o preço do gado, sobre a política. A vida seguia. Mas para Mariana, a vida tinha parado naquela noite de janeiro. No dia 2 de fevereiro, a tia da Mariana teve de sair para resolver umas coisas na cidade.
Ela deixou Mariana sozinha em casa, como tinha feito outras vezes. “Eu volto antes do almoço”, disse ela. “Há comida no frigorífico se quiser comer alguma coisa”. Mariana acenou com a cabeça, mas não disse nada. Quando a tia saiu, A Mariana ficou sentada na varanda durante mais alguns minutos. Então ela se levantou-se, entrou em casa, foi até ao quartinho dos fundos, onde a tia guardava as coisas de limpeza e ferramentas.
Pegou na caixa de veneno para rato que estava na prateleira de cima. Era uma caixa velha, meio amassada, mas ainda tinha bastante veneno no interior. Ela voltou para o quarto dela, sentou-se na cama, abriu a caixa. O veneno tinha um cheiro forte, químico. Ela olhou para aquele pó branco por um longo tempo, pensou no bebé que crescia dentro dela.
Pensou no Ricardo, no sangue dele nas mãos dela. Pensou nos pais, nos irmãos, em tudo o que tinha sido destruído. E depois pensou que não tinha mais força para carregar tudo aquilo. já não tinha força para viver com a culpa, com a dor, com o peso de saber que tudo, absolutamente tudo, tinha começado com ela.
Se ela não se tivesse apaixonado por Ricardo, se ela tivesse obedecido ao pai, se ela não tivesse ficado grávida, si si. Ela pegou num copo com água que tinha na mesinha de cabeceira, deitou o veneno na água, mexeu com o dedo. A água ficou turva, com um cheiro ainda mais forte. Ela tomou tudo de uma vez. O sabor era horrível, amargo, queimava a garganta.
Teve ânsia, quase vomitou, mas obrigou o líquido a descer. Depois deitou-se na cama de lado, numa posição quase fetal, e esperou. A dor começou por volta dos 15 minutos depois. Era uma dor de barriga, como se tivesse mil facas a cortar por dentro. Ela encolheu-se mais, abraçou a própria barriga, mas não gritou.
Não queria que ninguém ouvisse, ninguém viesse tentar salvá-la. Pegou no caderno que tinha na gaveta e um caneta. Com a mão a tremer, escreveu o bilhete. Não aguento mais carregar esta culpa. Perdão. Assinou por baixo. Deixou o caderno aberto na cama e fechou os olhos. A tia voltou para casa por volta das do meio-dia trazendo umas compras.
Ela chamou pela Mariana, mas não teve resposta. Achou estranho. Foi até ao quarto da sobrinha, bateu à porta. Nada. abriu a porta e encontrou Mariana deitada na cama, imóvel, com espuma seca nos cantos da boca, os olhos semifechados, a pele pálida, com um tom meio azulado, a caixa de veneno estava caída no chão, o bilhete aberto na cama.
A tia gritou, correu para a vizinha que veio a correr. Chamaram uma ambulância, mas já era tarde. Mariana tinha morrido fazia pelo menos uma hora. Quando Pedro soube da morte da irmã, não chorou. Ele simplesmente ficou sentado na varanda da quinta. olhando para o horizonte, processando mais uma perda. Ele sabia que isso ia acontecer.
No fundo, ele sabia Mariana não ia conseguir sobreviver ao peso daquela culpa. O funeral de Mariana foi ainda mais triste que o dos pais e dos irmãos. Foram poucas as pessoas. Helena e o marido Pedro, as viúvas de João e Carlos, alguns vizinhos. O padre fez uma cerimónia rápida, sem grande pompa. O suicídio ainda era um tabu muito grande na época, sobretudo numa comunidade religiosa como aquela.
Enterraram Mariana no mesmo cemitério onde estavam os pais e os irmãos. Colocaram a lápide dela ao lado da lápide da dona Maria. Mariana Pereira, 1957, 1976. Descanse em paz. 19 anos. Ela tinha vivido apenas 19 anos. Sete pessoas mortas. E a história ainda não tinha terminado. Pedro voltou paraa quinta depois do funeral de Mariana e entrou numa espiral de depressão profunda.
Ele deixou de cuidar direito da propriedade. O gado começou a emagrecer, alguns morreram. A horta morreu. A casa começou a acumular sujidade, louça, roupa suja. O Pedro bebia. Bebia muito. Comprava garrafas de cachaça na cidade e bebia sozinho na varanda. Às vezes até desmaiar ali mesmo. A Helena tentou ajudar.
Ela ia visitar o irmão toda a semana, levava comida, tentava limpar a casa um pouco, tentava que ele conversar, mas o Pedro afastava todo o mundo. Ele não queria ajuda, não queria companhia, só queria estar sozinho com a dor dele. Pedro, não pode continuar assim, disse Helena numa dessas visitas. Vai morrer se continuar desse jeito.
Tanto faz? Ele respondeu sem olhar para ela. Não fale assim. Você é tudo o que sobrou da nossa família. Justamente por isso. Ele disse, eu sou o que sobrou. Eu devia ter morrido junto com eles. A Helena chorou, abraçou o irmão, mas este ficou duro, sem retribuir o abraço. Ela foi-se embora nesse dia, sentindo que tinha perdido o irmão também, mesmo ele ainda estando vivo.
Foi em março que as coisas pioraram de novo. José e Miguel, os dois que tinham invadido a quinta com Ricardo, tinham família. José tinha dois irmãos mais novos, Mário e Arnaldo. O Miguel tinha um irmão, Severino. Os três tinham ficado sabendo da morte dos irmãos. Tinham ido na polícia a querer respostas, a querer justiça. A polícia explicou.
Seus irmãos tinham invadido uma propriedade, tinham trocado tiros com a família e tinham morrido. Era legítima defesa. Não ia ter processo, não ia haver punição. Assim, os os rapazes podem matar os nossos irmãos e não acontece nada. O Mário tinha gritado no delegado. Os seus irmãos eram criminosos. O delegado respondeu: “Tinham cadastro.
Invadiram uma propriedade com armas. O que esperava que acontecesse? Mas para Mário, Arnaldo e Severino, não importava o que os irmãos tinham feito. Eram os irmãos deles, eram o sangue deles. E alguém os tinha matado. Alguém precisava de pagar. Eles começaram a perguntar, a investigar por conta própria.
Descobriram que a família Pereira tinha sido praticamente dizimada. O senhor António morto, a dona Maria morta, dois filhos mortos, uma filha que tinha-se matado. Sobravam apenas dois, Helena e Pedro. Helena morava longe, com o marido, tinha proteção, mas Pedro, Pedro estava sozinho naquela quinta isolada, afundado na bebida e na depressão.
Era um alvo fácil. Eles planearam a vingança durante todo o mês de março. Não tinha pressa. Queriam fazer bem. Queriam que os Pereira sofressem como tinham sofrido. No dia 18 de março, foram primeiro atrás da Lourdes, a viúva de Carlos. Eles sabiam onde ela morava. Uma casinha simples nos arredos de Goiânia, com as três crianças pequenas.
Era a noite quando bateram na porta. Lurdes, pensando que era uma visita normal, abriu. Eles empurraram a porta, entraram. As crianças começaram a chorar. O que aconteceu naquela casa foi tão horrível que te vou poupar dos detalhes mais gráficos. Vou só dizer que violaram a Lourdes na frente dos filhos, bateram-lhe e quando terminaram mataram-na com facadas.
17 facadas no total, segundo o relatório da perícia. Depois as crianças conseguiram fugir pela janela das traseiras enquanto os homens ainda estavam com a mãe. Correram até à casa do vizinho gritando, chorando. O vizinho pegou numa espingarda e foi a casa da Lurdes. Mas quando lá chegou, os homens já tinham fugido. A Lurdes estava caída na sala, numa poça de sangue, os olhos ainda abertos.
As três crianças, o Carlinhos de 7 anos, a Ju de 5 e Marcelo de dois, foram levadas pro abrigo de menores da cidade. Ninguém da família tinha condições para cuidar deles. Teresa, a viúva de João, já estava mal conseguindo cuidar dos próprios filhos. Helena e o marido viviam longe e tinham medo de serem os próximos alvos.
Quando a notícia chegou até Pedro, estava bêbado na varanda. O vizinho que tinha encontrado a Lurdes foi à quinta contar pessoalmente. O Pedro ouviu, não reagiu muito, só abanou a cabeça devagar. “Eles vão vir atrás de mim também”, disse. Não era uma pergunta, era uma afirmação. “Você precisa de sair daqui, Pedro.” O vizinho disse: “Vende tudo, pega no dinheiro, vai para longe, recomeça noutro lugar.
” Mas Pedro abanou a cabeça. “Não vou fugir. Se me querem achar, que venham. Eu vou estar aqui à espera. Ele tinha desistido. Tinha desistido de viver, de lutar, de tudo. Se os irmãos de José e Miguel viessem, ele ia enfrentá-los. E se o matassem, tanto melhor. Pelo menos o sofrimento ia acabar.
Helena soube da morte de Lurdes e entrou em pânico. Ela e o marido venderam tudo à pressa, a quinta deles, os animais, os móveis, pegaram no dinheiro e fugiram. Dizem que foram pro sul do país, talvez para o Paraná ou Santa Catarina. Mudaram de nome, tentaram começar uma nova vida. Nunca mais tiveram contacto com ninguém da região. Para o resto da família, para poucos que ainda estavam vivos, Helena simplesmente sumiu.
Teresa, a viúva de João, fez o mesmo. Pegou nos dois filhos, Pedrinho e Aninha, e fugiu com eles para o meio da noite. Dizem que foi para São Paulo, mas ninguém tinha a certeza. Ela também nunca mais deu notícias. Sobrou Pedro sozinho na quinta à espera. Ele sabia que eles iam vir. Era apenas uma questão de tempo. Então ele preparou-se.
Deixou de beber pelo menos por uns dias. Limpou as armas todas, a espingarda do pai, a espingarda, os dois revólveres. Comprou munições novas, comeu direito, dormiu direito. Se ia ser o seu último combate, queria estar pronto. No dia 7 de abril de 1976, era uma quarta-feira. O céu estava nublado, ameaçando chuva.
O Pedro estava sentado na varanda desde manhã, a espingarda do pai ao colo, os revólveres à cintura, a espingarda apoiada na parede atrás dele. Ele não tinha medo, só cansaço. Um cansaço profundo de quem tinha visto demais, perdido demais, aguentado demais. Eles chegaram por volta das 15 horas, três homens num carro velho, barulhento.
Não tentaram se esconder, não tentaram ser silenciosos. Queriam que Pedro soubesse que eles estavam a vir. O Pedro viu o carro a parar à entrada da propriedade, viu os três homens a sair, armados. Ele não se moveu. Apenas ajeitou a espingarda no colo e esperou. Começaram a andar em direção à casa. Mário na frente, Arnaldo e Severino dos lados.
Quando chegaram a a uns 50 m da varanda, o Mário gritou: “Tu matou o meu irmão?” Pedro não respondeu. Ouviu o que eu disse? Você matou meu irmão. Pedro falou finalmente a voz calma, cansada. O seu irmão invadiu a minha casa, matou o meu pai, a minha mãe, os meus irmãos. Eu só terminei o que ele começou.
E acha que isso justifica? Não. Pedro disse, nada justifica. Nada disso devia ter acontecido, mas aconteceu. E agora estamos aqui. Mário levantou a arma, um revólver. Então vamos terminar isto. Vamos. Pedro concordou. O Mário disparou primeiro. O tiro passou longe, embateu na parede da casa. Pedro levantou a espingarda e disparou.
Os chumbos atingiram o braço de Mário, que gritou e largou o revólver. Arnaldo e Severino começaram a disparar também. Pedro atirou-se atrás da bala austrada da varanda, protegido pelo tijolo. Os tiros batiam na parede, no chão, levantando poeira. Pedro recarregou a espingarda, levantou-se rapidamente, disparou de novo, acertou Severino no peito.
Severino caiu para trás, voando a arma da mão. Arnaldo correu para a lateral, tentando flanquear Pedro. Pedro pegou num dos revólveres, disparou três vezes. Um dos tiros atingiu a perna de Arnaldo, que caiu atrás de uma carroça velha que estava no terreiro. Mário tinha pegado no revólver de volta com a mão boa. Ele atirou várias vezes em direção à varanda.
Um dos tiros atingiu o ombro de Pedro, que sentiu a dor explodir. Sentiu o sangue quente a descer pelo braço. Ele caiu de costas, batendo nas tábuas da varanda. Ficou ali por um segundo a tentar recuperar o fôlego. Então ouviu os passos. Eles estavam a aproximar-se. Ele rolou para o lado, pegou na espingarda que tinha deixado apoiado na parede, levantou, mesmo com o ombro a sangrar, e disparou.
Atingiu Mário no pescoço. Mário caiu, as mãos no pescoço, tentando estancar o sangue que jorrava entre os dedos. Arnaldo saiu de trás da carroça, disparando descontrolado. Um dos tiros atingiu o peito de Pedro. O Pedro sentiu o impacto. Sentiu as pernas fraquejarem. Caiu de joelhos, o rifle caindo no chão.
Arnaldo aproximou-se ainda atirando. Mais um tiro atingiu Pedro. Desta vez no estômago. O Pedro caiu de lado, a visão começando a escurecer nas bordas. Arnaldo chegou perto, apontou a arma para a cabeça de Pedro. “Pelos meus irmãos”, disse, e disparou, mas a arma só clicou sem bala. Pedro, mesmo agonizante, esboçou um sorriso fraco.
“Você errou a conta.” Arnaldo praguejou, atirou a arma vazia no chão e saiu a correr de volta para o carro. Severino tinha morrido ali mesmo. O tiro no peito tinha trespassou o coração. O Mário ainda estava vivo, mas perdendo muito sangue. Arnaldo pegou no Mário, atirou-o para o banco de trás do carro e arrancou em disparada.
Mário morreu no caminho antes deles conseguirem chegar a qualquer lugar que pudesse ajudar. O Pedro ficou caído na varanda, a sangrar, olhando para o céu cinzento que ameaçava a chuva. Ele pensou em tanta coisa naqueles últimos momentos. Pensou na família, em como eram felizes antes de tudo começar. Pensou na Mariana, naquele jeito sonhador que ela tinha.
Pensou nos irmãos, no pai, na mãe. Pensou em como tudo podia ter sido diferente. Se o pai tivesse sido menos rígido, se Mariana tivesse escolhido outro rapaz. Se o Ricardo não tivesse sido tão desesperado. Si, si, si, mas já não tinha se. Só tinha ali agora o sangue dele a espalhar-se pelas tábuas da varanda onde tinha brincado quando criança.
A chuva começou a cair ligeiramente no início, depois mais forte. As gotas caíam no rosto de Pedro, misturando com as lágrimas que escorriam dos olhos dele. Ele morreu ali sozinho enquanto a chuva lavava o sangue para longe. Um vizinho encontrou os corpos no dia seguinte. Pedro caído na varanda, Severino caído no terreiro.
A polícia foi chamada, fez a perícia, recolheu os corpos. Tentaram encontrar o Arnaldo, mas tinha desaparecido. Tinha fugido da região, provavelmente do Estado. A polícia enviou alertas, descreveu o cara, mas nunca o encontraram. Até hoje, tanto quanto consegui apurar, ninguém sabe o que aconteceu ao Arnaldo.
Pode ter mudado de nome, pode ter ido para outro estado, pode até ter morrido algures e ninguém soube. Ele simplesmente desapareceu. A quinta dos Pereira ficou abandonada. Não tinha mais ninguém para cuidar dela. Os animais que sobraram foram apanhados por vizinhos. A casa começou a desmoronar-se com o tempo. O telhado caiu, as paredes racharam, o mato cresceu por cima de tudo.
Durante anos, as pessoas da região evitavam passar por ali. Diziam que a propriedade estava amaldiçoada, que se ouvia gritos à noite, que tinha almas penadas vagando. superstições, claro, mas num lugar onde tantas pessoas tinham morrido de forma tão violenta, as pessoas preferiam acreditar nas lendas do que enfrentar a horrível realidade do que tinha acontecido ali.
Os cinco netos que sobreviveram, o Pedrinho e a Aninha, filhos do João e do Carlinhos, da Ju e do Marcelo, filhos de Carlos, cresceram sem saber direito o que tinha acontecido com a família deles. As pessoas que cuidaram deles, quer em abrigos, quer em famílias adotadas, acharam melhor não contar. Era demasiado trauma, demasiada dor para carregar.
Pedrinho e Aninha cresceram em São Paulo com a mãe Teresa. Ela nunca falou sobre o passado. Inventou uma história de que o pai tinha morrido num acidente de trabalho, que a sua família se tinha mudado para começar uma nova vida. As crianças cresceram a acreditar nisso. Carlinhos, Ju e Marcelo cresceram em abrigos diferentes.
Foram separados porque era mais fácil encontrar famílias dispostas a adotar uma criança do que três de uma só vez. Eles perderam o contacto uns com os outros. Cada um cresceu acreditando em versões diferentes sobre que tinha acontecido aos pais. Foi só em 2003, quando o Carlinhos já estava com 34 anos, casado com filhos, vivendo uma vida normal, que decidiu investigar o passado da família.
Ele tinha sempre sentido que havia algo de errado na história que lhe tinham contado. Tinha memórias fragmentadas, pesadelos recorrentes com sangue e gritos que ele não conseguia explicar. Ele contratou um investigador privado que começou a cavar. encontrou os ficheiros policiais, encontrou os jornais antigos que tinham coberto a tragédia, encontrou pessoas antigas da região que ainda se lembravam.
E aos poucos toda a história veio ao de cima. Quando o Carlinhos descobriu a verdade, esteve semanas sem conseguir processar. Ele tinha crescido, achando que os pais tinham morrido num incêndio doméstico. Descobrir que, na verdade, a mãe tinha sido violada e morta brutalmente por vingança, que o pai tinha morrido num tiroteio, que a família inteira tinha sido dizimada numa guerra, que começou com uma história de amor proibido, era demais.
Ele tentou encontrar os irmãos Ju e Marcelo. Levou anos, mas conseguiu. Marcelo estava vivendo em Brasília, trabalhando como mecânico, tinha uma família. A Ju tinha tornou-se professora. Morava em Góis mesmo, numa cidade diferente. Nenhum dos dois sabia da história verdadeira. Quando o Carlinhos lhes contou, foi devastador. A Ju chorou durante dias.
Marcelo ficou em silêncio, processando, tentando reconciliar a vida que tinha com a história horrível de onde ele vinha. Tentaram encontrar os primos Pedrinho e Aninha, mas não conseguiram. A Teresa tinha mudado os apelidos deles, tinha apagado qualquer rasto que pudesse conectá-los com a tragédia. E quando Carlinhos finalmente encontrou Teresa em 2005, ela implorou-lhe não contar nada aos filhos.
“Eles não precisam de saber”, disse ela já velhinha, frágil. “Deixa-os viver em paz”. O Carlinhos respeitou o pedido dela, não procurou os primos. Ele tentou encontrar Helena, a tia que tinha fugido, mas não conseguiu. Ninguém sabia para onde ela tinha ido, se ainda estava viva. Nada. Era como se ela tivesse simplesmente deixado de existir.
Em 2008, Carlinhos voltou até à região onde tudo tinha acontecido. Ele queria ver a propriedade, o local onde a sua família tinha vivido, tinha morrido. Levou um GPS, um mapa antigo e demorou horas a encontrar. Quando finalmente o encontrou, ele quase não reconheceu. A casa tinha desabado completamente. Só sobravam umas paredes, pedaços de tijolo cobertos de mato.
A vedação tinha apodrecido, o portão tinha caído. A natureza tinha tomado conta de tudo. Ele andou pelo terreno tentando imaginar como era antes, tentando imaginar os avós que nunca conheceu, os tios, a tia Mariana que ele tinha ouvido falar, tentando sentir alguma ligação com aquele lugar. Mas tudo o que sentiu foi tristeza. Tristeza profunda, pesada, por tudo o que tinha sido perdido, por todas as vidas que tinham sido destruídas, por todos os s que nunca iam ter resposta.
Ele ficou ali até escurecer, sentado num pedaço de parede que ainda estava de pé, olhando para o nada. Quando finalmente se foi embora, ele jurou que nunca mais ia voltar. Era demasiado doloroso. Eu conversei com o Carlinhos por telefone enquanto pesquisava essa história. Ele tem 55 anos agora em 2025. Disse-me uma coisa que nunca mais vou esquecer.
Eu perguntei-lhe: “Como é que lida com isso? com saber que a sua família foi destruída daquela maneira. Ele ficou em silêncio por um tempo. Então disse: “Eu tento não pensar muito, porque se eu ficar a pensar, eu enlouqueço. O meu avô morreu a tentar proteger a família dele. O meu pai morreu tentando proteger a família dele.
O meu tio Pedro morreu sozinho, destruído, sem família nenhuma para proteger. A minha tia Mariana se matou porque não conseguiu viver com o culpa. A minha mãe foi violada e assassinada por gente que nem conhecia ela, só porque tinha casado com o apelido errado. E tudo isto, tudo isto mesmo começou porque uma rapariga de 19 anos apaixonou-se por um rapaz que o pai dela não aprovava.
Ele parou, respirou fundo e continuou. Sabe o que mais me assusta? É que isto não precisava de ter acontecido se o meu bisavô tivesse sentado para conversar com a Mariana em vez de a trancar no quarto. Se o Ricardo tivesse sido homem o suficiente para ir lá e enfrentar a família dela de frente em vez de contratar criminosos. Se alguém em algum momento tivesse parado e pensado, espera, isto aqui está escalando demais, precisamos de parar antes que alguém morra.
Mas ninguém fez isso. Todos deixaram o orgulho, a raiva, a vingança falar mais alto. E no final, morreram nove pessoas. Nove? E para quê? Para absolutamente nada. Eu Fiquei em silêncio depois disso, porque não tinha nada a dizer. Ele tinha razão, completamente certo. Esta história não é sobre facções que disputam território, não é sobre tráfico, sobre crime organizado, sobre a guerra entre gangues.
É sobre uma família comum, vivendo uma vida comum numa região pacata de Goiás. E em questão de 3 meses, do dia 15 de janeiro até ao dia 7 de Abril de 1976, esta família deixou de existir. Nove pessoas mortas. Seu António Pereira, 58 anos. Dona Maria Pereira, 54 anos. João Pereira 32 anos. Carlos Pereira 29 anos. Mariana Pereira, 19 anos.
Lurdes, apelido desconhecido, esposa de Carlos, 27 anos. e os três invasores, Ricardo Silva, José Almeida e Miguel Santos. Cinco crianças órfãs, que cresceram sem saber a verdade sobre a própria história. Duas pessoas que fugiram e nunca mais foram vistas. Helena e Teresa, um homem que cometeu homicídio e nunca foi apanhado.
Arnaldo Almeida e uma propriedade abandonada onde o mato cresceu por cima do sangue que foi derramado numa noite de Janeiro de 1976. O que mais me impressiona e o que mais assusta-me nesta história toda é como começou pequena, um pai conservador que não aceitava o namorado da filha. Uma situação que acontece em milhares de famílias todos os dias.
Mas, nesse caso, em vez de haver diálogo, houve imposição. Em vez de haver compreensão, houve rigidez. Em vez de haver perdão, houve vingança. E cada decisão errada levou a outra decisão errada. Cada ato de violência gerou mais violência. Cada morte pediu mais morte. Até que não não sobrou mais ninguém para matar, ninguém para vingar, ninguém para continuar o ciclo. Porque é isso que a vingança faz.
Ela não traz paz, ela não traz justiça, ela só traz mais dor, mais sangue, mais tragédia. Os irmãos de José e Miguel acharam que se iam sentir melhor depois de matar a família Pereira. Acharam que iam conseguir dormir descansados, sabendo que tinham vingado os irmãos. Mas acha que o Arnaldo, onde quer que esteja hoje, se é que ainda está vivo, consegue dormir em paz? Acha que ele olha no espelho e sente-se orgulhoso do que fez? Duvido muito, porque a violência não gera orgulho, gera vergonha, medo e muito mais
violência. E o pior de tudo é que esta história não é única. Ela não é uma exceção. Tem histórias parecidas acontecendo agora mesmo enquanto você assiste a este vídeo. Tem famílias a ser destruídas por conflitos que começaram pequenos e tornaram-se tragédias. Tem gente deixando o orgulho falar mais alto que o amor.
Há gente a escolher a vingança em vez do perdão. Eu não estou aqui a dizer que o senhor António devia ter simplesmente Aceito o Ricardo de braços abertos. Ricardo era de facto um tipo problemático, com um passado criminal, que não era uma boa escolha para o futuro de ninguém. O senhor António tinha razão em se preocupar com a filha, mas a forma como lidou com isso, trancando a filha, usando de violência, recusando qualquer tipo de diálogo, isso só piorou tudo.
E o Ricardo, meu Deus, o Ricardo fez tudo errado também. Em vez de enfrentar a situação como um homem, em vez de tentar provar ao pai da Mariana que tinha mudado, que podia ser uma pessoa melhor, foi atrás de criminosos. Ele transformou uma fuga romântica numa invasão armada e isso custou-lhe a vida e de mais oito pessoas.
É, Mariana também tomou decisões erradas. Ela se apaixonou-se pelo rapaz errado, mentiu aos pais, continuou a vê-lo escondido, mesmo sabendo que o pai ia ficar furioso. Mas ela era jovem, tinha 19 anos. A gente faz muita asneira aos 19 anos porque não temos experiência de vida para saber que certas decisões podem ter consequências irreversíveis.
E os irmãos de José e Miguel, eles perderam os irmãos? Sim, isto é doloroso, compreendo. Mas os irmãos deles eram criminosos que invadiram uma propriedade armados. Eles morreram porque estavam a tentar cometer um crime. E, mesmo assim, Mário, Arnaldo e Severino acharam que tinham o direito de ir atrás da família Pereira e matar gente inocente.
Acharam que violar e matar a Lourdes, uma mulher que não não tinha nada a ver com nada, ia trazer os irmãos de volta. Todo o mundo errou. Todo mundo contribuiu para este desastre e no final todos perderam. Eu penso muito nisso. Penso em como nós como sociedade lida com conflitos. A gente vive ainda numa cultura onde o orgulho é valorizado, onde não levar desaforos para casa é visto como coisa de macho, onde perdoar é visto como fraqueza, onde conversar, negociar, ceder é visto como perder.
E isso está errado, completamente errado. Porque quando escolhemos o orgulho em vez da humildade, as pessoas escolhe a guerra em vez da paz. Quando a gente escolhe a vingança em vez do perdão, escolhemos a morte em vez da vida. E quando não conseguimos sentar e conversar, quando não consegue ouvir o outro lado, quando o gente não consegue ver o ser humano que está do outro lado do conflito, nós destrói famílias, nós destróimos vidas, a gente destrói futuros.
A história da família Pereira é um espelho, um espelho doloroso, horrível, que mostra o que acontece quando deixamos as piores partes da natureza humana vencerem. E a as pessoas precisam de olhar para esse espelho, mesmo que doa, porque só assim nós aprende. Eu não tenho resposta mágica para como resolver estes conflitos.
Eu gostaria de ter, gostaria de poder dizer, basta fazer X e Z que tudo se resolve. Mas a vida não é assim. Os conflitos são complexos, envolve emoções profundas, traumas, culturas, crenças. Não tem solução fácil. Mas sei que a primeira coisa que precisamos de fazer é escolher o diálogo em vez da violência sempre.
Mesmo quando está difícil, mesmo quando a raiva é grande, mesmo quando o orgulho está a gritar para a gente reagir, a as pessoas precisam de parar, respirar e tentar conversar. E se a conversa não resolver, afastamo-nos, terminamos o relacionamento, cortamos os laços, a gente vai embora, mas a gente não apanha uma arma, não chamamos criminosos, não procuramos vingança, porque no momento em que fazemos isso, a gente já perdeu.
Já perdeu a humanidade, já perdeu o futuro, já perdeu tudo. A família Pereira não aprendeu que há tempo e o preço foi de nove vidas. Hoje, em 2025, quase 50 anos depois da tragédia, a história da família Pereira é praticamente desconhecida. Os jornais da altura noticiaram, mas foi só umas matérias pequenas, perdidas no meio de outras notícias.
Não teve grande repercussão nacional, foi apenas mais uma tragédia rural num país cheio de tragédias. As cinco crianças que sobreviveram estão vivas. O Pedrinho, que hoje deve ter uns 55 anos, e a Aninha, com uns 53, vivem algures em São Paulo, sem saber a verdade sobre o próprio passado. Carlinhos, Ju e Marcelo sabem, mas optaram por não falar muito sobre isso. É demasiado doloroso.
A propriedade dos Pereira já não existe. O terreno foi retomado pelo governo por falta de pagamento de impostos nos anos 80 e foi dividido em lotes mais pequenos e vendido a outras pessoas. Hoje tem várias casas ali, várias famílias vivendo, trabalhando, rindo, sem saber que pisam terra onde tanto sangue foi derramado.
Não tem placa comemorativa, não tem memorial, não tem nada que indique que algo aconteceu ali. E talvez seja melhor assim. Talvez seja melhor deixar o passado enterrado e deixar a vida continuar. Mas acho que é importante contar essas histórias. Acho que é importante lembrar que por detrás de cada estatística de violência há pessoas, há famílias, há sonhos que foram destruídos, há crianças que cresceram sem pais, tem traumas que se perpetuam por gerações.
E Acho importante lembrar que a violência não compensa, nunca compensa. Não importa o quanto estamos zangados, o quanto estamos magoados, o quanto a gente quer vingança. A violência só gera mais violência, a morte só gera mais morte. E no final não sobra ninguém para festejar a vitória, porque não tem vitória, só tem perda.
Então eu te pergunto, depois de ouvir esta história toda, se tivesse um conflito com alguém agora, o que escolheria? Escolheria o diálogo ou a violência? Escolheria o perdão ou a vingança? Escolheria a paz ou a guerra? Eu espero de todo o coração que escolha a primeira opção, porque a segunda opção, como a história da família Pereira mostra, só leva a um lugar, a tragédia.
Esta foi a história do massacre da família Pereira, uma das tragédias mais devastadoras que já aconteceram no interior de Goiás e que quase ninguém conhece. Nove pessoas mortas em três meses, três gerações dizimadas. Tudo por causa de uma mistura explosiva de amor, orgulho e a vingança. Se ficou impactado com esta história e quer conhecer mais casos reais sobre como os conflitos familiares e as vinganças podem destruir vidas inteiras, tenho um vídeo sobre a guerra entre duas famílias rivais no interior de Pernambuco, que
durou 15 anos e terminou com um desfecho que ninguém esperava. É uma história igualmente intensa, igualmente trágica e que também merece ser conhecida. O link está aqui para você clicar e assistir. E se ainda não está inscrito no canal, inscreve-te aí. Eu trago histórias reais, bem pesquisadas sobre tragédias, crimes e conflitos que marcaram o Brasil, mas que muita gente não conhece.
São histórias pesadas, mas são histórias importantes. São histórias que nos fazem refletir sobre quem somos como sociedade e que escolhas fazemos quando está sob pressão. Muito obrigado por assistir até aqui. Sei que foi pesado, sei que foi longo, mas foi uma história que precisava de ser contada por completo, com todos os pormenores, com todo o respeito pelas vidas que foram perdidas. Até ao próximo vídeo.