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O QUE VI DENTRO DAQUELE TÚMULO…. EU NUNCA VOU ESQUECER | História de Terror Real 

O QUE VI DENTRO DAQUELE TÚMULO…. EU NUNCA VOU ESQUECER | História de Terror Real

 

São 28 anos a trabalhar num cemitério. Nunca acreditei em assombrações. Até o dia em que abri o túmulo dela. Amélia Castro, 7 anos, morta em 1895. E o que começou a acontecer quando eu parti aquele cimento? Eu nunca vou esquecer. O meu nome é Manuel Santos, Tenho 51 anos e trabalho como coveiro no cemitério municipal de Porto Alegre.

Eu gosto do que faço. É um trabalho honesto, necessário. Já presenciei enterramentos que enchem o cemitério e já cavei covas num dia de sol abrasador e debaixo de chuva intensa. Enterros que não vai ninguém. É assim o trabalho. A gente não escolhe, apenas faz. O cemitério é lugar de gente morta, sim, mas não passa disso.

Trabalho e nada mais. Mas isso era antes daquele dia, antes da Amélia. Foi numa terça-feira de março. Lembro-me bem porque era um dia de pouco movimento, cemitério meio vazio. Eu tinha chegado cedo, como faço sempre, e estava a organizar as ferramentas quando o meu chefe me chamou. Manuel, preciso que faça uma esumação hoje.

Ele disse entregando-me uns papéis velhos. A esumação é quando a gente precisa de abrir um túmulo antigo e retirar os restos mortais. É comum aqui no cemitério. A câmara municipal precisa de espaço. Assim, os túmulos muito antigos que já ninguém cuida, precisam de ser libertados. Os restos vão para o ossário comum e o espaço fica livre para uma família nova. É assim que funciona.

Túmulo de 1895. Ele continuou. Lá no setor antigo, já passou o prazo, precisa de libertar o espaço. Tirei-lhe os papéis da mão para ler. Amélia Castro, 1888, 1895. O meu coração apertou na hora. 7 anos. Aquela criança tinha apenas 7 anos quando morreu. E sabe o que passou pela a minha cabeça? A minha filha, a minha Ana Paula.

Ela tinha 7 anos quando eu comecei a trabalhar aqui, mesma idade desta menina do túmulo. Eu lembrei-me dela naquela época. Olhei para o papel de novo. 1895, há mais de 120 anos. A Mélia tinha falecido há mais de um século e ali estava eu ​​a segurar o papel com o nome dela, sentindo uma coisa estranha no peito.

Não sei porquê, mas fiz uma coisa que nunca tinha feito antes. Olhei pro céu e fiz um pedido. Que seja tranquilo. Murmurei baixinho, quase sem voz. Que eu consiga fazê-lo com respeito. Porque é que eu fiz aquilo? Não sei explicar. Mas, naquele momento, algo dentro de mim disse que eu precisava de fazer, que aquele trabalho ia ser diferente.

Peguei nas minhas ferramentas e fui caminhando até ao setor antigo do cemitério. É lá no fundo, a parte mais velha, onde os túmulos são de pedra e cimento rachado, cobertos de musgo. As famílias destas pessoas não existem mais. Não há ninguém que venha visitar, colocar flor, limpar. São túmulos abandonados pelo tempo.

Alguns túmulos estão a cair aos pedaços, outros têm árvores a crescer em cima. É triste de uma forma ver que as pessoas ficam esquecidas assim. Quando cheguei à frente do túmulo da Amélia, parei. Era um túmulo de cimento, pequeno, túmulo de criança. Tinha fissuras por todo o lado e o musgo cobria quase toda a superfície.

A inscrição estava quase apagada, mas dava para ver o nome dela ainda. Amélia Castro. Fiquei ali parado por momentos, apenas olhando. Era estranho. Aquela parte do cemitério sempre esteve sossegada, sim, mas naquele dia estava diferente. O ar parecia mais pesado. E olhe que era Março, calor de verão ainda.

Coloquei as ferramentas no chão e respirei fundo. É apenas mais um trabalho pensei. Já fiz isso dezenas de vezes. É só libertar o espaço e pronto. Mas não conseguia tirar da cabeça e pensei: “E se fosse ela? E se fosse a minha Ana Paula, ali sepultada sozinha, esquecida há mais de 100 anos?” O pensamento deu-me um aperto no peito. Comecei a trabalhar, peguei na pá e Comecei a limpar a terra à volta do túmulo.

O cimento estava velho, quebradiço. Não ia ser difícil abrir. Foi quando ouvi. No início, pensei que era vento, um som baixinho, distante, mas o vento tinha parado. Não tinha uma folha a mexer. Parei de trabalhar e prestei atenção. O som continuou. E aí reconheci o que era risada. Gargalhada de criança. O meu corpo inteiro gelou.

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Olhei em redor procurando, tentando ver de onde vinha aquele som, mas não estava lá ninguém. Eu estava sozinho naquela parte do cemitério. A gargalhada continuou. Não era alto, mas ouvia-se claramente. Era um riso agudo de menina pequena, uma gargalhada alegre, como se alguém estivesse a brincar. Está alguém aí? Eu – falei, a voz saindo meio fraca.

Silêncio. Esperei. Nada. Voltei ao trabalho, mas a minha mão tremia e depois a gargalhada voltou mais perto dessa vez, como se alguém estivesse a correr à minha volta, de um lado para o outro, rindo, brincando. Mas eu continuava sozinho. Olhei para o túmulo da Amélia, o nome dela ali, quase apagado pelo tempo.

Que seja tranquilo tinha pedido, mas nada daquilo estava a ser tranquilo. A riso continuou para lá, para cá, como se uma criança estivesse a correr em círculos. Mas não estava lá ninguém, só e aquele túmulo de uma menina morta há mais de 100 anos. Engoli em seco. Meu coração batia forte no peito. Pela primeira vez em 28 anos de trabalho naquele cemitério, senti medo.

Medo de verdade. Fiquei ali parado, com a pá na mão, tentando perceber o que estava acontecendo. A gargalhada tinha parado. Respirei fundo. Calma, Manuel. Falei para mim próprio. Trabalha aqui há 28 anos. Nunca aconteceu nada. Não vai ser agora. Mas a minha mão continuava tremendo. Olhei em redor mais uma vez. Nada, apenas túmulos velhos, árvores e aquele silêncio que parecia apertar o peito da gente. Voltei a trabalhar.

Tinha de fazer aquilo. Não tinha jeito. Era o meu serviço. A câmara municipal precisava do espaço e eu precisava de libertar aquele túmulo. Simples assim. Continuei limpando a terra em redor do cimento. Olhei para o céu. O sol ainda estava alto. Respirei fundo. Peguei na marreta. Minhas mãos estavam suadas, a tremer um pouco, mas eu obriguei-as a segurarem firme.

Levantei a marreta e bati no cimento rachado. O som ecoou forte e as gargalhadas voltaram. Só que desta vez eram diferentes. Já não eram aquelas risos alegres de criança a brincar. Eram estranhas, um bocado distorcidas, sabe? Como se alguém estivesse a tentar rir, mas não o conseguisse direito. Bati de novo. Outro pedaço de cimento soltou-se.

A gargalhada ficou mais alta e mais estranha ainda. Havia algo de errado naquele som, algo que me fazia revirar o estômago. Continuei a trabalhar. Batia, batia, batia. Cada marretada soltava mais pedaços do cimento velho. E a cada pedaço que caía, o riso mudava mais. Foi ficando mais grave, mais lenta. Não parecia mais o riso de uma criança, parecia outra coisa.

O meu estômago começou a embrulhar. No início foi leve, apenas um desconforto, mas à medida que continuava partindo o cimento, aquela sensação foi piorando. Parei por um momento, apoiando as mãos sobre os joelhos. A náusea estava forte. Agora senti a minha boca encher de saliva, aquele mau sabor que vem antes de vomitar. Calma, respirei fundo.

É só o nervosismo, apenas isso. Bati mais algumas vezes. O cimento estava quase todo quebrado. Agora já se via a terra por baixo, escura, húmida. Foi quando a dor de cabeça começou do nada, como se alguém me tivesse espetado uma faca na testa. Uma dor aguda, forte, que me fez parar de imediato e levar a mão à cabeça.

A a dor latejava, pulsava. Cada batida do o meu coração era uma pontada na cabeça. Peguei no pé de cabra. Tinha que tirar os últimos pedaços de cimento, limpar a terra, chegar ao caixão. Quanto antes fizesse isso, antes acabaria. Forcei o pé de cabra debaixo de um pedaço grande de cimento. Fiz força.

O pedaço se soltou-se e caiu. A náusea agravou-se na hora. Senti o meu estômago revirar violentamente. Tive de me apoiar no túmulo para não cair. A minha cabeça estava a girar. A dor era insuportável. Agora parecia que o meu crânio ia explodir. E aquela gargalhada, aquela maldito riso, já não era riso, era outra coisa.

Para! Murmurei, apertando a cabeça com as duas mãos. Pára com isso! Mas não parou. Caí de joelhos no chão, junto do túmulo. A tontura era tão forte que mal conseguia manter os olhos abertos. Sentia que ia desmaiar a qualquer momento. Foi quando vi ali, entre dois túmulos velhos, cerca de 5 m de distância, um vulto, era escuro, pequeno, do tamanho de uma criança e estava parado, completamente imóvel.

Pisquei os olhos, tentando focar a visão. A dor de cabeça era tão forte que tudo estava desfocado, mas o vulto estava lá. Eu tinha a certeza. Quem? Quem está aí? Fechei os olhos com força. É a dor de cabeça, pensei. Você está a ver coisas por causa da dor? Mas quando abri os olhos de novo, o vulto continuava lá.

O meu coração disparou. O medo que eu estava a sentir agora era diferente do que tinha sentido antes. Era um medo profundo que mexia com tudo o que estava dentro de mim. Sai daqui falei a voz a tremer. Sai daqui agora. Forcei o meu corpo a se levantar. Peguei na pá. As minhas mãos estavam a tremer tanto que eu mal conseguia segurar.

Comecei a remover a terra. Cavei mais fundo. As minhas mãos encontraram algo duro. Madeira, o caixão. O meu coração deu um pulo. Graças a Deus, pensei. Está quase a acabar. Limpei a terra em redor do caixão com as mãos. A madeira estava podre, mole, coberta de limo, mas era um caixão. O caixão dela. Coloquei as mãos dos dois lados do caixão.

A madeira estava fria, muito fria. Desculpa-me. Sussurrei sem saber bem para quem eu estava falando. “Desculpa-me, mas eu preciso fazer isso.” Forcei a tampa. A madeira rangeu alto. Pedaços soltaram-se nas as minhas mãos, podres, quebradiças. O som agudo parou de repente. Do nada, silêncio total. A minha dor de cabeça desapareceu assim, num estalido, como se alguém tivesse desligado um interruptor.

A náuseia foi-se embora. O meu estômago parou de revirar. O que tinha acontecido? Porque tinha parado tudo. Olhei ao redor. O cemitério estava normal, silencioso, sim, mas normal. Sem sons estranhos, sem vultos, sem nada. Respirei fundo várias vezes. Acabou, pensei. Fosse o que fosse, acabou. Forcei novamente a tampa do caixão.

Ela cedeu com um rangido alto e eu consegui abrir. O cheiro que saiu de dentro não era mau. Era esperado que cheirasse mal passados ​​mais de 100 anos, mas não cheirava. Era um cheiro a terra velha, de bolor, mas não de decomposição. Olhei para dentro e congelei. Não era possível. Não podia ser. Ali dentro, deitada naquele velho caixão, estava uma criança. Mas não era um esqueleto.

Não eram só ossos como deve ser. Era um corpo, um corpo preservado. A pele estava escura, seca, esticada sobre os ossos. Parecia couro velho, mas estava intacta, toda intacta, como se tivesse sido mumificada. Estava vestida com um vestido branco amarelado pelo tempo. O tecido estava rasgado em alguns lugares, mas ainda se via que tinha sido bonito.

Um vestido de renda, delicado. O cabelo dela ainda estava lá escuro, preso com uma fita que tinha sido branca, mas agora estava castanha de tão velha. E nos braços dela, nos braços dela tinha uma boneca, uma boneca de pano velha, gasta. com o tecido rasgado em vários locais, mas era uma boneca. E ela estava abraçada a ela como se estivesse a dormir com o seu brinquedo preferido.

Fiquei ali a olhar, sem conseguir acreditar no que estava a ver. Trabalho com isto há 28 anos. Já abri dezenas de túmulos, vi dezenas de corpos em decomposição, vi ossos, vi restos, vi de tudo, mas nunca tinha visto nada igual àquilo. Um corpo preservado naturalmente daquela maneira não era comum, era quase impossível. As condições tinham de ser perfeitas, mas ali estava ela, a Amélia, de 7 anos, e abraçada à sua boneca.

As minhas lágrimas voltaram, mas desta vez não era de dor, era de outra coisa, tristeza talvez, por aquela criança que tinha morrido tão nova, por aquela criança que tinha sido enterrada sozinha apenas com a sua boneca de companhia. O silêncio que veio depois foi diferente. Já não era aquele silêncio pesado, sufocante, era um silêncio vazio.

Fiquei ali ajoelhado ao lado daquele caixão, olhando para dentro. O meu corpo inteiro estava tremendo, mas já não era de medo. Era outra coisa, algo que nunca tinha sentido antes. Amélia estava ali. Depois de mais de 100 anos, ela continuava ali, intacta, abraçada àquela boneca de pano como se fosse dormir e nunca mais acordasse.

A boneca era simples, de pano velho cosida à mão. O rosto tinha dois botões pretos como olhos. e uma linha vermelha formando uma boca pequena. Os braços e as pernas eram apenas tubos de tecido recheados, já meio vazios pelo tempo, mas via-se que tinha sido feita com carinho. Cada ponto, cada pormenor, alguém tinha feito aquela boneca para ela e ela tinha morrido abraçada a ela.

De repente, uma dor veio-me ao peito, uma dor forte que apertava, que doía a sério. Não era dor física, era outra coisa. Era tristeza. Uma tristeza profunda que vinha de algum lado lá dentro que eu nem sabia que existia. As minhas lágrimas começaram a cair sem parar e tudo o que eu conseguia pensar era na minha filha, na minha Ana Paula.

Lembrei-me dela com 7 anos, pequenina, magrinha, sorrindo daquele jeito dela. E pensei novamente: “E se fosse a minha filha? A dor de perder um filho deve ser muito grande”. Olhei para Amélia de novo. Eras só uma criança? Falei, a voz saindo baixa, trémula. Apenas uma criança. E naquele momento, o medo que tinha sentido antes simplesmente foi-se embora.

Sumiu, assim como se nunca tivesse existido. Já não tinha medo daquele lugar, porque eu percebi. Percebi o que estava acontecendo. Não era uma assombração tentando assustar-me. Não era um espírito maligno a querer fazer-me mal. Era uma criança. Uma criança que tinha morrido sozinha há mais de 100 anos. Uma criança que tinha ficado esquecida, abandonada, sem ninguém que se lembrasse dela.

E ela só queria o quê? Atenção, companhia, que alguém se preocupasse. A minha mão foi até ao caixão devagar. Toquei na borda de madeira velha. Amélia, sussurrei. Eu sinto muito. Sinto muito por ter ficado sozinha. Sinto muito por ter demorado tanto tempo a alguém vir aqui. As lágrimas continuavam caindo. Não havia como parar. Era como se tudo o que eu tinha segurado naquele dia inteiro, todo o medo, toda a atenção, estivesse a sair agora.

Você não era para estar aqui sozinha, continuei a falar sem sequer saber porquê. Nenhuma criança era para estar sozinha desse jeito. Fechei os olhos. Minha respiração era curta, difícil, o peito apertado de tanta emoção. E sem pensar, sem planear, comecei a rezar. Pai nosso que estais no céu, minha voz saía baixa, mas firme.

Cada palavra saía do fundo do coração. Santificado seja o vosso nome. Senti um calor no peito, uma sensação boa, acolhedora. como se alguém tivesse lá posto a mão e estivesse acalmando-me. Venha a nós o vosso reino. O vento parou completamente. Não tinha mais nenhum som, nem passarinho, nem folha a mexer, nada, só a minha voz rezando.

Seja feita a vossa vontade, assim na terra como no céu. Senti outra coisa agora, uma presença. Mas não era mais aquela presença pesada, sufocante, que tinha sentido antes. Era leve, suave, como se alguém se tivesse aproximado com cuidado, sem querer assustar. O pão nosso de cada dia nos dai hoje. A minha voz começou a falhar. A emoção estava a engasgar-me, mas eu continuei.

Perdoai as nossas ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido. As lágrimas caíam mais depressa. Agora não sabia bem porque estava chorando tanto. Se era pela Amélia, pela a minha filha, por mim próprio, talvez fosse tudo junto. E não nos deixeis cair em tentação. Senti algo tocar no meu ombro de leve, como uma mão pequena, delicada.

Mas não tive medo, nenhum receio. Mas livrai-nos do mal. Respirei fundo. A última parte da oração. Amém. Fiquei ali de olhos fechados, ajoelhado ao lado daquele caixão. A minha respiração foi se acalmando aos poucos. O aperto no peito foi aliviando e senti paz. Devagar, muito devagar, abri os olhos e ela estava ali à minha frente, a poucos passos de distância, Amélia.

O meu coração deu um salto, mas não de medo, de surpresa, talvez, de espanto. O rosto dela estava meio distorcido, não dava para ver bem os traços. Era como se ela estivesse coberta por uma névoa fina ou como se a imagem dela estivesse tremendo fora de foco. Mas eu sabia que era ela. Tinha a certeza absoluta. Minhas lágrimas caíram de novo.

Mas desta vez eram lágrimas diferentes. Não era de tristeza, era de alívio, talvez de uma felicidade estranha, misturada com dor. Podes ir agora, falei, sem pensar. Pode descansar de verdade. Você não precisa de ficar mais aqui. Ah, sim, num piscar de olhos. Desapareceu como se nunca tivesse estado ali. Fiquei parado, olhando para o lugar vazio onde ela tinha estado. Olhei para o caixão de novo.

O corpo mumificado continuava ali, abraçado à boneca velha, mas agora parecia diferente. Não sei explicar bem. Parecia mais leve de alguma forma, como se um peso tivesse sido dali retirado. Me levantei-me devagar. As minhas pernas estavam dormentes, de tanto tempo ajoelhado, mas consegui ficar em pé.

O sol começava a pôr-se. Olhei para a Amélia uma última vez e sussurrei: “Descansa em paz, pequena. Mereces”. Olhei para o caixão e tomei uma decisão. Não ia fazer o que deveria fazer. não ia seguir o protocolo, não ia transferir os restos dela proário comum e libertar aquele espaço. Não conseguia, simplesmente não conseguia.

Baixei-me de novo com cuidado. Esfreguei o rosto limpando as lágrimas que ainda caíam. A boneca estava ali nos braços dela, velha, rasgada, desgastada pelo tempo, mas era dela. Era o único amigo que ela tinha tido, a única companhia na morte. E de repente soube exatamente o que tinha que fazer. Estendi a mão devagar e peguei na boneca.

O tecido estava húmido, frio. Pedaços soltaram-se nos meus dedos, mas segurei-os com cuidado, como se fosse a coisa mais preciosa do mundo. Tirei a boneca de lá e segurei-a contra o peito. “Eu vou cuidar dela”, sussurrei, olhando para Amélia. Vou arranjá-la e vou devolver-lhe do jeito certo. Fechei a tampa do caixão com cuidado. Não bati, não forcei.

Fechei devagar, com respeito. Depois cobri tudo de volta com a terra. Quando terminei, coloquei os pedaços de cimento de volta ao lugar da maneira que dava. Não era perfeito, mas era respeitoso. Peguei nas minhas ferramentas com uma mão e a boneca com a outra e voltei paraa área de trabalho do cemitério.

O meu chefe estava lá mexendo nuns papéis. E aí, Manuel, conseguiu fazer a esumação? Olhei para ele. Depois Olhei para a boneca na minha mão. Chefe, eu não consegui. Ele levantou a cabeça, olhando para mim com uma cara estranha. Como assim não conseguiu? Manuel, sabe que é o procedimento. A prefeitura precisa do espaço. Eu sei.

Balancei a cabeça, mas aquela menina, mostrei a boneca para ele. Ela estava abraçada com isso. Uma boneca de trapos, único amigo que ela teve. As minhas lágrimas começaram a cair de novo. Não consegui segurar. Se fosse a sua filha, chefe, se fosse a sua filha ali sozinha, esquecida, o que é que gostaria que fizessem por ela? Ele me olhou durante muito tempo, depois olhou para a boneca e suspirou.

“Deixa o túmulo onde está”, disse baixinho. “Por enquanto nós arranjamos outro espaço. Senti um alívio enorme no peito. Obrigado. Mas cuida desta boneca direito. Se disse que ia devolver, devolve. Vou devolver”, prometi naquela noite em casa. Limpei a boneca com cuidado. Tirei a terra, o bolor, a sujidade lentamente para não estragar mais ainda.

Depois de secar, peguei em linha e agulha. Não sou bom a costurar, mas fiz o melhor que pude. Fechei os rasgos um por um, consertei os braços e as pernas que estavam a soltar-se. Quando terminei, a boneca não estava perfeita, ainda estava velha, manchada, com as marcas do tempo, mas estava inteira, estava digna. No dia seguinte, voltei ao túmulo da Amélia bem cedo, antes de iniciar o expediente.

Retirei a terra de novo, abri o caixão mais uma vez e voltei a colocar a boneca nos braços dela com cuidado, com carinho, da forma que ela merecia. Pronto, pequena. Pode ficar com ela para sempre agora. Fechei novamente o caixão, cobri tudo e desta vez quando me fui embora senti que estava tudo certo.

Senti que ela estava em paz de verdade. Isto foi há 3 anos e a minha vida nunca mais foi a mesma naquele dia. Não é que eu me tenha tornado outra pessoa. Continuo a ser o mesmo Manuel, fazendo o mesmo trabalho, vivendo a mesma vida. Mas há uma coisa que mudou dentro de mim, uma coisa importante. Antes o meu trabalho era só trabalho, cavar covas, fazer esumações, cuidar do cemitério.

Era mecânico automático. Eu fazia e pronto. Mas depois da Amélia já não é assim. Agora, cada túmulo que cavo, Penso: “Aqui vai descansar alguém. Alguém que teve uma vida, uma história, pessoas que a amavam. Cada esumação que faço, trato os restos com respeito, porque aquilo não é só osso, é o que resta de alguém, de uma pessoa de verdade.

O túmulo da Amélia continua lá, no setor antigo. Ninguém lhe mexeu ainda. E todas as semanas passo lá, limpo um pouco, deixo uma flor quando dá, porque ela já não está sozinha, não está mais esquecida. E agradeço. Agradeço por ter tido aquela experiência, por mais assustadora que tenha sido, porque ela me ensinou algo que nunca mais vou esquecer.

Os mortos não são apenas corpos, são pessoas. Pessoas que viveram, que sentiram, que amaram e merecem ser tratadas com dignidade sempre. Amélia Castro, 188, 1895. Descansa em paz, Anginho. E sabe, se você um dia passar por Porto Alegre e quiser visitar o cemitério municipal, procura pelo setor antigo. Lá no fundo tem um pequeno túmulo de criança com o nome quase apagado.

Se puder, deixe uma flor para ela. Pode ser uma flor simples. O que importa é o gesto. Porque cada flor que alguém lá deixa é uma prova de que ela não está esquecida, de que mesmo passado tanto tempo, alguém ainda se lembra que ela existiu. E para quem não pode ir lá, não tem problema. Deixa uma flor aqui nos comentários e a Amélia também vai saber lá de onde ela estiver que as pessoas se importam, que ela foi lembrada, porque no final de contas é isso que todos nós queremos, não é? Não ser esquecidos, saber que a nossa vida significou alguma

coisa. E alguém se vai lembrar de nós quando a gente se for. Obrigado por me terem ouvido e obrigado por se importarem. M.