Posted in

Expulsa pelo FAZENDEIRO, ela comprou um SÍTIO ABANDONADO com suas ÚLTIMAS ECONOMIAS… e VIROU O JOGO

Expulsa pelo FAZENDEIRO, ela comprou um SÍTIO ABANDONADO com suas ÚLTIMAS ECONOMIAS… e VIROU O JOGO

Ela enfrentou o fazendeiro mais temido da região, olhando direto nos olhos, sem tremer, sem recuar. E ele, na frente de todo mundo, apontou o dedo para a porteira e disse: “Pega suas coisas e sai da minha fazenda hoje.” Ela saiu, se despediu da mãe com um abraço que precisou segurar forte para não desmoronar.

prometeu que voltava e foi embora com uma mala surrada e o último dinheiro que tinham. Encontrou um sítio abandonado que ninguém queria. Comprou com o que tinha e o que aconteceu depois mudou tudo. Se você chegou até aqui, já deixa o like no vídeo e comenta de onde você está assistindo.

Fica comigo até o final para ver como ela virou esse jogo. Talita nasceu dentro daquela fazenda. Não é força de expressão, não. Ela veio ao mundo ali mesmo num quarto dos fundos da casa de empregados, enquanto sua mãe Benedita esperava o médico que chegou tarde demais. O parto foi feito pela parteira da região e a primeira coisa que Talita viu quando abriu os olhos para o mundo foi o teto baixo daquele quartinho simples com uma janela que dava para o curral.

Benedita trabalhava na fazenda Boa Vista há 22 anos. Chegou ali ainda jovem após perder o marido num acidente sem ter para onde ir e com a filha pequena dependendo dela. Laert, o dono da fazenda, aceitou contratá-la porque precisava de alguém para a cozinha e para ajudar na limpeza da Casagre. Ela aceitou porque não havia outra saída.

Com o tempo, Benedita se tornou indispensável. Sabia de cor os gostos de cada membro da família. Acordava antes de todo mundo, dormia depois de todos. Cuidava da casa como se fosse sua, sabendo muito bem que nunca seria. Talita cresceu vendo a mãe trabalhar assim. Aprendeu desde cedo que havia dois mundos dentro daquela fazenda.

O mundo da casa grande, com seus móveis de madeira escura, suas refeições fartas e suas conversas sobre colheita e dinheiro, e o mundo dos fundos, onde ela e a mãe viviam, onde o ventilador enguiçava no verão e o frio entrava pelas frestas no inverno. Mas Talita não era do tipo que abaixava a cabeça por hábito.

Ela estudou, pegou carona com o ônibus escolar toda a manhã durante leu tudo que caiu nas mãos. Aprendeu sobre plantio, sobre solo, sobre gestão rural em apostilas velhas, que o filho de Laert abandonou numa prateleira. Ninguém mandou ela fazer isso. Ela fez porque sentia que aquele conhecimento um dia ia servir para alguma coisa. Laertalita, nunca gostou.

Havia nela uma firmeza nos olhos que o incomodava. A maioria dos empregados baixava a cabeça quando ele chegava perto. Talita não. Ela cumprimentava com respeito, mas sem encolher. E para um homem como Laert, que media o próprio poder pelo quanto os outros tremiam na sua presença, aquilo era uma ofensa silenciosa. Ele era um homem de meia idade, ombros largos, voz grossa e um jeito de andar que parecia querer ocupar mais espaço do que o necessário.

Tinha dinheiro e sabia usar isso como ferramenta. Quando queria pressionar alguém, usava o salário. Quando queria humilhar, usava a plateia. esperava sempre que tivesse gente por perto para fazer alguém se sentir pequeno. Era calculado naquilo, cruel de um jeito que ele mesmo chamava de firme. Os funcionários mais antigos sabiam como funcionar ao redor dele.

Concordavam com a cabeça, pediam desculpa por coisas que não tinham feito, evitavam cruzar com ele nos dias ruins. Era uma dança silenciosa de sobrevivência que todos aprendiam cedo. Numa tarde de quarta-feira, Laert chegou à cozinha com aquela expressão que os empregados reconheciam de longe. Havia algo errado ou ele havia decidido que havia algo errado, o que dava no mesmo.

Benedita estava organizando as prateleiras quando ele entrou e jogou uma caixa de temperos sobre a bancada. Cadê o restante do arroz que eu mandei separar pra semana? Benedita explicou com cuidado que o arroz havia sido usado no almoço dos peões como combinado. Ele sabia disso, todo mundo sabia.

Mas Laert não estava interessado na resposta certa, estava interessado em alguma coisa para usar. Esse desperdício aqui não para. Você some com mantimento e ainda fica me explicando. Benedita não respondeu, olhou para o chão. Em 22 anos, ela havia aprendido que responder só piorava. Dois funcionários que passavam pelo corredor pararam sem querer, constrangidos, sem saber se iam ou ficavam. Talita estava do lado de fora.

Havia ouvido tudo pela janela entreaberta. Entrou devagar, ficou parada perto da porta por um momento, olhando para a cena. “Minha mãe não sumiu com nada”, disse ela com a voz baixa, mas firme. “O arroz foi pro almoço dos peões igual à semana passada. Tem anotado no caderno de controle da cozinha, se o senhor quiser ver.

” Laert virou o rosto devagar na direção dela. O tipo de movimento de quem não esperava ser interrompido. Benedita fechou os olhos por um segundo. Sabia o que estava vindo. “Você tá me respondendo?”, ele perguntou mais como aviso do que como pergunta. Tô explicando. Talita respondeu. Ah, porque minha mãe não precisa pedir desculpa por coisa que ela não fez.

Advertisements

O silêncio que se instalou naquela cozinha foi pesado. Os dois funcionários no corredor sumiram sem fazer barulho. Benedita ficou parada, os ombros tensos, sem conseguir olhar para a filha. Laert deu um passo em direção à Talita. Não foi rápido, foi lento, calculado. “Pega suas coisas”, ele disse. “Você não trabalha mais aqui.

Talita não piscou.” “Tá bom.” Ela respondeu e foi buscar a mala. Benedita correu atrás dela no quartinho dos fundos, segurando o choro com dificuldade, enquanto ajudava a filha a dobrar as roupas. queria ir junto. Disse isso três vezes. Talita segurou as mãos da mãe e olhou direto nos olhos dela. A senhora fica ainda, precisa do emprego.

Eu volto para buscar a senhora assim que eu conseguir me firmar. Eu juro. Benedita enfiou na bolsa da filha um envelope com o dinheiro que havia guardado nos últimos meses, escondido no fundo de uma gaveta. Não era muito, mas era tudo que tinha. As duas se abraçaram no corredor de terra batida que levava até a porteira.

Benedita ficou parada, vendo a silhueta da filha diminuir no fim da estrada de poeira, enquanto o sol da tarde pesava em cima de tudo. Talita não olhou para trás. Se olhasse, não ia conseguir continuar andando. O que ela não sabia ainda era que aquela estrada de poeira ia levar ela até um lugar que ninguém esperava, nem ela mesma.

A cidade de Ribeiro do Campo não era grande. Tinha uma praça com coreto, um mercadinho na esquina principal, algumas ruas calçadas e muitas de terra. O tipo de lugar onde todo mundo conhece todo mundo e onde a notícia de uma estranha chegando com mala na mão corre rápido. Talita chegou a pé com o sol descendo e a garganta seca.

Tinha o endereço de uma pensão que a mãe havia mencionado uma vez de uma senhora que alugava quartos baratos para trabalhadores de passagem. encontrou o lugar sem dificuldade, uma casa pintada de amarelo desbotado com uma placa de papelão na janela. A dona, uma mulher de cabelos brancos chamada Geralda, a olhou de cima a baixo antes de perguntar qualquer coisa.

Você veio de onde? Da fazenda Boa Vista. Geralda não disse mais nada. mostrou o quarto pequeno com uma cama, um armário de madeira e uma janela que dava para o quintal. Cobrou o primeiro mês adiantado. Talita contou as notas com cuidado, entregou sem reclamar e ficou sentada na beira da cama por um longo tempo depois que a dona foi embora.

Aquele silêncio foi o mais pesado que ela já sentiu. Nos dias seguintes, Talita saiu cedo tentando encontrar trabalho. Bateu em padaria, em mercado, em farmácia. Ouviu não temos vaga mais vezes do que conseguia contar. Numa tarde, quando tentou se candidatar a uma vaga de auxiliar em um armazém de grãos, o gerente perguntou de onde ela era.

Quando ela mencionou a fazenda Boa Vista, ele torceu o canto da Boca. Laer te mandou embora. Eu fui embora por conta própria. O homem não disse mais nada, mas também não chamou ela de volta. Talita entendeu naquele momento o tamanho do problema. O nome de Laerto. Ele não precisava fazer nada diretamente.

Bastava o histórico, a reputação, o peso silencioso do que as pessoas imaginavam quando ouviam que alguém havia saído de lá. O dinheiro ia diminuindo. Ela fazia as contas toda a noite, deitada no colchão fino da pensão. Se não conseguisse emprego em duas semanas, ia precisar tomar uma decisão difícil. Foi numa dessas tardes de busca, quando voltava pela rua principal, com os pés cansados e a cabeça pesada, que ela viu o sítio pela primeira vez.

Estava do lado de fora da cidade, há uns 15 minutos a pé numa virada de estrada. onde o mato crescia alto dos dois lados. Ela tinha passado por ali antes, sem prestar atenção, mas naquele dia o sol batia de um jeito diferente e ela parou. A porteira estava aberta, não aberta de propósito, mas largada, a corrente enferrujada caída no chão.

Lá dentro havia uma casa pequena de tijolos, com o telhado cedendo de um lado e as janelas sem vidro. O quintal era tomado pelo mato. Uma mangueira velha ainda tinha algumas frutas penduradas. No fundo, o que devia ter sido um galinheiro estava de pé, mas vazio fazia tempo. Talita ficou na beira da estrada, olhando para aquilo por um bom tempo.

Tinha alguma coisa naquele lugar que ela não conseguia nomear. Não era beleza, não era esperança, ao menos não ainda. Era mais uma pergunta. Uma pergunta que ficou na cabeça dela durante o caminho de volta até a pensão. Perguntou para Geralda sobre o sítio naquela noite. A dona da pensão sabia de tudo na cidade. Disse que a terra pertencia a um senhor chamado Antônio, viúvo há uns 4 anos, que havia se mudado para a casa da filha numa cidade maior e não queria mais saber daquele lugar.

Já tinha tentado vender duas vezes. Ninguém quis. Por que ninguém quis? Talita perguntou. Porque tá largado demais. Dizem que o poço secou e o homem pede um valor que ninguém daqui tem disposição de arriscar numa terra assim. Talita foi dormir pensando nisso e acordou pensando nisso. De manhã pediu o contato de seu Antônio para Geralda.

A dona da pensão deu com uma cara de quem achava aquilo perda de tempo, mas deu. A ligação foi curta. Seu Antônio falou pouco, disse que sim. A terra ainda estava à venda. Disse o valor. Talita o viu e ficou em silêncio por um momento que pareceu longo para os dois lados. Era mais do que ela tinha, mas menos do que ela esperava que fosse.

Marcaram de se encontrar dois dias depois, num fim de semana, quando o velho podia vir até Ribeiro do Campo visitar a filha de qualquer jeito. O encontro foi numa mesa de plástico na frente do mercadinho da praça. Seu Antônio era um homem pequeno, de ombros caídos e mãos grossas de quem trabalhou a vida inteira com a terra.

Tinha uns 70 anos. e um olhar cansado que não era tristeza, era o olhar de quem já viu muita coisa e não tem mais pressa de julgar. Talita contou a história, não de um jeito dramático, não pedindo pena. Contou de um jeito direto, de onde vinha, o que sabia fazer, o que queria construir naquela terra.

Falou da mãe que havia ficado para trás. falou que não tinha muito dinheiro, mas que tinha disposição de sobra e que entendia de plantio. Seu Antônio a ouviu sem interromper. Quando ela terminou, ele ficou um tempo olhando para o copo de café na mão. “Quanto você tem?”, ele perguntou. Ela disse o valor, que era menos da metade do que ele havia pedido.

Ele não respondeu na hora. ficou olhando para a praça, para as crianças que corriam em volta do coreto, para os pombos que disputavam um pedaço de pão no calçamento. Minha mulher morreu esperando eu fazer alguma coisa útil com aquele lugar. Ele disse por fim, mais para si mesmo do que para Talita. Eu nunca fiz.

Ele olhou para ela. Você assina um papel simples. Me paga o que você tem e o restante a gente vê com calma. Mas você cuida daquilo direito, trato. Talita sentiu o coração apertar de um jeito que não era tristeza e não era alegria. Era as duas coisas juntas, com um peso que ela não sabia bem como carregar. trato.

” Ela respondeu naquela mesma semana, ela mudou a mala para o sítio e foi só quando entrou pela porteira enferrujada e olhou para a casa com o telhado cedendo, que o tamanho do desafio caiu de verdade em cima dela. Aquilo estava muito pior do perto do que parecia de longe. [limpando a garganta] O telhado cedia do lado direito da casa e quando chovia, o que aconteceu na segunda noite? A água entrava em fio e molhava o canto onde Talita havia colocado a mala.

Ela passou aquela madrugada acordada, com uma bacia velha que achou no quintal embaixo do gotejo, ouvindo o barulho da chuva no mato e tentando não deixar o desânimo virar desespero. De manhã, com a lama ainda fresca no quintal, ela caminhou por toda a extensão do sítio pela primeira vez. Era um pouco mais de três alqueires.

Terra vermelha, densa, coberta de mato, que tinha crescido sem nenhum controle por anos. A cerca estava caída em vários pontos. A velha área de plantio, que devia ter existido ali, estava irreconhecível, e o poço estava seco. Ela abaixou um balde amarrado numa corda e não ouviu nada. puxou de volta vazio. Sem água não havia plantio.

Sem plantio não havia nada. Talita ficou parada ali por um tempo, olhando para o buraco escuro do poço. Então pegou a enchada que havia encontrado encostada na parede do galinheiro e começou a limpar o quintal. Não porque sabia exatamente o que ia fazer, mas porque ficar parada era a única coisa que ela não podia se dar ao luxo de fazer.

Foi assim que os primeiros a passar na estrada começaram a vê-la. A estrada que ladeava o sítio tinha um movimento pequeno, mas constante. Algumas pessoas da cidade passavam por ali atalhando em direção a propriedades vizinhas. E a notícia de que a filha de Benedita havia comprado aquele mato largado correu rápido, do jeito que as notícias correm em cidade pequena, passando de boca em boca com um acréscimo de deboche a cada vez.

Num dos primeiros dias, um caminhonete desacelerou na estrada. Dentro, dois homens que Talita reconheceu, trabalhadores da fazenda Boa Vista, que ela havia cruzado por anos. Um deles desceu o vidro. J Talita, tá capinando o paraíso? disse ele com aquele riso de quem quer que a plateia ouça. O outro riu junto.

Ela não parou de trabalhar, não virou o rosto. A caminhonete seguiu adiante e o riso foi diminuindo até sumir com a curva da estrada. Mas aquilo ficou não como dor, ou menos ela não deixou que fosse, ficou como naquela tarde, enquanto limpava o mato perto do fundo do terreno, a enchada bateu em algo diferente, um solo mais escuro, mais úmido do que o resto.

Ela parou, abaixou o joelho no chão e colocou a mão na terra. Estava fria, levemente encharcada. água, não na superfície, mas perto. Ela marcou o ponto com uma estaca de madeira e foi dormir naquela noite com aquela informação girando na cabeça. No dia seguinte, foi até a cidade cedo. Procurou um senhor que Geraldo havia mencionado uma vez, seu Firmino, um homem de mais de 60 anos que havia trabalhado a vida inteira como perfurador de poços na região.

estava aposentado, mas ainda sabia o que a maioria dos mais jovens não sabia. Ler o que a terra escondia antes de abrir. Ela explicou o que havia encontrado, descreveu o solo, a humidade, a posição no terreno. Seu Firmino a ouviu de braços cruzados, com aquela expressão fechada de quem já foi convencido de muita coisa inútil pela vida.

Quando ela terminou, ele perguntou onde ficava o sítio. Ela disse. Ele ficou em silêncio por um momento. Aquele lugar era do Antônio? Era. Ele me vendeu. Hum. Ele coçou o queixo. Eu conheço aquela terra. Trabalhei ali uns 30 anos atrás, quando o pai do Antônio ainda era vivo. Tinha água boa naquele fundo. Sim.

O velho nunca soube aproveitar. Ela pediu se ele podia ir até lá dar uma olhada. Ele disse que ia, mas deixou claro que não era promessa de nada, só ia ver. Foram no dia seguinte, cedo, seu Firmino caminhou pelo sítio em silêncio, parando aqui e ali, agachando para pegar punhados de terra, observando a inclinação do terreno.

Quando chegou ao ponto que Talita havia marcado com a estaca, ele ficou parado por um tempo comprido. “Aqui tem”, ele disse simples assim. Talita fechou os olhos por um segundo. “Quanto custa para abrir?” Ele disse um valor. Ela não tinha aquele dinheiro. Faltava uma parte razoável. Eu pago metade agora e o resto quando a produção começar, ela propôs direto.

Seu Firmino a olhou por um momento. Era o tipo de olhar que avalia não o que a pessoa tem, mas o que ela é. Tá bom, ele disse, “Mas se a água não aparecer, você não me deve nada. Não cobro por tentativa, só por resultado. Eles apertaram as mãos ali mesmo no meio do mato, com o sol subindo devagar. Naquela semana, enquanto seu Firmino organizava o equipamento, Talita continuou trabalhando sozinha.

limpava, consertava o que conseguia consertar com pouco, reorganizava o espaço. A casa ainda estava mal das pernas, mas pelo menos já não gotejava tanto. Ela havia subido no telhado sozinha e vedado as partes mais críticas com lona e argamassa, comprada com o que sobrou do dinheiro da mãe. Numa tarde, um dos vizinhos do sítio passou pela cerca e a observou trabalhando por um tempo antes de falar.

“Você sabe que esse terreno tem problema de divisa com a propriedade do lado, né?” Ela parou e olhou para ele. Era um homem de uns 50 anos, expressão fechada, chapéu de palha amassado. Não sabia, ela respondeu com cuidado. Mas tenho o documento assinado com seu Antônio. A divisa tá registrada. O registro pode tá errado”, ele disse com aquela voz de quem não está exatamente oferecendo ajuda.

Talita sustentou o olhar. “Se tiver algum problema, a gente resolve da forma certa”, ela disse. “Mas por enquanto eu vou continuar trabalhando aqui, que é o que eu tenho direito de fazer.” O homem ficou mais um pouco, como se esperasse que ela recuasse. Então, deu as costas e foi embora.

Sem mais nada, Talita ficou olhando para as costas dele até sumir. Respirou fundo, mais um problema para listar, mas quando olhou para o ponto marcado com a estaca no fundo do terreno, sentiu aquela mesma coisa que havia sentido na mesa de plástico na frente do mercadinho, quando seu Antônio disse trato. Aquela mistura estranha de medo e determinação que juntos movem mais do que qualquer coisa separada.

O que ela ainda não sabia era que enquanto ela lutava contra o mato, contra a cerca caída e contra a desconfiança do vizinho, o nome dela já havia chegado a um ouvido que ela não esperava, e esse ouvido não era amigo. Laert soube pelo gerente do armazém de grãos, o mesmo homem que havia torcido o canto da boca quando Talita mencionou a fazenda.

Eles tomavam café juntos toda sexta-feira, um hábito de anos. E naquela tarde o gerente comentou quase sem querer. A filha da Benedita havia comprado aquele sítio abandonado do seu Antônio. Laertada na hora, pegou o copo de café, deu um gole devagar e ficou olhando para a rua lá fora. Comprou com o quê? Ele perguntou por fim. Sei lá. O Antônio aceitou qualquer coisa, parece.

Laert ficou quieto, mas na cabeça dele alguma coisa havia se movido. Não era preocupação. Ao menos ele não ia chamar assim. Era mais uma irritação. A sensação de que alguém havia ousado algo que não deveria e que esse ousado não tinha ficado suficientemente pequeno depois de ser mandado embora. Laert gostava das histórias com final óbvio.

Ele mandava, o outro obedecia e sumia. Talita havia sumido, mas não do jeito certo. Naquela mesma semana, sem fazer a larde, ele conversou com o vizinho do sítio, o homem do chapéu de palha amassado. Não foi uma conversa longa. Laert não precisava de muito tempo para plantar uma semente do tipo certo na cabeça do tipo certo de pessoa.

Na fazenda, os comentários sobre Talita e Benedita continuavam. Alguns funcionários que passavam pela estrada próxima ao sítio faziam questão de desacelerar para observar. Quando voltavam, contavam na hora do almoço com aquele tom de quem está entretendo à mesa. “Tá lá no sol de rachar, de enchada igual peão”, dizia um.

“E a casa tá caindo aos pedaços”, completava outro. Benedita ouvia tudo isso na cozinha, de costas para o grupo, fingindo que estava concentrada no fogão. Engolia aquilo sem responder, mas quando ficava sozinha no quartinho à noite, chorava baixinho, com a mão na boca para não fazer barulho. Ela ligava para a filha quando conseguia um momento sem testemunha.

As ligações eram curtas, sempre com aquela tensão de quem fala com um olho no corredor. Talita não contava tudo. Não falava do telhado que havia cedido de novo num ponto novo. Não falava do vizinho. Não falava da exaustão que se acumulava no corpo depois de dias de trabalho duro no sol. Dizia que estava bem, que estava avançando, que logo ia ter novidade boa para contar.

Benedita sabia que a filha omitia, mas deixava, porque precisava acreditar naquilo. Enquanto isso, seu Firmino havia chegado ao sítio com um equipamento simples, ajudado por um sobrinho jovem e calado. Trabalharam por três dias. Talita ficava por perto, aprendendo, carregando o que podia sem atrapalhar. No terceiro dia, a broca encontrou a veia.

A água subiu devagar no primeiro momento, turva, carregada de terra. Seu Firmino mandou esperar. Depois de alguns minutos, começou a clarear. E quando ficou limpa, transparente, brotando firme do chão daquela terra que todo mundo havia descartado, Talita sentou no chão ali mesmo e ficou um tempo sem conseguir levantar.

não chorou, só ficou sentada com as mãos na terra vermelha, olhando para aquela água, como se fosse a coisa mais importante que ela já havia visto na vida. E era: Seu Firmino, enrolou as mangueiras sem cerimônia, aceitou a metade do pagamento combinado com a mesma secura de sempre e antes de ir disse apenas: “Terra boa essa. Quem plantou aqui antes não sabia o que tinha.” Talita ficou com essa frase.

Com a água resolvida, o ritmo mudou. Ela preparou um canteiro pequeno primeiro, o que cabia no espaço que havia conseguido limpar até então. Plantou ervas, manjericão, salsinha, coentro, coisas que crescem rápido e que a cidade toda comprava. Enquanto aguardava, continuou limpando o restante do terreno, alargando a área útil dia após dia.

Foi numa dessas tardes de trabalho que a caminhonete dos funcionários da fazenda parou de novo na estrada. Desta vez eram três. Um deles desceu do veículo, se apoiou na cerca e ficou olhando por um tempo antes de soltar. Ai, Talita, você tá plantando cheirinho de sopa. e riu, chamando os outros para rir junto.

Ela não parou, não virou, continuou curvada sobre o canteiro, mãos na terra, como se não houvesse ninguém ali. O homem esperou uma reação que não veio. Ficou mais um pouco desconfortável com o próprio silêncio e acabou voltando para a caminhonete. O que Talita sabia e eles não sabiam era que incomodar alguém que não reage é a coisa mais frustrante do mundo para quem quer diminuir o outro.

Mas nem tudo corria bem. Uma manhã, ela acordou cedo e foi até o canteiro e encontrou parte das mudas pisadas. Não pelo vento, pelo jeito que estavam, era pisada mesmo, com marcas que pareciam de bota. Ela ficou em pé, olhando para aquilo por um tempo, sentindo a raiva subir devagar pelo peito.

Olhou para a cerca do vizinho. Estava intacta, mas havia um ponto no canto dos fundos, onde a madeira estava recém quebrada, do tipo que quebra quando alguém passa por cima. Ela não tinha como provar e sabia que fazer acusação sem prova só ia abrir porta para confusão que ela não tinha energia para ter.

Replantou tudo naquela tarde, com mais raiva do que cansaço. E daquela vez, antes de anoitecer, amarrou uma linha fina de arame ao longo da divisa dos fundos. Não para machucar ninguém, só para que ela soubesse pelo barulho se alguém voltasse à noite. Ninguém voltou, ao menos não naquela semana. O que veio no lugar foi pior. Numa manhã de segunda-feira, um homem que ela nunca havia visto parou na porteira.

Terno simples, pasta de couro, jeito formal de quem não é dali. disse que era representante de um escritório de regularização de terras da cidade vizinha e que havia sido contratado para revisar os limites de propriedades da região. Pediu para ver o documento de compra. Talita buscou o papel, entregou sem pressa. O homem examinou, fez anotações num bloco e então disse com aquela voz neutra de quem ensaiou bem.

Existe uma contestação sobre a validade dessa escritura. O proprietário anterior pode não ter tido autorização plena para vender sem quitação de uma pendência antiga com o terreno lindeiro. Ele devolveu o papel. Se isso for confirmado, a transação pode ser considerada irregular. Talita ficou olhando para ele.

Quem contratou o senhor? Ele deu um nome de escritório que ela não conhecia, mas a cidade vizinha era a mesma de onde vinha o conhecido de Laert, aquela mesma cidade. “O senhor pode me dar isso por escrito?”, ela perguntou. “Vou precisar verificar antes de emitir qualquer documento formal.” “Então, por enquanto, o senhor não tem nada”, ela disse.

“Boa tarde”. fechou a porteira e ficou parada do lado de dentro até ouvir o carro ir embora. Então sentou no degrau da porta da casa e ficou um longo tempo sem se mover. Não era a sabotagem das mudas, não era a zombaria na estrada, aquilo era diferente. Aquilo era a possibilidade real de perder o que ela havia comprado com o último dinheiro que tinha, o dinheiro que a mãe havia guardado escondido por anos, o único chão que ela tinha debaixo dos pés.

ficou ali até o sol mudar de posição. Então levantou, pegou o celular e ligou para seu Antônio. O velho ouviu tudo. Ficou em silêncio por um momento. “Não tem pendência nenhuma nessa terra”, ele disse com firmeza. “Nunca teve. Eu sei a história desse terreno melhor do que qualquer escritório inventado.

Pode ficar sossegada que eu cuido disso. O senhor tem certeza? Tenho. E se alguém vier me perguntar, eu vou dizer a mesma coisa olhando no olho. Talita desligou, respirou fundo. A terra era dela. Ela sabia que era. Mas saber e provar são coisas diferentes quando alguém com dinheiro decide que quer te tirar do lugar.

Naquela semana ela dormiu mal. acordava no meio da noite e ficava ouvindo o silêncio do sítio, o vento no mato, o sapo longe, os grilos perto, tentando convencer o próprio corpo de que aquilo tudo ainda ia continuar sendo dela amanhã. E quando as primeiras ervas brotaram verdes e firmes do canteiro, Talita colheu o primeiro punhado, embalou em sacolinhas simples que havia comprado na cidade e foi de porta em porta nas casas mais próximas oferecendo.

Vendeu tudo em menos de 2 horas. voltou para o sítio naquela tarde com o dinheiro no bolso, pouco mais real, e ficou parada na porteira por um momento, olhando para aquela terra que todo mundo havia chamado de mato, de toca, de loucura. O homem do terno não havia voltado e ela tinha a impressão de que não ia voltar, ao menos não com aquele argumento, agora que seu Antônio estava avisado.

Mas Laert havia mostrado a que jogo estava jogando, e jogos assim não param na primeira jogada. O que ela não sabia ainda era que Laert havia decidido que aquilo tinha ido longe o suficiente e que ele não costumava esperar as coisas resolverem sozinhas. A primeira coisa que Laert fez foi procurar seu Antônio.

Não foi pessoalmente. Não era do tipo que se expõe em coisa que pode ser negada depois. mandou um conhecido, um homem de negócios da cidade vizinha com quem tinha relação há anos com uma proposta simples, comprar o sítio de volta pelo dobro do que seu Antônio havia recebido de Talita. O argumento era que o negócio havia sido feito de forma irregular, que a moça não tinha condições de honrar o restante do valor e que o velho estava se arriscando num acordo que não ia dar em nada.

Seu Antônio ouviu o recado pelo telefone numa tarde de sábado, sentado na varanda da filha. Ficou quieto por um momento. Fala pro Laert que o negócio tá feito e não tem o que desfazer ele respondeu. E que eu sei muito bem distinguir acordo honesto de pressão. Boa tarde, desligou. Mas o recado havia sido dado.

E seu Antônio, preocupado, ligou para Talita naquela mesma noite para contar o que havia acontecido. Ela o viu em silêncio, sentada na soleira da porta do sítio, com o céu escuro lá fora e o barulho dos grilos no mato. “O senhor não precisa se preocupar”, ela disse. “O documento tá assinado. A terra é minha.

” Eu sei, ele respondeu, mas quero que você saiba com quem você tá lidando. Ela já sabia. Conhecia Laert, fazia a vida inteira. O que mudou depois daquela ligação foi o nível de pressão na cidade. Coisas pequenas, mas que Talita começou a notar. O dono do mercadinho onde ela comprava insumos começou a demorar mais para atendê-la.

A mulher que vendia sementes na feira da quinta passou a dizer que estava sem estoque justamente quando Thalita precisava. Nada que ela pudesse apontar com certeza, mas o padrão era claro para quem sabia ler. Laertar, ele operava em sussurro. Na fazenda, Benedita estava ficando para baixo. Talita percebia na voz, mais curta, mais cansada.

Numa das ligações, a mãe mencionou que Laert havia reduzido o horário dela sem explicação, o que significava menos salário no fim do mês. Não havia motivo declarado, só aconteceu. “Mãe, a senhora aguenta mais um tempo?” Talita disse com uma firmeza que ela mesma precisava acreditar. “Eu tô chegando lá. Tô chegando mesmo. Benedita disse que sim, mas o silêncio depois era do tipo que pesa.

Foi nessa semana que Toninho apareceu. Toninho tinha 50 e poucos anos, era magro, tinha as mãos de quem passou a vida inteira em lavoura e um jeito quieto de se mover que lembrava quem aprendeu a trabalhar sem fazer barulho. havia sido peão em várias propriedades da região ao longo dos anos e estava sem colocação há alguns meses.

Parou na porteira do sítio, numa manhã sem avisar, chapéu na mão, e perguntou se havia serviço. Talita olhou para ele por um momento. Tem serviço, mas não tem salário ainda ela disse sem rodeio. Posso oferecer refeição e um canto para dormir até a produção começar a dar retorno. Depois a gente acerta direito.

Toninho olhou para o terreno, para a limpeza que já havia sido feita, para os canteiros de ervas, para o poço novo. Ficou em silêncio por um tempo que pareceu longo. “Você abriu esse poço sozinha?”, ele perguntou. “Chamei um perfurador. E os canteiros? Eu e ele. Ele a sentiu devagar com aquele jeito de quem está confirmando algo que já suspeitava.

Terra não mente. Ele disse quase para si mesmo: “Quem cuida, ela mostra. Quem abandona, ela também mostra.” Então olhou para ela. “Tá bom”, ele disse. E foi buscar a trouxa que havia deixado encostada na cerca. Com toninho, o ritmo dobrou. Ele sabia de plantio do jeito que se aprende depois de décadas na Terra com o corpo, com o instinto, mostrou a Taliteta onde o solo era mais fértil, como preparar a compostagem com o que tinha no próprio terreno, quais culturas cresceriam mais rápido naquele tipo de terra vermelha. Ela absorvia

tudo, anotava, perguntava. Ele respondia sempre com economia de palavras, mas nenhuma palavra desperdiçada. Numa tarde, enquanto preparavam os sucos para as hortaliças, ele parou, enfiou os dedos na terra e ficou um momento assim, de olhos semicerrados. “Essa terra foi maltratada por muito tempo”, ele disse.

“Mas ela não esqueceu como se faz. É só dar chance”. Talita ficou com essa frase porque não era só sobre a terra. foram expandindo o plantio. Além das ervas, vieram as primeiras mudas de hortaliças, alface, couve, rúcula. E numa das extremidades do terreno, onde o solo era mais fundo e a sombra da mangueira velha caía no período mais quente do dia, Toninho sugeriu um pequeno pomar de frutíferas, laranja, limão, maracujá.

“Isso leva tempo,” ele disse. “Mas quem planta hoje colhe depois. Talita plantou. Enquanto isso, os funcionários da fazenda continuavam passando pela estrada, mas o tom havia mudado um pouco. Agora havia dois trabalhando no sítio. Havia canteiros visíveis da estrada, havia movimento real.

Alguns passavam sem comentar, outros ainda soltavam alguma coisa, mas com menos convicção do que antes. É difícil zombar com a mesma energia de quem está vendo alguma coisa crescer. Numa tarde de quarta-feira, quando Talita levava as ervas embaladas para vender nas casas da cidade, ela cruzou com dois desses funcionários na rua principal.

Estavam saindo de um bar, com aquele passo solto de quem tomou uma cerveja no fim do dia. Um deles a viu e deu uma cotovelada no outro. Olha a fazendeirinha”, disse ele com o riso frouxo. Talita passou direto, as sacolinhas no braço, sem desviar o olhar, nem apressar o passo. “Boa tarde”, ela disse, simples, sem parar. e continuou andando.

Vendeu tudo naquela tarde. Voltou com o bolso mais cheio do que na semana anterior. E na semana seguinte, quando foi de novo, já tinha encomendas esperando. Três casas que haviam pedido para ela guardar uma quantidade certa toda a semana. Era pequeno, mas estava crescendo. O que ela não via porque estava de cabeça baixa trabalhando era que aquele crescimento havia chamado atenção de uma pessoa que não tinha nada a ver com Laert, com a fazenda ou com as intrigas da cidade.

Alguém que havia parado o carro na estrada por alguns minutos numa tarde, observado o sítio de longe, com uma atenção diferente da curiosidade comum, e ido embora sem dizer nada. mas que ia voltar. Ele voltou numa manhã de terça-feira com um carro simples e poeira na lataria de quem faz estrada de terra com frequência.

Parou na porteira e ficou ali por um momento antes de descer. Talita estava de costas, ajudando Toninho a esticar uma nova linha de canteiros quando ouviu o barulho do motor. Virou devagar, enxugou as mãos na calça e caminhou até a porteira. O homem tinha uns 45 anos, estatura média, camisa de botão com as mangas dobradas até o cotovelo.

Não tinha o jeito de quem vem, curiosamente, olhar. Tinha o jeito de quem vem com uma pergunta pronta. “Você é a dona aqui?”, ele perguntou. Sou, ela respondeu. Eu me chamo Reginaldo. Trabalho com distribuição de produtos orgânicos para restaurantes e mercados da região. Ele olhou para os canteiros lá atrás, para o poço, para a área que havia sido limpa e replantada.

Passei aqui semana passada e fiquei curioso. Isso tudo você fez do zero? Do zero? Ela confirmou. Reginaldo ficou em silêncio por um momento, olhando para o sítio com aquele jeito de quem está fazendo conta na cabeça. Posso dar uma volta? Ela abriu a porteira. Ele caminhou pelo terreno em silêncio, parando aqui e ali, agachando para olhar as folhas dos canteiros, cheirando o manjericão, observando a qualidade da terra revirada perto do pomar novo.

Toninho o seguiu à distância, sem dizer nada, mas sem tirar o olho. Quando voltaram para a porteira, Reginaldo perguntou sobre volume, o quanto ela produzia por semana, o quanto esperava produzir em dois meses. Talita respondeu com números exatos. Não arredondou, não exagerou. Ele gostou disso. Dava para ver. O que eu faço, ele explicou, é conectar produtores pequenos com compradores que pagam melhor do que feira ou porta a porta, restaurantes que querem produto fresco e rastreável, mercados que estão buscando fornecedor fixo. Ele pausou.

Hum, mas eu só trabalho com quem entrega consistência. Não adianta ter produto bom na primeira semana e sumir na terceira. Eu entendo”, disse Talita, “Eu entrego.” Reginaldo a olhou por um segundo. “Então me manda uma amostra na cesta. Se for o que eu tô vendo aqui, a gente conversa sobre contrato.

” Ele foi embora sem cerimônia. Talita ficou parada na porteira, olhando o carro sumir na estrada de terra. Toninho chegou do lado dela, chapéu na mão. “Quem é esse homem?”, ele perguntou. Não sei ainda”, ela respondeu, “mas vou descobrir.” Ela passou os dias seguintes verificando o nome de Reginaldo com Geralda, com o dono do mercadinho, com qualquer pessoa que pudesse saber alguma coisa. O que voltou foi consistente.

Homem sério, pagava em dia, tinha clientes fixos em três cidades da região. Não era promessa, era negócio real. Na sexta, ela levou as amostras pessoalmente: ervas, folhas, os primeiros pimentões que haviam saído do canteiro naquela semana, embalados com cuidado, identificados, com uma folha simples de papel indicando o método de cultivo.

Reginaldo abriu, cheirou, provou uma folha de rúcula ali mesmo. Ficou em silêncio por um momento. Então olhou para a folha de papel que Talita havia incluído, aquela descrição simples do método de cultivo da água da nascente do composto orgânico feito no próprio terreno. “Você escreveu isso?”, ele perguntou. Escrevi.

“Por quê? Eu não pedi, porque quem vai comprar tem o direito de saber de onde vem e o que come. Ela respondeu. Reginaldo dobrou a folha devagar e guardou no bolso. Não disse nada sobre isso, mas Talita percebeu que alguma coisa havia mudado no jeito dele de olhar para ela, não com mais simpatia, mas com mais atenção. O tipo de atenção que se dá a quem entende o que está fazendo.

Semana que vem, ele disse, eu posso incluir você numa entrega para dois restaurantes em Campos Verdes. Volume pequeno, mas é começo. Pausou. E se a consistência se confirmar em quatro semanas seguidas, a gente conversa sobre ampliar. Talita disse que sim. Quatro semanas. Ela tinha quatro semanas para provar que não era sorte de uma vez só.

Foi nessa mesma semana que Laert apareceu no mercado da cidade. Não era dia de feira. Era uma quinta-feira comum e Talita estava lá comprando insumos quando ouviu a voz dele do outro lado do corredor. Aquela voz grossa que ela conhecia desde criança. Ela continuou no que estava fazendo, sem apressar, sem desviar, mas Laert a viu.

Ele veio na direção dela com aquele passo largo de quem nunca aprendeu a chegar devagar em lugar nenhum. Havia dois homens com ele, funcionários, não os mesmos que zombavam na estrada, mas do mesmo círculo. O dono do mercado estava por perto, arrumando uma prateleira, e ficou parado quando percebeu o que estava se formando. “Ouvi dizer que você tá tentando montar um negócio naquele mato”, disse Laert, sem preliminar, com aquele tom que fingia ser conversa, mas era outra coisa.

vendendo cheirinho de tempero de porta em porta. Talita olhou para ele, não respondeu ainda. Achei engraçado. Ele continuou mais alto agora para garantir que os que estavam por perto ouvissem. Filha de empregada que cresceu no meu quintal acha que sabe plantar. Ele deu aquela pausa calculada do tipo que existe só para machucar.

Sua mãe pelo menos sabia o lugar dela. Você nunca soube. E olha onde isso te trouxe. Num mato largado de enchada na mão, fingindo que aquilo é uma empresa. Ele abriu um meio sorriso. Isso não é negócio, menina. É teimosia de quem não tem mais para onde ir. O dono do mercado havia parado completamente. Uma mulher com cestinha na mão olhava da próxima prateleira sem disfarçar. Taliteta.

esperou ele terminar. “Eu ouvi o senhor”, ela disse com voz firme e baixa. “Agora o senhor me deixa terminar minha compra.” Laert franziu o senho. Não era a reação que ele esperava. “Você tá me ignorando?” “Tô sendo educada”, ela respondeu. “Tem diferença.” Ela virou de volta para a prateleira. As mãos não tremiam.

Ela garantiu isso internamente, segurou qualquer coisa que quisesse tremer. Laert ficou parado por alguns segundos, então deu uma risada curta, disse algo em voz baixa para os homens com ele e foi embora. O silêncio que ficou no corredor durou uns 3 segundos. O dono do mercado voltou a arrumar a prateleira. A mulher com a cestinha desviou o olhar, mas havia uma outra pessoa ali, um homem que Talita não havia notado, encostado no fundo do corredor, que havia visto e ouvido tudo desde o começo.

Era Reginaldo. Ele não disse nada naquele momento. Só a cumprimentou com um aceno de cabeça quando ela passou por ele na saída. Mas havia algo no jeito daquele aceno, um respeito simples, direto, que disse mais do que qualquer palavra. Talita foi para o sítio naquela tarde com aquela cena passando pela cabeça, não pelo que Laerte havia dito.

Ela já esperava algo assim, mas pela percepção de que havia testemunhas que não eram da fazenda, não eram do círculo dele e que haviam visto exatamente quem era quem naquele corredor. E quando chegou na porteira e viu o sítio à sua frente, os canteiros verdes, o poço funcionando, a casa remendada, mas de pé, sentiu alguma coisa diferente do que havia sentido até então.

Não era só determinação, era certeza. O que ela ainda não sabia era o que Reginaldo havia decidido naquele corredor e o que essa decisão ia mudar no que viria a seguir. Reginaldo ligou dois dias depois. Não foi uma ligação longa. Ele disse que havia pensado bem e que queria ampliar o acordo. Não só os dois restaurantes de Campos Verdes, ele queria incluir o sítio de Talita como fornecedor fixo de uma rede de quatro mercados menores que ele abastecia na região.

Produto fresco, orgânico, com entrega semanal. Ele cuidaria da logística. Ela cuidaria da produção. O volume vai ser maior do que você tá entregando agora, ele avisou. Você consegue crescer no ritmo certo? Consigo. Ela respondeu sem hesitar. Depois que desligou, ficou parada com o celular na mão por um momento. Então chamou Toninho, que estava no fundo do terreno, e contou.

Ele ouviu em silêncio, com aquela expressão fechada de sempre, e então assentiu devagar. Então, a gente tem trabalho”, ele disse. E foram as semanas seguintes foram as mais intensas desde que Talita havia chegado naquele sítio. Ampliaram os canteiros, organizaram um sistema de colheita e embalagem, ajustaram o tempo de plantio para garantir que houvesse produção contínua sem período de vazio.

Toninho sabia fazer esse cálculo de cabeça. Décadas de lavoura ensinavam isso precisar de planilha. O primeiro pagamento de Reginaldo chegou numa segunda-feira. Era mais do que Talita havia recebido em todas as vendas, porta a porta somadas. Ela olhou para o valor transferido na tela do celular, foi até o quintal, sentou embaixo da mangueira velha e ficou ali por um tempo sem falar com ninguém.

Era a primeira vez desde que havia saído pela porteira da fazenda Boa Vista que ela sentiu o chão firme debaixo dos pés. Não metaforicamente, literalmente, aquela terra vermelha que ela havia limpado palmo a palmo, que havia recusado secar e morrer, estava sustentando ela de volta. Naquela mesma tarde, ela ligou para a mãe.

“Mãe”, ela disse quando Benedita a atendeu, “tá na hora. Benedita ficou em silêncio por um segundo. Tá na hora de quê, minha filha? De ir embora de lá. Outro silêncio, mas longo dessa vez. E então Talita ouviu a mãe soltar um choro baixinho, daquele jeito contido de quem passou o tempo demais segurando. Combinaram para o fim de semana.

Na fazenda Boa Vista, quando Benedita comunicou que estava saindo, Laert não disse nada de imediato. Ficou olhando para ela com aquela expressão fechada de quem não gosta de ser surpreendido. Depois perguntou se ela estava saindo por causa da filha. Estou saindo porque é o que eu quero fazer. Benedita respondeu com uma calma que surpreendeu até ela mesma. Ele não respondeu.

Deu as costas e foi embora. Benedita passou os últimos dias na fazenda fazendo o que sempre fez, com cuidado, com capricho, sem deixar nada pela metade. Limpou [limpando a garganta] a cozinha que havia mantido por 22 anos. Organizou as prateleiras pela última vez. Deixou tudo em ordem, não por obrigação, porque era quem ela era, independente de quem era Laert.

Na última noite, deitada no quartinho dos fundos onde Talita havia nascido, ela ficou olhando para o teto baixo no escuro por um longo tempo. Pensou nos anos todos ali, no marido que havia perdido cedo, na filha que havia crescido naquele quarto pequeno, em tudo que havia aguentado em silêncio, para que a filha tivesse um teto e uma refeição por dia.

e pensou que o silêncio havia acabado. No sábado, quando o carro velho que Talita havia pedido emprestado ao Toninho parou na frente da entrada dos fundos da fazenda. Alguns funcionários estavam por perto, os mesmos que haviam rido, que haviam comentado na hora do almoço, que haviam passado pela estrada do sítio com aquele riso frouxo de quem acha que o outro vai desaparecer.

Benedita saiu com duas malas e uma caixa de papelão. Estava de cabeça erguida. Não correu, não desviou o olhar. Cumprimentou quem estava no caminho com a mesma dignidade de sempre, e caminhou até o carro da filha. Ninguém disse nada. Os que haviam ido ficaram parados, observando em silêncio.

Talita desceu do carro, abraçou a mãe no meio do pátio de terra batida bem na frente de todos. Não foi um abraço rápido, foi demorado, apertado, do tipo que guarda dentro de si tudo que não poôde ser dito em meses de ligações curtas e vozes contidas. O tipo de abraço que acontece quando duas pessoas percebem que o pior passou.

Quando se separaram, os olhos das duas estavam molhados. Nenhuma das duas comentou isso. Talita jogou as malas no banco de trás e as duas foram embora. Pela estrada de saída, Benedita ficou olhando pela janela para as pastagens da fazenda Boa Vista, diminuindo no espelho retrovisor. Ficou em silêncio por um tempo, então virou para a filha.

Como tá o sítio? Tá bonito, mãe. Talita respondeu. A senhora vai ver. Quando chegaram no fim daquela tarde, com o sol caindo de lado e jogando sombra comprida sobre os canteiros, Benedita desceu do carro devagar. ficou parada na porteira, os canteiros verdes em fileira, o poço com a bomba nova, a casa pequena, ainda simples, mas com o telhado consertado, as janelas com vidro, uma horta de temperos plantada rente à parede da frente, a mangueira velha no fundo carregada de fruta.

Toninho estava encostado na parede lateral da casa, chapéu na mão, quieto do jeito que era, sempre quieto. Deu um aceno de cabeça para Benedita. Ela ficou ali um longo tempo sem conseguir falar. A mão foi devagar até a boca, como sempre fazia quando segurava o choro. Mas desta vez não segurou. Chorou ali mesmo na porteira, olhando para aquilo tudo que a filha havia tirado do nada com as próprias mãos.

Chorou pelos anos todos, pelo cansaço acumulado, pelo medo que havia sentido quando viu Talita sair pela porteira da fazenda com aquela mala surrada. Chorou de alívio, que é o choro mais pesado que existe. Talita ficou do lado dela, não disse nada, só pôs a mão no ombro da mãe e ficou ali. Depois de um tempo, Benedita enxugou o rosto com as costas da mão e olhou para a filha.

Você fez isso tudo?”, ela perguntou com a voz ainda embargada. “A gente fez?” Talita respondeu, olhando para Toninho. Benedita assentiu devagar e então entrou, porque havia muito o que fazer e ela não era do tipo que ficava parada quando havia trabalho. Nas semanas que se seguiram, a Fazenda Boa Vista começou a sentir o peso daquilo que Laert havia plantado ao longo dos anos.

Com Benedita saindo, ele perdeu a pessoa que havia mantido a cozinha e a casa funcionando por mais de duas décadas. A substituta que contratou não conhecia a rotina, não sabia os detalhes, não tinha os anos de experiência silenciosa que Benedita carregava. Pequenas coisas começaram a desandar. Outros funcionários também foram saindo, não todos de uma vez, mas aos poucos, do jeito que as coisas saem, quando o ambiente ficou pesado demais para compensar, Laert foi ficando com uma equipe menor, mais trocada, menos comprometida. Na

cidade, o nome do sítio da nascente, como Talita havia decidido chamar por causa do poço, começou a aparecer nas conversas de um jeito diferente, não mais como piada, como referência. Reginaldo havia mencionado o sítio para outros distribuidores e dois deles haviam entrado em contato querendo conhecer a produção.

Os funcionários que haviam ido pela janela da caminhonete passavam pela estrada. Agora sem parar. Alguns chegaram a desviar o olhar quando cruzavam com Talita na cidade. Ela não precisava dizer nada. A própria realidade havia dito o suficiente. Numa tarde de domingo, Talita e Benedita estavam sentadas na varanda da casa.

Uma varanda pequena que Toninho havia ajudado a construir com madeira reaproveitada, simples, mas firme. O sol estava indo embora devagar e o cheiro de terra molhada subia dos canteiros depois de uma rega. Benedita tinha uma xícara de café na mão e ficou um tempo só olhando para o horizonte. “Você sabia que ia dar certo?”, ela perguntou.

Talita pensou por um momento antes de responder. Não ela disse, “masia que desistir não ia”. Benedita olhou para a filha, sorriu daquele jeito que só mãe sabe fazer, com o corpo inteiro, sem precisar de mais nada. Laert ainda estava na fazenda, ainda era o homem poderoso da região, pelo menos para quem olhava de longe. Mas a fazenda que ele tinha era menor por dentro do que parecia por fora.

E o tempo, que não para ninguém, ia fazendo o trabalho que nenhuma confrontação precisaria fazer. Ele havia plantado o que plantou e estava colhendo. Ali na varanda, com a mãe do lado e a terra delas à frente. Talita não pensava em Laert. Não havia espaço para isso. O que ocupava o peito dela era outra coisa, mais simples, mais sólida, mais difícil de tirar do que qualquer coisa que alguém pudesse tentar plantar contra ela.