A sociedade, em sua ânsia por narrativas de proteção e amor incondicional, frequentemente idealiza a figura materna como o último bastião de segurança para uma criança. Contudo, a crônica policial nos obriga, dolorosamente, a encarar abismos onde essa proteção não apenas inexiste, mas é substituída por uma omissão cruel e calculista. O caso de Florência Di Marco, uma menina argentina de 12 anos, é um desses episódios macabros que estilhaçam qualquer ilusão sobre a sacralidade do lar. O que inicialmente foi tratado pela mídia e pelas autoridades como um misterioso desaparecimento de uma adolescente, rapidamente revelou-se um enredo de horrores indescritíveis. Por trás das lágrimas encenadas diante das câmeras de televisão por sua mãe, Carina Valeria Di Marco, e seu padrasto, Lucas Matías Gómez, ocultava-se um histórico de abusos sistemáticos que culminou em um homicídio brutal. A tragédia de Florência não é apenas a história de um predador monstruoso, mas, fundamentalmente, o julgamento de uma mãe que escolheu a conveniência de um relacionamento abusivo em detrimento da vida da própria filha. Acompanhe os desdobramentos deste caso que chocou a Argentina e serve como um alerta perene sobre a negligência institucional e familiar.

A Fachada da Família Normal e o Abandono Repetido
A vida de Florência, nascida em 6 de janeiro de 2005 em Mendoza, no leste da Argentina, foi marcada pela ausência e pelo abandono desde antes do seu nascimento. Seu pai biológico desapareceu quando Carina, então com apenas 16 anos, estava no quarto mês de gestação. Carina mesma trazia consigo as cicatrizes de um abandono precoce; oriunda de uma família numerosa de 11 filhos, foi deixada pela própria mãe na adolescência, assumindo a responsabilidade de cuidar dos irmãos mais novos. Apesar desse início turbulento, a estrutura familiar de Carina (seu pai e irmãos mais velhos) ofereceu o suporte necessário para que ela criasse Florência. A esperança de um recomeço “tradicional” surgiu quando a menina tinha dois anos e Carina conheceu Lucas Matías Gómez, um jovem de 21 anos que parecia encarnar o ideal de parceiro protetor. O namoro evoluiu rapidamente, resultando em uma nova gravidez e na mudança do casal para a residência do pai de Carina. Durante anos, a família cresceu — dois meninos nasceram, em 2008 e 2014 —, assim como as dificuldades financeiras.
A convivência em uma casa habitada por 16 pessoas tornou-se insustentável. Fontes divergem sobre o real motivo da mudança da família para a província de San Luis, em setembro de 2016: alguns apontam a busca por melhores oportunidades, enquanto outros relatam discussões acaloradas entre Carina e seu pai devido a supostos maus-tratos infligidos por ela à jovem Florência. Independentemente da motivação, a instalação no bairro Lucas Rodríguez, em San Luis, marcou o início do isolamento definitivo de Florência. Distante do avô materno — a quem ela implorava constantemente para voltar — e de seus amigos de Mendoza, a adolescente de 12 anos tornou-se cada vez mais calada e retraída. O que vizinhos e conhecidos interpretavam como dificuldades de adaptação ou mera rebeldia juvenil era, na verdade, o silêncio imposto pelo terror de um inferno doméstico que se arrastava há anos.
O Desaparecimento Encenação: A Mentira de Lucas
A máscara da normalidade caiu definitivamente em 22 de março de 2017. Naquela manhã, Lucas Matías Gómez apresentou-se à polícia para registrar o desaparecimento da enteada. O relato que ele ofereceu às autoridades era meticuloso e falso: afirmou ter deixado Florência no colégio Rosario Simón, onde ela cursava o sexto ano, e detalhou até mesmo uma suposta interação da menina com uma professora sobre a confirmação das aulas. Segundo a versão de Lucas, ele a deixou no portão e seguiu para o trabalho, apenas para descobrir, ao retornar ao meio-dia, que a garota nunca havia entrado na escola. Quando questionado sobre o paradeiro da mãe, Lucas informou que Carina estava na maternidade, recuperando-se do parto de sua quarta filha (a terceira do casal), ocorrido no dia anterior. A imagem de um padrasto zeloso, preocupado com a enteada enquanto a esposa se recuperava, mobilizou a comunidade, as forças policiais e as redes sociais em uma busca frenética.
Entretanto, as engrenagens da investigação logo começaram a triturar as mentiras de Lucas. A primeira peça do quebra-cabeça surgiu com a descoberta da mochila de Florência em um acampamento no bairro Lince, não muito distante de sua casa. O conteúdo escolar revelou um detalhe perturbador: em um dicionário, a menina havia sublinhado as palavras “prostituição” e “pênis”. O indício sombrio alterou o foco da investigação. A análise implacável das câmeras de segurança desmentiu integralmente o álibi do padrasto. As imagens registraram o veículo Renault Megane escuro de Lucas passando pela escola no horário indicado, mas em nenhum momento o carro estacionou, nem Florência desembarcou. Mais do que isso, câmeras posicionadas nos arredores do local onde o corpo viria a ser encontrado flagraram o mesmo veículo, uma presença corroborada por dois pescadores que notaram o carro em atitude suspeita. A encenação do padrasto angustiado ruiu diante da tecnologia e de testemunhas oculares.
A Descoberta Macabra e o Horror Revelado pela Autópsia
Trinta e cinco horas após a notificação do desaparecimento, o pior dos cenários confirmou-se. No fim da tarde de 23 de março, o corpo de Florência foi avistado por moradores locais sob uma ponte, a quase 60 quilômetros da cidade de San Luis. A cena do crime era um testamento de brutalidade: a menina estava de bruços, com as mãos amarradas nas costas e nua da cintura para baixo. A altura de 9 a 10 metros da ponte sugeria uma tentativa tosca de descarte do corpo. A operação de resgate, que exigiu técnicas de rapel por parte dos bombeiros, foi apenas o prelúdio do horror que o laudo médico-legal viria a expor.
O exame forense não deixou margem para dúvidas ou interpretações amenas. Os órgãos genitais da menina apresentavam sangramento intenso e vestígios biológicos inquestionáveis: sêmen nas partes íntimas e na cavidade oral. A análise laboratorial foi célere e taxativa, o perfil genético extraído correspondia integralmente ao DNA de Lucas Gómez, que havia sido preso preventivamente. Contudo, a autópsia revelou um fato ainda mais macabro: as lesões crônicas nas áreas íntimas de Florência indicavam que os abusos sexuais não foram um evento isolado, mas uma tortura sistemática que perdurava há anos, ao ponto de o médico legista atestar que o desenvolvimento genital da criança assemelhava-se ao de uma mulher adulta devido às constantes agressões.
A causa mortis foi asfixia mecânica por estrangulamento. A força descomunal aplicada pelo agressor rompeu a traqueia da jovem, atestando uma morte violenta, precedida por luta e sofrimento, evidenciados pelas lesões de defesa nos braços da vítima. O lapso temporal da morte, estimado entre 30 e 32 horas antes da localização do cadáver, fixou o momento do assassinato na manhã do domingo, 22 de março — exatamente o período em que Carina, a mãe, havia deixado a residência para dar à luz.
O Depoimento Chocante e o Fim Covarde de Lucas Gómez
A frieza com que Lucas encobriu seus rastros atingiu um nível de psicopatia quando o meio-irmão de Florência, um menino de apenas 9 anos, prestou depoimento. O garoto relatou que, na manhã de 22 de março, seu pai levou a ele e ao irmão menor à escola no mesmo carro em que Florência estava no banco da frente. Segundo a criança, a irmã estava imóvel, com a cabeça baixa e não emitia som algum. A justificativa macabra de Lucas aos filhos menores foi de que ela estava “dormindo de cansaço”. Naquele momento, Lucas já havia assassinado a enteada e transportava o seu cadáver com os filhos menores no banco de trás.
A confirmação do perfil genético de Lucas nas amostras recolhidas fechou o cerco legal. Contudo, a justiça terrena foi negada à sociedade. Antes que pudesse enfrentar os tribunais, o corpo do padrasto foi encontrado enforcado pelo fio da iluminação em sua cela isolada. Abalado pelas ameaças de morte proferidas por outros detentos e pelo peso inegável das provas, ele optou pelo suicídio. Em três cartas deixadas — para a mãe, para os filhos e para Carina —, Lucas manteve a covardia até o fim, negando o assassinato e sugerindo que Florência, farta dos abusos (que ele indiretamente admitia ao citá-los como motivação), havia tirado a própria vida. Segundo sua versão delírica, ao encontrar o corpo, o desespero e o uso de drogas o levaram a descartar a enteada no rio.
O Julgamento de Carina Di Marco: A Anatomia da Omissão
Com a morte do executor material, os holofotes da Justiça e a fúria da opinião pública voltaram-se implacavelmente para Carina Di Marco. A mãe, que inicialmente defendera Lucas “com unhas e dentes” e o exibia como um companheiro exemplar, subitamente alterou seu discurso após a prisão do marido. Passou a descrevê-lo como um viciado violento, que a espancava e aos filhos, afirmando temer por sua vida. Sobre os abusos sistemáticos contra Florência, ela manteve a tese da ignorância absoluta: “Nunca percebi nada”, declarou, reiterando que, se soubesse, teria feito qualquer coisa para salvá-la.


No entanto, o histórico e as testemunhas contavam uma história muito diferente. O processo revelou publicações perturbadoras no Facebook de Carina, nas quais ela aconselhava: “Cuide de seu homem. Os filhos vão, os amigos mudam, o corpo envelhece, o dinheiro acaba e ao seu lado só estará seu marido”. Essa mentalidade doentia refletiu-se em ações documentadas. Professoras de Florência testemunharam que a menina já havia denunciado os toques inapropriados do padrasto à instituição escolar. Ao ser convocada pela direção, Carina não apenas defendeu o agressor, como também desqualificou a própria filha, chamando-a de “mentirosa” e alegando que a acusação era uma manobra da garota para voltar a morar com o avô em Mendoza.
A prova definitiva da cumplicidade macabra veio de dentro do próprio lar. O interrogatório do filho de 9 anos foi categórico: o menino confirmou à magistrada que a mãe “sabia de tudo”. A promotoria também apresentou evidências de que Carina, de forma sistemática, lavava as roupas de cama da filha manchadas de sangue, um ato rotineiro de ocultação de provas dos sucessivos estupros cometidos pelo companheiro.
O julgamento, iniciado em abril de 2019, foi o epílogo de uma tragédia anunciada. O choro encenado de Carina durante seus 40 minutos de depoimento, em que implorou por “justiça para que sua filha descansasse em paz”, não comoveu o tribunal nem mascarou o laudo dos psicólogos, que a descreveram como fria, distante e manipuladora. Em 23 de abril de 2019, em uma decisão unânime e exemplar, Carina Valeria Di Marco foi condenada a 18 anos de prisão como “partícipe necessária no crime de abuso sexual com acesso carnal agravado por situação de aproveitamento da convivência preexistente”. Os juízes foram claros: Carina abdicou de seu papel materno, escolhendo a preservação de seu casamento com um pedófilo em detrimento da segurança e da vida de sua filha de 12 anos.
A condenação de Carina encerra o processo legal, mas não apaga a desconfortável reflexão que o caso impõe. Se professores suspeitavam, se o avô materno nutria dúvidas sobre os maus-tratos, se os vizinhos presenciavam uma rotina estranha, por que o sistema falhou tão miseravelmente em proteger Florência? A tragédia não é apenas obra de um predador suicida e de uma mãe cúmplice, mas o resultado de um sistema escolar, social e judicial que, mais uma vez, chegou tarde demais para impedir que o inferno devorasse a inocência.
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