Um Dia Comum de Pescaria que Terminou em Emboscada no Maranhão
A tranquilidade da zona rural de Campo de Perizes, uma região que se estende entre os municípios de Bacabeira, Rosário e São Luís, no Maranhão, foi o cenário de um dos episódios mais brutais e chocantes da história recente do estado. Quatro jovens amigos, acostumados com a rotina simples do interior, transformaram-se em personagens de uma tragédia impensável. O que estava planejado para ser apenas mais uma tarde de lazer e pescaria entre amigos acabou se convertendo em uma emboscada violenta, motivada por uma acusação banal que mudaria para sempre o destino daquelas famílias.
Roberto da Luz Santos, de apenas 11 anos, Eris da Silva Costa, de 12, Euler Costa, de 15, e Romário Viegas, de 18 anos, formavam um grupo unido pela convivência na mesma comunidade. Eles eram conhecidos na vizinhança pelas brincadeiras cotidianas, pelas pequenas tarefas do meio rural e, acima de tudo, pelas pescarias que realizavam juntos para passar o tempo. No dia 1º de agosto de 2017, os quatro decidiram caminhar até um açude bastante frequentado por moradores locais, situado nas proximidades de uma área de mata fechada e manguezal, com o objetivo de pescar. Nada no comportamento dos rapazes ou no ambiente ao redor indicava o perigo iminente que os cercava.
O Ataque Inesperado na Casa de Apoio
Após passarem várias horas pescando no açude, os quatro amigos decidiram fazer uma pausa para descansar. Eles se abrigaram em uma pequena casa localizada nas proximidades do local, um ponto que parecia seguro e pacífico. No entanto, sem que pudessem perceber, o grupo já estava sendo monitorado de perto. De forma repentina e agressiva, homens armados invadiram o espaço onde os jovens relaxavam. O bando carregava um arsenal composto por facões, revólveres e uma espingarda, agindo com extrema rapidez para cortar qualquer possibilidade de defesa ou reação por parte dos rapazes.
A violência da abordagem deixou os jovens em estado de absoluto choque. Os dois meninos mais novos, Roberto, de 11 anos, e Eris, de 12, foram dominados de imediato pelos agressores, sem condições de esboçar qualquer resistência. Ao testemunharem a captura dos amigos mais novos, Euler e Romário tomaram uma decisão desesperada na tentativa de salvar suas vidas: correram em direção à vegetação densa do mangue e da mata fechada, na esperança de despistar os criminosos.
A Caçada na Mata e o Milagre da Sobrevivência
A tentativa de fuga, contudo, transformou-se rapidamente em uma caçada humana. Parte dos criminosos iniciou uma perseguição implacável por entre as árvores e os galhos. Mesmo conhecendo os caminhos daquela região, a desvantagem dos jovens era evidente. Após correrem por dezenas de metros sob extrema tensão, Euler e Romário foram alcançados pelos perseguidores dentro da mata. O que se seguiu foi um ataque de extrema crueldade, com disparos de armas de fogo e diversos golpes de facão direcionados aos dois adolescentes.
Euler foi atingido por um tiro na região da boca, sofrendo ferimentos graves. Romário foi baleado na perna e recebeu múltiplos golpes de facão pelo corpo. Caídos e perdendo muito sangue, os dois perceberam que a única chance de sobrevivência seria interromper qualquer movimento. Em um ato de puro instinto, decidiram fingir que estavam mortos. A estratégia funcionou. Acreditando que haviam cumprido a execução, os assassinos abandonaram os corpos na vegetação e saíram do local. Mesmo em estado crítico, reunindo forças que pareciam inexistentes, Euler e Romário rastejaram e caminharam até uma estrada próxima, onde foram resgatados por moradores e levados às pressas para o hospital.
Desaparecimento e o Clima de Revolta na Comunidade
Enquanto os dois sobreviventes lutavam por suas vidas em leitos hospitalares, o paradeiro de Roberto e Eris permanecia um mistério angustiante. O ataque brutal e o sumiço das duas crianças de 11 e 12 anos espalharam uma onda de medo, indignação e revolta por toda a comunidade da Vila Samara e arredores. Os familiares dos meninos iniciaram buscas desesperadas por conta própria, enquanto equipes policiais montavam uma força-tarefa intensa para vasculhar a área do açude, o manguezal e os arredores da mata.
À medida que os dias passavam, a angústia aumentava. O caso ganhou repercussão estadual devido à pouca idade das vítimas e à violência extrema empregada na ação. A polícia civil e as forças de segurança concentraram seus esforços na coleta de depoimentos e pistas que pudessem indicar quem seriam os autores de tamanha atrocidade e onde estariam os dois meninos desaparecidos.
A Prisão dos Suspeitos e a Revelação do Motivo Banal
As investigações avançaram rapidamente e, no dia 4 de agosto de 2017, três dias após o crime, a polícia efetuou a prisão de dois suspeitos apontados por moradores da região. Entre eles estava Antônio Coelho Machado, um idoso de 78 anos conhecido como “Baixinho”, apontado pelos investigadores como o mentor e principal articulador da emboscada. Junto com ele, foi preso o seu genro, Josean Serra Reggo. Confrontado pelas autoridades durante o interrogatório, Antônio cedeu e concordou em indicar o local exato onde as crianças estavam.
Conduzidos pelo suspeito, os policiais se deslocaram até uma área de manguezal de difícil acesso, distante do ponto do primeiro ataque. Devido às condições do terreno, foi necessário o uso de apoio aéreo para localizar o ponto exato. Lá, os investigadores encontraram os corpos de Roberto e Eris enterrados em uma cova rasa. A crueldade do cenário causou forte impacto até mesmo nos policiais mais experientes. Em seu depoimento, Antônio confessou o crime e apresentou a justificativa: alegou que os jovens eram responsáveis pelo furto de porcos de sua propriedade e que, após discussões anteriores, decidiu se vingar por acreditar que os sumiços dos animais continuavam. A motivação fútil gerou ainda mais indignação pública.
Desdobramentos, Prisões e a Busca por Justiça
Com a continuidade das investigações, o círculo de envolvidos começou a se fechar. Dias depois da localização dos corpos, novos mandados de prisão foram cumpridos contra Cleverson Machado, neto de Antônio, e Cleon Jorge Souza Vilassa, ambos suspeitos de integrarem o grupo que realizou a emboscada. Outro homem chegou a se apresentar voluntariamente às autoridades. Ao longo do inquérito, alguns indivíduos foram descartados por falta de provas contundentes, mas Antônio, Josean e Cleon permaneceram firmes como os executores diretos do plano.
Os sepultamentos de Roberto e Eris atraíram uma multidão comovida e revoltada na Vila Samara. Enquanto a comunidade chorava a perda das crianças, os sobreviventes Euler e Romário tornavam-se peças-chave para o esclarecimento do caso. Mesmo debilitado e carregando sequelas graves na fala decorrentes do tiro na boca, Euler demonstrou imensa coragem ao colaborar com a justiça, fornecendo detalhes minuciosos que ajudaram a reconstituir a dinâmica exata daquela tarde trágica.
O Julgamento e o Veredito no Tribunal
Em novembro de 2018, os acusados foram levados a júri popular em um julgamento que se estendeu por longas horas. No tribunal, Antônio Coelho Machado tentou mudar sua estratégia de defesa, assumindo a responsabilidade total pelas mortes na tentativa de inocentar os familiares. No entanto, a tese de um crime cometido por um único homem de 78 anos foi desmentida pelos depoimentos contundentes dos sobreviventes e pela acusação conduzida pelo Ministério Público.
O Ministério Público demonstrou que os réus agiram de forma pré-meditada, organizada e com a intenção clara de eliminar os quatro jovens, destacando a desproporção e a futilidade do motivo apresentado. Diante das provas e dos relatos, o conselho de sentença condenou Antônio Coelho Machado, Josean Serra Reggo e Cléon Machado pelos crimes de homicídio qualificado, tentativa de homicídio e ocultação de cadáver. As penas aplicadas pela Justiça ultrapassaram os 40 anos de prisão para cada um dos envolvidos, a serem cumpridas inicialmente em regime fechado. Embora a sentença tenha trazido uma resposta legal, o trauma e a dor da perda permanecem vivos na memória da região.