A cidade de Luís Eduardo Magalhães, no oeste da Bahia, é conhecida por sua pujança econômica, ligada fortemente ao agronegócio, e por manter a tranquilidade típica das cidades do interior brasileiro. No entanto, em setembro de 2023, essa rotina foi violentamente interrompida por um crime que parece saído de um filme de suspense policial, mas que é tragicamente real. A morte de José Vicente de Cerqueira Sena, de 40 anos, não foi apenas um homicídio; foi o desfecho de uma rede complexa de ganância, mentiras e uma execução filmada, onde a própria mandante, tentando ocultar seus rastros, esqueceu-se de um detalhe tecnológico crucial: a memória das câmeras de segurança.
A figura central desta história é Angélica da Silva Goldin, de 30 anos, esposa de José Vicente. Para a sociedade local, eles formavam um casal estável, pais de dois filhos pequenos, vivendo uma rotina aparentemente sólida há nove anos. Ele, um vendedor de carros reformados e dono de uma loja de confecções, era visto como um homem dedicado à família. Ela, por sua vez, projetava nas redes sociais a imagem de uma vida impecável, recheada de festas, viagens e jantares em lugares badalados, um estilo de vida que, segundo relatos posteriores, era mantido por uma obsessão por status.
A fachada de perfeição começou a ruir quando problemas financeiros, agravados pela gestão impulsiva do orçamento familiar por parte de Angélica, tornaram-se insustentáveis. O estopim teria sido a venda de uma caminhonete Hilux, herdada por Angélica, cujo valor de R$ 30 mil foi gasto rapidamente em lazer e ostentação. O problema jurídico, dado que o veículo estava com bloqueio judicial, colocou o casal em uma encruzilhada de pressão financeira e brigas constantes.
Segundo as investigações policiais, o conflito financeiro e o estilo de vida foram os catalisadores para a decisão drástica de Angélica. Através de uma conexão estabelecida anos antes — segundo relatos, em uma fila de visita íntima a um presídio — ela contatou uma mulher chamada Micaele, que serviu como intermediária para a contratação de dois pistoleiros vindos do interior do Piauí. O valor acordado pela morte de José Vicente foi de R$ 18 mil, com uma trilha financeira que, ironicamente, serviu como uma das provas mais contundentes para a polícia: um Pix de R$ 3 mil enviado por Angélica a um dos executores apenas dois dias antes do crime.

O dia do assassinato, 4 de setembro, foi marcado por uma encenação fria. Angélica informou ao marido que sairia para comprar pães. Enquanto ela deixava a garagem, um veículo branco aproximou-se, de onde desceu um homem vestindo camiseta vermelha e com o rosto coberto. O que se seguiu foi capturado pelas câmeras da residência. Em um momento de frieza absoluta, Angélica conduziu o criminoso diretamente ao banheiro, onde José Vicente tomava banho.
O ataque foi imediato. Após os disparos, a vítima, ferida, tentou uma fuga desesperada, correndo pela rua apenas de toalha, mas acabou encurralada em um terreno baldio ao lado da casa, onde faleceu. Enquanto isso, o comportamento de Angélica após o crime seguiu o roteiro de uma vítima de assalto: ela ligou para a polícia chorando, alegando que sua casa havia sido invadida e que ela e seus filhos haviam sido feitos reféns.
A defesa de Angélica, no entanto, apresenta uma narrativa radicalmente oposta. Em interrogatórios, ela alega ter sido vítima de um relacionamento abusivo, marcado por agressões físicas e verbais constantes, além de ameaças de morte. Segundo ela, o marido a mantinha sob controle com armas de fogo e a forçava a relações sexuais, chegando a ameaçá-la com fogo em uma ocasião em uma chácara. Angélica sustenta que contratou os pistoleiros por coação e que, na noite anterior ao crime, tentou cancelar a execução, mas foi ameaçada pelos próprios executores, que teriam dito que invadiriam a casa e matariam a todos caso o contrato não fosse cumprido.
Contudo, as evidências colhidas pela polícia contradizem fortemente sua versão. As imagens das câmeras de segurança, que Angélica tentou inutilizar cortando os fios — sem saber que o sistema possuía bateria interna e continuava operante —, mostram a tranquilidade com que ela guia o atirador até o banheiro. Não há, nas gravações, qualquer sinal aparente de coação física ou ameaça imediata. Além disso, as investigações não encontraram registros policiais que corroborassem as alegações de violência doméstica apresentadas pela defesa, sugerindo que tais narrativas poderiam ser um álibi construído após a descoberta do crime.
O impacto emocional desta tragédia estende-se para além do casal. A família de José Vicente, que recebeu a notícia durante o velório, viveu um choque profundo ao descobrir que a mulher que aparecia aos prantos e pedindo auxílio jurídico para ser liberada era a mesma pessoa que, segundo as provas, encomendou a execução do filho. Os filhos do casal, com 3 e 4 anos à época, ficaram traumatizados. Segundo parentes, uma das crianças chegou a descrever o som dos disparos como “bombas”, um detalhe doloroso que reforça a brutalidade da cena presenciada de forma indireta.
A justiça baiana agora tem o desafio de julgar um caso que divide a opinião pública entre a versão de uma mulher oprimida que reagiu a um agressor e a versão de uma criminosa calculista movida por vaidade e questões financeiras. Os executores foram capturados e confessaram a autoria. Micaele, a intermediária, foi detida, mas nega participação consciente, alegando ter apenas repassado valores sem saber a finalidade.
Enquanto Angélica permanece sob custódia, aguardando o desfecho do processo, a história permanece como um lembrete sombrio de como, sob a aparência de uma vida perfeita, podem se esconder realidades devastadoras. O caso não apenas abalou a confiança da comunidade de Luís Eduardo Magalhães, mas também levanta debates sobre a natureza da violência doméstica e a facilidade com que o crime organizado pode ser infiltrado em contextos familiares. A verdade, gravada em alta definição, permanece como o pilar central desta investigação, desafiando a defesa a provar que, atrás daquela imagem, não houve apenas um planejamento frio, mas uma sobrevivência desesperada em um cenário onde, aparentemente, não havia mais saída.