Posted in

O QUE VI EM 30 ANOS COMO PORTEIRO DE CEMITÉRIO | História de Terror e Relato Real

Hoje, olhando para trás, sei que não fui apenas um funcionário do cemitério. Fui testemunha de coisas que muita gente prefere fingir que não acontecem. Aposentei-me, mas continuo a viver de frente para o portão. Alguns diriam que isto é uma loucura, que eu deveria ter-me alterado, mas a verdade é que o cemitério nunca me deixou.

Ele encontra sempre um maneira de me chamar de volta. E é essa a história que vou contar. O meu nome é Aparecido Ferreira da Silva. Hoje tenho 62 anos e vivo numa cidade pequena do interior de São Paulo. Nasci aqui mesmo. Cresci nas ruas de terra batida. Minha toda a vida foi simples. Filho de lavrador e dona de casa, cedo aprendi a dar valor a cada moeda que entrava.

Trabalhei no campo, em pequenas fábricas. Fiz de tudo um pouco até que, por volta dos meus 25 anos, apareceu uma oportunidade de emprego que mudaria completamente o rumo da minha vida. Um conhecido da família comentou que havia uma vaga de porteiro no cemitério municipal. O salário não era elevado, mas vinha todos os meses sem atraso.

E para quem vivia de bicos, aquilo já era uma bênção. No início, a ideia de passar noites no meio de túmulos não me animava, mas também não me assustava. Eu tinha um pensamento prático. Mortos não fazem mal a ninguém. Foi assim que Comecei, pensando que teria tranquilidade, que o cemitério seria apenas um lugar silencioso.

A cidade em que moro, apesar de pequena, carrega histórias. Toda a cidade interiorana tem as suas lendas, os seus casos de família mal resolvidos, as suas promessas quebradas. O cemitério, que fica um pouco afastado do centro, rodeado por árvores antigas e muros rachados pelo tempo, sempre foi palco de comentários. Gente a dizer que ouviu passos à noite, que viu uma luz acender-se sozinha perto das covas mais antigas ou que sentiu um arrepio só de passar pelo portão depois da meia-noite.

Eu nunca dei bola a isso, até porque durante muito tempo a única coisa que lá encontrei foram flores murchas e gatos vadios à procura comida. O ofício de porteiro deu-me disciplina, mas também me cobrou um preço que na altura não sabia calcular. Os anos passaram e a solidão do serviço começou a mostrar-me que nem sempre o silêncio é vazio.

Às vezes ele guarda vozes que não deveriam existir. Quando comecei no cemitério, tinha apenas 25 anos. Era demasiado jovem para perceber o peso que aquele portão carregava, mas velho o suficiente para já não acreditar em histórias de assombração. A cidade de Santa Brígida, nome simples de santa de calendário, era o tipo de lugar onde toda a gente conhece todo mundo.

A notícia de que eu seria o novo porteiro não tardou a correr. Uns felicitaram-me, outros fizeram piadas. Boa sorte com as almas penadas Aparecido, diziam a rir. Eu ria-me junto, mas por dentro perguntava-me se estavam mesmo de brincadeira. A entrada do cemitério era imponente, não pela beleza, mas pela forma como parecia guardar segredos.

Dois portões de ferro, já enferrujados mesmo nessa época, se abriam para uma estrada de gravilha que cortava o terreno ao meio. De um lado, as covas antigas, com lápides, tortas e inscrições quase apagadas. Do outro, os túmulos mais recentes, alguns mausoléus demasiado grandes para uma cidade tão pequena, como se certas famílias quisessem eternizar-se em pedra.

Meu trabalho parecia simples. Abrir os portões de manhã, fechar a noite, vigiar para que ninguém entrasse sem permissão, cuidar do registo de enterramentos e manter ordem nas cerimónias. Mas na prática era muito mais do que isso. Ser porteiro do cemitério não era apenas olhar para fora, mas também encarar tudo o que estava do lado de dentro. E não era coisa pouca.

A primeira semana foi tranquila, apenas o silêncio, o farfalhar das folhas e o canto dos grilos. Com o tempo, fui percebendo que trabalhar lá era como viver num mundo paralelo. Enquanto a cidade dormia, andava entre cruzes e flores murchas, acendia lanternas para iluminar passagens escuras e habituava-me ao som dos próprios passos.

E foi nesse silêncio que as primeiras inquietações começaram. Lembro-me de uma noite em que fechei os portões mais cedo. A lua estava cheia, iluminando tudo de um maneira que até dispensava o candeeiro. Quando passei perto de uma das covas antigas, vi algo que me fez parar. Era uma vela acesa, mesmo no meio de uma sepultura que horas antes tinha visto limpa, sem nada em cima.

Nenhum visitante tinha entrado nesse dia. Apaguei a vela, pensei que fosse brincadeira de miúdos. Mas quando voltei na noite seguinte, havia outra, exatamente no mesmo local. Os mais velhos da cidade falavam que aquele pedaço do cemitério tinha histórias pesadas. Gente que morreu de forma estranha, famílias que desapareceram sem explicação, promessas não cumpridas.

Eu sempre considerei isso uma superstição, mas a partir dessa vela, comecei a perceber que havia algo de errado, algo que ia para além do que os meus olhos podiam explicar. Com o passar dos meses, os relatos começaram a acumular-se. Passos atrás de mim quando não estava ninguém, vozes a sussurrar o meu nome quando eu estava sozinho e aquela sensação constante de que alguém observava, mesmo que o terreno estivesse vazio.

Advertisements

Eu não não contei nada a ninguém. Afinal, que porteiro de cemitério seria levado a sério se dissesse que estava a ouvir os mortos? Foi neste ponto que entendi que a minha vida nunca seria comum. O cemitério não era apenas o meu trabalho, ele seria a minha marca, o meu fardo e minha maldição.

O tempo foi passando e habituei-me à rotina. O cemitério já não me causava tanto estranhamento. Pelo contrário, os dias tornaram-se previsíveis, quase sempre iguais. Eu chegava cedo, ajeitava a portaria, organizava o registo dos enterros e quando a noite caía trancava os portões e ficava de vigia. O silêncio, que no início me pesava, acabou por se tornar companhia, mas em silêncio vivem também as primeiras sombras.

Era comum as famílias me procurassem para conversar. Algumas vinham pedir-me que vigiasse tal túmulo, outras pediam-me que olhasse se as flores estavam frescas. Mas de vez em quando aparecia gente estranha, gente que não parecia estar ali por visita ou devoção. Recordo bem uma senhora de velo que surgiu certa tarde quase ao pôr do sol.

Perguntou por um túmulo antigo um nome que não constava em nenhum registo. Enquanto falava, a sua voz era baixa, como se temesse ser ouvida. Quando tentei ajudá-la, ela simplesmente desapareceu pelos corredores de lápides e, por mais que procurasse, não a vi sair. Foi nesse mesmo período que comecei a notar uma mudança em mim. Já não dormia descansado.

Os cochilos eram curtos e cheios de sobressaltos. Sempre que fechava os olhos, sonhava com os corredores do cemitério. Só que no sonho pareciam maiores, como se nunca tivessem fim. Caminhava por ali e ouvia passos atrás de mim. Quando virava, não havia ninguém. Numa madrugada, o sino da capela tocou sozinho. Era um sino antigo, enferrujado, que só era utilizado em enterros.

Eu estava sentado na portaria a tomar café quando ouvia as badaladas. largas, lentas, cada uma ecoando como se fosse uma chamada. Saí a correr até a capela, mas encontrei a corda parada, balançando leve, como se tivesse sido solta havia poucos segundos. Naquele instante, senti uma coisa que nunca vou esquecer, a certeza de que não estava sozinho.

Passei a observar mais, a ouvir mais. E quanto mais atenção eu dava, mais o cemitério parecia responder. Um dia, ao fazer a ronda, ouvi o meu nome com clareza. Aparecido, a voz vinha de trás de um mausoléu, baixa, quase um sopro. Corri até lá, mas não encontrei nada, apenas uma rosa vermelha caída no chão, fresca, como se tivesse acabado de ser colocada.

Nenhuma família tinha ido naquele dia. Fiquei tentado a pedir para deixar o emprego, mas alguma coisa dentro de mim, orgulho, teimosia ou pura necessidade, mantinha-me ali. Era como se o cemitério já tivesse colado em mim, como se me dissesse: “És parte disso agora”. E de certo modo, eu era depois daquela noite do sino, as coisas começaram a intensificar-se.

Até então podia acreditar que tudo não passava de cansaço ou da minha cabeça a pregar peças, mas o que veio depois já não cabia em explicações fáceis. Certo dia, foi marcado um enterro para o final da tarde. Era de um homem jovem, pouco mais de 30 anos, vítima de um acidente na estrada.

A família estava inconsolável e a cerimónia terminou já perto do anoitecer. Quando todos se retiraram, Fiquei para fechar o portão. O céu estava carregado, prenúncio de chuva, e o vento fazia ranger as árvores. Foi nesse momento que ouvi choro vindo da parte antiga do cemitério. Não era choro de adulto, era uma criança. Peguei na minha lanterna e fui até lá, guiado pelo som que se misturava com o vento.

Cada passo parecia levar-me para mais longe do mundo real. A voz chorosa conduziu-me até uma fileira de túmulos quase esquecidos, onde poucas pessoas ainda iam. E depois o silêncio, nada, apenas o feixe fraco da lanterna, iluminando lápides cobertas de musgo. Quando me virei-me para voltar, senti algo puxar a minha calça.

Olhei para baixo e não não havia nada, apenas o tecido marcado, como se dedos invisíveis tivessem acabado de soltar. O coração disparou, mas mantive-me firme. Não corri. Aprendi cedo que correr só dá força ao medo. Nessa noite quase não consegui dormir. Revi a cena centenas de vezes, perguntando a mim próprio se tinha enlouquecido, mas a marca no tecido estava ali como prova de que alguma coisa tinha acontecido.

Os dias seguintes foram carregados. Trabalhava com a sensação de que havia olhos sobre mim a todo o instante. Até o silêncio mudou. Não estava mais vazio. Estava atento, como se o cemitério inteiro me vigiasse. Comecei a notar padrões. As velas acesas sempre surgiam na mesma região. Os sussurros vinham principalmente perto da meia-noite e, estranhamente, muitas das as coisas aconteciam logo depois de um enterro novo.

Era como se cada alma que entrava no cemitério agitasse um pouco mais o ambiente, como se mexesse em águas paradas. Lembro-me de um colega antigo que ali trabalhou antes de mim ter dito uma frase a que não dei valor na época. O cemitério não é apenas um local de descanso, é também um local de espera. Estas palavras voltaram para me assombrar.

Espera de quê ou de quem? Eu não tinha respostas, apenas perguntas. E a cada noite as perguntas pareciam tornar-se multiplicar. Foi então que percebi o trabalho que tinha assumido não era apenas vigiar portões e registar nomes, era de alguma forma estar no meio de algo que não compreendia. E gostando ou não, eu já estava preso aquilo.

Eu só não sabia o quanto esta prisão me iria marcar para o resto da vida. Eu já estava habituado a longas madrugadas, mas naquela noite algo parecia diferente. O vento batia forte nos portões enferrujados, fazendo-os ranger como se se queixassem do peso do tempo. Fiquei sentado na cadeira da portaria, ouvindo o silêncio estender-se para além das paredes, até que um som seco, preciso, fez-me erguer os olhos.

Três batidas fortes no ferro. Era madrugada profunda. Ninguém deveria estar ali. Peguei na lanterna e caminhei lentamente até ao portão. Do lado de fora não havia nada, apenas o vazio da estrada e as sombras das árvores projetadas pela lua. Segurei firme no cadeado e, por instinto, perguntei: “Quem está aí?” Nenhuma resposta, apenas o eco do vento, frio e trocista.

Dei meia volta, já pronto para esquecer o sucedido, quando ouvi claramente uma voz rouca, baixa, quase a implorar: “Abre o portão!” Meu coração disparou. Corri os olhos pela estrada e nada vi, mas a voz não vinha de longe. Vinha de muito perto, como se alguém estivesse colado ao ferro, sussurrando pelas frestas. Segurei a chave no bolso, mas a ideia de destrancar passou longe.

O meu dever era proteger o cemitério de intrusos, mas nessa altura percebi que a barreira não servia para manter os vivos afastados. Regressei à guarita com passos rápidos, tentando convencer-me de que era apenas a minha mente cansada. Mas antes que me sentasse, ouvi outro som. Passos pesados entre os túmulos.

O chão de cascalho denunciava cada movimento. Acendi a lanterna e corri para dentro, iluminando corredores de lápides. A luz tremia junto da minha mão e quanto mais avançava, mais nítido se tornava o som. De repente, silêncio. Girei em círculos, feixe da lanterna cortando o escuro, até que ouvi algo ainda pior. O arrastar de madeira contra a pedra.

Um som seco, áspero, proveniente da parte mais antiga. Segui o barulho, o coração a bater contra as costelas até atingir um conjunto de covas esquecidas. A lanterna revelou uma cena que me gelou. A tampa de um túmulo estava ligeiramente erguida, como se alguém tivesse empurrado de dentro. Aproximei-me devagar, o suor frio a escorrer pela nuca.

O ar ali parecia mais pesado, difícil de respirar. Antes que pudesse pensar em tocar na pedra, algo me chamou a atenção no chão. Marcas de arrasto, como se um caixão tivesse sido puxado para fora. Foi nesse instante que vi a terra junto à outra sepultura mexeu-se como se algo dentro dela estivesse a empurrar para sair.

A lanterna captou uma sombra desforme, tentando escapar pelas fissuras do solo. A minha mente gritava para correr, mas as minhas pernas se recusaram a obedecer. E parado ali, percebi pela primeira vez. O meu trabalho nunca foi apenas vigiar contra invasores. A minha função era outra. Eu estava ali para conter os mortos. Eu estava imóvel, preso entre o impulso de correr e a estranha sensação de que se virasse costas, algo sairia dali.

A terra continuava a mexer lenta, como se respirasse. Foi então que ouvi novamente batidas no portão, fortes, ritmadas, como punhos de ferro a pedir passagem. As duas coisas aconteciam ao mesmo tempo. Do lado de fora, alguém ou algo exigia que eu abrisse. Do lado de lá dentro, os mortos tentavam escapar.

Meu corpo inteiro parecia uma corda esticada, prestes a rebentar. Respirei fundo, como se o ar me fosse dar coragem, e gritei para o portão: “Aqui ninguém entra”. O som cessou durante alguns segundos até que uma série de vozes sobrepostas masculinas e femininas começaram a ecoar juntas num tom de súplica: “Abra o portão, abra o portão!” Tapei os ouvidos, mas ainda assim as vozes atravessavam a minha cabeça, repetindo sem parar.

Voltei cambaleando para a guarita, agarrei o velho terço que mantinha no bolso e comecei a rezar. Não importava se a minha fé era fraca ou se as palavras saíam atropeladas. Era tudo o que eu tinha contra aquilo. Do lado de lá dentro, os sons aumentaram. O arrastar dos caixões virou estalido de madeira a partir e as tampas de túmulos rangiam, algumas caindo pesadas no chão.

O cemitério inteiro parecia acordar de um sono forçado. O vento ganhou força, espalhando pó, folhas e aquele cheiro húmido de terra revolvida. E então vi de novo a sombra que tentava sair do sepultura, só que agora tinha forma. Parecia um corpo humano, mas não sólido, um amontoado de escuridão que se erguia devagar, como fumo denso.

Quando os meus olhos fixaram-se nela, a coisa virou o rosto na minha direção. Não tinha feições, mas soube que me estava a olhando. Corri até ao portão, empurrei-o com toda a força e confirmei que o cadeado ainda estava firme. Trás de mim, o ruído aumentava, como se dezenas de mãos batessem sobre a terra pedindo libertação.

A minha única reação foi me encostar ao ferro gelado do portão e gritar para o vazio: “Vocês não vão sair, não vou deixar”. Por um instante, o mundo pareceu parar. Os sons cessaram, o vento acalmou, a sombra foi-se desfez-se como fumo soprado e um silêncio pesado voltou a tomar conta do cemitério. Estava exausto, suado, com o coração a latejar, como se fosse rasgar o peito.

Mas dentro daquele silêncio, uma certeza corroía-me. Aquilo não tinha acabado. Era só o início. O cemitério não queria apenas assustar-me. Ele queria testar-me, lembrar-me de que a minha verdadeira função era vigiar os vivos, mas conter os mortos. E a partir daquela noite, soube que nunca teria paz enquanto ocupasse aquele posto.

Aposentar deveria significar descanso, mas para mim nunca foi bem assim. Quando deixei oficialmente o cargo, pensei que estava livre, mas optei por continuar morando exatamente em frente ao portão do cemitério. Muitos disseram que era loucura, que eu deveria afastar-me começar vida nova. Só que a verdade é uma só.

Mesmo que tivesse ido para longe, ele continuaria a vir comigo. As primeiras semanas em casa pareciam comuns. A minha rotina passou a ser acordar cedo, cuidar do pequeno quintal, tomar café, olhando para o portão. Eu me repetia que já não era problema meu, que outra pessoa tinha assumido o cargo. Mas bastou a primeira noite de silêncio para eu perceber. Nada tinha mudado.

Deitado na cama, ouvi o mesmo som que me acompanhou durante tantos anos. Batidas secas no portão, três pancadas espaçadas, seguidas daquele sussurro arrastado. Abra o portão. O meu coração congelou. Não era ilusão. O tempo havia passado, mas as vozes continuavam a dar-me chamando como se ainda fosse minha obrigação de atender.

Comecei a notar que não era apenas dentro de casa. Os vizinhos também falavam. A Dona Cida, que mora na esquina, comentou vultos atravessando o portão à noite. O seu Joaquim, mais discrente, dizia que ouvia passos na rua pesados, sem ninguém à vista. Aos poucos fui percebendo que a presença do cemitério espalhava-se pelo quarteirão, como se uma sombra invisível estivesse a alargar-se.

E eu, mesmo reformado, ainda me sentia o porteiro deles. Cada barulho me fazia levantar da cama. Cada sombra obrigava-me a olhar pela janela. Era como se a minha função nunca tivesse terminado, apenas mudado de lugar. Com o passar dos meses, o meu corpo começou a cobrar caro. O cansaço não saía mais.

Os ossos doíam como se eu tivesse mais décadas do que a minha idade. Aos 62 anos, parecia carregar uns 80. Os médicos falavam em envelhecimento precoce, mas nenhum exame explicava o motivo. Eu sabia. Era o peso de todos aqueles anos em que segurei os mortos atrás do portão. Passei a investigar mais sobre o cemitério, como se procurasse respostas tardias.

Nos arquivos da câmara municipal encontrei menções antigas, relatos de que muito antes de ser cemitério, aquele terreno fora um lugar de rituais. Homens e mulheres enterrados à pressa, sem despedida, sem bênção, amaldiçoados ao esquecimento. Entendia então que não eram apenas almas deambulantes, eram restos de histórias mal encerradas, presas em procura de alguém que abrisse passagem.

E esse alguém fui eu, não por opção, mas por destino. Agora, mesmo afastado, sinto como se tivesse sido marcado pelo lugar. É uma cicatriz invisível que não some. O cemitério continua a chamar-me e quanto mais o tempo passa, mais me apercebo que a minha reforma é só de papel. Na prática, nunca saí dali.

Nos últimos anos, aceitei que o cemitério não me vai deixar. Tentei ignorar, tentei fugir, mas quanto mais luto contra isso, mais ele se impõe. Às vezes penso que nunca fui eu que escolhi aquele portão. Foi ele que me escolheu. As noites são as piores. O relógio mal chega à meia-noite e já começam os sinais.

Primeiro, um vento frio que passa pela casa toda, mesmo com todas as as janelas fechadas. Depois o ranger do portão, como se alguém o empurrasse devagar. E logo de seguida as vozes, sempre as mesmas, repetindo em uníssono: “Abra o portão, abra o portão. Já não tento mais convencer ninguém. Os vizinhos vêm vultos a atravessar a rua. queixam-se de choros vindos do cemitério, mas preferem acreditar que é coisa de a sua imaginação. Eu não.

Eu sei que tudo continua, que o meu trabalho nunca teve fim. O corpo, no entanto, não acompanha mais. Caminho curvado, os ossos estalam a cada passo. Às vezes sinto como se carregasse quilos de terra sobre os ombros. O espelho mostra-me rugas fundas, olheiras que parecem manchas escuras e um olhar cansado de quem viveu mais do que devia.

É como se o cemitério tivesse sugado a minha juventude pouco a pouco, em troca de eu manter os seus segredos. Certa tarde, mexendo em papéis velhos da freguesia, encontrei registos que me tiraram o sono. Outros porteiros antes de mim também tinham envelhecido cedo, todos marcados pela mesma fadiga inexplicável.

Nenhum deles viveu muito além da reforma. Era como se o lugar não o permitisse, como se a função fosse uma sentença de morte lenta. Essa descoberta não me trouxe desespero, e sim uma estranha sensação de reconhecimento. Eu já sabia, no fundo, que o meu destino estava atado ao portão. Só confirmei aquilo que o meu corpo vinha dizendo.

Hoje, quando caminho até ao portão para observar de perto, sinto quase um conforto. Vozes calam-se por alguns instantes como se me recebessem. O vento muda, a sombra das árvores torna-se inclina a minha direção. É como se eles, os que estão lá dentro, me reconhecessem ainda como seu guardião. E no fundo, eu aceito, porque compreendi que nunca saí de verdade do cemitério.

Ele me acompanha em cada batida do coração, em cada insónia, em cada sussurro que atravessa a noite. A minha aposentadoria foi apenas uma formalidade. Eu continuo sendo o mesmo porteiro de sempre. O peso que carrego não é apenas da idade, mas de todas as portas que não abri, de todos os mortos que segurei lá dentro.

E Sei que quando chegar a minha hora, não haverá cerimónia ou despedida. Apenas um portão a abrir devagar e eu atravessando para o outro lado, cumprindo finalmente o destino que sempre foi meu. que ninguém se reforma do cemitério.