A vulnerabilidade das mulheres trans que atuam como profissionais do sexo no Brasil é uma ferida aberta na sociedade contemporânea, expondo as falhas estruturais de segurança e a brutalidade que espreita em encontros clandestinos. Em um país que lidera os trágicos rankings mundiais de violência contra a população LGBTQIA+, a prostituição – atividade lícita desde 2002, porém marginalizada – torna-se um campo minado. Os recentes e estarrecedores casos de Riana Alves, de 18 anos, na Bahia, e Wendely Gabriele, de 22, no Pará, ilustram com precisão cirúrgica o perigo letal que essas jovens enfrentam ao entrar no carro de um desconhecido. Ambas partilhavam características trágicas em comum: eram mulheres trans, exerciam a prostituição, dependiam de clientes muitas vezes anônimos e encontraram um fim violento mediado por asfixia mecânica. As mortes de Riana e Wendely não são fatalidades isoladas, mas sim sintomas de um problema crônico de transfobia e violência de gênero que exige uma resposta incisiva do Estado.


A Tragédia de Riana Alves: Da Exposição Digital à Morte no Porta-Malas
Riana Alves personificava a modernidade de sua geração. Moradora de Luís Eduardo Magalhães, no oeste baiano – uma cidade de rápido crescimento, marcada pelo trânsito constante de pessoas e pela impessoalidade urbana -, a jovem de apenas 18 anos dividia sua vida entre o mundo físico e o virtual. Com mais de cinco mil seguidores nas redes sociais, Riana atuava como blogueira, compartilhando seu cotidiano e, simultaneamente, utilizando sua plataforma digital para angariar clientes para o seu trabalho como garota de programa. A internet era sua principal ferramenta de sustento, exigindo que ela se deslocasse frequentemente para a cidade vizinha de Barreiras, distante cerca de 90 quilômetros, em busca de maior movimento e rentabilidade.
Foi durante um desses deslocamentos que o destino de Riana se cruzou com o de Sérgio Henrique Lima dos Santos, um jovem de 19 anos que atuava como motorista de aplicativo e lavador de carros em Barreiras. Segundo os autos da investigação, Sérgio a procurou especificamente para contratar um programa. O que deveria ser mais um encontro profissional culminou em um homicídio brutal no interior do veículo. A versão apresentada pelo autor – a única disponível, uma vez que a vítima foi silenciada – alega que a violência ocorreu após Riana supostamente ameaçar expor a relação dos dois e acusá-lo de estupro. Sérgio alegou legítima defesa, afirmando que a jovem fez um movimento brusco com a bolsa, insinuando pegar uma arma. A resposta do motorista foi letal: aplicou um “mata-leão”, um golpe de estrangulamento que interrompe o fluxo sanguíneo e de oxigênio para o cérebro, ceifando a vida da jovem ali mesmo, no banco de trás.
A dinâmica pós-crime assumiu contornos bizarros e levanta questionamentos profundos sobre a lógica do sistema de justiça criminal. Após asfixiar Riana, Sérgio acomodou o cadáver no porta-malas de seu carro e dirigiu-se até a delegacia local. Ao chegar, confessou o homicídio e apresentou o corpo aos policiais. O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) foi acionado apenas para constatar o óbito. O desenrolar imediato gerou revolta: amparado pela legislação que prevê o benefício de responder em liberdade para quem se apresenta espontaneamente e não é flagrado no ato, o delegado de plantão liberou o réu confesso. A indignação social e a pressão institucional, encabeçada pela Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) da Bahia, forçaram o Ministério Público a agir. Após a denúncia, a Justiça decretou a prisão preventiva de Sérgio, que havia fugido da região oeste e foi capturado quatro dias depois na cidade de Serrinha, a mais de 900 quilômetros do local do crime. Riana foi sepultada em América Dourada, distante de onde buscava sua independência, deixando uma família destroçada e a urgência por justiça.
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O Mistério em Parauapebas: A Asfixia de Wendely Gabriele
O modus operandi que vitimou Riana Alves ecoa fortemente no assassinato de Wendely Gabriele, conhecida como “Cachinhos”, de 22 anos. Residente em Parauapebas, importante polo de mineração no sudeste do Pará, Wendely também era uma mulher trans e profissional do sexo. Na noite de 16 de agosto de 2025, o silêncio atípico em sua residência, localizada na Rua Ticuna, no bairro Parque dos Carajás, chamou a atenção da vizinhança, que acionou a Polícia Militar.
Ao adentrarem o imóvel, os agentes depararam-se com uma cena asfixiante e cruel. Wendely estava morta, com um pano firmemente enrolado em seu pescoço. A perícia preliminar do Instituto Médico Legal (IML) confirmou as suspeitas: a causa da morte foi asfixia mecânica. Diferentemente do caso baiano, o autor do crime não se apresentou à polícia. O assassinato de Wendely permanece envolto em mistério, alimentado por rumores locais que sugerem motivações ligadas à transfobia. A principal vertente não oficial aponta que um cliente, ao descobrir que a jovem era uma mulher trans no momento do ato, teria reagido com violência extrema, culminando no estrangulamento. Outros relatos indicam que a vítima já vinha sofrendo ameaças de morte. Apesar de relatos sobre um suspeito ter prestado depoimento inicial, as investigações da Polícia Civil de Parauapebas parecem ter estagnado, sem prisões ou esclarecimentos definitivos à sociedade.
A Roleta Russa da Prostituição: Dados e Vulnerabilidade
A análise conjunta dos casos de Riana e Wendely expõe a roleta russa diária enfrentada pelas mulheres trans na prostituição. A ausência de regulamentação formal do trabalho sexual empurra essas mulheres para a marginalidade, forçando-as a entrar em veículos de estranhos ou receber clientes anônimos em suas residências, sem qualquer rede de proteção. Dados alarmantes corroboram essa percepção de risco iminente. Em 2023, estatísticas revelaram que 57% das pessoas trans assassinadas no Brasil exerciam a prostituição como principal meio de subsistência. A marginalização econômica, aliada à repulsa e ao preconceito de uma parcela da sociedade – que consome o trabalho sexual, mas renega a humanidade da profissional -, cria um ambiente propício para a violência impune.
Casos emblemáticos, como o bárbaro assassinato de Dandara no Ceará ou o desaparecimento seguido de morte da jovem Ana Luísa Pantaleão, em São Paulo, em 2023, reforçam o padrão: mulheres trans entram no carro de clientes e saem em sacos cadavéricos. A alegação de “pânico trans” – o argumento jurídico falacioso onde o agressor justifica a violência pelo choque de descobrir a identidade de gênero da vítima – ainda reverbera em delegacias e tribunais, mascarando crimes de ódio sob o manto da legítima defesa ou da forte emoção, como tentou fazer o assassino de Riana Alves.
Conclusão: A Necessidade de Políticas Públicas e Justiça Efetiva
Os assassinatos por asfixia mecânica de Riana Alves e Wendely Gabriele não podem ser arquivados apenas como mais duas estatísticas no macabro banco de dados da violência brasileira. Eles exigem do Estado uma resposta que ultrapasse a mera constatação do óbito. É imperativo que o sistema de justiça criminal, desde os delegados plantonistas até os promotores e juízes, atue com o rigor necessário, afastando brechas legais que permitam a fuga de assassinos confessos. Paralelamente, faz-se urgente a formulação de políticas públicas que garantam a segurança física, o amparo social e a inserção no mercado formal de trabalho para a população trans, reduzindo a dependência quase exclusiva da prostituição como meio de sobrevivência. Enquanto os culpados não forem exemplarmente punidos e a sociedade não confrontar sua própria transfobia, os porta-malas e as residências fechadas continuarão sendo cenários de execuções silenciosas, perpetuando o ciclo de violência contra aquelas que ousam existir à margem.
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