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Duas Irmãs Sumiram Em Fernando De Noronha — 2 Anos Depois Um Drone Filmou Uma Fogueira Acesa Na Ilha 

Duas Irmãs Sumiram Em Fernando De Noronha — 2 Anos Depois Um Drone Filmou Uma Fogueira Acesa Na Ilha

 

No dia 14 de novembro de 2019, às 6:42 da manhã, Renata Bastos Cavalcante enviou uma fotografia pelo WhatsApp para a mãe. Era uma selfie com a irmã mais nova, Débora, as duas de costas para o mar, com o monte dois irmãos ao fundo. A legenda dizia: “Primeiro mergulho do dia, mãe”.

A mãe respondeu com um áudio de 11 segundos, desejando bom passeio e pedindo-lhe que colocasse protetor solar. A Renata ouviu o áudio. Os dois tiques ficaram azuis às 6:44. Nenhuma das duas voltou a responder qualquer mensagem. O barco que tinham alugado para o passeio foi encontrado dois dias depois, encalhado numa faixa de areia na praia do Leão, com os coletes salvavidas dobrados no banco de trás, uma mochila com dois telemóveis descarregados, protetor solar, uma garrafa de água até metade e os documentos das duas dentro de um saco plástico transparente.

O motor estava desligado. O tanque ainda tinha combustível. Não havia sinal de avaria, não havia sinal de luta, não havia sinal de nada. Esta é a história de duas irmãs, uma de 29 anos, outra de 23, que desapareceram numa quinta-feira de novembro no arquipélago de Fernando de Noronha, a 545 km da costa do Recife, num troço de mar que conheciam desde a infância.

Não eram turistas de primeira viagem. O pai tinha uma pousada na aldeia dos remédios havia 15 anos. Elas cresceram a nadar naquelas águas. Sabiam onde a corrente puxava, onde o fundo de pedra cortava, onde o mar ficava manso e onde não se devia entrar nem em dia de acalmia. Nada no seu perfil sugeria imprudência.

Nada no seu historial apontava para fuga. Nada nas conversas dos dias anteriores indicava qualquer coisa fora do comum. A A Polícia Civil de Pernambuco abriu inquérito no terceiro dia. O Corpo de Bombeiros fizeram buscas por mar e por terra durante 11 dias. A Marinha mobilizou uma lancha de patrulha costeira.

Mergulhadores vasculharam as enceadas do lado de fora da ilha principal. Os pescadores locais saíram voluntariamente com os seus barcos. Nada foi encontrado. Nenhum corpo, nenhum vestígio, nenhuma peça de roupa, nenhuma sandália a boiar. O mar de Noronha não devolveu nada. O caso foi arquivado provisoriamente em fevereiro de 2020.

A pandemia engoliu as notícias. A família ficou sozinha com as perguntas. Dois anos e quatro meses depois, em março de 2022, e um operador de câmara amador que operava um drone sobre as ilhas secundárias do arquipélago, as que ficam fora do circuito turístico e onde o acesso é proibido sem autorização do ICM bio, captou uma imagem que reabriu tudo.

Numa faixa de vegetação rasteira, na ilha Rata, a pouco mais de 1 km da ilha principal, havia uma fogueira acesa e junto da fogueira, o que parecia ser uma estrutura improvisada feita com ramos e lona. Fernando de Noronha é um arquipélago de 21 ilhas e ilhéus no meio do Atlântico. A ilha principal tem pouco mais de 17 km². As ilhas secundárias são mais pequenas, desabitadas e, na sua maioria, de acesso restrito por questões ambientais.

 

 

 

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Não há moradores, não há abrigos, não há água potável. São pedaços de rocha vulcânica cobertos por vegetação de restinga na rodeados por um mar que muda de humor sem aviso. Em novembro de 2019, a época de chuvas estava a começar. O vento nordeste soprava constante. A a visibilidade no mar era boa de manhã e fechava a meio da tarde.

A Renata era licenciada em biologia marinha pela UFPE. A Débora estava no quinto período de fisioterapia na mesma universidade. As duas viviam juntas num apartamento no bairro da Madalena, no Recife. Tinham ido ao Noronha passar 10 dias com o pai, como faziam todos os novembros desde que os pais separaram-se.

Era uma tradição, uma rotina, o tipo de viagem que ninguém cancela e ninguém questiona. O pai Sebastião Bastos Cavalcante esteve esperando as filhas para almoçar quando apercebeu-se que nenhuma das duas atendia o telefone. Ligou sete vezes, mandou mensagens, ligou para o rapaz que alugava os barcos na praia do porto. O rapaz disse que tinham saído cedo, antes das 7, e que deviam estar na Baía do Sancho.

Sebastião esperou até às 3 da tarde, depois desceu até ao porto, depois foi à esquadra. Se este tipo de história o faz parar e pensar no que pode acontecer num local que acreditamos conhecer, subscreva o canal e deixe a sua opinião nos comentários. A partir daqui, a história avança lentamente, cada detalhe importa.

E o que aconteceu naqueles dois anos entre o desaparecimento e a imagem do drone precisa de ser contado com o cuidado que merece. O que acontece quando duas pessoas desaparecem num dos locais mais vigiados e mais bonitos do O Brasil e o mar não devolve qualquer resposta? Até onde um pai é capaz de ir quando o sistema diz que já não há o que fazer? E o que significa uma fogueira acesa numa ilha onde ninguém deveria estar? Nós estamos em Fernando de Noronha, em novembro de 2019.

A água está a 28º. O céu está limpo, o vento é constante e duas irmãs acabam de sair do porto num barco em alumínio com motor fora de bordo rumo a um passeio que faziam desde crianças. A Renata acordou antes das 5. Era costume. Desde os tempos de pesquisa de campo no litoral sul de Pernambuco, quando saía de madrugada para recolher amostras antes que o sol aquecesse, o corpo dela funcionava assim.

acordava com o escuro, tomava café sem falar muito e só começava a ser gente depois de molhar o rosto com água do mar. Tinha essa expressão que o pai repetia com orgulho sempre que contava aos hóspedes da pousada. A Renata é um bicho de água. Nasceu no seco, mas pertence ao mar. Ela não gostava quando ele dizia isso à frente dos outros.

sorria sem graça, mudava de assunto, mas era verdade. A relação dela com o oceano não era de lazer, era de estudo, de intimidade, de uma familiaridade construída ao longo de anos, mergulhando nos Recifes, catalogando espécies, medindo a temperatura e a salinidade em pontos que a maioria dos banhistas nem sabia que existiam.

Aos 29 anos, já tinha participado em três projetos de conservação marinha na costa nordeste e publicado dois artigos sobre branqueamento de corais no litoral de Pernambuco. Conhecia o mar de Noronha como conhecia o caminho para casa. Débora era o oposto em quase tudo. Dormia até ao último minuto possível. levantava queixando-se do calor, do horário, do café que nunca estava pronto e só se animava quando já estava dentro do barco, com o vento a bater na cara e o salpico de água salgada nos braços. Tinha 23 anos.

Estava no quinto período de fisioterapia na UFPI e não tinha a mesma vocação marítima do irmã. Gostava do mar como quem gosta de uma piscina grande para nadar, para boiar, para se esquecer das coisas. Mas seguia a Renata para todo o lado desde pequena. Era assim entre as duas. Renata abria caminho.

A Débora ia atrás, não por submissão, por confiança. Confiava na irmã mais velha, como se confiasse numa bússola que nunca tinha errado. Naquela manhã de 14 de novembro, as duas seguiram o guião de sempre. Saíram da pousada do Pai antes das 6:30. Caminharam pela estrada de terra batida que desce até ao porto, carregando a mochila e os coletes, e encontraram o barco já na água.

amarrado ao trapiche de madeira que os pescadores usavam desde antes de a ilha se tornar um destino turístico. O rapaz que alugava os barcos, um habitante local chamado Cícero e que toda a gente na aldeia conhecia pelo apelido de Índio, ajudou a soltar a amarra e empurrou a proa. disse que o mar estava bonito, que a maré ia virar por volta das 10 e que era bom voltar antes da uma, porque à tarde o vento mudava.

Renata acenou sem olhar para trás. A Débora mandou um beijo com a mão. Índio ficou no trapiche a ver o barco se afastar. Aquela foi a última vez que alguém viu as duas irmãs Bastos Cavalcante. O barco desapareceu atrás do promontório que separa o porto da Baía do Sancho. O motor fazia um ruído fino, constante, que foi diminuindo até desaparecer.

Índio voltou para o barracão onde guardava os equipamentos. Acendeu um cigarro e começou a lavar os coletes que tinham voltado na tarde anterior. Não pensou mais no assunto. Eram clientes que conheciam a ilha. Não precisavam de guia. Não precisavam de mapa e não precisavam de nada. Amanhã seguiu como qualquer manhã de novembro em Fernando de Noronha.

O sol subiu rápido, o ar ficou húmido. Os primeiros grupos de turistas começaram a descer dos insetos na estrada principal. Os golfinhos apareceram na baía dos golfinhos por volta das 7:30, como faziam quase todos os dias. O mar continuou azul, transparente, com aquele tom de esmeralda que aparece nas fotos e que na vida real é ainda mais intenso.

Um dia como outro qualquer, um dia que não dava sinal nenhum do que estava para vir. A Renata tinha planeado um roteiro simples. Sair do porto, contornar à ponta norte da ilha, parar na Baía do Sancho para um mergulho livre, seguir até à praia do Boldró para ver uma formação coral que ela queria fotografar e voltar pelo mesmo caminho antes do meio-dia.

Era um percurso que já o tinha feito dezenas de vezes. Levava o caderninho de notas, a câmara subaquática que o pai tinha dado de aniversário e um saco estanque com os telemóveis e os documentos. A Débora levava protetor solar, água e a disposição de sempre para seguir a irmã sem fazer perguntas. Ninguém sabe em que ponto do percurso alguma coisa mudou.

Ninguém sabe se houve um desvio de percurso, uma decisão espontânea, um imprevisto mecânico, uma alteração de corrente. O mar de Noronha é previsível à superfície e traiçoeiro por baixo. As correntes que passam pelo arquipélago provém do largo do Atlântico e mudam de direção e intensidade, conforme a maré, o vento e a temperatura da água.

Um pequeno barco com motor fora de bordo pode ser empurrado para longe da costa em questão de minutos se o piloto não se aperceber que o corrente virou. Mas Renata percebia, era treinada para tal. Sabia ler o mar como quem lê um mapa. O pai dizia que ela sentia a mudança de corrente antes de o barco sentir.

E, mesmo assim, naquela manhã, aconteceu algo que nenhum conhecimento técnico conseguiu evitar. Sebastião Bastos Cavalcante tinha 61 anos e geria a pousada de seis quartos na aldeia dos remédios havia 15 anos. Era um homem calado, de mãos grandes e pele queimada pelo sol do Nordeste, que pouco falava com os hóspedes e muito com os funcionários.

Tinha-se mudado para a Noronha depois da separação em 2004, quando as meninas ainda eram pequenas. A Renata tinha 14, a Débora tinha oito. A ex-mulher Marlene ficou no Recife com as filhas. Ficou na ilha com a solidão, três funcionários de confiança. Noite uma rotina de pequeno-almoço às 7 e um silêncio que aprendeu a suportar com o tempo, com o trabalho e com a certeza de que as filhas viriam todos os novembros.

Era o mês dele, o único mês do ano em que o pousada deixava de ser apenas um negócio e voltava a ser uma casa. Ele trocava os lençóis do quarto das meninas, comprava frutas frescas no barco de abastecimento que chegava do Recife, fazia sumo de caju natural e fritava a tapioca toda a manhã.

Não era um cozinheiro hábil, era um pai a tentar recuperar em 10 dias por ano o que a distância tinha levado durante os outros 355. Naquele dia 14 de novembro, Sebastião pôs a mesa para três, como fazia todos os dias, desde que as filhas tinham chegado, cinco dias antes. Arrumou os pratos, os copos, nos os guardanapos de pano que Marlene tinha um mandado de presente anos atrás e que nunca tinha usado com os hóspedes.

ligou o rádio na estação local que tocava forró das 7 às 9 e depois passava para as notícias. Sentou-se na cadeira da ponta e esperou. Às 11:30 olhou para o relógio redondo de parede que ficava acima do lava-loiça da cozinha. Um relógio antigo, com ponteiros dourados e números romanos, que ali estava desde que ele tinha comprado a casa.

Ao meio-dia, olhou de novo. À 1 da tarde, começou a ligar. A primeira chamada caiu diretamente na caixa de correio de Renata. A segunda, a mesma coisa. A terceira foi para a Débora, caixa postal. A quarta para Renata de Nova, apartado. Sebastião não era um homem que se assustava facilmente. tinha vivido 15 anos numa ilha onde as coisas aconteciam devagar e onde os problemas se resolviam com paciência e onde a pressa era um defeito de quem vinha do continente.

Mas às 2as da tarde, com sete chamadas sem resposta e o almoço arrefecendo na mesa, sentiu pela primeira vez aquele aperto no peito, que não era fome nem cansaço, era medo. O tipo de medo que chega sem avisar e que se instala no corpo como uma coisa física. Um peso entre as costelas que não sai com respiração funda, nem com copo d’água. Desceu até ao porto às 2:30.

Encontrou o índio sentado no barracão reparar uma rede. Perguntou se as meninas tinham voltado. Índio disse que não, que o barco não tinha voltado, mas que era normal. Às vezes o pessoal ficava até mais tarde na baía do Sancho, perdia a hora, regressava com o sol já baixo. Sebastião ouviu, agradeceu e não ficou tranquilo.

Voltou para a pousada, e pegou no telefone fixo e ligou para o administração do distrito. Disseram que não tinham registo de ocorrência. Ligou para o destacamento do Corpo de Bombeiros. Disseram que só podiam abrir busca formal se houvesse indício betão de emergência ou se passassem 24 horas sem contacto.

Sebastião desligou o telefone e ficou parado na varanda, olhando para o mar até escurecer. As meninas não voltaram nessa noite. Na manhã do dia 15, Sebastião regressou ao porto antes das 6. O barco não estava. O Índio também já lá estava. com a mesma cara de preocupação que Sebastião tentava esconder. Juntos saíram num segundo barco e fizeram o percurso que A Renata costumava seguir.

Porto, Ponta Norte, Baahía do Sancho, Bourró, volta pela costa ocidental. Não encontraram nada, nenhum barco, nenhuma pessoa na água, nenhum sinal de qualquer coisa. O mar estava calmo, quase indiferente, como se nada tivesse acontecido. Regressaram ao porto ao meio-dia. Sebastião foi à esquadra da Noronha, uma pequena sala na aldeia dos medicamentos, com dois polícias civis e um escrivão, e registou o boletim de ocorrência.

O agente anotou os dados das duas irmãs, as características do barco, o horário de saída, o itinerário previsto. Perguntou se havia histórico de consumo de drogas, problemas psiquiátricos, dívidas, conflitos familiares. Sebastião respondeu que não a tudo. O agente anotou sem pressa e pediu que a família aguardasse o prazo regulamentar antes de qualquer providência adicional.

Sebastião saiu da esquadra com a sensação de que tinha acabado de preencher um formulário para um serviço que ninguém ia prestar. O Corpo de Os Bombeiros de Fernando de Noronha têm efetivo reduzido em novembro de 2019 e a equipa contava com sete militares na ilha, apoiados por um destacamento da Marinha do Brasil, que mantinha uma lancha de patrulha costeira e dois botes insufláveis ​​no porto.

A procura formal iniciou-se na manhã do dia 16, quase 48 horas depois do desaparecimento, quando o barco das irmãs foi localizado, encalhado numa faixa de areia na praia do leão, no lado sudeste da ilha, o lado oposto ao porto de saída e fora do guião habitual de Renata. A posição do barco não fazia sentido. A baía do Sancho fica a noroeste, a praia do Leão fica a Sudeste.

Para ali chegar, partindo do porto, o barco teria de contornar quase toda a ilha pela costa sul, passando por troços de mar aberto, onde a corrente é forte e imprevisível, ou teria de ser levado pela corrente após uma avaria no motor ou o abandono da embarcação. Mas o motor funcionava, nem o depósito tinha combustível. Não havia qualquer avaria visível no casco, nem no leme.

O barco parecia ter chegado ali sozinho, empurrado por algo que não deixou o rasto. Os bombeiros organizaram as buscas em três frentes: por mar, por terra e por mergulho. A frente marítima cobriu o perímetro da ilha principal e parte das ilhas secundárias nos primeiros quatro dias. Utilizando a lancha da marinha e os botes insufláveis.

A frente terrestre percorreu as praias mais isoladas da costa sul e leste, incluindo troços de difícil acesso entre rochas, onde era possível que alguém ferido se tivesse abrigado. A frente de mergulho operou nas enceadas submersas junto à praia do leão, procurando vestígios no fundo, roupa, equipamentos, tudo o que a água tivesse levado para baixo.

11 dias de pesquisa não produziram um único resultado. Nenhum corpo e nenhum tecido, nenhuma sandálias, nenhuma pulseira, nenhum fragmento de nada. O mar de Noronha que devolve o lixo das correntes atlânticas nas praias do lado de fora com uma regularidade quase mecânica, não devolveu qualquer vestígio das duas irmãs.

Os mergulhadores relataram visibilidade excepcional nos dias de busca, mais de 30 m em alguns pontos e ausência total de objetos estranhos ao fundo marinho nas áreas vasculhadas. Os pescadores locais que saíram voluntariamente com os seus barcos durante a primeira semana voltaram todos com o mesmo relato. Nada. Não viram nada, não não encontraram nada.

O tenente responsável pela operação de busca registou no relatório final uma observação que ficou gravada na memória de Sebastião. Em 17 anos de serviço, incluindo buscas em mar aberto, no litoral de Pernambuco e no arquipélago, e nunca conduzi uma operação em que o oceano não devolvesse absolutamente nada. Aência total de vestígios é em si um dado atípico.

Ninguém soube o que fazer com esta frase. A mochila encontrada no barco foi catalogada e fotografada pela polícia civil antes de ser entregue à família. Cada objeto foi descrito no auto de apreensão, com a precisão burocrática que o procedimento exige e com a frieza que a dor não permite.

No interior havia dois telemóveis, um iPhone 8 branco de Renata e um Samsung Galaxy A20 com capa azul de Débora, ambos completamente sem bateria. Havia uma necesserre de tecido impermeável com protetor solar fator 50, dois elásticos de cabelo pretos, um batom cor de boca da marca Natura e um pacote pequeno de toalhitas. Havia uma garrafa de plástico com água pela metade.

É um saco estanque transparente com os documentos de identidade das R$40 em notas de 10 e de cinco. Havia dois coletes salvavidas alaranjados dobrados com cuidado no banco de trás, como se tivessem sido guardados por alguém que não pretendia usá-los mais naquele dia. E havia o caderninho. Era um pequeno caderno de capa preta. com espiral do tipo que se compra em papelaria de bairro por menos de 10€.

A Renata usava cadernos assim desde a graduação. Levava um para cada saída de campo e anotava tudo: temperatura da água, visibilidade, espécies avistadas, horários das marés, direção da corrente, condições do vento. Era metódica. Cada página tinha data, hora e localização no canto superior direito.

Os desenhos eram simples, mas precisos. Contornos de corais, silhuetas de peixes, setas indicando o fluxo de corrente. Um professor da UFPI, que viu os cadernos dela uma vez, disse que eram melhores que muitos relatórios técnicos que recebia dos profissionais formados. O caderninho encontrado no barco tinha 23 páginas escritas.

As primeiras, 18 cobriam os dias anteriores da viagem. Mergulhos na Baía do Sancho, observações de tartarugas na praia do Boldró, medições de temperatura em três pontos diferentes da costa norte. Tudo normal, tudo dentro do padrão que Renata seguia há anos. Na penúltima página usado, datado de 13 de novembro, um dia antes do desaparecimento, as anotações mudavam de tom.

Não havia dados técnicos, não havia desenhos, havia apenas três linhas escritas com a mesma letra miudinha e inclinada de sempre, mas sem a organização habitual. As linhas diziam: “Corrente sul aumentou, canal entre a rata e a principal está limpo. A corrente leva para fora, mas quem conhece volta pelo canal”. A última frase não parecia uma anotação de campo, parecia uma instrução ou um lembrete ou uma decisão que já tinha sido tomada antes de ser escrita.

A polícia civil juntou o caderninho ao inquérito. Nenhum perito foi designado para analisar o conteúdo em detalhe. Nenhum oceanógrafo foi consultado sobre o significado técnico das anotações. O caderninho entrou no processo como mais um objeto pessoal encontrado na embarcação e saiu do processo da mesma forma, sem peso, sem destaque, sem consequência investigativa.

Sebastião pediu para ficar com o caderninho depois de o inquérito ter sido arquivado. A polícia civil devolveu juntamente com os outros objetos. Guardou-o numa gaveta do quarto, por baixo das t-shirts que não usava mais. Por vezes abria e relia a última página. Ele não compreendia completamente o que Renata queria dizer, mas sentia que aquela frase era importante, que aquela frase continha alguma coisa que ninguém tinha parado para ouvir.

Em fevereiro de 2020, o inquérito foi arquivado provisoriamente pela Delegação de Polícia Civil em Fernando de Noronha, administrativamente vinculada à primeira delegacia seccional de Recife. O relatório final tinha 17 páginas. A conclusão ocupava menos de uma. Na ausência de corpos, vestígios materiais, indiciadores de crime, testemunhas diretas do evento ou qualquer elemento que permitisse avançar a investigação, a hipótese mais provável era afogamento acidental com corpos levados pelas correntes oceânicas para alto mar. A palavra provável aparecia

três vezes no documento. A palavra conclusiva, nenhuma. A vossa família foi notificada por ofício enviado pelo correio, o mesmo correio que demorava dias para chegar a Fernando de Noronha e semanas para chegar ao endereço de Marlene no Recife. Sebastião recebeu primeiro, leu o documento sentado na varanda da pousada, numa cadeira de plástico branca desbotada pelo sol, de frente para o mesmo mar, onde as filhas tinham desaparecido três meses antes.

Leu devagar, releu as folhas e guardou-as no bolso da camisa. Depois entrou na cozinha, serviu um copo de água que não bebeu e ligou para o ex-mulher. A chamada durou 8 minutos. Os dois mantiveram-se em silêncio durante quase o primeiro minuto completo antes de alguém conseguir falar. A Marlene perguntou se era definitivo.

Sebastião disse que não, que era provisório, que podia ser reaberto se surgissem factos novos. E Marlene perguntou que factos novos poderiam surgir no meio do oceano. Sebastião não respondeu: “O arquivamento de um processo de desaparecimento no Brasil não significa que o caso foi resolvido. Significa que o Estado decidiu que com os recursos disponíveis e as evidências existentes não há mais nada a investigar no momento.

É uma suspensão, não um encerramento. Mas, para uma família, a diferença entre suspensão e encerramento é quase nenhuma. O efeito prático é o mesmo. Já ninguém procura, já ninguém liga, já ninguém atualiza. O caso entra numa pilha de processos inativos e fica ali à espera de algo que quase nunca chega.

Para Sebastião, o O arquivamento significou uma coisa específica, que a partir desse dia ele estava sozinho, que o corpo de bombeiros não voltaria a mergulhar, que a Marinha não mandaria mais lanchas, que o delegado não ligaria com novidades, que os pescadores regressariam às suas rotinas, que a ilha voltaria a funcionar como sempre funcionou, recebendo turistas, servindo peixe fresco, vendendo passeios de barco, enquanto as suas filhas continuavam desaparecidas há menos de 1 km da costa.

A pousada continuou funcionando. Os hóspedes continuaram chegando. Sebastião continuou a fazer pequeno-almoço, trocando lençóis, sorrindo quando era necessário. Mas algo tinha mudado na estrutura daquele homem. Os funcionários perceberam, os vizinhos perceberam. O sorriso era o mesmo de antes, mas os olhos já não acompanhavam.

Ele passou a dormir cada vez menos. Passou a sair de madrugada com o barco de índio e ficar horas parado no mar, a olhar para as ilhas secundárias, sem pescar, sem mergulhar, sem fazer mais nada além de olhar. Não uma vizinha que ajudava na limpeza da pousada disse meses depois que Sebastião tinha deixado de almoçar, que a mesa da cozinha, que antes era posta para três, passou a não ser posta a ninguém.

Enquanto Sebastião se afundava num silêncio que toda a ilha respeitava sem compreender completamente, Marlene da Silva Bastos fazia o contrário no Recife. Não parou. Não se permitiu parar. Marlene tinha 57 anos. Trabalhava como assistente administrativa no hospital das clínicas da UFP e há 22 anos e nunca tinha faltado um único dia.

Era o tipo de funcionária que chega antes de todo o mundo, prepara o café da copa antes que os médicos desçam para o turno e conhece de cor o ramal de cada sector. Depois do arquivamento, começou a faltar. Não por doença, não por esgotamento, por decisão. Usou as férias acumuladas de 2 anos e utilizou as folgas por tempo de serviço.

Usou os atestados que um médico amigo da família fornecia sem perguntar muito. Cada dia livre era um dia dedicado a uma única coisa, encontrar as filhas. Nos primeiros meses, Marlene fez o que o sistema não fez. regressou a Fernando de Noronha quatro vezes entre março e agosto de 2020, em plena pandemia, quando os voos para a ilha estavam suspensos e o acesso era restrito a residentes e profissionais autorizados.

conseguiu entrar duas vezes com autorização especial da administração do distrito, alegando vínculo familiar com um residente. Nas outras duas, viajou até Recife e daí apanhou boleia num barco de abastecimento que fazia o percurso duas vezes por semana. 21 horas de mar aberto, a dormir num beliche improvisado na cave, para chegar a uma ilha onde mais ninguém procurava as filhas dela.

Em cada visita, Marlene seguia um método que tinha desenvolvido sozinha. Levava uma pasta de plástico azul com fotos das duas filhas, impressas em papel fotográfico, em tamanho grande, para que qualquer pessoa pudesse ver os rostos com clareza. Levava cópias do auto de notícia, levava um mapa plastificado da ilha, dos que se vendem nos quiosques turísticos, onde ia marcando com caneta vermelha cada ponto que já tinha visitado, cada pessoa com quem já tinha conversado, cada troço de costa que já tinha percorrido a pé.

Conversou com pescadores que operavam na costa sul da ilha e que raramente tinham contacto com turistas. Ele conversou com Os mergulhadores profissionais que trabalhavam com operadores turísticos e que conheciam o fundo do mar em redor do arquipélago melhor do que qualquer mapa batimétrico. Conversou com moradores antigos, pessoas que vivia em Noronha desde antes da abertura ao turismo, pessoas que conhecia cada rocha.

cada corrente, cada variação de maré. Perguntava sempre a mesma coisa. Vocês viram alguma coisa naqueles dias? Qualquer coisa. Um pedaço de tecido na água, uma sandália na areia, um barulho de noite, qualquer coisa. A resposta era sempre a mesma. Não. Ninguém viu nada. Ninguém ouviu nada. O mar de Noronha engoliu as duas meninas e não deixou rasto.

Mas Marlene percebeu uma coisa nas conversas que os investigadores não tinham percebido ou não tinham dado importância. Três pescadores. E em momentos diferentes e sem saber que os outros tinham dito a mesma coisa, referiram que nos dias em redor do desaparecimento, entre 13 e 16 de Novembro, tinham visto luzes à noite na direção das ilhas secundárias.

Nem luzes de barco, nem luzes de farol, luzes paradas, fracas, como se fossem fogueiras ou lanternas, em pontos onde não deveria haver ninguém. Dois disseram que era na direcção da ilha Rata, o terceiro não soube precisar. Marlene anotou tudo, marcou no mapa. Quando regressou ao Recife, procurou a delegacia seccional e pediu para falar com o delegado responsável pelo caso.

Foi atendido por um escrivão substituto que ouviu o relato, anotou num papel avulso e disse que iria encaminhar para a análise Marlene nunca recebeu resposta. Tá passou a utilizar os fins de semana no Recife para pesquisar na internet tudo o que conseguia encontrar sobre correntes oceânicas no arquipélago, sobre as ilhas secundárias, sobre casos de pessoas desaparecidas em ilhas.

Comprou livros de oceanografia na livraria Cultura do Shopping Recife. imprimiu artigos académicos que não compreendia completamente, mas que lia com a disciplina de quem estuda para uma prova da qual depende a vida. montou uma pasta separada, uma pasta vermelha, diferente da azul, onde guardava tudo o que encontrava sobre a ilha da Rata, mapas, fotos de satélite, relatórios ambientais do ICM bio, registos de acesso.

A ilha Rata aparecia em quase todos os relatos dos pescadores. Era o ponto para onde as correntes da costa sul empurravam qualquer coisa que caísse na água. Era o local onde se acumulava o lixo oceânico. Era o local que ninguém visitava e que ninguém vigiava. Marlene sabia que as filhas podiam ter morrido no mar.

Sabia que a hipótese de afogamento era tecnicamente possível, mas não aceitava a ausência total de vestígios. Não aceitava que dois corpos, duas mochilas de roupa que ficaram na pousada, dois pares de sandálias havaianas e toda a materialidade de duas vidas pudessem simplesmente evaporar sem deixar absolutamente nada.

O mar devolve, ela dizia, devolve sempre, nem que seja um pedaço, nem que demore, o mar devolve, a não ser que as filhas dela não estivessem no mar. Thago Mendes Ribeiro tinha 35 anos, Barbarala, uma tatuagem de tartaruga marinha no antebraço esquerdo e o tipo de bronzeado permanente de quem trabalha ao ar livre o ano inteiro.

Era natural de Parnamirim, na região metropolitana de Natal. Nui trabalhava como produtor de conteúdo audiovisual para um operador de turismo ecológico com sede na capital potiguar. Filmava praias, trilhos, fauna, paisagens, tudo com drone, tudo em 4K, tudo para alimentar canais de YouTube, perfis de Instagram e materiais promocionais que vendiam o Nordeste brasileiro para os turistas estrangeiros.

Em março de 2022, Thago estava em Fernando de Noronha em trabalho. A operadora tinha fechado o contrato com uma produtora europeia que estava montando um documentário sobre a vida marinha do Atlântico Sul e necessitava de imagens aéreas das ilhas secundárias do arquipélago, as que ficam fora do circuito turístico e que a maioria dos visitantes só vê de longe, do miradouro do forte dos medicamentos.

ou da janela do avião na altura da aterragem. Para filmar sobre estas ilhas, era necessário ter autorização do ICM Bio e o Thiago tinha. A operadora tinha solicitado um císbio, o sistema de autorização e informação em biodiversidade, que permitia sobreos com drone a uma altitude mínima de 50 m, sem aterragem, sem aproximação de fauna e sem interferência no ambiente.

No terceiro dia de filmagens, Thago voou o drone sobre a Ilha da Rata. Era uma manhã de terça-feira sem vento, com o céu limpo e a luz ideal para imagens aéreas. Aquela luz de meio da manhã no Nordeste que é forte sem serdura, que ilumina tudo por igual e que faz com que a água pareça vidro líquido.

O drone subiu do barco ancorado a 300 m da ilha, passou a 80 m de altitude e fez um percurso de varrimento em linhas paralelas, cobrindo toda a superfície da Ilha da Rata em aproximadamente 20 minutos. Tiago acompanhou a transmissão em direto no monitor do comando à distância e mas não prestou atenção a pormenores. Estava focado no enquadramento, na estabilidade da imagem e na duração da bateria.

A ilha rata vista de cima era um rectângulo irregular de vegetação rasteira, rodeado por rochas escuras e espuma branca. Não não havia nada de especial. Não havia nada que chamasse a atenção numa ecrã de cinco polegadas sob o sol do meio-dia. Foi só à noite, no quarto da pousada, onde estava hospedado, na aldeia dos medicamentos, que Thago se sentou no portátil para rever o material bruto.

Passou os clipes a uma velocidade acelerada, marcando os excertos que poderiam servir para o documentário. O minuto 12 do sobrevoo sobre a ilha Rata parou, voltou para trás, fez uma pausa, ampliou. Na orla oriental da ilha, numa clareira entre a vegetação rasteira e as rochas que davam para o mar, havia uma coluna fina de fumo a subir de um ponto no chão.

E não era vapor, não era névoa, era fumo. A cor era acinzentada, o movimento era vertical, a origem era um ponto definido no solo. E ao lado deste ponto, parcialmente coberto pela vegetação, havia algo que parecia ser uma estrutura. Os ramos organizados em forma de tenda, cobertos por um material escuro que podia ser lona, ​​tecido ou plástico.

Thago ampliou ao máximo que a resolução da câmara permitia. A imagem ficou granulada, mas o fumo continuava visível, a estrutura continuava visível. Não era possível identificar presença humana, nenhuma figura, nenhum movimento, nenhuma sombra que pudesse ser uma pessoa. Mas o fumo estava ali e a estrutura estava ali. E a ilha Rata era uma ilha desabitada, de acesso restrito, onde não deveria haver ninguém.

Thaago ficou a olhar para a ecrã durante vários minutos antes de decidir o que fazer e pensou em ligar para o ICM bio. Pensou em voltar com o drone no dia seguinte para filmar mais de perto. Pensou em não fazer nada. No fim, fez o que a maioria das pessoas da geração dele faz quando encontra algo que não consegue explicar. publicou o vídeo na internet, publicou o clip de dois minutos numa rede social no dia seguinte com uma legenda simples e sem alarde, filmando as ilhas secundárias de Noronha para um documentário, captei isso na ilha Rata. Alguém sabe explicar?

Em 48 horas, o vídeo tinha sido visto por 200.000 pessoas. Os comentários se dividiam entre explicações racionais. pescadores clandestinos, investigadores acampados, fogo espontâneo provocado pelo sol em material orgânico seco e especulações que iam muito para além do razoável. Mas entre os milhares de comentários, um chamou a atenção de Thago, que era de um perfil sem foto, com nome de mulher, e dizia apenas: “As minhas filhas desapareceram em Noronha em novembro de 2019.

Nunca foram encontradas. Preciso de falar contigo. Em 72 horas, a família Bastos Cavalcante ligou para Thiago Mendes Ribeiro. A imagem do drone mostrava com nitidez suficiente para gerar dúvida e insuficiente para gerar certeza. algo que não deveria estar ali, uma coluna de fumo, uma estrutura de ramos numa ilha onde ninguém vivia, ninguém acampava, ninguém tinha motivos para estar.

A internet fez o que a internet faz. transformou dois minutos de vídeo granulado numa história com dezenas de versões, centenas de teorias e milhares de pessoas a opinar sobre algo que ninguém tinha visto de perto. Houve quem dissesse que o fumo era de origem vulcânica, o que não fazia sentido geológico para o arquipélago. Houve quem dissesse que a estrutura era um ninho de fragata, uma ave marinha de grande porte que utiliza ramos para construir ninhos enormes em ilhas desabitadas.

Houve quem dissesse que tudo não passava de um artefacto de imagem, uma sombra interpretada de forma errada por olhos que queriam ver o que não existia. E houve quem se lembrasse do caso das irmãs Bastos Cavalcante. Os sites de notícias do Recife foram os primeiros a fazer a ligação. Um portal local publicou o artigo com o título: Família de irmãs desaparecidas em Noronha pede investigação após drone filmar fogueira em ilha deserta.

A matéria tornou-se viral em poucas horas. Os portais nacionais reproduziram. O caso, que tinha desaparecido do noticiário juntamente com as duas irmãs, voltou à superfície. A Marlene viu o vídeo no telemóvel, lhe sentada na Taça do Hospital das Clínicas durante o intervalo do almoço.

Assistiu três vezes sem dizer nada. Depois ligou ao Sebastião. Sebastião já tinha visto. Um hóspede da pousada lhe tinha mostrado no café da manhã. Os dois ficaram em silêncio no telefone durante alguns segundos. Um silêncio que já era familiar, que já era linguagem. Antes de Marlene dizer: “Eu disse que o mar devolve, Sebastião”. Eu disse: “Mas o vídeo não provava nada.

Não provava que alguém estava vivo naquela ilha. Não provava que as irmãs tinham chegado lá. Não provava que a fogueira tinha qualquer relação com o desaparecimento de 2019. Provava apenas que em algum momento de março de 2022 algo ardeu na Ilha da Rata e algo foi construído com ramos. O resto era interpretação, o resto era desejo, o resto era dor, à procura de um endereço.

Sebastião sabia disso. Mas a razão de um pai que perdeu duas filhas não funciona com as mesmas regras da razão técnica. Não funciona com probabilidades, nem com cautela. Funciona com o que o corpo manda, com o que o peito diz, com aquela voz interna que repete a mesma frase de dia e de noite. E se elas lá estiverem? E se estiverem à espera? E se o tempo que perdi pensar for o tempo que fez diferença? Por isso, Sebastião fez o que qualquer pai faria naquela situação e o que nenhum protocolo, nenhuma lei e nenhum organismo ambiental recomendava.

decidiu ir até à ilha Rata por conta própria. A primeira tentativa foi no dia seguinte à viralização do vídeo. Sebastião desceu ao porto às 5 horas da manhã, antes do amanhecer, e procurou um barqueiro que aceitasse levá-lo até às ilhas secundárias. Dois recusaram, o terceiro aceitou e mais só até meio do caminho.

Quando estavam a menos de 500 m da Ilha da Rata, um bote do ICM Bio intercetou o embarcação. O agente ambiental explicou que a área era de acesso restrito, que qualquer desembarque não autorizado era uma infração ambiental passível de coima e processo e que o barco deveria regressar imediatamente ao porto.

Sebastião tentou explicar. O agente ouviu, mostrou compreensão, mas manteve a posição. A lei era clara, o acesso era proibido. Não havia exceção. Sebastião voltou ao porto com a mandíbula bloqueada e os olhos secos. não disse nada a ninguém durante o resto do dia. Na manhã seguinte, antes das 4, saiu novamente. Desta vez não procurou um barqueiro qualquer. Procurou índio. Índio, Cícero.

O mesmo que tinha ajudado as meninas a largar o barco naquela manhã de novembro de 2019, conhecia as correntes em redor das ilhas secundárias, como conhecia os nomes dos próprios filhos. sabia em que horário o mar permitia a aproximação, em que ponto as rochas ficavam submersas o suficiente para um barco pequeno passar por cima? Em que ângulo o vento ajudava em vez de atrapalhar.

Saiu com Sebastião de madrugada, sem autorização, sem aviso, sem colete salvavidas, num barco de alumínio com motor de nove cavalos e um depósito cheio de combustível. chegaram à ilha Rata com a primeira luz do amanhecer. O mar estava mais calmo do que nos dias anteriores, mas a aproximação era quase impossível. A ilha não tem praia, não tem ponto de desembarque.

O perímetro é feito de rochas vulcânicas irregulares, cortantes, cobertas de algas escorregadias, nos contra os quais as ondas quebravam com uma força que o motor do barco não conseguia vencer. Índio tentou três aproximações em pontos diferentes. Na terceira, uma onda lateral quase virou o barco. Os dois molharam-se até ao peito.

Índio olhou para Sebastião e disse sem julgamento, sem emoção: “Não dá, senhor Sebastião. Hoje não dá.” Sebastião olhou para a ilha durante vários minutos enquanto o barco se afastava lentamente. A vegetação rasteira cobria quase tudo. As rochas brilhavam de sal e espuma. Não havia fumo visível, não havia estrutura visível, não havia sinal de presença humana.

Mas Sebastião olhava como quem procura, não com os olhos, mas com algo que fica atrás dos olhos, algo que não aceita o que a vista mostra. regressou ao porto com o barco molhado de espuma com a roupa encharcada com as mãos vermelhas de ter segurado a borda durante a travessia e com uma certeza que ninguém lhe conseguiu tirar. Havia alguém naquela ilha ou tinha havido? E se tinha havido, precisava de saber quem.

Precisava de saber quando. Precisava de saber se as suas filhas tinham estado ali enquanto ele dormia. trabalhava e servia pequeno-almoço para estranhos a menos de A 2 km de distância. Essa última possibilidade era a que ele não conseguia dizer em voz alta, a possibilidade de que tivessem estado perto o tempo todo.

A possibilidade de que alguém pudesse ter olhado para a direção certa no momento certo e ter visto alguma coisa. A possibilidade de o mar não ter levado as suas filhas para longe, tinha levado para perto, para um lugar tão perto que se via da costa. e mais que ninguém olhava, porque ninguém achava que havia motivo para olhar.

Era essa a possibilidade que não o deixava dormir. Em abril de 2022, pressionado pela repercussão do vídeo nas redes sociais e nos portais de notícia e por um requerimento formal apresentado pelo Ministério Público de Pernambuco, provocado por uma petição da família Bastos Cavalcante, com mais de 15.000 assinaturas.

Recolhidas online em menos de duas semanas, o ICMBO autorizou uma vistoria técnica à Ilha da Rata. Não era uma operação de busca, não era uma investigação criminal, era oficialmente uma vistoria ambiental com o objetivo de verificar indícios de presença humana não autorizada em área de proteção integral.

A diferença pode parecer semântica, mas não o era. Uma operação de busca terá mobilizado bombeiros, mergulhadores, peritos e cães farejadores. No uma vistoria ambiental mobilizou quatro pessoas e um helicóptero. A equipa era composta por dois biólogos do ICM Bio, ambos colocados na base do Noronha, um agente ambiental responsável pela fiscalização das ilhas secundárias e um perito da Polícia Civil de Pernambuco que a família tinha solicitou expressamente que participasse.

Desembarcaram por helicóptero numa clareira natural no centro da ilha Rata, a única área plana suficiente para a aterragem seguro. O helicóptero pertencia ao grupo aéreo da Secretaria de Defesa Social de Pernambuco e fez o percurso desde a ilha principal em menos de 3 minutos. A inspeção durou 6 horas. A equipa percorreu toda a superfície da ilha a pé, o que não demorava mais de 40 minutos em linha reta, mas que exigiu horas devido à vegetação densa e às rochas irregulares e a necessidade de documentar cada ponto com fotografias e

coordenadas GPS. O que encontraram foi suficiente para manter o caso aberto e insuficiente para resolvê-lo. Na orla leste da ilha, no ponto aproximado onde o drone de Thago tinha captado o fumo, a equipa encontrou vestígios de combustão recente. Havia um círculo de cinzas com cerca de 60 cm de diâmetro, restos de carvão vegetal, aparentemente de ramos da vegetação local.

e marcas de incêndio no solo num raio de pouco mais de 1 m. A análise preliminar indicava que o fogo tinha sido aceso e mantido de forma controlada, não espontânea. Não havia sinais de incêndio acidental, nem de combustão natural. Alguém tinha feito aquela fogueira deliberadamente a 5 m do ponto de combustão, e a equipa encontrou uma estrutura rudimentar feita com ramos de árvores e arbustos nativos, parcialmente desmantelada, como se tivesse sido abandonada ou abatida pelo vento. A estrutura tinha um formato de

tenda irregular, com aproximadamente 1,5 m de altura e 2 m de comprimento. Entre os ramos havia fragmentos de um material sintético, fino, escuro, parcialmente deteriorado pela exposição ao sol e à chuva. Os biólogos não conseguiram identificar o material em campo. Podia ser lona, ​​podia ser tecido sintético, podia ser parte de um saco-cama, de uma capa de chuva ou de qualquer outro objeto que alguém tivesse levado para ali.

A equipa vasculhou o restante da ilha durante as horas seguintes. Não foram encontrados restos humanos, não foram encontrados objetos pessoais, nenhuma peça de roupa, nenhum utensílio e nenhum recipiente de água, nenhum ferramenta. Não foram encontradas pegadas preserváis. O solo da ilha Rata é uma mistura de rocha vulcânica e areia grossa que não retém as marcas durante mais de algumas horas, especialmente durante a estação das chuvas.

Não foram encontrados restos de alimentos, nem sinais de captação de água. O perito da polícia civil recolheu amostras das cinzas, do carvão e do material sintético para a análise laboratorial. As amostras foram enviadas para o Instituto de Criminalística de Pernambuco, no Recife, com pedido de prioridade. O relatório da inspeção, divulgado 40 dias depois confirmava os achados de campo e acrescentava um dado técnico importante.

A análise das cinzas indicava que a combustão tinha ocorrido num intervalo de 10 a 30 dias antes da inspeção. e que era compatível com a data em que o drone tinha filmado a fumaça. O material sintético foi classificado como polietileno de baixa densidade, o mesmo material utilizado em lonas de plástico, sacos resistentes e coberturas improvisadas.

O relatório não concluía nada sobre a identidade de quem tinha estado na ilha. Não concluía nada sobre a relação, se é que existia. entre os vestígios encontrados e o desaparecimento das irmãs Bastos Cavalcante. Não concluía nada sobre quanto tempo aquela pessoa ou aquelas pessoas tinham ali permanecido.

Dizia apenas que havia evidência material de presença humana não autorizada em área de proteção ambiental integral. Nori que o caso deveria ser encaminhado simultaneamente à Polícia Federal, por se tratar de eventual crime ambiental em Unidade de Conservação Federal e a Polícia Civil de Pernambuco, por possível ligação com inquérito de desaparecimento previamente arquivado. O relatório foi remetido.

A Polícia Federal abriu um procedimento administrativo. A Polícia Civil reabriu o inquérito das irmãs Bastos Cavalcante em maio de 2022, 2 anos e meio depois do desaparecimento. Mas reabrir um inquérito não significa que alguém voltou a procurar. Significa que o papel voltou a circular, que os voltaram a ser batidos carimbos, que o processo saiu de uma pilha de casos inativos e entrou noutra pilha de casos em curso, onde ficaria aguardando a próxima diligência que alguém decidisse realizar.

Sebastião soube da reabertura por telefone. O delegado ligou a informar em tom neutro e correto que o inquérito estava novamente ativo e que novas diligências seriam realizadas conforme a disponibilidade da equipa. Sebastião agradeceu, desligou e olhou para o mar através da janela da cozinha. Não sentiu alívio, não sentiu esperança, sentiu apenas que a máquina tinha voltado a funcionar, lenta, barulhenta, imprecisa, e que continuava parado no mesmo lugar de sempre, à espera de algo que talvez nunca chegasse.

No mês seguinte, o Ministério Público de Pernambuco solicitou ao ICM Bio uma nova vistoria na Ilha Rata, desta vez com equipamento mais sofisticado, câmaras térmicas, detetor de metais, equipamento de recolha forense ampliado e o ICM Bio negou o pedido com base parecer técnico que alertava para a impacto ambiental de uma operação daquela escala numa área de protecção integral com ecossistema ensível.

O MP recorreu. O recurso ficou parado na Tribunal Federal durante 4 meses. Quando foi finalmente concedida a autorização para uma segunda inspeção, em outubro de 2022, a equipa regressou à Ilha Rata e não encontrou mais nada. As cinzas tinham sido lavadas pelas chuvas do inverno. A estrutura de ramos tinha sido completamente desmontada pelo vento.

O material sintético tinha desaparecido. A ilha estava limpa. O tempo e o clima tinham feito o que qualquer pessoa que vive no litoral sabe que o fazem. Apagaram os rastos. O perito da Polícia Civil, que participou na segunda inspeção, escreveu uma nota de três parágrafos que foi anexada ao inquérito.

A nota dizia, em síntese, que os vestígios encontrados na primeira inspecção eram reais e documentados, mas que a impossibilidade de realizar análises complementares em tempo útil e a deterioração natural das provas impediam qualquer conclusão sobre autoria, permanência ou finalidade da presença humana na ilha. A nota terminava com uma frase que ninguém na família Bastos Cavalcante esqueceu.

A janela de oportunidade investigativa se fechou. A Marlene leu esta frase num documento oficial e sentiu pela primeira vez em quase três anos algo que não era raiva nem tristeza, era cansaço. tipo de cansaço que se instala nos ossos, que não passa com sono nem com descanso, que fica ali como uma companhia silenciosa e permanente, o cansaço de quem lutou contra um sistema que não funciona à mesma velocidade que a dor, mas o cansaço de quem chegou perto de mais do que uma resposta e viu a resposta ser levada pelo vento e pela chuva antes que alguém pudesse

alcançá-la. Mas Marlene não parou. Continuou a ir à Noronha, continuou a conversar com pescadores, continuou a marcar pontos no mapa plastificado com a caneta vermelha que já estava quase sem tinta. Comprou outra caneta, continuou. Sebastião também não parou, mas a sua forma de continuar era diferente, era mais silenciosa, mais solitária, mais difícil de explicar a quem não estava lá.

Continuou a sair de madrugada com o barco de índio. Continuou a olhar para as ilhas secundárias com aquele expressão que os vizinhos já conheciam e que ninguém ousava interromper. Continuou a servir o pequeno-almoço para os hóspedes, trocando lençóis, sorrindo quando necessário, vivendo uma vida que por fora parecia funcional e por dentro tinha deixado de fazer sentido.

A pousada continuou a receber turistas que chegavam encantados, tiravam fotografias no miradouro, mergulhavam nas piscinas naturais e iam-se embora, sem saber que o dono daquela casa tinha perdido duas filhas no mesmo mar onde estavam nadando. Sebastião nunca falou do caso com nenhum hóspede, nunca pediu ajuda, nunca colocou um cartaz na recepção.

A dor dele era uma coisa privada, guardada numa gaveta juntamente com o caderninho de capa preta e com a última frase que Renata tinha escrito: “A corrente leva para fora, mas quem conhece regressa pelo canal”. Lia esta frase de vez em quando. Não sabia exatamente o que significava, mas sentia que significava alguma coisa que ninguém tinha tido paciência para decifrar.

Na mesma época em que a segunda vistoria à ilha da Rata produzia o nada que produziu, um oceanógrafo aposentado da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, um homem chamava Geraldo Fonseca Braga, que tinha dedicado 30 anos da carreira ao estudo das correntes do Atlântico Equatorial, leu uma notícia sobre o caso num jornal do Recife e decidiu fazer algo que nenhum investigador oficial tinha feito.

analisar as correntes em redor do arquipélago no dia 14 de novembro de 2019, com base em dados de satélite disponíveis publicamente, Geraldo não conhecia a família, não tinha vínculo com o caso, não tinha interesse comercial nem académico, tinha 72 anos, vivia num apartamento no bairro de Petrópolis em Natal.

vivia sozinho desde que a esposa tinha falecido em 2018 e passava os dias a ler artigos e consultando bases de dados oceanográficos e assistindo ao Jornal Nacional. Era o tipo de cientista que não consegue reformar-se de verdade, que continua a pensar, a calcular e a questionando mesmo sem laboratório, sem equipa e sem ninguém a pedir.

O que Geraldo descobriu foi simples em termos técnicos e devastador em termos humanos. No dia 14 de novembro de 2019, os dados de satélite do programa Copérnicos, o sistema europeu de monitorização oceânico, mostravam uma corrente de superfície incomum na região do arquipélago, uma corrente que fluía de noroeste para sudeste, passando entre a ilha principal e as ilhas secundárias, com uma velocidade estimada entre 1,5 e 2,2 nós.

Esta corrente, que não era habitual para aquela altura do ano, não tinha duração estimada de 6 a 8 horas e coincidia com o período entre a saída das irmãs do porto e o momento em que o barco chegou provavelmente à praia do leão. Por outras palavras, a corrente podia explicar como o barco tinha ido parar no lado oposto da ilha sem que o motor estivesse a trabalhar.

Bastava que o motor tivesse sido desligado por qualquer motivo durante aquele período. A corrente faria com que o resto. Mas a corrente explicava outra coisa, explicava o canal. Geraldo analisou os dados com mais cuidado e percebeu que entre a ilha principal e a ilha rata, a corrente de superfície criava um corredor estreito, um canal temporário, onde o caudal de água era mais lento e mais previsível do que nas áreas circundantes.

Este canal existia apenas durante as horas em que a corrente anómala estava ativa. Nas condições normais, desde a passagem entre as duas ilhas, era dominada por correntes laterais fortes e imprevisíveis, que tornavam a travessia arriscada para qualquer embarcação pequena e praticamente impossível anado. Mas durante aquelas 6 a 8 horas do dia 14 de novembro, o canal estava aberto.

Alguém que conhecesse o mar, alguém que soubesse ler correntes, que soubesse identificar o momento exato em que o fluxo se alterava, poderia ter cruzado a nado a distância de pouco mais de 1 km entre a costa sudeste da ilha principal e a bordo oeste da ilha Rata. Geraldo escreveu um relatório de seis páginas, anexou os dados de satélite e os mapas de corrente e enviou por e-mail para a Esquadra da Polícia Civil de Pernambuco, para o Ministério Público e para o ICM bio.

Mandou cópia para Marlene, cujo contacto tinha encontrado numa reportagem, e Marlene ligou para -lo no mesmo dia. Falaram durante 2 horas. O relatório de Geraldo não provava que a Renata e a Débora tinham nadado até à ilha Rata. Não provava que estivessem vivas. Não provava nada além de uma possibilidade técnica que, combinada com a anotação no caderninho de Renata, a corrente leva para fora.

Mas quem conhece o Volta pelo canal adquiria um peso que ia muito para além da oceanografia. Porque se a Renata sabia do canal, se tinha anotado no caderninho no dia anterior ao desaparecimento, se tinha planeado ir até à ilha Rata por alguma razão que só ela conhecia. Assim, o desaparecimento talvez não fosse um acidente, talvez não fosse um afogamento, talvez fosse uma decisão.

E essa possibilidade, a possibilidade de que os filhas tivessem optado por desaparecer era para Sebastião e para Marlene, e mais difícil de suportar do que qualquer tragédia natural. Porque uma tragédia não tem culpa. Uma decisão tem motivo. E se tinha motivo, então havia algo que não sabiam, algo que não tinham visto, algo que não tinham perguntado, algo que talvez pudessem ter evitado se tivessem prestado mais atenção, se tivessem feito as perguntas certas, se tivessem sido os pais que as filhas precisavam, em vez dos pais que tinham

conseguido ser. Esta é a pergunta que destrói por dentro. Não a questão sobre onde estão, mas a questão sobre porquê. O inquérito reaberto não avançou para além dos documentos que foram anexados a ele. O relatório de Geraldo foi junto ao processo. A análise do material sintético encontrado na ilha Rata, o O polietileno de baixa densidade não produziu resultados conclusivos.

Não havia impressões digitais, não havia material biológico, não existiam fibras de roupa, nem fios de cabelo. O laboratório do Instituto de Criminalística do Recife emitiu um relatório de três páginas, dizendo essencialmente que o material era compatível com centenas de produtos industriais disponíveis no mercado e que não era possível determinar origem, utilização ou tempo de exposição com os métodos disponíveis.

A Polícia Federal concluiu o procedimento administrativo sobre a presença humana não autorizada na Ilha Rata, com uma recomendação ao ICM Bio para aumentar a fiscalização das ilhas secundárias. não identificou suspeitos, não instaurou inquérito policial, não fez qualquer diligência adicional, além de solicitar ao ICM Bio a lista de autorizações de acesso emitidas nos 12 meses anteriores à inspeção.

E a lista tinha quatro nomes, todos investigadores ou funcionários do próprio organismo e nenhum deles estava na ilha nas datas relevantes. O caso voltou a estagnar. Mas desta vez a estagnação não veio acompanhada de silêncio, veio acompanhada de ruído. O vídeo do drone, o relatório de Geraldo, a anotação no caderninho.

Tudo isto circulou na internet, foi discutido em podcasts, foi analisado por amadores e especialistas, foi transformado em teoria por gente que nunca tinha pisado Fernando de Noronha e que provavelmente nunca pisaria. O caso das irmãs Bastos Cavalcante deixou de ser uma história local e se tornou uma dessas histórias que a a internet adota, alimenta e transforma em algo que os próprios envolvidos não reconhecem mais.

Para Marlene, o ruído da internet era ao mesmo tempo uma bênção e uma tortura. bênção, porque mantinha o caso vivo, porque pressionava as autoridades, porque fazia com que as filhas dela não fossem esquecidas. Tortura porque cada teoria nova, cada especulação, cada comentário de desconhecido, dizendo: “Eu acho que elas fugiram ou acho que foram sequestradas, ou acho que estão vivas numa ilha”.

Era uma agulha fina entrando num sítio que já não aguentava mais ser perfurado. Sebastião não acompanhava a internet, não tinha redes sociais, não lia os comentários, não via os vídeos, sabia que existiam porque os os hóspedes comentavam por vezes: “Ah, o Senhor é o pai daquelas meninas”. E ele respondia com um aceno breve e mudava de assunto.

A dor de Sebastião era analógica. Era feita de silêncio, de madrugadas no mar e de um pequeno caderno numa gaveta, e de um relógio de cozinha que continuava a marcar as horas, como se as horas ainda tivessem o mesmo peso de antes. Em dezembro de 2023, 4 anos e um mês depois do desaparecimento, Marlene fez a última viagem a Fernando de Noronha.

Não foi para procurar, foi para se despedir, não das filhas. Porque despedir-se de quem pode estar vivo é uma coisa que nenhuma mãe consegue fazer de verdade. Foi para se despedir da busca da versão dela própria que tinha surgido em novembro de 2019 e que tinha vivido os últimos 4 anos como uma máquina movida a recusa. recusa de aceitar o veredicto oficial, recusa de deixar de procurar, recusa de dormir uma noite inteira sem acordar às 3 da manhã pensando no canal, na fogueira, no caderninho.

Marlene levou a pasta azul com as fotos e o mapa plastificado. L caminhou sozinha pela praia do leão, onde o barco tinha sido encontrado 4 anos antes. Sentou-se na areia, tirou os sapatos e ficou a olhar para o mar durante um tempo que não mediu. Depois levantou, sacudiu a areia da roupa e voltou para a vila.

Encontrou Sebastião na varanda da pousada. Os dois sentaram-se lado a lado, como não faziam desde antes da separação, e ficaram ali sem falar enquanto o sol descia por detrás do monte do pico. A Marlene colocou a pasta azul no colo e abriu. As fotos das meninas estavam desbotadas pelo tempo e pelo manuseamento. Os pontos vermelhos no mapa cobriam quase toda a costa da ilha.

Não havia mais lugar para marcar. Sebastião olhou para o mapa e disse a única coisa que disse nessa tarde. Você cobriu tudo, Marlene, tudo o que era possível. Marlene não respondeu, fechou a pasta, guardou-o dentro da bolsa. Os dois continuaram sentados até escurecer. O caso das irmãs Bastos Cavalcante permanece oficialmente aberto.

O inquérito da Polícia Civil de Pernambuco não foi novamente arquivado após a reabertura de 2022, mas também não registou nenhuma diligência adicional desde outubro desse ano. Os nomes de A Renata e a Débora constam no Sinalid, o sistema nacional de informação de segurança pública sobre as pessoas desaparecidas, onde ocupam duas linhas numa base de dados com mais de 80.

000 registos. A pousada de Sebastião continua a funcionar na Vila dos Remédios. O quarto das meninas continua com os mesmos lençóis que trocou em novembro de 2019. antes da chegada delas. Não foram lavados, não foram trocados, não foram tocados. Marlene voltou a trabalhar no Hospital das Clínicas em janeiro de 2024.

Chegava cedo, no preparava o café da Copa, servia os ramais com a mesma eficiência de sempre. Ninguém no hospital perguntava mais sobre as filhas. Tinham aprendido a não perguntar. A ilha Rata continua desabitada. protegida inacessível. O ICM Bio reforçou a fiscalização com um sistema de câmaras instalado em 2023 que monitoriza as ilhas secundárias por transmissão via satélite.

Desde a instalação, nenhuma atividade humana foi registada, nenhuma fogueira, nenhuma estrutura, nenhum sinal. Mas os pescadores do Noronha, os antigos, os que saem antes do amanhecer e regressam depois do escurecer, continuam dizendo quando alguém pergunta que de vez em quando vê-se uma luz ténue na direção da Ilha da Rata.

Não toda a noite, não todas as semanas, mas de vez em quando. Uma luz que acende e apaga, que pode ser reflexo da lua na rocha molhada, mas que pode ser bioluminescência na espuma das ondas, que pode ser qualquer coisa que o mar faz quando ninguém está a olhar, ou que pode ser outra coisa, ninguém sabe. E talvez seja esse o ponto.

Talvez o peso real desta história não esteja no que aconteceu, mas no que não se conseguiu saber. Na distância entre uma pergunta e uma resposta que nunca chega, no espaço vazio entre uma foto de WhatsApp enviada às 6:42 da manhã e o silêncio que veio depois no intervalo entre uma mãe que disse se cuida e duas filhas que não regressaram para dizer voltei passaram os anos.

Fernando de Noronha continua a ser um dos lugares mais bonitos do Brasil. Os os turistas continuam a chegar, tirando fotos, mergulhando nas mesmas águas. O morro dois irmãos continua ali, no mesmo lugar de sempre, e com o mesmo contorno que aparecia na selfie que Renata enviou para a mãe naquela manhã de novembro.

Tudo igual, tudo no sítio, menos duas pessoas, menos as respostas que uma família necessitava para conseguir seguir em frente. Menos a certeza, qualquer certeza que permitiria a um pai deixar de olhar para o mar toda a madrugada e a uma mãe deixar de acordar às 3 da manhã com o coração acelerado. A história não termina com uma explicação, termina com uma fogueira que ninguém sabe quem acendeu, com um pequeno caderno que ninguém soube interpretar a tempo e com duas cadeiras vazias numa varanda em Fernando de Noronha, de frente para um

mar que guarda o que sabe e que não deve nada a ninguém. M.