O Silêncio da Rua Pernambuco: Como a Vulnerabilidade de uma Infância Interrompida Chocou a Baixada Fluminense
A Fragilidade por Trás do Sorriso
Nas imagens que agora restam na memória de quem a conheceu, Ky Radassa Silva, de apenas 4 anos, exibia sempre a pureza típica da infância. Moradora de Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, a menina era descrita por familiares como uma criança doce, gentil e vaidosa. Gostava de brincar com maquiagens e, com a inocência de sua idade, costumava perguntar aos parentes se estava bonita. Radassa mantinha uma rotina previsível: não tinha o hábito de sair sozinha à rua e costumava dormir a noite toda. Ela frequentava a Escola Municipal Três Marias, localizada no mesmo bairro onde residia com sua mãe, Suelen Roque da Silva, e dois irmãos de 7 e 8 anos.
A realidade da família, no entanto, era marcada por severas dificuldades financeiras. O cenário onde a vida de Radassa se desenrolava reflete o isolamento de uma periferia esquecida. A residência ficava na Rua Pernambuco, uma via sem asfalto, vizinha a uma área de mata densa no distrito de Cabuçu. O terreno era compartilhado com os tios da menina, configurando um ambiente de proximidade familiar onde as portas raramente se trancavam para os conhecidos. Sem a presença ou paradeiro conhecido do pai das crianças, a estrutura familiar apoiava-se nessa convivência comunitária, sem que ninguém previsse os riscos que cercavam aquela vulnerabilidade geográfica e social.

A Madrugada de 9 de Dezembro
A calmaria daquela vizinhança foi desfeita na madrugada de uma sexta-feira, dia 9 de dezembro. Suelen, a mãe das crianças, serviu o jantar e colocou os filhos para dormir. Por volta de meia-noite e meia, decidiu sair para frequentar um forró local. Segundo os relatos posteriores da mãe, as crianças não ficariam completamente desamparadas, pois sua irmã morava no mesmo terreno e ficaria responsável por vigiar a casa. A guarda imediata dos três menores, contudo, recaiu momentaneamente sobre os irmãos de 7 e 8 anos, que continuaram dormindo.
O relógio marcava aproximadamente 5 horas da manhã de sábado quando Suelen retornou da festa. Ao entrar na residência, deparou-se com o portão principal completamente aberto. Ao caminhar até o quarto, percebeu o espaço vazio na cama: Radassa havia desaparecido sem deixar vestígios, enquanto os dois meninos mais velhos permaneciam dormindo. O sumiço imediato acionou um alerta desesperado na comunidade, dando início a uma busca frenética que mobilizou parentes e vizinhos nas redes sociais e em protestos pelas ruas de Cabuçu, todos clamando por respostas que a escuridão daquela madrugada insistia em ocultar.
O Fator de Proximidade e o Histórico Oculto
À medida que os detalhes do desaparecimento vinham à tona, as suspeitas da comunidade e da polícia convergiram para uma figura surpreendentemente próxima à família. Reinaldo Rocha Nascimento, de 22 anos, conhecido na região como “RD”, era primo de segundo grau de Suelen. Por conta do parentesco e da aparente confiança, ele frequentava a residência com assiduidade. O que a família não mensurava, contudo, era o histórico problemático e o comportamento bizarro que Reinaldo carregava, muitas vezes associado ao uso de entorpecentes.
O histórico criminal de Reinaldo revelava que a tragédia poderia ter sido evitada pelo sistema judicial. Em 2021, ele havia sido condenado em primeira instância a uma pena de 7 anos e 2 meses de prisão por participar de dois assaltos à mão armada na Pedra do Arpoador, área nobre do Rio de Janeiro. Na ocasião, acompanhado de comparsas, ele ameaçou mulheres na praia para roubar celulares. Após recorrer da sentença, sua pena foi fixada em 6 anos e 4 meses, obtendo o direito de cumprir a reprimenda em regime semiaberto.
Livre para circular, dois meses antes do caso de Radassa, ele já havia tentado abusar de outra mulher nas proximidades da mesma rua, chegando a rasgar as vestes da vítima, que conseguiu escapar. Sem punição imediata por esse ato anterior, Reinaldo continuou rondando a Rua Pernambuco, utilizando-se do livre acesso à casa da prima para observar a rotina dos moradores e planejar o momento em que as crianças estariam sem a proteção de um adulto.
A Quebra da Confiança e a Revelação do Crime
Munido do conhecimento de que Suelen havia saído para o evento, Reinaldo encontrou o cenário ideal para agir. Por volta da meia-noite, ele aproximou-se da casa. O vínculo familiar fez com que a pequena Radassa não demonstrasse qualquer hesitação ou medo ao vê-lo. A investigação apontou que a menina saiu voluntariamente com o primo, acreditando, em sua inocência, que seria levada para a casa de um tio ou ao encontro da mãe na festa. A ausência de gritos ou resistência impediu que os irmãos de 7 e 8 anos acordassem.
O desfecho daquela abordagem voluntária foi cruel. Uma vez distante da segurança do lar, Reinaldo consumou o abuso contra a vulnerável prima de segundo grau. Diante do choro inconsolável de Radassa, o agressor, temendo que o barulho chamasse a atenção de moradores da comunidade Beira Rio, decidiu silenciá-la definitivamente. O corpo da menina de 4 anos foi ocultado no interior de um saco de ração e abandonado em um terreno baldio na própria Rua Pernambuco, a poucos metros de onde ela costumava brincar e estudar. Relatos de familiares registraram a brutalidade extrema do ato, apontando que a vítima apresentava marcas severas de violência e deformações provocadas por ferramentas como chave de fenda.
A Reação Popular e o Clamor por Justiça
A confirmação do crime e a descoberta do corpo transformaram o desespero da comunidade em uma onda de revolta incontrolável. Na noite de 10 de dezembro, moradores cercaram a residência de Reinaldo na comunidade Beira Rio. O homem foi retirado à força de sua casa por uma multidão enfurecida à beira de um valão. As agressões físicas começaram imediatamente, com transmissões ao vivo feitas por celulares que mostravam o linchamento em andamento. A revolta popular escalou a ponto de os moradores atearem fogo na residência do suspeito, destruindo o local antes mesmo que a perícia técnica pudesse trabalhar de forma isolada.
A execução sumária pelas mãos da população só não foi concluída devido à chegada emergencial da Polícia Militar. Os policiais enfrentaram extrema dificuldade para conter a multidão, que cercou a viatura e tentou impedir a retirada de Reinaldo. Após o uso da força para dispersar o tumulto, o suspeito foi conduzido à delegacia, onde, diante das autoridades judiciais e sob a garantia de sua integridade física, confessou detalhadamente a autoria do crime e indicou a exata localização do corpo da menina.
Cicatrizes e Reflexões de uma Comunidade
O impacto da perda de Radassa deixou marcas profundas e divididas na Baixada Fluminense. A Escola Municipal Três Marias declarou luto oficial e suspendeu as atividades letivas em solidariedade. A indignação coletiva também se voltou contra a mãe da menina. Alvo de ameaças de linchamento público por parte dos vizinhos devido à sua conduta na madrugada do crime, Suelen viu-se obrigada a fugir e permanecer escondida, o que a impediu inclusive de comparecer ao sepultamento da própria filha, realizado no Cemitério de Nova Iguaçu. Em declarações, ela manifestou o peso de sua consciência diante da tragédia que não pôde evitar.
Atualmente, Reinaldo Rocha Nascimento encontra-se detido no sistema prisional, mantido em uma cela segura e isolada da massa carcerária para preservação de sua vida devido à natureza do crime cometido. O caso encerra-se deixando um rastro de questionamentos sociais profundos sobre a eficácia do monitoramento de egressos do sistema penal em regime semiaberto, os limites da negligência e a vulnerabilidade crônica de crianças criadas em áreas de exclusão social.
A tragédia da Rua Pernambuco permanece como um doloroso lembrete das falhas de proteção que podem cercar os membros mais indefesos de uma comunidade. Diante de um cenário onde a violência se misturou à proximidade familiar, resta à sociedade refletir: como fortalecer as redes de apoio e segurança para que a inocência de outras crianças não seja novamente interrompida pelo silêncio da omissão?