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O Cerco se Fecha: A Estratégia de Trump e a Classificação Global das Facções Brasileiras como Terroristas

O cenário da segurança pública nacional, historicamente tratado como um problema crônico e interno do Brasil, acaba de sofrer uma inflexão geopolítica sem precedentes. A decisão do governo dos Estados Unidos, sob a administração de Donald Trump, de elevar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) ao status de “terroristas globais especialmente designados” transcende a mera retórica diplomática. O anúncio, formalizado pelo Secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, inclui a pretensão de integrar ambas as organizações à temida lista de Organizações Terroristas Estrangeiras a partir de 5 de junho. Esta não é uma mudança de nomenclatura para fins burocráticos; é uma declaração formal de guerra assemétrica que autoriza Washington a empregar um arsenal de medidas punitivas — desde severas sanções econômicas até operações internacionais de inteligência e intervenções táticas — contra as redes criminosas que nasceram nos presídios brasileiros e hoje operam em escala multinacional. A medida levanta questões cruciais: por que agora? E, de forma mais contundente, as táticas de enfrentamento duro adotadas por nações como El Salvador poderiam servir de bússola para o desmantelamento dessas facções no Brasil?

Amanda Roberson, porta-voz do Departamento de Estado dos EUA para Língua  Portuguesa, explica as medidas adotadas pelos EUA contra organizações  terroristas no Brasil., O governo Trump está usando todas ...

A Multinacionalização do Crime e a Ameaça Transnacional

A fundamentação para a drástica medida de Washington repousa no reconhecimento de que o PCC e o Comando Vermelho deixaram, há muito, de ser problemas circunscritos aos morros cariocas e à periferia paulista. Ambas as facções evoluíram para corporações do crime altamente estruturadas, operando como verdadeiras multinacionais da ilegalidade. O domínio das rotas internacionais de tráfico de entorpecentes é o motor financeiro dessas organizações, que hoje movimentam cifras na casa dos bilhões de dólares anualmente.

A expansão de suas atividades não reconhece fronteiras. Há evidências sólidas de alianças estratégicas com cartéis mexicanos para a distribuição de drogas na América do Norte, financiamento e exportação de violência para países vizinhos do cone sul e, demonstrando alto grau de sofisticação, a utilização extensiva de criptomoedas para lavagem de capitais em paraísos fiscais e mercados financeiros além-mar. Foi essa capacidade de desestabilização regional e a capilaridade internacional que forçaram os Estados Unidos a enquadrá-las não apenas como narcotraficantes, mas como ameaças à segurança global.

Dentro do território brasileiro, a realidade é ainda mais desoladora. As facções alcançaram um nível de poder bélico que rivaliza — e, por vezes, supera — as forças de segurança estaduais. O controle territorial exercido por esses grupos fere diretamente o princípio da soberania nacional. Dados estatísticos apontam que, em um intervalo de 16 anos, o número de áreas sob o jugo de milícias ou do tráfico de drogas sofreu um aumento superior a 115%. Quando o Estado perde a prerrogativa de entrar em determinadas zonas urbanas ou rurais devido ao domínio de uma facção, o problema deixa de ser apenas de segurança pública e torna-se uma crise de soberania territorial.

O Paradigma de El Salvador: O Modelo Bukele

A situação do Brasil guarda semelhanças assustadoras com o colapso enfrentado por El Salvador antes da ascensão do presidente Nayib Bukele. Na nação centro-americana, as “maras” (gangues como a MS-13 e a Barrio 18) operavam como estruturas paramilitares urbanas. Dotadas de circuitos fechados de segurança nos bairros e um arsenal superior ao da Polícia Nacional Civil e das Forças Armadas locais, as maras ditavam a vida civil. Com uma base de milhares de membros e uma vasta rede de colaboradores e aspirantes, esses grupos exerciam uma influência social e política sufocante.

O governo Bukele implementou o que se tornou conhecido como a política de “Mano Dura” (Mão Dura). Em 2016, a legislação salvadorenha já permitia a classificação desses grupos como terroristas, um pilar jurídico que Bukele utilizou com força máxima. O Estado iniciou um processo de encarceramento massivo, amparado por um gigantesco banco de dados de inteligência fotográfica e perfis criminais construído ao longo dos anos durante as constantes idas e vindas dos pandilleros ao sistema judicial. Apenas pertencer a uma mara, comprovado frequentemente por tatuagens ou associações, tornou-se crime passível de detenção imediata.

O resultado foi a criação de megaprissões — verdadeiros centros de confinamento de terrorismo —, onde líderes e membros de facções rivais são obrigados a conviver em celas conjuntas, vestindo uniformes padronizados e submetidos a um regime de disciplina extrema. As autoridades salvadorenhas desarticularam as mentes criminais que não apenas extorquiam, mas ordenavam homicídios brutais e desmembramentos. Essa abordagem radical resultou em uma redução histórica e drástica nas taxas de homicídio, inspirando debates sobre a exportação de seu modelo para outros países da América Latina, como a Costa Rica.

Como os EUA estão combatendo o crime na América Latina

As Origens: A Semente da Ilha Grande e o Conhecimento de Guerrilha

Para compreender a capacidade organizacional do PCC e do CV, é preciso voltar às suas raízes históricas, marcadas por um erro estratégico governamental monumental durante o período militar brasileiro. A gênese do crime organizado estruturado no Brasil remonta ao Instituto Penal Cândido Mendes, na Ilha Grande (RJ), na década de 1970. A decisão de encarcerar presos comuns junto a presos políticos propiciou um intercâmbio nefasto de conhecimentos.

Os presos políticos, muitos treinados em táticas de guerrilha no exterior (incluindo Cuba), transferiram para a massa carcerária comum conhecimentos sobre inteligência, contra-inteligência e, sobretudo, sobre como estruturar células operacionais para desestabilizar a administração pública. Essa união originou a Falange Vermelha, que posteriormente evoluiria para o Comando Vermelho. O que começou como uma necessidade de proteção interna no cárcere transformou-se, com o repasse de táticas subversivas, no embrião de organizações criminosas militarizadas que adotaram a mentalidade de células terroristas para expandir seus domínios e subjugar o Estado.

O Futuro: Desarticulação ou Reação Inédita?

A designação formal do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas pelos Estados Unidos altera profundamente o tabuleiro. A colaboração internacional no compartilhamento de inteligência e o bloqueio de ativos financeiros globais podem desidratar a capacidade operacional dessas facções. No entanto, o Brasil não é El Salvador. As dimensões continentais do país, o tamanho de seu sistema carcerário superlotado e a profunda infiltração institucional do crime organizado apresentam desafios de ordem superior.

A questão que se impõe é se o cerco internacional enfraquecerá essas facções de forma contundente, espelhando os resultados do modelo salvadorenho, ou se o Brasil enfrentará uma reação virulenta e assimétrica por parte de grupos que têm o domínio territorial e bélico há décadas. A internacionalização do combate ao PCC e ao CV pode ser a virada de chave necessária para a retomada do controle estatal, mas a história recente demonstra que qualquer vácuo de poder deixado por essas multinacionais do crime pode resultar em conflitos sangrentos e reorganizações ainda mais letais. A resposta exigirá não apenas cooperação externa, mas uma reformulação profunda da inteligência e da vontade política do Estado brasileiro.

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