A história da criminologia brasileira é repleta de personagens que desafiam a compreensão humana, mas poucos conseguiram ser tão insidiosos e perturbadores quanto André Barbosa de Oliveira. Entre os anos de 2006 e 2007, a cidade de Belém, no Pará, mergulhou em um estado de paranoia e luto profundo. O bairro do Guamá, conhecido por sua densidade populacional e laços comunitários fortes, tornou-se o terreno de caça de um homem que a imprensa logo apelidaria de “O Maníaco da Ceasa”. O que tornava André Barbosa especialmente perigoso não era apenas sua força física ou conhecimento técnico, mas sua capacidade de se camuflar perfeitamente entre suas vítimas e seus familiares, agindo como um lobo em pele de cordeiro.
O terror começou de forma silenciosa. Em dezembro de 2006, o pequeno José Raimundo Oliveira, carinhosamente chamado de Zezinho, de apenas 11 anos, desapareceu após sair de uma lan house no Guamá. Naquela época, as lan houses eram o coração social dos jovens da periferia, locais onde a diversão digital compensava as dificuldades do cotidiano. Quando o corpo de Zezinho foi encontrado em 16 de dezembro, em uma área de mata fechada nos fundos da Ceasa (Central de Abastecimento do Pará), a brutalidade do crime chocou os peritos: sinais de asfixia e abuso sexual. A comunidade se uniu em luto, e entre os que carregavam o caixão e consolavam a mãe de Zezinho, estava André Barbosa. Ele não era apenas um vizinho; ele se apresentava como um apoio moral, alguém que sentia a dor da família.
A trégua foi curta. Em janeiro de 2007, Adriano Augusto Nogueira Martins, de 14 anos, também desapareceu seguindo o mesmo padrão: visto pela última vez em uma lan house. Seu corpo foi localizado na mesma região da mata, com marcas idênticas de violência. O pânico se instalou. Pais proibiram filhos de sair, escolas emitiram alertas e a polícia começou a perceber que não se tratava de crimes isolados, mas da assinatura de um assassino em série. O terceiro golpe veio em março, com o desaparecimento e morte de Juan Valente Sacramento, também de 14 anos. Juan foi encontrado na mesma “estrada do Murutucum”, e exames de DNA confirmaram o que todos temiam: um único predador estava à solta, atacando meninos com perfis sociais e rotinas semelhantes.
André Barbosa era um mestre da manipulação. Ele frequentava as mesmas lan houses que os meninos, pagava horas de jogo para eles, comprava refrigerantes e se oferecia para ensinar truques nos jogos de computador. Ele construiu uma imagem de “irmão mais velho” prestativo. Essa confiança era o passaporte para atrair as vítimas para a mata da Ceasa, muitas vezes sob o pretexto de que precisava de ajuda para vigiar uma bicicleta ou realizar um pequeno serviço. No isolamento da mata, ele utilizava técnicas de imobilização que aprendera durante seu tempo no Exército Brasileiro, como o “mata-leão”, e usava fios de nylon ou cadarços para finalizar o ato sem deixar marcas excessivas de luta.

A queda do maníaco ocorreu graças à coragem de um sobrevivente e a um erro tecnológico. Em fevereiro de 2008, um garoto identificado como Fabrício foi abordado por André com a promessa de R$ 10 para vigiar sua bicicleta. Já desconfiado devido aos boatos no bairro, Fabrício percebeu que estava sendo levado para dentro da mata. Quando André tentou o ataque, o jovem lutou bravamente, conseguiu arremessar o celular do agressor no matagal e fugiu para pedir ajuda. A polícia, ao recuperar o aparelho e analisar imagens de câmeras de segurança instaladas recentemente na lan house, identificou André. Ao ser preso e confrontado com provas de DNA e os cadarços encontrados sob seu colchão, André desmoronou. Ele pediu a presença de um padre e de um juiz para confessar seus pecados e crimes.
O julgamento de André Barbosa foi um dos momentos mais tensos da história judiciária do Pará. Ele foi condenado a 104 anos de prisão por triplo homicídio qualificado, abuso sexual e ocultação de cadáver. Durante anos, ele permaneceu como uma figura de medo nas penitenciárias. Entretanto, a legislação brasileira e o sistema de progressão de penas trouxeram um novo capítulo de indignação para as famílias das vítimas. Em junho de 2023, após cumprir cerca de 15 anos em regime fechado, André Barbosa obteve o direito ao regime aberto, passando a ser monitorado por tornozeleira eletrônica.
A liberdade monitorada de André reacendeu o trauma em Belém. Para as mães que perderam seus filhos, a justiça pareceu incompleta. O caso do Maníaco da Ceasa permanece como um lembrete sombrio de que o perigo muitas vezes não tem a aparência de um monstro, mas sim a face de alguém comum, educado e prestativo, que se senta ao seu lado no banco da igreja ou chora com você no velório. A trajetória de André Barbosa é o estudo de uma psicopatia clássica, onde a empatia é apenas uma ferramenta de caça e o sofrimento alheio é o combustível para um desejo sombrio que o sistema de justiça, por vezes, tem dificuldade em conter permanentemente.