Aos 48 anos descobri que gosto de ser dominada… o escravo me pegou por trás e não parou até que…
Eis o primeiro capítulo escrito em primeira pessoa, mergulhando na melancolia e na repressão de Flávia antes da sua grande transformação. Capítulo 1. O luto eterno de três semanas. O espelho de moldura dourada e desgastada no meu quarto não mente, embora eu desejasse que o fizesse. Aos 48 anos, a imagem que me devolve o olhar é o de uma mulher que o tempo esqueceu de consultar.
Os meus cabelos, ainda escuros, mas com fios de prata, que teimam em brilhar sob a luz das velas, estão sempre presos num coque tão apertado que parece querer conter também os meus pensamentos. Sou a Flávia, a irmã do Barão, a viúva de um homem cujo rosto às vezes custa-me recordar com clareza. Meu O casamento com o Dr.
Arnaldo foi um acontecimento que parou a província. Eu era jovem, cheia de expectativas silenciosas, prontas para assumir o papel de esposa que a sociedade esperava de mim. Mas o destino tem um sentido de humor cruel. Três semanas. Esse foi o tempo que durou a minha vida conjugal. Uma febre súbita e impiedosa levou Arnaldo antes mesmo que o cheiro das flores do altar se tivesse dissipado da nossa casa.
Ele se foi, deixando-me um título de viúva, uma herança modesta e uma castidade que, por ironia do destino, permaneceu quase intacta. Naquele tempo, o luto não era apenas um sentimento, era uma sentença. Desde então, o preto tornou-se o meu segunda pele. O tecido pesado do crepe, o espartilho que me aperta as costelas e a gola alta que me sufoca o pescoço são as armaduras que uso para enfrentar o mundo.
Após a morte do Arnaldo, não tive filhos, não tive novos pretendentes que meu irmão considerasse dignos e acabei sendo acolhida pela caridade autoritária do Barão Carlos Miguel. Carlos Miguel, meu irmão, é a lei e a ordem nestas terras. Dono da maior plantação de café da região. Ele governa a quinta com mãos de ferro e um orgulho que chega a ser palpável.
Para ele, eu sou um adorno da sua respeitabilidade, a titia que ocupa-se da organização da casa, que vigia as mucamas e que mantém a honra da família acima de qualquer suspeita. Ele deu-me um teto, comida farta e proteção, mas em troca exigiu a minha alma num estado de dormência perpétua. Caminho pelos corredores do palacete e o som dos os meus sapatos de couro no açoalho de a madeira parece um eco de uma vida que não foi vivida.

A exploração agrícola é um organismo vivo, pulsante de trabalho e suor, mas sou apenas uma sombra que transita entre os quartos e a varanda. O cheiro do café a ser torrado invade as janelas, um aroma terroso, forte e viril, que por vezes vezes faz-me fechar os olhos e respirar fundo, sentindo um estranho arrepio que não consigo explicar.
“Flávia?” A voz de Carlos Miguel ressoa do escritório, firme e impaciente. Verificou se os mantimentos para a colheita foram separados. Sim, irmão. Tudo em ordem, respondo com a voz mansa que cultivei durante décadas. Ele mal me olha. Para ele faço parte da mobília, tão funcional quanto à mesa de carvalho onde assina os contratos de exportação.
Ele não imagina que sob as camadas de anáguas e o pudor obrigatório, pulsa o sangue de uma mulher que nunca soube o que é ser realmente tomada, que nunca sentiu o fogo de um desejo que não fosse o de apenas agradar aos outros. Minha a vida é uma sucessão de dias iguais marcados pelo badalar do sino da quinta.
e pelas orações nocturnas, onde peço perdão por pecados que nem sequer cometi, mas que começo a desejar em pensamento. Ser a viúva entocada é um fardo mais pesado do que qualquer saca de café. É viver num deserto de toques, onde a pele anseia por algo que a mente diz ser proibido. À noite, quando me deito na cama fria e solitária, as paredes do palacete parecem fechar-se sobre mim.
O silêncio da quinta é interrompido apenas pelo som dos grilos e pelo murmúrio longínquo das cenzalas. É nestes momentos que a a solidão dói fisicamente. Eu olho para as as minhas mãos, mãos de uma mulher de 48 anos que nunca foi realmente explorada. e pergunto-me se o meu fim será apenas este, ser a sombra do Barão, a tia solteirona que serve o café e morre em silêncio.
Eu não sabia, naquela manhã de sol forte que o destino estava prestes a pregar-me uma partida. Eu não sabia que o homem em quem Carlos Miguel mais confiava, o robusto e silencioso Tião, seria o instrumento do meu despertar. Eu ainda via-me como a viúva casta, mas o universo já estava a traçar o caminho para que eu descobrisse que sob a máscara da descência existia uma mulher sedenta de submissão e de um prazer que nenhum título de nobreza me poderia dar.
O luto de três semanas durou quase 30 anos, mas aquela manhã seria a última em que acordaria, sentindo que o meu corpo era apenas um fardo. O sol de S. Paulo não pede licença, invade. Às 8 da manhã, a luz já atravessa as brechas das pesadas portadas do casarão, como lâminas douradas, cortando o ar carregado de pó e cera de abelha. Eu Levanto-me antes de todos.
Um hábito de quem não tem sonhos para prolongar o sono. O ritual é sempre o mesmo. O espartilho apertado até ao limite do fôlego, as meias de lã fina, o vestido de algodão escuro que pesa sobre os meus ombros como uma armadura de castidade. Sou a titia Flávia, a guardiã das chaves. A mulher que caminha sem ruído pelos corredores de açoalho encerado, garantindo que a engrenagem da exploração do ouro verde nunca pare de girar.
Lá fora, a plantação de café estende-se até onde a vista alcança. Uma sucessão interminável de arbustos, de um verde tão profundo que parece negro sob a sombra. É o império de Carlos Miguel, meu irmão. Para o mundo, aquelas colinas são a fonte da sua riqueza e prestígio. Para mim, são as grades de uma prisão a céu aberto.
O calor da manhã já começa a subir da terra húmida, trazendo aquele cheiro característico de terra fértil e fermentação dos frutos. Um odor que se agarra à pele e parece sussurrar sobre vida, fertilidade e força, coisas que me foram negadas pela descência da minha classe social. Posiciono-me na varanda com a minha chávena de porcelana fina entre as mãos, observando o movimento.
Sou uma estátua de gelo em meio a um caldeirão. Enquanto os homens e mulheres se preparam para a labuta, eu Permaneço imóvel, a personificação da dignidade viúva. Bom dia, tia Flávia”, dizem os sobrinhos, filhos de Carlos Miguel, ao passarem por mim. Eu dou-lhes um sorriso contido. O sorriso que se espera de uma mulher de 48 anos, que já enterrou as suas esperanças num túmulo de três semanas.
Veem-me como uma relíquia, alguém que nunca teve um fogo próprio, apenas o brilho refletido da família. A rotina é sufocante na sua perfeição. Supervisiono a cozinha, onde o calor dos fogões a lenha faz o suor brotar nas témporas das mucamas, mas eu não me permito suar. Conto cada saco de açúcar, cada pedaço de carne seca, cada rolo de fumo.
A minha vida é medida em inventários. Carlos Miguel exige ordem absoluta. Ele caminha pela casa com as suas botas de cano alto, o chicote de montaria batendo ritmicamente contra a perna. Um som que sempre me causou um sobressalto interno que nunca soube explicar se era medo ou uma curiosidade reprimida sobre o que significa ser dominada por uma vontade superior.
“Flávia, os cadernos de contabilidade estão prontos?” A voz dele corta o ar da sala de jantar. estão na sua mesa, irmão, como todos os dias, respondo, mantendo os olhos baixos. Ele sente-a satisfeito com a minha submissão silenciosa. Ele não faz ideia de que, sob o meu peito coberto de rendas e broches de luto, o coração bate com uma violência estranha, sempre que o vento traz o som das vozes dos trabalhadores provenientes do terreiro de secagem.
Existe uma vitalidade lá fora que me aterroriza e fascina-me. Eu sou a Simá, que nunca conheceu o toque da terra, nem o calor de um corpo que não fosse o corpo febril e moribundo do Dor Arnaldo. À tarde, o o calor torna-se uma presença física, uma pressão sobre os pulmões. Eu sento-me na cadeira de baloiço da varanda lateral, fingindo ocupar-me com um bordado de bastidor que nunca mais acaba.
Os meus dedos, finos e pálidos, movem a agulha com uma precisão mecânica, mas os meus olhos divagam. É nesse horário que os os trabalhadores mais próximos da casa fazem uma breve pausa. É quando o contraste entre a minha existência estéril e a realidade bruta da exploração torna-se insuportável. Eu sinto-me como se estivesse preservada em Ambar, uma estátua de gelo que se recusa a derreter, mesmo quando o sol do meio-dia castiga as telhas de barro.
As outras mulheres da minha idade, as casadas, tus maridos, os seus filhos, as suas preocupações com o lar. Tenho apenas o silêncio do o meu quarto e o respeito vazio de uma casa que não é a minha. A autoridade que exerço sobre os empregados é uma máscara. Sinto que eles percebem a minha falta de vida, a minha palidez de quem nunca saiu da sombra das jabuticabeiras.
Por vezes, fecho os olhos e tento imaginar como seria desatar esse espartilho e deixar o sol tocar a minha pele. Mas o pensamento é rapidamente repelido pelo peso da tradição. Eu sou Flávia Castelo Branco, a irmã do Barão. Eu não sou feita de carne e osso, sou feita de dever e decoro. No entanto, hoje o ar parece diferente.
Há uma eletricidade no ambiente, um prenúncio de tempestade que faz os pelos do meu braço se arrepiarem por baixo das mangas compridas. Da minha posição na varanda, vejo uma figura aproximar-se do casarão para tratar de negócios com o meu irmão. É um vulto alto, de ombros largos, que caminha com uma autoridade natural que desafia a sua condição.
É a primeira vez que noto, de forma consciente e perturbadora, a presença de Tião. Enquanto ele atravessa o terreiro, sinto uma fenda na minha carapaça de gelo. Um calor súbito, proveniente não do sol, mas de dentro das minhas próprias entranhas me faz apertar o bastidor de bordar com tanta força que as articulações dos meus dedos ficam brancas.
O ouro verde é o reino de Carlos Miguel, mas algo me diz que as sombras daquela plantação escondem segredos que o meu irmão nunca seria capaz de controlar. A tarde caía sobre a fazenda do ouro verde, com uma luz alaranjada, densa como o melaço que fervia nas caldeiras. Eu estava na dispensa, a divisão mais fresca da casa, organizando os frascos de compota de goiaba, quando ouvi os passos.
Não eram os passos apressados das mucamas, nem o caminhar pesado e autoritário das botas de montaria do meu irmão. Era um passo firme, porém silencioso, de quem pisa o chão com a propriedade de quem conhece cada grão de pó. Saí para o corredor e vi-o parado à entrada da cozinha, aguardando as ordens de Carlos Miguel.
Era o Tião. Embora já o tivesse visto de longe atravessando os terreiros de café, a proximidade era um murro no estômago da minha compostura. Tião não era apenas mais um entre os centenas que trabalhavam naquelas terras. Era o homem de confiança, o braço direito do Barão, para as tarefas que exigiam mais do que força.
Exigiam astúcia e uma liderança natural que, por vezes, parecia rivalizar com a do próprio dono da quinta. Ele era alto, de uma estatura que o obrigava a baixar ligeiramente a cabeça ao entrar pelas portas do palacete. A sua pele era escura e brilhante, temperada por anos de sol e suor, refletindo a luz das lamparinas como se fosse bronze esculpido.
Mas o que realmente me paralisou não foi o seu porte físico, foi o seu olhar. Diferente dos outros que baixavam à vista diante de mim ou do meu irmão em sinal de servidão. O Tião sustentava o olhar. Não era insolência, pelo menos não uma que se pudesse punir. Era uma altivez silenciosa.
A confiança de um homem que sabia que o café só brotava porque as suas mãos entendiam a terra melhor do que qualquer título de nobreza guardado no escritório do Barão. “És Flávia?”, disse ele com uma voz grave que parecia vibrar no açoalho de madeira. Senti um arrepio subir pela minha espinha, um calor incómodo que se instalou na base da minha nuca.
O barão mandou-me buscar as chaves do barracão de ferramentas, Tião? – respondi, tentando manter a voz tão gélida como o mármore da sala de estar. Ele disse que precisa organizar a manutenção das moendas. Ele deu um passo em frente. O cheiro dele fez-me atingiu. Não era o cheiro azedo da miséria, mas o aroma de mato cortado, de fumo de corda e de uma masculinidade crua, quase selvagem, que nunca tinha permitido que se aproximasse tanto de mim.
Eu era uma viúva de 48 anos, uma mulher que passou três décadas a fugir de qualquer sensação corporal. Mas ali, diante daquele homem, o meu corpo parecia recordar de desejos que nunca cheguei a realizar. Fui até ao quadro de chaves na parede, as mãos a tremerem levemente. Tentei ocultar o tremor centrando-se na tarefa mecânica.
Peguei no molho de ferro pesado. Quando me virei para o entregar, já estava mais perto do que eu esperava. Os seus olhos negros, profundos como poços sem fundo, percorreram o meu rosto com uma curiosidade lenta, quase predatória. Por um segundo, senti que ele não via a titia respeitada ou a irmã do Barão, mas sim a mulher escondida sob o crepe preto.
Estendi o braço para entregar as chaves. Os nossos dedos não se tocaram, mas o metal frio serviu de ponte para uma tensão que fez com que o arre. Segurou o molho de Chaves, mas não retirou-se imediatamente. A senhora está pálida, Sá. O calor deste verão não perdoa quem fica muito tempo fechada, comentou ele com um tom que roçava o proibido. Eu estou bem, Tian.
Preocupe-se com o seu trabalho, – respondi, recuperando a minha máscara de gelo. Embora o meu coração batesse contra as barbatanas do espartilho, como um pássaro enjaulado. Ele fez uma breve inclinação da cabeça, um gesto de respeito que me pareceu ironicamente carregado de uma superioridade que ele não deveria ter. Virou-se e saiu.
Fiquei parada no corredor, a observar as suas costas largas desaparecerem sob a luz do sol que morria. O Tião era o homem de confiança de Carlos Miguel porque era eficiente, leal e incansável. Mas naquele momento soube que ele era perigoso para mim. Ele possuía uma liberdade interior que nunca tive. Enquanto vivi amarrada às convenções, ao luto eterno e às regras de um irmão que me tratava como um objeto de decoração, Tião movia-se pelo mundo com a força da natureza.
Voltei para a dispensa, mas as mãos já não conseguiam organizar os frascos com a mesma precisão. Eu sentia o meu rosto a arder. Aos 48 anos, eu deveria estar para além dessas perturbações. Deveria estar pronta para o descanso da velice. No entanto, aquele olhar de Tião tinha despertado uma fissura na minha redoma.
O gelo estava começando a estalar e o calor da quinta do Ouro Verde estava pela primeira vez encontrar um caminho para dentro de mim. Ele conhecia a Terra, sabia como fazer crescer as coisas e como domar a força da plantação. E num canto escuro da minha mente que tentava silenciar, surgiu um pensamento aterrador e fascinante.
O que um homem como aquele faria se decidisse que eu era a terra que ele queria cultivar? Nos dias que se seguiram ao nosso encontro no corredor, a geografia da fazenda do Ouro Verde pareceu alterar-se para mim. O que antes eram caminhos previsíveis entre o palacete, o roseiral e a capela, tornaram-se trilhos carregados de uma expectativa nervosa.
Tian, que antes era uma figura funcional diluída na paisagem da plantação, passou a ser uma presença constante, quase omnipresente, nas franjas da minha rotina. Começou de forma subtil. Eu estava no jardim lateral, um pequeno refúgio de civilidade europeia que eu tentava manter vivo contra a agressividade do solo paulista.
Cuidar das rosas era a minha única terapia. As mãos protegidas por luvas de pelica, a tesoura de poda cortando os ramos secos, com a mesma precisão com que tentava podar os meus próprios impulsos. Foi então que senti. Não foi um som, mas uma mudança na pressão do ar. O peso de um olhar que se cravava-se na minha nuca, atravessando o o meu chale de renda e a minha espinha.
Virei-me bruscamente. Ele estava lá, há poucos metros, encostado a um tronco de pau-rosa com um feixe de ferramentas nos ombros. Tian não desviou o olhar. Não pediu desculpa por estar ali. Apenas me observou, o rosto imóvel, mas os olhos, aqueles olhos brilhavam com uma inteligência que parecia ler a minha sede sob a minha palidez.
“As rosas da Shahá estão a sentir a seca”, disse, a voz grave cortando o silêncio do jardim como um trovão longínquo. Elas precisam de água profunda, não apenas esse borrifo de superfície. Eu sei cuidar das minhas flores, Tião”, respondi, tentando manter a autoridade, mas sentindo que a minha voz falhava ligeiramente no final da frase.
“Sei que sabe, senho, na verdade só a está a deixar morrer de sede por dentro”. Deu um passo na a minha direção e, por instinto, recuei batendo com as costas contra o pedestal de um vaso de barro. O medo que senti não era de agressão, mas de descoberta. Ele falava da planta, mas os seus olhos diziam que falava de mim.
O Tião deu um meio sorriso, um gesto quase imperceptível que carregava uma arrogância máscula e seguiu o seu caminho em direção às tulhas de café. Depois deste episódio, os encontros tornaram-se inevitáveis. Se eu ia à dispensa buscar o sal, estava passando pela janela, parando por um segundo para ajustar o chapéu e me encarar.
Se eu acompanhava o meu irmão até o escritório, o Tião estava lá, debruçado sobre os mapas da quinta, e a sua presença preenchia o quarto de tal forma que o barão parecia subitamente mais pequeno, menos relevante. O mais perturbador era o acaso. Eu saía para a varanda ao amanhecer e via-o ao longe, montado em um cavalo, olhando para o palacete como se vigiasse um tesouro ou uma presa.
Sentia o calor subir-me pelo pescoço, uma ardência que o espartilho parecia apenas intensificar. Aos 48 anos, eu deveria estar imune a este jogo do gato e rato. Mas a verdade é que eu nunca tinha jogado. O Dr. Arnaldo nunca me olhara com aquela fome. O meu irmão nunca vira-me como nada mais do que uma governanta de luxo. O Tião, no entanto, via-me.
Ele via a mulher que gritava por detrás do luto de três décadas. Numa tarde de calor sufocante, decidi caminhar até ao pomar de laranjeiras, procurando a sombra densa das árvores. O aroma das flores de laranjeira era quase entorpescente. Sentei-me num banco de pedra, retirando o chapéu para abanar o rosto. Foi quando ouvi o som de ramos secos estalando atrás de mim.
Não precisei olhar para saber quem era. O peso da sua presença era como uma sombra física que envolvia-me. “A senhora não devia andar tão longe da casa sozinha” sen a Flávia”, disse, surgindo entre as folhagens. Estava sem camisa, o tronco bronzeado e musculado brilhando com uma fina camada de suor que refletia os raios de sol que filtravam pelas folhas.
“O mato tem perigos que a senhora não conhece. Eu deveria tê-lo repreendido pela falta de vestuário. Devia ter gritado pelo meu irmão. Mas a minha garganta estava seca. Os meus olhos, contra a minha própria vontade, percorreram as linhas do seu peito, a força dos seus braços, a cicatriz antiga que lhe cruzava o ombro.
Era a primeira vez que via o corpo de um homem daquela forma. Um corpo vivo, funcional, poderoso. O maior perigo aqui parece ser a tua insolência, Tião. Consegui dizer. Embora as minhas pernas parecessem feitas de água. Ele riu-se, um som baixo e gutural. Insolência é um nome bonito para a verdade. A senhora foge do sol, foge das pessoas, mas não consegue fugir de si mesma.
Eu vejo como a senhora me olha quando pensas que não estou a ver. Como se atreve! Tentei levantar-me, mas ele deu um passo rápido, encurtando a distância. Ele não me tocou, mas ficou tão perto que pude sentir o calor que emanava da sua pele. O cheiro a terra e A masculinidade era tão forte que me deixou tonta.
Por um segundo, o mundo parou. O som das cigarras, o vento nas laranjeiras, tudo silenciou perante a eletricidade entre nós. “Eu conheço a terra”, sussurrou, inclinando-se levemente. “E sei quando uma terra está demasiado seca, à espera da chuva”. Ele afastou-se antes que eu pudesse reagir, deixando-me sozinha no pomar, com o coração a bater de forma tão violenta que parecia que ia rasgar o tecido do o meu vestido.
Eu era a titia respeitada, a viúva de elite, a irmã do Barão, mas naquele momento eu era apenas uma mulher de 48 anos, cujas defesas do gelo estavam a derreter sob o olhar de um escravo que se recusava a ser submisso aos meus medos. Os encontros não eram mais acasos, eram promessas. E eu, em o meu terror e desejo crescente, sabia que não conseguiria fugir por muito mais tempo.
O capítulo 5 mergulha na fase de negação. A Flávia tenta usar as ferramentas que conhece, o estado, a voz de comando e a distância social, para tentar sufocar o que Tião despertou nela. Capítulo 5. A repulsa que esconde o medo. O medo é uma emoção camaleónica. Em mim, vestiu-se de arrogância. Após o encontro no pomar, passei a noite em claro, sentindo o calor daquele homem ainda impregnado no ar do meu quarto, como se tivesse deixado um rasto invisível por onde passava.
No dia seguinte, decidi que a única forma de sobreviver à perturbação era reafirmar, com violência, se necessário, o abismo que nos separava. Eu precisava de me lembrar-me de quem eu era. Flávia Castelo Branco, uma mulher cujo apelido transportava séculos de história e cujo irmão podia decidir o destino dos qualquer alma naquelas terras com um simples aceno.
Tião, por mais que possuísse um olhar de rei, era uma peça na engrenagem de Carlos Miguel, nada mais. Naquela manhã descia as escadas com o queixo mais erguido do que o habitual. O espartilho parecia uma armadura de ferro. E apertei-o pessoalmente até que o ar me faltasse, como se quisesse esmagar qualquer desejo que teimasse pulsar no meu ventre.
Quando encontrei o Tião no pátio central, organizando o carregamento das carroças, não desviei o olhar. Encarei-o com a frieza de quem observa um objeto inanimado que está fora do lugar. Tião! A minha voz saiu cortante, como um estalido de chicote. Ele parou o que estava a fazer e virou-se. O o suor brilhava-lhe no peito, mas dessa vez obriguei-me a olhar com desdém, como se aquele vigor fosse algo vulgar, algo que pertencesse apenas ao reino dos animais.
“Sim, senor Flávia”, ele respondeu com aquela calma exasperante, retirando o chapéu de palha com um gesto que tinha mais de deboche do que de submissão. As tulhas do sector sul estão deploráveis, a grãos espalhados pelo chão e os sacos estão mal empilhados. É esta a eficiência que o meu irmão tanto elogia?”, disparei, cruzando os braços sobre o peito. Ele olhou-me fixamente.
Por um breve segundo, viu uma centelha de surpresa nos seus olhos, rapidamente substituída por algo mais profundo. Um entendimento que me fez querer recuar. Ele sabia o que eu estava a fazer. Ele Percebia que a minha agressividade era, na verdade, um muro de contenção. O trabalho será refeito, sim.
Se a senhora está a dizer que não está bom, então não está”, disse, dando um passo em minha direção. Eu não me mexi. Sustentei a posição, sentindo o sol de São Paulo queimar o meu rosto, mas mantendo a expressão de mármore. “Não quero desculpas, quero ordem. Você anda muito distraído ultimamente, Tian. Talvez o excesso de confiança lhe esteja a subir a cabeça.
Lembre-se que a sua função é servir esta casa e não deambular pelos jardins como se fosse o dono do mundo. As palavras saíram amargas, injustas até, mas eu precisava delas. Precisava de o humilhar para me sentir superior. Precisava que ele fosse apenas um escravo aos meus olhos para que eu parasse de o ver como o homem que me fez sentir viva ao fim de 30 anos.
Tian não baixou a cabeça, pelo contrário, ele se aproximou-se mais, o suficiente para que eu pudesse ver as veias saltadas nos seus braços fortes. “A senhora tem razão, simá?”, sussurrou, num tom que só conseguia ouvir, enquanto os outros trabalhadores passavam com os sacos. “Eu ando distraído, mas não é com o café.
Há coisas que chamam mais a atenção do que um grão maduro, coisas que parecem frias por fora, mas que sabemos que estão a arder por dentro.” Senti o sangue fugir do meu rosto. A audácia dele era um crime, um insulto que me deveria fazer chamar os guardas da fazenda. Mas a minha língua pesava.
A curiosidade que ele despertava era um veneno doce. Eu queria saber até que ponto aquela insolência iria. Queria saber o que aconteceria se deixava cair a máscara, mas o medo era maior. “Saia da minha frente”, ordenei com a voz trémula. E não se aproximar do casarão, a não ser que seja chamado pelo barão.
Fui clara? Ele deu um passo atrás e fez uma vénia exagerada, quase teatral. Como a senhora desejar, senlávia? Se a senhora prefere a sombra e o silêncio, ficarei na luz do sol. Mas lembre-se, o sol acaba alcançando até o canto mais escuro da casa. Virei costas sem dizer mais nada e caminhei para dentro com passos rápidos.
O meu coração martelava contra as costelas. Entrei no meu quarto e fechei a porta, encostando as costas à madeira fria. Eu estava ofegante. O que eu estava a fazer? Eu estava a jogar um jogo perigoso com um homem que não tinha nada a perder, enquanto tinha toda a uma reputação a zelar. Eu tratava-o com frieza para me proteger. Mas a cada palavra dura que lhe dirigia, a ligação entre nós parecia estreitar-se.
A repulsa que eu tentava demonstrar era apenas o avesso de um desejo que me consumia. Eu odiava-o por me fazer sentir-se vulnerável. Odiava-o por ter 48 anos e sentir-me como uma menina assustada. Mas enquanto olhava para as minhas mãos trémulas, soube que a reafirmação da minha posição social era uma mentira.
O estatuto de Siná não servia de nada perante aquela força bruta. Eu era uma estátua de gelo tentando dar ordens ao fogo. E por dentro já começava a derreter, sentindo uma curiosidade pecaminosa sobre o que aconteceria se, em vez de repelir, eu simplesmente me entregasse àquele calor. A noite caiu e com ela veio a chuva intensa de verão.
O barulho da água no telhado parecia ecoar o caos dentro de mim. Não sabia que em poucos dias a natureza conspiraria para que toda a a minha frieza fosse testada no limite de um barracão de café. O capítulo marca-se o momento em que as barreiras sociais e a resistência de Flávia começam a desmoronar perante a força da natureza e do destino.
O isolamento forçado transforma o depósito num confessionário de sentidos. Capítulo 6. O incidente no barracão. O céu sobre a quinta do ouro verde mudou de cor em uma velocidade assustadora. O azul límpido do interior de São Paulo foi engolido por nuvens de um cinzento chumbo carregadas de uma eletricidade que fazia o ar pesar nos pulmões.
Eu havia saído para uma caminhada até ao setor das tulhas antigas, fugindo às perguntas curiosas da minha cunhada e do olhar vigilante de Carlos Miguel. Precisava de espaço, de vento, de qualquer coisa que dissipasse a imagem do Tião da minha mente. Não percebi o quão longe tinha ido até que o primeiro trovão estremeceu o solo sob os meus pés.
Não foi um ruído distante, foi um rugido seco, um aviso de que o céu estava prestes a desabar. O vento soprou súbito, fustigando as abas do meu vestido preto e desmanchando o coque que eu levara meia hora a prender. Em segundos, as primeiras gotas, pesadas e frias, começaram a cair, transformando o pó da estrada numa lama avermelhada.
O casarão estava demasiado longe. Correr sob aquela tempestade com camadas de anáguas e um espartilho seria impossível. O abrigo mais próximo era o grande barracão de madeira, onde se armazenavam os sacos de café prontas para o embarque. Corri com uma agilidade que não sabia possuir aos 48 anos, segurando a saia acima dos tornozelos, a respiração saindo em espasmos curtos.
Empurrei a pesada porta de correr, que rangeu sobre os carris de ferro e atirei-me para dentro, fechando-a logo de seguida para barrar a fúria da água. O silêncio lá dentro era absoluto, interrompido apenas pelo tamborilar ensurdecedor da chuva no telhado de Zinco. O ambiente era sombrio, iluminado apenas pelas brechas de luz que cortavam a penumbra.
O cheiro atingiu-me como um golpe físico. Era o aroma denso, terroso e quase embriagante do café seco, misturado com o cheiro de madeira velha e humidade. Mas havia algo mais, um rasto de calor que não vinha das sacas. Aá está encharcada. A voz vinha de um canto escuro atrás de uma pilha de fardos.
O meu coração saltou na garganta. Eu conhecia-o. Mesmo na penumbra, a silhueta do Tião era inconfundível. Ele estava sentado numa saca de juta com um canivete na mão, terminando de reparar uma correia de couro. Levantou-se lentamente e a pouca luz que filtrava do alto iluminou o seu peito nu. Estava suado apesar da chuva lá fora e o brilho da sua pele refletia a humidade do ar.
“Tian, o que faz aqui?”, perguntei, tentando recuperar a dignidade, enquanto a água escorria pelo meu rosto e o tecido do o meu vestido colava de forma indecente ao meu corpo. “Eu trabalho aqui, senh estava a proteger o ouro do seu irmão antes que o telhado cedesse”, ele respondeu, caminhando na minha direção com uma calma que me aterrorizava.
Ele parou a dois passos de distância. O barracão que eu julgava vasto pareceu-me subitamente minúsculo. O espaço entre nós estava saturado pelo cheiro dele. Um misto de suor masculino, fumo e o próprio café que nos rodeava. Era um odor primitivo, viril, algo que nunca tinha penetrado as paredes estéreis do o meu quarto no palacete.
Os meus sentidos, atrofiados por décadas de luto e repressão, despertaram com uma violência que me deixou tonta. Não deveria estar aqui sozinho comigo”, disse eu, “mas a autoridade que eu tentara demonstrar nos dias anteriores havia sumido. A minha voz era um sussurro trémulo. A tempestade decidiu por nós, senor Flávia”, disse, fixando os seus olhos negros nos meus.
“A senhora está a tremer de frio ou de outra coisa qualquer.” Ele estendeu a mão e, pela primeira vez não houve hesitação. Ele segurou-me o braço, os dedos fortes e quentes contrastando com a minha pele gélida e molhada. O toque foi como um incêndio. Senti um arrepio percorrer toda a minha extensão, terminando num calor desconhecido no baixo ventre.
Eu deveria ter puxado o braço, devia ter gritado, mas eu estava paralisada pela descoberta de que o toque daquele homem era a única coisa que me mantinha de pé. “O café é um fruto estranho”, continuou, a voz baixa, quase roçando o meu ouvido enquanto ele inclinava-se. Ele precisa de calor para libertar o aroma. E a senhora a senhora passou a vida inteira no gelo.
Olhei para o peito dele, para a cadência da sua respiração, e o cheiro do suor dele invadiu as minhas narinas de forma profunda. Não era repulsivo, era magnético. Era a vida no seu estado mais bruto, sem os perfumes franceses ou as etiquetas falsas da sala de jantar do barão. Senti uma vontade louca de encostar ali o meu rosto, de sentir aquela força a esmagar-me contra as sacas de café.
Amo-te, por favor, pedi, mas nem eu sabia o que estava a pedir. Estava a pedir-lhe para parar ou para ele continuar? Ele sorriu. Aquele sorriso que dizia que já tinha lido cada um dos meus medos. Ele não soltou o meu braço. Em vez disso, a sua mão subiu lentamente, o polegar roçando o tecido molhado do meu ombro, aproximando-se do o meu pescoço.
Lá fora, um raio iluminou o interior do armazém por um milésimo de segundo, revelando-nos a ambos a extensão do nosso pecado. Eu era a viúva do Dr. Arnaldo, a irmã do Barão. Mas ali, entre o cheiro do café e o calor daquele homem, eu era apenas Flávia. E eu foi, pela primeira vez em 48 anos desesperadamente acordada. A penumbra do barracão parecia ganhar vida com o ritmo da chuva sobre o zinco.
Eu estava encostada a uma das pilastras de madeira, tentando recuperar o fôlego e a compostura, mas o ar lá dentro estava saturado. Era o cheiro do café seco, o aroma da juta húmida e, sobretudo, aquela emanação viril que vinha de Tião. Ele não se afastava. Pelo contrário, movia-se à minha volta com a naturalidade de um predador que sabe que a caça não tem para onde fugir.
“A senhora está desconfortável, senh”, afirmou, não como uma pergunta, mas como uma constatação que me despia. “O vestido molhado pesa, não é? O espartilho parece que vai cortar a carne.” Eu não respondi. Apertei as mãos contra o tecido frio da saia, sentindo a água escorrer pelas minhas peras. Eu era uma estátua de gelo em pleno de gelo.
Tian desviou o olhar por um momento, voltando-se para um fardo de juta que tinha caído de uma das pilhas junto à porta, provavelmente devido ao vento que rugia lá fora. Esse fardo está obstruindo a passagem. Se a água subir e entrar por baixo da porta, vai apodrecer o grão”, disse, mudando o tom para algo mais prático.
Mas a sua voz ainda transportava aquela vibração profunda que atingia-me o baixo ventre. Ele se inclinou-se para levantar o pesado fardo. Eu, num impulso de utilidade para disfarçar o meu nervosismo, dei um passo à frente. “Eu ajudo”, comecei a dizer, estendendo a mão para segurar uma das extremidades da saca áspera. Foi um erro.
ou talvez o primeiro acerto da minha vida. No momento em que as minhas mãos pálidas e delicadas, mãos que nunca tinham carregado nada mais pesado que um livro de preces ou um bastidor de bordar tocaram a juta. As mãos de Tião já estavam lá. Os seus dedos longos, de pele grossa e calejada pelo cabo da enchada e pelas rédeas dos cavalos, envolveram os meus. O choque foi instantâneo.
Não foi apenas o contacto da pele, foi uma descarga elétrica que percorreu os meus braços, subiu pelos meus ombros e explodiu no meu peito. Senti um calor violento subir pelo meu pescoço, tingindo a minha pele de um rubor que a escuridão do barracão não conseguia esconder. A minha primeira reação foi o pavor.
Recuei bruscamente, como se tivesse tocado em brasa viva, deixando o fardo cair novamente com um baque surdo sobre o açoalho. “Sim?”, perguntou, a voz agora carregada de uma malícia suave. Não recolheu a mão, deixou-a estendido no ar, a palma aberta, como se me convidasse a arder novamente. “Não, não devias”, gaguejei, as costas batendo contra sacos de café atrás de mim.
O toque, Tião, esqueces quem eu sou. Nunca me esqueço quem a senhora é, Flávia. Ele disse o meu nome sem o título e o som dessa sílaba a sair da boca dele foi mais indecente do que se ele estivesse a tocar-me novamente. A senhora é a irmã do Barão, a viúva respeitada. Mas as suas mãos elas me disseram outra coisa há pouco. Elas disseram-me que a senhora está a gritar por dentro. Eu estava ofegante.
O espartilho, que sempre fora a minha segurança, parecia agora um instrumento de tortura que me impedia de processar o oxigénio necessário para manter a sanidade. Os meus dedos ainda formigavam. A sensação daquela pele quente e áspera contra a minha inútil suavidade era a coisa mais real que sentira em 48 anos. O Dr.
Arnaldo nunca tivera mãos assim. Tinha mãos de médico finas e distantes. O Tião tinha mãos de quem domina a vida e a morte. A semente está plantada, continuou, dando um passo lento na minha direção, encurtando o pouco espaço que restava. A senhora pode tentar arrancar, pode tentar negar, mas ela já brotou. Senti o seu tremor e não foi de frio.
Cálice tentei ordenar, mas a palavra saiu sem força, quase como um súplica. Eu tratava-o com frieza para esconder o medo, mas aquele toque inesperado tinha destruído a minha última linha de defesa. A curiosidade que ele despertava em mim já não era algo que pudesse observar de longe. Era uma fome, uma curiosidade sobre o que aconteceria se aquelas mãos calejadas, em vez de segurarem as minhas, resolvessem segurar-me pela cintura.
sobre o que aconteceria se aquela força bruta fosse utilizada para me guiar para onde a minha vontade já não tinha mais poder. O Tião sorriu de novo, um sorriso de quem conhece os segredos da terra e do corpo. Baixou-se, pegou o fardo sozinho com uma facilidade insultuosa e atirou-o para o lado, limpando o caminho. Depois voltou a encarar-me.
A tempestade vai passar em breve, senhã. E a senhora vai voltar para o palacete, para o seu chá e para o seu luto. Mas amanhã, quando a senhora acordar e olhar para estas mãos, vai lembrar-se do calor das minhas e desejará que a chuva não tivesse parado. Virei o rosto, tentando ignorar a verdade brutal nas suas palavras.
A semente estava de facto plantada, e eu sabia, com um pavor que misturava-se a uma excitação proibida, que o roseiral da titia Flávia nunca mais seria o mesmo. O solo da a minha alma tinha sido revolvido e eu temia, ou talvez esperasse, o que nasceria daquela escuridão. Lá fora, os trovões começavam a afastar-se, mas dentro de mim a tempestade estava apenas começando.
O capítulo oito é o momento em que a distância social é fisicamente anulada. A varanda, lugar de exposição da nobreza de Flávia, torna-se o palco de sua primeira capitulação sensorial. Capítulo oito. A emboscada dos sentidos. O entardecer na quinta do Ouro Verde era geralmente o meu momento de maior solidão. Enquanto Carlos Miguel se recolhia ao escritório para verificar os lucros do dia e os sobrinhos perdiam-se em risos no andar de cima, eu me retirava para a varanda lateral.
Ali o horizonte tingia-se de um roxo profundo, quase da cor do luto que eu trazia na alma. E o cheiro do café vindo dos terreiros parecia mais espesso, mais intoxicante. Eu estava sozinha. O casarão parecia um gigante adormecido às as minhas costas. Apoiei as mãos no parapeito de madeira branca, sentindo a textura da pintura descascada.
O calor do dia ainda emanava das tábuas do soalho, subindo pelas minhas saias, mas o vento que começava a soprar trazia uma frescura enganoso. Eu pensava no toque do Tião no barracão, pensava na semente que ele dissera ter plantado e como a cada hora que passava eu sentia as raízes deste desejo proibido se enroscarem nos meus órgãos internos. Não o ouvi chegar.
O Tião tinha a capacidade de se mover como uma sombra entre as árvores, uma criatura que pertencia àquela terra tanto quanto as raízes das laranjeiras. No entanto, o meu corpo soube antes da a minha mente. Senti um súbito bloqueio da brisa noturna. O ar atrás de mim ficou denso, carregado de um magnetismo que fez com que cada poro da minha pele se eriçasse.
Antes que me pudesse virar, antes que o grito de protesto ou de socorro pudesse escalar a minha garganta. Ele se posicionou-se exatamente atrás de mim. Ele não me tocou com as mãos de imediato, mas a sua presença era maciça. Senti o calor que emanava do seu peito atravessar o tecido pesado do meu vestido preto.
Ele estava tão perto que conseguia ouvir a cadência pausada da sua respiração, um contraste violento com o martelar frenético do meu próprio coração. O cheiro dele, aquele aroma de terra, suor e fumo de corda envolveram-me como uma névoa, obliterando o perfume das flores do jardim. O pô do sol daqui é diferente, não é? A voz dele sussurrou rente à minha nuca, tão baixa que parecia vir de dentro da a minha própria cabeça.
“Parece que o mundo está a arder”, tentei falar. Tentei dizer que ele não tinha permissão para ali estar, que o meu irmão mandava-o açoitar se o visse naquela proximidade indecente. Mas a minha boca estava seca e o meu corpo traidor inclinou-se milímetros para trás, procurando inconscientemente aquele contacto.
“Tian, sai daqui”, a frase saiu sem convicção. “Um suspiro que apenas serviu para o convidar a avançar. A senhora está sempre a mandar-me sair, mas os seus olhos chamam-me cada vez que atravesso o pátio”, disse. Senti o movimento da sua cabeça enquanto ele falava. Os seus lábios deviam estar a apenas a um dedo de distância do meu lóbulo.
Porquê lutar contra o que a Terra já aceitou? Senti então o primeiro contacto físico real daquela noite. Ele não usou as mãos, simplesmente pressionou o corpo contra o meu, a firmeza do seu tórax contra as minhas costas, a largura dos seus ombros emoldurando os meus. Era como ser cercada por uma muralha de carne e desejo.
Aos 48 anos, nunca soubera o que era sentir o peso de um homem que não estivesse moribundo ou distante. O impacto daquela virilidade bruta me deixou sem ar. Pela primeira vez, senti a força da sua vontade sobre a minha. Eu era a titia Flávia, mas sob aquela pressão I era apenas matéria desejante. As minhas mãos apertaram o parapeito com tanta força que as articulações ficaram brancas.
Eu estava presa entre a madeira da varanda e o fogo daquele homem. A senhora sabe o que vejo quando olho para aquele seu vestido fechado até ao pescoço? Ele continuou, a voz tornando-se mais rouca, mais perigosa. Vejo uma prisão que está a pedir para ser aberta. Vejo uma mulher que se esqueceu que tem pele sob este pano preto. “Você não sabe de nada”, murmurei, sentindo as minhas pernas fraquejarem.
“Eu sei de tudo. Sei que o seu marido não lhe ensinou o que é o prazer. Sei que o seu irmão só lhe ensinou a obedecer. Mas eu Fez uma pausa e senti a sua respiração aquecer o meu pescoço, enviando descargas elétricas para cada terminação nervosa do meu corpo. Eu posso ensinar-lhe a ser dominada de uma forma que a senhora nunca imaginou.
O choque daquela afirmação deveria ter-me ofendido mortalmente, mas o que senti foi uma onda de calor que me inundou de forma vergonhosa. O conceito de ser dominada, de entregar as rédeas da minha vida monótona a alguém que possuía aquela força era a coisa mais aterrador e atraente que eu já experimentara. A emboscada dos sentidos estava completa.
Eu não podia mais fugir para dentro da casa porque o predador estava a bloquear a saída. Eu não podia gritar, porque parte de mim queria ver até onde aquilo iria. Eu estava ali exposta na varanda do barão, sendo rodeada pelo homem que ele mais confiava, sentindo o meu gelo interno evaporar perante aquela presença maciça. Foi quando finalmente levou uma das mãos à minha cintura.
O toque foi possessivo, firme, como se estivesse marcando um território que sempre lhe pertencera. Fechei os olhos, deixando a minha cabeça cair ligeiramente para trás, encostando-se ao ombro dele. A semente não estava apenas plantada, estava florescendo numa noite de sombras e segredos. “Amanhã sim há”, sussurrou ele, soltando-me bruscamente e desaparecendo nas sombras da varanda antes que eu pudesse processar o que acontecera.
“Amanhã a senhora vai descobrir o que acontece quando o fogo encontra o café.” Fiquei sozinha, tremendo sob o luar. Com o cheiro dele ainda impregnado nas minhas roupas e a certeza de que a vida de Flávia Castelo Branco, como eu a conhecia, acabara naquela varanda. O capítulo nove é a queda definitiva das máscaras. É o momento em que a biologia e o desejo silenciam a moralidade.
E Flávia descobre que o seu corpo, aos 48 anos, é ainda uma terra fértil, pronta para ser desbravada. Capítulo 9. O despertar do corpo. A noite não trouxe o descanso, mas uma vigília febril. Quando o sol finalmente despontou sobre os cafezais, Eu já não era a mesma mulher que acordara no dia anterior. Havia um tremor latente nas minhas mãos, uma consciência dolorosa de cada centímetro da minha pele sob o crepe preto.
Eu Caminhei em direção ao setor das tulhas, onde o cheiro do café era mais forte e a A vigilância do meu irmão era mais escassa. Eu não estava apenas caminhando, estava a entregar-me ao inevitável. Encontrei-o no barracão de secagem, um local de sombras longas e calor retido. Tião estava de costas, movendo sacos com uma facilidade que parecia insultar a minha própria fragilidade.
Quando se virou, não ouve palavras. Ele sabia porque eu estava ali. Ele leu a fome nos meus olhos, uma fome que 30 anos de vivez e decoro não conseguiram matar. Ele se aproximou-se com a lentidão de quem domina o tempo. Recuei até que as minhas costas encontrassem a parede de madeira rústica, o coração a bater com tanta violência que sentia o pulso na minha garganta. Tião não hesitou.
Ele avançou até que o seu corpo estivesse a milímetros do meu, bloqueando qualquer escapatória com os seus braços fortes apoiados na parede, um de cada lado da minha cabeça. “A senhora veio?”, disse ele, a voz como um trovão baixo que me fez as entranhas vibrarem. “Não devia”, murmurei, mas a minha mão traidora subiu até ao peito dele, sentindo o calor da pele e o ritmo acelerado do seu coração sob a camisa de algodão grosso.
Foi então que se pressionou contra mim. No início, houve aquele gélido choque de horror. Através das inúmeras camadas das minhas saias e saiotes, senti algo que nunca tinha sentido com tamanha nitidez, a rigidez absoluta e imponente do seu corpo. O volume sob a sua roupa era uma declaração de intenções, uma força da natureza que não pedia autorização.
Meus olhos arregalaram-se e um suspiro de choque escapou-me dos lábios. Aquilo era o proibido. Era o pecado que as beatas da aldeia sussurravam nas confessionárias. Era tudo o que eu fora ensinada a temer. Mas o horror durou apenas um batimento cardíaco. Como uma barragem que se rompe, o medo foi subitamente engolido por um calor avaçalador.
Onde havia gelo, agora corria fogo. A pressão desse volume contra as minhas coxas, mesmo sob tanto pano, despertou uma sensação elétrica que subiu em espiral pelo meu ventre. Eu nunca soubera que o corpo humano podia emanar tamanha voltagem. O Dr. Arnaldo for uma sombra pálida. O Tião era o sol do meio-dia.
Sente isso, Sá, sussurrou ele, aproximando o rosto do meu, o hálito quente de café e fumo roçando a minha pele. É a vida que a senhora tentou enterrar. Ela está aqui entre nós os dois. Fechei os olhos, deixando a minha cabeça pender para trás. O cheiro dele inundou os meus sentidos, suor limpo, terra e uma masculinidade tão crua que me deixava tonta.
As minhas mãos, antes hesitantes, agarraram-se aos seus ombros, sentindo a musculatura firme como cordas de aço. Eu já não era a irmã do Barão, nem a viúva respeitada. Eu era uma mulher de 48 anos a descobrir que possuía um corpo e que esse corpo tinha dono. Ele levou a mão à minha nuca, os dedos calejados enroscando-se nos fios de cabelo que escapavam do coque.
Com um puxão firme, mas carregado de uma ternura bruta, obrigou-me a olhar para ele. A senhora gosta de ser dominada, Flávia. Eu vi isso no seu olhar desde o primeiro dia. A senhora fartou-se de dar as ordens que não quer dar. Está farto de ser a estátua casa? Sim. A confissão saiu num gemido que eu sequer reconheci como meu. Eu queria que ele continuasse.
Queria que ele esmagasse a minha resistência, que ele usasse aquela força para me mostrar o que havia para além do decoro. Quando ele se pressionou ainda mais, movendo-se com um ritmo lento e deliberado contra mim, eu senti os joelhos fraquejarem. O prazer era uma dor doce, uma descoberta tardia que me fazia querer gritar e silenciar ao mesmo tempo.
O ápice daquele despertar não foi apenas físico, foi a queda de uma muralha mental. Eu percebi que a minha autoridade era uma ficção e que a submissão que sentia perante O Tião era a liberdade mais verdadeira que eu já experimentara. Sob a luz filtrada pelas frinchas do barracão, entre sacos de café e o cheiro do suor masculino, a A titia Flávia morreu para dar lugar a uma mulher que já não tinha medo do próprio desejo.
“Não pares”, supliquei, as unhas cravando-se nos seus braços. Ele sorriu, um sorriso de triunfo e posse. Ele sabia que me tinha capturado, não por força, mas por uma sintonização profunda com a minha sede oculta. O despertar estava completo. O que viria a seguir seria o ritmo da posse, algo que eu, com os meus 48 anos, estava finalmente pronta para viver.
No silêncio abafado do barracão, cercada por muros de madeira que guardavam o calor do dia, o tempo parou. Eu estava presa entre a rugosidade das sacas de café e a força avaçaladora de Tião. Aquele horror inicial, aquela resistência moral que eu cultivara durante décadas como uma proteção contra o mundo, se evaporara, deixando no seu lugar uma sede que eu não sabia como saciar.
Ele virou-me de costas com um movimento decidido, sem pedir autorização, mas com uma autoridade que fazia o meu corpo responder antes mesmo que a minha mente processasse o comando. Senti as minhas mãos serem guiadas para o topo de uma pilha de sacos de juta, onde me apoiei. rosto voltado para a penumbra, a respiração saindo em espasmos curtos e desordenados.
O contraste entre a seda do meu vestido e a rugosidade da saca sob as minhas palmas era o retrato do que estava a viver, o encontro do refinamento com a terra. Depois posicionou-se atrás de mim. A presença de Tião era maciça, uma muralha de calor que me envolvia por completo. Quando levantou as camadas pesadas das minhas saias, sentiu o ar frio da tarde tocar na minha pele, apenas para ser imediatamente substituído pelo calor escaldante do corpo dele.
O meu marido, o O Dr. Arnaldo, fora um homem de gestos contidos, de uma delicadeza que roçava a ausência. Ele tocava-me como se eu fosse um objeto de porcelana que pudesse avariar a qualquer momento. O Tião não. O Tião tocava-me como se eu fosse a terra que precisava de domar, com uma força que não tinha medo da minha fragilidade, mas que a celebrava.
No momento em que ele tomou-me, o choque foi tão profundo que um grito agudo ficou preso na minha garganta. Foi uma invasão de poder, uma força sequencial e firme que ignorava todas as convenções sociais da exploração do Ouro Verde. Não havia hesitação no ritmo dele. Era o ritmo de quem bate o café, de quem maneja a enchada, de quem conhece a cadência da natureza.
Era um ritmo ancestral, implacável, que me arrastava-se para longe da titia Flávia e atirava-me para um território onde eu era apenas uma mulher, pulsante e viva. Sente isso, senh? Ele sussurrou perto do meu ouvido, a voz rouca vibrando através da minha coluna. Sente a vida que o seu barão nunca vai entender.
Eu não conseguia articular palavras. Os meus 48 anos de silêncio e decoro foram destruídos em segundos. O que brotou de mim foram gemidos que eu nem sabia que era capaz de emitir. Eram sons guturais, profundos, uma música de prazer e dor que ecoava pelo barracão vazio. Eu gemia horrorizada com a minha própria falta de controlo, mas gemia acima de tudo pela libertação.
Cada estocada dele, cada movimento daquela força masculina contra o meu corpo, parecia arrancar uma camada da armadura de luto que eu vestira por tanto tempo. O ritmo era sequencial, sem pausas para a dúvida. O Tião dominava-me com uma segurança que me fazia sentir pela primeira vez na vida, completamente protegida na minha vulnerabilidade.
Ele não me pedia nada. Ele simplesmente tomava o que o meu corpo estava oferecendo há décadas em silêncio. A força dele não era violência, era presença. Era a certeza de um homem que sabia exatamente onde o prazer se escondia. Sob as camadas de hipocrisia social. Os meus joelhos tremiam. Eu me agarrava à juta com as unhas, sentindo o cheiro do café seco subir e misturar-se ao cheiro do nosso esforço físico.
O o suor dele pingava-me nas costas, um calor que me marcava como ferro em brasa. Eu estava a ser possuída pelo homem de confiança do meu irmão, o homem que o mundo chamava escravo, mas que ali, naquele santuário de sombras, era o meu senhor absoluto. Aos 48 anos, eu descobria o auge da minha existência. Cada fibra do meu ser respondia àquele ritmo impiedoso.
O prazer era uma onda avaçaladora que me deixava sem fôlego, um espasmo que me percorria as pernas e fazia escurecer a minha visão. Eu não era mais a irmã do Barão Carlos Miguel. Eu não era a viúva de um médico de prestígio. Eu era a mulher de Tião, a terra que finalmente recebia a chuva que tanto esperara.
Quando o momento final chegou, foi como se todo o barracão explodisse em luz. Enterrei o meu rosto na juta para abafar o grito de entrega total, sentindo o peso e a força dele me esmagarem contra os sacos. O silêncio que se seguiu foi preenchido apenas pelo som das nossas respirações pesadas e pelo tamborilar da chuva que voltava a cair lá fora.
Tião não se afastou imediatamente. Ele manteve-me ali sob a sua proteção maciça, o calor dele ainda fundido ao meu. Eu estava trémula, exausta e pela primeira vez em toda a a minha vida completa. O ritmo do escravo me tinha devolvido a mim mesma. A luz da manhã seguinte entrou pelas frinchas da veneziana como uma acusação.
Eu acordei com o corpo pesado, uma sensação de lacidão que nunca havia experimentado. Cada músculo das minhas costas e das minhas coxas parecia ter uma memória própria, um eco do ritmo impiedoso de Tião no barracão. Ao me sentar na cama, o simples roçar do lençol de linho contra a minha pele me fez estremecer.
Eu estava desperta, irremediavelmente acordada. para sensações que a viúva de há 30 anos jamais ousaria imaginar. O ritual de me vestir tornou-se uma tortura de hipocrisia. Enquanto a mucama ajustava o espartilho, sentia o peito arder. Cada aperto nas barbatanas de baleia parecia uma tentativa van de conter o transbordamento da mulher que tinha gritado de prazer sobre sacos de juta.
Olhava para o espelho e via a mesma Flávia de sempre. O cabelo apanhado sem um fio fora do sítio, o vestido preto de gola alta, a palidez aristocrática, mas os olhos, os meus olhos guardavam uma sombra nova, uma profundidade pecaminosa que receava que todos pudessem ler. Desci para o pequeno-almoço com as pernas ainda vacilantes.
A mesa estava posta com o rigor de sempre. Prataria polida, fruta fresca e o aroma do café recém-passado. O mesmo cheiro que agora para mim estava intrinsecamente ligado ao suor e à pele de Tião. Carlos Miguel estava sentado à cabeceira, a ler relatórios de exportação. Ele levantou os olhos quando entrei e por um segundo o ar fugiu-me dos pulmões.
Senti como se o pecado estivesse escrito na minha testa com letras de brasa. Bom dia, Flávia. Parece cansada”, disse com aquela voz autoritária que costumava fazer-me tremer de submissão. “Dormiu mal com a tempestade?” O barulho no telhado foi inquietante, “Em”, respondi, a minha voz a sair mais rouca do que eu pretendia.
Sentei-me à mesa, as mãos tremendo ligeiramente ao segurar a chávena de porcelana. Eu olhava para o meu irmão, o Barão, o homem mais poderoso da região, o proprietário de vidas e de terras, e sentia uma angústia avaçaladora. Eu estava a traí-lo da forma mais viseral possível. Eu tinha entregado a honra da família Castelo Branco ao homem que considerava uma ferramenta de trabalho, mas juntamente com a angústia havia um triunfo sombrio.
Carlos Miguel possuía o corpo de centenas de pessoas pela força, mas ele não possuía a minha alma da forma que Tião agora possuía. O Tião disse-me que o barracão sul sofreu algumas infiltrações, mas que ele conseguiu salvar o carregamento a tempo”, comentou Carlos Miguel, regressando os olhos para os papéis.
Aquele homem vale ouro. É o único em quem confio de olhos fechados. O pedaço de pão que eu tentava engolir pareceu transformar-se em pedra. Confio de olhos fechados. As palavras do meu irmão ecoavam como uma piada cruel. Se ele soubesse que o ouro dele me tinha usado como terra fértil sobre os sacos que ele tanto prezava, o sangue correria antes do meio-dia.
A dualidade da minha situação era sufocante. Eu era a irmã amada e respeitada, mas era também a cúmplice de um desejo que derrubasse todo aquele império de aparências. A cada gole de café, sentia o pecado no café. O sabor da bebida era agora o sabor da a minha transgressão. Sentia-me suja e, ao mesmo tempo, purificada de uma vida de tédio.
Perto do meio-dia, saí para a varanda lateral. De longe, V Tião no terreiro. Ele estava a descarregar uma carroça. Não olhou para o casarão, não fez qualquer sinal, mas a forma como ele movia-se, com aquela confiança de quem sabe exatamente o que conquistou, era um recado direto para mim. Ele não precisava de olhar.
Ele sabia que eu estava ali escondida atrás das colunas, observando o homem que me dominara com uma força que o Dr. Arnaldo nunca teve. A angústia era real? Mas a saudade era maior. Olhar para o meu irmão e carregar este segredo era como caminhar sobre brasas escondidas sob um tapete de veludo. Eu era uma traidora, uma mulher perdida para a sociedade, uma titia que tinha deitado a descência no lixo.
Mas quando fechei os olhos por um breve momento, o que senti não foi arrependimento, foi o calor maciço de O Tião contra as minhas costas e a promessa de que no escuro da plantação, eu deixaria de ser a irmã do Barão para ser finalmente mulher. O pecado estava plantado e agora teria de aprender a colher os seus frutos sem ser descoberta.
O O capítulo 12 marca a transição definitiva da Flávia. A caça torna-se cúmplice e assim a descobre que a sua verdadeira liberdade reside na entrega total ao domínio de Tião. Capítulo 12. A entrega voluntária. A vergonha, que antes era uma sombra persistente nos meus calcanhares, começou a transformar-se em algo mais perigoso, necessidade.
Nos dias que se seguiram ao incidente no barracão, a rotina do palacete tornou-se uma farça insuportável. Eu caminhava pelas salas de jantar, organizava os bordados com as outras senhoras da aldeia e ouvia as queixas do meu irmão sobre o preço do café. Mas o meu espírito não estava lá. A minha mente era uma prisioneira que só encontrava paz nos cenários da minha transgressão.
Eu não fugia mais. A resistência que eu utilizava como escudo, aquela frieza de mármore e o olhar de desdém desmoronou-se completamente. Eu dava por mim inventando desculpas para atravessar o terreiro de secagem ou pedindo para inspecionar pessoalmente o armazenamento das ferramentas, apenas para ter a hipótese de sentir o ar a mudar com a presença dele.
Eu já não era a titia Flávia em busca de ordem. Eu era uma mulher em busca do seu dono. Certa tarde, quando o mormaço de São Paulo parecia fundir o horizonte, eu procurei-o ativamente. Sabia que ele estaria na parte baixa da quinta, supervisionando a reparação de uma das moendas que tinha quebrado.
Caminhei com passos firmes, ignorando o suor que brotava sob o meu espartilho. Quando o avistei sozinho sob o abrigo de um telhado de colmo, o meu coração não disparou de medo, mas de uma antecipação que me fazia tremer os joelhos. Ele me viu chegar. Tião não parou o que estava fazendo. Continuou a apertar um parafuso de ferro com as mãos nuas, os músculos dos braços saltando como raízes expostas.
Assim está longe de casa”, disse, sem levantar o olhar, mas com aquele tom de voz que já possuía o meu corpo. “Vim ver se o trabalho estava sendo bem feito”, respondi. A mentira era tão evidente que o arreceu vibrar. Tião largou a ferramenta e levantou-se. Ele limpou as mãos sujas de gracha e terra num trapo velho e deu um passo em minha direção.
A luz do sol entrava lateralmente, esculpindo cada linha de o seu rosto impiedoso. “A senhora não veio ver o trabalho, Flávia?”, disse, eliminando o título social, como quem rasga um papel inútil. A senhora veio porque já não aguenta mais ser a dona de si mesma. Aquelas palavras deviam ter-me ofendido profundamente. Eu era uma mulher de linhagem, uma proprietária, a autoridade feminina máxima naquela quinta.
No entanto, perante ele, a minha autoridade de Simá derretia como cera perto do fogo. Eu descobri naquele momento de entrega voluntária que eu adorava ser comandada por ele. Havia um indescritível alívio em deixar de carregar o peso da minha posição social e tornar-me apenas matéria sob o domínio daquela força. Sim, confessei num sussurro que era quase um suspiro de derrota.
Eu vim, porque tu não sais da a minha mente. Tian sorriu. Não era um sorriso amável, era o sorriso de quem conhece a extensão do seu poder. Ele segurou-me o queixo com os dedos calejados, obrigando-me a olhar para o abismo dos seus olhos negros. Então, baixe a cabeça aqui fora, sob este tecto, a senhora não manda em nada. Aqui a senhora obedece.
O choque de ser tratada daquela forma trouxe-me um prazer que roçava a agonia. Eu, que passara 48 anos a ser servida, sendo respeitada, sendo tratada como um cristal entocado, encontrei a minha verdadeira essência ao ser colocada em o meu lugar por ele. A força dele era um iman. Quando me puxou para a penumbra do abrigo, não ofereci resistência. Eu queria ser levada.
Queria que ele usasse aquela força que o meu marido nunca teve para me mostrar que a minha vida só começara agora. Eu Descobri que a submissão não era fraqueza, mas uma forma profunda de confiança. Ao deixar que ele me dominasse, libertava-me de todas as expectativas do meu irmão, da sociedade e do meu passado morto.
No ritmo sequencial e firme que ele impunha, eu encontrava uma ordem que a contabilidade da quinta nunca me poderia dar. Naquela tarde, entre o barulho metálico das máquinas paradas e o cheiro a óleo e terra, entreguei-me totalmente. Eu já não era a irmã do Barão Carlos Miguel. Eu era a mulher que esperava ansiosamente pela próxima ordem, pelo próximo toque bruto, pela próxima confirmação de que o meu corpo agora pertencia a um ritmo que não era o meu.
A entrega fora voluntária, mas a posse era absoluta. E enquanto eu regressava a o palacete ao entardecer, recompondo o vestido e a máscara de dignidade, eu sabia que a verdadeira Sá ficara para trás, sepultada sob o comando de Tião. O tempo que antes se arrastava na quinta do ouro verde, parecia agora ter o ritmo frenético de um coração apaixonado.
As tardes no barracão, os encontros furtivos no pomar, os momentos roubados sob a sombra das grandes árvores de café. Cada vez que o Tião me tomava, sentia-me mais viva, mais mulher e mais profundamente enredada num desejo que desafiava toda a minha existência anterior. Mas com o prazer vinha o risco, uma sombra constante que parecia crescer a cada novo encontro.
Carlos Miguel, o meu irmão, não era um homem tolo. Era astuto, perspicaz, e a sua autoridade estendia-se por cada centímetro daquelas terras. Embora ele estivesse ocupado com os negócios e com a vida social da província, sentia o seu olhar de águia sobre mim, como se conseguia ler as marcas invisíveis que O Tião deixava no meu corpo e na minha alma.
Cada vez que ele me perguntava sobre a demora em alguma tarefa ou sobre os meus passeios pela quinta, o meu sangue gelava e eu sentia o pânico a apertar-me o peito. Uma tarde, a tensão atingiu o seu ponto máximo. Carlos Miguel tinha viajou para a capital para resolver assuntos de exportação e eu, imprudentemente decidi aproveitar a ausência dele para trazer o Tião para mais perto do palacete.
Encontrei-o no setor de manutenção, onde estava inspecionando algumas carruagens. Meus olhos encontraram-se com os dele e a comunicação silenciosa foi instantânea. Ele sabia o que eu queria e eu sabia que ele viria. Combinamos encontrar-nos no estábulo, um lugar afastado o suficiente para a descrição, mas perigosamente próximo da casa.
O cheiro de feno, couro e animal era inebriante e Sentia-me mais selvagem, mais livre. O corpo do Tião, quando me puxou para escuridão de uma baia vazia, era uma promessa de tudo o que eu tinha negado durante quase meio século. “A senhora está arriscando-se, Flávia”, sussurrou ele, a voz rouca, enquanto me apertava contra a madeira áspera.
Os seus lábios buscavam meu pescoço e cada toque era uma faísca. Não me importo ofeguei, sentindo a força dos teus braços à minha volta. O perigo era um poderoso afrodisíaco, um tempero para o desejo que já me consumia. A possibilidade de sermos apanhados, de toda a minha vida desmoronar, só fazia o sangue correr mais depressa em as minhas veias.
Ele tomou-me com a urgência que o medo trazia. O ritmo era mais rápido, mais intenso, uma dança desesperada entre a paixão e a eminência da descoberta. Os meus gemidos eram abafados contra a gola da sua camisa e as minhas mãos agarravam-se aos seus ombros, tentando silenciar os meus próprios gritos de prazer. Eu amava aquela sensação de ser possuída, de ter a minha vontade subjulgada por ele, sobretudo quando o risco de sermos apanhados era tão alto.
Foi então que ouvimos o som. O galope de um cavalo. Um galope forte, inconfundível. Carlos Miguel. O meu coração saltou para a garganta. O sangue fugiu-me do rosto e o prazer que me dominava transformou-se num terror paralisante. O Tião parou imediatamente, o corpo tenso contra o meu.
Ele olhou para mim, os olhos arregalados e, por um segundo, viu o mesmo pânico em o seu rosto. “Ele não devia ter voltado tão cedo”, sussurrou, com a voz tensa. O som do cavalo aproximava-se rapidamente, vindo da estrada principal que levava diretamente aos estábulos. Em segundos, Carlos Miguel estaria ali, meu irmão, com a sua rectidão e o seu chicote.
“Me esconder”, sussurrei, as palavras saindo quase sem som. Tião não hesitou. Com um movimento rápido e forte, ele fez-me empurrou para trás de uma pilha alta de feno. Caí sem tempo para reagir no meio da palha seca. O cheiro forte e picante do feno invadiu as minhas narinas. Tião recompôs-se num instante, agindo com a calma de um homem que passava por situações de risco diariamente.
Ele pegou numa cela e começou a inspecionar uma das baias, agindo como se estivesse apenas no seu trabalho rotineiro. O ranger dos portões dos estábulos ecoou e, de seguida, ouvi a voz inconfundível do meu irmão. Tião a voz dele ressoou, seca e autoritária. O que faz aqui a esta hora? Não esperava regressar antes do jantar.
Eu estava encolhida no feno, sentindo a palha arranhar-me o pescoço, o vestido amarrotado e amarrotado. Meu coração batia com tanta força que parecia que ia explodir. Eu podia ouvir as vozes dos dois tão perto. O cavalo do Barão parecia ter um problema com o arreio. Meu senhor. Estava a ajeitar tudo para que o senhor não tivesse nenhum atraso”, respondeu Tião.
A voz surpreendentemente calma. A sua capacidade de mentir sob pressão era impressionante. Carlos Miguel resmungou algo sobre a eficiência de Tião e a imprudência de confiar nos outros. Eu podia sentir os passos dele a se aproximando-se da minha baia. Ele estava tão perto. Eu sustive a respiração, sentindo o suor escorrer pela minha têmpora.
Se ele olhasse para baixo, se ele sentisse o cheiro forte a perfume francês, o meu, misturado no feno, tudo estaria perdido. Bem, parece que tudo está em ordem, Tião. Prepare o cavalo do jantar. Estarei no escritório, disse Carlos Miguel. E para meu alívio indescritível, os seus passos afastaram-se. Ouvi o som dos portões a fechar.
Tian aproximou-se da pilha de feno e deu-me ajudou a sair. Eu estava trémula, o rosto manchado de pó e lágrimas de medo, mas sob o terror havia uma chama. O perigo tinha aguçado o meu desejo, e a proximidade da descoberta só fez com que a minha entrega ao Tião se tornasse ainda mais intensa, mais viciante.
“Foi por pouco, sim?”, sussurrou, os olhos ardendo com um brilho de triunfo. “Ele não faz ideia do que a senhora faz quando está longe do seu olhar.” Eu Olhei para ele e soube que não havia volta. O risco era a nova pimenta na a minha vida. E eu, a viúva de 48 anos, agora desejava ser novamente possuída, desafiando a sua própria sorte, porque a adrenalina do perigo misturava-se ao ritmo do prazer que só o Tião me podia dar.
O palacete era uma prisão e Tião, com os seus toques proibidos, a chave para uma liberdade perigosa. Manter a a compostura tornou-se a minha obra de arte mais requintada. Ao pequeno-almoço, sob o olhar vigilante de Carlos Miguel e o burburinho dos meus sobrinhos, eu era a personificação da virtude. Sentava-me com as costas direitas, a gola de renda impecavelmente alva, contrastando com o preto profundo do meu vestido, e servia o café com mãos que ninguém suspeitaria terem-se agarrado desesperadamente às costas de um homem poucas horas antes.
Era a titia Flávia, o porto seguro da moralidade na fazenda do Ouro Verde. Por fora, uma viúva séria de gestos contidos e palavras medidas. Por dentro, uma mulher em chamas. A cada bom dia que eu proferia, sentia o peso da farça. Minha pele, sob as camadas de linho e o espartilho, parecia pulsar com uma eletricidade latente.
Eu sentia cada centímetro onde Tião deixara a sua marca. cada músculo que ainda doía com a intensidade da nossa entrega no estábulo. O perigo de quase termos sido apanhados pelo meu irmão não me tinham trazido cautela, mas uma urgência doentia. A adrenalina daquela tarde no feno tinha se misturado com o meu sangue, transformando-me numa viciada na sensação de ser dominada.
“Flávia, tu parece distraída hoje”, comentou Carlos Miguel, limpando os lábios com o guardanapo de linho. A organização da festa das colheitas está nas suas mãos. Espero que nada falte. Não se preocupe, irmão. Tudo está controlado, respondi, forçando um sorriso que não chegava aos os meus olhos. Sob controlo.
Que mentira descarada. Nada estava sob controlo. Os meus pensamentos eram cavalos selvagens que galopavam em direção às sombras da plantação a cada segundo. Eu contava os minutos, as batidas do relógio de carvalho na sala de jantar, soando como marteladas na minha sanidade mental. O dia era um obstáculo, uma sucessão de tarefas domésticas sem sentido que eu cumpria com uma eficiência mecânica.
Eu supervisionava a lavagem da roupa, conferia as contas da dispensa e ouvia as queixas das mucamas. Mas a minha alma estava noutro lugar. Eu procurava o sol com os olhos através das janelas, implorando para que descesse mais rápido. O pô do sol, que antes representava o fim de um dia monótono, era agora o prelúdiio da minha verdadeira vida.
Só quando a luz morria e as sombras tornavam-se soberanas na quinta, é que eu podia deixar de ser a máscara para ser a carne. À tarde, enquanto me sentava na varanda com o meu bordado, vi o Tião atravessar o pátio. Ele não parou, não olhou para mim, mas a forma como ele caminhava com aquela arrogância silenciosa era um comando.
Eu senti o meu baixo ventre contrair-se. Aos 48 anos, descobria que a luxúria não era um privilégio da juventude, mas uma força que podia renascer com uma violência avaçaladora em quem passara a vida inteira dormência. Eu odiava a máscara, detestava o respeito que as pessoas me dedicavam, sem saber que aquela mulher respeitável ardia de desejo pelo homem que transportava as sacas de café.
Mas ao mesmo tempo, a máscara era o meu escudo. Era o que me permitia estar perto dele, o que me permitia transitar pela quinta sem suscitar suspeitas imediatas, embora o risco estivesse sempre lá, espreitando como uma fera faminta. A cada hora que passava, o calor dentro de mim aumentava. Eu sentia o cheiro do suor de Tião nos meus próprios pensamentos.
Eu imaginava as suas mãos calejadas, rasgando novamente a minha falsa descência. A submissão que eu experimentara tornara-se o meu único oxigénio. Eu não queria ser a dona da casa, eu queria ser a terra que ele desbrava. “A senhora deseja que eu traga o chá na varanda, dona Flávia?”, perguntou uma das criadas. Não”, – respondi, levantando-me bruscamente.
“Vou recolher-me mais cedo hoje. Sinto uma ligeira dor de cabeça. A mentira fluiu com facilidade. Caminhei para o meu quarto, mas não para descansar. Tranquei a porta e diante do espelho comecei a desabotoar o vestido preto. Eu via a mulher que o mundo respeitava desmoronar-se peça a peça.
Sob o crepe havia uma mulher que contava os segundos para a noite cair. O sol começou finalmente a mergulhar atrás das colinas, tingindo o céu de um vermelho violento. O momento estava a chegar. O solha para o barão e para a ordem, mas ele nascia para mim. Eu estava pronta para trocar a dignidade da titia pela glória de ser possuída, mais uma vez pelo ritmo daquele que era o dono de cada centímetro da minha vontade secreta.
A noite caiu sobre a exploração do ouro verde, com uma densidade que parecia abafar até o som dos grilos. No meu quarto, o silêncio era interrompido apenas pelo estalar da madeira do palacete, que parecia suspirar sob o peso de segredos seculares. Eu estava diante do espelho, mas a mulher que ali via já não era a sombra pálida que habitava estas paredes há três décadas.
Os meus olhos tinham um brilho febril e os meus lábios, antes cerrados numa linha de amargura, estavam entreabertos, famintos pelo ar da noite, que trazia o perfume da terra e do café. Eu aceitei. Essa foi a palavra que finalmente trouxe paz ao meu peito. Aceitei que a riqueza do Barão Carlos Miguel, os hectares intermináveis de terra e o nome que eu carregava com tanto custo não passavam de correntes douradas.
Eu era assim, mas a verdade é que eu passara 48 anos numa prisão de mármore. A liberdade não estava no meu título de viúva, mas no suor que escorria pelas minhas costas quando o Tião me tomava entre os sacos de juta. Saí do quarto com os pés descalços, sentindo o açoalho frio contra a pele, um toque direto com a realidade que eu antes evitava.
Caminhei pelos corredores escuros, passando pela porta do escritório, onde o meu irmão provavelmente sonhava com lucros e heranças. Ele não não tinha nada, eu tinha tudo. Eu tinha o conhecimento do meu próprio corpo, um território que só foi desbravado quando as mãos calejadas de Tião decidiram que eu valia o risco.
Encontrei-o no lugar de sempre, onde a escuridão da plantação engole a luz das lamparinas do palacete. Estava encostado a uma das colunas do barracão de ferramentas, a silhueta imponente contra o luar. Ele não se moveu-se quando me aproximei. Ele não precisava. Ele sabia que eu viria, da mesma forma que o café sabe que precisa do sol para amadurecer.
A senhora demorou hoje, Flávia, disse ele, a voz grave sendo a única lei que eu agora reconhecia. A máscara estava pesada demais para tirar o Tião”, respondi parando diante dele. Ele aproximou-se e segurou-me o rosto com as duas mãos. O contraste entre a sua pele de bronze e a a minha brancura aristocrática era a prova final da nossa transgressão.
Ele me olhou com aquela altivez que antes me causava repulsa e que agora era o meu único norte. A senhora sabe que não há mais volta. Se o barão descobre, não haverá nome que a salve. Ele alertou, embora os seus dedos estivessem a subir para desatar as rendas do meu pescoço. “Já estou salva”, sussurrei, fechando os olhos sob o seu toque.
“Pela primeira vez em 48 anos, não sou uma propriedade da família Castelo Branco. Eu sou dona da minha vontade e da minha vontade escolheu-o”. Ali, sob o manto de uma noite que não pedia autorização, a entrega foi mais profunda do que todas as as anteriores. Não havia mais o choque do horror, nem a adrenalina do medo de ser apanhada.
Havia apenas a aceitação de que eu era escrava dos meus próprios desejos. Eu adorava a submissão que ele impunha-me, porque era uma submissão escolhida. Eu entregava-me ao ritmo firme e sequencial dele, porque era a única música que fazia sentido no meu deserto de silêncio. Enquanto ele me dominava com aquela força bruta e segura, percebi que a verdadeira hierarquia da vida não se faz em cartórios ou igrejas.
O dono da minha vontade não era o homem que me dera um apelido, nem o irmão que me dera um teto. O dono da minha vontade era o homem que me ensinou o que é o prazer. Era o homem que com um olhar derrubava todas as minhas defesas e mostrava-me que a carne não envelhece quando encontra o seu par. Eu gemia sem vergonha agora.
Os meus gritos eram uma oração de agradecimento às trevas. Eu era uma mulher de 48 anos que acabara de nascer. Ao amanhecer, quando regressei a o palacete e coloquei novamente o meu vestido preto de viúva, sorri para o espelho. A titia voltaria a servir o chá e a organizar os bordados. Ela continuaria a ser a imagem da virtude para o barão e para a província.
Mas por baixo da gola de renda, no calor da a minha pele escondida, carregava a certeza de que a autoridade da SH era apenas uma fantasia. Eu era livre porque pertencia a um desejo que ninguém poderia confiscar. Eu era livre porque nas sombras da fazenda do ouro verde eu encontrara o homem que me sabia governar melhor do que eu própria.
O luto de três semanas finalmente terminara. A minha vida enfimara. Yeah.