A Ilusão do Crime e o Fim Brutal de Adriana Miranda Paz
No interior do Pará, a cidade de Igarapé-Miri é famosa por sua produção de açaí, mas, longe dos pomares, uma realidade muito mais sombria se desenrola. Foi nesse cenário de contrastes que Adriana Miranda Paz, de apenas 21 anos, viu sua vida ser interrompida de forma devastadora. Conhecida nas ruas e, mais tarde, tristemente famosa em todo o estado como “Drica do Pó”, Adriana tornou-se o rosto de uma tragédia que ilustra o perigoso ciclo de envolvimento com facções criminosas e a impiedade do chamado “Tribunal do Crime”.
Mãe de uma menina pequena, Adriana era descrita por conhecidos como uma jovem comunicativa e simpática. Nas redes sociais, ela compartilhava fotos sorridentes ao lado da filha, projetando a imagem de uma vida comum. [01:19] No entanto, nos bastidores, a jovem havia mergulhado em uma rede perigosa. O que começou com favores aparentemente inofensivos para amigos — levar recados ou entregar pequenos pacotes — rapidamente escalou para o transporte de entorpecentes, principalmente cocaína. Sem ocupar cargos de liderança, ela se tornou uma peça logística útil, uma “mula” que circulava pela cidade sem levantar as suspeitas que recairiam sobre os membros mais conhecidos das facções.
O Dia do Desaparecimento e o Silêncio de Igarapé-Miri
O pesadelo da família de Adriana começou em 20 de março de 2021. Por volta das 13 horas, ela foi vista pela última vez na companhia de uma amiga. Quando não retornou para casa, seu pai, desesperado, procurou as autoridades locais para registrar o desaparecimento. [02:01] No entanto, em cidades dominadas pelo crime organizado, o silêncio é a primeira regra de sobrevivência. Ninguém falava, ninguém via nada. A comunidade sabia que, quando alguém envolvido com o tráfico sumia de repente, as engrenagens do “Tribunal do Crime” já estavam em movimento.
Dias depois, o que era um temor silencioso transformou-se em um choque público. Vídeos de um interrogatório começaram a circular em grupos de mensagens instantâneas. Nas imagens, Adriana aparecia cercada por homens armados, visivelmente aterrorizada. O tom dos criminosos era gélido. Eles buscavam informações sobre Dion Rodriguez, o “Didi”, um ex-integrante do Comando Vermelho que havia rompido com a facção para formar seu próprio grupo. Drica foi acusada de manter ligações com ele e de ter desviado parte de uma carga de drogas.

O Interrogatório e a Sentença de Morte Filmada
Durante o vídeo, Adriana tentava desesperadamente se defender. Ela explicava sua função limitada no esquema, afirmando que apenas deixava a “massa” (droga) em locais combinados e que sentia pavor das figuras centrais do crime. [03:01] Em um momento de extrema angústia, ela implorou por sua vida, chegando a oferecer-se para levar os executores até onde supostamente estariam as pessoas que procuravam. Suas palavras, entretanto, foram ignoradas pela frieza de quem já havia decidido sua sorte.
A sentença foi executada ali mesmo, em uma área de mata. Drica do Pó foi assassinada com tiros na cabeça. O vídeo da execução, divulgado pelos próprios criminosos como uma forma de demonstração de poder e aviso para outros, espalhou-se rapidamente. [04:43] Foi através dessas imagens brutais que o pai de Adriana teve a confirmação trágica da morte da filha. A brutalidade do crime ganhou repercussão nacional, expondo a fragilidade da segurança pública no interior paraense, onde, na época, apenas sete policiais eram responsáveis por uma população de mais de 60 mil habitantes. [05:39]
Investigação, Prisões e as Marcas do Medo
A Polícia Civil do Pará instaurou um inquérito que confirmou que a execução foi ordenada pelo Comando Vermelho. Apesar das dificuldades logísticas, as investigações avançaram. Pouco tempo depois da morte de Adriana, o próprio “Didi” foi morto em confronto com a polícia. Operações subsequentes resultaram na prisão de suspeitos de participação na morte da jovem e na apreensão de fuzis e munições pesadas, evidenciando o poder bélico dessas organizações. [06:12]
Hoje, a filha de Adriana cresce sob os cuidados de uma tia, longe do mundo que consumiu a vida de sua mãe. O nome “Drica do Pó” permanece gravado na memória local não apenas como o relato de uma morte violenta, mas como um símbolo da falência social e do domínio territorial das facções sobre regiões periféricas e esquecidas pelo Estado. A história de Adriana Miranda Paz é um lembrete cruel de que, no mundo do crime organizado, não há lealdade e o custo de um erro — real ou imaginário — é, invariavelmente, a própria vida. [08:03]