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O CAPITÃO DO CRIME: A TRAJETÓRIA DO HOMEM MAIS TEMIDO DO RIO, DE ELITE DO BOPE A LÍDER DE MILÍCIA

A crônica policial brasileira é repleta de narrativas complexas, mas poucas são tão emblemáticas e sombrias quanto a de Adriano da Nóbrega. Como um oficial condecorado, treinado à exaustão pelo Estado para ser a ponta de lança no combate ao crime, transmutou-se no arquiteto de uma das organizações criminosas mais temidas do Rio de Janeiro? A trajetória do ex-capitão do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE) é um espelho das profundas contradições e infiltrações que assolam a segurança pública fluminense. De herói tático, condecorado por autoridades, a suposto líder do infame “Escritório do Crime”, Adriano personificou a linha tênue e, frequentemente, rompida entre a lei e a contravenção. Sua morte, ocorrida durante um cerco policial no interior da Bahia em 2020, não apenas encerrou uma caçada cinematográfica, mas também selou, para muitos, os lábios de um arquivo vivo que guardava os segredos mais obscuros das ligações entre milícias, o jogo do bicho e as altas esferas do poder político no Brasil.

A delação da viúva de Capitão Adriano - R7 Estúdio - R7 R7 Estúdio

A Ascensão do “Anjo Caído”: Excesso de Zelo e Tecnologia

A história de Adriano na Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro (PMERJ) começou em 1996 e, desde cedo, sua aptidão bélica era inegável. Ele não era apenas um policial; ele era um operador de elite em sua forma mais pura. Especializando-se em táticas de atirador de elite (sniper) e segurança de autoridades, Adriano logo alcançou o cume da corporação ao ingressar no BOPE nos anos 2000. Seu desempenho acadêmico e prático beirava a perfeição: obteve o primeiro lugar em todas as 14 disciplinas rigorosas do curso de operações especiais. No entanto, o que deveria ser o perfil ideal de um servidor público logo se revelou o seu calcanhar de Aquiles.

O “excesso de zelo” de Adriano começou a gerar desconforto. Diferente do policial padrão, seu vício pelo combate transcendia o expediente oficial. Relatos de colegas e superiores da época descrevem um oficial que, frequentemente, conduzia incursões em áreas dominadas pelo tráfico utilizando seu veículo particular e vestindo trajes civis, à revelia de qualquer protocolo ou autorização de seus comandantes. Ele agia como uma força autônoma dentro do Estado. Além disso, Adriano era um aficionado por tecnologia militar e de espionagem. Oficiais relataram que ele frequentemente apresentava equipamentos adquiridos com recursos próprios, antes mesmo que a corporação os adotasse. Foi ele, por exemplo, quem introduziu o uso de bloqueadores de sinal (jammers) — equipamentos utilizados para impedir comunicações via celular e GPS. A questão que ecoava nos corredores do quartel era perturbadora: por que um oficial do BOPE precisava de bloqueadores de sinal em operações extraoficiais? A resposta, embora velada, sugeria a intenção de neutralizar não apenas os criminosos, mas também de ocultar seus próprios rastros. A recusa sistemática em seguir as regras da corporação culminou no seu afastamento do BOPE, marcando o início da sua transição para as sombras.

Prisões, Condecorações e Contradições

A partir de 2003, atuando na PM regular, Adriano começou a pavimentar alianças que marcariam o resto de sua vida, incluindo ligações com figuras como Fabrício Queiroz e o então deputado estadual Flávio Bolsonaro. O ano de 2004 foi um divisor de águas. Adriano foi preso sob a acusação de executar Leandro dos Santos Silva, um guardador de carros (“flanelinha”), na favela Parada de Lucas. A versão da PMERJ apontava que a vítima havia denunciado um esquema de extorsão operado por policiais, motivo pelo qual teria sido assassinada.

É nesse cenário de gravíssimas acusações que a trajetória de Adriano expõe as vísceras da política carioca. Enquanto aguardava julgamento atrás das grades, o então tenente recebeu a Medalha Tiradentes, a mais alta honraria concedida pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj). A homenagem foi proposta pelo deputado Flávio Bolsonaro, que justificou a comenda pelos serviços prestados por Adriano no combate ao tráfico, citando apreensões de armas e drogas no Morro da Coroa. A imagem de um oficial preso por homicídio sendo condecorado pelo Legislativo é uma anomalia que define a complexidade do caso.

Em outubro de 2005, a justiça o condenou, em primeira instância, a 19 anos de prisão. Contudo, a rede de apoio em torno de Adriano era formidável. O então deputado federal Jair Bolsonaro discursou no plenário da Câmara dos Deputados em sua defesa, alegando que o oficial estava sendo vítima de uma injustiça. No ano seguinte, após recurso da defesa, Adriano foi absolvido e retornou aos quadros da PM. Relatos de seu advogado na época revelam a frieza do ex-capitão: antes da absolvição, ele se mostrava absolutamente tranquilo, polindo suas armas em casa e afirmando com convicção que “ninguém iria depor contra ele”. O medo imposto por sua reputação já operava como seu melhor escudo.

O Mergulho no Submundo: Do Jogo do Bicho ao “Patrãozão”

Afastado do BOPE e com a absolvição no currículo, Adriano percebeu que a estrutura formal da Polícia Militar já não comportava suas ambições e métodos. A partir de 2006, ele passou a oferecer seus serviços de “segurança” para as famílias que comandavam a contravenção no Rio de Janeiro, especificamente o clã de Valdomiro Paes Garcia, o “Maninho”, um dos bicheiros mais poderosos do estado. No entanto, o papel de Adriano rapidamente extrapolou a segurança pessoal; ele se tornou a lâmina afiada das disputas territoriais do jogo do bicho, atuando, segundo investigações, como um assassino de aluguel altamente especializado.

Entre 2006 e 2009, o ex-capitão foi investigado por envolvimento em pelo menos oito homicídios ligados à máfia do bicho. Mais uma vez, o padrão se repetia: ele não era condenado, pois o terror atrelado ao seu nome silenciava qualquer testemunha potencial. A frieza com que operava, muitas vezes descrita por ex-colegas como a de um psicopata, contrastava com erros táticos pontuais, como o ocorrido no início de 2007. Contratado pelo bicheiro “Zé Personal” para assassinar Guaraci Paes Falcão (o “Guará”), Adriano e seus comparsas seguiram um Peugeot preto e o metralharam em uma estrada isolada, apenas para descobrir que haviam executado um casal inocente que não possuía qualquer relação com o crime. Um mês depois, em fevereiro de 2007, a missão foi corrigida: Guará e sua esposa foram assassinados com 15 tiros de fuzil.

As guerras do bicho consumiram vários de seus contratantes, como Rogério Mesquita, morto em Ipanema em 2009, e o próprio Zé Personal, executado em 2011. Adriano, por sua vez, sobreviveu à sangria da contravenção, mas não ao processo administrativo da PM. Em 2014, a corporação finalmente o expulsou, reconhecendo a incompatibilidade de ter um oficial atuando como segurança para a máfia. Paralelamente, os laços políticos se mantinham: desde 2007, a esposa de Adriano, e posteriormente sua mãe, integraram o quadro de assessores do gabinete de Flávio Bolsonaro, evidenciando uma proximidade que, anos mais tarde, seria alvo de intensas investigações do Ministério Público.

Expulso da polícia, Adriano ascendeu na hierarquia do crime. Ele deixou de ser apenas um braço armado da contravenção para estruturar e comandar o “Escritório do Crime”, um grupo paramilitar (milícia) que operava sob a lógica do terror. Agora conhecido como “Patrãozão”, ele comandava esquemas de extorsão de moradores e comerciantes (“taxa de segurança”), venda ilegal de gás, gatonet (internet clandestina) e grilagem de terras. A atuação imobiliária ilegal do grupo ficou tristemente marcada em 2019, quando dois prédios construídos irregularmente pela milícia na Muzema desabaram, vitimando 24 pessoas.

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A notoriedade do “Escritório do Crime” atingiu seu ápice com as investigações do assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, em 2018. Embora Adriano não tenha sido formalmente acusado como executor ou mandante direto, sua liderança sobre um grupo especializado em assassinatos por encomenda e suas conexões políticas o colocaram no radar das apurações como um nome inescapável do submundo que vitimou a parlamentar.

A Caçada Final e as Dúvidas que Permanecem

Com a fama de exímio atirador, profundo conhecedor de táticas de inteligência e operador solitário de alta periculosidade, Adriano tornou-se um passivo. Como bem definiu um delegado da polícia carioca: “Chega uma hora em que esses matadores querem rivalizar com os patrões. É aí que são mortos e substituídos”. Em 2019, com um mandado de prisão expedido pela justiça, Adriano tornou-se um fugitivo. Ele compreendia que, naquele momento, as ligações com clientes poderosos o tornavam um alvo de “queima de arquivo”. Seu advogado na época, Paulo Emílio Catta Preta, relatou que o cliente lhe confidenciara o medo de ser executado, afirmando ter a certeza de que a polícia “não ia para prendê-lo de verdade, mas para matá-lo”.

Adriano da Nóbrega: Qual é a relação entre acusado de chefiar milícia morto e Flávio Bolsonaro? - BBC News Brasil

O ex-capitão refugiou-se no interior da Bahia. A polícia do Rio, impossibilitada de localizá-lo diretamente, adotou a tática de monitorar sua rede familiar. Em janeiro de 2020, após rastrear uma tentativa de encontro com a esposa na Costa do Sauípe, as forças de segurança iniciaram um cerco que culminaria no dia 9 de fevereiro. A operação para capturá-lo envolveu 70 policiais baianos, uso de drones, helicópteros e veículos blindados. Para evitar vazamentos ou intimidações, parte da tropa sequer sabia a identidade do alvo. Encurralado em uma propriedade em Esplanada (BA), Adriano foi abatido. A versão oficial relata uma troca de tiros iniciada pelo foragido.

Những bức ảnh chụp thi thể của Adriano da Nóbrega củng cố thêm nghi ngờ có sự che đậy | VEJA

Perícia conclui que Adriano da Nóbrega morreu em troca de tiros com a polícia | CNN Brasil

Exclusivo: Investigação abre novos mistérios sobre morte de Adriano da Nóbrega | VEJA

No entanto, a sombra da execução sumária paira sobre o caso. A família de Adriano, incluindo sua esposa, acusou publicamente o então governador do Rio, Wilson Witzel, de orquestrar a morte como queima de arquivo, alegando repasses milionários ao político na campanha de 2018 — acusações veementemente negadas por Witzel. O fato é que Adriano morreu levando consigo um conhecimento profundo e detalhado das engrenagens que unem a segurança pública, a milícia, o jogo do bicho e a política no Rio de Janeiro.

O “Capitão do Crime” morreu sem que houvesse, ironicamente, condenações ativas em sua ficha criminal. A sua trajetória de impunidade revela a força do medo e das alianças que forjou. A pergunta que reverbera desde a operação na Bahia é se o homem que por tantos anos silenciou adversários, extorquiu comunidades e executou desafetos, acabou sendo vítima do mesmo sistema que ajudou a fortalecer: o sistema onde pontas soltas, inevitavelmente, são apagadas para garantir a sobrevivência de um crime maior e sistêmico. O legado de Adriano da Nóbrega é o retrato de um Estado que perdeu o controle sobre as próprias armas que forjou.

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