No dia 14 de novembro de 2019, às 6:42 da manhã, Renato Bastos Erênio postou uma fotografia nas stories do Instagram. Mostrava a borda do cânone do Itaimbezinho, ainda coberta por nevoeiro com a legenda Chegamos Antes do Sol. O telemóvel registou a localização automaticamente. Parque Nacional de Aparados da Serra, Cambará do Sul, Rio Grande do Sul.
A foto teve 17 visualizações. A última pessoa a ver foi a mãe Ivone às 7:15 enquanto tomava café em Caxias do Sul. Ela tentou responder. O aplicativo mostrou apenas um relógio a rodar. A mensagem nunca foi entregue. Renato tinha 26 anos. Trabalhava como técnico em refrigeração numa empresa de média porte em Caxias do Sul.
Tinha uma namorada de 4 anos chamada Camila, um cão rafeiro que atendia pelo nome de farofa e uma rotina que qualquer vizinho descreveria como previsível. acordava cedo, voltava a horas, jantava a ver o jornal com a mãe. Aos fins de semana, alternava entre churrasco em casa do tio e trilhos na Serra Gaúcha, com dois amigos de infância, Marcos Valente e Thiago de Lima Proensa.
Os três conheciam-se desde o ensino básico em Ana R, bairro de Caxias do Sul, onde as famílias frequentavam a mesma paróquia. Naquela quinta-feira de novembro, véspera de feriado prolongado, os três saíram de Caxias do Sul às 3 horas da madrugada num Fiat Uno de cor prata, modelo de 2012, de propriedade de Marcos. A ideia era chegar ao parque antes da abertura dos portões, fazer o trilho do vértice até à bordo do canon, descer pelo cotovelo e regressar antes do anoitecer.
Já tinham feito aquele percurso duas vezes. Conheciam o terreno, levavam água, barras de cereais e um kit de primeiro socorro básico e dois bastões de caminhada. O Renato levava também uma câmara GoPro que tinha comprado em 10 prestações no cartão da mãe. Os três entraram juntos na trilha. Dois regressaram ao estacionamento às 15:20 da tarde. O Renato não estava com eles.
O Marcos contou ao guarda do parque que Renato tinha-se separado do grupo por volta das 10 horas da manhã, perto de um dos miradouros intermédios, dizendo que queria filmar a parede do canhão de um ângulo diferente. Disse que ia alcançá-los mais à frente. combinaram encontrar-se no ponto onde a trilha faz a curva do cotovelo.
Renato nunca apareceu. O guarda anotou o nome num caderno pautado e acionou a administração do parque por rádio. Às 17 horas, com a luz já a incidir sobre os paredões de Basalto, uma equipa de dois brigadistas percorreu o troço entre o mirante e o cotovelo. Não encontraram nada, nenhuma mochila, nenhum bastão, sem marca de queda visível.
O canion do Itaim Bezinho tem paredes verticais de até 720 m. O fundo é coberto por floresta atlântica densa, cortada por dois rios estreitos que correm entre pedras escuras. Quem cai ali desaparece antes de chegar ao chão. Esta não é a história de um acidente de trilho com desfecho conhecido. Não é a história de um corpo encontrado em 72 horas.
É a história de um rapaz que desapareceu numa manhã de céu limpo num parque com trilhos demarcados, rodeado por dois amigos, e que só foi visto de novo, trs anos depois numa imagem de drone captada por um fotógrafo amador, mostrando uma figura humana parada no fundo do cânone, imóvel, num ponto onde nenhuma equipa de resgate nunca conseguiu chegar a pé.
O cân do Itaimbezinho fica na fronteira entre o Rio Grande do Sul e Santa Catarina, dentro do Parque Nacional de Aparados da Serra. É um dos cartões postais do sul do Brasil, visitado por milhares de turistas todos os anos. Mas o que os turistas vêem é a orla. O que está lá em baixo, entre as paredes de rocha de Há 150 milhões de anos, debaixo da copa fechada de aalucárias e fetos gigantes, é outro mundo.
O mundo onde o som não sobe, onde o sinal não chega, onde a luz solar bate no chão durante menos de 4 horas por dia. Renato Bastos Erênio conhecia a orla, nunca tinha descido ao fundo. Ninguém da sua família sabia que isso era sequer possível. De esse tipo de história faz repensar o que significa realmente conhecer um lugar e o que significa confiar que quem saiu de casa vai voltar, pode inscrever-se no canal e deixar o seu comentário.
A partir daqui, a história avança devagar. Cada detalhe importa. Cada dia que passou tem peso. Por quanto tempo uma mãe consegue manter a esperança quando todos à volta já pararam de procurar? O que acontece a uma amizade quando dois amigos regressam de um trilho e o terceiro desaparece para sempre? O que significa uma imagem captada por um drone? Uma silhueta parada no fundo do um abismo quando o relatório oficial diz que ninguém podia estar ali vivo.
Estamos em Cambará do Sul, novembro de 2019. O feriado da proclamação da República calha a uma sexta-feira. O parque está mais cheio do que o normal. O vento no topo do canyon sopra a 15 km/h e a temperatura é de 11º pela manhã. A neblina dissipa-se por volta das 9 horas. O céu abre-se e um rapaz de 26 anos caminha sozinho em direção à orla com uma máquina fotográfica na mão, dizendo aos amigos que volta logo.
O miradouro intermédio da trilha do vértice não tem nome oficial nos mapas do ICM bio. Os frequentadores do parque chamam-lhe pedra rachada por causa de uma fenda larga no basalto que permite ver o fundo do canion sem a proteção da grelha que existe nos miradouros principais. É um ponto que os guias do parque conhecem bem, mas que não aparece nos folhetos entregues na portaria.
Fica a cerca de 40 minutos a pé do início do trilho, numa curva onde o terreno estreita e o chão passa de terra batida à rocha exposta. Dali a vista é aberta, se o vento bate de frente e o fundo do canon aparece inteiro, como se alguém tivesse cortado a terra com uma faca e deixou o corte exposto.
Era aí que Renato parou, tirou a mochila das costas, montou a GoPro num bastão improvisado e disse ao Marcos e Thiago que queria filmar a parede sul do canon, onde a luz da manhã batia de um forma que ele chamou de perfeito. Os dois amigos hesitaram. Tiago perguntou se não era melhor irem juntos. O Renato disse que era coisa de 15 minutos, que ia alcançá-los na curva do cotovelo. O Marcos olhou para o relógio.
Eram 10:07. Os dois seguiram em frente. A trilha naquele troço é larga o suficiente para duas pessoas caminharem lado a lado. O chão é firme. Não tinha chovido nos dois dias anteriores. A vegetação dos dois lados é baixa, campo de altitude com gramínias e arbustos que não passam da cintura.
Não é um excerto onde alguém se perde. Não é um excerto onde alguém some sem deixar rasto. Marcos e Tiago caminharam cerca de uma hora e meia até ao cotovelo, o ponto onde o trilho vira bruscamente para o leste e começa a descer. Chegaram por volta das 11:40. Sentaram-se, comeram as barras de cereais, beberam água, esperaram. O Renato não apareceu.
Marcos olhou para trás, para o troço visível da trilha. Não havia ninguém. Thaago tentou ligar para o telemóvel de Renato. O aparelho foi direto para a caixa de correio. A voz gravada de O Renato dizia o habitual. Fala lá, deixa recado. Mas a caixa estava cheia. Tiago desligou sem deixar mensagem. Esperaram mais 40 minutos.
Marcos sugeriu que Renato talvez tivesse voltado por outro caminho, talvez tivesse descido para a trilho do rio por baixo. O Tiago disse que não fazia sentido, na qual Renato não conhecia aquele trilho, mas nenhum dos dois propôs voltar ao miradouro para procurá-lo. Depois, quando questionado sobre isso na esquadra, os dois deram respostas diferentes.
O Marcos disse que pensava que o Renato estava a filmar e ia demorar. O Tiago disse que pensou que ele já tivesse saído do trilho por conta própria. Nenhuma das explicações era completamente convincente, nenhuma era completamente absurda. Desceram até ao estacionamento. O Fiat Uno estava onde o tinham deixado. A A mochila de Renato não estava no porta-bagagens.
A chave suplente do carro que Renato guardava no bolso lateral da calças também não estava. O telemóvel dele, segundo os registos da operadora, que seriam consultados semanas depois, havia registou a última atividade às 10:23, 16 minutos depois de os amigos o terem deixado no miradouro. Depois disso, e o aparelho simplesmente deixou de se comunicar com qualquer torre.
Não foi desligado, não ficou sem bateria. A operadora classificou o evento como perda de sinal por ausência de cobertura. No fundo do cânone não há cobertura. Não havia em 2019, não há até hoje. Marcos foi até ao posto de controlo do parque e falou com o guarda. Era um senhor de cerca de 60 anos, funcionário terceirizado do ICM Bio, que trabalhava ali havia mais de uma década.
anotou o nome do Renato num caderno pautado, a mesma ferramenta de registo que utilizava para anotar matrículas de automóveis e horários de entrada. Não havia sistema informatizado no posto, não existia câmara de segurança. O guarda acionou a administração do parque por rádio e pediu-lhes que enviassem brigadistas ao troço entre o miradouro e o cotovelo.
Eram 15:40. A luz já começava a mudar no inverno e o sol desaparece atrás das paredes do canion por volta das 16:30. No verão dura um pouco mais, mas em novembro, naquela latitude, o crepúsculo chega rápido. Dois brigadistas percorreram o troço, voltaram antes do escurecer e disseram que não tinham não foi encontrado nenhum sinal de presença humana recente fora do trilho demarcado.
Nenhum pedaço de roupa, nenhum equipamento, nenhuma marca de arrasto no chão e nenhuma marca de queda visível no borda, o que, segundo eles, não significava necessariamente que uma queda não tivesse ocorrido. A vegetação rasteira cresce depressa, a chuva lava tudo e a orla do Itaimbezinho em vários pontos não tem qualquer proteção, é só rocha e ar.
Ivone Basto soube que o filho não tinha voltado da trilha às 18:40 dessa quinta-feira, por uma chamada de Marcos feita de um telefone público à entrada de Cambará sul. Não porque o sinal de telemóvel não funcionava na região. Havia apenas um orelhão a funcionar naquela rua, perto de uma loja de artigos para parque de campismo que já tinha fechado.
Marcos precisou de pedir moedas emprestadas a um morador que passava com o cão. A a voz dele estava embargada. disse que O Renato tinha-se separado do grupo e não apareceu no ponto combinado. Disse que já tinham avisado o parque, que os Os brigadistas tinham procurado, que não não encontraram nada.
Ivone ouviu tudo sem interromper, desligou o telefone, sentou-se na cadeira da cozinha e ficou em silêncio durante quase um minuto. A televisão estava ligada na sala. O marido, seu herénio, assistia ao noticiário das seis com o volume baixo. O cão farofa dormia no tapete da entrada. A casa cheirava a arroz e a feijão que Ivone tinha posto no fogo antes da ligação.
Depois desse minuto, ela levantou-se, desligou o fogão, pegou a chave do carro e disse ao marido que iam para Cambará nessa noite. O seu herênio não discutiu. Era um homem de poucas palavras, reformado da metalúrgica, com problemas no joelho esquerdo e uma pressão arterial que o médico pedia para controlar há anos. Pegou no casaco no armário, calçou os sapatos sem desatar os atacadores e entrou no carro.
Ivon dirigiu os quase 300 km pela RS020 e depois pela estrada que sobe a serra. A maior parte do percurso é feito no escuro. Não há iluminação pública em longas extensões. A estrada é sinuosa, com curvas apertadas e trechos de neblina que aparecem sem aviso. Ivone dirigiu sem parar. Chegaram a Cambará do Sul às 2 horas da madrugada.
Encontraram Marcos e Tiago em frente da pousada, onde tinham-se hospedado, sentados num banco de madeira, com os rostos inchados de quem chorou durante horas. Marcos se levantou-se quando viu Ivone e tentou falar. Ivone levantou a mão e pediu-lhe que esperasse. Entrou na pousada, pediu um quarto, pagou adiantado em dinheiro e disse ao marido que fossem dormir, que no dia seguinte iam ao parque com o primeira luz.
Ninguém dormiu naquela noite. Ivone ficou deitada de olhos abertos com o telemóvel no peito, à espera de uma mensagem que não veio. O seu Herênio sentou-se na beira da cama e ficou a olhar pela janela. Do lado de fora, o vento da serra passava pelas frinchas da janela de madeira e emitia um som contínuo, fino, que parecia o assobio de alguém a chamar de longe.
Na manhã de sexta-feira, 15 de novembro, feriado da proclamação da República, o Corpo de Bombeiros de São José dos Aus foi acionado. E chegaram ao Parque Nacional de Aparados da Serra com uma equipa de seis homens, dois cães farejadores da raça pastor belga Malinoisá e equipamento básico de rapel, cordas de 50 m, mosquetões, capacetes e uma maca dobrável que cabia numa mochila.
O comandante da operação era um tenente de nome Rogério, com 12 anos de experiência em resgate e em serra e um histórico de buscas no Planalto Catarinense, que incluía três resgates com vida e dois resgates com corpo. O O tenente Rogério olhou para a borda do canon, consultou o mapa topográfico que um brigadista do parque lhe tinha se entregue e disse à família, com a voz firme e sem rodeios, que a descida ao fundo não seria possível naquele dia.
As paredes do Itaimbezinho são verticais em quase toda a extensão. O basalto é húmido e instável em vários troços, no especialmente nos primeiros 200 m abaixo da orla, onde a rocha é mais porosa e se desfazem lascas com a pressão de uma bota. O equipamento que tinham não era adequado para uma descida daquela magnitude e o acesso ao fundo quando viável exigia um percurso de quase 8 horas por um trilho alternativo que partia do lado catarinense pela localidade da Praia Grande, descendo pelo leito do ribeiro preá numa caminhada
íngreme e escorregadia que só era recomendada em época seca. Ivone ouviu tudo de pé. com os braços cruzados, perguntou quando poderiam tentar. O tenente disse que ia solicitar reforço ao batalhão de Criciuma e que precisava de pelo menos dois dias para montar uma operação segura. A Ivone perguntou o que acontecia entretanto.
O tenente disse que iam vasculhar toda a extensão da borda com os cães na cobrir os dois miradouros principais, o troço do cotovelo e o trilho do rio Boi, que é o único acesso pedonal ao fundo do canon, mas que estava parcialmente interdita por causa de uma queda de barreira ocorrida em outubro. Durante três dias, os cães farejadores percorreram a orla do canyon.
No primeiro dia, um dos cães, uma fêmea chamada Naja, demonstrou interesse num ponto a cerca de 70 m a sul do miradouro Pedra Rachada, fora do trilho demarcado, onde a vegetação era mais densa e o solo começava a inclinar-se em direção ao precipício. Os bombeiros isolaram a zona e examinaram o terreno.
Encontraram uma marca no barro que poderia ser uma pegada, mas a chuva da noite anterior tinha diluído os contornos. Não era possível confirmar se era humana, animal ou apenas uma deformação natural do solo. Recolheram uma amostra. O resultado nunca foi conclusivo. No segundo dia, uma equipa de quatro bombeiros tentou aceder ao fundo do canon pelo trilho do rio Boi, partindo da Praia Grande.
Avançaram cerca de 4 horas, até que o caminho foi bloqueado por um deslizamento de terras que cobria a trilha numa extensão de aproximadamente 30 m. O solo estava encharcado. As árvores caídas formavam uma barreira que exigia equipamento de corte que a equipa não tinha. Voltaram antes do anoitecer. O comandante anotou no relatório que o acesso ao fundo por via terrestre estava temporariamente inviável e que seria necessário aguardar condições climáticas favoráveis para uma nova tentativa.
No terceiro dia, a operação limitou-se a um sobrevoo de helicóptero cedido pela Polícia Militar de Santa Catarina. Ir o helicóptero fez três passagens sobre o desfiladeiro a uma altitude de aproximadamente 200 m acima do fundo. O piloto e o observador reportaram visibilidade limitada por causa da copa das árvores, que naquela época do ano estava completamente fechada.
Não avistaram nada, nenhum movimento, nenhum objeto, nenhuma cor que se destacasse do verde contínuo da mata. Ivone assistiu ao sobrevoo de cima da borda do miradouro principal, segurando o telemóvel como se pudesse filmar algo que o helicóptero não visse. Seu herênio ficou no banco de madeira da portaria, com a mão no joelho, sem dizer nada.
Os dois pareciam ter envelhecido 10 anos em três dias. Na esquadra de Cambará do Sul, Marcos Valente e Tiago de Lima, Proença, prestaram depoimento na tarde de sexta-feira. A esquadra ficava numa rua de paralelepípedos. É, num edifício baixo de alvenaria com uma placa desbotada e uma sala de espera com quatro cadeiras de plástico e um ventilador de teto que não funcionava.
O delegado era um homem de meia-idade, transferido de vacaria havia do anos, que lidava mais com furtos de gado e acidentes de trânsito do que com desaparecimentos. Os relatos dos dois amigos coincidiam nos horários, no percurso e na descrição do momento em que o Renato se separou. Marcos disse que saíram de Caxias do Sul às 3 horas.
Chegaram ao parque por volta das das 6:30. Entraram no trilho às 7:15. Pararam no miradouro pedra rachada às 9:50 e que o Renato decidiu ficar por volta das 10:07. O Tiago confirmou todos os horários com variação de poucos minutos. Não havia contradição aparente. As descrições do tempo, da temperatura e do rasto eram consistentes. Mas havia algo que o delegado anotou à margem do auto de notícia numa observação manuscrita que só seria lida meses depois por um procurador do Ministério Público.
Nenhum dos dois soube explicar de forma satisfatória porque não voltaram ao miradouro quando Renato não apareceu no ponto combinado. O Marcos disse que acharam que ele tinha tomado outro caminho, talvez descido por um trilho secundário que leva ao fundo do canon, embora nenhum dos três a tivesse percorrido antes.
O Tiago disse que tentaram ligar, mas não havia sinal, e que depois de esperar quase uma hora no cotovelo, decidiram descer ao estacionamento pensando que o Renato já tivesse regressado por conta própria. O delegado perguntou se havia algum desentendimento entre os três. Marcos negou. Thago negou. O delegado perguntou se Renato tinha demonstrado algum comportamento diferente do habitual nos dias anteriores à viagem.
O Marcos disse que não. O Tiago disse que O Renato estava entusiasmado, que tinha comprado uma nova lente para a GoPro e queria testar. Os dois choraram durante o depoimento. Marcos soluçou ao descrever o momento em que percebeu que O Renato não estava no parque de estacionamento. O Thago pediu um copo de água e ficou em silêncio durante quase 2 minutos antes de continuar.
O delegado registou o caso como desaparecimento e encaminhou para o Sinalid, o Sistema Nacional de Informação e Estatísticas sobre pessoas desaparecidas, que em 2019 ainda operava com integração limitada entre os estados do Sul. O auto de notícia foi arquivado sob o número que a esquadra atribuiu e foi enviada uma cópia à Polícia Civil de Caxias do Sul e onde a família residia.
Nessa altura, Renato Bastos Erênio era oficialmente uma pessoa desaparecida. Um nome num sistema, um número num caderno. Marcos e Thago voltaram a Caxias do Sul no sábado à tarde. A viagem de regresso foi feita em silêncio. O Marcos dirigiu. O Tiago sentou-se no banco de trás, no mesmo local onde Renato tinha sentado na ida.
Nenhum dos dois ligou o rádio. Em Ana Hash, quando chegaram, as famílias já sabiam. A notícia tinha corrido pelo bairro, com a velocidade que as más notícias correm sempre em comunidades pequenas. Primeiro um sussurro, depois uma certeza. A mãe do Marcos esperava à porta de casa. Abraçou o filho sem dizer nada. A mãe de Thago ligou três vezes antes de ele atender.
Nos dias seguintes, não se dos dois conseguiu voltar ao trabalho. Marcos, que era eletricista por conta própria, cancelou-lhe três serviços na semana seguinte sem dar explicação. Thiago, que trabalhava como auxiliar de armazém numa fábrica de móveis, pediu atestado médico. Os dois pararam de se falar. Não houve luta, não houve acusação explícita, mas algo entre eles se partira naquele trilho, naquela decisão de seguir em frente sem voltar a procurar.
Cada um transportava uma versão do que aconteceu e nenhuma das duas versões incluía a frase de que nenhum dos dois teve a coragem de dizer em voz alta. Nós devíamos ter voltado. O Renato tinha comprado a GoPro Hero 7 Black 4 meses antes do desaparecimento numa loja de eletrónicos no centro de Caxias do Sul. Pagava as prestações pelo cartão da mãe, 10 prestações de R$ 87.
Débito que continuou a cair na fatura durante meses depois de novembro de 2019. E Ivon viu a cobrança pela primeira vez em dezembro. quando abriu o envelope do cartão na cozinha e encontrou a parcela número cinco de 10. Ficou a olhar para o papel por um tempo que não soube medir. Depois guardou o envelope na gaveta e não cancelou o pagamento.
Pagou todas as prestações restantes, uma a uma até à última, em julho de 2020. Quando alguém perguntou por, ela respondeu apenas que o filho ia querer a câmara quando voltasse. A câmara nunca foi encontrada. Não estava na mochila de Renato, que também desapareceu. Não estava no carro. Não foi localizada em nenhuma das buscas realizadas ao longo de 12 dias pela orla do canion.
Não apareceu em nenhum achado de objectos perdidos reportado ao parque nos meses seguintes. A GoPro Hero 7 Black pesa 116 g. é pequena o suficiente para caber na palma da mão. Se caiu junto com o Renato, está no fundo do cânone, debaixo de 720 m de rocha, floresta e silêncio. Se não caiu, alguém a levou e esse alguém nunca apareceu.
Mas o cartão de memória de reserva, um microSD de 32 GB que Renato costumava deixar no bolso lateral da mochila como de reserva, foi localizado no interior do carro, na consola entre os bancos da frente, juntamente com um isqueiro, duas balas de menta e o manual do Fiat Uno. A polícia recolheu o cartão como parte do procedimento de investigação e o analisou na central de inteligência da Polícia Civil em Porto Alegre.
Tinha 14 ficheiros de vídeo gravados em trilhos anteriores. Montenegro, Pico do Itapeva, uma cascata em São José dos Ausentes, cujo nome Renato não anotou, e três fotos tiradas na manhã do dia 14, antes da entrada no parque. Mas a primeira foto mostrava o estacionamento vazio com o Fiat Uno ao fundo e a nevoeiro cobrindo as árvores.
A segunda mostrava o portão de entrada do parque ainda fechado, com a placa do ICM B parcialmente coberta por uma trepadeira. A terceira mostrava os três amigos na portaria, sorridente, com os bastões de caminhada na mão e o nevoeiro ao fundo. Marcos estava à esquerda com um boné preto, Thago à direita com um blusão vermelha, Renato no meio a segurar a GoPro na mão direita e a fazer sinal de positivo com a esquerda.
estava a sorrir. Tinha os olhos apertados por causa da luz que começava a aparecer por detrás do nevoeiro. Foi a última imagem registada de Renato Bastos Erênio. Uma foto que ele tirou com a própria câmara, onde aparece feliz, mas descansado e pronto para um dia de trilho que deveria ter terminado com um churrasco de feriado em Caxias do Sul.

A foto não tem nada de estranho, não tem nada de premonitório, é apenas um registo de três amigos num parque numa manhã de Novembro. E é precisamente por isso é que custa tanto olhar para ela. Quando o Corpo de Bombeiros encerrou a busca ativa após 12 dias de operação, o tenente Rogério chamou a família para uma conversa na sala da administração do parque.
Era uma sala pequena, com uma mesa de fórmica, duas cadeiras e um mapa topográfico da região pregado à parede com percevejos. O tenente explicou que tinham coberto toda a extensão acessível da orla, que os cães não tinham localizado o rasto confirmado, que o sobrevoo não tinha não detetou nada e que o acesso ao fundo continuava comprometido pelas condições do terreno.
Day disse que a procura ativa seria suspenso, mas que o caso permanecia aberto e que qualquer novo indício seria investigado. disse que sentia muito. Apertou a mão do seu herénio, olhou para Ivone, que estava de pé, encostada à parede, e não disse mais nada. A família foi aconselhada a regressar a Caxias do Sul e aguardar desdobramentos.
Era o protocolo, era o que diziam em todos os casos quando já não havia o que fazer no terreno. O seu herênio o aceitou. estava exausto. O joelho tinha agravado com os dias de caminhada na bordo do canion e a pressão tinha subido ao ponto de um enfermeiro dos bombeiros sugerir que procurasse um hospital. Regressou a Caxias do Sul no domingo, 24 de novembro, conduzindo devagar pela serra sozinho.
Ivon não voltou. Alugou um quarto numa pousada simples à entrada de Cambará do Sul. A pousada serra morena, um palacete de madeira com seis quartos, aquecimento a lenha e uma varanda onde os hóspedes costumavam tomar o chimarrão pela manhã. O quarto de Ivone ficava ao fundo, ao lado da cozinha.
Tinha uma cama de solteiro, um armário estreito e uma janela que dava para um terreno com pinheiros. Ivon pagou a primeira semana em dinheiro, depois passou a pagar por transferência bancária todas as segunda-feira pontualmente. Permaneceu aí durante 43 dias consecutivos de 24 de novembro de 2019 a 5 de janeiro de 2020, todas as manhãs às 6 horas caminhava até a portaria do parque.
uma caminhada de cerca de 20 minutos pela estrada de terra que conduz à entrada e perguntava ao guarda se alguém tinha visto alguma coisa, se havia algum registo novo, se algum visitante tinha reportado algo fora do comum. A resposta era sempre a mesma. Não, dona Ivon, nada hoje. Ivon agradecia com um aceno de cabeça, dava meia volta e caminhava de volta à pousada. Almoçava sozinha no quarto.
A dona da pousada, uma senhora chamada Terezinha, deixava um prato à porta todos os dias: arroz, feijão, um pedaço de carne, por vezes uma sopa de legumes quando o frio apertava. Ivon comia pouco, emagrecia a olho nu. Terezinha, que tinha dois filhos rapazes vivendo em Porto Alegre, não fazia perguntas.
Deixava o prato, recolhia o anterior e seguia com o trabalho. À tarde, Ivone sentava-se na cama com o telemóvel e ligava. Ligava para a esquadra de Cambará Sul, onde o escrivão já reconhecia a sua voz antes de ela se identificar. ligava para o Batalhão de Bombeiros de São José dos Ausentes, ligava para o administração do Parque Nacional, ligava para redacções de jornais no Porto Alegre, a RBS e o Correio do Povo, o Sul21, e pedia que publicassem a foto do filho.
ligava para redacções em Florianópolis porque o canion ficava na divisa e talvez alguém do lado catarinense tivesse visto alguma coisa. A maioria das redacções anotava o pedido e dizia que ia avaliar. Nenhuma publicou a história nos primeiros meses. Um desaparecimento de um adulto num trilho não era notícia de capa. Não em Novembro, não em Cambará do Sul.
Ivon ligou também para a Defensoria Pública do Rio Grande do Sul, pedindo orientação sobre como pressionar pela reabertura da busca. Uma defensora pública atendeu-a por telefone e explicou que a decisão de retomar as buscas dependia de novos elementos: um testemunho, um objeto encontrado, uma pista concreta.
Sem isso, o caso continuava em aberto, mas inativo. Ivone agradeceu e desligou. Naquela noite escreveu à mão num caderno escolar que tinha comprado na papelaria de Cambará uma lista de tudo o que já tinha feito e tudo o que ainda podia fazer. A lista tinha 34 itens. Alguns estavam riscados, a maioria não.
No 28º dia, na pousada, véspera de Natal, Terezinha bateu à porta e perguntou se a Ivone queria jantar com a família dela. Ivone agradeceu, mas disse que não. Ficou no quarto. Não ligou a ninguém naquela noite. Às 23 horas, enviou uma mensagem de WhatsApp para o número do filho. O aplicação mostrou apenas um tique cinzento.
A mensagem dizia: “Feliz Natal, meu filho. A mãe está aqui.” O inquérito polícia aberto na esquadra de polícia de Cambará do Sul recebeu o número 1247/2019. Nos primeiros 60 dias foram ouvidas 11 testemunhas, os dois amigos, quatro funcionários do parque, dois guias locais e o proprietário da pousada, onde os amigos se tinham hospedados, e dois turistas que se encontravam no trilho no mesmo horário.
Um casal de Curitiba que fazia o trilho do vértice pela primeira vez. Nenhum deles viu Renato depois das 10 horas da manhã. O casal de Curitiba disse que passou pelo miradouro pedra rachada por volta das 10:30 e não estava lá ninguém, nenhuma mochila no chão, nenhum bastão encostado à rocha, nada que indicasse que alguém tinha parado naquele ponto minutos antes.
O delegado solicitou os registos de entrada no parque nesse dia. Havia 74 visitantes registados no livro da portaria. Todos foram identificados e ao longo dos meses seguintes 10 deles foram contactados telefonicamente. Nenhum referiu ter visto algo em comum. Nenhum referiu ter ouvido gritos, chamadas de socorro ou qualquer som que pudesse indicar uma queda.
O parque é silencioso na parte alta. O vento abafa quase tudo e o fundo do canion é tão distante que mesmo um grito forte dificilmente seria ouvido na borda. O Ministério Público do Rio Grande do Sul acompanhou o caso nos primeiros meses. O procurador responsável solicitou imagens de satélite ao ICM Bo, um procedimento burocrático que demorou seis semanas a ser processado e pediu um levantamento de ocorrências anteriores no Parque Nacional de Aparados da Serra.
O relatório, entregue em fevereiro de 2020, apontou sete desaparecimentos registados na região desde 1994. Dos sete, três foram resolvidos com localização de um corpo, dois por queda confirmada e um por afogamento no ribeiro prea após uma cheia repentina. Dois foram resolvidos com a pessoa encontrada com vida, uma trilheira que se perdeu durante 36 horas em 2003 e um adolescente que se separou do grupo de escuteiros em 2011 e foi localizado a A 3 km do trilho principal.
Os dois restantes nunca foram resolvidos. Um homem de 45 anos de Florianópolis desaparecido em 1998. e uma mulher de 33 anos, natural de Porto Alegre, desaparecida em 2007. Os dois desapareceram na região do Itaimbezinho. Nenhum corpo foi encontrado, nenhum pertence foi recuperado. As imagens de satélite quando finalmente chegaram mostravam a cobertura vegetal do fundo do canyon em resolução insuficiente para identificar objetos inferiores a 5 m.
eram úteis para análise de terreno, mas inúteis para localizar uma pessoa, uma mochila ou uma máquina fotográfica. O procurador arquivou as imagens no processo e pediu que o inquérito fosse mantido aberto enquanto não houvesse conclusão definitiva. O delegado concordou. O inquérito ficou aberto, aberto e parado, como uma porta que ninguém fecha, mas ninguém atravessa.
Em março de 2020, a pandemia de Covid-19 chegou ao Brasil. As esquadras reduziram o atendimento presencial. Os parques nacionais foram fechados. A pousada Serra Morena suspendeu as reservas e o caso de Renato Bastos Erênio, que já não era uma prioridade antes, desapareceu por completo da agenda institucional. Ivone continuou a ligar agora de Caxias do Sul, onde tinha finalmente regressado em janeiro.
Mas as chamadas eram cada vez mais curtas, as respostas cada vez mais vagas e o silêncio entre uma chamada e outra. cada vez mais longo. Em fevereiro de 2021, n vivia o pior momento da segunda vaga da pandemia e os hospitais do sul do país operavam acima da capacidade, um grupo de quatro Os montanhistas experientes de Criciuma, Santa Catarina, entrou em contacto com Ivone através de uma página do Facebook que ela criara com o nome Procura-se Renato Bastos.
A página tinha 1300 seguidores, a maioria de Caxias do Sul e região. E era atualizada por Ivone com a regularidade de quem rega uma planta num vaso, uma vez por semana, às vezes duas, sempre com a mesma foto de Renato e sempre com a mesma frase: “Alguém viu este rapaz? O líder do grupo chamava-se Danilo Mesari, tinha 38 anos e era técnico de segurança no trabalho com mais de 15 anos de experiência em escalada e rapel em formações rochosas do sul do Brasil.
Já tinha descido canons no Parque Nacional da Serra Geral e na Serra do Rio do Rastro e em várias formações mais pequenas na região de Urubici. Ofereceu-se para tentar uma descida ao fundo do Itaimbezinho pelo lado catarinense, utilizando equipamento profissional, cordas de 100 m, sistemas de ancoragem em rocha, capacetes com câmaras e rádios comunicadores e sem custo para a família.
disse que fazia aquilo porque acreditava que o mínimo que se podia fazer era olhar para onde ninguém tinha olhado. Ivone aceitou, não hesitou, não consultou a esquadra, nem o Ministério Público. Sabia que se pedisse autorização formal, o processo demoraria meses e, provavelmente, seria negado por questões de segurança. A expedição decorreu no dia 7 de março de 2021, um domingo de céu limpo e temperatura amena, com autorização informal de um brigadista local que preferiu não se identificar.
O brigadista cedeu o acesso a um porteira secundária do lado catarinense e indicou o ponto de descida. Os quatro homens desceram por uma fenda lateral conhecida entre os escaladores como Garganta do Diabo, um corredor de rocha de aproximadamente 400 m de desnível, coberto de musgos e fetos, com troços onde a largura não ultrapassa os 80 cm e a luz natural mal penetra.
A descida demorou 5 horas. O fundo do canyon recebeu-os com um denso cheiro a terra molhada, vegetação em decomposição e água corrente. O arroio prea corria entre pedras escuras cobertas de limo. A copa das árvores fechava o céu quase completamente. O barulho do exterior, o vento, os pássaros, o mundo não chegava ali.
Era como entrar num lugar que existia fora do tempo. E os quatro se separaram-se em dois pares e percorreram o fundo do canhão durante cerca de 3 horas, cobrindo uma extensão de aproximadamente 2 km ao longo do ribeiro. Filmaram tudo com câmaras de capacete. Fotografaram cada objeto que encontraram: pedaços de plástico, uma lata de alumínio amolgada, um pedaço de tecido azul preso entre duas pedras, que poderia ser um pedaço de mochila ou simplesmente lixo arrastado pela corrente.
Não encontraram restos humanos, não encontraram ossos, não encontraram a câmara GoPro, não encontraram a mochila do Renato, nem nenhum dos seus pertences identificáveis. O que encontraram foi um ponto a cerca de 800 m a norte do pé da garganta do diabo, onde a vegetação parecia ter sido alterada, ramos cortados ou partidos de forma que não era consistente com queda natural, na uma área de aproximadamente 3 m², onde o chão parecia ter sido limpo ou pisado com frequência, e uma marca na casca de uma árvore que o Danilo descreveu
como um corte. feito com objeto cortante, eventualmente uma faca ou um facão. Danilo fotografou tudo, marcou a posição com GPS, coordenadas que anotou a mão num caderno, porque o aparelho de GPS portátil não funcionava com precisão no fundo do cânone, onde as paredes de rocha bloqueavam parte do sinal dos satélites.
Ao regressar à superfície, entregou as fotos e o relatório a Ivone. Ivon levou tudo para a esquadra de Cambará do Sul. Na semana seguinte, o delegado, que já não era o mesmo, que tinha aberto o inquérito original, pois o anterior tinha sido transferido para a canela. Recebeu o material, anexou ao processo e disse que ia encaminhar para a análise e as fotos foram enviadas à Polícia Civil em Porto Alegre.
O relatório técnico levou quatro meses para estar pronto e concluiu que as marcas encontradas eram inconclusivas. Podiam ter origem humana, animal ou natural. O pedaço de tecido azul não foi identificado como pertencente a nenhum artigo registado nos pertences do Renato. O Danilo ligou para Ivone quando soube do resultado do laudo. Disse que lamentava.
Disse que na sua opinião, alguém tinha estado naquele ponto do fundo do canhão. Não animal, não a natureza, mas uma pessoa. Disse que não conseguia provar, mas que tinha a certeza. Ivon agradeceu, desligou o telefone e ficou sentada na cozinha durante um longo tempo, olhando para a parede, onde estava pendurado um calendário de 2019 que nunca tinha sido trocado.
A 19 de novembro de 2022, e quase exatamente 3 anos depois do desaparecimento de Renato, um fotógrafo amador de Florianópolis chamado Luciano Braga Fonseca sobrevoou o canhão do Itaim Bezinho com um drone DJ Mavic Air, dois para um projeto pessoal de fotografia de paisagem. Luciano tinha 42 anos, trabalhava como designer gráfico numa agência de publicidade e voava drones aos fins de semana como hobby.
Não conhecia a história do Renato, nunca tinha ouvido falar da página de Ivon. estava ali para fotografar a luz de fim de tarde sobre os paredões de Basalto. Uma luz que os fotógrafos de paisagem chamam de hora dourada e que no Itaimezinho produz sombras longas e contrastes que parecem pintados à mão. Luciano fez vários voos ao longo da tarde.
A maioria das tomadas eram panorâmicas da orla e da parede norte, onde a luz batia com mais intensidade. Num dos voos e por volta das 16:20, o drone desceu mais do que o habitual, aproximadamente 120 m acima do fundo do canon, para captar uma imagem da cascata que desce pela parede leste. O drone permaneceu àquela altitude durante cerca de 4 minutos, gravando em 4K, antes de Luciano perder parcialmente o sinal de controlo e decidir trazê-lo de volta à borda.
Ao rever o material em casa nessa noite, sentado no escritório do apartamento em Florianópolis com um café frio ao lado do monitor, o Luciano encontrou algo numa das sequências de vídeo que não tinha notado durante o voo. No canto inferior direito do quadro, parcialmente encoberta pela copa de uma árvore, havia uma figura, uma silhueta vertical de proporções humanas, aparentemente de pé e móvel, num ponto entre as árvores, perto da margem do arroz e o pre numa pequena clareira que mal era visível de cima.
Luciano aproximou a imagem, aumentou o contraste, passou o trecho quadro a quadro. A figura não se movia, não balançava com o vento, não tinha a forma de um tronco de árvore, nem de um rocha. Parecia uma pessoa, uma pessoa parada, de pé, a olhar para cima. ou pelo menos era o que a posição da silhueta sugeria, embora a resolução não permitisse distinguir pormenores como rosto, roupa ou postura com clareza suficiente.
Luciano ficou a olhar para a imagem por muito tempo, depois salvou o troço, fez um recorte de 3 segundos e publicou numa comunidade de fotografia de paisagem no Facebook com a legenda. Alguém sabe explicar o que é isto no fundo do Itaimbezinho? Achava que ia receber comentários técnicos sobre pareidola, sobre sombras, sobre artefactos de compressão de vídeo.
O que recebeu foi outra coisa. Em menos de 48 horas, o excerto de 3 segundos foi partilhado mais de 6.000 vezes. A imagem foi captada, ampliada, tratada com filtros por dezenas de pessoas. Fóruns de mistérios, grupos de trilheiros, comunidades de montanhismo e páginas de curiosidades replicaram o vídeo com títulos que iam do sóbrio ao absurdo.
Alguém nos comentários fez a ligação, alguém que seguia a página Procura-se Renato Bastos, alguém que lembrou-se que havia um rapaz desaparecido naquele canyon havia 3 anos. E alguém enviou o link para a Ivone por mensagem privada. Ivone assistiu ao vídeo sentada na mesma cadeira da cozinha, onde três anos antes tinha recebido a chamada de Marcos do Orelhão de Cambará Sul, a cadeira de madeira com acento de palha que rangia quando ela se sentava.
A mesma cozinha com o mesmo azulejo bege, a mesma toalha de mesa aos quadrados, o mesmo calendário de 2019 na parede que ela ainda não o tinha tirado. Assistiu a uma vez ao telemóvel com o rosto a centímetros da tela. Assistiu de novo. Aumentou o brilho. Pausou no ponto exato em que a silhueta aparecia.
pediu ao sobrinho, um rapaz de 19 anos que percebia de computador, que ampliasse a imagem no notebook. O sobrinho utilizou um programa de edição, aumentou o zoom, ajustou o contraste. A figura continuava ali, vertical e móvel, do tamanho de uma pessoa. Ivon olhou para a imagem ampliada por quase 5 minutos sem dizer nada. Depois levantou-se, foi até ao telefone fixo da sala, um aparelho de disco bege que ela nunca tinha trocado, e ligou para a esquadra de Cambará Sul.
Eram quase 22 horas. Ninguém atendeu. Ligou de novo às 8 horas da manhã seguinte, mas identificou-se, deu o número do inquérito e disse, com a voz firme e sem tremer, que tinha uma prova de que o seu filho estava vivo no fundo do cânone. O delegado que atendeu não era o mesmo que tinha aberto o processo. Nem era o segundo.
Era o terceiro delegado a passar por Cambará do Sul desde novembro de 2019. Pediu que Ivone enviasse o material por e-mail. Ivon pediu ao sobrinho que mandasse. O e-mail foi enviado com o excerto de vídeo, capturas de ecrã ampliadas e um texto de três parágrafos escrito por Ivoni, sem erros ortográficos, explicando o contexto e pedindo a reabertura imediata da busca.
A resposta da esquadra veio 11 dias depois por telefone. O delegado disse que o material tinha sido encaminhado para a análise técnica da Polícia Civil em Porto Alegre e que o Instituto Geral de Perícias tinha sido consultado. E a avaliação preliminar era de que a imagem era inconclusiva. A resolução do vídeo, embora a 4K, não era suficiente para confirmar que a figura fosse humana.
Poderá ser um tronco de árvore. Poderia ser uma formação de sombra provocada pelo ângulo da luz de fim de tarde. Poderia ser um artefacto visual criado pela compressão do ficheiro de vídeo. O delegado disse que sem elementos adicionais não havia base para reabrir a busca ativa. Disse que o caso continuava aberto. Disse que lamentava.
Ivone ouviu tudo. agradeceu, desligou, sentou-se na cadeira da cozinha e ficou ali com o telemóvel no colo, a olhar para o retângulo de luz que entrava pela janela e batia no chão de cerâmica. O seu Erênio que estava na sala a assistir televisão com volume baixo, não perguntou o que tinham dito. Já sabia. Já sabia antes de ela ligar.
N sabia desde o dia em que o tenente Rogério apertou-lhe a mão naquela sala do parque e disse que lamentava. Com aquela voz de quem já disse aquilo muitas vezes. A imagem do drone correu para a internet durante semanas. Ger matérias em portais de notícias do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina.
Um canal de YouTube especializado em casos não resolvidos fez um vídeo de 20 minutos sobre o caso, utilizando a foto dos três amigos na portaria do parque e o troço do drone lado a lado. O vídeo teve 400.000 visualizações em duas semanas. Nos comentários, centenas de pessoas garantiam ver uma pessoa na imagem. Outras tantas diziam que era pareidolia.
Algumas pediam que o exército fosse chamado, outras diziam que era montagem. Um debate que se repetia em círculos, sem conclusão e sem consequência prática. Luciano Braga Fonseca, o fotógrafo que captou a imagem, deu uma entrevista a um jornal de Florianópolis, em que disse que não sabia o que era aquilo no fundo do desfiladeiro.
disse que tinha experiência com drones e que nunca tinha visto um artefacto de vídeo com aquela forma. Disse que não queria alimentar teorias, mas que achava que alguém devia descer lá e verificar. Ninguém desceu. O ICM Bill emitiu um nota informando que o Parque Nacional de Aparados da Serra não autorizava expedições ao fundo do desfiladeiro por questões de segurança e preservação ambiental.
A polícia civil informou que não existiam elementos para justificar uma operação de resgate. Os bombeiros disseram que dependeram de um pedido formal da polícia ou do Ministério Público para mobilizar a equipa. Os meses passaram. O caso voltou a ficar em silêncio. A a página Procura-se. Renato Bastos ganhou mais seguidores depois do vídeo do drone.
Chegou a 4.000. Mas as atualizações de Ivon foram ficando mais espaçadas, uma por mês, depois uma de dois em dois meses, sempre a mesma foto, sempre a mesma frase. Alguém viu este rapaz? A vida em Caxias do Sul continuou. A empresa onde Renato trabalhava contratou outro técnico. A namorada Camila esperou dois anos antes de mudar de cidade.
Foi para Bento Gonçalves, onde uma tia tinha uma loja de roupas. Não apagou as fotos do Renato do telemóvel, mas deixou de olhar para elas. Disse a uma amiga que não conseguia mais abrir a galeria sem sentir o chão desaparecer debaixo dos pés. O cão farofa envelheceu, ficou com o pelo branco à volta do focinho e parou de esperar à porta quando ouvia barulho de carro.
Ivone reparou nisso um dia e não comentou com ninguém. Marcos Valente mudou-se de Anah. Foi viver em Farropilha, a 20 km de Caxias, onde montou uma pequena empresa de instalação elétrica. Casou em 2022. Não convidou o Thago para o casamento, não convidou a família do Renato. A mãe dele disse a uma vizinha que o Marcos tinha pesadelos e que por vezes acordava a meio da noite, perguntando se já tinham encontrado.
A vizinha não sabia o que ele queria dizer. A mãe de Marcos sabia. Tiago de Lima Proença continuou em Caxias do Sul. Continuou no mesmo emprego, continuou a viver com a mãe, mas deixou de fazer trilhos. Vendeu os bastões de caminhada, doou as botas e nunca mais subiu uma serra. Quando alguém perguntava por, dizia que tinha perdido o gosto.
Era uma meia verdade que servia para terminar a conversa. O seu Herênio morreu em agosto de 2023 de enfarte na sala de casa numa tarde de domingo. Tinha 71 anos. O médico disse que o coração já vinha fraco. Ivone sabia que a fraqueza não era só do coração, era de tudo. De 3 anos e 9 meses a acordar numa casa onde faltava alguém, de 3 anos e 9 meses a ouvir o porta abrir e não ser o Renato.
De 3 anos e 9 meses de silêncio que nenhuma resposta de esquadra preenchia. No velório que decorreu na capela do bairro da Anche, apareceu o Marcos, ficou no fundo de pé com um fato que não parecia seu. Ivone viu-o. Os dois olharam-se por um momento que durou mais do que qualquer conversa. O Marcos baixou os olhos.
Ivone voltou a olhar para o caixão do marido. Não se falaram. Thaago não foi ao velório, enviou uma mensagem para o telemóvel de Ivone, que dizia: “Lamento muito a perda. E a dona Ivone, se precisar de alguma coisa, estou aqui.” Ivone leu a mensagem, não respondeu. Não porque estivesse com raiva, porque não havia nada para responder, nada que uma mensagem de texto pudesse corrigir ou amenizar.
Hoje a casa da família Bastos Erênio em A Ana R continua igual. O quarto do Renato está da mesma forma que ele deixou na manhã de 14 de novembro de 2019. A cama feita, o computador desligado, um cartaz de uma montanha na parede, o monte Roraima, que Renato sonhava conhecer. No armário, as roupas dobradas.
No criado, mudo, um carregador de telemóvel que não transporta mais nada. Ivon entra no quarto uma vez por semana para limpar o poeira. Abre a janela, deixa o ar circular durante alguns minutos e depois fecha. Não mexe em nada, não tira nada do lugar. É um ritual que ninguém pediu que ela fizesse, mas que ela não consegue deixar de o fazer.
O calendário de 2019 continua na parede da cozinha. Novembro está marcado com um círculo de caneta vermelha no dia 14. Não há nada escrito dentro do círculo, não precisa. A imagem do drone nunca foi explicada, nunca foi confirmada como humana, nunca foi descartada de forma definitiva. Existe num limbo entre o que se vê e o que se pode provar.
Um limbo que para Ivone é ao mesmo tempo o local mais cruel e o único lugar onde a esperança ainda tem licença para existir. O inquérito 1247/2019 permanece aberto na esquadra de Cambará do Sul. Nenhuma nova diligência foi realizada desde janeiro de 2023. Nenhum novo depoimento foi recolhido, nenhuma nova pesquisa foi autorizada.
O caso existe nos registos, existe no sistema e existe como um número que alguém pode consultar se quiser, mas existe sobretudo na memória de uma mulher de 58 anos que vive sozinha numa casa em Ana Rash, que todas as segundas-feiras publica a mesma foto do filho numa página de Facebook e que todas as noites, antes de dormir envia uma mensagem de boa noite para um número de telemóvel.
que há mais de 4 anos só mostra um tique cinzento. O canion do Itaimbezinho continua lá. As muralhas de Basalto continuam de pé, como estão há 150 milhões de anos. A neblina continua a subir pela manhã e descendo à tarde. O arroio prea continua correndo no fundo entre pedras escuras, debaixo de uma copa de árvores que não deixa a luz chegar.
Os turistas continuam a fotografar a borda e regressando a casa antes de escurecer. Nenhum deles olha para baixo durante mais de alguns segundos, mas nenhum deles imagina o que pode haver ali no fundo entre as sombras e o silêncio, e a água que nunca pára de correr. Renato Bastos Erênio faz parte daquele lugar agora.
Não porque alguém tenha confirmado, não porque alguém tenha encontrado, mas porque o local o engoliu e não devolveu. E porque uma mãe sentada numa cadeira de cozinha a 300 km de distância recusa-se a aceitar que o silêncio seja a última palavra. Não existe resposta no final desta história. Há uma pergunta que ficou presa no fundo de um canyon, onde o som não sobe, onde o sinal não chega e onde alguém, ou a sombra de alguém foi filmada de pé, parado, olhando para cima, num dia de novembro, 3 anos depois de ter desaparecido. E a pergunta é simples. A
pergunta é a mesma que a Ivone faz toda a manhã quando abre os olhos e olha para o teto do quarto antes de se levantar. Onde está o meu filho? M.