No dia 14 de outubro de 2011, uma sexta-feira de céu limpo e temperatura amena, a professora de biologia, Renata Lúcia de Souza Bragança, partiu com seis os alunos do terceiro ano do ensino secundário rumo à Serra do Caparaó. A carrinha escolar saiu do parque de estacionamento do Colégio Estadual Presidente Mice em Manhoaçu, Minas Gerais, às 5:40 da manhã.
O motorista senhor Geraldo deixou o grupo na portaria sul do parque às 8:15 e ficou combinado ir buscar todos no mesmo ponto às 16 horas. A diretora da escola tinha uma cópia da autorização dos pais. A coordenadora pedagógica tinha o roteiro do trilho. A Renata levava no bolso da mochila uma lista com os nomes completos dos seis alunos.
os telefones dos encarregados de educação e o número do plano de saúde de cada um. O grupo nunca atingiu o ponto de retorno. Às 16 horas, o senhor Geraldo estacionou a carrinha no mesmo lugar e esperou. E às 17 horas ligou para aquela escola. Às 18 horas ligou para a polícia. Às 19:30 era já noite na serra e não havia sinal de telemóvel para nenhum dos sete números que a diretora tentou marcar, um a um, da sala da sua casa em Manhoaçu, com a mão a tremer e o telefone fixo preso entre o ombro e a orelha. Esta é a
história de uma professora de 38 anos e seis adolescentes entre os 16 e os 17 anos que entraram numa conhecida trilha do Parque Nacional do Caparaó numa manhã de outubro e não voltaram. As buscas duraram semanas, depois meses. O caso foi arquivado duas vezes. Dos seis alunos, nenhum foi encontrado. Da professora não se soube nada durante 1 ano e 16 dias, até que um camionista encontrou uma mulher descalça a caminhar pela MG11, perto de Espera Feliz, magra, com os cabelos cortados rente ao couro cabeludo, e marcas de queimadura nos
dois antebraços, e uma expressão vazia que descreveu depois como a de alguém que estava ali, mas não estava. A Renata não falou no hospital, não falou no IML, não falou na esquadra, não falou com o marido, não falou com a mãe, não falou com os peritos, com os psicólogos, com os promotores, nem com os repórteres que cercaram o hospital César Leite durante 11 dias seguidos.
Renata voltou muda e as marcas no corpo dela não correspondiam a qualquer acidente de rasto que os médicos do Corpo de Bombeiros tivessem visto antes. A serra do Caparaó fica na fronteira entre Minas Gerais e o Espírito Santo. é uma das regiões mais altas do leste brasileiro, com picos que ultrapassam os 2800 m e vales encaixados, onde o mato fecha rapidamente e a nevoeiro desce sem aviso.
As trilhas do lado norte são as mais conhecidas e as que aparecem nos guias de montanhismo e nas fotos de fim de semana. As trilhas do lado sul são diferentes. Menos gente, menos estrutura, menos sinal. É por ali que o grupo entrou. A Renata conhecia aquele trecho. Tinha feito a mesma trilho com turmas anteriores em 2008 e em 2010, sempre sem incidentes.
Era considerada uma professora cuidadosa, metódica, do tipo que conferia a lista de presenças três vezes e que não deixava ninguém afastar-se do grupo. Os colegas diziam que ela tratava cada saída de campo como uma operação, não como um passeio. Os pais confiavam nela. Os seis alunos eram adolescentes comuns de uma cidade do interior de Minas.
Tinham pais que trabalhavam no comércio, no campo, no serviço público. Tinham planos de exames de admissão, namoros de escola e o tipo de energia própria dos quem tem 16. 17 anos e acha que o mundo é grande demais para caber numa sala de aula. Nenhum deles tinha problemas disciplinares graves. Nenhum deles tinha histórico de fuga. Nenhum deles voltou.
Se este tipo de história te faz questionar o que sabemos de facto sobre os locais que consideramos seguros, pode subscrever o canal e deixar o seu comentário. A partir daqui, a história avança devagar. Cada detalhe importa e precisa ser contado no seu tempo. O que acontece quando uma escola envia sete pessoas para um trilho e apenas uma volta, sem conseguir dizer o que se passou? Em que momento uma pequena cidade para de procurar e começa a apontar culpados? O que resta a seis famílias quando o estado diz que fez o que podia e fecha a
pasta? Estamos no Parque Nacional do Caparaó em outubro de 2011. O Brasil discute ainda os preparativos para a Mundial de 2014. Em Manhoaçu, a maior preocupação é a colheita de café. O Colégio Estadual O Presidente Mice tem 420 alunos e uma única carrinha para saídas de campo. A A professora Renata está a conferir mochilas no parque de estacionamento da escola enquanto seis adolescentes riem alto demasiado para aquela hora da manhã.
Ninguém imagina que aquela é a última vez que alguém vai ver os sete juntos. Avan partiu de Manhoaçu, ainda com o céu escuro. O senhor Geraldo conduzia com o rádio desligado porque a professora Renata tinha pedido silêncio para passar as instruções com os alunos. No banco de trás, seis adolescentes partilhavam bolachas de polvilho e tentavam manter os olhos abertos.
E a estrada até ao portaria sul do parque demorava pouco mais de duas horas por asfalto irregular e um troço final de terra batida que sacudia a carrinha inteira. O senhor Geraldo conhecia o caminho de cor, tinha feito aquele trajeto com a Renata duas vezes antes e sabia que ela era o tipo de professora que chegava cedo, conferia tudo e não admitia atraso.
Quando o grupo desceu da carrinha às 8:15, estacionou debaixo de um pé de manga, abriu a garrafa térmica e tomou o café que já estava frio. Seu Geraldo tinha 61 anos nessa altura. dirigia a Vanda escola há 9 anos e conhecia cada buraco daquela estrada como conhecia os móveis da sua própria casa. Era um homem calado, de poucas palavras, que preferia ouvir a falar e queia o tempo pelo nível do café na garrafa térmica.
Nessa manhã, quando os alunos desceram da carrinha, reparou que estavam animados, riam, empurravam uns aos outros, tiravam fotografias com os telemóveis que ainda tinham sinal. A Renata organizou o grupo à entrada do trilho, conferiu as mochilas uma a uma, verificou se todos tinham água suficiente e repetiu pela terceira vez que ninguém se deve afastar do grupo por nenhum motivo.
O senhor Geraldo ouviu tudo de dentro da carrinha, com a janela aberta e o café na mão. Depois viu os sete subirem pelo trilho e sumirem atrás da primeira curva, onde o mato já começava a fechar dos dois lados. O estacionamento da portaria sul era um terreno de terra batida com espaço para cerca de 10 carros.
Naquela manhã havia apenas a carrinha e uma carrinha branca com placa de dores do Rio Preto, do lado do Espírito Santo. O senhor Geraldo não viu o proprietário da carrinha em nenhum momento. O veículo ficou ali a manhã inteira e saiu algures depois do meio-dia, sem que ele reparasse exatamente quando. Mais tarde, os investigadores tentaram rastrear a matrícula, mas o registo no detrpicava um veículo com características diferentes, cor prata, modelo mais antigo. A placa não correspondia.
Este detalhe apareceu nos altos do inquérito como uma nota lateral sem desdobramento. O senhor Geraldo almoçou na carrinha. Tinha levado uma marmita com arroz, feijão e carne moída que a mulher preparava cada vez que saía para a viagem. Comeu devagar, ouvindo o barulho do mato e o canto dos pássaros, que eram diferentes dos da cidade.
Depois do almoço, leu o jornal O Diário de Manhoaçu, edição de quinta-feira que tinha comprado na banca da rodoviária. Cochilou um pouco, acordou com o sol já mais baixo e olhou para o relógio. E eram 15:20. lavou a cara com a água da garrafa, guardou a marmita e começou a esperar. Esperar pelo senhor Geraldo não era um problema, fazia parte do trabalho.
Ele sabia que os grupos de alunos nunca mais voltam à hora combinada. Sabia que adolescentes se atrasam, que trilhos demoram mais tempo do que o planeado, que há sempre alguém que torce o pé ou que quer tirar mais uma foto? Mas quando o relógio passou das 16:30 e ele olhou para a entrada do trilho pela déma vez sem ver ninguém, algo mudou no peito dele.
Não era pânico, era o tipo de incómodo que os homens da idade dele não sabem nomear. Uma pressão surda, um friozinho na barriga que não combina com a temperatura do ar. Ele acendeu um cigarro, deu duas passas e deitou fora. Tentou ligar à Renata. Caixa de correio. Tentou de novo. Caixa postal. À terceira vez nem tentou. Ligou para a escola.
Os seis alunos que subiram ao trilho naquela manhã tinham nomes que se adequavam. numa meia folha de caderno. Lucas António Ferreira, 17 anos. Beatriz de Almeida Rocha, 16 anos. Tiago Henrique Duarte, 17 anos. Camila dos Santos Ribeiro, de 16 anos. Pedro Augusto Vieira, 17 anos. E Janaína de Fátima Lopes, 16 anos.
Em Manhuaçu, cidade de pouco mais de 80.000 habitantes espalhados entre montes de café e comércio miúdo. Estes nomes não significavam nada de especial naquela sexta-feira de outubro. Eram filhos de pessoas que acordavam cedo, trabalhavam o dia inteiro e confiava na escola como se confia num vizinho antigo, sem pensar muito, porque nunca tinha dado motivo para desconfiar.
O Lucas era o mais velho do grupo e o mais calado, filho de Sónia e Valdir Ferreira, proprietários de uma pequena loja de materiais de construção na rua Major Leandro e que era um rapaz de poucas palavras, que gostava de desenhar mapas à mão e que sonhava fazer geografia na UFMG. Tinha um caderno inteiro de mapas, rios, serras, limites de concelhos desenhados com caneta de tinta da china e uma precisão que impressionava os professores.
Sónia guardou este caderno na gaveta da cómoda do quarto dele depois de ele ter desaparecido. Nunca mais abriu. Beatriz era filha de dona Graça, cozinheira do restaurante do seu Toninho na Praça Central. era a mais locutor do grupo, a que organizava os trabalhos em equipa e a que sempre levantava a mão primeiro na sala de aula.
Tinha uma gargalhada alta que a mãe ouvia da cozinha do restaurante quando Beatriz passava pela calçada regressando da escola. A Dona Graça disse depois que o pior de tudo não foi o sumio, foi o silêncio, o riso que deixou de chegar da calçada. O Tiago vivia com a avó e dona Neusa no bairro do Coqueiro, porque os pais tinham-se separado quando ele tinha 11 anos e a mãe tinha ido para governador Valadares trabalhar numa fábrica de costura.
O pai bebia, a avó criou. O Tiago era um menino forte, habituado a carregar peso na feira e a subir uma colina a pé, porque o autocarro nem passava sempre no coqueiro. Dona Neusa disse ao delegado que Thago nunca queixava-se de nada, nunca pedia nada, só queria estudar e sair dali. A Camila era a mais nova, tinha feito 16 anos na semana anterior e ainda usava a pulseira de linha colorida que a melhor amiga tinha dado de presente.
Era filha do seu Arlindo, funcionário dos Correios, de dona Marlene, costureira. Moravam na rua de São José, numa casa de dois quartos com quintal pequeno e um pé de jabuticaba que dava fruto todo o ano em setembro. A Camila queria ser enfermeira. Nó tinha um poster do curso de enfermagem da UFJCF colado na parede do quarto, junto a uma foto da Beyonc e de um calendário do cruzeiro.
Pedro era sobrinho do vereador Osvaldo Vieira e que numa cidade pequena significava alguma coisa. Significava que a família tinha um telefone que a polícia atendeu mais rápido. Significava que o seu nome apareceu primeiro nos jornais. Significava que quando as buscas começaram, houve uma pressão política que não existia para os outros cinco.
O Pedro era um bom aluno, jogava futsal no equipa da escola e namorava com uma rapariga do segundo ano que ficou sentada à porta do colégio durante três dias seguidos, à espera de notícias sem comer e sem falar com ninguém. A Janaína era a mais reservada. vivia com a mãe, a dona Aparecida, na zona rural de Manhoaçu, numa propriedade pequena onde criavam galinhas e plantavam milho e feijão para consumo próprio.
Iam à cidade de autocarro, 1:20 de viagem em estrada de terra batida. Janaína acordava às 4h30 da manhã todos os dias para chegar à escola a horas. Dona Aparecida assinava todas as autorizações que a escola mandava porque acreditava que estudo era a única saída. assinou a autorização do trilho no dia 10 de outubro, quatro dias antes, sentada na mesa da cozinha com a caneta que a Janaína emprestou do estojo.
Seis adolescentes, seis famílias, seis histórias que cabiam numa cidade pequena e que a partir daquela sexta-feira nunca mais couberam em lado nenhum. O último registo de atividade nos telemóveis do grupo foi captado por uma torre da operadora Vivo, localizada na zona rural do Alto Caparaó, às 9:38 da manhã.
Depois disso, e os sete aparelhos saíram da rede um a um, num intervalo inferior a 12 minutos. Isto não era incomum na região. A cobertura de telemóvel naquela parte da serra era precária em 2011 e continuou assim durante anos. Mas quando os investigadores reconstruíram a linha do tempo semanas depois, aquele intervalo de 12 minutos tornou-se o primeiro ponto de interrogação que ninguém conseguiu responder.
O telemóvel da Renata foi o primeiro a sair da rede às 9 horas. e 27. Depois o de Lucas às 9:29 o de Tiago às 9:31 os da Beatriz e da Camila saíram juntos às 9:33. O de Pedro às 9:36 e o da Janaína às 9:38. Não houve mensagens de texto chamadas de emergência, nem tentativas de ligação com a internet entre as 9:27 e 9:38. Nada.
Os aparelhos simplesmente desapareceram da rede, como se alguém os tivesse desligado um a um com calma em sequência. E os peritos da Polícia Civil que analisaram os dados da torre semanas depois não encontraram uma explicação técnica definitiva. Uma hipótese era que o grupo tivesse entrado numa zona de sombra completa, um vale encaixado onde o relevo bloqueava qualquer sinal.
Outra hipótese era a de que os aparelhos tinham sido desligados manualmente, mas não havia forma de confirmar nenhuma das duas sem os aparelhos em mão. E os aparelhos nunca foram encontrados. Em 2011, o rastreamento de telemóveis por GPS ainda dependia de o aparelho estar ligado e ligado à rede. Não havia o tipo de tecnologia que permitisse localizar um telefone desligado.
Quando um aparelho saía da rede, era como se deixasse de existir. E foi exatamente isso que aconteceu com sete telemóveis entre as 9:27. E 9:38 da manhã do dia 14 de outubro de 2011, numa trilho do lado sul da serra do Caparaó, tinha menos de 5 km da portaria, onde o senhor Geraldo tomava café frio dentro de uma carrinha escolar.
Os investigadores marcaram o ponto dos 4 km como o provável local onde o grupo saiu da trilho principal. A trilha, a partir dali, bifurcava. O caminho da esquerda seguia para o alto, em direção ao pico da bandeira, por um percurso mais longa e menos marcada. O caminho da direita descia para um vale húmido, coberto de densa floresta atlântica, com nascentes de água e terreno escorregadio.
Não havia placas indicativas naquele troço, não existia sinalização de trilho. Em 2011, o lado sul do parque funcionava com infraestruturas mínimas, um guarda-florestal para dezenas de quilómetros de mata fechada. Ninguém sabe qual o caminho que o grupo tomou. Os cães farejadores indicaram a bifurcação, mas perderam o rasto poucos metros depois, nos dois sentidos, a vegetação fechada, a humidade constante e as chuvas que desceram na noite de sexta-feira para sábado apagaram qualquer vestígio.
O que se sabe é que às 9:38 da manhã, sete pessoas deixaram de existir para o mundo conectado. E o mundo ligado demorou mais de 6 horas para perceber. Às 16 horas em ponto, o seu Geraldo fechou a garrafa térmica, guardou o jornal no porta-luvas e ficou de pé, junto da carrinha, olhando para a entrada do trilho. Às 16:20 acendeu um cigarro.
Às 16:45 começou a andar de um lado para o outro. O sol já estava baixo e a temperatura caía rapidamente naquela altitude. Ele tentou ligar para o telemóvel da professora Renata três vezes. As três foram diretas para a caixa de correio. Às 17 horas ligou para a escola. Quem atendeu foi a secretária, que disse que a diretora já tinha ido embora e o senhor Geraldo ligou para a casa da diretora.
Dona Mércia atendeu ao terceiro toque e, pela voz dele, compreendeu que alguma coisa não estava certa. A Dona Mércia era diretora do colégio presidente Mice 14 anos. Conhecia cada aluno pelo nome, cada família pela história e cada professor pelo temperamento. Tinha autorizado a saída de campo de Renata porque confiava nela mais do que em qualquer outro professor da escola.
A Renata era organizada, responsável e nunca tinha causado o menor problema em nenhuma das atividades anteriores. Quando o senhor Geraldo disse pelo telefone que o grupo não tinha regressado e que os telemóveis estavam todos fora de área, a dona Mércia sentou-se na cadeira da cozinha e ficou em silêncio durante quase um minuto inteiro. O Sr.
Geraldo esperou do outro lado da linha, ouvindo apenas o respiração dela. O que fez a dona Mércia em seguida mostra o tipo de pessoa que ela era. Não entrou em pânico, não chorou. tirou a lista de alunos da pasta que guardava no armário da sala, sentou-se na mesa da cozinha com o telefone fixo e começou a ligar primeiro para a Polícia Militar de Manhoaçu.
O atendente registou a ocorrência, mas disse que como o desaparecimento tinha menos de uma hora e tratava-se de um grupo em trilho, o procedimento era aguardar. Os trilheiros atrasam-se”, disse. Dona Mércia agradeceu e desligou sem discutir. Depois ligou para o corpo de bombeiros de Manhumirim, o quartel mais próximo da região do Caparaó.
O bombeiro de serviço anotou os dados e disse que uma equipa só poderia ser deslocada na manhã seguinte. Não havia pessoal para a busca noturna, não existia equipamento de visão noturna disponível naquela unidade. E a serra, luxa da noite, era território onde nem os mais experientes entravam sem necessidade. A Dona Mércia fez a terceira chamada para o ICM Bio, responsável pela administração do Parque Nacional de Caparaó. Ninguém atendeu.
A quarta chamada foi para Cláudio, marido de Renata. O Cláudio atendeu, pensando que era Renata, ligando a avisar que tinha chegado. Quando ouviu a voz da dona Mércia, o estômago dele virou. Restavam os pais. A Dona Mércia olhou para a lista em cima da mesa, seis nomes, seis números de telefone.
Cada número era uma casa com alguém à espera que um filho regresse de um passeio escolar. Ela respirou fundo, pegou na caneta, fez um risco junto do primeiro nome da lista e marcou: “A ligação para o corpo de bombeiros de Manhumirim foi feita às 18:42. Deu atendente, registou a ocorrência e informou que a equipa de busca só poderia ser mobilizada na manhã seguinte, porque não havia efetivo disponível para a operação nocturnaquele troço da serra.
A Dona Mércia desligou o telefone e ficou parada na cozinha da própria casa. Com a lista de telefones dos pais em cima da mesa, estavam seis famílias que precisavam de ser avisadas. Seis telefonemas que ela não sabia como começar. A primeira mãe que atendeu foi Sónia, mãe de Lucas. A Dona Mércia disse que o grupo ainda não tinha regressado da trilho e que provavelmente era apenas um atraso.
A Sónia perguntou se alguém já tinha chamado a polícia. O silêncio do outro lado da linha respondeu por si. A Sónia desligou e ligou imediatamente para Valdir, que se encontrava na loja. O Valdir largou tudo, fechou a porta sem trancar e saiu a conduzir em direção ao K paraó. Tr chegou ao parque de estacionamento da portaria sul pouco antes das 21 horas.
Encontrou o senhor Geraldo sentado no banco da carrinha com os faróis ligados, olhando para a escuridão absoluta da entrada da trilho. Os dois ficaram ali a noite inteira. Não dormiram, não falaram muito. O Valdir fumou um maço inteiro de cigarros e o senhor Geraldo tomou o resto do café frio que tinha ficado na garrafa térmica.
Na cidade, a notícia se espalhou como se espalham as notícias em pequena cidade, por telefone fixo, por vizinho que ouviu, por um familiar que passou à porta. Antes da meia-noite, as seis famílias já sabiam. E antes da meia-noite, o medo já se tinha instalado em seis casas diferentes, de formas diferentes, mas com o mesmo peso.
Dona Graça, mãe de Beatriz, ligou à irmã em Belo Horizonte e pediu-lhe que rezasse. O seu arlindo pai de Camila. Ele saiu de casa de carro e dirigiu-se à esquadra de Manhoaçu, onde encontrou a porta fechada e um aviso de que o turno funcionava na esquadra regional. A Dona Neusa, avó do Thago, acendeu uma vela na sala e sentou-se no sofá com o terço na mão.
A mãe da namorada de Pedro telefonou ao vereador Osvaldo, tio do rapaz, que ligou para o comandante da PMAL, que ligou para o comandante regional em Juiz de Fora. Dona Aparecida, mãe de Janaína, não tinha telefone em casa. Soube na manhã seguinte, quando o vizinho desceu de moto até à propriedade e bateu à porta antes das 5 horas da manhã.
Naquela primeira noite, nenhuma equipa de busca entrou na serra, nenhum helicóptero levantou voo, nenhum cão farejador foi acionado. Sete pessoas estavam desaparecidos no mato e o sistema disse que o procedimento era esperar que o amanhecer. As famílias esperaram, não porque concordaram, porque não tinham escolha.
As buscas oficiais iniciaram-se no Sábado, 15 de outubro, às 6h30 da manhã, com uma equipa de oito bombeiros, dois cães farejadores e um helicóptero do Batalhão de Operações Aéreas da Polícia Militar de Minas Gerais. Nos três primeiros dias, os cães indicaram rastos na trilha principal até um ponto a cerca de 4 km da portaria. Depois desse ponto, os rastos dispersavam-se.
O mato fechado do lado sul da serra denso, húmido e cheio de bromélias que cobriam o chão como uma camada falsa. Um dos bombeiros disse depois em depoimento interno que era o tipo de vegetação onde se podia passar a 1 metro de uma pessoa caída e não ver nada. O helicóptero fez sobrevoos durante os três primeiros dias, necobrindo uma área de aproximadamente 20 km quo redor do ponto de entrada no trilho.
A copa das árvores estava tão fechada em alguns troços que o piloto referiu não conseguir ver o solo. Noutros pontos onde a vegetação raleava nas partes mais altas, a equipa apenas avistou rocha, erva de altitude e nenhum sinal de presença humana. No quarto dia, a equipa de busca foi reforçada com bombeiros vindos de Juiz de Fora e dois militares do exército da guarnição de Carangola.
O efetivo subiu para 23 pessoas. Os cães foram substituídos por outros dois com formação específica para busca em mata fechada. A área de busca foi alargado para incluir os vales do lado sul e um troço de floresta que se estendia-se em direção ao concelho de Espera Feliz. Não encontraram nada. Sem mochila, sem pedaço de roupa e nenhuma garrafa de água.
Nenhuma pegada preservada, nenhum ramo partido que indicasse passagem recente. A serra tinha engolido sete pessoas e não tinha devolvido um único vestígio. Ao sétimo dia de buscas, o pai de Lucas, Valdir, entrou na mata por conta própria. Saiu do trilho principal, no ponto dos 4 km, e caminhou vale abaixo durante horas, gritando o nome do filho até perder a voz.
Os bombeiros encontraram-no no fim da tarde, sentado numa pedra à beira de um ribeiro, com os sapatos encharcados e o rosto coberto de arranhões. Levaram-no de volta para o estacionamento. Não disse nada durante o caminho inteiro. No 10.º dia, o Ministério Público de Minas Gerais instaurou um procedimento para acompanhar o caso.

Há um promotor de Manhuaçu foi designado para supervisionar a investigação e cobrar resultados do inquérito policial que já estava em curso. A imprensa regional começou a cobrir o caso. O jornal Estado de Minas publicou uma nota na editoria de cidades. A TV alterosa enviou uma equipa que ficou dois dias e produziu uma reportagem de 4 minutos para o telejornal da noite.
13º dia, o comandante do Corpo de Bombeiros de Manho Mirim convocou uma reunião com as famílias no salão paroquial da Igreja Matriz de Manhoaçu. A sala estava cheia. Havia pais, mães, avós, tios, vizinhos, colegas de escola e curiosos que tinham ido, porque em pequena cidade tudo é de todo o mundo. O comandante explicou que a busca ativa seria encerrada por falta de indícios e que o caso continuaria a ser tratado como desaparecimento pela polícia civil.
N disse que as condições do terreno eram adversas. disse que a equipa tinha feito tudo o que estava ao alcance. Disse que lamentava profundamente. Sónia, mãe de Lucas, levantou a mão e perguntou com voz firme e olhos secos: “O que significava exactamente terminar a busca ativa quando sete pessoas ainda estavam desaparecidas?” O comandante repetiu que o caso seguiria com a polícia civil.
A Sónia perguntou se a polícia civil ia subir à serra. O comandante não respondeu. A reunião terminou em silêncio. As famílias saíram pelo mesmo corredor por onde tinham entrado. Passaram a porta da igreja, atravessaram a praça e voltaram para as mesmas casas, onde seis quartos continuavam exatamente como tinham sido deixados na manhã de sexta-feira.
O inquérito foi arquivado pela primeira vez em março de 2012, 5 meses após a desaparecimento. O delegado responsável colocado na Delegacia de Polícia Civil de Manhoaçu, registou no relatório final que todas as as diligências possíveis tinham sido realizadas e que não existiam indícios suficientes para sustentar nenhuma das linhas de investigação em aberto.
O documento tinha 17 páginas. As famílias receberam a notícia por carta registada. A Sónia, mãe de Lucas, leu a carta na varanda de casa, dobrou o papel, colocou-o dentro do envelope e guardou numa gaveta da cómoda do quarto do filho. Não chorou, não gritou, não ligou para ninguém, fez café, sentou-se na cozinha e ficou a olhar para a parede até o café arrefecer.
As linhas de investigação que a polícia considerou durante os cinco meses de inquérito foram quatro. A primeira era um acidente de trilho. O grupo ter-se-á perdido, ter caído num desfiladeiro ou sido surpreendido por uma mudança brusca de tempo. A segunda era crime. Alguém teria interceptado o grupo no trilho. A terceira era a fuga voluntária, a possibilidade de os alunos terem combinado fugir e a professora tivesse sido cúmplice ou vítima.
A quarta era o envolvimento de terceiros não identificados, ligado à carrinha branca de placa inconsistente que o seu Geraldo viu no parque de estacionamento. Nenhuma das quatro linhas produziu evidências concretas. Não havia corpos, não havia sangue, não havia pertences, não havia testemunhas para além do senhor Geraldo, não havia imagens de câmaras de segurança, porque não existiam câmaras na portaria sul do parque e não havia explicação lógica para o desaparecimento completo de sete pessoas num trilho de dificuldade
moderada, em dia de bom tempo e lideradas por uma professora experiente. O arquivamento não surpreendeu os advogados, surpreendeu as famílias. Valdir, pai de Lucas, foi até ao esquadra no dia seguinte ao da receção da carta. Pediu para falar com o delegado. O escrivão disse que o delegado estava em audiência.
Valdir esperou 2 horas e meia sentado num banco de madeira no corredor. Quando o delegado finalmente apareceu, Valdir perguntou, sem levantar a voz se o O arquivamento significava que o filho dele estava morto. O delegado disse que não, que o arquivamento significava apenas que a investigação já não tinha para onde avançar naquele momento e que poderia ser reaberta caso surgissem factos novos.
O Valdir perguntou que tipo de facto novo poderia surgir se ninguém estava mais à procura. O delegado não respondeu. Nos meses seguintes de as as famílias tentaram manter a pressão para conta própria. O vereador Osvaldo Vieira, tio de Pedro, levou o caso à Câmara Municipal e conseguiu a aprovação de uma moção de apelo ao governo do estado.
A moção foi enviada à Assembleia Legislativa de Minas Gerais, onde foi protocolada, distribuída para análise e nunca mais saiu da gaveta de uma comissão cujo nome já ninguém se lembrava. A Sónia organizou um grupo de familiares que se reunia todas as terças-feiras à noite em casa dela. Chamaram-lhe comitê de busca, embora não tivessem recursos para procurar nada.
O que faziam era trocar informações, anotar qualquer detalhe novo que alguém se lembrasse, escrever cartas para a imprensa e telefonar periodicamente para a esquadra, perguntando se havia alguma novidade. A resposta era sempre a mesma: Sem factos novos, o inquérito mantém-se arquivado. Dona Aparecida e mãe da Janaína participou em três reuniões.
Para chegar, precisava de apanhar dois autocarros e caminhar 40 minutos. Na quarta-feira, terça-feira, não apareceu. A Sónia ligou para o vizinho que tinha telefone e perguntou se a dona Aparecida estava bem. O vizinho disse que ela estava no mesmo lugar de sempre, cuidando das galinhas e da horta, mas que tinha deixado de falar sobre a filha, tinha deixado de falar sobre qualquer coisa que não fosse o feijão, o milho e o tempo.
O luto que não tem corpo não tem ritual, não tem velório, não há enterro, não há sétimo dia, não tem o momento em que o comunidade se reúne, chora, come, reza e segue. Este luto fica pendurado no ar como roupa no estendal em dia de chuva. Não seca, não cai, não vai embora. As famílias de Manhoauaçu viviam assim, num luto parado, num tempo que não passava porque não tinha para onde ir.
E então, quando a dor já tinha criado raízes tão fundas que já ninguém falava nela em voz alta, alguém apareceu numa estrada. Em 30 de novembro de 2012, um ano e 16 dias depois do desaparecimento, o camionista Ademir Lopes da Cruz fazia o troço entre Carangola e Espera Feliz pela MG111 quando avistou uma mulher a caminhar no acostamento.
Era fim de tarde, a luz já estava fraca e ele quase não parou, mas algo no jeito dela chamou a atenção. caminhava devagar, descalça, com uma t-shirt demasiado larga e sem olhar para os carros que passavam. Ademir encostou o camião uns 50 metros à frente e desceu. Quando se aproximou, viu que a mulher tinha o cabelo cortados rente, marcas escuras nos dois antebraços e olhava-o sem expressão, como se não compreendesse porque alguém tinha parado.
Ademir era um homem de 53 anos, casado, pai de quatro filhos, que fazia o troço entre Carangola e Muriaé, três vezes por semana, transportando sacas de café. Conhecia a AMG111 de cor, cada curva, cada posto de abastecimento, cada cruzamento onde os camiões maiores precisavam reduzir. Naquele troço, perto de Espera Feliz, a estrada atravessa uma região de pastagem e mata rala, com propriedades rurais espaçadas e pouco trânsito no final da tarde.
Não era o tipo de lugar onde se esperava encontrar alguém a caminhar descalço na berma. Ademir se aproximou-se devagar e perguntou se a mulher precisava de ajuda. Ela não respondeu. Ele perguntou de novo, desta vez mais perto, quase ao alcance do braço. Ela olhou-o com os olhos abertos, mas sem foco, como se estivesse olhando para algo atrás dele que não existia.
Deademir reparou nas marcas, nos antebraços. Não eram arranhões de mato, eram queimaduras escuras, de bordos regulares, simétricas nos dois braços, como se tivessem sido feitas com algum tipo de instrumento ou superfície quente. Ele reparou também que estava demasiado magra. Os ossos das clavículas apareciam por baixo da t-shirt. As costelas marcavam-se quando ela respirava.
Ademir voltou ao camião, pegou numa garrafa de água e ofereceu. A mulher pegou na garrafa, bebeu metade sem parar e devolveu. Não disse obrigada, não disse nada. Ademir ligou paraa polícia militar pelo telemóvel e descreveu o que estava a ver. A viatura mais próxima estava em espera feliz e demorou 28 minutos para chegar.
Quando os polícias chegaram, a mulher estava sentada no chão da berma, com as pernas cruzadas e as mãos sobre os joelhos e na mesma posição que o marido a encontraria depois no hospital. Os polícias tentaram identificá-la, perguntaram o nome, perguntaram de onde vinha, perguntaram-lhe se sabia onde estava. Nenhuma resposta.
Um dos polícias, o cabo Reginaldo, olhou para a colega e disse em voz baixa que achava que já tinha visto aquele rosto algures. Lembrou-se das fotos que tinham circulado no ano anterior, quando o caso dos desaparecidos do Caparaó apareceu nos jornais da região. Voltou à viatura, acedeu ao sistema e encontrou o registo.
comparou a foto de arquivo com a mulher sentada no chão. Era a Renata Lúcia de Souza Bragança, a professora que tinha desaparecido com seis alunos 13 meses antes. O cabo Reginaldo ligou para a esquadra de Manhoaçu. A delegacia ligou para o hospital. O hospital ligou para Cláudio e em menos de duas horas, Mura a Notícia já estava em meia cidade.
A Renata tinha voltado, mas voltou sozinha e voltou sem palavras. A Renata foi levada ao hospital César Leite em Manhoaçu na noite do dia 30 de novembro. O marido Cláudio chegou ao hospital 40 minutos depois e não foi autorizado a entrar no quarto até à manhã seguinte. Quando entrou, encontrou Renata sentada na cama, de olhos abertos, com as mãos pousadas sobre os joelhos.
Ela olhou para ele, não disse nada. O Cláudio sentou-se na cadeira ao lado da cama e ficou ali durante 6 horas seguidas, sem falar, sem perguntar, segurando a mão da mulher. Os médicos registaram desidratação moderada, desnutrição ligeira, queimaduras de segundo grau nos antebraços de origem indeterminada e um estado de mutismo que os psiquiatras classificaram inicialmente como dissociativo.
E a polícia pediu um relatório pericial completo. O relatório foi redigido, revisto e remetido ao Ministério Público, mas a conclusão sobre a origem das marcas ficou em aberto. Nenhum perito assinou o sessão de causa provável. O motismo de A Renata não era simples. Não era o silêncio de quem opta por não falar.
Era o silêncio de quem parece ter perdido o mecanismo da fala, como se a ligação entre o pensamento e a voz tivesse sido interrompida num ponto que os médicos não conseguiam localizar. Ela entendia o que diziam. seguia instruções simples: deitar, sentar, beber água, estender o braço para o exame de sangue, mas não produzia sons, não tentava falar, não escrevia, não fazia gestos que indicassem comunicação voluntária.
O psiquiatra que a avaliou nos primeiros dias, Dr. Fábio Mendes Coelho do corpo clínico do próprio hospital César Leite Nor registou no processo clínico que o quadro era compatível com mutismo dissociativo pós-traumático, possivelmente decorrente de exposição prolongada à situação de stress extremo.
Recomendou internamento psiquiátrica para a avaliação mais profunda. A família recusou. Cláudio disse que a Renata ia ficar em casa com ele, onde ela conhecia cada canto e cada cheiro. O psiquiatra registou a recusa e manteve o seguimento ambulatório. As queimaduras nos antebraços foram o ponto que mais intrigou os médicos e os investigadores.
Eram queimaduras de segundo grau, com bolhas já cicatrizadas em estádio avançado, dispostas de forma simétrica nos dois braços. entre o pulso e o cotovelo. Não eram queimaduras de fogo aberto. A distribuição era demasiado regular, sem os padrões aleatórios que o fogo produz. E não eram queimaduras químicas, não havia sinais de corrosão, nem de reação com substâncias ácidas ou alcalinas.
O médico legista que examinou Renata a pedido da Polícia Civil registou que as marcas eram consistentes com contacto prolongado com uma superfície aquecida a temperatura moderada entre os 60 e os 80º, aplicada de forma controlada, mas não especificou que tipo de superfície e não comprometeu-se com uma causa.
O laudo pericial foi redigido em 16 páginas. As primeiras 15 descreviam o estado geral de saúde da Renata, os exames realizados, os resultados laboratoriais e o quadro psiquiátrico. A 16ª página era a conclusão. Ela, o médico legista, escreveu que as lesões nos antebraços eram de origem indeterminada e que não era possível com os elementos disponíveis estabelecer se foram autoinfligidas, via acidentais ou provocadas por terceiros.
A linha de assinatura do perito responsável pela sessão de causa provável ficou em branco. O Ministério Público pediu esclarecimentos. O IML respondeu que o relatório refletia os limites da evidência disponível. O promotor insistiu. O IML manteve a posição. O relatório foi anexado ao inquérito reaberto e ali ficou, sem complementação, como uma ferida aberta no meio de um processo que já tinha feridas a mais.
O Cláudio levou a Renata para casa no sétimo dia de internamento. Saíram pela porta das traseiras do hospital para evitar os repórteres que estavam na entrada. O carro era o mesmo Gol Prata que Renata conduzia antes de desaparecer. Cláudio abriu a porta do passageiro e Renata entrou sem ajuda. Sentou-se, colocou as mãos sobre os joelhos e olhou para o frente.
Durante o percurso de 20 minutos até à casa do bairro Santana, não olhou pela janela, não olhou para o marido, não olhou para nada que indicasse reconhecimento do caminho ou da cidade onde tinha vivido durante 16 anos. Quando chegaram a casa, entrou a Renata, caminhou até à cozinha e sentou-se na cadeira onde sempre se sentava.
O Cláudio fez café, colocou a chávena à frente dela. A Renata segurou a chávena com as duas mãos, como sempre fazia. bebeu um gole e ficou a olhar para o quintal pela janela da cozinha, onde o pé de mexerica, que ela própria tinha plantado em 2006 estava carregado de fruta que ninguém havia colhido.
Os repórteres ficaram em Manhoaçu durante 11 dias depois da notícia do reaparecimento de Renata se espalhou. Havia equipas da TV Globo, da Record e da SBT e de, pelo menos, três portais de notícias que enviaram correspondentes de Belo Horizonte. Durante estes 11 dias, a cidade virou cenário. Os vizinhos davam uma entrevista na calçada.
O dono da padaria contava que sempre achou a professora esquisita e as famílias dos alunos eram procuradas a qualquer hora do dia. Depois as câmaras foram embora. Os carros de reportagem desapareceram da rua Coronel Antônio Duarte e Manho voltou a ser o que sempre foi. Uma cidade do interior de Minas, onde todo o mundo se conhece, onde as feridas não cicatrizam em silêncio, porque não há silêncio de verdade.
E onde seis cadeiras continuam vazias nas mesas de seis cozinhas que nunca mais tiveram o mesmo cheiro a pequeno-almoço. A presença da imprensa alterou a dinâmica da cidade de formas que ninguém previu. Nos vizinhos que nunca tinham tido opinião sobre Renata passaram a ter certezas. O açgueiro da rua de São José disse a um repórter do Record que a professora sempre pareceu demasiado nervosa para lidar com crianças.
A dona da papelaria perto da escola contou que a Renata comprava cadernos em quantidade invulgar, como se estivesse a anotar coisas que não queria que ninguém visse. Um ex-colega de faculdade que morava em Caratinga deu uma entrevista por telefone dizendo que A Renata tinha fases de isolamento durante a graduação, que desaparecia durante dias e regressava sem explicar onde tinha estado.
Nenhuma destas declarações tinha relação comprovada com o caso, mas a imprensa as publicou porque preenchia o vazio. E o vazio, num caso sem explicação, é o que mais incomoda tanto os jornalistas quanto o público. E as famílias dos os alunos reagiram de formas diferentes à regresso de Renata.
Sónia, mãe de Lucas, foi ao hospital no segundo dia e pediu para ver a professora. Não foi autorizada. Regressou no terceiro dia. Mesma resposta. No quinto dia, encontrou Cláudio à saída do hospital e perguntou, olhando-o nos olhos, se A Renata tinha dito alguma coisa sobre os alunos. Cláudio abanou a cabeça. Sónia ficou parada na calçada durante um tempo que ela própria não saberia precisar.
Depois virou costas e foi-se embora. Dona Graça, mãe de Beatriz, não foi ao hospital, não quis ver a Renata. Disse a uma vizinha que se a professora tinha voltado e os rapazes não. Então a professora sabia alguma coisa e estava escondendo. Esta frase circulou por mãe como fogo em palha seca. Em menos de uma semana, metade da cidade repetia alguma variação da mesma. O Sr.
Arlindo e pai de Camila, procurou um advogado em Juiz de Fora. Queria saber se era possível obrigar Renata a depor, mesmo em estado de motismo. O advogado explicou que enquanto houvesse relatório médico atestando incapacidade de comunicação, nenhum juiz autorizaria um depoimento formal. O seu Arlindo pagou a consulta, voltou a Manhoaçu e não procurou outro advogado.
O vereador Osvaldo fez um discurso na Câmara Municipal pedindo a reabertura do inquérito e a transferência do processo para a Polícia Federal. O discurso foi gravado, publicado no site da Câmara e assistido por 237 pessoas. A Polícia Federal não se manifestou. O caso continuou com a Polícia Civil de Minas Gerais.
A Defensoria Pública de Mãuaçu designou um defensor para acompanhar as famílias que não tinham condições para pagar advogado. Dona Neusa, avó de Thago, moidona Aparecida, mãe da Janaína. O defensor apresentou um pedido de reabertura do inquérito baseado no facto novo do reaparecimento de Renata. O pedido foi deferido em janeiro de 2013.
O inquérito foi reaberto, mas a investigação esbarrou no mesmo obstáculo de sempre. A única testemunha não falava. Nos meses seguintes à volta de Renata, a polícia tentou outros caminhos. rastreou os arredores da MG11, onde Amira a encontrou, procurando algum indício de onde ela teria estado durante os 13 meses de ausência.
Não encontrou nada. Ouviu os moradores rurais da região de Espera Feliz, Alto Caparaó e Dores do Rio Preto. Ninguém tinha visto nada. Verificou registos de pousadas, hotéis e hospitais num raio de 100 km. Sem registo compatível. Checou câmaras de portagem e postos de gasolina nas estradas da região. Vê, as imagens de 2011 já tinham sido apagadas por falta de espaço nos servidores.
O inquérito foi arquivado pela segunda vez em agosto de 2013. O novo delegado, que substituira o anterior, após uma transferência administrativa, registou nas considerações finais que o caso apresentava características atípicas que fugiam as categorias convencionais de investigação e que a ausência de A evidência material, combinada com a impossibilidade de obter depoimento da única sobrevivo, tornava inviável qualquer conclusão factual.
As famílias receberam a notícia por carta registada pela segunda vez. Dona Mércia, a diretora do colégio, pediu a aposentação antecipada em outubro de 2013, exatamente 2 anos após o desaparecimento. Tinha 58 anos e condições para continuar, mas disse ao marido que não conseguia mais entrar naquela escola sem ver os sete a sair pela porta.
O colégio presidente Mice nunca mais realizou saída de campo. Cláudio continuou a viver com Renata na casa do bairro de Santana. A rotina dele adaptou-se ao silêncio. Aprendeu a ler os gestos mínimos dela, a forma como pousava a chávena quando não queria mais café, o forma como se levantava da cadeira quando queria ir para o quintal, a forma como fechava os olhos quando estava cansada.
Não era comunicação no sentido que as pessoas costumam usar a palavra, era outra coisa. Era o tipo de entendimento que nasce quando duas pessoas ficam juntas tempo suficiente no silêncio. E o o silêncio torna-se uma língua que só os dois conhecem. A Renata nunca mais voltou a falar, não voltou a dar aulas, não voltou a sair de casa sozinha.
Os relatórios médicos subsequentes mantiveram o diagnóstico de mutismo dissociativo e acrescentaram observações sobre possível transtorno de stress pós-traumático crónico. A medicação foi ajustada várias vezes ao longo dos anos. Os efeitos variaram. Em alguns meses, a Renata parecia mais presente. Olhava para as coisas com atenção.
Mexia na terra do quintal, sentava-se na varanda. e acompanhava o movimento da rua com os olhos. Em outros meses, voltava para dentro de si, como se a corda que a ligava ao mundo afrouchasse e ela flutuasse para um lugar onde ninguém a podia alcançar. As marcas nos antebraços cicatrizaram com o tempo, deixando manchas escuras que ela cobria com mangas compridas mesmo no calor do verão mineiro.
Cláudio nunca perguntou sobre as marcas. Não porque não quisesse saber, mas porque compreendeu com o instinto de quem ama alguém há muito tempo, que aquela pergunta não tinha resposta que pudesse ser ouvida sem consequência. O comité de busca de Sónia continuou se reunindo-se às terças-feiras durante 2 anos e 4 meses.
Depois as reuniões passaram para quinzenais, depois para mensais, depois pararam. Não porque as famílias desistiram, mas porque a espera sem horizonte consome um tipo de energia que o corpo humano não foi feito para sustentar indefinidamente. As pessoas precisam de dormir, precisam trabalhar, precisam de comer, precisam olhar em frente, mesmo quando tudo dentro delas está a olhar para trás.
Sónia manteve o quarto de Lucas intacto, a cama feita, os cadernos de mapas na prateleira, o uniforme da escola pendurado atrás da porta. O Valdir nunca entrou naquele quarto de novo e passava pelo corredor e olhava para o outro lado, como se a porta não existisse. Os dois continuaram casados, continuaram na mesma casa, continuaram na mesma loja de materiais de construção, mas havia entre eles um espaço que não tinha nome, não era raiva, não era culpa, não era distância, era a presença permanente de uma ausência que os dois carregavam de
formas diferentes e que não conseguiam dividir. A Dona Graça fechou o restaurante do senhor Toninho em 2014. Não porque o restaurante estivesse mal, porque ela já não conseguia cozinhar para os outros. A comida que antes era a forma dela de cuidar do mundo tornou-se uma recordação insuportável. Cada vez que punha a panela ao lume, pensava na Beatriz a chegar da escola e perguntando o que tinha para o jantar.
Mudou-se para Belo Horizonte. para onde foi viver com a irmã, os que arranjou emprego como auxiliar de limpeza num escritório de advogados no bairro Santo Agostinho. Nunca mais voltou a Manhoaçu. A Dona Neusa continuou a criar nada no bairro do Coqueiro. A casa que antes tinha um menino que saía cedo para amar escola, agora tinha apenas uma velha que acendia velas toda a noite e que tratava os vizinhos com a mesma amabilidade de sempre.
mas com uma lentidão nos gestos que não era só da idade, era do peso. O senhor Arlindo e a dona Marlene tiveram outra filha em 2014. Chamaram-lhe Camila. O nome não foi discutido, não foi debatido. A Dona Marlene simplesmente olhou para o marido na maternidade e disse que o nome era Camila. O seu ar lindo assentiu. A menina cresceu com o nome da irmã que nunca conheceu de numa casa onde havia um quarto que ela não podia entrar e uma foto na parede da quarto que a mãe olhava toda a manhã antes de sair para costurar.
O caso dos sete do Caparaó, como a imprensa regional passou a chamar, apareceu esporadicamente nos anos seguintes. Em 2015, um blogue de mistérios não resolvidos publicou uma longa reportagem com entrevistas às famílias e análise dos relatórios. A reportagem foi partilhada mais de 10.000 vezes nas redes sociais.
gerou teorias, especulações e comentários de pessoas que nunca pisou Manhoaçu, mas que tinha certeza do que tinha acontecido. Em 2017, um documentarista independente de Belo Horizonte procurou as famílias para gravar um filme sobre o caso. Sónia aceitou prestar depoimento. Dona Graça recusou.
O senhor Arlindo perguntou quanto pagavam e quando ouviu que não pagavam nada e disse que então não tinha interesse. A Dona Neusa disse que podia filmar desde que não filmasse o quarto de Thago. A Dona Aparecida não foi encontrada. tinha-se mudado da propriedade rural em algum momento de 2016 e ninguém sabia para onde. O documentário foi concluído em 2018, exibido em dois festivais regionais e visto por poucas centenas de pessoas.
não revelou nada de novo, mas mostrou algo que os jornais nunca tinham mostrado. O rosto das famílias depois de os jornais deixaram de ligar, o Cláudio deu uma entrevista para o documentário. Foi a única vez que falou publicamente sobre a Renata. Disse que ela estava bem dentro do possível.
Disse que tinha uma rotina. disse que ela cuidava das plantas do quintal e que, por vezes, quando chovia e ficava parada à janela da cozinha, olhando para a chuva, com uma expressão que não sabia se era tristeza, memória ou outra coisa que não tinha palavra. O documentarista perguntou se a Renata alguma vez tinha tentado comunicar de qualquer forma.
Escrita, desenho, gestos. O Cláudio fez uma pausa longa. Depois disse que uma vez em 2015 encontrou um pedaço de papel no bolso do avental dela com um desenho. Não era um desenho elaborado, era um traço simples, uma linha curva que podia ser um monte ou uma estrada ou um rio. Não dava para saber.
Ele guardou o papel na carteira e transportou consigo desde então. O documentarista pediu para ver o desenho. Cláudio abriu a carteira, tirou o papel dobrado e mostrou-o ao câmara. Era um retângulo de papel pardo, do tipo que se usa para embrulhar pão com uma linha feita a lápis que subia e descia e terminava num ponto. Nada mais.
Ninguém soube dizer o que a linha significava. Talvez não significasse nada, talvez significasse tudo. Talvez fosse o único mapa que a Renata conseguiu desenhar a partir do lugar onde esteve. Um lugar que ela não conseguia nomear, não conseguia descrever e não conseguia esquecer. O inquérito mantém-se arquivado.
Os seis alunos permanecem desaparecidos. A professora permanece viva, muda e presente numa casa no bairro de Santana, em Manhoaçu, Minas Gerais, cuidando de um pé de mexerica no quintal e a olhar para a chuva através da janela da cozinha com uma expressão que o marido ainda não aprendeu a ler. Yeah.