O meu nome é Juca da Serra, 42 anos, mais de 20 a rodar por esse Brasilzão. Aa, vocês que acompanham o canal já me conhecem. Sou daqueles camionistas raiz que respira o cheiro a gasóleo e tem a buzina no sangue. Mas hoje não vou falar de frete, de pneu furado ou de fiscalização. Hoje vou contar-vos uma história que doeu mais que rodar 1000 km com suspensão partida.
Era para ser apenas um dia em casa. Depois de 15 dias na estrada. Mas o que eu vi destruiu tudo que eu tinha construído nesses anos todos. Vinha a puxar carga do Maranhão para o Pará, bom frete, pagamento em dia. Nesta vida de boleia, aprendemos a valorizar cada momento em casa, cada abraço da mulher, cada café feito com carinho.
Já há algum tempo que eu e a Janaína estava a completar mais um ano de casado e queria fazer uma surpresa. Deixei a data de volta para o fim de semana, mas consegui adiantar a entrega. Coloquei um embrulho no porta-luvas. Um cordãozinho de ouro que ela estava sempre a admirar nas vitrines quando passava no centro comercial. Rapaz, eu estava feliz demais, o coração quase saltando para fora do peito, como se eu fosse um miúdo a ir para o primeiro encontro.
Estai o camião no pátio mais cedo, nem avisei ninguém. Queria ver a cara de espanto dela quando eu aparecesse à porta de casa fora de hora. Apanhei um táxi, ainda passei numa florista e comprei umas rosas vermelhas. Gastei uma nota. Mas mulher merece estas coisas, não é? Não. Quando o táxi parou em frente à minha casa, estava tudo normal por fora.
Cortina fechada, portão trancado. Eram 3 da tarde, um calor danado em Belém. Paguei o motorista e fiquei ali parado, a olhar para o lugar que eu tanto sonhava quando estava a conduzir sozinho na madrugada. Abri o portão devagarinho com a minha chave, já imaginando a surpresa. E a entrar na ponta do pé, deixar as flores na mesa, chamá-la de algum lugar da Foi aí que ouvi um barulho estranho vindo lá de dentro. Gargalhada de homem.
Meu coração gelou de imediato. Sabe quando o seu corpo todo sabe de algo antes mesmo da a sua cabeça compreender? Foi assim. Fui chegando devagar, como quem não quer fazer barulho. A janela da sala estava com a cortina meio aberta. Dava para ver um pedaço do sofá. E foi ali, parceiro, nesse mesmo sofá que tinha comprado com tanto sacrifício, que vi a Janaína nos braços de outro homem.
Os dois ali, na maior intimidade, na minha casa, no meu território. O gajo era conhecido da região, um tal Márcio, mecânico de uma oficina perto do posto, casado também, pai de família. O mundo caiu. Senti como se tivesse levado uma pancada na nuca. As flores escorregaram da minha mão e caíram no chão. Fiquei parado, sem conseguir mexer-me, vendo pela fresta da janela tudo aquilo que nunca imaginei.
A mulher que eu amava, que eu sustentava com o meu suor na estrada, estava ali traindo a minha confiança, acabando com a nossa história. Não sei quanto tempo Fiquei ali paralisado. Podia ter entrou, feito um escândalo, partido para cima do sujeito, mas algo dentro de mim dizia para segurar a onda. Não me rebaixar, não mostrar que estava destruído.
Engoli em seco, respirei fundo, Dei meia volta e saí dali sem fazer barulho. Voltei para o pátio a pé mesmo, andando como um zombie pelas ruas de Belém. O presente ainda no bolso, pesando uma tonelada. O telemóvel tocou umas duas vezes. Era ela, provavelmente ligando para saber onde eu estava quando regressaria a casa, fingindo que estava com saudade. Não atendi. Deixei tocar.
Quando cheguei ao pátio, os colegas perceberam que havia algo de errado. E aí, Juca? Não ia ficar em casa hoje? Um deles perguntou. Fiz que não com a cabeça. Mudança de planos. Foi só o que consegui dizer. Subi para a boleia do meu camião, tranquei a porta e fiquei olhando para o nada.
Foi a noite mais longa da minha vida. Deitado no beliche, sem conseguir dormir, repetindo-se a cena na a minha cabeça. 15 anos de casamento deitados fora. As promessas, os planos, tudo despedaçado. E enquanto a dor apertava o peito, outra coisa ia nascendo ali dentro, um plano. Ela não ia sair desta de graça, não. Ia sentir na pele o que estava a sentir.
Ia provar do mesmo veneno, mas do meu jeito, esta história ainda estava só a começar, meus amigos da estrada. E se já passou por algo semelhante, se segura lá que o que vem pela frente vai mostrar-te que camionista pode ser manso, mas nunca é tonto. Amanheceu e eu já estava de volta à estrada. Peguei uma carga de retorno para Marabá.
Nem me importei com o valor do frete. Precisava era rodar, sentir o vento na cara, deixar o pó para trás. A imagem daquela cena não me saía da cabeça. Era como uma tatuagem feita a fogo nos os meus pensamentos. Cada curva que o camião fazia, lá estava ela outra vez, Janaína nos braços de outro. O pior nem foi ver a traição, foi lembrar-se de tudo que fiz por ela nestes 20 anos de estrada.
Quantas vezes não virei à noite a conduzir só para poder mandar um dinheiro a mais no final do mês? Quantas festas de aniversário dos sobrinhos eu perdi. Quantos natais sozinho na boleia, a comer marmita fria em algum posto perdido deste Brasil. E tudo porquê? para construir um lar, para dar para fazer com que a mulher que eu amava tivesse uma vida.
A Scânia ia engolindo o asfalto e eu ali com o coração partido em mil pedaços. O telemóvel não parava de Janaína tentando falar comigo, as mensagens chegando uma atrás da outra. Amor, onde está você? Porque não avisou que ia voltar para a estrada? Estou preocupada. Preocupada? Tinha mais é que estar mesmo preocupada. Deixei no vácuo.
Ela que ficasse lá à espera de resposta, igual eu fiquei esperando respeito todos estes anos. A A BR230 ia passando pela janela, aquela Transamazónica que conheço como a palma da mão, o sol forte a castigar o asfalto. Parei num posto para abastecer e comer alguma. O Zé do chapéu, dono do restaurante que todo o camionista desta região conhece, logo percebeu que tinha algo errado.
“Zezinho, o teu semblante está diferente. Aconteceu alguma coisa?” Quase abri o jogo logo ali. Quase contei tudo. Desabafei, mas engoli em seco. Esta dor era só minha por enquanto. Eu disse que era só cansaço mesmo, que a estrada estava a apanhar-me. O velho Zé não insistiu, mas deixou claro que estava ali se precisasse de conversar.
Voltei para boleia com um café preto na mão. Foi quando o telemóvel voltou a tocar. Era ela. Desta vez atendi, mas fiquei mudo, só ouvindo. Zezinho, Zezinho, estás aí? Porque saiu sem avisar? Pensei que ia ficar em casa pelo menos um dia. A voz dela suava preocupada, mas eu só conseguia pensar na falsidade. Como uma pessoa consegue trair e depois fingir que nada aconteceu? Como olhar nos olhos de quem te deu a vida inteira e mentir assim?”, respondi seco, sem emoção. Apanhei uma carga de retorno.
Preciso de trabalhar. Mas amor, nem avisou nada. Eu tinha preparado um jantar especial. Fiz aquele frango com quiabos que gosta. Frango com quiabos? Ela ainda tinha coragem para falar de comida. Enquanto conduzia 15 dias sem parar, ela estava a servir banquete ao amante dentro da minha no meu sofá. Senti o sangue fervo. Tenho de desligar.
Tô dirigindo. Desliguei sem esperar resposta. O telefone tocou mais algumas vezes, mas deixei-o tocar no vazio. A estrada ia passando quilómetro após quilómetro e a minha cabeça a 1000 por hora. Não era só raiva o que sentia. Era um misto de desilusão, tristeza, humilhação. Eu, Zezinho, respeitado por toda a praça, conhecido por ser um homem de palavra, estava a ser feito de parvo dentro da própria casa.
Foi quando o plano começou a nascer na minha cabeça. Não me ia rebaixar, não ia fazer esc, não ia partir para a ignorância e me transformar num criminoso por causa de uma mulher que não soube dar valor ao que tinha. Ia ser mais inteligente, mais calculista. Ela ia sentir na pele o que é ser traído.
Ia provar do mesmo veneno, mas à minha maneira. Na boleia de um camião, nas horas de solidão, a gente aprende a pensar e muito. Tem motorista que ouve música, há os que conversam na rádio, há os que param em todo o da estrada. Eu sempre fui dos que pensa, que analisa, que observa. E agora essa característica ia-me servir para dar o troco.
Ela ia sentir o sabor amargo da traição, mas não ia ser uma traição qualquer. Ia ser calculada, planeada, pensada nos mínimos detalhes. Porque eu até podia ser um camionista simples, de mão calejada e pele queimada pelo sol. Mas burro, eu nunca fui. Entreguei a carga em Marabá com a cabeça longe dali. O despachante até se queixou que eu estava desatento, que quase me enganei na documentação.
Pedi desculpa e segui o meu rumo. Não contei para ninguém o que tinha acontecido. Esta história era só minha por enquanto. Nessa noite, estacionei o camião num posto de beira de estrada e fiquei olhando as estrelas. Lembrei-me de quando Conheci a Janaína há mais de 20 anos numa festa de São João em Imperatriz.
Ela toda bonita com um vestido de quadrilha, eu já a trabalhar como ajudante de camionista. Foi amor à primeira vista. Construímos uma vida juntos, tijolo a tijolo. E agora estava tudo despedaçado. Chorei ali sozinho na boleia, onde ninguém me podia ver. O homem também chorai, meus amigos. Chorei de raiva, de tristeza, de desilusão, mas enxuguei as lágrimas e decidi.
Esta história não ia terminar assim. A Janaína ia perceber o que significa trair quem te ama de verdade. Ia sentir o mesmo aperto no peito, a mesma falta de ar, o mesmo desespero. Liguei o motor e segui viagem. A noite ia alta e a estrada parecia não ter fim, igual à dor que eu sentia, mas agora tinha um objetivo, um plano a formar-se.
E isso dava-me forças para seguir em frente. Porque na estrada da vida, meus amigos, quem não tem direção acaba perdido na berma. E eu, o Zezinho, podia estar ferido, mas ainda sabia muito bem para onde estava indo. Passei quase duas semanas a rodar sem parar, aceitando qualquer frete que aparecia. Tocantins, Maranhão, Pará. Ia para onde o trabalho chamava.
Minha cabeça estava a trabalhar que nem motor de camião novo. Por fora, tudo normal. Por dentro, planeando cada detalhe do que ia fazer. Muita gente pensa que camionista é apenas um brutão que conduz. Mas quem corre este mundão sabe que a estrada ensina mais do que qualquer escola. A Janaína continuava a ligar-me, mandando mensagem.
Eu respondia pouco, só o básico. Enviava o dinheiro na conta como sempre fiz. Fingia que nada tinha acontecido. Ela chegou a perguntar se estava tudo bem. Dizia que eu estava diferente. Eu só respondia que era o cansaço, que o troço era pesado, que em breve voltaria para cá, tudo mentira. Estava a reunir informação, a recolher prova, atando as pontas.
Comecei a prestar atenção às redes sociais dela. Nunca fui muito dado a estas coisas de internet. Mas agora estava de olho em tudo. Foi assim que descobri quem era o tal sujeito. O seu nome era Marcelo, um mecânico de uma oficina perto de casa. Era casado também, pai de um rapaz de uns 8 anos.
Nas fotos, sempre com a família, sorrido, mas nas horas vagas, enfiado no meu sofá com a minha mulher. Um dia estacionei o camião num posto de Marabá e fiquei a ver as fotos do tal Marcelo. Tinha morada da oficina, nome completo, tudo ali, fácil de encontrar. A raiva voltava a subir, mas eu respirava fundo.
Não ia fazer asneiras, ia ser mais esperto do que ele. Descobri que a A sua mulher, Sandra, tinha um mercadinho na cidade. Uma mulher bonita, trabalhadora pelo jeito e que não merecia o que estava a acontecer igual a mim. Foi quando a segunda parte do plano veio-me à cabeça. Voltei para Belém três dias depois, com uma carga de ração.
Entreguei tudo direitinho e, em vez de ir para casa ou para o pátio, fui logo para o tal mercadinho. Estai o camião numa rua lateral e fui a pé, o coração batendo forte, a garganta seca. Não é fácil chegar e contar a uma mulher que o marido dela anda a trair com a sua esposa. O mercadinho era pequeno, mas arrumadinho.
A Sandra estava na caixa, atendendo uma senhora. Esperei num canto, fingindo que estava a olhar umas mercadorias. Quando a cliente saiu, aproximei-me mais. Ela olhou-me com aquele sorriso comercial, de quem atende bem os fregueses. Não vou mentir a vocês. Foi difícil. As palavras travaram na garganta. Como se conta uma coisa dessas? Comecei devagar, apresentei-me, disse que era camionista.
Fui rodeando o assunto até não ter mais jeito. Tive que dar a real. Vi os olhos dela a enchendo-se de lágrimas enquanto eu contava. Mostrei as provas que tinha, as mensagens, as fotografias que tinha tirado escondido da janela da minha casa. Ela não queria acreditar, mas no fundo já desconfiava.
Disse que o Marcelo andava estranho há meses, chegando tarde, inventando desculpa de serviço extra na oficina. Sandra chorou, mas não fez escândalo. Parecia uma mulher forte, daquelas que a vida já ensinou a engolir o choro. Perguntou porque é que eu estava a contar aquilo, o que eu queria. Foi quando expliquei o meu plano.
Não queria só terminar com Janaína. Queria que ela sentisse o sabor amargo da traição. Gostava que ela sofresse o mesmo que eu estava a sofrer. E para isso, precisava da ajuda da Sandra. No início ela hesitou. disse que não ia conseguir fingir que não era atriz, mas quando Falei dos pormenores de como tínhamos sido feitos de parvos, a raiva também acendeu nos olhos dela.
Combinamos de nos encontrar no dia seguinte num restaurante fora da cidade para acertar os detal Voltei para o camião com o coração mais leve. Pela primeira vez desde que vi aquela cena horrível, senti que tava no controlo da situação. Não era mais o coitadinho, era o gajo com um Nessa noite estacionei o camião no pátio de sempre.
Os colegas vieram conversar, perguntar das viagens, contar causos. Agi normal, como se nada tivesse acontecendo. Um deles até perguntou se não ia a casa ver a patroa. Falei que ia no dia seguinte, que estava demasiado cansado. Dormi na boleia mesmo, como sempre fiz. Só que desta vez os sonhos não eram com a Janaína, eram com o plano que estava a engendrar.
A vingança ia ser servida muito lentamente, no capricho. No no outro dia, arranjei-me melhor que o normal. Passei pelo barbeiro, aparei a barba, vesti uma boa camisa que eu guardava para ocasiões especiais. Um colega até brincou, perguntando se eu ia casar de novo. Se ele soubesse. Encontrei a Sandra no restaurante combinado à beira da estrada que sai de Belém. Ela também se tinha arranjado.
Era mais bonita pessoalmente do que nas fotos. Sentamos numa mesa afastada e começamos a traçar o plano. A ideia era simples. Íamos fingir que estávamos tendo um caso. Aparecer juntos em lugares públicos, tirar fotos, deixar a cidade inteira comentar. Não ia demorar muito para Janaína e Marcelo ficarem sabendo.
E aí o circo ia pegar fogo. Sandra concordou com tu. No fundo, acho que ela também queria uma vingança. Não é fácil ser traída, ter sua confiança jogada no lixo. Tirei umas fotos com ela ali mesmo no restaurante. Nada comprometedor, só dois amigos conversando. Mas era só o começo. Combinamos os próximos passos.
Eu ia voltar para casa, agir normal com Janaína. não ia dar nenhum sinal de que sabia de algo. Enquanto isso, ia construindo a história com Sandra devagar, um encontro aqui, outro ali, deixando as migalhas pra cidade seguir. Antes de ir embora, Sandra me abraçou forte. Não era um abraço romântico ou de segundas intenções.
Era o abraço de quem compartilha a mesma dor, de quem entende o que é ser traído por quem você mais conf. Voltei pro caminhão com a cabeça mais organizada. O plano estava traçado. Agora era só executar cada etapa com calma, sem pressa. A vingança é um prato que se come frio e eu ia servir ela no capricho para Janaína.
Mandei mensagem dizendo que estava voltando para casa no fim do dia. Ela respondeu toda animada, dizendo que ia fazer uma janta especial, que estava com saudade. Engoli seco lendo aquelas palavras falsas. Como alguém consegue mentir com tanta naturalidade? A estrada ensina muita coisa pro homem, mas nunca me ensinou a entender a falsidade.
Dirigi devagar de volta para Belém. Cada quilômetro era um pensamento diferente na cabeça. Uma parte de mim ainda amava a Janaína. Outra parte só queria ver ela sofrer como eu estava sofrendo. É complicado, meus amigos da estrada. O coração do homem é mais cheio de curva que a Serra do Tigre. Estai o caminhão no pátio e fui para casa.
O plano tinha começado e não tinha mais volta. Depois daquele primeiro encontro com a Sandra, a coisa toda começou a tomar um rumo diferente. Nós dois estava machucado, com aquela dor de quem foi apunhalado pelas costas. Mas em vez de fazer besteira, resolvemos usar a cabeça. No dia seguinte, voltei pro mercadinho dela.
Dessa vez não precisava fingir nada. Os funcionários já tinham me visto por lá. Fui direto no balcão, chamei ela num canto e começamos a afinar os detalhes do nosso plano. A ideia era simples, mas precisava ser bem. Nós dois íamos fingir que estava rolando um caso. Nada de agarramento, nem beijo na boca.
Não era disso que se tratava. Era só para mostrar pros outros que a gente estava que tinha alguma coisa acontecendo e deixar a cidade falar, deixar o falatório correr solto até chegar nos ouvidos da Janaína e do Marcelo. Primeira parte do plano, as fotos. Sandra pegou o celular e tirou umas selfies comigo ali mesmo dentro do mercadinho.
Eu até sorri, coisa que não fazia a Depois saímos e tiramos mais algumas na frente, como se tivéssemos numa saída casual. Ela postou tudo nas redes sociais com aquelas legendas cheias de mistério que mulher sabe. Novos tempos, novos recomeços. A vida nos surpreende quando menos esperamos. Naquela mesma tarde, liguei para Janaína, dizendo que ia ficar mais uns dias fora, que tinha pegado um frete urgente paraa imperatriz.
Ela ficou toda manhosa no telefone, dizendo que tava com saudade, que queria me ver. Engoli a raiva e fiz que nem ator de nov estava morrendo de saudade, mas que o trabalho não podia esperar. Falei que voltaria logo, que era só mais essa viagem. Na verdade, fiquei em Belém mesmo. Estai o caminhão num pátio diferente do habitual, onde ninguém me conhecia, e comecei a me encontrar com Sandra em lugares estratégicos da cidade.
Um dia era no shopping, outro numa lanchonete popular, outro na porta da igreja depois da missa de domingo, sempre em locais onde tinha muita gente conhecida, onde o povo gosta de reparar na vida alheia. Sandra era esperta, sabia fazer a parte dela sem exagero. Não era aquela coisa de mulher oferecida, vulgar, era sutil, elegante, um toque no braço durante a conversa, uma risada mais alta quando eu falava alguma coisa, aquele jeito de olhar que mulher tem quando tá interessada num homem, pequenos detalhes que qualquer um que tivesse olhando ia
anotar na hora. O plano foi tomando forma devagar, as fotos circulando nas redes, nós dois aparecendo juntos pela cidade. Não demorou para começar o burb. Belém não é uma cidade pequena, mas o mundo dos caminhoneiros é e o dos mecânicos também. Logo os amigos do Marcelo começaram a comentar, as vizinhas da Janaína a coxixar.
Era questão de tempo até a bomba explodir. Uma noite estacionei o caminhão num posto de gasolina da BR316, aquele que tem aquele restaurante bom de comida caseira. Sandra veio me encontrar. Sentamos numa mesa bem visível, pedimos uma comida e ficamos lá conversando por mais de duas horas. Não era só fingimento não.
A gente realmente se dava bem, tinha assunto, conseguia até rir em meio a toda aquela situação doída. Ela me contou da vida dela com o Marcelo, de como tinha lutado para construir o mercadinho enquanto ele trabalhava na oficina do filho deles, um menino esperto, que era o orgulho da família, de como tinha percebido que algo estava errado nos últimos meses, mas não queria acreditar que era traição.
Eu contei da minha história com a Janaína, dos anos na estrada, dos sonhos que a gente tinha de comprar um sítio quando eu me aposentasse. Era estranho dividir essas coisas com uma desconhecida que agora fingia ser minha namorada. Mas de certa forma, Sandra entendia a minha dor melhor que qualquer um. Ela estava passando pela mesma coisa.
A traição deixa uma marca diferente na alma da gente. É como uma cicatriz que só quem tem uma igual consegue entender de verdade. Naquela noite, quando nos despedimos no estacionamento do posto, um colega caminhoneiro passou por nós. Era o Bigode, um parceiro antigo de estrada que conhecia bem a Janaína. Ele deu aquele sorriso malicioso, fez um comentário sobre eu estar bem acompanhado.
Fingi uma risada sem graça e apresentei a Sandra como uma amiga especial. Sabia que em menos de 24 horas a notícia já teria rodado todo o pátio de caminhões e de lá chegado aos ouvidos da minha mulher. E foi exatamente o que aconteceu. Na manhã seguinte, Janaína me ligou. A voz dela estava diferente, meio trêmula, como quem tá segurando o choro ou a raiva.
Quis saber onde eu tava, porque não tinha voltado para casa ainda se o frete tinha demorado mais que o previsto. Respondi com calma, como se nada tivesse acontecendo. Ela então soltou a bomba. Tinha ouvido falar que eu estava sendo visto com uma mulher pela cidade. Queria saber se era verdade. Dei uma risada curta. Disse que não devia satisfação, que estava só aproveitando a vida.
Ela insistiu, a voz já alterada, perguntou quem era a mulher, o que eu estava fazendo. Foi quando joguei a isca. Falei que era só uma amiga, dona de um mercadinho, que estava me fazendo companhia nesses dias de solidão. O silêncio do outro lado da linha foi mais forte que qualquer grito. Janaína sabia exatamente de quem eu estava falando.
Ela conhecia a Sandra, já tinha comprado no mercadinho dela e o pior, sabia que Sandra era esposa do Marcelo. Desliguei dizendo que precisava trabalhar, que conversaríamos depois. O plano estava funcionando melhor do que eu esperava. A essa altura, tenho certeza que ela já estava ligando pro amante, contando tudo, perguntando o que estava acontecendo.
A confusão estava armada. Naquela tarde me encontrei com Sandra de novo. Contei da ligação de como Janaína tinha ficado abalada. Ela sorriu. Disse que Marcelo tinha chegado em casa uma pilha, querendo saber com quem ela estava saindo, que tinha ouvido comentários na oficina. O plano estava funcionando dos dois lados.
Decidimos intensificar ainda mais. Sandra me convidou para ir na festa de aniversário do filho dela no fim de semana. Era o cenário perfeito. Toda a família reunida, os amigos da criança, os vizinhos e nós dois juntos como se fôssemos um casal. Era cruel, eu sei, mas não mais cruel do que o que tinham feito com a gente.
Compramos um presente juntos pro menino, um carrinho de controle remoto, daqueles que todo moleque sonha em ter. Embrulhamos caprichado com cartão assinado pelos dois. No dia da festa, cheguei no meu caminhão todo lavado, de roupa nova, cabelo cortado. Parecia que estava indo no encontro de verdade. A festa foi na casa de Sandra mesmo.
O quintal todo decorado, as crianças correndo para todo lado, os adultos conversando em rodinha. Quando entramos juntos, braços dados, senti todos os olhares em cima da gente. As conversas diminuíram, os coxichos aumentaram. Era exatamente o que queríamos. Marcelo tava lá, claro, era o pai do aniversariante.

Quando me viu entrando com a mulher dele, o sangue subiu na cara. Pensei que ele fosse partir para cima, fazer um escândalo, mas Sandra já tinha avisado. Se ele fizesse qualquer cena, ela contaria na frente de todo mundo sobre a traição dele com a Janaim. Então ele ficou ali engolindo seco, com cara de quem comeu e não gostou.
E eu, fingindo que nem percebia o clima pesado, entregando o presente pro menino, sendo simpático com todo mundo, agindo como se fosse o novo namorado da Sandra. Foi a tarde mais estranha da minha, mas também a mais gratificante desde que tinha descoberto a traição. Pela primeira vez, senti que tinha retomado o controle da situação.
Não era mais o coitado, o traído, o otário. Era o cara que estava dando o troco na mesma moeda, sem baixaria. Quando a festa acabou, levei a Sandra para casa, sempre à frente de todo mundo. Despedimo-nos com um abraço demorado e um beijo no rosto, mesmo à porta da casa dela. Marcelo observava tudo por dentro, provavelmente mordendo a língua de raiva.
Voltei para o camião com a sensação de missão cumprida. A semente estava plantada, agora era só esperar que os frutos. O negócio começou a pegar fogo depois daquela festa do filho da Sandra. A cidade inteira já estava a comentar sobre a gente. Não tinha como esconder mais nada. Todos já sabiam que o Juca Caminhoneiro estava a sair com a A Sandra do mercadinho, mulher do Marcelo Mecânico.
Os boatos corriam mais depressa que camião em descida com o travão solto. Decidi que estava na altura de aparecer mais com a Sandra, não só em locais escondidos, mas bem na cara de toda a gente. No domingo, fui com ela à missa da igreja matriz. Entrámos juntos, sentámo-nos no meio do povo. À saída fizemos questão de cumprimentar toda a gente, como se fôssemos um casal a sério.
Passamos na padaria, tomamos café na praça. Belém é grande, mas tem alma de cidade pequena. Nessas alturas, todo mundo se conhece, toda a gente repara. No posto tubarão, o da entrada da cidade que todo o camionista conhece, fiz questão de abastecer o camião com a Sandra do meu lado. Conversei com os frentistas, com os outros condutores, sempre apresentando-a como minha amiga especial.
Ela entrou no jogo direitinho, sorria, tocava-me no braço, agia como uma mulher apaixonada. No fundo, a gente até se divertia com a situação. Em meio a tanta dor, era um alívio poder dar riso de alguma coisa. A Sandra era uma boa companhia. Ao contrário da Janaína, ela não ficava queixando-se da vida de camionista. Não implicava com o cheiro a gasóleo nas as minhas roupas.
Não se incomodava com as chamadas a meio da noite, pelo contrário, parecia admirar o que eu fazia. Disse que sempre respeitou os camionistas, que sabia que a gente era o sangue que fazia pulsar o Brasil. Uma mulher destas merecia coisa melhor que um marido traidor. Nessa mesma semana, levei-a a uma churrascaria que tem na beira da estrada, onde os camionistas costumam parar.
O dono, o seu natalício, me conhecia há anos. Quando entrei com a Sandra, ele arregalou os olhos. Sabia muito bem que eu era casado com a Janaína, mas não disse nada. Só deu aquele sorriso de canto de boca. Pedimos uma picanha, uma cerveja e ficámos ali conversando até tarde. Enquanto isso, a A Janaína não parava de me ligar. O telemóvel parecia que ia pegar fogo.
Quando atendia, ela vinha com um monte de pergun. Onde é que eu tava? Com quem tava? Porque não voltava para cá? Respondia tudo por alto. Dizia que estava trabalhar, que a vida estava corrida. Ela não engolia a história, claro. Já devia saber tudo, mas queria ouvir da a minha boca.
Um dia não aguentou mais e explodiu no telefone. Começou a gritar, perguntando se eu a estava a trair com a Sandra, que toda a gente na cidade estava falando, que ela estava a passar vergonha. Foi aí que lancei a bomba. Com a voz mais calma do mundo, respondi que só me estava a divertir igual ela. O silêncio do outro lado da linha foi tão grande que por momentos pensei que a ligação tinha caído.
Depois ela começou a chorar. Um choro nervoso, desesperado, perguntou o que eu estava a insinuar com aqui. Se fez de desentendida, como se não soubesse de nada. Eu só repetia, estava fazendo igual a ela, divertindo-me com quem tinha vontade. Ela desligou na a minha cara. Minutos depois, o telemóvel tocou de novo.
Era o Marcelo, o mecânico. Estava nervoso. Queria saber o que estava a acontecer entre mim e a mulher dele. Dei uma gargalhada. disse que sabia muito bem o que estava a acontecer, que olhasse para o próprio rabo antes de vir tirar satisfações. Ele ameaçou, disse que me ia apanhar na porrada, que eu estava a destruir a família. Desliguei sem responder.
No dia seguinte, a Sandra ligou-me toda nervosa. Marcelo tinha chegado a casa furioso, partiu algumas coisas, fez um escândalo em frente do Acus traindo com o camionista. Disse que toda a gente na cidade estava a falar. A Sandra jogou na cara dele que sabia tudo sobre ele e a Janaína. Foi uma briga feia. Ela acabou por pegar no menino e ir dormir na casa da mãe.
A coisa estava a ficar demasiado séria. Por momentos pensei em recuar, em contar a verdade a Sandra, dizer que devíamos parar com aquela vingança antes que alguém saísse magoado de verdade. Mas quando lembrava-se da cena da Janaína com o Marcelo no meu sofá, a raiva voltava com tudo. Eles não pensaram nas consequências quando decidiram trair.
Porque é que eu deveria pensar agora? Continuamos com o plano. A Sandra voltou para casa depois de Marcelo ter pedido desculpas. jurou que ia mudar, que amava ela e o filho. Ela fingiu que acreditou, mas continuou me encontrando escondido. Não era mais por vingança, era porque a gente tinha virado amigo mesmo.
Nos apoiávamos nessa situação maluca. A cidade fervia com a história. Os caminhoneiros no pátio não falavam de outra coisa. O Juca, que sempre foi exemplar, casado há tantos anos com a mesma mulher, agora estava saindo com a mulher do mecânico. E o mecânico, por sua vez, tinha um caso com a mulher do Juca. Era novela mexicana em pleno Pará.
Janaína tentou falar comigo mais algumas vezes. Numa delas estava claramente bêbada. chorou, implorou, disse que me amava, que não sabia o que tinha acontecido comigo. Em nenhum momento admitiu a traição. Parecia que na cabeça dela o errado da história era eu. Isso só aumentava minha vontade de seguir com o plano até o fim.
Sandra e eu combinamos de ir num forró famoso da cidade no sábado à noite. Era um lugar que todo mundo frequentava, inclusive o pessoal da oficina onde o Marcelo trabalhava. certeza que no dia seguinte a história estaria na boca do povo. Me arrumei todo. Botei uma camisa nova, passei per Quando cheguei no mercadinho para buscar ela, Sandra estava linda.
Vestido vermelho, cabelo arrumado, maquiagem caprichada. Por um momento esqueci que aquilo tudo era fingimento. O forró estava lotado. Música alta, gente dançando, cerveja gelada. Entramos de mãos dadas, cumprimentando todo mundo no caminho. Vi alguns conhecidos, outros caminhoneiros.
fregueses do mercadinho dela. Todos olhavam com aquela cara de quem tá vendo algo que não devia. Dançamos a noite toda. Sandra sabia dançar forró que era uma beleza. Me levava, me guiava, não deixava eu fazer feio. Rímos muito, bebemos um pouco, fingimos ser o casal mais feliz daquele salão. No meio da noite, um dos amigos do Marcelo apareceu, ficou nos encarando de longe, com cara de poucos amigos.
certeza que no dia seguinte já estaria contando tudo pro mecânico traidor. Quando voltamos, já era quase madrugada. Deixei Sandra na porta de casa e voltei pro pátio, onde tinha estacionado o caminhão. Estava cansado, mas com a sensação de dever cumprido. O plano estava funcionando melhor do que eu esperava.
Janaína devia estar subindo pelas paredes de ciúme. Marcelo também. Os dois que me traíram agora estavam provando do próprio veneno. No dia seguinte, logo cedo, recebi uma mensagem da Sanda. Marcelo tinha chegado em casa de madrugada, completamente bêbado, fez o maior escândalo. Disse que todo mundo na oficina estava tirando onda com ele por causa da mulher que estava saindo com um caminhoneiro.
Ameaçou bater nela, mas o filho acordou com a gritaria e ele acabou se acalmando. Sandra estava com medo pensando em ir pra casa da mãe de novo. Falei para ela ficar tranquila que Marcelo era só um fanfarrão, que não ia fazer nada, mas no fundo também estava preocupado. A vingança estava ficando perigosa demais.
Era hora de dar um jeito nessa história, de colocar um ponto final nesse teatro todo. Foi aí que decidi. Ia confrontar a Janaína cara a cara, ia jogar na mesa tudo que sabia, fazer ela admitir a traição, mostrar que eu não era otário e depois seguiria minha vida longe dela, longe daquela cidade que agora só me trazia lembranças ruins.
Mandei mensagem para ela pedindo para conversar. disse que precisávamos acertar as coisas, que não dava mais para continuar daquele jeito. Ela respondeu na hora, toda ansiosa, dizendo que também queria muito conversar, que a gente precisava salvar nosso casamento. Mal sabia ela que não tinha mais casamento nenhum para salvar. O confronto estava marcado e dessa vez eu não ia recuar.
Não demorou nem dois dias depois daquele forró e a bomba estourou de Tava eu ali quieto no meu canto, fazendo a manutenção do caminhão no pátio da transportadora. Era um domingo de manhã, sol quente daquele jeito que só o norte sabe fazer. tinha acabado de trocar o óleo, estava com a mão toda suja de gracha, suando que nem um condenado.
Foi quando vi aquele carro conhecido entrando no pátio, um fiesta vermelho que eu mesmo tinha comprado para Janaína no ano passado. Meu coração deu um pulo. Sabia que a hora da verdade estava chegando. Continuei o que estava fazendo, fingindo que nem tinha vi, mas por dentro, rapaz, tava fervendo mais que motor em subida longa. Ela estacionou perto da guarita e veio vindo na minha direção. De longe.
Já dava para ver que estava com os olhos inchados de tanto chorar. Vestido simples, cabelo preso, sem maquiagem, bem diferente da mulher arrumada que eu tinha flagrado com o Marcelo naquele dia. Os outros caminhoneiros que estavam no pátio logo perceberam o clima. foram se afastando devagar, dando espaço, mas ficando por perto o suficiente para não perder nada da confusão.
Notícia corre rápido em pátio de caminhão. Todo mundo já sabia da história. A Janaína chegou perto, os olhos já marejados. Começou a falar baixinho, perguntando por eu estava a fazer aquilo com ela, porque estava a sair com a Sandra, se não pensava na nossa história, nos nossos anos juntos. falava e chorava ao mesmo tempo, fazendo aquela cena que uma mulher sabe fazer quando quer vergar um homem.
Fiquei quieto, só ouvindo. Limpei as mãos num pano velho. Fechei o capô do camião muito devagar. Ela continuava a falar cada vez mais alto, que me amava, que tudo podia ser resolvido, que precisávamos conversar. Então ela soltou a pergunta que eu estava à espera. Quis saber se era verdade que eu estava a ter um caso com a Sandra, se a estava a trair.
A palavra traidor saiu-lhe da boca como se fosse a coisa mais absurda do mundo, como se ela fosse uma santa, como se nunca tivesse feito nada de mal. Foi aí que não aguentei. Olhei bem nos olhos dela e soltei tudo de uma vez. Perguntei se ela tinha moral para falar na traição, se ela tinha vergonha na cara de me vir cobrar fidelidade.
Disse que ela tinha rasgado qualquer respeito que tinha no sofá da nossa casa com o Marcelo. O rosto dela mudou logo. Ficou branca, que nem papel. Tentou negar, disse que eu estava louco, que não sabia do que estava a falar, mas os olhos dela entregavam tudo. Culpa pura. Contei-lhe então que tinha visto tudo nesse dia, que tinha voltado mais cedo para fazer uma surpresa, que tinha visto ela com o mecânico em nossa casa, que desde esse dia o meu coração tinha virado pedra. Ela desatou a chorar de vez.
Um choro desesperado, de quem sabe que foi apanhada no pulo. Começou a explicar-se, dizendo que tinha sido só uma vez, que tinha sido uma fraqueza, que o Marcelo tinha insistido tanto. As desculpas de sempre de quem trai e é descoberto. Por um momento, quase senti pena. 20 anos de história não se apagam assim.
Mas aí lembrei-me de tudo o que tinha passado nestas semanas. A dor, a humilhação, as noites sem dormir na boleia. Ela não tinha pensado em nada disto quando estava nos braços do mecânico. Perguntei então se ela queria mesmo conversar. Ela fez que sim com a cabeça, enxugando as lágrimas. Foi aí que soltei a bomba.
Perguntei se tinha gostado de sentir o sabor do próprio veneno, se tinha gostado de saber que o marido andava com outra mulher, se tinha gostado de ser traída como ela me traiu. Ela ficou confusa por um momento, depois compreendeu tudo, que eu e a Sandra tínhamos montado aquilo tudo, que era apenas um plano para fazê-la sentir o que eu senti.
ficha caiu de uma vez, começou então a gritar, dizendo que eu era cruel, que tinha brincado com os sentimentos dela, que isso não se fazia. Eu só me ri, uma riso sem graça, de quem está cansado demais para se importar. Perguntei se ela tinha pensado nos meus sentimentos quando estava nua com o Marcelo na a nossa cama.
O pessoal do pátio já tinha juntou-se em volta, assistindo a tudo como se fosse uma novela das 8. Eu não ligava. Que vissem mesmo, que ouvissem tudo. Não tinha mais nada a esconder. A Janaína tentou abraçar-me, dizendo que podíamos ultrapassar aqui, que tinha sido um erro, que me amava verdadeiramente. Afastei ela com o braço.
Disse que não tinha mais volta, que acabou, que eu preferia passar o resto da vida sozinho na boleia do que voltar para uma mulher que não respeitava o próprio mar. Ela caiu de joelhos no chão de terra batida do pátio, sujando o vestido todo, chorando que nem criança. Uma cena forte que até me apertou o peito, mas mantive-me firme.
Homem que é homem não volta atrás quando toma uma decisão destas. Disse para ela se levantar que estava a fazer papel de parva à frente de toda a gente, que fosse para casa, que eu passaria lá nos próximos dias para ir buscar as minhas que o apartamento podia ficar para ela, que eu não queria mais nada daquela.
Ela se levantou-se devagar. Os olhos vermelhos, o rosto todo manchado de lágrimas e poeira. Perguntou se eu não ia mesmo perdoá-la, se 20 anos não valiam uma segunda oportunidade. Respondi que uma traição não se perdoa, esquece-se e que eu não conseguiria esquecer nunca. Virei as costas e comecei a caminhar em direção à snack-bar do pátio.
Precisava de um café de um tempo sozinho. Ela ficou lá parada a olhar. Passado um tempo, ouvi o barulho do carro dela a arrancar e saind. Os outros camionistas vieram na minha direção. Uns batiam-me nas costas, outros diziam que eu tinha feito certo. Que o homem não pode ser parvo. O bigode, que era o mais velho da turma, sentou-se ao meu lado na cafetaria e ficou quieto. Não precisava de dizer nada.
A estrada ensina que, por vezes, o silêncio diz mais do que mil palavras. Naquela noite dormi pesadamente na boleia, como não dormia há semanas. Era como se um peso tivesse saído das minhas costas. Não tinha mais mentira, já não tinha fingimento. Tudo tava às claras. Agora, no dia seguinte, liguei paraa Sandra, contei tudo que tinha acontecido no pá.
Ela disse que Marcelo também tinha descoberto a verdade, que tinha ficado furioso no começo, mas depois caiu num choro arrependido, que estava implorando perdão, dizendo que amava ela e o filho, que nunca mais ia trair. Perguntei o que ela ia fazer. Sandra ficou em silêncio por um momento. Depois disse que não sabia ainda, que precisava pensar no filho, na família, que talvez desse uma segunda chance, mas que nada seria como antes. Respeitei a decisão dela.
Cada um sabe onde o sapato aé. Quanto a mim, já tinha decidido. Ia pegar minhas coisas e cair na estrada de vez. Não queria mais saber de Janaína, de casa, de vida de casado. A estrada seria minha casa agora. O Brasil inteiro, meu quintal. Passei na casa no dia seguinte, quando sabia que Janaína estaria trabalhando.
Peguei minhas roupas, meus documentos, algumas lembranças que ainda valiam a pena. Deixei a aliança em cima da mesa junto com um bilhete seja feliz. Eu vou ser. Quando fechei a porta daquela casa pela última vez, senti uma mistura de tristeza e alívio. Um capítulo da minha vida que se encerrava ali doía? Claro que doía, mas a dor de ficar seria muito maior.
Voltei pro pátio, joguei tudo na boleia e liguei o motor. Tinha um frete para Goiânia me esperando. 1500 km de estrada para pensar na vida, para curar as feridas. Antes de sair, o telefone tocou. Era Janaína implorando mais uma vez, dizendo que ia mudar, que podíamos recomeçar. Ouvi em silêncio e só respondi uma coisa, que às vezes o amor acaba e que o nosso tinha acabado naquele sofá com ela nos braços de outro homem.
Desliguei e joguei o caminhão na estrada. A vida que seguisse em frente, como as rodas do meu bruto na BE, sem olhar para trás. Uma semana depois daquela cena no pátio, eu estava voltando de um frete de marabá carregado de minério. A cabeça já estava mais assentada, mas o coração ainda doía quando lembrava de tudo. Nesse meio tempo, Janaína não parou de me ligar, de mandar mensagem.
Umas horas chorava, outras ameaçava, outras implorava. Mulher, quando quer reconquistar um homem faz de tudo. Mas eu já tinha decidido. Aquela página tava virada. Foi aí que pensei em fazer um acerto final. Não estava satisfeito com aquela conversa no pátio. Tinha muita coisa engasgada ainda, muita palavra presa na garganta.
Queria olhar bem nos olhos dela, contar tudo que sentia, fazer ela entender o tamanho do estrago que tinha feito na minha vida. E queria fazer isso num lugar onde eu me sentisse seguro, onde tivesse meus parceiros de estrada por perto. Liguei para ela numa terça-feira. Pedi para encontrar no posto do gaúcho aquele bar de beira de estrada que todo caminhoneiro do norte conhece.
Disse que a gente precisava conversar direito, acertar os detalhes da separação, resolver as pendências. Ela aceitou na hora, achando que era uma chance de me reconquistar. O posto do gaúcho é um lugar simples, mas acolhedor pro povo da estrada. Tem aquele restaurante com comida boa, aquela cerveja sempre gelada e o gaúcho, dono do lugar, que conhece todo mundo pelo nome.
Muita história de caminhoneiro já foi contada naquelas mesas de madeira, debaixo daquele telhado de zinco. Cheguei cedo e já avisei o gaúcho que a conversa ia ser pesada. Ele entendeu na hora. Me colocou numa mesa mais afastada, mas de onde dava para ver a entrada. pediu para dois seguranças ficarem de olho caso a coisa esquentasse.
Naquela noite, vários colegas de estrada estavam por lá. O bigode, o Zé Cachoeira, o Tião Mineiro, todos parceiros de longa data que já tinham ouvido a história toda. Quando Janaína entrou no bar, parecia outra pessoa. Estava toda produzida, cabelo feito, maquiagem, vestido novo, tentando me reconquistar pela aparência, como se o problema fosse esse.
Os caminhoneiros nas outras mesas pararam a conversa por um momento. Todos sabiam quem ela era, o que tinha feito. Ela sentiu o peso dos olhares, mas veio direto na minha direção. Fingindo não perceber, sentou na minha frente com um sorriso nervoso. Pediu uma água. Começou a falar de coisas banais do tempo, da cidade, como se tivesse medo de entrar no assunto principal.
Deixei ela falar por um tempo. Tomei um gole de cerveja, respirei fundo e então cortei a enrolação. Falei para ela que tinha marcado aquele encontro por um motivo só. Queria que ela soubesse toda a verdade. Queria que ela entendesse o que tinha feito comigo, o tamanho da ferida que tinha aberto e queria que ela soubesse de tudo, sem meias palavras.
Comecei contando do dia em que voltei mais cedo para casa, querendo fazer uma surpresa no nosso aniversário de casamento, de como vi ela com o Marcelo pela janela, do choque, da dor, do mundo desabando, de como voltei pro caminhão sem dizer nada, com o coração em pedaços. Ela tentou interromper, negar, dar desculpas.
Levantei a mão, pedindo silêncio. Disse que não tinha terminado ainda, que queria que ela ouvisse tudo. Contei então do plano, de como encontrei a Sandra, de como decidimos dar o troco na mesma moeda, que tudo aquilo que ela viu, que ouviu falar, que imaginou, era só uma encenação. Que nunca houve nada entre eu e a Sandra, além de uma amizade nascida da dor compartilhada, que tudo foi planejado para fazer ela sentir o que eu senti.
Os olhos dela se encheram de lágrimas de novo, mas dessa vez não era aquele choro manipulador de antes. Era um choro de vergonha de quem finalmente entende a gravidade do que fez. Ela então finalmente admitiu, confessou que sim, tinha me traído com o Marcelo, que não foi só uma vez, como tinha dito antes, que já durava alguns meses, que começou quando eu fazia aquelas viagens mais longas, quando ficava semanas fora, que se sentia sozinha, que ele deu atenção, que uma coisa levou a outra.
Ouvi tudo em silêncio. Cada palavra era como uma faca enfiada no peito, mas pelo menos agora era a verdade. Sem mais mentiras, sem mais fingimento. Perguntei se tinha valido a pena. Se jogar fora 20 anos de história por causa de uma aventura com um mecânico casado tinha compensado. Ela abaixou a cabeça sem responder.
Não precisava. A resposta estava na cara dela. Contei então que a Sandra tinha decidido dar uma segunda chance pro Marcelo, que ela tinha pensado no filho, na família, no tempo investido, que talvez eles conseguissem reconstruir algo a partir das cinzas. Janaína levantou os olhos esperançosa.
Achou que eu estava dando uma dica que também considerava voltar. Cortei logo a esperança. Disse que cada um tem seu limite e que o meu tinha sido ultrapassado sem volta. que não conseguiria mais olhar para ela sem ver a cena daquele dia, que preferia ficar sozinho pelo resto da vida, a voltar para uma relação sem confiança. Ela chorou mais forte.
Os caminhoneiros das outras mesas fingiam não olhar, mas eu sabia que estavam acompanhando tudo. O gaúcho passou por perto, perguntou se estava tudo bem, se precisava de algo. Fiz que não com a cabeça. Aquela conversa eu precisava terminar sozinho. Janaína tentou uma última cartada. falou do nosso passado, dos planos que tínhamos, do amor que sentíamos.
Disse que podíamos recomeçar, que o tempo cura tudo, que o perdão liberta, todas aquelas frases feitas que a gente ouve quando alguém quer uma segunda chance depois de fazer besteira. Olhei bem nos olhos dela, aqueles mesmos olhos que me encantaram há 20 anos atrás numa festa junina e imperatriz.
Aqueles olhos que vi tantas vezes me olhando com amor quando eu voltava da estrada. os mesmos olhos que agora imploravam por perdão. Disse que sim, o tempo cura tudo, que sim, o perdão liberta, mas que algumas coisas quando quebram não tem concerto. Que nosso casamento era uma dessas coisas, que ela sempre teria um lugar na minha memória, nos meus bons momentos, mas que não podia mais ter um lugar na minha vida.
Levantei, paguei a conta e me despedi. Disse que ia seguir minha vida na estrada, que ia mandar os papéis do divórcio pelo advogado, que desejava que ela fosse feliz de verdade. Ela ficou sentada chorando baixinho, sem força para levantar ou para me impedir. Quando passei pelas outras mesas, os colegas caminhoneiros me olharam com respeito.
Ninguém disse nada, mas todos entendiam. Na estrada a gente aprende que algumas cargas são pesadas demais para carregar, que às vezes é preciso descarregar e seguir viagem mais leve. O bigode levantou, me deu um abraço forte, daqueles que só homem que já sofreu sabe dar. Sem palavras, só o gesto. O Tião mineiro me ofereceu uma carona até o pátio, mas preferia ir andando.
Precisava sentir o ar da noite, colocar os pensamentos em ordem. Quando saí do bar, olhei para trás uma última vez. Janaína ainda estava lá sentada sozinha na mesa, o copo de água entocado na frente. Uma mulher bonita que um dia eu amei mais que tudo na vida, agora apenas uma estranha, alguém que passou pela minha história e seguiria por outro caminho.
Voltei pro pátio caminhando devagar. A noite estava clara, cheia de estrelas, o tipo de noite que a gente vê muito na estrada quando tá rodando de madrugada e para num acostamento qualquer para admirar o céu. Senti uma paz estranha. como se tivesse finalmente largado um peso que carregava a semana. No dia seguinte, peguei um frete para São Paulo, 2500 km de distância.
Quanto mais longe de Belém, melhor. Precisava de novos ares, novas paisagens, novos horizontes. A estrada sempre foi minha melhor terapia e agora seria minha casa de Antes de partir, mandei uma última mensagem pra Sandra, agradecendo por tudo, desejando força na reconstrução da família dela.
Ela respondeu com carinho, dizendo que eu teria sempre uma amiga no Pará se um dia quisesse voltar. Uma amizade improvável, nascida da dor, mas que me tinha ajudado a ultrapassar o pior momento da minha vida. Liguei o motor, ajustei os espelhos e entrei na BR. A estrada abria-se à minha frente como um convite.
Um camionista, o seu camião, e milhares de quilómetros pela frente. A vida continua sempre em frente, como as rodas no asfalto. Já passaram seis meses desde essa noite no Bar do Gaúcho. Seis meses a rodar por esse Brasil sem parar. Pegando frete atrás de frete, conhecendo sítios novos, gente diferente. A estrada tem destas coisas.
Quanto mais roda, mais se encontra. É como se cada quilómetro fosse lavando a alma da gente, carregando um bocadinho da dor embora. Hoje estou aqui na boleia do meu Scania, parado num posto da BR163, fronteira do Mato Grosso com o Pará. Acabei de entregar uma carga de soja e aguardo o próximo chamado. O pôr do sol nesta região é uma coisa de Deus.
O céu fica todo alaranjado, depois roxo, depois estrelado. É nestes momentos que paramos para pensar na vida, no que ficou para trás e no que ainda está por vir. Não vos vou mentir, parceiros da estrada. Ainda dói pensar na janaína. 20 anos não se apagam assim do dia para a noite. Às vezes acordo no meio da madrugada com a recordação dela.
Às vezes pego no telemóvel para mandar uma mensagem por puro costume. E lembro-me que não temos mais nada. É como perder um pedaço de si mesmo, mas a dor já não é a mesma. Já não sangra como antes. O divórcio saiu rapidamente. Ela não contestou nada. Não quis luta na justiça. Ficou com a casa.
Eu fiquei com o camião, que sempre foi o meu fiel parceiro mesmo. Dividi o dinheiro que tinha na conta. Dei a parte dela sem discussão. Não não queria nada que me lembrasse daquela vida, daquela mentira que vivi durante tanto tempo. Soube por amigos comuns que ela está a viver com o Marcelo agora. Pelo jeito, a Sandra não deu a segunda oportunidade que tinha.
Acabou por mandá-lo embora de vez depois de apanhar mais uma pulada de cerca. Homem que trai uma vez, trai sempre. É feito cão que apanha a galinha, não há jeito. Agora os dois traidores estão juntos, construindo uma vida em cima de uma história que começou errada. Não desejo mal, mas também não acredito que vai resultar. Falando na Sandra, ainda nos falamos de vez em quando.
Ela vendeu o mercadinho, levou o filho e mudou-se para Manaus para ficar perto da família. Começou uma vida nova, longe das más recordações. Mulher guerreira, daquela que a vida não dó. Quem sabe um dia os nossos caminhos não se cruzam de novo. Desta vez sem planos de vingança, sem mágoas pelo meio. Só dois amigos que se conheceram na dor, mas que podem reencontrar-se na alegria.
Quanto a mim, estou a seguir o meu rumo. A estrada tornou-se a minha casa de vez. Não tenho mais endereço fixo. Já não tenho rotina para além das viagens. Carrego o Brasil nas costas e levo um pouco de mim em cada lugar por onde passo. Há dias que é duro, que a solidão aperta, que dá vontade de ter alguém à espera em algum lugar, mas há dias que é libertador, sem exigências, sem expectativas, sem decepções.
Uma coisa que aprendi nesta fase da vida foi a de cuidar mais de mim. Mesmo na boleia, comecei a carregar sempre uma garrafinha com chá naqueles que a minha avó me ensinou a fazer. Erva cidreira para acalmar os nervos depois de um dia puxado. Camomila para dormir melhor nas noites de insónia. Hortelã para a digestão, depois daquela comida pesada de posto.
Estes remédios da natureza foram os meus companheiros nas noites solitárias, ajudando-me a manter o corpo são enquanto o coração ia cicatrizando. Se vocês tiverem curiosidade sobre estes chás que salvam nós na estrada, deixei um link na descrição. Coisa simples, mas que faz toda a diferença quando se passa dias longe de casa, com o corpo cansado e a mente a mil.
A boleia deste camião já viu de tudo. Já me viu chorar como criança nas primeiras semanas após a separação. Já me viu xingar o mundo inteiro em acessos de raiva quando a recordação da traição voltava forte demais. Já me viu beber até cair em postos de estrada, tentando afogar a mágoa, mas também já me viu renascer. Pouco a pouco, dia após dia, quilómetro após quilómetro.
É engraçado como a vida da gente muda num piscar de ó. Se alguém disse-me há um ano que eu estaria aqui sozinho, divorciado, sem casa, eu não acreditaria. Achava que tinha a vida toda planeada. Eu e a Janaína íamos envelhecer juntos, comprar aquele sítio que tanto sonhamos, criar uns animais, viver em paz. Mas a vida tem destas viragens e a gente só descobre do que é feito quando a tempestade chega.
Descobri que sou mais forte do pensava, que consigo recomeçar mesmo quando parece que o mundo acabou, que a a dor passa, que a ferida cicatriza, mesmo deixando marca. Descobri também quem são os amigos de verdade, aqueles que ficaram do meu lado nos momentos mais escuros, que me escutaram sem julgar, que deram-me a mão quando eu mais precisava.
O bigode foi um desses, velho camionista, raiz mesmo, daqueles que conhece cada buraco de cada estrada daquele país. Foi ele que me acolheu nos primeiros, que me ofereceu um ombro para chorar, que me deu os melhores conselhos. Foi ele também que me incentivou a seguir em frente, a não me afundar, a não fazer asneiras.
Lembro dele dizendo: “Juca, a estrada é igual à vida, tem curva, tem buraco, tem subida e descida. Mas se souber conduzir, chega ao destino. E o seu destino não é parar aqui nesta dor, é seguir viagem até encontrar a paz de, e é isso que eu Estou a fazer, seguindo viagem, um dia de de cada vez, 1 km de cada vez, sem pressas, sem ansiedade, deixando o tempo fazer o trabalho dele, que é curar as feridas e trazer novas oportunidades.
A mensagem que deixo para vós, parceiros de estrada, é esta: cuida de quem te espera em casa. Valoriza quem fica acordado à espera você vol dar atenção, liga, manda mensagem, mostra que mesmo longe está pensando porque é que a estrada é solitária e ninguém merece ser traído depois de tanto Mas se mesmo assim a traição acontecer, como foi comigo, não se rebaixa, não faz o papel de otário, mostra que tem valor, que tem dignidade.
Faz como eu fiz, devolve na mesma moeda, mostra o que é sentir a dor da traição e depois segue o teu caminho de cabeça erguida, sem olhar para trás. Hoje continuo na estrada, mais leve, mais sábio, mais forte. A ferida ainda lá está, mas já não sangra. Quem sabe o que o destino reserva mais paraa frente? Talvez outra companheira, alguém que valorize um homem da estrada.
Talvez a solidão por mais algum tempo até estar pronto para confiar de novo. Ou talvez apenas isso. Eu, o meu camião e esta estrada sem fim. O sol já se pôs completamente. As primeiras estrelas começam a aparecer no céu do Mato Grosso. Daqui a pouco vou preparar um café na boleia, comer qualquer coisa e deitar cedo.
Amanhã há mais estrada me à espera, mais carga para carregar, mais vida para viver. A história que contei-vos hoje não tem um final feliz. Daqueles de novela tem um final real de gente a sério, de homem que trabalha muito e que às vezes se magoa pelo caminho. Mas tem um final digno de alguém que não se deixou fazer de parvo, que enfrentou a dor de frente e saiu por cima.
Se está a passar por algo parecido agora, irmão da estrada, aguenta. A tempestade passa, o sol aparece de novo e, no final, vai descobrir que é mais forte do que imaginava, que consegue sobreviver. mesmo aquilo que jurava que te ia matar. Eu sou o Juca, 42 anos, 20 deles na estrada. Esta foi a minha história. Agora é seguir viagem, que o Brasil é grande e a vida não pára.
Um abraço a todos vós que acompanharam até aqui. E lembrem-se, na estrada da vida o importante não é não cair, é saber levantar-se depois da queda. E subscrevam o canal. Comentem lá por baixo se já passaram por algo parecido, se deixaram passar ou devolveram na mesma moeda. Compartilhem com algum parceiro que necessite de acordar, que está a ser feito de parvo e não percebeu ainda.
Por vezes, um toque de um amigo faz toda a diferença. Um abraço do Juca Camionista e até à próxima história na Boleia. Yeah.