Ela corria incansavelmente, fugindo de um casamento arranjado pela família. Era uma rapariga jovem e bonita. Ela queria apenas liberdade. Correndo pela estrada, encontrou a última oportunidade, mesmo sem saber quem eu era. Assim, correu em direção ao meu camião. E ali eu tinha apenas duas decisões.
Ou pisava no acelerador e ia-se embora, porque todo o mundo sabe que em briga de marido e mulher ninguém mete a colher, como diz o ditado, ou eu ajudava aquela rapariga tão jovem e bonita. Mas o que eu fiz, nunca arrependi-me. E se acha que eu consegui salvá-la, comenta lá e se subscreve o canal para me dares uma força.
Há gente que acha que um camionista vive livre, que a estrada é um convite, o horizonte uma promessa e que cada viagem é uma aventura diferente. Eu também pensava assim há muito tempo, antes de compreender que a estrada não é liberdade, é fuga e que tem fugas das quais nós nunca mais volta.
O meu nome é Geraldo, mas toda a gente me chama de Gera. 63 anos, 38 deles atrás de um volante. Já cruzei este país de ponta a ponta tantas vezes que perdi a conta. Conheço cada curva da BR153, cada posto da Belém, Brasília, cada buraco da Transamazónica que o governo finge que não existe. Conheço o cheiro da chuva a chegar ao Tocantins, o gosto da poeira do Piauí a colar-se aos dentes, o som das cigarras no interior de Goiás, quando o sol começa a cair.
Mas tem coisas que a estrada não ensina. Tem coisas que ela só cobra. Naquela madrugada estava a fazer a rota de sempre, saindo de Anápolis com uma carga de grão, destino imperatriz, no Maranhão, quase 1000 km de asfalto, terra e silêncio. O tipo de viagem que eu fazia em automático, com o rádio baixo a tocar sertanejo antigo e a mente deambulando por lugares que eu preferia esquecer.
O camião era um Scania velho, modelo de 2008, a que eu chamava matador, não por ser perigoso, mas porque já tinha matado três financiamentos e continuava a circular. A cabine cheirava a café frio, a cigarro apagado e aquele perfume de pinheiro que eu pendurava no retrovisor mais por hábito do que por gostar. O banco do pendura estava coberto por uma manta aos quadrados que a minha filha tinha-me dado há anos atrás.
antes de deixar de falar comigo, Luciana. O nome dela ainda lhe doía como unha encravada. Eu não gostava de pensar nela durante as viagens, mas o silêncio da estrada tem esse poder cruel de trazer à tona tudo o que enterramos durante o dia. E nessa noite, enquanto o matador cortava a escuridão do interior de Goiás, não conseguia tirar da cabeça a última vez que a vi. Fazia 6 anos.
Ela tinha vindo procurar-me num posto em Ribeirão, demasiado magra, com olheiras fundas e um menino ao colo que nem sabia que existia. O meu neto, um miúdo de 2 anos que me olhou com aqueles olhos castanhos iguais aos da mãe, e não emitiu qualquer som. Luciana disse que precisava de dinheiro. Disse que o marido tinha desaparecido, que ela estava devendo renda, que já não tinha para onde ir. Eu dei o que tinha.
Não era muito, mas era tudo. Ela pegou no dinheiro, agradeceu sem me olhar nos olhos, e foi-se embora. prometeu que ia ligar, prometeu que ia enviar uma foto do menino, prometeu que desta vez seria diferente. Nunca mais atendeu o telefone. Depois soube por um primo distante que ela tinha voltado ao marido, o mesmo sujeito que lhe batia, que gastava tudo em jogo, que a tratava como se ela não valesse nada.
E eu Fiquei a perguntar-me, noite após noite, onde é que eu errei, se foi quando saí de casa para correr o país e deixei-a crescer sem pai presente, se foi quando não soube escutar, se foi quando tentei resolver com dinheiro o que precisava de tempo. A culpa é uma companheira silenciosa. Ela não fala, não reclama, não pede nada, apenas se senta ao seu lado e espera.
E quando menos se dá conta, já tomou conta de tudo. O relógio do painel marcava 4:30 da manhã, quando passei pela última cidade com o nome no mapa: Porangatu, um punhado de casas, um posto 24 horas com luz fraca, uma igreja com sino que mais ninguém tocava. Dali em diante era só terra vermelha, cerca de arame e escuridão.
Eu conhecia aquele trecho. Todo o camionista que rodava por ali conhecia. Eram quase 80 km de estrada de terra batida, cortando quintas que não tinham fim, terras que pertenciam a um só homem, um tal de coronel Amaro, como o povo lhe chamava. Embora ele nunca tivesse sido coronel de nada, apenas proprietário, dono das terras.
do gado, das casas, das pessoas. O tipo de homem que não existia nos jornais da capital, mas que mandava mais do que qualquer político naquele pedaço de Brasil. O tipo de homem que resolvia um problema na bala e enterrava a prova onde ninguém a encontrava. O tipo de homem que fazia com que a lei fosse apenas uma palavra bonita num papel que ninguém lia.
Tinha ouvido histórias, todo mundo tinha histórias de peões que sumiam depois de reclamar de salário, de famílias que eram convidadas a deixar suas terras da noite pro dia, de mulheres que entravam na fazenda e nunca mais saíam. Ninguém falava alto, ninguém denunciava, ninguém era louco o suficiente para comprar briga com o coronel Amaro.
E eu naquela madrugada estava cruzando as terras dele, não por escolha, por necessidade. Aquele atalho cortava quase 100 km da viagem e com o preço do diesel do jeito que estava, cada litro economizado fazia diferença. Eu já tinha passado por ali umas 15 vezes sem problema. Sempre de madrugada, sempre em silêncio, sempre sem parar.
A regra era simples: não olha pros lados, não para em porteira nenhuma, não se mete no que não é da sua conta. Eu sabia a regra, todo mundo sabia. O céu começava a clarear no horizonte quando vi a primeira porteira. Era de madeira velha, com uma placa de metal enferrujada que dizia propriedade particular, entrada proibida.
Eu diminuí a marcha, passei devagar e segui em frente. O matador roncava baixo, os faróis cortando a poeira que subia da estrada. Foi entre a segunda e a terceira porteira que eu vi. A princípio, pensei que fosse um bicho, um bezerro perdido, talvez, ou um cachorro magro desses que vivem nas beiras de estrada.
Mas quando o facho de luz bateu direito, eu senti o estômago afundar. Era uma pessoa, uma mulher correndo. Ela vinha na direção do caminhão, descalça, tropeçando na terra vermelha. O vestido claro, branco, talvez, ou bege, estava rasgado na altura do ombro, manchado de algo escuro que eu torci para não ser o que parecia.
O cabelo preto grudava no rosto suado e mesmo de longe, eu conseguia ver que ela estava apavorada. Meu pé foi pro freio antes que minha cabeça decidisse qualquer coisa. O matador parou com um solavanco. A poeira subiu ao redor, vermelha e densa, como sangue seco. E ali, no meio daquela estrada que não era estrada, cercada por terras que não eram dela, aquela mulher parou também.
Ficamos nos olhando por um segundo que pareceu durar uma vida. Ela não devia ter mais que 20 anos, magra, pequena, com um corte na testa que escorria sangue seco até a sobrancelha. E os olhos, meu Deus, os olhos dela tinham aquele brilho de quem já desistiu de tudo, mas ainda está de pé porque o corpo não recebeu o recado.
Eu sabia o que devia fazer. Sabia que a regra era não parar. Sabia que cada segundo ali era um risco. Sabia que se alguém me visse ajudando uma fugitiva naquelas terras, eu poderia nunca mais sair dali. Mas também sabia de outra coisa. Sabia que se eu seguisse viagem e deixasse aquela menina para trás, eu ia passar o resto da vida acordando no meio da noite, vendo aqueles olhos no escuro, me perguntando o que teria acontecido se eu tivesse sido um homem diferente.
Eu já carregava culpa demais. Não ia aguentar mais essa. Abri a porta da boleia e disse só uma coisa: “Sobe agora”. Ela subiu no caminhão como quem escala um muro para fugir de um incêndio. Desajeitada, trêmula, agarrando o corrimão da porta com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. Quando sentou no banco do carona, vi que estava pior do que eu imaginava.
O corte na testa era fundo. O sangue tinha escorrido pelo rosto e secado em linhas tortas, como rachaduras numa máscara de barro. Os pés descalços estavam em carne viva, arranhados, sujos de terra, com pequenos cortes que ainda sangravam. O vestido, que de perto eu vi que era branco, estava rasgado em três lugares: no ombro, na barra e nas costas, onde eu conseguia ver a pele marcada de vermelho.
Não eram marcas de queda, eram marcas de mão. Alguém tinha agarrado ela com força, alguém tinha tentado segurar ela e ela tinha escapado mesmo assim. Fechei a porta e voltei pro volante sem dizer nada. O matador engasgou uma vez, duas. e pegou no tranco. Quando as rodas começaram a girar de novo, eu senti o peito apertar de um jeito que não sentia há anos. Obrigada.
A voz dela era um fio, quase não saía, rouca, tremida, como se cada palavra custasse um esforço enorme. “Não precisa agradecer”, eu disse, os olhos fixos na estrada. precisa é me contar o que tá acontecendo. Ela não respondeu de imediato. Ficou olhando paraa frente, pro facho dos faróis, cortando a escuridão, pros vultos das árvores passando rápido nas laterais.
Eu podia ouvir a respiração dela, curta, ofegante, como cachorro que correu demais. Eles vão vir atrás, ela disse finalmente. O senhor não devia ter parado. Já parei. Agora me conta. Mais silêncio. O caminhão passou por um buraco na estrada e sacudiu inteiro. Ela se agarrou no painel assustada e eu vi que as mãos dela também estavam machucadas.
Unhas quebradas, palmas esfoladas. Aquela menina tinha lutado para fugir. Eu tava, ela começou e a voz falhou. engoliu em seco, tentou de novo. Eu tava trancada no quarto desde ontem de tarde. Eles iam, iam casar-me hoje de manhã. Casar com quem? Com um homem, um lavrador, amigo do Ela parou, olhou para mim com aqueles olhos enormes, assustados, e vi que tinha mais coisa ali, muito mais.
Amigo do meu pai. Senti um arrepio na nuca. O tipo de arrepio que surge quando o corpo entende o perigo antes da mente. O seu pai sabe que fugiu? Ela fez que sim, com a cabeça, lentamente, como se o movimento do a essa hora já sabe. A empregada ia-me acordar às 5 para me arranjar. Quando visse o quarto vazio, olhei para o relógio do painel. 5:12.
Tínhamos minutos, talvez menos. Como saiu? Pela janela. Amarrei os lençóis, caí no telhado do armazém e saltei para o chão. Magoei o pé na queda, mas não parei. Corri para o lado da estrada porque sabia que era a única saída. As outras direções são apenas pasto e vedação. Inteligente, desesperada, mas inteligente.
E o corte na testa? Ela levou a mão ao rosto, como se só agora se lembrasse que estava a sangrar. O vigia viu-me quando eu estava a passar pelo curral, tentou agarrar-me. Eu caí, bati a cabeça no coxo, mas consegui-me soltar. Gritou, pediu reforço. Eu só corri. A cada frase o quadro ficava mais claro e mais perigoso. Este casamento eu disse, escolhendo as palavras com cuidado.
Você não queria? Ela olhou para mim como se eu tivesse questionado se a água era molhada. Eu Tenho 19 anos. O homem tem 56. Eu nunca o tinha sequer visto antes de ontem, quando o meu pai disse que eu ia casar. Não perguntou, não pediu, disse como se eu fosse uma égua que ele estava vendendo. A voz dela ganhou força na raiva e entendi que aquela menina não era só assustada, era revoltada.
tinha fogo dentro dela. O tipo de fogo que faz gente sobreviver quando tudo conspira para destruir. O seu pai fez acordo com este homem? Fez. Não sei os detalhes, mas ouvi-os a falar ontem à noite. O homem tem terras no Tocantins. O meu pai quer expandir-se e eu sou eu sou a moeda de troca.
Ela disse aquilo com uma frieza que me cortou por dentro. moeda de troca, como se fosse normal, como se fosse aceitável, como se o corpo dela, a vida dela, a vontade dela não valem nada. Pensei na Luciana. Pensei em todas as as vezes que eu não estava lá quando ela precisou, em todas as decisões que tomei por ela, achando que era para o bem dela.
Será que também eu, sem me aperceber, tinha tratado a minha filha como coisa em vez de pessoa? A culpa apertou de novo. Afastei o pensamento. Não era altura. E o casamento? – disse a garganta seca. Era para ser hoje de manhã, às 7 horas na capela da quinta. Já está tudo arrumado. As flores, o padre, os convidados.
Meu pai convidou gente importante de três estados: políticos, agricultores, delegados. Ninguém me ia ajudar. Ninguém ia ouvir-me. Eu era apenas uma noiva bonita para mostrar. Ela virou o rosto para janela. Vi pelo reflexo no vidro que os olhos dela estavam cheios de lágrimas, mas ela não deixou qualquer cair.
“Nunca fui tocada”, disse ela tão baixo que quase não o ouvi. E hoje isso ia deixar de ser uma escolha minha. O silêncio que veio depois foi o mais pesado que já carreguei. Passamos pela terceira porteira sem problema, a quarta-feira também, mas na quinta-feira vi que havia alguma coisa errada. A porteira estava fechada, não com cadeado, com corrente.
Uma corrente grossa, nova, brilhando no feixe dos faróis, como um aviso. Alguém tinha fechado aquela porteira de propósito. Alguém que sabia que eu ia passar por ali. Para, ela disse, a voz aguda de medo. Para, para, para. Eu não parei. Acelerei. O matador bateu na porteira com um estrondo de madeira e metal. A corrente rebentou. A porteira voou para o lado e nós passámos numa nuvem de pó e estilhaços.
O camião sacudiu. Algo raspou debaixo do chassis, mas as rodas continuaram girando. No retrovisor vi a porteira destruída ficando para trás. E vi outra coisa também. Faróis. Dois pares de faróis surgindo da escuridão atrás de nós. Camionetas a vir rápido. Eles encontraram-nos, ela disse. E desta vez a voz era puro pânico.
Meu Deus, eles acharam. Calma. Como? Calma. Você não conhece-os? Não sabe o que eles fazem com quem? Eu disse calma. Minha voz saiu mais firme do que me sentia. Por dentro, o coração batia tão forte que ouvia nas orelhas. Mas eu não podia deixá-la ver o meu medo. Se eu entrasse em pânico, estávamos os dois perdidos. Pisei o acelerador a fundo.
O matador rugiu, protestou e ganhou velocidade. 80 km/h naquela estrada de terra era uma loucura. Cada buraco, cada pedra, cada curva era um risco de capotar. Mas ficar para trás era pior. Quanto falta para sair das terras do seu pai? Ela olhou pela janela, tentando reconhecer o terreno na penumbra. Não sei, talvez, talvez 20 km.
A quinta é enorme. Vai até à fronteira com o Tocantins, 20 km. A essa velocidade, uns 15 minutos. Se o camião aguentasse, se a estrada não piorasse, se não tivessem atalhos que eu não conhecia, muitos se e depois de sair da quinta, tem uma pequena aldeia. Quase ninguém vive lá, mas há uma estrada estadual que leva para Porangatu.
por Angatu, cidade, esquadra, pessoas, testemunhas. Se chegássemos lá, talvez tivéssemos uma chance. O rádio do camião chiou. Eu tinha-o deixado ligado no canal dos camionistas, mais por hábito do que por necessidade. Mas agora, no meio do chiado, surgiu uma voz, uma voz fria, controlada, com um sotaque do interior que conhecia bem.
Atenção, na estrada temos uma rapariga desaparecida, jovem, 19 anos, cabelo preto, vestido branco. Fugiu da quinta de Santa Rita de madrugada. Quem tiver informação, comunique. Recompensa generosa para quem devolvê-la em segurança. A menina ficou branca. Vi-a apertar as mãos no colo, os dedos entrelaçando-se com tanta força que tremiam.
Repito, recompensa generosa. A miúda tá confusa. Pode ter sido influenciada por gente de fora. Qualquer veículo suspeito na região, informem. A família está preocupada. O rádio voltou a chiar e a voz desapareceu. Família preocupada. Que piada tão cruel. Olhei para ela. Esse é o seu pai? Ela fez que não com a cabeça.
É o capataz, o braço direito dele. O meu pai não fala no rádio. O meu pai não precisa. Claro que não. Homens como o pai dela não sujavam as mãos, não levantavam a voz, só davam ordens e deixavam os outros fazer o trabalho sujo. A recompensa, disse eu, quanto acha que é? Não sei, mas suficiente para fazer qualquer um pensar duas vezes. Pensei na minha situação.
Camionista independente, devendo três prestações do financiamento, com uma filha que não falava comigo e um neto que eu nunca ia conhecer. Quanto dinheiro seria suficiente para me fazer mudar de ideias? A resposta veio rápida. Nenhum. Não porque eu fosse um santo, não porque eu não precisasse de dinheiro, mas porque eu tinha visto os olhos daquela menina quando ela disse: “Isto ia deixar de ser escolha minha”.
E aquele olhar tinha-me lembrou-se de uma coisa que eu tinha esquecido há muito tempo, que existem coisas que não têm preço. O sol começou a subir por volta das 5:30. Primeiro uma linha laranja no horizonte, depois um clarão que foi tomando conta do céu. A escuridão recuou lentamente e com ela veio a paisagem.
Era bonito, de uma forma triste. Campos imensos de pasto seco, salpicados de termiteiros e árvores retorcidas, vedações de arame estendendo-se até onde a vista alcançava, marcando divisões que só faziam sentido para quem era proprietário. O céu tinha aquele azul desbotado do cerrado, prometendo já o calor que viria.
E atrás de nós, os faróis continuavam. tinham-se aproximado. Agora conseguia ver as carrinhas com mais clareza no retrovisor. Duas Toyota Hilux prateadas, levantando poeira vermelha como nuvens de sangue. Estavam a uns 300 m, talvez menos, ganhando terreno. “Será que nos vão alcançar?”, ela disse. Não era uma pergunta. Não vão, não.
O camião é mais lento. A estrada é deles. Conhecem cada curva, cada atalho. E quando nos apanham não vão pegar. Como sabe? Eu não sabia. Mas não lhe ia dizer isso, porque eu não vou deixar. Foi a coisa mais estúpida e mais honesta que eu podia ter dito. Ela olhou para mim com uma expressão que não consegui decifrar.
medo, esperança, descrença, tudo misturado. Por que é que tá a fazer isso? Ela perguntou. Não me conhece, não deve nada para mim. E agora está a arriscar tudo por uma estranha. Boa pergunta. Eu mesmo não tinha a certeza da resposta. Eu tenho uma filha, disse eu depois de um momento. Mais velha do que tu. A gente não se fala há anos, culpa minha na maior parte.
Mas quando te vi a correr naquela estrada, não vi uma estranha. Eu vi-a. Eu vi todas as vezes que ela precisou de ajuda e eu não estava lá. A menina ficou em silêncio. Isso não muda nada, disse ela. Finalmente. Eu continuo a ser uma desconhecida. Você continua a ser uma pessoa e onde eu cresci, isso devia ser suficiente.
O camião passou por uma curva apertada e tive que segurar firme no volante. Quando olhei de novo pro retrovisor, as carrinhas tinham desaparecido por momentos atrás de uma elevação. “Como te chamas?”, eu perguntei. Ela hesitou. “Isabela. Mas toda a gente me chama Bela. Bela.” O nome combinava com ela de uma forma irónico.
Porque naquele momento, coberta de sangue e pó, com o vestido rasgado e os pés em carne viva, ela não não tinha nada de bonita. Tinha algo melhor. Tinha coragem. Prazer, Bela, eu sou Gera. Prazer, senhor Gera. E obrigada, de verdade. Guarda o obrigada para quando a gente sair daqui. Ela quase sorriu. Quase. E depois o rádio chiou de novo.
Atenção, camião Scania azul na estrada da quinta. Sabemos que está com a rapariga para o veículo agora e não vai ter problema. Continua a fugir e a gente não vai ser gentil. A voz era diferente desta vez, mais áspera, mais ameaçadora. A Bela olhou para mim. O rosto pálido. Eles sabem.
Sabem? E agora olhei para o horizonte, onde o sol subia cada vez mais rápido. Olhei para o retrovisor, onde as carrinhas tinham reaparecido e estavam mais perto do que antes. Olhei para ela, esta menina de 19 anos, que tinha saltado de uma janela e corrido descalça pelo escuro para não ser vendida como gado. E tomei a minha decisão.
Ora, disse eu, engrenando a marcha pesada, a gente mostra-lhes que erraram de camionista. Pisei o acelerador com tudo o que o matador tinha. O matador nunca foi um camião rápido. Era velho, pesado e queixava-se em cada subida como um homem de 70 anos transportando saco de cimento. Mas naquela manhã, rodando naquela estrada de terra batida com duas carrinhas no encalço, ele fez o que lhe pedi.
Rugiu, tremeu e correu. A paisagem passava demasiado depressa para prestar atenção. Cercas, árvores, termiteiros, tudo virava um borrão castanho e verde na periferia da visão. Mantinha os olhos na estrada, nas curvas que surgiam sem aviso, nos buracos que podiam arrancar um eixo se eu não me desviasse a tempo. Bela se agarrava no painel com as duas mãos.
Não falava, mal respirava. Eu podia sentir o medo dela como uma coisa física, um cheiro azedo que se misturava com o suor e o pó que entravam pela janela. “Quanto falta?”, perguntei sem tirar os olhos da frente. “Não sei, talvez 10 km, talvez menos. 10 km, uma eternidade àquela velocidade, naquela estrada com aquele peso atrás.
Olhei para o retrovisor, as carrinhas tinham-se separado. Uma vinha direito atrás de mim, comendo a distância metro a metro. A outra tinha sumido. Isso preocupou-me mais do que a perseguição direta. Para onde foi a segunda? Eu disse: “Mais para mim do que para ela”. Bela olhou pelo retrovisor do lado dela e ficou branca.
Tem um atalho pelo pasto. Eles conhecem. Vão tentar cortar-nos na frente. Claro que iam. Conheciam aquela terra como eu conhecia as linhas da minha mão, cada caminho, cada curva, cada porteira. E eu era apenas um intruso num velho camião, tentando fugir com a filha do dono. Onde o atalho sai? Perto da última porteira, antes da aldeia.
A última porteira, a que separava a quinta do resto do mundo. Se eles chegassem lá antes de mim e bloqueassem a passagem, acabou. Pisei mais fundo no acelerador. O matador protestou, o motor gritando num tom que nunca tinha ouvido antes. O velocímetro marcava 90. Loucura. Absoluta loucura. Senhor Gera, eu sei. A gente vai capotar, talvez.
O senhor não tem medo? Tinha medo de capotar, medo de morrer, medo do que ia acontecer se apanhassem-nos. Mas tinha uma coisa que eu tinha ainda mais medo, de olhar para o espelho para o resto da vida e ver um cobarde. “Segura firme”, eu disse. E depois vi a porteira. Era de madeira como as outras, mas não estava sozinha.
À frente dela, atravessada na estrada, seguia a segunda carrinha e encostados a ela, quatro homens. Não eram vaqueiros comuns. Eu conhecia um vaqueiro, tinha crescido perto de uma quinta, sabia como se vestiam e se portavam. Aqueles homens eram outra coisa: capangas, jagunços, o tipo de pessoas que se contrata para resolver problemas sem fazer uma pergunta.
Um deles segurava algo na mão. Demorei um segundo para perceber o que era. Um espingarda. Meu Deus! Bela sussurrou. Meu Deus, meu Deus, meu Deus. Ela começou a tremer. Não de frio, de terror. O tipo de tremor que surge quando o corpo entende que a morte está próxima e não tem para onde correr.
Abrandei a velocidade, não tinha escolha. Se tentasse furar aquele bloqueio, o camião ia bater na carrinha e mesmo que sobrevivesse ao impacto, aqueles homens iam fazer o resto. O matador parou a cerca de 50 m da porteira. A poeira que vínhamos levantando nos alcançou, envolvendo a cabine numa nuvem vermelha. Por um momento, não se conseguia ver nada.
Quando a poeira assentou, um dos homens tinha-se aproximado, alto, magro, com um chapéu de couro e uma cicatriz que ia da orelha até ao canto da boca. Ele parou em frente do camião e ficou a olhar para mim com uma calma que era mais assustadora do que raiva. Atrás de nós, a primeira carrinha chegou e parou. Agora estávamos cercados.
O homem da cicatriz fez-me um gesto para descer. Eu não me mexi. Fez o gesto de novo. Dessa vez colocou a mão na cintura, onde pude ver o volume de uma arma. Fica aqui eu disse a Bela. Não importa o que acontecer. Fica aqui, senhor Gera. Não, fica aqui. Abri a porta e desci do camião. O sol já estava alto o suficiente para aquecer.
Senti o calor batendo no rosto, a poeira colando-se à pele suada, o cheiro a mato seco e a gado que vinha de algum lugar para além das cercas. O homem da cicatriz esperou-me aproximar, os olhos fixos nos meus. “Bom dia”, disse, e a voz era exatamente como eu imaginava. Seca, sem emoção. “Bonita manhã para uma viagem. Bonita.” Eu concordei.
Pena que vocês estão no meio da estrada. Ele quase sorriu. Quase. O senhor sabe porque é que a gente está aqui. Sei. Assim facilita. Entrega a rapariga e segue viagem. Ninguém precisa de se magoar. Eu olhei para ele. Olhei para os outros homens que se tinham aproximado e formavam agora um semicírculo à minha volta.
Olhei pro espingarda que um deles ainda segurava, apontado para baixo, mas pronto para subir a qualquer momento. E se eu não entregar? O homem da cicatriz suspirou como se eu fosse uma criança teimosa que não percebia uma coisa simples. Moço, o senhor não é daqui. Não conhece o coronel, não sabe como as coisas funcionam nessa terra.
Então eu vou explicar uma vez só com educação, porque o coronel mandou resolver isto sem barulho. Ele deu um passo em frente. Agora estava perto o suficiente para eu sentir o hálito dele. Café e cigarro. Aquela rapariga é filha do coronel. Fugiu de casa na véspera do casamento. O coronel tá envergonhado.
A família do noivo está à espera e tem muita gente importante que viajou de longe para esta cerimónia. O senhor compreende o problema? Entendo. Assim, entende que o coronel não vai deixar uma menina histérica e um camionista qualquer estragar em tudo. Camionista qualquer. Era assim que viam. Um ninguém, um intruso, alguém que podia ser descartado sem que ninguém sentisse falta.
E talvez eles estivessem certos. Talvez eu fosse um ninguém mesmo, mas até ninguém tem limite. A rapariga não quer casar, eu disse, mantendo a voz firme. Ela fugiu porque não quer. E obrigar alguém a casar contra a vontade é crime. O homem da cicatriz riu. Uma gargalhada curta, seca, sem humor nenhum.
Crime? Ele repetiu a palavra como se fosse uma piada. Moço, o senhor está a A 80 km da esquadra. mais perto. E mesmo se lá chegasse, ia descobrir que o delegado almoça na quinta do coronel todos os domingo. Crime é o que o coronel diz que é crime e roubar-lhe a filha, isso sim é crime. Eu não roubei ninguém. Ela pediu ajuda e eu dei.
Deu ajuda errada para a pessoa errada. Agora vai ter que fixar. Ele estendeu a mão na direção do camião. Manda-a descer. Não vou voltar a encomendar. Eu olhei para a mão dele, olhei paraa cabine do matador, onde Bela estava encolhida no banco, os olhos arregalados de terror. Olhei pro céu azul, ao sol que subia indiferente, para essa terra vermelha que já tinha engolido tantos segredos.
E pensei na minha filha. Pensei em todas as vezes que escolhi o caminho fácil, que me evitei o confronto, que deixei as as coisas acontecerem porque era mais simples do que lutar. Não, desta vez não. Eu disse. O homem da cicatriz piscou como se não tivesse compreendido. Como é? Eu disse: “Não, ela não vai descer.
E se vocês a quiserem levar, vão ter de passar por mim.” Por um momento, ninguém se mexeu. O vento soprou, levantando poeira. Uma cigarra começou a cantar algures distante. O sol queimava a nuca e eu senti uma gota de suores escorrer pela têmpora. O homem da cicatriz olhou para mim com algo que parecia quase respeito. Quase.
O senhor é corajoso? Ele disse, “Ou muito burro. Ainda não decidi. Pode ser os dois. Pode ser. Ele fez um sinal para os outros homens, mas coragem e burrice não param bala. Eu vi o homem do espingarda erguer a arma, vi o cano apontar na minha direção, vi o dedo dele ir para o gatilho e depois ouvi outra coisa. Um motor vindo da estrada atrás do porteira.
Todos olhavam, um carro se aproximava levantando poeira. Não era carrinha de caixa aberta, era um sedan velho, branco, com uma antena torta no tejadilho e uma luz azul no painel. Polícia! O homem da cicatriz praguejou baixinho, fez um gesto rápido e os outros homens baixaram as armas, escondendo o que podiam.
O carro parou perto da porteira e um homem desceu baixo, barrigudo, com um uniforme que parecia ter visto dias melhores. Olhou para a cena, o camião, os homens, as carrinhas de caixa aberta e coçou a cabeça debaixo do que. “Bom dia”, disse, com a voz arrastada. “Algum problema aqui? O homem da cicatriz se recompôs num segundo.
O rosto que tinha sido ameaçador era agora apenas simpático. Sem problema, sargento. Só um mal entendido. O camionista aqui se perdeu. A gente estava a ajudá-lo a encontrar o caminho. O sargento olhou para mim. É verdade, moço. Eu abri a boca para responder, para contar tudo, para pedir ajuda, mas depois vi o homem da cicatriz abanar a cabeça quase imperceptivelmente e vi a mão dele ir de novo para a cintura. E percebi.
Se eu falasse, se eu envolvesse aquele polícia, ia acabar morto ou comprado. E eu e a Bela íamos acabar igual. Só que pior, porque agora eles teriam raiva para além de ordem. É verdade”, disse eu, engolindo as palavras como vidro moído. “Perdi-me. Eles estavam a ajudar-me. O sargento me olhou por um longo momento.
Tinha algo nos olhos dele que não consegui ler. Desconfiança, medo, clicidade. Bom, disse ele finalmente. Então está tudo certo. A estrada para Angatu é por ali, depois da aldeia. É só seguir em frente. Obrigado. Ele acenou com a cabeça e voltou para o carro. Deu a partida, manobrou e foi-se embora na direção de onde tinha vindo.
A poeira que ele levantou demorou a baixar. Quando baixou, o homem da cicatriz estava a olhar para mim de novo. Decisão inteligente, disse. Mas não muda nada. A rapariga vem com a gente. Não venha, moço. Ouve uma coisa. Eu dei um passo paraa frente e alguma coisa na minha voz ou no meu olhar fez ele parar.
Vocês podem bater-me, podem matar-me, podem fazer o que quiserem comigo, mas enquanto tiver ar no pulmão, aquela menina não sai daquele camião. Entendeu? Silêncio. O homem da cicatriz estudou-me por um longo momento. Eu vi-o calcular, pesar as opções, medir as consequências e depois fez algo que eu não estava à espera. Deu um passo atrás.
O coronel vai querer falar consigo, disse ele. É, pessoalmente. Então que venha. Ah, ele vai vir. O homem da cicatriz sorriu e desta vez tinha dentes no sorriso. E quando vier, o senhor desejará ter entregue a rapariga quando teve oportunidade. Ele fez um sinal. Os outros homens afastaram-se. A carrinha que bloqueava a estrada deu partida e saiu do caminho, abrindo passagem pela porteira.
Eu não acreditei no que estava a ver. Pode ir. O homem da cicatriz disse por enquanto. Ah, por quê? Porque o coronel quer resolver isto pessoalmente. E quando o coronel Amaro quer uma coisa, deixou a frase no ar. Vai, camionista. Aproveita o tempo que tem. Não vai ser muito. Eu não esperei que ele mudasse de ideias.
Voltei ao camião, subi para a cabine e arranquei. O matador passou pela porteira aberta, passou pelas carrinhas estacionadas, passou pelos homens que me olhavam com uma certeza tranquila de que aquilo ainda não tinha terminado. Bela não disse nada até estarmos a quilómetros de distância. “Por que razão deixaram a gente ir?”, perguntou ela a voz trémula.
Eu não respondi de imediato. Estava pensando na mesma coisa, tentando entender. E então compreendi. Porque o seu pai quer fazê-lo pessoalmente. Eu disse, quero olhar-me nos olhos quando destruir-me. Gente como ele não terceiriza a vingança. Ela saboreia. Bela ficou em silêncio por um longo momento. “O meu pai”, disse ela.
E a palavra saiu pesada, carregada de coisas que não conseguia nem imaginar. “Você não faz ideia de quem ele é, então conta-me.” Ela virou o rosto para a janela. O sol batia no perfil dela, iluminando as lágrimas que finalmente tinham começado a cair. O Coronel Amaro não é só agricultor, ela disse. Ele é dono, dono de tudo, das terras, das pessoas, dos leis.
Ele comprou delegado, comprou juiz, comprou político. Ninguém levanta a voz contra ele, porque os que levantaram-se desapareceram. Sumiram como? Como gente desaparece nestas terras, sem corpo, sem prova, sem pergunta. Um dia tão ali, no outro já não tão e todos fingem que nunca existiram. Senti um frio na borbulha que não tinha nada a ver com o ar condicionado avariado.
E a sua mãe? Bela fechou os olhos. A minha mãe morreu quando tinha 12 anos. Disseram que foi acidente. Cavalo disparado, queda feia, pescoço partido. Mas eu vi as marcas do pescoço dela antes de fecharem o caixão. Não eram de queda. Jesus Cristo. Acha que o seu pai? Eu não acho. Eu sei. Ela abriu os olhos e deu-me olhou.
E havia ali qualquer coisa que me assustou mais do que qualquer capanga com espingarda. Uma certeza fria, absoluta. A minha mãe tentou fugir uma vez, tentou levar-me junto. Alguém lhe contou e duas semanas depois estava morta. O silêncio que se seguiu foi diferente de todos os outros. Porque é que você tá me contando isso? Eu perguntei, porque é que você precisa de saber com quem está a lidar.
Ela enxugou as lágrimas com as costas da mão. E porque se me quiser deixar na próxima aldeia e seguir a sua vida, eu vou entender. Eu juro que vou compreender. Eu pensei nisso. Pensei no que ela tinha acabado de contar. Pensei no homem que era capaz de matar a própria mulher e obrigar a filha a casar com um estranho.
Pensei no que este homem me ia fazer se me pegasse e pensei na minha Luciana, na voz dela ao telefone há anos, pedindo ajuda, na minha resposta cobarde, cheia de desculpas e evasivas, no silêncio que veio depois e nunca mais foi-se embora. Eu não te vou deixar”, eu disse. Não importa quem é o seu pai, não importa o que ele possa fazer, eu comecei isto e vou terminar.
Bela me olhou por um longo momento e depois fez algo que não esperava. Sorriu, um sorriso pequeno, frágil, cheio de fissuras, mas um sorriso de verdade. Obrigada, senhor Gera. Já disse para guardar o obrigada. Eu sei, mas precisava falar agora, caso não dê tempo depois. Eu não respondi. Só pisei no acelerador e segui em frente, rumo à vila, rumo à estrada, rumo a qualquer lugar que não fosse aquele inferno, de terras vermelhas e homens sem alma.
Mas no fundo eu sabia que ela tinha razão. Coronel Amaro não ia deixar isso passar e mais cedo ou mais tarde ele ia vir cobrar. A única pergunta era quando? A vila se chamava Buritirana. Eu nunca tinha ouvido falar dela antes e depois daquele dia entendi porquê. Era o tipo de lugar que existia mais por teimosia do que por necessidade.
Um punhado de casas de adobe espalhadas ao redor de uma igreja sem padre, um bar com mesas de plástico na calçada e um posto de gasolina que parecia não receber cliente há semanas. Chegamos por volta das 7:30 da manhã. O sol já castigava e o ar tinha aquela densidade úmida do serrado que faz a gente sentir que tá respirando dentro de uma panela de pressão.
Parei o matador na sombra de um pé de manga que crescia torto perto do posto e desliguei o motor. O silêncio que veio foi quase assustador. Bela olhou pela janela, os olhos varrendo, as ruas vazias, as janelas fechadas, as portas trancadas. Não tem ninguém. Ela disse: “Tem sim, só tão escondidos”. Era verdade. Eu conhecia esse tipo de vila.
Gente que vivia a sombra de homens poderosos aprendia a ficar invisível. Não abria a porta para estranho, não fazia pergunta, não oferecia ajuda, porque ajudar a pessoa errada podia custar caro demais. “A gente precisa de gasolina”, eu disse, “E precisa limpar esses machucados”. Eu tô bem. Não tá não.
Esse corte na testa pode infeccionar. E seus pés? Eu olhei para baixo, pro tapete da cabine manchado de sangue seco. Você mal vai conseguir andar. Ela não discutiu. Acho que estava cansada demais para discutir. Desci do caminhão e fui até o posto. A porta estava fechada, mas tinha uma campainha velha do lado. Apertei três vezes. Esperei. Nada.
Apertei de novo, dessa vez segurando o botão por mais tempo. O som ecoou no silêncio da manhã, irritante e insistente. Finalmente a porta se abriu. O homem que apareceu era velho, 70 anos, talvez mais, magro como um graveto, com a pele curtida de sol e olhos que pareciam ter visto coisas demais. Ele me olhou de cima a baixo, depois olhou pro caminhão, depois olhou para mim de novo. “Pois não”, ele disse.
Não era pergunta, era aviso. Preciso de diesel e de um lugar para minha para minha sobrinha se limpar. Ela se machucou na viagem. O velho não se mexeu. Ficou me estudando com aqueles olhos de quem já enterrou o segredo demais para se impressionar com mais um. De onde o senhor vem? de Anápolis. Tô levando carga paraa imperatriz.
E a moça? Eu hesitei. Mentir era arriscado. Se ele soubesse de alguma coisa, ia perceber. Mas contar a verdade era pior. Ela é da região. Eu disse, escolhendo as palavras. Tá tendo problema em casa. Eu tô ajudando ela a chegar num lugar seguro. O velho olhou pro caminhão de novo. Dessa vez demorou mais.
Eu vi os olhos dele se estreitarem. quando perceberam o vestido branco, o cabelo desgrenhado, os pés descalços de bela através do para-brisa. “Problema em casa?” Ele repetiu. “Sei.” Ele ficou em silêncio por um momento que pareceu durar uma hora. Eu podia ouvir meu coração batendo, podia sentir os suores correndo pelas costas, podia ver as engrenagens girando por trás daqueles olhos velhos. E então ele suspirou.
Entra”, ele disse, dando um passo pro lado, “ma rápido e não faz barulho.” O interior do posto era escuro e fresco, um contraste bem-vindo com o inferno lá fora. Tinha prateleiras velhas com produtos empoirados, um balcão de madeira gasta e uma porta nos fundos que levava para o que parecia ser uma casa. O velho, que disse se chamar seu dito, levou Bela para um quartinho atrás do balcão, enquanto eu esperava.
Ouvi água correndo, vozes baixas e depois silêncio. Quando ela voltou, 15 minutos depois, estava diferente. Alguém tinha limpado o sangue do rosto dela e colocado um curativo no corte da testa. Os pés estavam enfaixados com tiras de pano branco e o vestido rasgado tinha sido trocado por uma saia comprida e uma blusa simples que pareciam pertencer à outra época.

A mulher do seu dito Bela, explicou vendo minha expressão. Dona Zefa. Ela me ajudou. Eu olhei paraa porta dos fundos, de onde uma mulher baixinha e gorda me observava com desconfiança. “Obrigado”, eu disse. Dona Zefa não respondeu, só fez um gesto com a mão, como quem espanta mosca, e desapareceu de volta para casa. “Ela não gosta de estranho, seu dito explicou, mas também não gosta de ver moça machucada. Vai entender, mulher.
” Ele foi até uma prateleira e pegou uma garrafa de água que entregou paraa Bela. Bebe, você tá desidratada. Ela obedeceu sem questionar. Bebeu a garrafa inteira em goles compridos, desesperados, como se fosse a primeira água em dias. O seu dito olhou para mim. Vocês têm fome? Estamos, mas não temos muito tempo.
Tempo para comer sempre tem. Foi até aos fundos e voltou com um prato de arroz, feijão e ovo estrelado. Simples, mas o cheiro fez-me o estômago ressonar. Come, os dois. Não adianta fugir com a barriga vazia. Eu ia protestar, mas A Bela já tinha pegado no prato e começado a comer. Depois peguei no segundo prato que o seu dito trouxe e fiz o mesmo.
Comemos em silêncio. O arroz estava um pouco duro e o feijão um pouco salgado, mas naquele momento era a melhor refeição que já tinha provado. Quando terminámos, o seu dito sentou-se num banquinho perto do balcão e cruzou os braços. Agora conta-me direito. Ele disse, “O que é que está a acontecer? Eu olhei para a Bela, ela olhou para mim e depois lentamente começamos a contar não tudo, mas suficiente.
A fuga, o casamento forçado, os capangas na estrada, a ameaça do coronel. Quando terminámos, O seu dito ficou em silêncio por um longo momento. O seu rosto não mostrava nada, nem surpresa, nem medo, nem piedade. Só uma espécie de cansaço antigo, do tipo que vem quando já vimos demais para se chocar com qualquer coisa. Coronel Amaro, disse finalmente.
É quem eu pensava. O senhor conhece-o? Toda a gente por aqui conhece. O seu dito cuspiu para o chão um gesto de desprezo que dizia mais do que qualquer palavra. 40 anos atrás, esta aldeia tinha 200 famílias, escola, igreja com padre de verdade, até um postinho de saúde. Hoje tem o quê? 20 casas, 30.
O resto foi tudo engolido. Engolido pelas terras dele. O Coronel Amaro foi comprando tudo em redor, cercando a aldeia de todo o lado. Quem não vendia a bem, vendia a mal. E quem não vendia de todo? Ele deixou a frase no ar. Sumia. Bela completou a voz baixa. O seu dito fez que sim com a cabeça. A mulher dele eu disse lembrando-me do que a Bela tinha contado.
A senhora que faleceu, a senhora Helena. O velho fechou os olhos por momentos, como se o nome trouxesse memórias que preferia esquecer. Eu conheci-a, mulher boa, bonita. Vinha aqui às vezes quando conseguia fugir da quinta por umas horas. Trazia a menina junto. Ele olhou para Bela. Não se lembra de mim, certo? Bela franziu o sobrolho, tentando encontrar alguma memória. Eu não sei.
Talvez o senhor vendesse doce. Rapadura. O seu dito quase sorriu. Você gostava. Sua mãe comprava um pedaço cada vez que vinha. Dizia que era o único doce que aceitava comer. Bela ficou em silêncio. Vi os olhos dela encherem-se de lágrimas outra vez. Mas desta vez eram lágrimas diferentes. Não de medo, de saudade.
Quando ela morreu, o seu dito continuou. Eu sabia que não tinha sido acidente. Todo o mundo sabia. Mas ninguém disse nada, porque falar significava acabar igual. Por que razão o senhor está a ajudar-nos? Então eu perguntei. Se é assim tão perigoso, o seu dito olhou-me por um longo momento. Porque é que eu sou velho? Ele disse simplesmente, “tenho 78 anos.
A Zefa tem 75.º Não temos filho, não temos neto, não tem nada a perder.” E passei a vida inteira com medo daquele homem, com medo de falar, de agir, de fazer alguma coisa. Vi gente boa sofrer e fiquei quieto. Vi a dona Helena ser enterrada e não abri a boca. Ele levantou-se, os ossos a estalar. Eu não vou morrer em paz com isso na consciência.
Assim, se ajudar-vos, é o máximo que posso fazer, é o que eu vou fazer. Eu não soube o que dizer. Mas Bela levantou-se, foi ter com o velho e abraçou-o. O seu dito ficou duro no início, surpreendido, mas depois relaxou, e eu vi-o dar uns palmadas desajeitadas nas costas dela, da maneira que um homem da idade dele faz, quando não sabe lidar com a emoção.
“Tá bom, está bom”, disse, com a voz rouca. “Chega de frescuras, vocês precisam de ir”. Dirigiu-se até uma gaveta atrás do balcão e tirou de lá um maço de dinheiro. Notas velhas, amassadas, mas dinheiro de verdade. Pega, disse, empurrando o maço na minha mão. Pro diesel e pro mais precisar. Eu não posso aceitar isso.
Pode e vai. Não discute comigo. Ele olhou para a porta, para os lados, como se esperasse que alguém aparecesse a qualquer momento. Agora ouve bem. Daqui para Porangatu. São cerca de 40 km. Estrada boa, asfaltada, mas o coronel tem olho em todo o canto. Se forem pela estrada principal, vão ser apanhados antes de chegarem a meio.
E se não formos pela principal? Seudito pegou num papel e numa caneta e começou a desenhar. Tem um caminho velho. Quase ninguém usa mais. Era estrada de boiadeiro antes das quintas cercarem tudo. Passa por dentro da mata, faz uma grande volta, mas sai diretamente à entrada de Porangatu, perto da delegacia estadual.
Delegação estadual? Repeti, não é a mesma que o coronel comprou? Não, a municipal é dele, mas a estatal há gente de fora, gente que não lhe deve favor. Se vocês chegarem lá e contarem o que se passou, talvez. Só talvez. Mas é melhor do que nada. Olhei para o mapa rabiscado. Era confuso, cheio de setas e notas que mal conseguia ler, mas era uma chance. O camião aguenta essa estrada.
Se for devagar, aguenta. Mas o seu dito hesitou. Tem um problema. Qual? A estrada passa perto da quinta, nos fundos. Se o coronel souber que vocês estão por ali, ele não precisou terminar. Eu entendi. A gente vai ter que arriscar. Eu disse. Pois, vão ter que arriscar. Abasteci o matador com o dinheiro do seu dito.
O diesel entrou no tanque com aquele som de líquido pesado que me dava sempre uma sensação estranha de alívio, como se cada litro fosse mais um pedaço de liberdade. A Bela já estava na cabine quando terminei. Tinha os olhos fechados, a cabeça encostada ao vidro e, por momentos, pensei que tinha dormido.
Mas quando abri a porta ela olhou para mim. Estou acordada”, ela disse, apenas descansando os olhos. “Descansa mais. A viagem ainda vai ser longa”, dei-lhe partida. O matador torciu duas vezes e pegou. O roncar do motor encheu o silêncio da aldeia e eu vi algumas cortinas se mexerem nas janelas das casas em redor.
Gente curiosa, mas não curiosa o suficiente para sair. O seu dito estava parado à porta do posto, dona Zefa ao lado dele. Ele levantou a mão num aceno curto, quase envergonhado. Eu acenei de volta. Obrigado”, disse eu pela janela, sabendo que ele provavelmente não ia ouvir, mas ele ouviu e respondeu: “Vai com Deus, rapaz, e cuida dela.
” Engrenei a primeira e saí. O caminho que o seu dito tinha desenhado começava atrás da aldeia, num desvio quase invisível entre duas árvores grandes. Se eu não estivesse à procura, teria passado direto. A estrada, se é que se podia chamar aquilo de estrada, era um rasto de terra batida coberto de mato alto. O matador mal cabia ali, os ramos arranhando a chapa dos dois lados, como unhas num quadro negro.
A cada metro sentia o camião afundar um pouco mais, as rodas lutando para encontrar tração naquela terra fofa. Isto é seguro? – perguntou Bela, os olhos arregalados. Não sei. E se atolarmos? A gente desatola? E se não conseguir desatolar? Eu não respondi porque não tinha boa resposta para essa pergunta. Conduzimos durante quase uma hora naquele passo de lesma.
O sol subia cada vez mais e o calor dentro da cabine era insuportável. O ar- condicionado do matador tinha morrido há anos e as janelas abertas só deixavam entrar ar quente e poeiras. Bela dormiu em algum momento. Um sono inquieto, cheio de gemidos baixos e mexidas bruscas. Pesadelo provavelmente. Eu não a acordei.
O mau sono ainda era melhor do que nenhum. Foi por volta das 10 da manhã que aconteceu. O camião estava a passar por um trecho mais aberto, onde a mata dava lugar a um campo de erva alta quando ouvi o barulho. Um estalido alto, seguido de um cibilo. E então o matador começou a puxar para o lado. “Não, não, não.” Eu murmurei lutando com o volante, mas não tinha jeito.
O pneu dianteiro direito tinha rebentado. Eu consegui parar o camião antes de perder o controlo completamente, mas o estrago estava feito. O matador estava inclinado para o lado, a roda afundada no solo, o pneu em frangalhos. A Bela acordou com o solavanco. O que foi? O que aconteceu? Pneu rebentou. Eu desci do camião e fui ver. Era pior do que eu esperava.
O pneu não tinha só furado, tinha explodido. A borracha estava rasgada em tiras. O arro amassado. Trocar era possível, mas ia demorar, muito tempo. E nós não tínhamos tempo. Bela desceu também, coxeando nos pés enfaixados. Dá para reparar? Dá, mas vai demorar. Quanto? Eu olhei para o céu calculando.
O sol estava quase a pino, o calor era brutal. E em algum lugar não muito longe dali, os homens do coronel provavelmente já nos estavam à procura. “Uma hora”, disse eu, “talvez mais.” Bela ficou em silêncio. Vi-a olhar ao redor, para o capim alto, para as árvores distantes, para o céu vazio. Não tinha ninguém, não havia nada, só nós os dois, um camião avariado e o tempo escorrendo como areia entre os dedos.
Então é melhor começar. Ela disse: “E assim fiz. Trocar um pneu de um camião não é como mudar pneu de automóvel. É trabalho pesado, sujo, que exige força e paciência. O macaco hidráulico do matador era velho e lento, e cada bombeada parecia demorar uma eternidade. A Bela tentou ajudar, mas eu mandei-a ficar à sombra, não por machismo, porque ela mal conseguia ficar de pé com aqueles pés magoados e o sol àquela hora era capaz de derrubar até homem forte.
Enquanto trabalhava, nós conversamos. Não sei bem como começou. Acho que ela fez uma pergunta sobre a minha vida e eu respondi sem pensar. E de repente estávamos a trocar histórias como velhos amigos. Ela me contou a infância na quinta, sobre a mãe que cantava para ela adormecer e plantava flores no jardim e sonhava em fugir para a cidade grande sobre o dia em que tudo mudou, quando ela tinha 12 anos e acordou com gritos e encontrou a casa cheia de gente e descobriu que a mãe tinha caído do cavalo.
Eu não chorei no enterro”, disse ela, sentada à sombra de um arbusto, os olhos perdidos em algum lugar distante. Todo o mundo achou estranho. O meu pai ficou com raiva, diz que era fria, que não tinha coração, mas não era isso. Era o quê? Era que eu sabia. Mesmo com 12 anos, sabia que tinha feito alguma coisa. E eu não conseguia chorar por ela à frente dele, não lhe conseguia dar esse prazer.
Deixei de trabalhar por um momento. Olhei para ela, esta menina que tinha carregado um segredo daquele tamanho desde criança, que tinha vivido na mesma casa que o assassino da própria mãe, que tinha sobrevivido a tudo aquilo e ainda assim estava ali a lutar. “Você é forte”, disse eu. Mais forte do que imagina. Ela quase sorriu.
Não sou forte, senhor Gera. Sou teimosa. Tem diferença. Também serve. Desta vez ela sorriu de verdade. Voltei ao trabalho. O macaco subiu mais um pouco e comecei a desapertar os parafusos da roda. E o senhor? Ela perguntou. Tem família? A pergunta apanhou-me desprevenido. Eu hesitei. A chave de rodas parada no ar. Tenho, quer dizer, tinha.
Tenho uma filha, mas não nos falamos. Por quê? Era uma pergunta simples. A resposta não era. Porque fui um mau pai. Eu disse finalmente, não mau de bater, de gritar, de fazer maldade, mal de outro jeito, mau de estar ausente, de escolher a estrada em vez de casa, de pensar que o dinheiro resolvia tudo. Soltei mais um parafuso.
O suor escorria pelo rosto, pingando no chão seco. Quando a mãe da Luciana morreu, eu continuei. Ela tinha 15 anos. Eu devia ter parado de rodar, ter ficado com ela, ter sido pai de verdade. Mas não consegui. A casa sufocava-me, as recordações sufocavam-me. Então fugi, voltei para a estrada e deixei-a com a avó.
E ela não perdoou? Durante algum tempo perdoou ou fingiu que perdoava. A gente falava por telefone, via-se de vez em quando, mas com o tempo foi-se afastando. Ela casou com um sujeito que eu não aprovava e fui burro o suficiente para dizer isso na cara dela. Brigamos. Ela disse que eu não tinha o direito de opinar na vida dela, que eu nunca lá tinha estado quando ela precisou.
E ela tinha razão, estava completamente certa. O último parafuso saiu. Puxei a roda estragada e coloquei-o de lado. A última vez que eu vi ela foi há 6 anos num posto em Ribeirão. Ela apareceu com um rapaz no colo. O meu neto que eu nem sabia que existia. Pediu dinheiro. Eu dei. Ela foi embora e nunca mais atendeu o telefone.
Peguei no pneu suplente e comecei a encaixar. não sei onde ela está”, eu disse, a voz mais rouca do que eu queria. Não sei se o menino está bem, não sei se ela está viva ou morta. E o pior é que não posso culpar ninguém além de mim mesmo. Bela ficou em silêncio durante um momento.
O senhor ainda a ama? Não era pergunta. Amo mais do que tudo. Mas o amor não corrige o que eu parti. Talvez não concerte, mas talvez seja o início. Eu olhei para ela. Esta menina de 19 anos que tinha perdido a mãe, que estava fugindo do pai, que tinha todo o motivo do mundo para ser amarga e dura, e mesmo assim estava ali a oferecer-me esperança. É uma boa pessoa, bela.
O senhor também, seu gera, só se esqueceu disso. Não soube o que responder. Então Regressei ao trabalho em silêncio, apertando os parafusos um a um, enquanto o sol castigava e o tempo corria. Demorei quase 2 horas para terminar. Quando finalmente baixei o macaco e o matador voltou a ficar direito, eu estava exausto.
As mãos doíam, as costas doíam, tudo doía. Mas o camião estava pronto para rodar. “Vamos”, eu disse, ajudando a Bela a subir para a cabine. Dei à partida. O motor engasgou uma vez, duas vezes e pegou. O ressonar familiar encheu o ar e senti um alívio que quase doeu. Estava a engrenar a primeira quando a Bela me agarrou o braço.
O Seu Gera, olha. Olhei na direção que ela apontava. No horizonte, onde o campo de capinha encontrava a linha das árvores, havia pó, muita poeira. E no meio da poeira, aproximando-se rapidamente, duas carrinhas prateadas. Eles tinham nos encontrado. “Segura firme”, disse eu. E pisei o acelerador. O matador nunca foi feito para correr.
Era camião de carga, de estrada longa, de paciência. Mas naquela hora, naquele campo aberto, com as carrinhas a aproximarem-se como lobos atrás de presa ferida, ele correu. O motor urrava num tom que nunca tinha ouvido antes. Um grito de metal e combustão que parecia vir das entranhas da máquina.
O velocímetro subiu lentamente, 60, 70, 80. O capim alto chicoteava o chapa, as rodas saltavam em cada buraco e sentia o volante tremer nas mãos como um animal que quer escapar. Bela se agarrava no painel, os olhos fixos no retrovisor lateral. “Eles estão ganhando”, disse ela, a voz cortada pelo medo. Não respondi, não precisava. Eu conseguia ver pelo meu retrovisor.
As carrinhas estavam mais perto agora, talvez 200 m. Num terreno plano como aquele, com veículos mais ligeiros e mais rápidos, era uma questão de tempo até nos alcançarem. Quanto falta para a estrada? Eu perguntei. Não sei. Não reconheço este lugar. Droga. O mapa do seu dito tinha ficado no bolso da minha camisa, mas eu não podia tirar as mãos do volante para olhar e mesmo que pudesse, não ia adiantar.
Estávamos fora de qualquer caminho marcado, cortando campo aberto na esperança de encontrar o rasto de novo. À frente viu uma linha de árvores, mata fechada. Se conseguíssemos chegar aí, talvez as carrinhas não conseguissem seguir. Eram boas em estrada e campo, mas mata era outra história. Ali, disse eu apontando, a gente vai paraa mata e se não tiver passagem, vai ter que ter.
Pisei mais fundo. O matador gemeu, protestou, mas obedeceu. 90 km/h. O camião inteiro sacudia como se fosse desmontar a qualquer momento, 100 m paraas árvores. Olhei para o retrovisor. As carrinhas estavam a menos de 50 m. Agora podia ver os rostos dos homens dentro delas, esbatidos pela poeira, mas visíveis. E podia ver algo mais.
Um deles estava com o corpo fora do janela, segurando alguma coisa. “Abaixa!”, gritei. Bela atirou-se para baixo mesmo na altura em que o primeiro tiro rebentou. O vidro traseiro da cabina explodiu, estilhaços voando por todo o lado. Senti algo quente arranhar-me o pescoço, um pedaço de vidro, mas não parei. Não podia parar.
50 m paraas árvores. Outro tiro. Esse passou zunindo pela janela aberta e fez um buraco no painel mesmo do lado do rádio. O cheiro de plástico queimado encheu a cabine. O seu Gera! A Bela gritou lá de baixo. Fica baixada 30 m. Outro tiro. Dessa vez sentiu diferente. O matador deu um estranho solavanco e vi pelo retrovisor um jato de fumo negro saindo de algum lugar atrás da cabine.
Acertaram em alguma coisa, não sabia o quê, mas acertaram. 20 m. 10.º E então entramos na mata. Os ramos explodiram em redor como uma parede verde se fechando. O impacto foi brutal. O pára-brisas rachou em três sítios, os retrovisores arrancaram e senti o camião afundar-se na vegetação, como um navio a afundar-se no mar, mas não parei.
Reduzi a marcha, engrenei a tração e Obriguei o matador a continuar. As rodas rodopiavam na terra fofa, os pneus mordiam raízes e pedras e, por momentos, achei que íamos atolar, mas não atolamos. O camião foi abrindo caminho na mata devagar, dolorosamente, como um bicho ferido à procura de toca.
Atrás de nós, eu ouvi o barulho das carrinhas a parar na orla da vegetação. Portas a bater, vozes a gritar. Eles não entraram. Claro que não. Camioneta não passa onde camião passa. Eles iam ter de dar volta, encontrar outro caminho ou vir a pé. Tínhamos ganho tempo, não muito, mas algum. Pode levantar-se, disse eu. Bela ergueu-se lentamente, os olhos arregalados, o rosto coberto de estilhaços de vidro.
“O senhor está a sangrar”, disse ela. Levei a mão ao pescoço, voltou vermelha. Apenas um arranhão. Não é só um arranhão, está escorrendo. Ela pegou num pedaço de pano, parte do vestido velho que a dona Zefa tinha dado, e pressionou contra o corte. Doeu, mas a hemorragia diminuiu. “Obrigado”, disse eu.
“Agora estamos quites. Quase sorri. Quase. O matador continuou a arrastar-se pela mata por mais uns 15 minutos. O motor fazia um barulho estranho agora, um ruído que não existia antes. E o marcador de temperatura estava a subir rápido demais. O tiro tinha atingido alguma coisa importante, provavelmente o radiador ou uma mangueira.
Quanto tempo ainda temos?”, perguntou Bela, olhando para o painel. “Não sei. O camião está super aquecendo. Se não encontrar água logo, não terminei a frase, não precisava”. E depois, como se Deus tivesse ouvido ou o diabo tivesse decidido a brincar, a mata abriu-se. A nossa frente surgiu uma clareira e, no meio da clareira um riacho.
Não era grande, talvez com 2 m de largura. com água escura e rasa, correndo lentamente entre pedras cobertas de limo. Mas era água, água verdadeira. Parei o matador na margem e desliguei o motor. O silêncio que veio foi quase ensurdecedor depois de tanto barulho. “Espera aqui”, eu disse.
Desci do camião e fui verificar o estrago. Era pior do que eu imaginava. O tiro tinha atingido a mangueira do radiador, não tinha rebentado completamente, mas tinha aberto um orifício por onde o líquido de refrigeração estava a vazar. O motor estava quente demasiado para tocar e o cheiro a borracha queimada era suficientemente forte para fazer arder os olhos.
Dá para consertar? A Bela tinha descido também, coxeando. Talvez se conseguir vedar o furo. Fui até a cabine e vasculhei embaixo do banco. Todo caminhoneiro que se preze guarda um kit de emergência ali. Fita isolante, arame, algumas ferramentas básicas. Achei o que precisava e voltei pro motor. O conserto foi improvisado.
Usei fita isolante para tapar o furo. Depois enrolei arame por cima para segurar no lugar. Não ia durar muito, mas talvez durasse o suficiente. Depois peguei um balde velho que eu carregava para emergências e fui até o riacho. A água era turva, cheia de partículas, mas servia. Enchi o balde três vezes e despejei no radiador, esperando o motor esfriar um pouco entre cada vez.
Quando terminei, o sol já estava descendo. A luz que entrava pela clareira tinha aquele tom dourado de fim de tarde, e o ar estava um pouco mais fresco. Bela estava sentada numa pedra perto do riacho, os pés enfaixados, mergulhados na água. O rosto dela estava cansado, mas mais calmo do que eu tinha visto em todo o dia.
“A água tá boa”, ela disse, “fria.” Fui até a margem e me ajoelhei. Mergulhei as mãos na água e lavei o rosto, o pescoço, o sangue seco que tinha escorrido até a gola da camisa. A frieza foi como um choque, mas um choque bom, revigorante. “A gente vai conseguir?”, Ela perguntou sem me olhar. Era uma pergunta que eu não sabia responder. Então, fui honesto.
Não sei, mas a gente vai tentar até o fim. Ela ficou em silêncio por um momento. Eu nunca tive isso. Ela disse finalmente. Isso o quê? Alguém que tentasse, alguém que não desistisse de mim. Ela olhou para mim e tinha algo nos olhos dela que me cortou por dentro. Minha mãe tentou uma vez. Olha no que deu. Depois disso, todo mundo desistiu.
As empregadas, os vizinhos, até os parentes que moravam longe. Todo mundo sabia o que meu pai era, mas ninguém fazia nada. Era mais fácil fingir que não existia problema. Eu entendo. Entende? Entendo. Eu sentei numa pedra perto dela. Passei a vida inteira fingindo que os problemas da minha filha não eram meus, que ela ia se virar, que ia aprender, que eu não precisava estar lá.
E quando ela finalmente precisou de mim de verdade, eu não estava. Mas agora o Senhor tá aqui. Tô tarde demais para ela, talvez, mas não tarde demais para você. Bela me olhou por um longo momento. Por que eu, seu Gera? De todas as pessoas que o senhor podia ter ajudado, por que eu? Era uma boa pergunta. Eu mesmo já tinha me perguntado isso várias vezes desde a madrugada, porque quando eu vi você correndo naquela estrada, eu disse, escolhendo as palavras devagar, eu vi toda a decisão errada que eu já tomei na vida. Toda vez que eu virei as costas,
toda vez que eu escolhi o caminho fácil. E eu pensei, se eu deixar essa menina para trás, se eu fizer isso de novo, então não tem mais volta. Então eu sou isso mesmo, um covarde que foge dos problemas em vez de enfrentar. O senhor não é covarde. Eu era por muito tempo. Eu era. Olhei pro riacho, paraa água escura correndo entre as pedras.
Talvez eu ainda seja, mas hoje eu decidi tentar ser diferente. E se isso é tudo que eu consigo fazer, é o que eu vou fazer. Bela não disse nada, mas se aproximou e encostou a cabeça no meu ombro. Ficamos assim por um momento, dois estranhos que tinham se tornado algo mais, descansando à beira de um riacho no meio do nada, enquanto o sol descia e o perigo se aproximava.
E então eu ouvi um som distante, motor, mais de um. Eles tinham nos encontrado de novo. Levantei de um pulo e puxei Bela pelo braço. Vamos agora corremos pro caminhão. Eu a ajudei a subir na cabine e dei a volta correndo. O motor do matador engasgou três vezes antes de pegar. O conserto improvisado estava segurando, mas por pouco.
“Por onde?”, Bela perguntou, olhando ao redor. Eu também olhei. A clareira tinha três saídas por onde tínhamos vindo, que estava bloqueada, uma trilha estreita à esquerda que sumia na mata escura e algo que parecia uma estrada velha à direita, coberta de mato, mas ainda visível. Direita, eu disse, mais por instinto do que por certeza.
O matador avançou pela estrada velha, os galhos arranhando o que restava da lataria. O sol estava quase no horizonte agora, e a luz que entrava pela vegetação era fraca, alaranjada, cheia de sombras. O barulho dos motores atrás de nós ficou mais alto. Eles estavam na clareira, tinham visto as marcas do caminhão. Sabiam para onde tínhamos ido.
Mais rápido, Bela, disse, pelo amor de Deus. Mais rápido, eu pisei no acelerador. O matador protestou. A temperatura subiu de novo, mas obedeceu. 50 por hora, 60, o máximo que aquela estrada ruim permitia. E então, de repente a mata acabou. À nossa frente, banhada pela luz do pô do sol, estava uma estrada de asfalto e do outro lado da estrada uma placa. Porangatu, 8 km rubela.
soltou um som que era meio riso, meio soluço. “A gente conseguiu.” Ela disse: “Meu Deus, conseguimos, mas eu não festejei, ainda não. Olhei para o retrovisor, a mata atrás de nós ainda estava escura, mas eu conseguia ver movimento. Os faróis das carrinhas surgindo entre as árvores, 8 km. Em boa estrada, com o camião inteiro seria nada.
Mas com o motor sobreaquecimento, a mangueira arremendada e o matador no limite, era uma eternidade. “Segura firme”, disse eu. E entrei na estrada. O asfalto sob as rodas foi como um abraço. Depois de tanto tempo em terra, mato e buraco, aquela superfície lisa parecia um milagre. O matador ganhou velocidade rápido, 70, 80, 90.
Mas as carrinhas também ganharam. Saíram da mata uns 30 segundos depois de nós e vieram com tudo. Sem mato para atrapalhar, sem curvas fechadas, eram muito mais rápidas. A distância que tínhamos ganho começou a diminuir rapidamente. 6 km para Porangatu, a 4 km. As carrinhas estavam a menos de 100 m.
Agora podia ver os rostos dos homens de novo, concentrados, determinados, furiosos. 3 km. O marcador de temperatura do matador entrou no vermelho. O motor estava a ferver. A qualquer momento, a mangueira arendada ia ceder. E aí seria o fim. Vamos, vamos, vamos, murmurava eu, como se palavras pudessem fazer a diferença. 2 km. Vi as primeiras casas de Porangatu surgindo na berma da estrada.
Luzes acesas nas janelas, pessoas a viver vidas normais, sem saber o que estava a acontecer lá fora, a 1 km. E então vi algo que fez o meu coração acelerar. Uma grande construção na beira da estrada, muros brancos, carros estacionados na frente e uma placa que brilhava à luz dos postes. Esquadra de polícia civil por Angatu.
Ali! Bela!” gritou, apontando. Eu já tinha visto. Virei o volante bruscamente. O matador derrapou no asfalto e entramos no parque de estacionamento da esquadra com um estrondo de pneus cantando. O camião parou a menos de 10 m da porta principal. O motor morreu sozinho, cedendo finalmente depois de tanto esforço atrás de nós.
As carrinhas tinham parado na rua. Eu podia vê-las pelo que restava do retrovisor, paragens à espera, mas não entraram no parque de estacionamento. Claro que não. Ali era território diferente. Ali tinha testemunha, ali tinha lei, pelo menos um pouco. A porta da esquadra se abriu e saíram dois polícias, as mãos nas armas, os olhos arregalados de surpresa.
“O que se passa aqui?”, um deles gritou. Eu abri a porta do camião e desci com as mãos levantadas. “Preciso de ajuda”, disse eu, a voz rouca de cansaço. “Esta moça tá fugindo de um casamento forçado. O pai dela mandou homens atrás de nós. Eles dispararam sobre o camião, tão ali fora. Agora os polícias olharam para a rua, onde as carrinhas continuavam paradas.
Depois olharam para o camião, para a lataria destruída, para os buracos de bala. Quem é o pai dela? O mais velho perguntou. Eu hesitei. Sabia que o nome podia mudar tudo para o melhor ou para o pior. Mas Bela não hesitou. Ela desceu do camião, coxeando nos pés enfaixados, o rosto sujo de pó e suor, e olhou diretamente nos olhos do polícia.
O meu pai é Otávio Amaro! Ela disse: “O coronel, e eu quero apresentar queixa contra ele. O silêncio que se seguiu foi o mais pesado que me já tinha sentido. Os polícias se entreolharam. Vi algo passar entre eles. Medo, hesitação, cálculo. Eles sabiam quem era coronel Amaro. Todo mundo sabia. Por um momento terrível, achei que nos iam entregar.
Mas, então, o polícia mais velho fez algo que eu não esperava. Virou-se pros colegas que tinham saído da esquadra e gritou: “Chamem já o delegado e alguém tira foto destas carrinhas antes que elas sumam.” Depois olhou paraa Bela e disse: “A voz firme: “Entra, menina, aqui dentro estás segura.” As horas seguintes foram um borrão de vozes, perguntas e luzes néon.
A delegacia de Porangatu era pequena, uma construção de dois andares com paredes descascadas e ar condicionado, que fazia mais barulho do que frio. Mas nessa noite ela se transformou em fortaleza. Policiais entravam e saíam. Os telefones tocavam sem parar e o nome do Coronel Amaro era sussurrado em cada canto como se fosse uma maldição.
A Bela passou quase 3 horas numa sala fechada a prestar depoimento. Eu Fiquei do lado de fora, sentado num banco de madeira dura, tomando café frio que alguém me tinha oferecido. O corte no meu pescoço tinha sido limpo e enfaixado por um paramédico, mas ainda ardia. O cansaço era tão grande que eu mal conseguia manter os olhos abertos, mas não dormi, não conseguia.
Cada vez que a porta da sala se abria, eu levantava a cabeça, esperando ver Bela sair. E cada vez que não era ela, o peito apertava um pouco mais. Por volta das 11 da noite, o delegado veio falar comigo. Era um homem com cerca de 50 anos, com cabelo grisalho e olhos cansados de quem já tinha visto de tudo.
Sentou-se no banco ao meu lado e ficou em silêncio durante um momento, como se estivesse a escolher as palavras. “O senhor sabe que se meteu, não é?”, disse. “Finalmente.” “Sei. O Coronel Amaro não é um qualquer. Ele tem amigo em Brasília, em Goiânia, em todo o canto. Esta denúncia vai dar trabalho. Vai resultar? O delegado suspirou.
Sinceramente, não sei, mas a rapariga tem coragem. Contou tudo. O casamento forçado, a morte da mãe, as ameaças, pediu proteção ao Ministério Público. Já acionámos a Polícia Federal também porque tem indícios de cárcere privado e ameaça de morte. Ele olhou-me de lado. O senhor foi testemunha de tudo.
Vai ter que depor também. Eu deponho, mesmo sabendo que isso pode colocar o senhor na mira dele. Eu pensei na pergunta. Pensei no matador destruído lá fora, nos tiros que tinham passado a centímetros da minha cabeça, nos olhos do homem da cicatriz quando disse que o coronel ia vir pessoalmente. “Já estou na mira dele”, disse eu.
“Então tanto faz. Pelo menos que seja por um bom motivo.” O delegado quase sorriu. “O senhor é um homem estranho, seu Geraldo. Gera. Todo o mundo me chama de Gera. Gera. Então levantou-se. os joelhos a estalar. A rapariga vai ficar sob proteção por enquanto. Vamos transferir ela para Goiânia amanhã de manhã, onde tem melhor estrutura.
O senhor O senhor é livre para ir quando quiser, mas eu recomendaria ficar na cidade pelo menos até prestar o depoimento formal. Eu fico bom. Fez menção de ir embora, mas parou. Ah, e o seu Gera? Sim. O que o senhor fez hoje não é coisa pouca. Aquela rapariga teria sido casada à força se não fosse o senhor, ou pior, ele abanou a cabeça.
Há muita gente que teria passado direto, que teria fingido não ver. O senhor não fingiu. Eu só fiz aquilo que qualquer pessoa devia fazer. Pois é, devia, mas não faz. Ele foi-se embora e eu Fiquei ali sozinho com o meu café frio e os meus pensamentos. Bela saiu da sala de depoimentos pouco depois da meia-noite.
Estava pálida, os olhos vermelhos de chorar, mas havia algo de diferente nela, uma leveza que não existia antes, como se um enorme peso tivesse sido tirado dos ombros. Não completamente, mas o suficiente para conseguir respirar. Quando me viu, ela veio até ao banco e sentou-se ao meu lado. Acabou, disse ela, a voz rouca.
Acabou essa parte. O resto ainda vem. Eu sei, mas essa parte era a mais difícil. Ela olhou para as próprias mãos abertas no colo, falar, contar tudo, admitir em voz elevada o que eu sabia há anos, mas nunca tinha dito. Você foi corajosa. Eu tava morrendo de medo. Ainda estou. Coragem não é não ter medo, é ter medo e fazer assim mesmo.
Ela sorriu, um pequeno sorriso, cansado, mas verdadeiro. A quem disse isso? Não sei. Alguém mais inteligente que eu. Ela riu-se. Uma curta gargalhada, abafada, mas uma gargalhada de verdade. E o som dela fez-me bem de um jeito que eu não sabia explicar. Ficamos em silêncio por um momento. O barulho da esquadra continuava ao redor.
Telefones, vozes, passos, mas ali naquele banco, parecia que estávamos num mundo à parte. O que vai acontecer agora? perguntei. Eles vão levar-me paraa Goiânia. Tem um programa de proteção de testemunhas ou algo assim. Eu vou ficar lá até ao processo começar. E depois? Depois não sei. Ela olhou paraa frente, pro corredor vazio.
Eu nunca pensei no depois. Nunca pensei que ia chegar tão longe. A minha vida inteira foi sobreviver um dia de cada vez, aguardando o momento de fugir. E agora que fugi, não sei o que fazer com a liberdade. Você aprende? O senhor acha? Eu sei. Liberdade é que nem caminhar depois de estar muito tempo sentado.
No início, as pernas tremem, dá medo de cair. Mas depois o corpo lembra-se como é e vamos em frente. Bela me olhou por um longo momento. O senhor fala como se soubesse do que está a falar. Talvez saiba um pouco. Ela não perguntou mais. Só encostou a cabeça no o meu ombro, como tinha feito à beira do riacho, e fechou os olhos.
Obrigada, o seu Gera”, disse ela baixinho. “Por tudo já disse para guardar o obrigada.” “Eu sei, mas agora já dá para falar. A gente conseguiu. Eu não respondi. Só fiquei ali sentindo o peso da cabeça dela no o meu ombro, ouvindo a respiração dela ir ficando mais lenta, mais calma. Em poucos minutos, ela adormeceu. De madrugada, uma agente da polícia veio buscá-la.
Iam levá-la para uma casa segura até ao transferência para Goiânia. Eu acordei Bela com cuidado e ela levantou-se meio grog, os olhos ainda pesados de sono. “Já?”, perguntou ela. “Já?” “Você precisa de ir.” Ela ficou parada na minha frente por um momento, como se quisesse dizer alguma coisa, mas não encontrasse as palavras. Eu também não encontrava.
A gente vai voltar a ver-se? Ela perguntou. Não sei. Talvez no julgamento. Talvez seja pouco. É o que temos por enquanto. Ela assentiu lentamente. Depois, num movimento rápido, abraçou-me. Não foi um abraço longo, nem demasiado apertado. Foi apenas um abraço. O tipo de abraço que diz tudo o que as palavras não conseguem.
Quando se afastou, tinha lágrimas nos olhos outra vez, mas desta vez eram lágrimas diferentes, não de medo ou tristeza, de algo que parecia esperança. “Cuida de ti, senhor Gera”, disse ela. “Tu também, Bela”. E ela hesitou. “Procura a sua filha, liga-lhe. Não desiste.” O nó apertou tanto que eu não consegui responder.
Só fiz que sim com a cabeça. Bela virou-se. e foi-se embora com a agente policial à porta. Olhou para trás uma última vez e acenou. Eu acenei de volta. Depois ela desapareceu pelo corredor e eu Fiquei sozinho. O sol nasceu por volta das das 5:30. Eu estava do lado de fora da esquadra, sentado num banco de cimento, olhando para o céu que ia clareando devagar.
O ar da manhã era fresco, com aquele cheiro a terra molhada que vem antes do calor. Passarinhos cantavam em algum lugar próximo. Bem tevis pelo som. O matador estava onde eu o tinha deixado, no canto do parque de estacionamento. A lataria destruído, os vidros partidos, os pneus murchos. Parecia um bicho velho que tinha dado o seu último suspiro.
Eu fui até ele e passei a mão pela porta amolgado, 38 anos de estrada. E aquele camião tinha estado comigo nos últimos 15. Tinha-me levado por todo o canto do Brasil, tinha sido a minha casa quando eu não tinha outra. Tinha aguentado tudo que encomendei e mais um pouco e agora estava morto.
Valeu, parceiro eu disse baixinho. Fez bem. Sei que é loucura falar com o camião, mas àquela hora, sozinho no estacionamento de uma esquadra no interior de Goiás, com o sol a nascer e o mundo recomeçando, não parecia loucura, parecia despedida. Dei o meu depoimento por volta das 8 da manhã. Contei tudo, do princípio ao fim.
A madrugada na estrada, a menina a correr, as porteiras, os capangas, os tiros. O delegado gravou tudo, fez perguntas, pediu pormenores. Respondi o que sabia. Quando terminei, apertou-me a mão e disse que podia ir. Ir para onde? Eu perguntei: “Para onde o senhor quiser. O senhor é livre.” Livre? A palavra tinha um peso estranho.
Saí da esquadra e Fiquei parado na calçada, sem saber o que fazer. O matador estava morto. Minha carga de grãos provavelmente já tinha sido dada como perdida. Eu não tinha dinheiro, não tinha transporte, não não tinha nada além da roupa do corpo e uns trocados no bolso. E mesmo assim, pela primeira vez em anos, sentia-me leve.
Encontrei um orelhão numa esquina perto da esquadra, daqueles antigos de ficha que já quase não existem. Fiquei parado na frente dele durante uns 10 minutos. Só olhando. O coração batia forte, as mãos suavam. Eu sabia o número de cor. Tinha decorado há anos na esperança de um dia criar coragem. nunca tinha criado.
Mas agora, depois de tudo o que tinha acontecido, depois de quase morrer numa estrada de terra batida por uma menina que eu nem sequer conhecia, o medo parecia menor, ou talvez eu tivesse ficado maior do que ele. Coloquei a ficha, marquei o número. O telefone tocou uma vez, duas, três, atendeu. Alô.
Era a voz dela, mais velha, mais cansada, mas ainda a mesma voz que me lembrava. A voz da minha Luciana. Alô? Ela repetiu. Está alguém aí? Eu abri a boca, fechei-a, abri-a de novo. Lu, eu disse, e a voz saiu-lhe embargada, tremida, quase irreconhecível. Lu, é o seu pai. Silêncio do outro lado. Um silêncio que durou uma eternidade e um segundo ao mesmo tempo.
Pai, sou eu, filha, sou eu. Mais silêncio. Eu podia ouvir a respiração dela, podia imaginar o rosto dela, a confusão, a raiva, tudo misturado. “O que é que quer?”, ela perguntou. E a voz era dura, desconfiada. Tinha todo o direito de ser. Eu quero engoli em seco. As palavras eram difíceis, pesadas, mas eu obriguei-as a sair.
Eu quero pedir desculpa, Lu, por tudo, por não teres estado lá quando precisou, por ter sido o pai que fui, por ter demorado tanto para ligar. Desculpa, não apaga 6 anos de silêncio. Eu sei, eu sei que não apaga. As lágrimas começaram a escorrer e não tentei segurar. Eu não estou a ligar, a pensar que vai ser fácil. Eu estou a ligar porque porque quase morri hoje, Lu.
E a única coisa que eu conseguia pensar era em ti, em como eu desperdicei tanto tempo, em como fui cobarde. Ela não respondeu, mas também não desligou. Eu não estou a pedir para me perdoares, eu continuei. Não tô pedindo nada. Só queria, só queria que sabias que eu penso em ti todo dia, que te amo, mesmo tendo sido o pior pai do mundo, e que se quiser, se me der uma oportunidade, eu quero tentar, quero conhecer o meu neto, quero ser melhor, silêncio.
Depois um som, um soluço, talvez, ou uma respiração funda. O Pedro, disse ela. E a voz dela estava diferente agora, já não dura, ainda desconfiada, mas com algo mais em baixo. “Tem 8 anos”, pergunta do avô às vezes. “Pergunta, pergunta. Eu mostro foto sua de vez em quando, as antigas.” Eu fechei os olhos.
As lágrimas desciam sem parar, mas não me importava. Eu Quero conhecê-lo, Lu, se deixares. Mais silêncio, mais longo desta vez. E então, está bem, pai, nós podemos, nós pode tentar. Não foi perdão, não foi reconciliação, foi apenas uma porta se abrindo, uma pequena fenda depois de anos trancada, mas era o suficiente. Era mais do que merecia.
“Obrigado, filha”, disse eu, a voz a falhar. “Obrigado. Não me agradece ainda. A as pessoas têm muito para conversar, muita coisa para resolver. Eu sei. E eu estou pronto. Você está onde? Por Angangatu, Goiás. O meu camião avariou aqui. Você está bem? Estou agora. Tô. Ela ficou em silêncio outra vez, mas era um silêncio diferente, mais macio.
“Liga-me quando chegar a algum lugar fixo”, disse ela. “A gente combina ver-se. Eu ligo, prometo. Desta vez cumpre, pai. Dessa vez cumpro.” Ela desligou. O som do telefone mudo encheu-me o ouvido, mas eu não larguei o auscultador. Fiquei ali parado, chorando, feito criança no meio da calçada, sem me importar com quem passava, porque naquela altura nada mais importava.
Eu tinha a minha filha de volta, ou pelo menos a hipótese de ter, e que valia mais do que qualquer camião, qualquer carga, qualquer estrada. Passei os dias seguintes em Porangatu, esperando resolver a situação do matador e da carga perdida. O seguro do camião cobriu uma parte do prejuízo. Não tudo, mas o suficiente para eu não ficar completamente no zero.
A empresa que tinha contratado o frete reclamou, ameaçou o processo, mas quando souberam da história que já estava nos jornais locais, recuaram. Ninguém queria ser o vilão que processa o camionista que salvou uma rapariga de casamento forçado. A história espalhou-se rápido. Primeiro nos jornais de Goiás, depois nos nacionais.
Camionista enfrenta coronel para salvar jovem. Era o tipo de manchete que as pessoas gostavam de ler. Procuraram-me para dar entrevista, mas eu recusei. Não queria fama, não queria atenção, só queria paz. Uma semana depois, recebi uma chamada. Era bela. Seu Gera. A voz dela era mais leve do que me lembrava, mas viva.
Bela, como você tá? Bem. Estou em Goiânia, num abrigo do programa de proteção. É pequeno, mas é seguro. E pela primeira vez na vida, durmo sem medo de acordar e descobrir que foi tudo o sonho. Fico feliz. Eu também. Ela hesitou. Eu liguei para agradecer de novo e para contar uma coisa. Conta. Comecei a estudar. Eles têm aqui um programa de conclusão do ensino secundário para adultos.
Eu nunca terminei a escola. O meu pai não deixava. Mas agora, agora já pode. Agora eu posso. A voz dela tremeu um pouco e eu estou a pensar em fazer faculdade depois, direito, talvez, para ajudar outras mulheres que passam pelo que eu passei. Sorri, um sorriso largo, verdadeiro, que esticou os músculos do rosto de um maneira que me tinha esquecido.
Vai ser uma advogada incrível, bela, o senhor acha? Eu tenho a certeza. Ela riu-se. Aquela gargalhada que eu tinha ouvido pela primeira vez na esquadra, mas mais forte agora, mais confiante. E o senhor, senhor Gera, o que vai fazer? Eu vou, parei, pensei, vou visitar a minha filha e o meu neto. A gente conversou.
Vai ser difícil, mas vamos tentar. Que bom, que bom, senhor Gera. O senhor merece. Não sei se mereço, mas vou tentar merecer. É o que podemos fazer, não é? Tentar. Pois, é o que podemos fazer. Ficámos em silêncio por um momento. Um silêncio confortável de duas pessoas que tinham passado por algo grande juntas e saído do outro lado.
“Eu vou desligar agora”, disse ela. “Mas eu vou ligar de novo de vez em quando, se o senhor não se importar. Eu não me importo. Liga quando quiser. Combinado? E o seu Gera? Sim. Obrigada por tudo, por ter parado naquela estrada, por não me ter deixado para trás, por ter sido a pessoa que o Senhor foi.
O nó na garganta apertou de novo. Obrigado, tu, Bela, por me lembrar-me de quem podia ser. Ela desligou e eu fiquei ali com o telefone na mão, olhando o céu azul de Goiás, pensando em tudo o que tinha acontecido. Uma semana depois, estava num autocarro para Ribeirão Preto. Não tinha mais o matador, já não tinha a estrada como fuga, mas tinha algo que não tinha há muito tempo, um destino, um lugar para ir, alguém à espera.
O autocarro cortava o serrado, passando por pequenas cidades, postos de abastecimento de combustível, quintas que se estendiam até ao horizonte. A paisagem era familiar. Eu tinha cruzado aquelas estradas milhares de vezes, mas agora parecia diferente, nova, ou talvez eu que fosse diferente. Encostei a cabeça no vidro e fechei os olhos.
O sol da tarde aquecia o rosto e o barulho do motor era um ronco baixo, constante, quase reconfortante. Pensei na Bela, na sua coragem de fugir, de denunciar, de recomeçar. Pensei no seu dito e na dona Zefa, que tinham arriscado tudo para ajudar dois estranhos. Pensei no delegado que tinha optou por fazer a coisa certa, mesmo sabendo que ia dar trabalho.
Pensei em todas as pessoas que tinha encontrado nessa viagem, cada uma carregando as suas próprias histórias, as suas próprias dores, as suas próprias coragens escondidas. E pensei em mim, em quem eu tinha sido, em quem eu era agora, em quem eu podia ser. A estrada continuava lá fora, estendendo-se até ao horizonte. Tinha passado a vida inteira nela, fugindo de tudo o que me assustava, mas agora entendia uma coisa que não entendia antes.
A estrada não é só fuga, é também caminho. E todo o caminho leva a algum lugar. O autocarro chegou a Ribeirão Negro ao fim da tarde. A Luciana estava a me à espera na rodoviária. Do lado dela, segurando a mão com força, estava um menino de 8 anos, com olhos castanhos e cabelo espetado. Pedro, o meu neto, eu desci o autocarro devagar, as pernas tremendo.
Não de cansaço, de emoção, de medo, de esperança. A Luciana olhou para mim. Eu Olhei para ela. Por momentos, nenhum de nós se mexeu. E então Pedro puxou a mão da mãe e deu um passo na minha direção. “És o meu avô?”, ele perguntou a voz fina de criança. Eu me baixei, ficando à altura dele. Os olhos ardiam, mas eu não desviou o olhar. “Sim, sou”, disse eu.
“Desculpa ter demorado tanto tempo a aparecer. Pedro estudou-me por um momento com aquela seriedade que só uma criança tem. Depois, sem aviso, abraçou-me. Foi um abraço desajeitado, de braços pequenos e força incerto, mas foi o abraço mais importante que já tinha recebido na vida. Por cima da cabeça dele, vi Luciana.
Ela estava a chorar, lágrimas silenciosas a escorrer pelo rosto. Mas não era só tristeza, havia outra coisa ali também. Alívio, talvez, ou esperança. Eu estendi-lhe a mão. Ela hesitou por um segundo. Um segundo que durou uma vida inteira. E depois deu um passo, dois, e juntou-se ao abraço. Ficámos ali os três no meio da rodoviária de Ribeirão, abraçados, feito gente que se tinha perdido e finalmente se encontrado.
E eu entendi naquele momento que a viagem não tinha acabado, tinha apenas começado. Dizem que a estrada muda quem por ela percorre. Sempre achei que era mentira, que a gente era quem era e a estrada era apenas o lugar onde fugimos de si mesmo. Mas naquela madrugada, quando uma menina de vestido branco surgiu a correr no feixe dos meus faróis, alguma coisa mudou. Não sei explicar o quê.
Não sei explicar como. Só sei que quando eu Parei o camião e abri a porta, não foi só ela é que guardei, fui eu também. Porque às vezes para nos encontrarmos mesmo, precisamos de nos perder primeiro. Precisa de passar por estradas que não conhece, enfrentar medos que não quer enfrentar, ajudar pessoas que não esperava ajudar.
E no fim, se nós tiver sorte, se tivermos coragem, a as pessoas descobrem que o destino não é um lugar, é uma escolha. Uma escolha que a gente faz a cada porteira, a cada curva, cada vez que decide parar. ou seguir em frente. Escolhi parar e essa escolha mudou tudo.