A geopolítica do crime organizado no estado do Rio de Janeiro atravessa, neste momento, um de seus capítulos mais sangrentos e complexos. O epicentro desta disputa é a Zona Oeste da capital fluminense, um vasto território historicamente dominado por grupos paramilitares, as chamadas milícias. No entanto, uma ofensiva implacável orquestrada pela maior facção de tráfico de drogas do estado, o Comando Vermelho (CV), tem alterado drasticamente esse cenário. Nas últimas horas, o vazamento de áudios contundentes e a confirmação de deserções estratégicas no alto escalão da milícia trouxeram à tona o nível de tensão e paranoia que domina a região. O fato mais recente e de maior impacto tático é a traição de um homem identificado como Marcola, antigo aliado de confiança do chefe miliciano conhecido como PL ou Jorjão, que “pulou” — termo utilizado no submundo para descrever a troca de facção — para a tropa liderada por RD do Barbante, levando consigo armamento de guerra e informações cruciais.
Para compreender a magnitude desta movimentação, é necessário analisar minuciosamente os elementos expostos nos áudios vazados que circulam em grupos de mensagens restritos a moradores e criminosos da região. O material obtido revela não apenas ameaças de violência extrema, mas também uma sofisticada guerra psicológica e de narrativas, onde traficantes tentam angariar o apoio da população local através da promessa de aniquilação do modelo de extorsão financeira imposto pelas milícias.

A Guerra de Narrativas e o Terror Psicológico Imposto aos Moradores
O áudio atribuído a RD do Barbante, apontado pelas autoridades como uma das principais lideranças do Comando Vermelho na missão de retomada da Zona Oeste, expõe a brutalidade com que os moradores são tratados como peças de um tabuleiro letal. Na gravação, a liderança criminosa adota um tom ameaçador direcionado àqueles que, supostamente, estariam colaborando com a milícia ou se manifestando contra a invasão do tráfico em redes sociais e grupos de aplicativos de mensagens.
De forma calculada e intimidatória, RD afirma que sua equipe já realizou um levantamento completo — o “cadastro” — e possui os endereços de todos os integrantes de determinados grupos de moradores. A mensagem é clara: o direito à liberdade de expressão não existe sob o jugo do crime. Ele adverte que qualquer pessoa que administrar ou participar de grupos que censurem apoiadores do Comando Vermelho será considerada miliciana e, consequentemente, será executada. A frase “vai entrar na bala” é repetida como uma sentença já proferida.
Contudo, a tática de RD do Barbante vai além da simples ameaça. Ele utiliza o que especialistas em segurança pública chamam de populismo criminoso. Em um longo trecho da gravação, o líder do tráfico tenta se posicionar como um libertador da comunidade. Ele ataca diretamente o modelo de negócios da milícia, que se sustenta através da cobrança de taxas de segurança abusivas de comerciantes locais, moradores e trabalhadores informais. RD argumenta que os milicianos extorquem pais de família, pessoas que acordam cedo e pagam impostos, apenas para financiar uma vida de luxo, festas, drogas e bebidas, sem oferecer qualquer proteção real às ruas da comunidade.
Na tentativa de seduzir a população que vive esgotada pelas taxas da milícia, a facção faz promessas de cunho assistencialista. O criminoso afirma que sua gestão não cobrará impostos dos moradores e ainda fornecerá botijões de gás, cestas básicas e medicamentos. Ao se autodenominar “cria raiz”, nascido e criado na comunidade, RD tenta legitimar sua invasão não como uma tomada de território por um cartel de drogas, mas como um movimento de resistência local contra opressores externos. Essa retórica, embora falaciosa, encontra eco em comunidades abandonadas pelo poder público e sufocadas financeiramente pela milícia.
Vídeo:
Defecções Estratégicas: O Enfraquecimento Tático da Milícia de PL
O impacto das ameaças e promessas do Comando Vermelho ganha materialidade com as recentes deserções nas fileiras da milícia liderada por PL, também conhecido como Jorjão. O caso de Marcola representa um golpe logístico e moral severo contra os grupos paramilitares. Ao trocar de bandeira e migrar para a equipe de RD do Barbante, Marcola não levou apenas um fuzil — um ativo financeiro e bélico de alto valor —, mas também um conhecimento íntimo sobre as rotas, esconderijos, escalas de plantão e vulnerabilidades da milícia de PL.
A traição de Marcola não é um evento isolado. As inteligências policiais já haviam registrado, em abril deste ano, a deserção de um indivíduo conhecido como GB do Antares, que também abandonou a milícia para se juntar às tropas de RD do Barbante, chegando a gravar vídeos de exaltação à nova facção. A frequência desses “pulos” indica um colapso na confiança interna dos grupos paramilitares da Zona Oeste.
Embora relatórios de inteligência apontem que PL ainda possua um contingente superior a 300 homens fortemente armados sob seu comando, a quantidade não está se traduzindo em estabilidade. A facção liderada por RD do Barbante, agindo como uma força de guerrilha altamente motivada e financiada, tem se tornado a maior dor de cabeça para os milicianos, conseguindo realizar incursões pontuais e assassinatos seletivos que minam a estrutura de arrecadação financeira de seus rivais.
O Cerco Financeiro e o Patrocínio do Alto Escalão do Comando Vermelho
A guerra travada na Zona Oeste não é financiada apenas com os recursos locais. As autoridades de segurança pública têm clareza de que RD do Barbante não atua de forma autônoma. Ele é a ponta de lança de um projeto de expansão territorial financiado e arquitetado por figuras do mais alto escalão do Comando Vermelho, notadamente o criminoso conhecido como Doca da Penha.
Doca é apontado como o grande investidor desta guerra. O objetivo estratégico é varrer definitivamente a milícia do mapa da capital e instalar a chamada “Tropa do Urso” em áreas cruciais de arrecadação e logística. Com o suporte financeiro de Doca, que provê fuzis, munições, veículos e soldados de outras comunidades, RD do Barbante tem conseguido golpear a milícia exatamente onde mais dói: no bolso.
A prova cabal dessa estratégia de asfixia financeira foi a execução, ocorrida na semana anterior, do miliciano conhecido como Mancu do Antares. O assassinato, realizado no bairro de Paciência, não foi um mero acerto de contas aleatório. Mancu era o responsável pelo recolhimento do dinheiro oriundo da extorsão das vans e do transporte alternativo na Zona Oeste. Ao eliminar o “cobrador”, o Comando Vermelho interrompe o fluxo de caixa de PL, dificultando o pagamento do seu exército de 300 homens e das propinas que mantêm a estrutura funcionando.
A Paranoia Interna: O Expurgo Promovido por PL (Jorjão)
A desintegração do império da milícia na Zona Oeste não se deve apenas à competência militar de RD do Barbante, mas também, e de forma muito significativa, à instabilidade emocional e à paranoia do próprio líder miliciano. A história do crime organizado ensina que líderes que governam unicamente pelo medo, executando seus próprios aliados por suspeitas de traição ou pura ganância, acabam acelerando a própria ruína.
Informações circulantes no submundo e expostas pelos próprios rivais detalham uma lista estarrecedora de lideranças paramilitares que teriam sido executadas a mando do próprio PL durante a sua gestão. A motivação principal, segundo os relatos, seria o “olho grande”, ou seja, a cobiça pelas fatias de lucro de seus próprios subordinados e parceiros.
A lista de mortos pela própria milícia é extensa e representa um expurgo sem precedentes. Entre as vítimas das ordens de PL estariam nomes de peso na criminalidade local, como Jairo Doço, Vini Palmares, Mabel (de Itaguaí), Fiel (de Santa Cruz), B2 (de Nova Jersey), Dedo (de Manguariba), Judô (do Antares), Orelha (de Gouveia), Federinha (de Manguariba), Caipirão, Cesarinho, Jefinho e Giba (ambos do Piraquê), Soldado do Aço, Caixote (do Barbante), Renatinho da Uva, além de Martinha Sapatão, apontada como prima de Zinho, outra figura histórica da milícia. Houve também tentativas de assassinato malsucedidas, como a do Japa de Gouveia.
Além dos assassinatos, a gestão de PL foi marcada por expulsões de figuras influentes, como Nan Negão e Andrei Zero. Este último, após ser expulso, gravou vídeos jurando guerra total contra o bonde de PL, fragmentando ainda mais a resistência paramilitar na região e abrindo flancos que facilitam a entrada do Comando Vermelho. Quando um líder criminoso massacra sua própria base de comando, o resultado inevitável é a fuga de capital humano e de inteligência para o lado inimigo, exatamente o fenômeno que justifica a mudança de lado de homens como Marcola.
A Tática de Desmoralização Final
O vazamento do conjunto de áudios termina com uma gravação atribuída a um membro da equipe de RD, direcionada aos soldados rasos da milícia que ainda lutam por PL. A fala é uma obra-prima de guerra psicológica militar adaptada para o cenário urbano do Rio de Janeiro.
O criminoso zomba da situação dos milicianos, afirmando que enquanto os soldados do CV querem estar na rua, os membros da milícia estão acuados, “querendo voltar para casa”. A mensagem tenta plantar a semente da discórdia definitiva entre a base e a chefia miliciana. O porta-voz do CV afirma que os chefes da milícia estão apenas juntando dinheiro para fugir da região assim que a derrota for iminente, deixando seus soldados de baixo escalão para trás, para morrerem na linha de frente contra fuzis de calibre 5.56 e 7.62.
A oferta final do Comando Vermelho é sedutora para criminosos acossados: “Ainda dá tempo de ser homem, conversar e vir para o lado certo”. A promessa é de acolhimento para aqueles que traírem seus antigos chefes, desde que tragam suas armas como dote de entrada.
A análise fria destes fatos revela que a Zona Oeste do Rio de Janeiro se tornou um teatro de operações complexo. De um lado, uma milícia enfraquecida por expurgos internos, paranoia e perda de receitas; do outro, uma facção narcotraficante enriquecida, com uma estratégia expansionista agressiva e uma máquina de propaganda que tenta convencer a população de que a tirania do tráfico é mais branda que a tirania da extorsão paramilitar. No meio desse fogo cruzado, alijados do seu direito fundamental à segurança, permanecem milhares de cidadãos fluminenses, aguardando que o Estado reassuma o monopólio do uso legítimo da força antes que uma nova bandeira do terror seja definitivamente fincada em seus bairros.
Se você quiser ver mais casos semelhantes no futuro, siga e ative as notificações da nossa página para não perder nenhuma notícia importante.