O submundo do crime organizado no Rio de Janeiro é um ecossistema volátil, onde alianças são frágeis, o poder é efêmero e a sobrevivência exige um pragmatismo letal. Poucas figuras ilustram tão bem essa dinâmica de ascensão, queda e adaptação quanto Leandro Nunes Botelho, amplamente conhecido nas páginas policiais e nos becos da capital fluminense como “Scooby”, “Robinho” ou “Scooby dos Macacos”. De assaltante audaz a um dos nomes mais procurados da facção Amigos dos Amigos (ADA) e, posteriormente, um vira-casaca estratégico sob a bandeira do Terceiro Comando Puro (TCP), a história de Scooby é um retrato cru da violência urbana que assola o Estado. Esta reportagem investigativa destrincha o percurso deste criminoso, expondo os bastidores de guerras entre facções, execuções de lideranças e a controversa gestão de um império do tráfico construído à distância.

O Início: Do Artigo 157 ao Golpe de Estado no Morro dos Macacos
A origem de Scooby na criminalidade remete a uma época em que o Morro dos Macacos, situado no tradicional bairro de Vila Isabel, na Zona Norte do Rio de Janeiro, não tinha o tráfico de drogas como sua principal engrenagem financeira. Antes de dominar os pontos de venda de entorpecentes, o grupo do qual Scooby fazia parte era especializado em crimes de roubo, enquadrados no artigo 157 do Código Penal. A quadrilha era temida por realizar assaltos a residências, roubos de cargas, arrastões contra pedestres e o roubo de veículos de luxo. A audácia do bando ia além do patrimônio: eles carregavam a infame reputação de executar policiais civis que ousavam patrulhar as imediações da comunidade. No entanto, a brutalidade desenfreada desses assaltos começou a atrair a atenção ostensiva das forças de segurança do Estado. Em 2004, a Polícia Militar e a Polícia Civil passaram a sufocar o Morro dos Macacos com operações constantes, uma resposta direta às ações do bonde de Scooby. Essa pressão policial desagradou profundamente o então “dono” do morro, o traficante Luiz Carlos da Silva, vulgo Sangol. Ao tentar repreender Scooby pelas ações que estavam prejudicando os lucros do tráfico, Sangol selou seu próprio destino. Recusando-se a aceitar a subordinação e a bronca, Scooby demonstrou uma frieza tática impressionante. Ele articulou um motim, reuniu um grupo de criminosos de sua estrita confiança e, em dezembro de 2004, orquestrou a execução de Sangol. No rígido tribunal do crime, matar o próprio chefe costuma ser uma sentença de morte. Contudo, Scooby possuía uma lábia política incomum para um assaltante: ele conseguiu justificar o homicídio perante a alta cúpula da facção Amigos dos Amigos (ADA), alegando falhas na gestão do antigo líder. A facção aceitou o argumento, e Leandro Nunes Botelho foi coroado o novo chefe do tráfico no Morro dos Macacos.
Gestão Terceirizada: Ostentação na Zona Sul e o Papel de ‘Bebezão’
Uma vez no poder, a gestão de Scooby desafiou a imagem clássica do traficante entrincheirado em sua favela. O novo chefe raramente era visto nas vielas íngremes de Vila Isabel. Atraído pelo luxo e pelo dinheiro fácil, ele preferia ostentar sua riqueza circulando com veículos importados pelos bairros nobres da Barra da Tijuca e São Conrado. Para garantir sua segurança e conforto, Scooby estabeleceu seu refúgio na Rocinha, a maior favela do Brasil, com a chancela e proteção direta de Antônio Francisco Bonfim Lopes, o “Nem da Rocinha”, principal liderança da ADA na época. Enquanto Scooby vivia uma rotina de luxo na Zona Sul, a administração diária da violência e dos negócios nos Macacos e no vizinho Morro do Cruz foi delegada ao seu braço direito: Jorge Vieira, o “Bebezão”. Na prática, Bebezão atuava como o verdadeiro gestor do território. Ele era a linha de frente, segurando “as broncas”, defendendo a favela de invasões e lidando com a polícia. Essa dinâmica criou um cenário peculiar na hierarquia do crime: enquanto Scooby detinha o título formal, Bebezão conquistava o respeito orgânico e a lealdade da tropa local e da cúpula da facção, tornando-se, aos olhos de muitos, mais líder do que o próprio chefe ausente.

O Sequestro de Militares: Paranoia e Tensão Bélica
A ausência de Scooby não blindou o Morro dos Macacos de se tornar palco de incidentes com repercussão nacional. O mais grave deles, que rendeu a Scooby processos pesados na Justiça, envolveu as Forças Armadas. Naquela época, o Morro dos Macacos vivia em constante estado de alerta e guerra civil contra o vizinho Morro do São João, um reduto do Comando Vermelho (CV). A paranoia de invasões iminentes fazia com que os soldados de Scooby abordassem qualquer veículo suspeito. Foi nesse contexto de tensão que militares do Exército Brasileiro, retornando de uma festa durante a madrugada, erraram o caminho e acabaram entrando nos acessos do Morro dos Macacos. Imediatamente abordados pelos traficantes, os jovens foram colocados no porta-malas do próprio veículo. Os criminosos, desconfiados de que os homens fossem rivais do Comando Vermelho disfarçados com fardas militares (os chamados “alemães” na gíria do crime), contataram Scooby pelo rádio. De seu esconderijo, Scooby ordenou que os prisioneiros fossem levados ao alto do morro, na área destinada a sessões de tortura e execuções sumárias. O espancamento brutal começou. A tragédia só foi evitada por um detalhe: um dos soldados do tráfico, que conhecia os integrantes do Morro do São João, não reconheceu os militares como membros da facção rival. Informado do erro, Scooby recuou e ordenou que o traficante “LG” liberasse os homens. As agressões só pararam quando um dos militares começou a passar mal severamente. Eles foram abandonados no pé do morro. O caso explodiu na mídia brasileira, colocando Scooby definitivamente no topo da lista dos criminosos mais procurados do Estado.
A Guerra de 2009 e a Queda do Helicóptero da Polícia Militar
O ano de 2009 entraria para a história da segurança pública do Rio de Janeiro, tendo Scooby como um dos seus pivôs indiretos. O barril de pólvora explodiu após a morte de um traficante conhecido como “Zidane” ou “Pequeno Mestre”, o segundo homem na hierarquia da Rocinha. Para celebrar o aniversário de um gerente do Morro dos Macacos, Scooby convidou lideranças da ADA de outras favelas, incluindo Zidane. Uma comitiva desceu da Rocinha para Vila Isabel. Durante a festa, com os criminosos embriagados e com a guarda baixa, os rivais do Morro do São João (CV) viram a oportunidade perfeita. Uma invasão surpresa e devastadora resultou na morte de dezenas de traficantes da ADA, culminando no assassinato de Zidane. A morte de seu braço direito enfureceu Nem da Rocinha. Contrariando seu perfil mais voltado aos negócios e avesso a conflitos abertos, Nem financiou uma resposta brutal. A guerra entre os morros dos Macacos e São João durou semanas, aterrorizando os moradores de Vila Isabel, Engenho Novo e Tijuca, e dominando a cobertura da imprensa nacional. A situação escalou quando o Comando Vermelho, liderado por “Fabinho do São João”, reuniu um verdadeiro exército recrutando homens do Complexo da Penha, Manguinhos, Mandela e Mangueira. Eles expulsaram a ADA do Morro dos Macacos. A resposta do Estado precisou ser drástica. A Polícia Militar interveio no conflito, mas a ousadia do crime atingiu um ápice aterrorizante: um helicóptero da Polícia Militar (Fênix) foi abatido a tiros por traficantes, matando policiais em chamas diante das câmeras de TV. Até hoje, discute-se se os disparos partiram do CV ou da ADA, mas o impacto midiático foi imensurável. No meio do caos bélico, Scooby cometeu um erro que mancharia sua reputação no submundo: ele permaneceu escondido na segurança da Rocinha. Quem organizou o contra-ataque e conseguiu expulsar o Comando Vermelho dos Macacos foi, mais uma vez, “Bebezão”. A justificativa oficial foi a de que Nem da Rocinha impediu Scooby de descer o morro devido ao cerco policial que se formou após a queda do helicóptero. No entanto, para o código de honra distorcido do crime, o fato de um líder abandonar seus homens na guerra é imperdoável. O traficante “FB”, chefe do Comando Vermelho no Complexo do Alemão, chegou a zombar de Scooby publicamente pela internet, humilhando-o por sua covardia. Após 2009, o prestígio de Scooby dentro da cúpula da ADA despencou, enquanto a estrela de Bebezão ascendia rapidamente.
A Era das UPPs, o Fim do Refúgio e a Vida Nômade
A queda do helicóptero foi a gota d’água para o governo do Estado. Com a Copa do Mundo e as Olimpíadas no horizonte, a pressão política exigia uma resposta. O governo instituiu as Unidades de Polícia Pacificadora (UPP). Em novembro de 2010, o Morro dos Macacos foi ocupado. Com sua principal base de renda asfixiada e com a cabeça a prêmio, Scooby consolidou sua vida como hóspede na Rocinha, coordenando à distância um tráfico agora enfraquecido nos Macacos, feito no estilo “formiguinha”, sem o ostensivo armamento de guerra. A tranquilidade na Rocinha, porém, tinha data de validade. Com as UPPs empurrando diversas lideranças da ADA (como Playboy, Coelho, Lindinho e o próprio Scooby) para a comunidade da Zona Sul, a atenção do Estado se voltou para lá. Em setembro de 2012, as forças de segurança invadiram a Rocinha, instalando uma UPP e prendendo grandes líderes, incluindo Nem. Sem o seu principal padrinho e sem um território fixo, Scooby iniciou uma peregrinação pelo submundo. Ele buscou abrigo no Morro do Urubu (Pilares) e, posteriormente, no Morro do 18 (Água Santa), sob a proteção do traficante Piolho e de seu frente, Jean. A estadia de Scooby no 18 foi marcada por novas ambições expansionistas. Aproveitando sua experiência tática, ele se aliou aos traficantes locais para tentar dominar as áreas do Fubá, Campinho e Caixa D’Água, territórios controlados por milicianos paramilitares. Em fevereiro de 2013, Scooby liderou um grupo de 19 homens fortemente armados rumo ao Morro do Fubá. Embora tenham conseguido afugentar a maioria dos milicianos, a operação foi desastrosa e marcada pela imperícia: os traficantes atiraram a esmo, matando um trabalhador inocente. A repercussão da morte de um civil desencadeou operações policiais diárias no Morro do 18. Tornado um estorvo diplomático e comercial para seus anfitriões, Scooby precisou fugir novamente.

Complexo da Pedreira, o Resgate em Bangu e a Mudança de Facção
O próximo destino do ex-chefe dos Macacos foi o Complexo da Pedreira, em Costa Barros, que na época havia se tornado o grande quartel-general da facção ADA sob o comando sangrento de Celso Pinheiro Pimenta, o “Playboy”. Abrigado na Pedreira, Scooby tentou provar sua utilidade participando de diversas guerras territoriais, ajudando a invadir o Morro do Chaves (tomando-o do Comando Vermelho) e o Morro do São José Operário, na Praça Seca. No entanto, sua presença em grandes operações muitas vezes trazia mais problemas do que soluções bélicas. O capítulo final de grande notoriedade de Scooby na mídia ocorreu na audaciosa tentativa de resgate no Fórum de Bangu. Com o objetivo de libertar os traficantes Piolho (do Morro do 18) e Chocolate (da Guacha), Scooby e Jean organizaram uma invasão armada ao prédio da Justiça. A operação falhou miseravelmente, resultou na morte trágica de inocentes — incluindo uma criança — e colocou todo o aparato de inteligência da polícia atrás dos envolvidos. A pressão foi imensa. Piolho e outras lideranças foram capturados e transferidos para presídios federais de segurança máxima. Após o desastre no Fórum de Bangu, Scooby pareceu ter compreendido que a exposição midiática era sua maior inimiga. Ele submergiu, desaparecendo das manchetes dos telejornais. Contudo, no intrincado xadrez do crime carioca, a sobrevivência exige camaleonismo. Em meados de 2017, a facção Amigos dos Amigos sofreu um colapso interno severo, com muitas de suas lideranças sendo mortas ou traindo a sigla. Visando manter-se vivo e operante, Leandro Nunes Botelho tomou a decisão pragmática de trocar a cor de sua camisa: Scooby aliou-se ao Terceiro Comando Puro (TCP). A trajetória de Scooby dos Macacos não é o relato de uma vitória, mas a dura crônica de uma sobrevivência covarde e oportunista em meio ao caos. Ele personifica a engrenagem fria do narcotráfico no Rio de Janeiro, onde a honra é uma ilusão de ótica e a lealdade é um produto negociável, vendido sempre ao melhor preço para garantir que, no dia seguinte, o fuzil continue engatilhado.
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