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EX-COVEIRO CONTA O QUE ACONTECEU NO CEMITÉRIO NO DIA DOS NAMORADOS DE 2001

Estávamos a 12 de junho de 2001, dia dos namorados. Eu estava no cemitério terminar um serviço quando senti alguém atrás de mim. E quando me virei, ela estava lá, a mesma mulher que eu tinha acabado de enterrar. E logo atrás dela estava alguém que eu nunca tinha visto em vida. Mas de alguma forma eu sabia exatamente quem era e o que via nesse dia levo-o comigo até hoje.

O meu nome é José Ribeiro Lima, tenho 72 anos e esta é a minha história em minutos. Trabalhei por mais de 20 anos no cemitério municipal da cidade de Goiás. Quando comecei, tinha pouco mais de 30 anos. E uma das primeiras coisas que aprendi foi isso. Você precisa de criar uma parede entre si e o que está a ver. Não há outro jeito.

Se deixar que cada enterro o afete, você não aguenta nenhuma semana naquele serviço. Vê-se choro, vê-se família a despedir-se, vê gente que mal consegue ficar de pé de tanta dor. E precisa continuar a trabalhar porque o serviço precisa de ser feito. Eu criei esta parede cedo e ela funcionou durante muitos anos.

Não é que não sentisse nada, sentia. Mas aprendi a guardar aquilo num sítio onde não atrapalhava o trabalho. É o forma que todo o coveiro encontra para aguentar o dia a dia. Mas sempre tive uma coisa diferente dos outros funcionários do cemitério. Uma coisa que nunca soube explicar bem. Desde quando era novo, percebia coisas que os outros não pareciam perceber.

Era uma sensação, como se em certos locais o ar tivesse um peso diferente, como se às vezes alguma coisa que eu não conseguia ver estivesse ali do lado perto de mim, quieta, sem fazer qualquer barulho. Eu nunca disse isso para ninguém, porque sabia que me iam olhar torto, iam pensar que eu estava inventando ou que tinha algum problema.

Então eu ficava quieto e quando comecei no cemitério, este sensação foi aumentando gradualmente, como se o local fosse afinando alguma coisa dentro de mim que já existia desde sempre, mas que estava quieta à espera. Eu aprendi a viver com aquilo, aprendi a ignorar quando precisava trabalhar. Mas havia dias que era mais difícil do que outros.

Dias em que eu sentia mais e precisava de mais esforço para manter o foco no que tinha de ser feito. O funeral do Dirceu foi um desses dias. Estávamos em 1999. Tinha 45 anos na altura. Era uma tarde comum de semana, serviço marcado para as 4 da tarde. Recebia a ordem de serviço como recebia todas as outras. Nome, idade, setor, horário.

Dirceu Cunha, 74 anos, setor C. Era mais um enterro numa tarde comum e tinha um serviço a cumprir. Preparei a cova ainda de manhã, organizei tudo com o cuidado de sempre e Fiquei à espera que o horário chegasse. A família foi chegando aos poucos, perto das 4 da tarde. Não era um velório grande, poucas pessoas, flores simples, um padre que rezou, deu a bênção e foi embora logo a seguir.

Tudo dentro do que estava habituado a ver. E foi quando o caixão começou a descer, que eu olhei pela primeira vez para viúva. Ela estava de negro, de pé junto à beira da cova. Não estava a chorar e não precisava de ser segurada por ninguém. Ela estava só parada, quieta, com os olhos postos no caixão descendo lentamente.

E foi exatamente aquilo que me apanhou de uma forma que eu não esperava, o silêncio dela. Eu já tinha visto muito choro naquele cemitério durante todos estes anos de trabalho, mas aquela mulher estava diferente de tudo o que já tinha visto antes. A dor dela não cabia em choro. Era demasiado grande para isso. Ela ficou ali parada, olhando como se estivesse tentando guardar cada segundo daquele momento, porque sabia que quando acabasse não ia haver mais nada igual na vida dela.

Tentei desviar o olhar e focar no serviço, mas alguma coisa dentro de mim não deixou. A família foi embora aos poucos, um a um, as pessoas foram-se despedindo e saindo pelo portão. E ela ficou parada no mesmo lugar enquanto eu cobria a cova com terra e organizava as flores com cuidado no lugar certo. Ela não se mexeu uma única vez sequer.

Não disse uma palavra para ninguém. ficou até ao fim, com os olhos no túmulo, como se não conseguisse ainda dar as costas àquilo. Quando eu terminei, afastei-me um pouco para dar espaço a ela. Fiquei de costas, fingindo arrumar as ferramentas e alguns minutos depois ouvi os passos dela no caminho de pedra. Foi aí que senti, como se aquela cova tivesse ficado com algo a mais dentro dela, um peso diferente de tudo o que eu já tinha sentido antes naquele cemitério, como se alguma coisa tivesse ficado ali naquele lugar, naquele túmulo, e não tivesse qualquer intenção

nenhuma de ir embora. Eu sacudi a cabeça, peguei nas minhas ferramentas e fui embora. Nos dias que se seguiram ao enterro, tentei não pensar mais naquilo. Tinha outros serviços. outras covas para abrir, outras famílias para atender. O trabalho não pára porque a gente está com a cabeça noutro lugar. Então fui seguindo.

Mas, cada vez que Eu passava por aquele túmulo, o meu passo diminuía sem que eu mandasse. Eu notava isso, abanava a cabeça e continuava a andar como se não fosse nada. Na semana seguinte ao funeral, eu estava a fazer um serviço pela manhã, quando a vi entrar pelo portão principal. Reconheci de longe. Era a senhora que estava naquele funeral.

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Ela passou pelo caminho de pedra, sem olhar para lado nenhum, como quem já sabe de cor para onde vai, e foi direto para o túmulo do esposo. Eu continuei o meu trabalho ali, mas percebi naquele momento que a pressão que eu sempre sentia naquele túmulo estava diferente de como costumava ser quando passava por ali sozinho, mais presente, mais vivo, como se algo que estava quieto tivesse despertado com a chegada dela.

e estivesse agora mais próximo do que era nos outros dias. Ela ficou por volta das 40 minutos, rezou um pouco, ficou em silêncio por mais algum tempo, depois se levantou-se lentamente, ajeitou a roupa com cuidado e foi-se embora pelo mesmo caminho que tinha vindo. E quando passou por mim, cumprimentou-me com um aceno de cabeça simples.

Ela voltou na semana seguinte e na outra e na outra depois desta, sempre a meio da semana. Às vezes era terça-feira de manhã, outras quinta-feira à tarde, uma vez ou outra bem cedo numa segunda-feira. O dia mudava, mas a presença dela não falhava em nenhuma semana. Com o tempo, fui percebendo que podia contar com aquela visita todas as semanas, sem exceção, mesmo sem saber qual o dia exato em que ela ia aparecer pelo portão.

O jeito dela era sempre o mesmo. Entrava, ia direito ao túmulo do esposo, ficava lá um tempo, depois ia embora. Não trazia flores todas as visita, não ficava horas e horas, ficava o tempo que precisava e depois ia embora. Aprendi a não prestar atenção, ou pelo menos a fingir que não prestava. Mas a verdade é que eu sempre soube quando ela lá estava.

E cada vez que ela chegava e ficava parada em frente daquele túmulo, senti aquela mudança no lugar. Era uma coisa que eu sentia por dentro, difícil de nomear, como se o ar daquela parte do cemitério ficasse mais carregado quando ela estava ali, como se o lugar reagisse à presença dela de um modo que nenhum outro túmulo nunca tinha feito antes com qualquer outra pessoa.

Eu tentei ignorar durante um bom tempo, tentei encontrar uma explicação para aquilo, mas a sensação não desaparecia. Ela voltava sempre que aquela mulher voltava e em vez de enfraquecer foi ficando mais clara, mais difícil fingir que não estava ali. Com os meses, fui compreendendo que aquilo não era coisa que eu estivesse a inventar.

Havia algo naquele túmulo que respondia quando ela chegava. Não de uma forma que assustava-me. Era diferente. Era mais como se a presença dela acordasse alguma coisa que ficava a aguardar durante a semana inteira. e que estava ali guardada naquele local e que quando ela aparecia pelo portão aproximava-se. Ficava mais forte do que ficava nos outros dias da semana.

Eu nunca comentei nada com nenhum colega de trabalho. Não ia adiantar nada mesmo. Um coveiro dizendo que sente alguma coisa num túmulo específico cada vez que a viúva aparece para visitar o marido. Ninguém ia perceber [música] e eu sabia disso. Então fui guardando aquilo comigo, como sempre fiz com as coisas que não consigo colocar em palavras.

Desde novo Fui convivendo com aquela sensação semana após semana, mês após mês, sem dizer nada a ninguém. A presença dela no cemitério foi passando a fazer parte da rotina daquele lugar. Eu chegava de manhã, abria o portão, fazia o meu serviço do dia e, em algum momento dessa semana ela aparecia.

Cumprimentava-me quando os caminhos cruzavam-se pelo cemitério com educação e sem forçar conversa nenhuma. Era uma mulher muito reservada. O tempo foi passando, não sei dizer ao certo quanto, mas em algum momento, sem que eu notasse de imediato, as visitas dela foram mudando de ritmo. Ela que aparecia todas as semanas sem falhar, começou a demorar um pouco mais entre uma visita e outra. Uma semana passava a ser 10 dias.

10 dias se transformavam em duas semanas. E toda vez que ela reaparecia depois de uma ausência mais longa, olhava para ela e via que alguma coisa tinha mudado. O passo mais pesado, o corpo mais cansado, como se cada visita fosse custando mais do que a anterior. E mesmo assim ela vinha.

E cada vez que ela ficava na frente daquele túmulo, sentia a mesma coisa de sempre. aquela presença quieta que estava ali nos outros dias também, mas que ficava mais forte, como se tivesse todo o tempo do mundo para aguardar por ela. Eu não percebia o que era aquilo ainda, mas eu começava a entender que não era apenas a impressão minha.

Foi numa manhã de semana comum que a vi chegar. Eu não sabia que era a última. Eu estava do exterior do depósito, organizando as ferramentas do dia, quando levantei os olhos por instinto e reconhecia a figura dela no caminho de pedra. Mas alguma coisa era diferente. Ela não estava sozinha e estava numa cadeira de rodas.

Empurrando a cadeira de rodas, vinha uma mulher mais nova. Pela idade e pelo cuidado com que guiava a cadeira, imaginei que fosse a filha. A senhora estava sentada com as mãos no colo, deixando a filha guiar o caminho. Ela tinha vindo sempre sozinha, no mesmo passo de sempre. Vê-la naquela cadeira deteve-me por um instante. Eu baixei a cabeça e voltei ao que estava a fazer, mas eu acompanhei pelo canto do olho, enquanto as duas seguiam pelo caminho de pedra em direção ao túmulo.

A filha empurrava devagar, com cuidado, e colocou a senhora de frente para o túmulo do esposo. Eu não conseguia ver a expressão dela de onde eu estava, mas eu via a postura ereta, firme, como se mesmo na cadeira ela quisesse estar de pé diante dele. E, nesse dia, a sensação que sentia naquele túmulo estava diferente de tudo o que já tinha sentido antes.

Não era só o peso dos sempre, era mais intenso, mais próximo, como se o que quer que estivesse ali soubesse que aquela visita era diferente das outras. Eu tentei concentrar-me no serviço, mas a sensação ficou-me durante todo o tempo que estiveram no cemitério, pesada, presente, impossível de ignorar. Quando as duas foram embora, seguiram pelo caminho de volta ao portão.

A filha empurrava a cadeira com o mesmo cuidado que antes, devagar, sem pressas. E quando passaram pelo troço onde estava a trabalhar, a senhora virou o rosto na minha direção e olhou-me por um momento que durou mais do que todos os outros que me lembrava-se. E depois ela esboçou um sorriso. Era um sorriso de quem chegou a um lugar que estava à espera de chegar há muito tempo, como quem finalmente encontrou uma paz que tinha procurado a vida inteira.

Não soube o que fazer com aquilo. Correspondi com um aceno de cabeça, como sempre fazia quando ela passava por mim. Eu fiquei parado onde estava, a vê-las irem embora devagar, com uma sensação que nunca tinha tido antes, em todos os meus anos naquele cemitério. Não era tristeza, era uma coisa diferente, uma estranha leveza que veio de fora para dentro sem eu chamar.

Como se naquele segundo em que ela sorriu para mim, algo tivesse sido passado de um para outro sem palavras. Não sei descrever melhor do que isso. Só sei que quando desapareceram pelo portão, fiquei parado por um tempo sem conseguir voltar ao serviço normalmente. Fui trabalhar o resto do dia com aquilo na cabeça, o sorriso dela, a paz estranha que eu tinha sentido naquele segundo em que ela me olhou.

Eu já tinha visto muita coisa naquele cemitério durante todos estes anos, mas nunca tinha sentido nada assim. uma calma que não era minha, que tinha vindo de fora e que ficou comigo depois de ela ter ido embora pelo portão. Nos dias seguintes, fui trabalhar, esperando que ela aparecesse no meio da semana, como sempre fazia, [música] mas ela não veio.

A semana passou inteira sem que eu a visse entrar pelo portão. Por vezes, o intervalo entre as visitas tinha-se esticado por algum motivo, mas sempre ela voltava. Só que desta vez eu sentia que era diferente e a semana seguinte passou e a outra depois dela. E fui olhando para o portão toda a manhã, esperando ver aquela senhora aparecer pelo caminho de pedra, como sempre aparecia, mas ela não veio.

O setor C ficou quieto da maneira que ficava nos dias em que nenhuma família aparecia por ali. E aquele túmulo que eu sempre sentia-se diferente quando ela estava presente foi ficando com um silêncio que não sabia bem como interpretar. Era 12 de junho de 2001, dia dos namorados. Quando cheguei ao trabalho, fui até ao quadro onde estavam as ordens de serviço do dia e peguei no papel que lá estava.

Li o nome Nadir Alves Cunha, de 72 anos. Li o setor, li o número da campa e parei com aquele papel na mão, sem conseguir dar mais um passo durante alguns segundos. Era como se as letras no papel precisassem de um tempo para se encaixarem em tudo o que já sabia, mas não tinha admitido ainda.

Era o mesmo túmulo onde O esposo daquela senhora estava enterrado e aquele nome no papel era ela. Já li aquele papel mais de uma vez, como se a primeira leitura pudesse ter sido um engano, mas não era. O nome estava lá, o setor estava lá, o número do túmulo estava lá. Tudo igual ao que já sabia sem ter de confirmar. Eu dobrei o papel, guardei-o no bolso do fato-macaco e fiquei parado por um momento com a mão ainda no bolso.

Depois peguei as minhas ferramentas e fui fazer o que precisava de ser feito. Era o meu trabalho, era a única maneira que eu tinha de fazer alguma coisa por ela naquele momento. E queria que fosse feito da melhor forma possível, melhor do que qualquer outro serviço que já tinha feito naquele cemitério em todos estes anos.

Ela tinha vindo ali toda a semana durante todo aquele tempo sem falhar. Merecia isso e muito mais. Quando cheguei à frente do túmulo do Dirseu, Parei por um instante antes de iniciar o serviço. Não era hábito meu fazê-lo. Eu chegava sempre e começava sem demora nenhuma. Mas nesse dia parei, Fiquei a olhar para o nome na lápide por alguns segundos e senti que o local estava diferente de como costumava estar nos outros dias, como se algo estivesse mais presente do que o habitual.

A família começou a chegar perto do meio-dia. Eram poucas pessoas, igual ao enterro do Dirceu anos antes. Eu fiquei no meu canto de sempre, sem me aproximar de ninguém. Fiz o que tinha de ser feito sem interferir no momento dos mesmos. Era o que sempre fiz ao longo de todos os esses anos e nesse dia não ia ser diferente.

Desde que a família chegou, comecei a sentir alguma coisa que não conseguia identificar corretamente. Não era a pressão de sempre, aquela que eu tinha aprendido a reconhecer ao longo dos anos de trabalho naquele cemitério. era diferente desta, mais aberta, como se o espaço inteiro em redor daquele túmulo tivesse ficado carregado de uma forma que ia além do que já tinha conhecido em qualquer outro momento antes.

Eu continuei a trabalhar sem parar, mas eu estava a sentir cada minuto daquilo. O padre rezou, a família ficou reunida por um tempo à volta do caixão, em silêncio. O céu continuou fechado durante todo o velório, pesado, mas a chuva não chegou. Tinha um silêncio naquele cemitério que eu não sabia explicar direito.

Não era o silêncio normal de um dia de serviço comum. Era mais fundo, mais carregado de alguma coisa. Quando a família começou a ir embora, tenha começado a parte final do serviço, sem pressa nenhuma. O cemitério estava completamente quieto à volta de mim naquele momento. E foi nesse silêncio todo, quando estava sozinho com aquele túmulo, que a sensação começou a mudar de uma forma que eu não esperava.

Foi algo que cresceu aos poucos enquanto trabalhei, como se o lugar fosse fechando-se ao redor daquele túmulo, como se o ar fosse ficando mais denso perto de onde eu estava. Eu tentei continuar a trabalhar no mesmo ritmo de sempre, mas era impossível. Não era desconforto, era presença. Uma presença grande, próxima, que reconhecia pelo jeito, mas que nunca tinha chegado assim.

Eu continuei, assentei a terra, organizei tudo com cuidado, fui fazendo o serviço parte a parte, no mesmo ritmo de todos os outros dias. E a sensação foi crescendo em conjunto, lentamente, sem parar. Não me assustei, não larguei que estava a fazer. Aprendi cedo que a melhor resposta para este tipo de coisas era continuar ao serviço e deixar passar. Mas aquilo não estava a passar.

Eu sabia que estava ali da mesma maneira que sempre soube, desde a primeira vez que tinha posto a pá naquele túmulo anos atrás, quando estava quase a terminar o serviço, senti alguém ao meu lado, suficientemente próximo para eu sentir a presença sem ter de olhar. Eu parei e Fiquei sem mexer durante alguns segundos.

E depois virei-me devagar. Ela estava lá nadir de pé junto do túmulo, me olhando com o mesmo sorriso daquela última tarde em que a vi com vida. O mesmo sorriso calmo, inteiro, que ela tinha-me dado quando passou por mim pela última vez. Eu não me consegui mexer, não consegui falar. Fiquei a olhar para ela sem compreender e logo atrás dela, um pouco mais afastado, estava um homem.

Eu nunca tinha visto aquele homem em vida. Mas eu sabia exatamente quem era. Era o Dirceu. Era a presença que tinha ficado ali desde 1999, que tinha esperado semana após semana e que esteve ali o tempo todo. Eu não sei quanto tempo fiquei parado a olhar para eles os dois. Em algum momento as flores tinham caído da minha mão e eu não tinha percebido quando isso aconteceu.

Eu tentei mexer-me e não consegui de imediato. Sentei-me na beira do túmulo com cuidado, com as pernas que não me obedeciam direito, e fiquei ali parado durante um tempo que não consigo calcular com precisão nenhuma. Eu não rezei, não disse nada em voz alta, não sabia o que dizer, nem a quem dizer naquele momento.

Só fiquei ali sentado naquele cemitério, olhando para o túmulo, e tentei compreender alguma coisa que eu sabia, no fundo, que não tinha explicação nenhuma que eu pudesse colocar em palavras certas, nenhuma que fosse dar conta do que eu tinha visto com os próprios olhos. E passado um tempo levantei-me lentamente, recolhi as ferramentas com cuidado e fui-me embora.

Eu não tentei organizar o que tinha visto, não tentei encontrar uma explicação razoável para aquilo, não tentei convencer-me a mim mesmo de que tinha sido qualquer outra coisa. Só andei. Era o único modo que tinha de funcionar naquele momento. Depois de tudo. Eu sei o que vi naquele dia 12 de junho. Sei com uma certeza que não precisa de prova nenhuma.

E sei também que aquela presença que ficou naquele túmulo durante todos aqueles anos não estava ali presa. Estava esperando. Tem grande diferença entre uma coisa e outra. E naquele dia dos namorados de 2001, a espera acabou. Hoje Tenho 72 anos e aprendi ao longo de todo este tempo que não entendemos tudo o que acontece nesta vida.

Tem coisa que se torna maior do que a nossa capacidade de explicar. Eu acho que está tudo bem aceitar isso. O que eu vi naquele 12 de Junho de 2001 ensinou-me uma coisa que não aprendia em lado nenhum, que tem amor que não termina quando a gente morre, que há despedida que leva tempo para acontecer de verdade e que, por vezes, quem perdemos ainda está por perto à maneira dele, esperando o momento certo. Eu sei que o que vi era real.

Senti com o corpo todo, sem sombra de dúvida, e nenhuma explicação que eu já tentei dar a mim próprio ao longo desses vin e tantos anos conseguiu apagar o que vi naquele túmulo naquela tarde de junho. Se acredita que o amor vai para além do que os olhos conseguem ver, digita eu acredito aqui nos comentários.

Que Deus abençoe a todos vós e até ao próximo relato.