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O Fim de Fabrício Carobinha: Símbolos, Humilhação e a Guerra pelo Poder na Zona Oeste do Rio de Janeiro

No universo implacável do crime organizado, a humilhação do inimigo não se resume a derrotá-lo; ela exige a destruição de sua imagem, de sua honra e, sobretudo, de sua masculinidade. As facções cariocas, moldadas em um ambiente de violência extrema, frequentemente utilizam rituais de subjugação que são posteriormente propagados em redes sociais para enviar mensagens claras de poder e intimidação. Um dos casos mais emblemáticos dessa prática sombria ocorreu em 2016, tendo como protagonista Fabrício Carlos dos Santos Silva, um miliciano temido na Zona Oeste do Rio de Janeiro, conhecido por todos como Fabrício Carobinha. As imagens perturbadoras que antecederam sua execução—onde aparece com uma chupeta na boca, cercado por membros armados da facção Amigos dos Amigos (ADA)—não são um ato aleatório de deboche, mas um ritual calculado de emasculação e terror. Para compreendermos o peso dessas imagens e o desfecho de Fabrício, é necessário mergulhar no contexto de guerra territorial que sangrou o Rio de Janeiro naquela década, detalhando os atores, as facções e o código de conduta invisível, mas inquebrantável, que rege as relações no submundo do crime.

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O Tabuleiro Sangrento: A Ascensão e Luta da ADA em 2016

O ano de 2016 foi um período de extrema instabilidade na geopolítica do crime carioca. A facção Amigos dos Amigos (ADA), que no passado havia sido uma das mais poderosas do estado, lutava desesperadamente para manter seus territórios. Formada no final dos anos 90 por figuras notórias como Celso Luiz Rodrigues (Celsinho da Vila Vintém), Ernaldo Pinto de Medeiros (Uê, apontado como o algoz de Orlando Jogador do Comando Vermelho) e Paulo César Silva Santos (o “Linho”), a ADA sempre se caracterizou por ter uma estrutura burocrática organizada e, segundo relatos de investigações policiais da época, fortes contatos institucionais. Enquanto facções rivais apostavam na truculência desenfreada e midiática, a ADA, durante seus anos de glória, operava muito mais nos bastidores. A sigla “ADA” carregava o peso da liderança de Linho, e, mesmo após seu misterioso e ainda não resolvido desaparecimento nos anos 2000, o “Faz o L” (que significa “Faz o L do Linho”) permaneceu como um símbolo de respeito e devoção entre os membros da facção.

No entanto, o cenário havia mudado drasticamente. A partir de 2010, a política estadual de Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs) desestruturou a economia ilegal de diversas favelas, forçando o Comando Vermelho (CV), o Terceiro Comando Puro (TCP) e a ADA a migrarem ou lutarem por novos espaços. Em 2015, a ADA sofreu um golpe devastador com a morte de Celso Pinheiro Pimenta, o Playboy, um de seus líderes mais carismáticos e violentos, que comandava o Complexo da Pedreira. Com a morte ou prisão de seus principais chefões, a ADA perdeu terreno para o Comando Vermelho, que se agigantava em um projeto de expansão, e para o Terceiro Comando Puro, que ampliava seu poderio bélico. Encurralada entre facções maiores, a ADA voltou seus olhos para a Zona Oeste do Rio, uma região vasta que começava a ser dominada por grupos paramilitares, as chamadas milícias. Foi nesse contexto de guerra assimétrica, de facção tentando recuperar terreno contra grupos milicianos locais, que o caminho dos traficantes da ADA cruzou com o de Fabrício Carobinha.

O Alvo: Fabrício Carobinha e a Reputação de Violência

Na região de Carobinha, pertencente ao bairro de Campo Grande, na Zona Oeste, Fabrício Carlos dos Santos Silva construiu sua reputação. Ao contrário da visão idealizada que alguns grupos milicianos tentavam projetar—a de “defensores” da comunidade contra os traficantes—, o perfil de Fabrício era, segundo os relatos e investigações da época, marcado pela brutalidade e pela extorsão. Testemunhas e moradores que vivenciaram seu domínio o descreviam como um indivíduo implacável, que não fazia distinção entre criminosos rivais e cidadãos comuns. O código não escrito do crime prega, em teoria, que o “morador não se atinge”, uma regra de convivência básica para manter a economia local e evitar a revolta popular. Fabrício Carobinha, entretanto, colecionava acusações de desrespeito a essa regra fundamental, impondo taxas, castigos físicos e terror psicológico à população trabalhadora sob seu domínio.

Vídeo:

A guerra silenciosa entre a ADA e as milícias na Zona Oeste caracterizava-se por retaliações mútuas: a ADA executava um miliciano, a milícia respondia eliminando um traficante, em um ciclo interminável de vinganças. A escalada do conflito atingiu seu ápice quando, em uma de suas ações, Fabrício Carobinha assumiu a responsabilidade por tirar a vida de um membro importante da facção Amigos dos Amigos. No mundo do crime, um ato dessa magnitude não passa despercebido e exige uma “cobrança”. A ADA, precisando demonstrar força em um momento de vulnerabilidade no estado, não poderia deixar o ato impune. O grupo miliciano de Fabrício, menor e com menos alcance logístico do que o “exército” de uma facção histórica, tornou-se o alvo primordial de uma caçada. O objetivo não era apenas o assassinato de Fabrício, mas a transformação de sua captura em um espetáculo de poder que enviasse um recado a todas as milícias que ousassem desafiar a facção.

A Estética do Terror: O Vídeo e a Destruição da Honra

Quando os membros da ADA finalmente conseguiram capturar Fabrício Carobinha, o roteiro da execução já estava desenhado. No ano de 2016, a disseminação de smartphones e a popularização do aplicativo WhatsApp forneceram às organizações criminosas uma ferramenta poderosa e incontrolável de propaganda pelo medo. Inspirados de forma sinistra pela estética empregada por cartéis mexicanos e pelo grupo terrorista Estado Islâmico, traficantes cariocas começaram a produzir vídeos curtos, porém de extrema violência psicológica e física. A mise-en-scène era clara: capuzes, rostos ocultos por balaclavas, armas pesadas apontadas para a cabeça da vítima e, o mais importante, a encenação de um tribunal paralelo onde a sentença de morte era antecedida pela completa degradação moral do condenado.

O vídeo da captura de Fabrício Carobinha, que rapidamente vazou para grupos policiais e de jornalismo investigativo, ilustra a aplicação dessa técnica. Ele é colocado diante das câmeras, sob a mira de fuzis e insultos, mas o detalhe que destoa do padrão esperado—e que foi o mais humilhante para o prisioneiro—é a imposição de uma chupeta em sua boca. Os captores forçam-no a falar usando o acessório infantil e o obrigam a olhar para a lente. “Aí o bundinha aí, ó. Bundinha vai virar agora o quê, mano?”, provoca um dos executores, evidenciando o uso contínuo de termos pejorativos.

Os criminosos da ADA obrigam Fabrício a confessar seus atos de “covardia”, não para a facção, mas para a comunidade: “Pede desculpa ao morador, morador”, grita um dos captores. Visivelmente aterrorizado, o miliciano obedece e repete as falas impostas pelos assassinos: “Desculpa, morador, pela covardia. Eu sou o Fabrício. Miliciano. Da Carobinha. Vacilão de primeira”. Para selar o ritual, ordenam que ele faça o símbolo da facção inimiga, e não há interpretações políticas aqui; quando mandam Fabrício “fazer o L”, referem-se à saudação ao fundador desaparecido da facção, o Linho, obrigando-o a prestar reverência aos mesmos homens que iriam matá-lo. A chupeta e as palavras de submissão não eram apenas brincadeiras de mau gosto, mas a execução simbólica antes do disparo fatal.

O Papel da Masculinidade no Tribunal do Crime

Para analisar o caso Carobinha com o devido rigor jornalístico, é imperativo compreender a profunda correlação entre poder e masculinidade no ambiente do crime. Dentro de uma facção ou milícia, a autoridade não deriva do respeito cívico, mas da capacidade de impor medo, e esse medo é indissociável da performance de uma masculinidade violenta, agressiva e insensível. Demonstrar qualquer sinal de fraqueza, submissão ou “feminilização” equivale à perda instantânea do direito à vida e à honra. Curiosamente, esse código machista aplica-se até mesmo às mulheres que ingressam na criminalidade—figuras conhecidas do noticiário policial fluminense sempre adotaram posturas extremamente masculinizadas e letais para serem levadas a sério nos altos escalões do tráfico.

No ritual de humilhação, desconstruir essa imagem de masculinidade é a punição suprema. Quando os traficantes introduzem o termo “bundão” ou utilizam o nome “chupeta”—que possui diversas conotações pejorativas no jargão adulto e criminal para inferiorizar o indivíduo perante a sexualidade heteronormativa—, eles o destituem do status de “guerreiro”. A lógica é perversa e explora o preconceito social: ao reduzir um homem que matava com frieza a uma posição de “menininha”, como costumam insultar no jargão criminoso, a ADA anula a lenda de Fabrício Carobinha. O vídeo de sua captura atua como um troféu de caça psicológico. A mensagem é endereçada não apenas à milícia que ele representava, mas a qualquer um que visualizasse o vídeo no WhatsApp: “Não importa quão temido você seja, nós somos capazes de reduzi-lo a nada”. Esse tipo de emasculação já havia sido visto em outros casos infames do estado, como o assassinato de inimigos obrigados a simular atos sexuais com armamentos antes de serem executados.

O caso de Fabrício Carobinha serve como um sombrio retrato da evolução da violência no Rio de Janeiro. A disputa entre milícias e facções de tráfico ultrapassou, há muito tempo, o mero controle territorial ou o domínio de negócios ilícitos, transformando-se em um conflito sádico pela imposição do terror através da mídia digital. Embora a facção Amigos dos Amigos (ADA) tenha se fragmentado significativamente nos anos subsequentes—sendo absorvida em grande parte pelo Terceiro Comando Puro (TCP) após cisões e traições internas—, o vídeo de Fabrício permanece nos arquivos da história criminal fluminense como uma evidência inegável do modus operandi do poder paramilitar e traficante. O triste fim de Fabrício Carobinha é a consumação de um pacto letal onde a humilhação do corpo precede a morte física, um ciclo brutal que continua a vitimar a sociedade do Rio de Janeiro.

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