Ela era tratada como serva pelos próprios irmãos, até que o barão notou o medo nos olhos dela ao
Era tratada como serva pelos próprios irmãos, até que o forasteiro notou o medo nos olhos dela ao ver o chicote. O sol no sertão do Pageu não nasce, ele agride. Antes mesmo do primeiro raio de luz furar as fendas das telhas de barro da quinta gameleira, Maria já estava de pé. O chão frio de terra batida sob descalços era o seu único bom dia.
Maria tinha o rosto moldado pela delicadeza que a vida bruta não conseguiu levar, mas os seus olhos. Ah, Os olhos de Maria eram como duas jabuticabas escondidas sob uma névoa de medo constante. Desde que o velho coronel se fora, deixando a quinta nas mãos dos dois filhos varões, Juvêncio e Salustiano, a Casagre transformou-se em uma prisão sem grades para a irmã mais nova.
Maria, a água do café está a demorar porque estás a desenhar na cinza do fogão de novo. É o grito de Juvêncio veio do alpendre, grosso como um trovão de seca. Já vai, Juvêncio. Tocoando respondeu ela, a voz um fio de seda quase inaudível. Naquela casa, Maria não era irmã, era o braço que moía, o lombo que transportava o feixe de lenha e o alvo do rancor dos irmãos que culpavam pela morte da mãe no parto.
Eram homens feitos de espinhos de mandacaru. Salustiano, o mais novo dos dois, tinha o vício do jogo e o temperamento curto. transportava na cintura um chicote de couro cru, a cauda de tatu, que utilizava para educar os cães e quando ninguém estava a olhar para fazer Maria andar mais depressa.
Naquela manhã, um pormenor era diferente, um cheiro a chuva distante e o som dos cascos ferrados que não pertenciam aos animais da quinta. Um forasteiro aproximava-se, montava um cavalo baio de porte nobre, mas o homem parecia cansado, coberto pela poeira avermelhada de léguas de estrada. Parou diante da porteira, ajeitou o chapéu de feltro e pediu pousada.
“Bom dia aos senhores”, disse o homem com um sotaque que não era dali, mas carregava o respeito de quem conhece o chão que pisa. O meu nome é Samuel. Venho do sul da Bahia subindo o rio. O cavalo precisa de um descanso e eu de um gole de água. Juvêncio, sempre de olho em quem tinha boa montaria, aceitou a presença do estranho, já a pensar em como tirar partido.
Samuel foi convidado a sentar-se à mesa exterior. Maria veio trazer a caneca de Ágatha. No momento em que ela se aproximou, o vento soprou a porta da cozinha com força, batendo-a contra a parede. O susto foi imediato. A Maria não apenas saltou, ela se encolheu, deixando cair um pouco de café no chão de tijolo.
Salustiano, que estava encostado ao pilar, soltou uma gargalhada seca e desembanhou o chicote da cintura apenas para o limpar, num gesto automático de intimidação. Ea, bicha desastrada. Salustiano deu um estalido curto no ar com o chicote. O som foi como um tiro. Samuel, que levava a caneca à boca, travou o movimento. Ele não olhou para o chicote.
Ele olhou para os olhos de Maria. Ele viu a pupila dela dilatar, viu os ombros subirem até às orelhas e, durante um milésimo de segundo viu a mão dela tremer tanto que a caneca quase caiu outra vez. Era um medo que não vinha de um susto de porta a bater. Era o medo de quem conhece o beijo do couro na pele.

“A miúda está nervosa, patrão?”, perguntou o Samuel. A voz agora um tom mais grave, os olhos fixos em salustiano. É o jeito dela, besta igual às ovelhas que pastoreia, desdenhou o Juvêncio. Maria, limpa essa sujidade e volta para o tanque. Tem roupa de um mês para lavar. Maria baixou a cabeça, mas antes de sair, os seus olhos cruzaram-se com os de Samuel.
Pela primeira vez em anos, ela não viu desprezo. Viu uma pergunta silenciosa, uma centelha de proteção que ela nem sabia que existia no mundo. “O senhor é domador?”, perguntou Salustiano, reparando nas mãos calejadas de Samuel. “Sou?”, respondeu Samuel, sem desviar o olhar do caminho por onde Maria tinha desaparecido. Mas eu sóo o que é bravo por natureza, o que é manso e foi quebrado pela maldade.
Isso eu não domo, isso eu curo. O clima na mesa arrefeceu instantaneamente. Juvêncio sentiu o desafio, mas o brilho de uma moeda de prata que Samuel colocou sobre a mesa para apagar a água acalmou os ânimos. Nessa noite, a Maria foi para o quartinho das traseiras, o corpo moído de tanto esfregar roupa.
Ela olhou para a pequena fresta da janela e viu lá o Samuel fora, cuidando do cavalo sob o luar de prata. Ele assobiava uma canção triste, mas bonita. De repente, a porta do quarto da Maria abriu-se. Era salustiano, com o hálito a cheirar a aguardente e o chicote na mão. Tu andaste olhando demasiado para o forasteiro, não foi a sua sonça? Acha que alguém lhe vai tirar daqui? Ele levantou o braço.
Maria fechou os olhos, esperando o impacto da sempre, mas o impacto não veio. Em vez disso, ouviu-se um baque seco e um gemido de dor. Quando Maria abriu os olhos, a mão de Samuel segurava o pulso de Salustiano com a força de uma prensa de ferro. O forasteiro estava ali na penumbra, vindo do nada com uma expressão que faria o próprio diabo pedir desculpa.
No meu país. Homem que usa isto em mulher não morre de velho”, sussurrou Samuel, a voz fria como o sereno do sertão. O silêncio que se seguiu ao estalido do pulso de Salustiano foi mais pesado que um saco de sal nas costas. Salustiano, habituado a ser o carrasco daquelas terras, tentou puxar o braço, mas a mão de Samuel era como uma raiz de jurema, profunda e inabalável.
“Me solta, seu cabra. Tu não sabes onde tá metendo o bico”, rosnou Salustiano, o rosto vermelho de fúria e vergonha. Samuel não largou. Em vez disso, apertou mais um pouco, fazendo com que os dedos do agressor fraquejarem. e o chicote cair no chão de terra batida. O som do couro atingindo o solo pareceu a Maria o som de uma corrente a partir.
“Sei exatamente onde estou”, disse Samuel, a voz baixa, vibrando como um trovão distante. Estou em casa de um homem que se esqueceu do que é ser gente. Se esse couro relar nela de novo enquanto Eu estiver sob este tecto, juro, pelas contas do meu terço que vais aprender o que é ser domado. Juvêncio, ouvindo o alvoroço, apareceu à porta com um candieiro na mão.
A luz amarelada dançou nas paredes, revelando a cena. Era mais frio que o irmão. Não partiu para a luta, mas os seus olhos eram duas fendas de veneno. O que é? O hóspede quer agora ditar as regras da família. Juventou a voz mansa e perigosa: “Solta, meu irmão forasteiro. O que acontece entre nós e a nossa irmã é assunto de sangue, e sangue resolvemos no quintal.
” Samuel largou Salustiano com um empurrão desprezível. “O sangue de irmão protege. Não sangra”, retorquiu Samuel. Olhou para Maria, que continuava encolhida a um canto, tremendo como uma folha de juazeiro em dia de vendaval. Vá dormir, menina. Ninguém entra neste quarto hoje. Samuel caminhou até ao alpendre e, em vez de ir para o seu catre, sentou-se na rede que Juvênci lhe cedera, mas não se deitou.
puxou de uma faca de cabo de osso e começou a descascar uma lasca de madeira, os olhos fixos na escuridão do mato, ele era a sentinela. No dia seguinte, o clima na gameleira era de guerra declarada. Juvêncio e Salustiano coxixavam nos cantos, lançando olhares de soslio para Samuel. Maria, pela primeira vez em anos, sentiu uma estranha coragem.
Ao levar o prato de cuscuz para Samuel no alpendre, ela sussurrou sem levantar a cabeça: “O Senhor devia ir-se embora. Eles são maus como cobra Cascavel. Vão emboscar-lhe. Samuel pegou no prato, mas tocou ligeiramente na ponta dos dedos de Maria. Foi um toque rápido, mas elétrico. Eu já vi muita cobra, Maria. E sabe o que eu aprendi? Que a cascavel avisa antes de picar.
O perigo é o bicho homem que se finge-se de santo. Ele deu uma garfada no cuscuz e soltou um riso curto, tentando quebrar a tensão. E este cuscuz aqui tá demasiado bom para eu largar e ir embora com fome. Se eu morrer, pelo menos morro de bucho cheio e há alma lavada por ter visto o seu rosto sem aquele medo todo. Maria soltou um sorriso tímido, um clarão de beleza que lhe iluminou o rosto sofrido por um segundo.
Mas a paz durou pouco. À tarde, Juventou Samuel para o curral. Forasteiro, disseste que cura o que foi partido, não foi? Tem um cavalo ali, o alazão negro. O bicho é o demónio em forma de bicho. Matou um peão mês passado. Se o domar, eu te dou-lhe uma bolsa de moedas e você segue o seu caminho em paz.
Senão Juventu de ombros com um sorriso cínico. Ora, o cemitério da aldeia tem muito espaço para quem se julga um herói. Era uma armadilha clara. O cavalo era conhecido na região por estar amaldiçoado. Mas Samuel viu Maria a espreitar por trás da cerca, os olhos cheios de angústia. Ele sabia que se se fosse embora ou se mostrasse cobarde, o chicote de Salustiano voltaria a estalar nas costas dela com o dobro da força como vingança.
“Eu aceito o desafio”, disse Samuel, tirando o chapéu e o colete. “Mas não Quero as suas moedas. Se eu domar o bicho, quero que a Maria seja livre para ir comigo até à feira da cidade, sem ninguém atrás”. Os irmãos riram alto. Leve a estrupício para onde quiser desdenhou Salustiano. Mas primeiro sobreviva ao alazão.
O curral foi fechado, o animal foi libertado. Era uma fera de músculos negros e olhos injetados de sangue. Samuel entrou na arena apenas com uma corda e um ramo de arruda no bolso. O povo da quinta se amontoou-se na vedação para ver o massacre. Maria apertou as mãos contra o peito, rezando a todos os santos do sertão. O cavalo avançou como um raio, empinando e soltando um relincho que parecia um grito humano. O Samuel não correu.
Ele ficou parado, aguardando o momento exato, sussurrando palavras que ninguém conseguia compreender. Uma língua antiga de quem entende o coração dos bichos. No clímax da luta entre o homem e a fera, algo inesperado aconteceu. O cavalo parou a centímetros de Samuel, bufando, a espuma branca a voar. Samuel estendeu a mão lentamente e tocou no focinho do animal.
O bicho tremeu, mas não atacou. “Calma, maldito”, murmurou Samuel. “Eu sei o que fizeram consigo. Eu também já fui marcado. A plateia emudeceu, mas no momento de maior silêncio, um brilho metálico veio de cima da vedação. Salustiano, vendo que Samuel teria sucesso, puxou uma pequena faca de arremesso, pronto a ferir o cavalo e fazer o bicho espezinhar o forasteiro.
“Cuidado!”, gritou a Maria, atirando-se contra a vedação para desviar o braço do irmão. O grito de Maria ecoou pelo curral, como o canto de uma siriema avisando a tempestade. Ao atirar-se contra o braço de Salustiano, ela conseguiu desviar a trajectória da faca, que se cravou na madeira do poste a poucos centímetros da orelha do cavalo.
O alasão negro deu um solavanco, mas Samuel, com uma agilidade de gato, manteve a mão firme no focinho do animal, acalmando-o com um assubio baixo e constante. O perigo ali já não era o cavalo. Salustiano, cego de ódio, por ter sido impedido por uma fêmea debaixo do seu pé, virou-se para Maria com o rosto transfigurado. Sua infeliz, tiveste a coragem de levantar a mão a quem te deu de comer? Ele desferiu uma bofetada violenta que atirou Maria para o chão empoeirado.
Desta vez, porém, algo mudou. A Maria não se encolheu. Ela caiu, mas levantou o rosto, o lábio cortado, a sangrar um fio de rubi, e olhou o irmão nos olhos com um desprezo que Salustiano nunca tinha visto. O medo, aquele véu que cobria os olhos dela, tinha sido rasgado pelo desespero de salvar Samuel. Pode me bater? Salustiano”, disse ela a voz firme, embora trémula.
“Mas o senhor é pequeno. O senhor só é homem quando tem um chicote na mão e o outro está amarrado.” Samuel saltou acerca do curral com uma explosão de força que fez Juvent. Ele não foi até Salustiano, foi até Maria, ajudou-a a levantar-se, limpando o sangue do rosto dela com o polegar. O toque era suave, mas o olhar que ele lançou aos irmãos era de morte.
“O trato foi feito”, disse Samuel, a voz tão gelada que parecia congelar o mormaço do meio-dia. “O cavalo está domado e a rapariga vai comigo agora. Ela não vai a lado nenhum”, berrou Salustiano, avançando para recuperar a sua faca no poste. “Maria é posse da gameleira. Maria não é posse de ninguém que não seja de Deus.
Samuel deu um passo em frente, cobrindo o corpo de Maria com o seu Juvêncio. Você é o mais velho. É o que tem o juízo que ficou nessa casa. Escolha já. Ou a gente sai em paz, ou eu transformo este pátio num altar de sacrifício. E garanto ao Senhor, não vim sozinho ao mundo. Juvent olhou para o alazão negro, que pastava agora calmamente as maceegas do curral, e depois para Samuel.
Ele sentiu que o forasteiro não era um simples peão. Havia nele uma autoridade, algo que cheirava a pólvora e a segredos antigos. Deixe a desgraçada ir Luustiano! ordenou juví contrariado. Ela só dá despesa. Se o forasteiro quer carregar esse fardo, que carregue. Mas se voltar a pisar essas terras, não tem conversa, é bala.
Samuel não esperou uma segunda ordem. Ele caminhou até ao quartinho da Maria. Pegue no que é seu, Maria. Só o que for realmente seu. A Maria entrou no quarto e saiu segundos depois. Não trazia roupa nem jóias. trazia apenas uma pequena trouxa de pano e um rádio velho a pilhas que fora de seu pai. “Não há aqui nada meu, Samuel”, disse ela, olhando para a casa grande pela última vez.
“O que era meu, queimaram ou partiram? O que sobrou está aqui dentro.” E apontou para o próprio peito. Montaram no baio de Samuel. Maria ia na garupa, segurando na cintura do homem, que em menos de dois dias tinha virado o seu mundo do avesso. Enquanto o cavalo se afastava sob o sol poente, Salustiano gritou do alpendre: “Vais voltar de joelhos, Maria.
O mundo lá fora morde mais forte que o meu chicote.” Maria não olhou para trás. Ela encostou o rosto às costas largas de Samuel e sentiu pela primeira vez na vida o cheiro da liberdade, um [pigarreia] cheiro que misturava suor de cavalo, couro curtido e esperança. Viajaram em silêncio por algumas léguas até chegarem a um lajeado de pedra, onde um riacho ainda insistia em correr.
Samuel parou para darem de beber ao animal. “Porque é que o Senhor fez isto?”, perguntou Maria. sentando-se na pedra fria. O senhor não me conhece. Eu sou apenas uma estrupício de beira de estrada eu, como dizem. Samuel sentou-se ao lado dela e, com um toque de humor que Maria não esperava, tirou um pedaço de rapadura do bolso e dividiu-o ao meio.
No sertão, Maria, conhecemos a árvore pelo fruto. Eu vi o que fizeste no curral. Atirou-se para a frente de uma faca por um estranho. Quem faz isto não é estrupício, é rainha que estava sem coroa. Ele sorriu, o sotaque baiano saindo mais cantado. E, além do mais, eu estava a precisar de alguém para me ajudar a compreender as estrelas daqui.
Dizem que no Pageu brilham mais forte para quem tem a alma limpa. Maria riu. Uma gargalhada curta, meio enferrujada, mas genuína. E, por momentos, a fome e a o cansaço desapareceram, mas a paz durou pouco. No horizonte, vindo da direção da quinta, uma nuvem de pó começou a subir. Eram três cavaleiros. Eles não o iam deixar ir tão fácil, Maria! Disse Samuel, levantando-se e ajustando a fivela do cinto, onde se encontra uma pistola de cabo madre pérola brilhava.
Salustiano não aceita perder o brinquedo. Samuel, fuja, pediu ela em pânico. Fugir é para quem deve, Maria. Eu só estou a cobrar uma dívida que o destino se esqueceu de pagar. Fique atrás daquela pedra e não saía por nada. A poeira que subia no horizonte não era apenas terra, era o rasto do ódio. Salustiano vinha na frente, seguido de dois capangas de confiança da gameleira, sujeitos de cara fechada e alma vendida por um prato de comida e um gole de cachaça.
Samuel empurrou Maria para trás da grande pedra de granito. O sol estava pondo-se, tingindo o céu de um vermelho tão intenso que parecia que o sertão estava a sangrar. “Samuel, por favor! São três”, sussurrou Maria, as mãos trémulas segurando o braço dele. Samuel deu-lhe um ligeiro toque na mão, um gesto de calma que contrastava com o aço que brilhava nos seus olhos.
Pois conte direito, Maria. São três homens pequenos, e o pequeno quando se junta em bando, é porque o medo é maior do que a coragem. Reze um fato de ave Marias e deixe que o resto eu converso com o destino. Os cavaleiros pararam a 10 m de distância, fazendo com que os cavalos relincharem e levantarem ainda mais pó. Salustiano desceu do animal com uma espingarda e o enchester em punho.
Achou que ia levar a herança do meu pai assim de graça, forasteiro? Gritou Salustiano, cuspindo para o chão. A Maria não é só braço para trabalho. O velho deixou um cofre que só abre com o sinal de quem tem o sangue dele. E eu não te vou deixar levar a chave do meu ouro. Maria, atrás da pedra arregalou os olhos. Que herança, que cofre! O pai nunca falara de ouro, apenas de dívidas e terra seca.
Samuel deu um passo em frente, as mãos relaxadas ao lado do corpo, mas perto da pistola. Então é isto, Salustiano. Não é pela irmã, nem pela honra. É por um punhado de metal que quer matar? O cofre que o seu pai deixou não tem ouro, seu infeliz. Tem a verdade, e a verdade dói mais que uma bala de espingarda.
Cala a boca. Saluciano apontou a arma para o peito de Samuel. Entregue a rapariga e deixo-te correr até à divisa. Recusa e eu enterro-te nesse lageado agora mesmo. Samuel soltou uma gargalhada que arrepiou até os cabelos dos capangas. Não tem pontaria para me acertar, Salustiano. O seu braço treme porque o couro que usou na Maria agora pesa-lhe no pulso.
Num movimento mais rápido do que o olho humano conseguia acompanhar, Samuel não puxou da arma. Ele assobeiou, um assobio agudo, longo, que rasgou o silêncio do crepúsculo. De repente, das sombras das caingas ao redor não vieram tiros, mas pedras. Pedras certeiras. Lançadas por fundas, atingiram os capangas e a espingarda de Salustiano.
Os cavalos, assustados por um som de chocalho que surgiu do nada, empinaram. “Que raio é isto?”, gritou um dos capangas a cair da montada. Quatro vultos saíram do mato. Eram homens vestidos de cabedal, com chapéus de aba partida, rostos curtidos pelo sol. Não eram cangaceiros, mas pareciam fantasmas do sertão. Samuel, meu irmão, demoras muito para resolver as coisas, disse um dos homens, um senhor de barbas brancas e olhos faiscantes.
Samuel sorriu para os companheiros. Eu queria ver se este tinha salvação, Mestre Elias, mas vi que o seu coração é só oco. Salustiano, desarmado e cercado, caiu de joelhos. O cobarde que mora dentro de todo o tirano apareceu. Não matem-me. Eu sou o dono da gameleira. Samuel caminhou até ele, pegou na espingarda do chão e partiu-o com um golpe seco na quina da pedra.
Depois olhou para a Maria, que saía de trás do esconderijo, boca e aberta. Maria, estes são os meus companheiros. Eu não sou um simples domador. Eu fui mandado pelo seu verdadeiro padrinho, o homem que o seu pai confiou antes de morrer para te tirar daquela cova de lobos. Samuel se aproximou-se dela e tirou do pescoço um cordão que estava escondido sob a camisa.
Na ponta estava uma chave de bronze antiga. O seu pai sabia que os seus irmãos eram a ruína. Ele não deixou ouro. Deixou a posse legal das terras para ti, Maria, mas só para você. Juventustiano são apenas administradores que perderam o direito no dia em que o primeiro chicote estalou. A Maria sentiu as pernas fraquejarem.
A estrupício, a serva, a menina do quarto de terra, era a dona de tudo. “Eu não quero terra, Samuel”, disse ela, as lágrimas finalmente descendente, quentes e libertadoras. Eu só queria que alguém me amasse sem me bater. Samuel chegou perto, ignorando os homens e o inimigo no chão. Ele tocou o rosto de Maria com uma ternura que parecia curar cada cicatriz invisível da alma dela.
Pois agora tem as duas coisas, Maria. Tem a terra para plantar a sua vida e tem a proteção de quem nunca vai deixar uma sombra chegar perto do o seu sorriso. Ele virou-se para Salustiano. Vai-se embora. Diga ao Juvêncio que a dona da gameleira está a regressar, mas ela não vem para ser servida. Ela vem para libertar quem escravizaram.
Se eu vir o vosso rosto na região após o nascer do sol, a conversa não será com pedras, será com o ferro. Salustiano e os capangas fugiram a pé, tropeçando na própria sombra. Naquela noite, sob o céu do sertão, Maria jantou com Samuel e os seus amigos à volta de uma fogueira. O clima era de festa, mas Samuel estava quieto, observando Maria rir com as histórias do Mestre Elias.
“No que estás a pensar, Samuel?”, perguntou ela e aproximando-se. No capítulo cinco brincou com aquele sotaque gostoso. No dia em que vai entrar naquela casa grande, não pela porta das traseiras, mas pela frente, com a cabeça erguida como a rainha que eu sempre soube que era. Mas Maria reparou num detalhe.
Samuel estava a limpar a sua pistola de Madre Pérola com um cuidado excessivo. “A guerra ainda não acabou, pois não?”, ela perguntou, a voz ficando séria. Juvêncio é mais inteligente do que o irmão Maria. Ele não vai fugir. Ele vai chamar reforços. Vai chamar o coronel das sombras, o silêncio que se abateu sobre a fogueira após a menção do coronel das sombras.
Foi tão profundo que foi possível ouvir o estalar das brasas como se fossem ossos a partir. Maria olhou para Samuel, procurando o conforto de antes, mas viu que até o rosto do seu protetor tinha-se tornado uma máscara de pedra. “Quem é este homem, Samuel?”, perguntou Maria, com a voz trémula. O Mestre Elias, o velho de barbas brancas, foi quem respondeu enquanto ajeitava o punhal à cintura.
O coronel das sombras é o que resta do que o sertão tem de pior, a minha filha. Ele é um homem que não tem terra, mas é dono da alma de quem deve. Juventus sempre teve dívidas de jogo com ele. Se o seu irmão perdeu a posse da quinta para si, ele perdeu o que usaria para pagar ao coronel. E o coronel não aceita um não como resposta.
Nessa noite, a Maria não dormiu. Ela ficou sentada ao lado de Samuel, observando a lua de prata esconder-se atrás das nuvens carregadas. O cheiro de chuva era mais forte, mas não era a chuva que traz vida, era a chuva que lava o sangue da terra. Samuel chamou ela baixinho. Eu não quero que ninguém morra pela minha causa.
Se é para haver guerra, eu prefiro voltar a ser serva. Samuel se virou-se para ela, os olhos brilhando no escuro. Maria, escuta bem o que eu vou lhe dizer. Passou a vida achando que o chicote era o seu destino, mas o chicote só dói a quem se cala. Se a gente baixar a cabeça agora, o Coronel das Sombras não vai só levar a quinta, ele vai levar a alma deste povo.
Eu não Estou aqui por terra, Maria. Eu estou aqui porque vi em ti a força que o sertão esqueceu-se que tinha. Ao amanhecer, o grupo partiu de volta para a quinta gameleira, mas não foram escondidos. O Samuel fez questão de ir pela estrada principal, com Maria montada no alazão negro, que agora a seguia como se fosse um cão fiel.
Estava vestida com um gibão de couro que Elias lhe dera, e o seu cabelo, antes despenteado, estava apanhado numa trança firme. Ela já não parecia a órfã maltratada, parecia uma guerreira de cainga. Quando avistaram a porteira da gameleira, o cenário era de arrepiar. Não havia gado a pastar. No alpendre, O Juvencio estava sentado a fumar um palheiro.
Ao lado dele, um homem alto, vestido inteiramente de preto, com uma capa que arrastava no chão e um chapéu de abas largas que escondia o rosto. Era ele, o coronel das sombras. Ao redor da casa, pelo menos 10 homens armados com espingardas e escopetas esperavam. Samuel parou o cavalo a uma distância segura. Juvêncio, gritou.
A dona da casa chegou. Peça aos seus cães para baixarem as armas e saia com o que lhe resta de dignidade. Juvêncio deu uma gargalhada seca e olhou para o homem de negro. O coronel das sombras deu um passo em frente. Quando levantou o chapéu, Maria sentiu o sangue gelar. Ele tinha uma cicatriz que lhe atravessava o rosto, mas os seus olhos eram idênticos aos dela.
Maria. A voz do homem era um sussurro rouco. Cresceste a cara da tua mãe, aquela ingrata que preferiu um lavrador de beira de estrada a um homem de poder como eu. O que é que você tá a dizer? Gritou Maria, sentindo o mundo a girar. O seu pai, Maria, o homem a quem chamavas pai, só te criou por obrigação”, disse o coronel com um sorriso cruel.
“Você é fruto de uma fuga. A sua mãe pertencia-me e agora tu e essa terra regressam a quem manda no sertão.” Samuel sentiu o choque de Maria e rapidamente se colocou à frente dela. “Ela não lhe pertence, nem a ninguém. Ela é livre. Livre no sertão não há liberdade, rapaz. Há sobrevivência, disse o coronel, fazendo um sinal com a mão.
Matem o forasteiro. Tragam a menina viva. O primeiro tiro partiu de cima do telhado, mas o Mestre Elias foi mais rápido e derrubou o atirador com uma pedra de funda certeira na têmpora. O tiroteio começou. O barulho era ensurdecedor. Samuel saltou do cavalo, puxando Maria para trás de um mureto de pedra. Maria, fique aqui. Elias, proteja a retaguarda.
Samuel avançava entre disparos com uma bravura que parecia sobrenatural. Não disparava para matar, mas para desarmar, focando os ombros e os braços dos capangas. Ele queria chegar ao coronel. No meio da confusão, Juvêncio tentou fugir pelos fundos com um saco de moedas, mas deu de caras com o alazão negro.
O cavalo, reconhecendo o seu antigo torturador, deu um relincho de fúria e avançou. Juventaiu, espalhando o ouro pela lama, que começava a formar-se com os primeiros pingos da chuva. Mas o perigo real estava no alpendre. O coronel das sombras puxou de uma arma de cano longo e apontou a Samuel, que estava distraído, ajudando um dos seus homens feridos. “Samuel!”, gritou a Maria.
Sem pensar, ela saiu de trás do mureto. A força que ela sentia não vinha do medo, mas de uma fúria ancestral. Ela viu um chicote caído no chão. O chicote de Salustiano. Ela pegou nele. No momento em que o coronel ia puxar o gatilho, Maria desferiu um golpe de chicote com tanta precisão que a ponta do couro enrolou no cano da arma, desviando o tiro para o alto. O coronel olhou-a surpreendido.
Usa a arma dos seus carrascos contra o seu próprio sangue? Esse sangue que o Senhor diz que eu tenho, eu vou lavar agora, respondeu a Maria. A chuva colapsou, uma tempestade de lavar a alma. No meio do lamaçal, Samuel e o coronel defrontaram-se para o duelo final. Samuel estava ferido num braço e o coronel tinha a faca na mão.
Mas algo aconteceu que ninguém esperava. Do meio do mato, o povo da vila, os colonos, as lavadeiras, os peões que Maria ajudava em segredo, apareceram armados com foic, enchadas e paus. Deixem a nossa menina em paz”, gritou uma das lavadeiras. O coronel das sombras, vendo que não enfrentava apenas um forasteiro, mas um povo inteiro liderado por uma mulher que amavam, recuou, mas não era homem de se render.
Ele lançou uma bomba de fumo artesanal no chão, criando uma cortina cinzento. Quando o fumo baixou, ele e Juvêncio tinham desaparecido na mata densa. Samuel correu para junto de Maria. Eles estavam ensopados, ofegantes, rodeados pelo povo que os abraçava. Fugiram, disse Maria, chorando de alívio e exaustão. Fugiram, mas o medo deles ficou aqui disse Samuel, abraçando-a com força.
Viste, Maria? Não precisou de arma. Você precisou de voz. Mas enquanto o povo festejava, O Mestre Elias aproximou-se com uma expressão sombria, segurando um papel que encontrara no bolso de um dos capangas caídos. Samuel, Maria! A batalha da gameleira terminou, mas a guerra do sertão ainda agora começou. O coronel não foi para o mato por medo.
Ele foi buscar o cangaço de ferro. Eles vão voltar com centenas. A quinta gameleira já não era um lugar de silêncio e chicote. Sob a chuva que não parava, o pátio transformou-se num acampamento de resistência. Maria, com o gibão de couro, agora sujo, de barro e suor, caminhava entre os feridos. Ela não era mais a estrupício, era a general de Saia.
Samuel, chamou ela, encontrando-o perto das coxeiras. Elias disse que o cangaço de ferro vem aí. Eles são muitos. A gente não tem espingarda para todo o mundo. Samuel terminou de selar o cavalo Baio. O seu rosto estava marcado pelo cansaço, mas os seus olhos tinham uma luz de quem já aceitou o destino. Maria, o cangaço de ferro só tem uma fraqueza, o orgulho.
Eles acham que o sertão é terra de ninguém, mas vão descobrir que o sertão é terra de quem planta. Pegou nas mãos de Maria. Eu vou sair agora. Vou atrair o coronel das sombras para o desfiladeiro do cego. Se eu conseguir dividir o seu bando, Elias e o povo da aldeia conseguem dar conta do resto aqui na quinta. Não. Maria apertou-lhe as mãos.
Você não se vai sacrificar por mim. Eu não quero uma quinta se o preço for a sua vida. Samuel esboçou um sorriso de canto, àquele jeito de quem tem o sol do nordeste guardado no peito. Maria, a minha vida começou no dia em que te vi derrubar aquele café. Antes disso, eu era só pó a andar. Agora sou um homem com rumo.
Prometa que aconteça o que acontecer, nunca mais vai deixar que ninguém lhe baixe a cabeça. Sem esperar resposta, montou e partiu como um raio em direcção à escuridão da cainga. Horas depois, o som dos cascos trovejou. Não eram cavalos, era o cangaço de ferro. 50 homens armados, liderados pelo coronel das sombras e um juvenço trémulo. Cercaram a casa grande.
Apareça, Maria! Gritou o coronel. Entregue a escritura e eu deixo o seu povo vivo. A porta da frente da casa abriu-se. A Maria saiu sozinha. Ela não trazia a arma, apenas o rádio velho de pilha do pai ao ombro e o chicote de Salustiano enrolado na cintura, como um troféu de guerra.
“O ouro não está aqui, coronel”, gritou ela, uma voz ecoando pelos lagedos. “O ouro que o meu pai enterrou no coração deste povo e para tirar o Senhor vai ter que sangrar cada pedra deste terra”. Nesse momento, a Maria ligou o rádio no volume máximo. Não era música, era o sinal. Do alto dos montes ao redor da quinta, centenas de archotes foram acesos ao mesmo tempo.
O povo do sertão não tinha espingardas, mas tinha o fogo e o conhecimento do terreno. Rojões e fogos de artifício começaram a explodir no meio do bando do coronel, criando um caos de fumo e luz. Os cavalos do cangaço, assustados começaram a derrubar os seus cavaleiros. No meio da confusão, um grito de guerra partiu do flanco.
Era Samuel. Ele não tinha ido para o desfiladeiro. Era uma estratégia para cercar o bando por trás. Ele veio como um anjo vingador, montado no alazão negro, derrubando os capangas com uma destreza épica. O confronto final aconteceu no meio do pátio. Samuel e o coronel das sombras encontraram-se. O coronel sacou de uma faca de prata, mas Samuel, com um movimento de mestre, usou o próprio chapéu de couro para desviar o golpe e desferiu um soco que desmontou o vilão.
Juvêncio, vendo a derrota, tentou disparar sobre Samuel pelas costas. Agora morres, forasteiro. Estalo. O som do chicote rasgou o ar. Maria, com uma precisão que faria qualquer vaqueiro mudo de inveja, desarmou o próprio irmão. A arma de Juvêncio voou para longe. Acabou, Juvêncio, disse Maria, caminhando até ele com uma dignidade que calou o campo de batalha.
Saia daqui, leve este homem que lhe chama-lhe pai e nunca mais ouse respirar o ar do pajeu. Se a justiça dos homens não te apanhar, a do sertão já te condenou. Meses se passaram. A quinta gameleira mudou de nome para a quinta da Alvorada. Não havia mais cercas separando os colonos da terra. Maria dividira os lucros com todos os que lutaram ao seu lado. Era fim de tarde.
O sol estava a pôr-se, deixando o céu com aquela cor de rapadura que Samuel tanto gostava. Maria estava no alpendre a ler um livro quando ouviu o som de cascos. Samuel regressava da aldeia. Ele já não era o forasteiro misterioso, mas o administrador e o homem que Maria escolhera para dividir a vida. Ele desceu do cavalo e trouxe um ramo de flores de mandacaru para a rainha do sertão disse ele entregando as flores.
Maria sorriu e desta vez nem sombra havia de medo nos seus olhos. Ela olhou para o braço, onde antes havia marcas de dor, e viu apenas a pele beijada pelo sol e a força de quem se libertou. Samuel, disse ela, abraçando-o. Sabe o que aprendi com tudo isto? O quê, minha flor? que o chicote pode marcar a pele, mas só o amor escreve a história.
E ali, no coração do Nordeste, entre o cheiro da terra molhada e o som do vento nas carnaúbas, Maria e Samuel assistiram às estrelas a surgir. Eles eram finalmente donos do próprio destino, uma história única, épica e eterna, como o próprio sertão.