ENTERREI MINHA ESPOSA EM JUNHO DE 1998… E NO DIA DOS NAMORADOS RECEBI UMA MENSAGEM DELA NO CEMITÉRIO
No dia 5 de junho de 1998, eu pensava que aquele bilhete que o meu esposa deixou em cima da mesa seria a última mensagem que receberia dela. Estava escrito apenas: “Fui ao mercado, Já volto, beijo.” Mas ela nunca mais voltou. E uma semana depois, estava ajoelhado diante do túmulo dela no dia dos namorados, quando uma senhora desconhecida aproximou-se e disse-me algo que mudou a minha vida para sempre.
O meu nome é Edson Ferreira Costa, tenho 62 anos e esta é a minha história em minutos. O velório foi na nossa própria casa. Era costume assim em Avaré naquela época. As mulheres do bairro chegaram cedo, arrumaram tudo, colocaram as cadeiras em fila na sala. Eu Fiquei parado no canto, olhando, tentando acreditar que tinha realmente perdido ela.
A casa estava cheia de gente, mas nunca me senti tão sozinho. Eu e a Marlene já tínhamos completado um ano de casados. A gente tinha-se conhecido numa festa aqui na cidade em 94. Namorámos trs anos antes de casar. Era uma moça simples. A gente não tinha muito. Morávamos num quarto alugado na Vila São João. Eu trabalhava como pedreiro.
Ela costurava em casa para ajudar nas contas. Mas a gente era feliz. Não faltava comida, carinho e vontade de construir alguma coisa juntos. Aquele primeiro ano de casados foi o melhor da minha vida. E no início de Junho de 98, a Marlene ficou entusiasmada com o dia dos namorados. Ela mesma falou: “Eson, este vai ser o nosso [pigarreia] primeiro dia dos namorados a sério, casados.
Precisa ser especial.” Concordei, mas confesso que não dei muita bola na altura. No dia 5 de junho, ela acordou a falar que ia fazer um jantar especial. disse que já sabia o que ia cozinhar, que só precisava de comprar os ingredientes e saí para trabalhar cedo. Quando Regressei ao final da tarde, a casa estava vazia e tinha um bilhete em cima da mesa.
Estava escrito assim: “Fui ao mercado, Já volto, beijo.” Dobrei o papel e deixei-o ali mesmo e fui tomar banho. Quando saí da casa de banho, já estava escurecendo. Olhei para o relógio na parede, eram quase 6 da tarde. Fui até ao janela, olhei para a rua, não a vi. Voltei para a sala, sentei-me, liguei o rádio.
Passou mais um tempo, o estômago começou a apertar de uma forma diferente, mas eu ainda tentava convencer-me de que ela tinha parado em casa de alguma vizinha e que estava a chegar. Foi quando o telefone tocou, atendi. E do outro lado uma voz de mulher perguntou: “O senhor é familiar de Marlene Alves Ferreira Costa? Eu disse que sim, que era o marido.
Então ela disse logo: “A Marlene sofreu um acidente. O senhor já pode vir ao hospital regional?” Desliguei com a mão a tremer, peguei no chave da moto e fui. Nem me lembro bem como lá cheguei. Só sei que fui o tempo todo pedindo a Deus que não fosse nada de grave. Cheguei ao hospital ofegante, com o coração na garganta. Uma enfermeira levou-me até uma sala pequena.
Lá dentro estava um médico de bata branca que me olhou com aquela expressão que nunca mais quis ver na vida de ninguém. Ele disse que a Marlene tinha sido atropelada por um carro que vinha em contramão e que ela tinha batido a cabeça no asfalto. Eles fizeram tudo que puderam, mas ela não resistiu. Não lembro-me direito do que aconteceu depois disso.
Sei que alguém me deu água, que alguém ligou ao meu cunhado e que muita gente chegou. Eu ouvia as vozes, mas não percebia nada. Via os rostos, mas não reconhecia ninguém. Era como se tivessem apagado uma luz dentro de mim e eu ainda não tinha percebido que estava às escuras. O enterro foi no no dia 7 de junho de 1998, numa manhã fria, céu fechado, aquele tipo de dia que parece que até o tempo sabe que algo de errado aconteceu.

O cemitério de Avaré fica num monte. Eu já conhecia o local, mas nunca tinha imaginado que ia voltar daquela maneira, segurando o caixão da minha mulher. Quando atiraram o primeiro punhado de terra no caixão, senti uma coisa que até hoje não sei explicar bem. Uma pressão forte no meio do peito. Não era choro, não era falta de ar, era outra coisa, como se algo tivesse pousado em cima de mim naquele momento e decidido ficar.
Coloquei a mão no peito, olhei em volta, mas ninguém se tinha apercebido de nada. Aquela sensação era só minha. Quando regressei à casa depois do enterro, eu fechei a porta e fiquei parado no meio da sala. A casa ainda cheirava a vela. As cadeiras estavam todas fora do sítio. Tinha um copo sujo em cima da mesa, um prato com resto de comida que alguém tinha trazido, mas não havia mais ninguém, só eu e aquele silêncio que pesava diferente de qualquer silêncio que eu tinha sentido antes.
Fui até à cozinha pegar num copo de água e foi quando vi. O bilhete ainda estava em cima da mesa, do da mesma forma que ela o tinha deixado. Ninguém tinha mexido. Fiquei a olhar para ele durante um tempo sem conseguir pegar. Quando finalmente o peguei, li devagar, como se as palavras me fossem dizer alguma coisa diferente desta vez.
Fui ao mercado. Já volto. Beijo. Dobrei com cuidado e fui guardá-lo na cómoda do lado da cama. No dia seguinte, as pessoas voltaram. Vizinhas trouxeram comida. A minha sogra ficou o dia todo comigo. O meu cunhado veio ajudar-me a organizar os documentos. Eu deixava tudo acontecer à volta, mas ficava de fora.
Respondia quando perguntavam, agradecia quando ofereciam, mas era como se eu estivesse atrás de um vidro, a olhar tudo de longe. O corpo estava ali, mas eu não estava. Depois de três ou quatro dias, as visitas foram ficando mais espaçadas. Ao quinto dia, só apareceu minha sogra de manhã cedo. No sexto, já não veio ninguém.
E entendi que a vida das pessoas continuava, que elas tinham filhos para ir buscar, trabalho para ir, casa para cuidar. A dor delas por Marlene era real, mas a vida não parava. Só a minha tinha parado. Fiquei esses dias sem comer corretamente. A noite era pior. Deitava-se na cama, olhava para o teto e o pensamento não parava.
Ficava a rodar a mesma cena na cabeça, ela a sair pela porta com a bolsa no braço, de bom humor, sem saber o que ia acontecer. A a culpa foi chegando lentamente, mas quando chegou a sério foi pesada. Eu não deixava de pensar. E se eu tivesse chegado do trabalho mais cedo? Se eu me tivesse oferecido para ir junto, se eu tivesse prestado atenção quando ela falou do jantar, talvez ela não tivesse saído sozinha àquela hora.
Era uma tortura, porque sabia que não tinha como mudar nada, mas a cabeça não aceitava isso. O pior era de madrugada, quando acordava a meio da noite e a realidade voltava toda de uma vez. e juntamente com ela aquela pressão no peito que tinha começado no cemitério no dia do enterro. Só que agora era diferente. No cemitério tinha durado pouco.
Em casa ela ficava. Às vezes acordava com aquilo apertando tanto que precisava de se sentar na beira da cama para conseguir respirar melhor. Era como um peso que alguém tivesse colocado ali e esquecido de tirar. Num desses dias, fui arrumar o guarda-roupa dela. Pensei que ia ajudar, que organizar as coisas me ia fazer sentir que estava a fazer alguma coisa útil. Abri a porta e parei.
O vestido que usou no casamento estava dobrado numa prateleira. As sandálias dela estavam no chão da forma que ela tinha deixado da última vez que usou. Cheirava ao perfume dela ainda. Fechei a porta sem mexer em nada e não a abri mais. O dia dos namorados estava a chegar e aquela sensação pesada que eu carregava desde o enterro estava a ficar diferente, mais pesada, mais presente.
Era como se o meu próprio corpo soubesse que a data estava a chegar e tentasse me avisar de algo que ainda não entendia. Assim, no dia 12 de junho de 1998, acordei cedo, olhei para o bilhete e pela primeira vez desde o enterro eu senti que não conseguia estar dentro daquela casa. As paredes estavam a me a fechar, o silêncio estava a me engolindo.
Eu precisava de ir até ao cemitério. Mesmo que ela não estivesse mais aqui da maneira que eu queria, eu não conseguia imaginar passar aquele dia em casa sozinho. Assim, fui passar o dia dos namorados ao lado dela, da forma que ainda era possível. No caminho, parei numa florista e comprei um ramalhete de rosas vermelhas.
Cheguei ao portão do cemitério e desliguei a moto. O peso no peito estava ali diferente, mais pesado do que em casa, mais presente do que no caminho, como se aquele lugar fizesse tudo se tornar mais real de uma só vez. Fiquei sentado na moto por um instante com o ramalhete no colo. Era a primeira vez que regressava desde o dia do funeral.
Respirei fundo, desci e entrei. O cemitério de manhã cedo tem uma quietude que é diferente de qualquer outro lugar. Tinha uma neblina fina ainda baixa entre as árvores, o frio de junho colado ao ar e quase ninguém por ali ainda. Entrei caminhando lentamente com o ramalhete na mão.
Quando cheguei à frente do túmulo dela, parei. Vi o nome gravado na pedra, Marlene Alves Ferreira Costa, nascida em 1970. Faleceu em 1998. Baixei-me e coloquei o ramalhete de rosas vermelhas em cima do túmulo com cuidado. Ajeitei as flores com calma, uma a uma, da maneira que achei que ela ia gostar. Tirei o isqueiro do bolso e acendi uma pequena vela que tinha trazido.
A chama tremeu um pouco e ficou quieta. Depois ajoelhei-me no chão de pedra frio e fiquei em silêncio durante um momento. Foi aí que o amor e a culpa chegaram juntos. Eu tinha vindo até ali porque a amava e queria estar perto naquele dia. Mas, ajoelhado em frente do túmulo, aquele peso que eu trazia desde o enterro ficou ainda mais fundo, como se estar ali em frente do túmulo dela fizesse com que tudo aumentasse, a culpa, a saudades, os dias sem dormir, tudo junto.
Comecei a falar baixinho. Não sei bem por onde comecei, mas lembro-me que pedi perdão logo no início. Eu disse que devia ter ido com ela nesse dia, que se eu tivesse prestado mais atenção, se eu tivesse chegado do trabalho mais cedo, talvez me tivesse oferecido para ir junto do mercado.
Eu disse que sabia que já não adiantava pedir perdão, que não ia mudar nada, mas que precisava dizer-lhe isso do mesmo jeito. Precisava que ela soubesse. Aí o choro veio. E não foi aquele choro contido, foi diferente, fundo do tipo que sobe do peito e sai de uma vez sem pedir licença. Chorei ali ajoelhado, sem me preocupar com mais nada.
Não tinha ninguém por perto, era só eu, as rosas vermelhas e a vela acesa. Chorei tudo que tinha guardado lá dentro desde o dia do acidente. Quando o choro foi passando, fiquei com a cabeça baixa, respirando devagar. E foi aí que eu pedi um sinal. Falei baixinho. Marlene, dá-me alguma coisa, qualquer coisa, só para eu saber que está bem, que não foi-se embora zangado comigo.
Preciso saber isso para conseguir continuar. Fiquei em silêncio à espera. Olhei para chama da vela. Estava quieta. Olhei pro céu entre as árvores, nublado, fechado, igual aos outros dias dessa semana. Olhei para o ramalhete de rosas que eu tinha colocado ali com tanto cuidado. Nada.
O cemitério continuava quieto do mesmo jeito. Nenhuma resposta, nenhum sinal, só aquele peso no peito que agora estava no ponto mais alto que tinha chegado desde o dia do enterro. Levantei aos poucos. Os joelhos doíam do chão frio, mas nem me tinha apercebido enquanto estava ajoelhado. Limpei o rosto com a mão, olhei para o nome dela na pedra uma última vez.
e virei para ir embora. Dei três passos em direção à saída. Foi então que ouvi uma voz atrás de mim. Calma de mulher mais velha. Quando me virei, vi uma senhora de cabelos brancos, bem arranjada. Ela me olhou e disse: “Preciso de falar uma coisa com o senhor.” Fiquei parado, olhando para ela sem saber o que dizer. Ela olhava-me com uma expressão que eu não sabia nomear.
Não era pena, não era curiosidade, era outra coisa, algo mais calmo do que isso. Limpei o rosto com as costas da mão e perguntei: “A senhora conhece-me?” Ela abanou a cabeça devagar, disse que não, que nunca tinha visto-me antes. Explicou que vinha ao cemitério todos os meses visitar o túmulo do marido, que tinha morrido alguns anos antes, mas que nesse dia alguma coisa tinha sido diferente.
Enquanto ela rezava em frente do túmulo do marido, ela ouviu uma voz, uma voz que não vinha dela e não vinha de ninguém que estivesse por perto. Eu olhei para ela sem compreender e ela continuou a falar com calma, sem pressas, à maneira de quem já viveu o suficiente para não ter medo de contar este tipo de coisas.
Disse que a voz era de uma mulher e que essa mulher pediu-lhe para se levantar e caminhar, que ela não compreendeu no primeiro momento, mas que sentiu que precisava obedecer. Então ela levantou-se e começou a caminhar entre os túmulos, sem saber bem para onde ia. Disse que os pés foram andando sozinhos, que ela não escolheu o caminho, que foi sendo levada lentamente, de um túmulo para outro, por aquelas alamedas de pedra, até parar exatamente atrás de mim.
E quando me virei e ela me viu, ela soube que era ali, que era eu. Não sabia o meu nome, não sabia quem era, mas soube que tinha chegado ao lugar certo e na pessoa certa. Eu estava com a garganta fechada. Tentei falar alguma coisa, mas não saiu nada. A senhora me olhou com aquela mesma calma e disse: “Antes de eu dizer o que vim dizer, preciso de te perguntar uma coisa.
Tem uma jovem mulher enterrada aqui perto, cabelo escuro, rosto miúdo. Ela usava uma aliança simples de ouro fino. Essa descrição tem algum significado pro senhor? Aliança. Fechei os olhos por um segundo. Marlene tinha uma aliança de ouro fino que o pai dela tinha dado de presente quando ficamos noivos.
Uma coisa simples, sem pedra, sem ornamento. Ela nunca tirava. Nunca, nem para lavar louça, nem para dormir. Quando soube do acidente e fui ao hospital, a aliança ainda estava no dedo dela. Eu mesmo voltei a colocá-lo na mão dela antes de fechar o caixão. Não havia como aquela senhora saber disso.
Eu disse que sim, com a cabeça, porque a voz não vinha. A senhora fez um aceno ligeiro, como se confirmasse alguma coisa a ela própria, e disse: “Ela quer que eu te passe um recado, mas ela quer saber primeiro se o senhor aceita receber”. Fiquei a olhar para ela sem compreender bem o que estava a acontecer. Aquele peso no peito estava tão forte naquele momento que eu mal me conseguia manter de pé.
Balancei a cabeça que sim. A senhora respirou fundo, olhou para mim com aqueles olhos calmos e começou a falar devagar e disse: “Ela quer que saibas que não foi-se embora zangado, que naquele dia ela saiu de casa feliz, pensando no jantar que ia fazer, a pensar em ti, que o último pensamento dela não foi de mágoa, não foi de briga, não foi de nada ruim.
Senti as lágrimas descendo de novo, mas não me mexi. A senhora continuou. Ela quer que deixe de carregar essa culpa. Que não tinha como saber o que ia acontecer, que nenhum de nós sabe o que o dia vai trazer e que isso não é culpa de ninguém, que foste um bom marido, que o ano que viveram juntos foi real, foi bonito e que ela não trocaria por nada.
Cada palavra que a senhora dizia caía diferente dentro de mim, como se alguém fosse tirando um tijolo do meu peito de cada vez. Depois a senhora ficou quieta por um momento, como se estivesse ouvir alguma coisa que eu não conseguia ouvir. Depois olhou de volta para mim e disse a última parte: “Ela te ama e vai amar-te sempre de onde ela estiver e que já é tempo de você voltar a viver, que ela não quer que você fique parado, que ainda tem muito pela frente e que ela quer ver você seguir em frente.
Essas foram as palavras da forma que a senhora passou para mim. Eu não consegui dizer nada. Fiquei a olhar para ela com o rosto húmido e a garganta fechada. A senhora colocou a mão no meu ombro por um segundo, com aquela leveza de quem sabe que não precisa de mais nada. E depois virou-se e começou a caminhar de volta pelo caminho que tinha vindo.
Eu fiquei parado a vê-la ir. Tentei chamar, mas ela já estava longe, desaparecendo lentamente entre as alamedas do cemitério, e não respondeu. Virei-me de novo para o túmulo da Marlene e foi nesse momento que eu Notei aquela pressão no peito que estava comigo desde o dia do funeral, que me tinha acordado de madrugada, que tinha-me acompanhado na moto, que tinha chegado juntamente comigo àquele cemitério, tinha desaparecido de uma vez, como se alguém tivesse tirado um peso enorme que eu nem sabia mais o tamanho, porque estava
carregando há demasiado tempo. Respirei fundo. O ar entrou diferente. Fiquei ali parado em frente do túmulo dela em silêncio, com as rosas vermelhas na pedra e a vela ainda acesa. E pela primeira vez desde o dia 5 de junho, eu Senti-me leve. Saí do cemitério naquele dia diferente de como entrei. Não sei explicar bem o que mudou.
A Marlene continuava ali enterrada. A dor continuava a existir, mas aquele peso que tinha começado no dia do enterro e que tinha carregado por cada um daqueles cinco dias tinha ido embora. E no lugar dele ficou alguma coisa que eu não sentia há muito tempo. Uma leveza pequena, discreta, mas que reconheci. Era semelhante à sensação de conseguir respirar depois de estar muito tempo sem ar.
Nos dias seguintes, continuei indo para o trabalho. Continuei a viver a rotina, mas alguma coisa tinha mudado por dentro. Não foi de um dia para o outro, não foi fácil, não foi sem recaída. Teve dia em que a saudade bateu forte e eu Fiquei sentado na beira da cama sem conseguir mexer-me. Houve noite que eu sonhei com ela e acordei com o almofada molhada, mas aquela culpa que me comia por dentro, aquela sensação de que eu tinha falhado com ela, que foi diminuindo lentamente depois daquele dia no cemitério.
Voltei lá várias vezes depois. No início ia todos os meses. Depois foi espaçando à medida que o tempo foi passando. Levava sempre rosas vermelhas, acendia sempre uma vela. E cada vez que chegava à frente daquele túmulo, eu olhava em redor, esperando ver aquela senhora de cabelos brancos. Nunca mais a encontrei.
Perguntei ao funcionário do cemitério se conhecia uma senhora assim, uma viúva que vinha todos os meses visitar o marido. Ele disse que vinham muitas senhoras assim. Nunca soube quem era, nunca soube o seu nome. Com o tempo, a vida foi voltando, não da forma que era antes, mas foi voltando da forma que podia.
Eu fui saindo daquele lugar escuro, do lugar onde tinha ficado preso desde Junho de 98. E em 2001 eu Conheci a Vera e com ela tive dois filhos. Hoje, em 2026, tenho 62 anos. Sou avô de três netos e todos os dias 12 de junho acendo uma vela à Marlene. O bilhete ainda existe. Está guardado até hoje numa pequena caixa de madeira que fica na gaveta da minha cómoda.
De vez em quando abro, olho para o papel amarelado, leio aquelas palavras de letra dela. Fui ao mercado, já volto. Beijo. Há coisa que a gente não explica, que nós não provamos, que a gente não consegue pôr em palavras. de uma forma que faça sentido para todo o mundo. O que me aconteceu naquele no dia 12 de junho de 1998 foi uma dessas coisas.
Uma senhora que nunca tinha visto na vida chegou até mim guiada por uma voz. Descreveu-me a mulher que eu tinha enterrado cinco dias antes e passou-me um recado que eu precisava de ouvir para conseguir continuar vivendo. Não sei explicar como é que isso é possível. Não sou homem de muita teoria, nunca fui.
Sou pedreiro, homem simples, criado no interior. Mas eu sei o que eu senti nesse dia. Sei o que aquele recado fez comigo. Sei que quando a senhora acabou de falar aquele peso que me sufocava foi-se de uma vez. e sei que nunca mais carreguei aquela culpa do mesmo modo. Se está aí carregando agora uma perda, uma culpa, um peso que parece demasiado grande para aguentar, quero dizer-te uma coisa.
Às vezes o sinal que pedimos já está a caminho. Só precisa de estar de olho aberto para reconhecer quando ele chegar. Se acredita que os que partem ainda encontram uma forma de enviar uma mensagem a quem ficou, comenta aqui: “Eu acredito. Que Deus abençoe a vossa família. Feliz dia dos namorados e até ao próximo relato.