O som da campainha ecoou pelos corredores da República Estudantil Boa Vista em Belo Horizonte, Minas Gerais, na manhã do dia 3 de Setembro de 1999, mas ninguém atendeu. Rosana Silva Martins, estudante de pedagogia de 21 de anos da Universidade Federal de Minas Gerais, tinha saído na noite anterior para uma festa de finalistas e prometeu regressar antes da meia-noite.
Rosana Silva Martins era uma jovem que irradiava energia e determinação. Com 21 anos, 1,65 m de altura, cabelo encaracolados castanho claro que dançavam quando ela caminhava, e olhos castanhos cheios de sonhos. Ela representava a esperança de uma geração que estava construindo o Brasil do novo milénio. Nascida em Montes Claros, filha de Valdeci Silva Martins, operário metalúrgico, e Conceição Santos Martins, empregada doméstica.
A Rosana era a primeira pessoa da sua família a ingressar numa universidade. A minha filha era a nossa luz. Lembra Conceição com a voz embargada pela emoção. Desde pequena que dizia que ia ser professora, que ia estudar numa universidade grande. Quando passou no vestibular da UFMG, chorámos de alegria a noite inteira.
Era o sonho de toda a família a realizar-se. Rosana estava no terceiro ano do curso de pedagogia na Universidade Federal de Minas Gerais, uma das instituições mais prestigiadas do país. Havia conseguido uma bolsa de estudo através do Programa de Assistência estudantil e trabalhava part-time na biblioteca da universidade para complementar o rendimento.
vivia na República Estudantil Boa Vista, uma casa antiga no bairro de Santo António, que albergava oito estudantes de baixo rendimento. A Rosana era o coração da a nossa república, conta Marina Santos Oliveira, colega de quarto na altura. Ela organizava tudo, as compras da casa, as festas, os estudos em grupo.
Era uma líder natural, cuidando sempre de todo o mundo. Quando alguém estava triste ou com problemas financeiros, era ela quem arranjava uma solução. A vida académica de Rosana era exemplar. mantinha uma média elevada em todas as disciplinas, participava ativamente no centro académico e fazia parte de um projeto de extensão que levava a educação para crianças carenciadas da periferia de Belo Horizonte
Os seus professores haviam como uma futura educadora de excepção. Rosana tinha uma paixão genuína pela educação. Recorda a professora Dra. Lúcia Fernandes Costa, orientadora do seu projeto de iniciação científica. Ela não estudava pedagogia apenas para ter um diploma. Queria realmente transformar a realidade das crianças brasileiras através da educação.
Era raro ver uma dedicação tão autêntica em alguém tão jovem. Na República, Rosana partilhava o quarto com Marina e mais duas colegas, Priscila Alves Santos, estudante de enfermagem, e Fernanda Lima Silva, do curso de Letras. As quatro tinham-se tornado amigas indissociáveis desde o primeiro ano, apoiando-se mutuamente nos desafios da vida universitária, longe da família.
A rotina da Rosana era bem organizada. Acordava às 6 da manhã para estudar antes das aulas. frequentava as disciplinas durante a manhã, trabalhava na biblioteca à tarde e dedicava as noites aos projetos de extensão e aos estudos em grupo. Aos fins de semana, participava em atividades do movimento estudante ou visitava a família em Montes Claros.
Ela era muito disciplinada, mas também sabia se divertir. Conta Fernanda. A Rosana adorava as festas da universidade, dançava muito bem e tinha um grupo grande de amigos. Era uma dessas pessoas que conseguia equilibrar perfeitamente os estudos com a vida social. No segundo semestre de 1999, A Rosana estava particularmente animada.
tinha sido escolhida para apresentar o seu projeto de iniciação científica no Congresso Nacional de Pedagogia, que realizar-se-ia em novembro em Brasília. Era uma oportunidade única para uma estudante de licenciatura. Ela estava nas nuvens com esta apresentação, lembras-te Marina? Passou semanas a preparar diapositivos, ensaiando a fala, pesquisando sobre o tema.
Dizia que seria o primeiro passo para a sua carreira académica. Naom. Quinta-feira, 2 de setembro de 1999. Rosana recebeu um convite que mudaria tudo. Roberto Silva Campos, formando do curso de gestão e conhecido no meio universitário pelas suas festas extravagantes, convidou-a para a festa de comemoração da sua formatura, que aconteceria na noite seguinte, numa quinta nos arredores de Belo Horizonte.
A princípio, ela não queria ir. Conta Priscila. Disse que tinha muita coisa para estudar e que não conhecia bem o Roberto, mas insistimos para ela se divertir um pouco. Já há semanas que ela só pensava no congresso. Roberto Silva Campos era uma figura conhecida na UFMG. Filho de uma família de empresários de Belo Horizonte.
Ele organizava festas famosas entre os estudantes universitários, sempre em locais sofisticados e com estrutura profissional. As suas comemorações eram eventos aguardados pelos estudantes. O Roberto organizava sempre as melhores festas da universidade. Lembra Carlos Santos Lima, colega de curso na altura. Tinha dinheiro e gostava de impressionar.
As suas festas eram faladas durante semanas depois. Na sexta-feira, dia 3 de setembro, Rosana passou o dia normal na universidade. Assistiu às aulas da manhã, trabalhou na biblioteca à tarde e voltou para a República por volta das 18 horas. Jantou com as colegas e preparou-se para a festa, usando um vestido azul que tinha comprado especialmente para ocasiões especiais.
Ela estava linda naquela noite, recorda Marina com nostalgia. usou o vestido azul, fez uma maquilhagem caprichada, estava radiante. Disse que ia divertir-se muito e que voltaria antes da meia-noite, porque tinha de acordar cedo ao sábado para estudar. Às 21 horas, Rosana saiu da República caminhando até à paragem de autocarro, onde apanharia o transporte para a quinta, onde se realizaria a festa.
Era uma noite quente de setembro e ela carregava apenas uma pequena bolsa com documentos. dinheiro e batom. Ela acenou-nos da janela quando passou pela rua. Conta Fernanda, foi a última vez que vimos nossa amiga. A festa na quinta de São João, localizada no concelho de Nova Lima, teve início por volta das 22 horas. Dezenas de estudantes universitários compareceram, incluindo colegas de vários cursos da UFMG.
A música era alta, havia bebidas em abundância e a atmosfera era de celebração. Várias pessoas confirmaram ter visto Rosana na festa durante as primeiras horas. Ela dançou, conversou com conhecidos e parecia estar a divertir-se normalmente. Por volta das 23h30, foi vista pela última vez a conversar com o Roberto junto à zona da piscina.
Eu vi-a a falar com o Roberto do lado da piscina, recorda Patrícia Moreira Santos, colega do curso de educação. Pareciam estar tendo uma conversa grave, mas não consegui ouvir o que falavam. Depois disso, não a vi mais durante a festa. Quando chegou à meia-noite e a 1h da manhã e a Rosana não tinha voltado para a República como prometido, as suas colegas começaram a preocupar.
Marina tentou ligar para o telemóvel várias vezes, mas as chamadas iam diretamente para a caixa de correio. A Rosana era pontual e responsável, explica Priscila. Ela jamais deixaria de avisar se fosse para se atrasar. Quando deu uma da manhã e ela não tinha aparecido nem ligado, soubemos que algo estava errado.
Na manhã de sábado, 4 de Setembro, quando Rosana não havia devolvido nem dado notícias, as colegas da República decidiram ir à quinta onde tinha sido a festa. Encontraram o local a ser limpo por funcionários, mas ninguém soube informar sobre o paradeiro de Rosana. Roberto Silva Campos disse às colegas que Rosana tinha saído da festa por volta da meia-noite, alegando que queria voltar cedo para casa.
Segundo ele, ela tinha apanhado boleia com um conhecido, mas não soube identificar quem era a pessoa. O Roberto parecia nervoso quando perguntamos sobre a Rosana, lembras-te Marina? disse que ela tinha ido embora cedo, mas não conseguiu dar-nos detalhes convincentes sobre como ela tinha saído ou com quem.
No domingo, 5 de setembro, quando completaram 48 horas sem notícias de Rosana, a família foi comunicada e a Polícia Civil foi acionada. O caso foi assumido pelo delegado Marcos Vinícius Almeida, da esquadra especializada em pessoas desaparecidas. Era um caso que chamava a atenção desde o início, explica o delegado Marcos.
Uma estudante estudante universitária responsável, sem histórico de problemas, desaparece após uma festa e ninguém consegue explicar exatamente como ela saiu do local. A investigação começou pela análise da festa e dos últimos momentos em que Rosana foi vista. Roberto Silva Campos foi interrogado várias vezes, mas manteve a versão de que ela tinha saído voluntariamente da festa por volta da meia-noite.

Roberto sempre foi evasivo nos seus depoimentos comenta o investigador João Carlos Pereira que participou no caso. As suas respostas eram vagas, contraditórias em alguns pontos, mas não tínhamos provas físicas para confrontá-lo de forma mais direta. A quinta onde decorreu a festa foi periciada, mas não foram encontradas indícios de violência ou sinais de luta.
O local tinha sido completamente limpo no dia seguinte à festa, o que dificultou a recolha de pistas. Durante as primeiras semanas, a investigação se concentrou-se em rastrear os passos de Rosana após a festa. Rodoviárias, pontos de autocarros e táxis da região foram verificados, mas ninguém se lembrava de ter visto uma jovem com as suas características na madrugada de 3 para 4 de setembro.
Era como se ela tivesse simplesmente evaporado, descreve o delegado Marcos. Não havia registos de ela ter utilizado o transporte público. Não houve testemunhas de avistamentos posteriores à festa, não houve movimentação na sua conta bancária. Os pais de Rosana, Valdeci e Conceição deslocaram-se de Montes Claros para Belo Horizonte e passaram semanas à procura pela filha.
Visitaram hospitais, esquadras, abrigos e áreas da cidade onde se concentravam os sem-abrigo. sempre na esperança de encontrar alguma pista. Foram os piores meses das nossas vidas, conta Valdeci. Todo dia acordávamos a pensar que talvez fosse o dia em que a nossa filha regressaria a casa. Cada telefone que tocava podia ser a notícia que esperávamos.
Durante o primeiro ano após o desaparecimento, surgiram várias pistas falsas. Alguém disse ter visto Rosana em uma cidade do interior de Minas. Outro relato mencionava possível avistamento em São Paulo. Todas as pistas foram investigadas e se mostraram equívocas. A vida académica de Rosana foi suspensa indefinidamente.
Os seus projetos de pesquisa foram arquivados. A sua vaga na república foi mantida durante alguns meses na esperança de que ela regressasse e a sua apresentação no O Congresso Nacional de Pedagogia foi cancelada. Era doloroso ver o quarto dela vazio, lembras-te Fernanda? Mantivemos as suas coisas durante meses, sempre à espera que ela aparecesse à porta sorrindo e explicando onde tinha estado.
Em 2000, um ano após o desaparecimento, Roberto Silva Campos formou-se e mudou-se para São Paulo, onde conseguiu um emprego em uma multinacional. Manteve contato esporádico com alguns colegas da universidade, mas nunca mais falou sobre o caso Rosana. Os anos se passaram sem novas pistas substanciais. A investigação continuou oficialmente aberta, mas com recursos cada vez mais limitados.
A família de Rosana nunca desistiu de procurar, organizando buscas próprias e mantendo contacto com a polícia. Em 2005, se anos após o desaparecimento, a família organizou uma missa em memória de Rosana na Igreja de São José, no centro de Belo Horizonte. Centenas de pessoas compareceram, incluindo professores, colegas e pessoas que tinham sido tocadas pela sua história.
Durante a década seguinte, o caso Rosana tornou-se uma das investigações não resolvidas mais famosas de Minas Gerais. Os programas de televisão sobre crimes não solucionados ocasionalmente apresentavam o caso, renovando sempre brevemente o interesse público. Em 2015, 16 anos após o desaparecimento, Conceição Martins morreu de complicações cardíacas.
Amigos da família dizem que ela morreu de coração partido, nunca se tendo recuperado da perda da filha. Valdeci, agora viúvo, continuou sozinho à procura por respostas. “A minha mulher morreu sem saber o que aconteceu com a nossa filha”, lamenta Valdeci. Era o que mais a atormentava. Ela dizia sempre que se pelo menos soubéssemos se a Rosana estava morta, poderíamos ter paz.
Em 2020, 21 anos após o desaparecimento, a investigação ganhou novo impulso quando o comissário André Silva Costa, especialista em casos antigos não resolvidos, decidiu rever completamente o processo utilizando técnicas investigativas modernas. Casos antigos por vezes beneficiam de um olhar novo e de tecnologias que não existiam na época, explica o comissário André.
Decidi tomar o caso Rosana como um desafio pessoal e aplicar tudo o que aprendi em duas décadas de Banchendus, investigação criminal. A primeira providência foi reinterrogar todas as pessoas que estiveram na festa de Roberto Silva Campos nessa noite de Setembro de 1999. Muitas delas, já com mais de 40 anos, tinham perspetivas diferentes sobre aquela noite.
“Foi interessante ouvir as mesmas pessoas mais de 20 anos depois”, comenta o delegado André. Algumas lembravam-se de pormenores que haviam considerados irrelevantes na época. Outras estavam mais dispostas a falar verdades que haviam escondido quando eram jovens. Uma das revelações mais significativas veio de Cláudio Santos Moreira, colega de Roberto, que tinha estado na festa.
Agora, empresário de 43 anos e pai de família, decidiu contar algo que tinha guardado por mais de duas décadas. Durante todos estes anos, carreguei o peso de não ter falado a verdade completa, confessa Cláudio. Na altura era jovem e tinha medo de me envolver em problemas, mas agora como pai já não consigo estar calado. Cláudio revelou que tinha presenciado uma discussão entre Roberto e Rosana durante a festa, muito mais intensa do que as pessoas tinham relatado anteriormente.
Segundo ele, Roberto estava claramente embriagado e tinha feito investidas inadequadas em relação à jovem. O O Roberto estava a insistir para a Rosana ficar na quinta. Dizia que havia preparado um quarto especial para ela. Conta Cláudio. Ela estava visivelmente incomodada e dizia que queria ir embora. A discussão tornou-se mais tensa e vi o Roberto agarrar-lhe o braço de forma agressiva.
Esta revelação mudou completamente a perspectiva da investigação. Roberto Silva Campos foi localizado em São Paulo, onde trabalhava como executivo e vivia com a mulher e dois filhos. Após 24 anos, foi chamado novamente para prestar declarações. Foi uma surpresa receber a chamada da polícia depois de tanto tempo, admite Roberto.
Pensei que o caso tinha sido arquivado há décadas. Pensei que ninguém mais se preocupava com o que havia acontecido nessa noite. Sob pressão das novas evidências e técnicas de interrogatório mais modernas, Roberto finalmente decidiu contar a verdade sobre o que realmente aconteceu na madrugada de 3 para 4 de setembro de 1999. Segundo a sua confissão, tinha realmente tentado convencer Rosana a passar a noite na quinta.
Quando ela rejeitou firmemente os seus avanços e ameaçou sair da festa para contar aos colegas sobre o seu comportamento inadequado, perdeu o controle. Eu estava muito bêbado e não aceitei a rejeição, confessa Roberto. Quando ela disse que ia contar a todo o mundo na universidade sobre o que eu tinha feito, entrei em pânico.
Segurei-a com força, tentando convencê-la a não dizer nada. Durante a luta, Rosana caiu e bateu com a cabeça em uma pedra junto à piscina. Roberto percebeu que ela se tinha ferido gravemente e tentou socorrê-la, mas ela morreu poucos minutos depois. Foi um acidente terrível que aconteceu por causa da minha estupidez, insiste Roberto.
Nunca tive qualquer intenção de magoá-la, mas quando percebi que ela tinha morrido, entrei em desespero total. Em pânico, Roberto escondeu o corpo de Rosana num local isolado da quinta e inventou a história de que ela tinha saído da festa voluntariamente. Nos dias seguintes, quando o investigação começou, transferiu o corpo para um local mais seguro.
“Durante 24 anos, vivi com este peso”, diz o Roberto. Construí uma família, uma carreira, mas nunca consegui esquecer o que tinha feito. culpa consumia-me todos os dias. A confissão de Roberto levou a polícia até ao local onde tinha escondido o corpo de Rosana, uma propriedade rural abandonada na região metropolitana de Belo Horizonte, que pertencia à sua família.
Após uma busca cuidadosa, os restos mortais da jovem foram encontrados. A descoberta trouxe finalmente o fecho que Valdeci procurava há quase um quarto de século. A Rosana pôde receber um enterro digno, rodeado por centenas de pessoas que ainda se lembravam dela com carinho. Saber a verdade foi, ao mesmo tempo um alívio e uma dor renovada, comenta Valdeci no funeral da filha.
Durante 24 anos, vivi na esperança de que ela estivesse viva algures. Descobrir que ela morreu nessa noite foi devastador, mas pelo menos agora posso encontrar alguma paz. Roberto Silva Campos foi condenado a 12 anos de prisão por homicídio negligente e ocultação de cadáver. Durante o julgamento, ele demonstrou um remorço genuíno, mas isso não diminuiu a gravidade de ter ocultado o crime há mais de duas décadas.
A Universidade Federal de Minas Gerais criou uma bolsa de estudo em memória de Rosana Silva Martins, destinada a estudantes carenciados do curso de pedagogia. A República Estudantil Boa O Vista instalou uma placa no seu homenagem à entrada da casa. Rosana representa todos os sonhos que foram interrompidos pela violência”, diz Marina, a sua antiga colega de quarto, agora professora numa escola pública.
Ela queria transformar o mundo através da educação. A nossa obrigação é continuar o seu sonho. Hoje, 25 anos após aquela noite fatídica, a história de Rosana serve como um lembrete sobre a importância de denunciar comportamentos inadequados e sobre como o silêncio pode perpetuar injustiças durante décadas.
O caso também demonstra como as investigações podem ser renovadas com técnicas modernas e como a verdade, por mais tempo que demore, eventualmente vem à tona. Rosana obteve finalmente a justiça que merecia, ainda que tardiamente. A jovem que sonhava transformar o mundo através da educação, teve a sua própria história transformada numa lição sobre a coragem, a perseverança e a importância de nunca desistir da procura pela verdade.
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