Chacina da zona rural de Montes Claros, Minas Gerais (1984), como aconteceu?
Naquela noite de Agosto de 1984, ninguém poderia imaginar que o silêncio da zona rural de Montes Claros seria quebrado por gritos que ecoariam por gerações. O que começou por ser mais um fim de semana tranquilo na quinta de Santa Rita se transformaria no episódio mais sombrio da história local, quando 13 pessoas perderam a vida de forma brutal, sem sem hipótese de defesa.
Mas para perceber como chegámos até aquele banho de sangue, precisamos de voltar algumas semanas, quando os primeiros sinais de que algo terrível estava prestes a acontecer começaram a surgir, quase imperceptíveis, como sombras se alongando ao entardecer. E depois, tá preparado para conhecer uma das histórias mais perturbadoras que já aconteceram no interior de Minas? Então, deixa aquele like e subscreve o canal, porque o que vai ouvir agora vai deixar-te colado até ao final.
Pode acreditar, esta história não é para qualquer um. Tudo começou mesmo em meados de julho desse ano, quando Sebastião Ferreira da Costa, um homem de 42 anos, alto, forte, com aquele jeito meio calado de quem passou a vida inteira a lidar com a Terra, começou a agir de forma estranha. Sebastião trabalhava como caseiro na quinta de Santa Rita, uma enorme propriedade que ficava a cerca de 15 km do centro de Montes Claros, mesmo no meio do nada mesmo.
A quinta pertencia ao senhor Alfredo Mendes, um rico lavrador que vivia na cidade e só aparecia por lá de vez em quando para dar uma vista de olhos aos negócios e receber os lucros da produção de leite e do gado que criava. Sebastião vivia numa casa simples dentro da propriedade, juntamente com a esposa Joana e os três filhos do casal.
A Maria de 17 anos, o João de 14 e o pequeno Pedro que tinha apenas nove aninhos. A sua vida era simples, mas digna, sabe? Acordavam com o cantar do galo, trabalhavam o dia inteiro, comiam o que plantavam e à noite reuniam-se ao redor da mesa para jantar sob a luz ténue de um candeeiro a quererosene. Não tinha televisão, não tinha energia elétrica nessa época, ainda naquela região afastada, mas tinha paz, ou pelo era o que todos pensavam.
A primeira pessoa a notar que algo estava errado com Sebastião foi precisamente a Joana. Percebeu que o marido começou a passar horas sentado sozinho no alpendre, olhando para o nada, fumando um cigarro atrás do outro. Quando ela perguntava o que se passava, ele respondia com um grunhido ou simplesmente ignorava.
Mas não era só isso não. Sebastião começou a acordar no meio da noite suado, gritando coisas sem sentido. A Joana tentou conversar, tentou compreender, mas o homem parecia estar em outro mundo. Maria, a filha mais velha, também notou as mudanças no pai. Ela era uma rapariga bonita, com longos cabelos pretos e olhos castanhos que brilhavam quando ela sorria.

Trabalhava ajudando a mãe nas tarefas domésticas e sonhava em um dia sair daquela vida rural para estudar na cidade. Certa tarde, ela encontrou o pai a conversar sozinho dentro do celeiro. Quando se aproximou, virou-se para ela com um olhar que a assustou profundamente. Não era o olhar do pai que ela conhecia, era o olhar de um estranho, frio, vazio, perturbador.
O João, o filho do meio, era um menino esperto, cheio de energia. sempre ajudando o pai com o gado e os cavalos. Adorava os animais e tinha um especial carinho por um cavalo chamado trovão, um animal castanho claro que ele mesmo tinha ajudado a domar. João começou a aperceber-se que o pai estava tratando os animais com violência, coisa que nunca tinha acontecido antes.
Certa vez, viu Sebastião bater num bezerro sem motivo algum, com tanta força que o animal ficou a coxear durante dias. Pedro, o mais novo, ainda era demasiado pequeno para compreender completamente o que estava a acontecer, mas mesmo assim sentia o clima pesado que começou a dominar a casa.
Acordava de noite com os gritos do pai e corria para o quarto dos irmãos com medo. A inocência dele seria uma das coisas mais trágicas de toda a essa história, mas isso nós ainda vai ver. Enquanto isso, na quinta vizinha, a quinta de São José, vivia a família Oliveira. Seu António Oliveira era um senhor de 55 anos, companheiro de trabalho de Sebastião, havia mais de 20 anos.
Ajudavam-se nas colheitas, trocavam ferramentas, por vezes matavam um porco juntos e partilhavam a carne. Dona A Lourdes, a esposa do António, era uma mulher bondosa que levava sempre quitandas a Joana e as duas se tornaram amigas próximas ao longo dos anos. Os Oliveira tinham quatro filhos. Carlos, de 21 anos, um rapaz trabalhador que sonhava comprar um pedaço de terra próprio um dia.
Ana Paula de 19, que tinha acabado de ficar noiva de um rapaz da cidade chamado Ricardo, Marcelo de 15, que estudava numa escola rural a alguns quilómetros dali, e Luía, a mais nova de 12 anos, uma menina alegre que adorava brincar com o Pedro, o filho mais novo do Sebastião. Foi precisamente o seu António, quem primeiro tentou confrontar Sebastião sobre as mudanças de comportamento.
Uma tarde de sábado, final de julho, foi à quinta Santa Rita levar umas ferramentas que tinha pedido emprestado e encontrou Sebastião sentado na varanda com aquele olhar perdido. António meteu conversa, perguntou se estava tudo bem, se precisava de alguma coisa, mas Sebastião apenas respondeu que estava tudo sob controlo e que devia cuidar da própria vida.
A rispidez da resposta apanhou António de surpresa. Eles nunca tinham brigado, nunca tinham trocado uma palavra mais áspera. Preocupado, António foi embora, mas antes de sair falou rapidamente com a Joana, que estava estender roupa no estendal. Ela confessou que estava preocupada, que o marido não era mais o mesmo, que tinha noites em que ela até tinha medo de dormir ao lado dele.
António prometeu que ficaria de olho, que qualquer coisa ela era só gritar que ele vinha a correr. Afinal, as quintas eram vizinhas, separadas apenas por uma vedação de arame e um pequeno riacho. Agosto chegou trazendo com ele um calor insuportável e uma seca que castigava a região. Os pastos estavam amarelados, o gado sofria com a falta de água e os ânimos de todos começaram a ficar mais exaltados.
Sebastião piorou drasticamente. Joana acordou uma noite e percebeu que não estava na cama. Procurou pela casa e o encontrou no quintal, segurando um machete, olhando fixamente para a porta do galinheiro. Quando ela chamou, ele virou-se lentamente e disse uma coisa que gelou-lhe o sangue. Eles estão a vir. Estão a vir buscar-me, mas eu não vou deixar.
Não vou deixar que ninguém leve o que é meu. A Joana tentou acalmar o marido, disse que ninguém ia levar nada, que era apenas um pesadelo, mas Sebastião a empurrou com força e voltou para dentro de casa. Ela ficou ali parada no meio do quintal, a tremer, não de frio, mas de um medo visceral que começou a crescer dentro dela.
Pela primeira vez em 20 anos de casamento, Joana teve medo do próprio marido. No dia seguinte, ela tentou conversar com a Maria sobre o que tinha acontecido. A menina sugeriu que talvez fosse melhor chamar um médico ou até mesmo o padre da cidade para benzer a casa, para falar com o pai. Mas A Joana tinha vergonha, tinha medo do que os outros iam pensar, daquela mentalidade do interior, onde os os problemas de família devem ficar entre quatro paredes.
Esta decisão de não procurar ajuda seria fatal, mas naquele momento ela não tinha como saber. No dia No dia 8 de agosto, uma quinta-feira, decorreu um incidente que deixou toda a gente em alerta. Sebastião foi à quinta São José e acusou o senhor António de estar roubando água da barragem, que se encontrava na limite das duas propriedades.
António tentou explicar que não tinha feito nada disso, que a água era partilhada entre as duas explorações há décadas, que nunca tinha havido problema com isso. Mas Sebastião não quis ouvir. Ele gritou, praguejou, disse coisas horríveis e foi-se embora, dizendo que não queria mais ver António perto da cerca que dividia as quintas.
A Dona Lourdes ficou chocada quando o marido lhe contou o que tinha acontecido. Ela decidiu ir a casa de Joana no dia seguinte para perceber o que estava a acontecer com aquela família. Quando lá chegou, encontrou a amiga com um roxo no braço. A Joana tentou disfarçar. Disse que tinha batido num canto de móvel, mas Lourdes conhecia marcas de agressão quando via.
Ela segurou nas mãos da amiga e pediu-lhe que ela contasse a verdade. Entre lágrimas, Joana confessou que Sebastião tinha começado a bater-lhe, que a noite anterior ele tinha passado-se porque achou que ela lhe tinha escondido dinheiro, dinheiro que nem sequer existia. Ele tinha virado a casa de pernas para o ar, partiu uns pratos e quando ela tentou acalmá-lo, empurrou-a contra a parede e apertou-lhe o braço com tanta força que deixou aquelas marcas.
Maria tinha intervindo, se colocado entre os pais e foi só por isso que a situação não piorou. Lurdes implorou para que A Joana saísse dali, levasse as crianças e fosse paraa casa dela até Sebastião se acalmar. Mas a Joana não quis. Disse que o marido não era mau, que estava apenas a passar por um momento difícil, que ele ia melhorar.
A Dona Lourdes foi-se embora com o coração apertado, pressentindo que algo terrível estava prestes a acontecer. E de facto, estava. O que ninguém sabia é que Sebastião tinha começado a ouvir vozes. Vozes que diziam para ele que toda a gente estava contra ele, que lhe queriam roubar a terra, o família, tudo o que tinha construído. Vozes que sussurravam no escuro da noite, que o acordavam de madrugada, que não lhe davam paz.
Hoje em dia, nós sabe que provavelmente estava sofrendo de algum tipo de surto psicótico, talvez esquizofrenia, mas nessa época, naquele lugar isolado do interior de Minas, ninguém tinha conhecimento para identificar ou tratar este tipo de doença mental. No dia 15 de Agosto, numa sexta-feira, o Sr. Alfredo Mendes, o proprietário da quinta de Santa Rita, apareceu de surpresa por lá.
Ele vinha fazer a inspeção mensal e recolher o dinheiro da venda do leite. Quando chegou, encontrou a quinta num estado lastimável. O curral estava sujo, alguns animais claramente doentes à ordenha atrasada. Alfredo chamou Sebastião para conversar e perguntou o que raio estava ali acontecendo. Sebastião respondeu de forma agressiva.
Disse que estava fazendo o seu trabalho, que o seu patrão não estava satisfeito que arrumasse outro caseiro. A insolência pegou Alfredo completamente de surpresa. Sebastião sempre tinha sido um funcionário exemplar, trabalhador, honesto, respeitador. Esse comportamento era totalmente fora do normal. Alfredo ameaçou despedi-lo se as coisas não melhorassem e foi-se embora nervoso, sem saber que tinha acabado de acender o pavio de uma bomba relógio que estava prestes a explodir.
Assim que Alfredo saiu, Sebastião entrou em casa como um furacão. A Joana tentou acalmá-lo, mas ele empurrou-a de novo. Desta vez com mais violência, Maria interveio novamente e levou uma bofetada na cara que a atirou no chão. O João tentou defender a irmã e também apanhou. O Pedro começou a chorar desesperado.
O caos tinha-se instalado completamente naquela casa e o pior ainda estava para vir. Naquela noite, Sebastião não dormiu. Ele ficou sentado na sala, numa cadeira velha de madeira, segurando uma espingarda calibre 12 que utilizava para espantar os predadores do gado. As vozes na sua cabeça eram mais elevadas do que nunca, dizendo que ele precisava de proteger o que era seu, que iam vir, que todos estavam conspirando contra ele.
A Joana e as crianças trancaram-se no quarto, aterrorizados, esperando-o amanhecer. O sábado, dia 16 de agosto, amanheceu com um céu sem nuvens e um sol abrasador. A Joana acordou cedo, mesmo sem ter dormido descansado, e foi preparar o café. Sebastião ainda estava sentado na mesma cadeira com a espingarda ao colo, os olhos vermelhos de cansaço e de algo mais, algo sombrio que tinha tomado conta dele.
Ela pousou o café na mesa, chamou as crianças e todos tomaram o pequeno-almoço em completo silêncio, com medo de dizer qualquer coisa que pudesse provocar outra explosão. Depois do café, O João saiu para cuidar dos animais, como sempre o fazia. A Maria ficou a ajudar a mãe a lavar a loiça. O Pedro foi brincar para o quintal com um carrinho de madeira que o irmão lhe tinha feito.
Sebastião continuou sentado, imóvel, como uma estátua perturbadora. Lá pela metade da manhã, por volta das 10 horas, chegou à quinta de Santa Rita um primo de Sebastião chamado José Roberto. Ele tinha vindo da cidade especialmente para visitar o primo, uma vez que tinha ouvido através de familiares que Sebastião não andava bem.
José Roberto era um homem com cerca de 35 anos, casado, pai de dois filhos, que trabalhava como mecânico em Montes Claros e sempre teve uma relação de proximidade com Sebastião. Quando José Roberto desceu da velha carrinha que conduzia, achou estranho o silêncio que dominava a quinta.
Normalmente tinha sempre um movimento, o barulho dos animais, alguém a trabalhar, mas naquele momento tudo parecia parado no tempo. Ele caminhou até à casa e encontrou Sebastião, ainda sentado naquela cadeira com a espingarda no colo. José Roberto tentou puxar conversa, perguntou como estava o primo, comentou sobre a família, tentou ser casual, mas Sebastião mal respondia, apenas resmungava monossílabos.
José Roberto olhou para Joana, que estava na cozinha, com uma expressão de terror no rosto, e percebeu que a situação era muito mais grave do que ele imaginava. Decidiu tentar uma abordagem diferente e sugeriu que Sebastião fosse com ele até à cidade, dar uma volta, beber uma cerveja, conversar, sair um pouco daquele ambiente.
Foi quando Sebastião reagiu finalmente. Ele levantou-se da cadeira num movimento brusco, apontou a espingarda ao primo e gritou-lhe para sair dali, que ele fazia parte da conspiração, que tinha vindo ali para espiar, para ajudar os outros a roubar-lhe tudo. José Roberto levantou as mãos, tentou acalmar o primo, disse que só queria ajudar, mas Sebastião estava fora de controlo.
Joana começou a chorar, implorou ao marido largar a arma, disse que o José Roberto era da família, que nunca faria mal a eles. Maria também implorou, segurando o braço do pai. Foi quando Sebastião fez algo que deixou todos paralisados. Ele engatilhou a espingarda e apontou para própria filha.
O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. Durante alguns segundos que pareceram uma eternidade, ninguém se mexeu, ninguém respirou. Foi João quem quebrou o transe. Ele apareceu à porta da cozinha vindo do quintal e sem compreender completamente o que estava a acontecer, mas vendo a espingarda apontada à irmã, gritou pelo pai. Sebastião virou-lhe a arma.
José Roberto aproveitou a distração e correu para fora da casa. Entrou na carrinha e saiu dali a alta velocidade, levantando uma nuvem de poeira vermelha na estrada de terra batida. dentro da casa, Sebastião baixou a arma lentamente. Ele olhou para a família ao redor dele, para esposa que chorava, às filhas que tremiam, para o filho que o encarava com um misto de medo e decepção.
Por um breve momento, pareceu que algo de a lucidez voltou aos olhos dele. Ele colocou a espingarda encostada à parede e saiu de casa sem dizer uma palavra, caminhando em direção ao celeiro. Joana aproveitou aquele momento e reuniu as crianças. Ela disse que precisavam sair dali, que iam paraa casa dos Oliveira, ficar lá até o pai melhorar.
Maria concordou imediatamente João também, mas quando se estavam a preparar para sair, ouviram a carrinha da quinta ligar. Sebastião tinha decidido sair. Viram pela janela quando ele passou a alta velocidade, levantando poeira, indo em direção à estrada principal. A Joana sentiu um alívio momentâneo, pensando que talvez ele tivesse ido atrás do primo para se desculpar, ou, quem sabe até seguido, o conselho de ir para a cidade acalmar-se.
Mas esse alívio duraria pouco. Enquanto isso, o José Roberto tinha ido logo para quinta dos Oliveira, a mais próxima. Estava completamente transtornado, suando frio, processando ainda o que tinha acabado de acontecer. Quando chegou lá, bateu à porta desesperadamente. A Dona Lourdes atendeu e assustou-se com o estado do rapaz.
José O Roberto contou tudo, que o Sebastião tinha apontado-lhe uma espingarda, para própria família, que o homem tinha pirado completamente, que alguém precisava de fazer alguma coisa antes que acontecesse uma tragédia. Seu António, que ouviu a conversa, decidiu que era tempo de agir. Ele pegou na própria espingarda, não para usar contra Sebastião, mas para se proteger caso fosse necessário, e disse que ia até lá ver como estava a situação, trazer a Joana e as crianças, se fosse necessário.
Lurdes implorou ao marido para ter cuidado e os filhos do casal, que também ouviram tudo, ficaram preocupados. Carlos, o filho mais velho, ofereceu-se para ir juntamente com o pai. Ana Paula ficou a rezar na sala juntamente com a mãe. Marcelo e Luía, os mais novos, ficaram assustados. mas tentaram manter a calma.
José Roberto disse que ia voltar à cidade, buscar ajuda, talvez a polícia, alguém que pudesse internar Sebastião, fazer alguma coisa. Mas antes que qualquer um pudesse fazer qualquer movimento, ouviram o barulho de uma carrinha se aproximando-se em alta velocidade. Era Sebastião. Ele tinha voltado, mas não para casa dele.
Tinha vindo direto para quinta de São José. Quando a carrinha parou em frente à casa dos Oliveira, levantando uma nuvem de poeira vermelha, todos perceberam que Sebastião estava diferente. Ele desceu do veículo transportando não só a espingarda, mas também um machete preso à cintura e uma expressão no rosto que já não era humana.
Era a expressão de alguém que tinha cruzado uma linha da qual não havia retorno. O senhor Antônio saiu de casa ainda tentando dialogar, ainda acreditando que podia resolver aquilo com conversa. Chamou Sebastião pelo nome, disse que era um velho amigo dele, que estavam ali para ajudar, não para fazer mal. Mas Sebastião não respondeu com palavras.
Ele levantou a espingarda e disparou. O tiro apanhou António em cheio no peito. O impacto atirou-o para trás e ele caiu na varanda da própria casa. Aos olhos horrorizados da família, A Lurdes gritou desesperada e correu para o marido. O Carlos também correu tentando arrastar o pai para dentro de casa. Foi quando Sebastião disparou novamente.
O segundo tiro atingiu Carlos nas costas. O rapaz de 21 anos, que sonhava ter a própria terra, que tinha toda a vida pela frente, caiu ao lado do pai. Dona Lourdes estava em absoluto choque, não conseguia processar o que estava acontecendo. A Ana Paula apareceu à porta e começou a gritar, chamando pelos irmãos mais novos para se esconderem.
Sebastião recarregou a espingarda com uma calma aterradora e caminhou em direção à casa. José Roberto, que tinha ficado paralisado de medo dentro da casa, finalmente reagiu e correu pela porta dos fundos. saltou a cerca do quintal e saiu a correr em direção ao mato. Sebastião viu-o fugindo, mas decidiu não perseguir.
Tinha outros planos. Dentro da casa, a dona Lourde se arrastou até aos corpos do marido e do filho, chorando, suplicando-lhes acordarem, mas nenhum dos dois se mexia. O Seu Antônio tinha morrido instantaneamente. Carlos ainda respirava, mas estava gravemente ferido, a sangrar muito em choque. Ana Paula apanhou os irmãos mais novos, Marcelo e Luía, e tentou levá-los para o quarto, trancar a porta, criar alguma barreira entre eles e aquele monstro que tinha invadido a sua casa.
Mas Sebastião entrou pela porta da frente como se fosse o dono do lugar. A Dona Lourde se atirou-se para a frente dele, implorou para que ele não magoasse as crianças, ofereceu a própria vida em troca. Sebastião a empurrou com violência e ela caiu batendo com a cabeça numa esquina de móvel, ficando inconsciente.
Ele seguiu então em direção aos quartos. A Ana Paula tinha conseguido trancar a porta e estava encostada a ela juntamente com Marcelo, tentando segurá-la enquanto Luía chorava encolhida num canto. Sebastião pontapeou a porta uma, duas, três vezes, até que ela cedeu. Quando entrou no quarto, a Ana A Paula tentou raciocinar com ele.
Disse que ia casar, que tinha uma vida inteira pela frente, que nunca não lhe tinham feito nada de mal. Mas as vozes na cabeça de Sebastião eram mais elevadas do que qualquer súplica. Ele levantou a espingarda e disparou. Ana Paula, a noiva que sonhava com o seu casamento, caiu no chão. Marcelo tentou correr, mas Sebastião era mais rápido.
Usou o facão desta vez, um golpe brutal que não vou descrever em pormenor por respeito às vítimas. Luía, a menina de 12 anos que adorava brincar com Pedro, tentou esconder-se debaixo da cama, mas Sebastião arrastou-a para fora e o que aconteceu a seguir foi horrível demais para colocar em palavras. Entretanto, na fazenda Santa Rita, A Joana e as crianças tinham ouvido os tiros ao longe.
Eles sabiam que vinham da direcção da quinta dos Oliveira. Joana entrou em pânico, percebendo que Sebastião tinha ido até lá. Ela pegou nos filhos e correu para o celeiro, tentando se esconder, rezando para que o marido não voltasse, ou se voltasse, que não os encontrasse. Mas Sebastião voltou depois de terminar com a família Oliveira, depois de deixar cinco pessoas mortas naquela casa, incluindo a dona Lourdes, que acabou por morrer do ferimento na cabeça, voltou para a própria fazenda.
Ele sabia exatamente onde a família estava escondida. conhecia cada canto daquela propriedade. Ele estacionou a carrinha e caminhou lentamente em direção ao celeiro, recarregando a espingarda enquanto caminhava. Dentro do celeiro, Joana abraçava os três filhos, tentando abafar os sons do choro de Pedro. A Maria estava a rezar baixinho.
O João tinha encontrado uma velha foice e segurava-a com as mãos a tremer, decidido a defender a mãe e os irmãos. Quando Sebastião abriu a porta do celeiro, a luz do sol da tarde entrou juntamente com ele, criando uma silhueta sombria que ficaria gravada na memória de qualquer pessoa que visse, mas ninguém sobreviveria para contar.
Joana implorou de joelhos às crianças dela pelos anos de casamento, pelo amor que um dia ele teve por ela. A Maria chorou. O João gritou. O Pedro escondeu-se atrás da mãe. Sebastião disparou a primeira vez contra Joana. A mulher que tinha dividido a vida com ele durante 20 anos, que lhe tinha dado três filhos, que tinha ficado ao lado dele nos bons e maus momentos, caiu sem sequer compreender porque é que o homem que ela amava tinha-se tornado aquele monstro.
João, num ato de coragem desesperada, correu com a foice levantada, tentando defender o que restava da família. Sebastião virou-se e disparou, e o rapaz de 14 anos, que sonhava cuidar de cavalos, caiu ao lado da mãe. Paria tentou correr, mas Sebastião segurou-a pelo braço. Ela olhou nos olhos do pai, procurando algum vestígio do homem que ela conhecia, mas só encontrou vazio.
O tiro que veio a seguir encerrou a vida da rapariga que queria estudar na cidade. Pedro, o O pequeno Pedro de 9 anos, estava encolhido a um canto, chorando, chamando pela mãe. Sebastião caminhou até ele, olhou para o filho mais novo e, por um momento, apenas um breve momento, algo pareceu mudar na sua expressão. Suas mãos tremeram.
A espingarda vacilou, mas as vozes voltaram gritando na cabeça dele, dizendo que precisava completar o que tinha começado, que não podia deixar testemunhas, que todos faziam parte da conspiração. Sebastião fechou os olhos e disparou pela última vez. O silêncio que se seguiu foi absoluto. Sebastião ficou ali parado no meio do celeiro, rodeado pelos corpos de a sua própria família.
Ele soltou a espingarda que caiu no chão de terra batida batida. Olhou para cima, para o teto do celeiro, para o céu que era visível através das fendas das tábuas de madeira. As vozes tinham finalmente parado e então, como se acordasse de um pesadelo, Sebastião apercebeu-se do que tinha feito. Olhou para as mãos sujas de sangue, olhou para os corpos ao redor e a realidade do horror que tinha cometido caiu sobre -lo como uma tonelada de tijolos.
Ele caiu de joelhos, começou a gritar, a chorar, a debater-se. Foi nesse estado que José Roberto o encontrou. Mais de uma hora depois, quando finalmente voltou com a polícia, José Roberto tinha corrido até à cidade, tinha ido direto na esquadra, tinha contado tudo ao delegado, que inicialmente teve dificuldade em acreditar na história, mas a urgência no tom de José Roberto e os detalhes específicos convenceram-no a agir.
Quando chegaram à quinta São José, encontraram uma cena de horror. Cinco corpos espalhados pela casa, sangue por todo o lado. Um cenário que pareceu ter saído de um filme de terror. delegado. Um homem experiente que tinha visto muita coisa na vida, ficou pálido. Os polícias mais jovens tiveram de sair para vomitar. Seguiram então para quinta de Santa Rita, já esperando o pior.
E o pior é mesmo o que encontraram. Sebastião estava sentado no chão do celeiro, abraçado ao corpo do filho mais novo, balançando para a frente e para trás, murmurando coisas sem sentido. Ele não reagiu quando os polícias entraram. Não resistiu quando lhe colocaram as algemas. Parecia um homem que tinha morrido por dentro, um corpo vazio, uma casca.
A notícia da chassina espalhou-se pela região como fogo em palha seca. 13 pessoas mortas, uma família inteira exterminada, outra família massacrada. E o autor das mortes era um homem que todos conheciam como trabalhador, honesto, pacífico. Como isso tinha acontecido? Como é que alguém podia mudar tanto? Eram perguntas que todos faziam, mas que ninguém conseguia responder completamente.
Sebastião foi levado paraa esquadra de Montes Claros, onde ficou completamente catatónico. Não falava, não comia, apenas ficava a olhar para a parede. Um médico foi chamado e diagnosticou um colapso mental grave. Foi transferido para um hospital psiquiátrico em Belo Horizonte, onde passaria os próximos meses sob observação enquanto aguardava o julgamento.
O caso chocou todo o Estado de Minas Gerais. Os jornais da época estamparam manchete sobre a tragédia. Reportagens foram feitas, teorias foram criadas. Uns diziam que Sebastião tinha feito um pacto com o diabo, outros que tinha sido envenenado aos poucos por algum vizinho invejoso. Tinha quem jurasse que ele se tinha mexido com macumba, que as coisas tinham voltado contra ele.
Mas a verdade, como geralmente acontece, era mais simples e mais triste. Era doença mental não tratada. Num tempo e num lugar onde este simplesmente não era reconhecido ou levado a sério. Os velórios foram realizados na Igreja Matriz de Montes Claros, 13 caixões, a igreja repleta de pessoas a chorar, pessoas que conheciam as vítimas, pessoas que tinham convivido com aquelas famílias.
O padre que conduziu a cerimónia chorou junto com os fiéis. Nunca tinha visto tanta dor concentrada num só lugar. O Sr. Alfredo Mendes, o proprietário da quinta de Santa Rita, também compareceu no velório. Ele se sentia parcialmente responsável. achava que se não tivesse ameaçado despedir Sebastião, talvez nada disto tivesse acontecido.
Mas como é que ele ia saber? Como alguém ia saber que um simples confronto por causa do trabalho ia ser a gota d’água que faltava para transbordar a loucura que já dominava a mente dos Sebastião? Ricardo, o noivo de Ana Paula, estava destruído. Ele tinha passado a semana toda a escolher as alianças de casamento, planear a lua de mel, sonhando com o futuro ao lado dela.
E agora ela foi-se brutalmente arrancada da sua vida e nem teve hipótese de se despedir. Ele ficou parado em frente ao caixão dela durante horas, segurando a sua mão fria, chorando silenciosamente. As pessoas da região ficaram com medo. Muitos agricultores começaram a dormir com armas debaixo do travesseiro. vizinhos que antes se visitavam livremente, agora olhavam uns para os outros com desconfiança.
A chacina tinha destruído não só as duas famílias envolvidas, mas também o sentido de segurança e comunidade que existia naquela zona rural. José Roberto nunca recuperou completamente do trauma. Tinha escapado por pouco. Tinha visto o primo que amava se transformar num monstro. Tinha visto pessoas morrerem.
Ele começou a ter pesadelos todas as noites, acordava gritando, suando frio, desenvolveu um medo paralisante de armas de fogo e nunca mais conseguiu voltar numa quinta sem ter um ataque de pânico. Enquanto que, no hospital psiquiátrico de Belo Horizonte, Sebastião começou a mostrar sinais de melhoria. Não que tivesse ficado curado longe disso, mas ele voltou a falar, a comer, a ter alguma consciência do que estava à volta.
Foi quando começaram as avaliações psiquiátricas mais profundas. Os médicos descobriram que Sebastião tinha história familiar de doenças mentais. O O seu avô paterno tinha passado os últimos anos de vida num manicómio diagnosticado com o que na altura chamavam de loucura. Um tio também tinha tido episódios de surtos violentos, mas esta informação nunca tinha sido levada em consideração, porque nessa altura, no interior, estas coisas eram tabu, eram escondidas da sociedade.
Os exames revelaram que Sebastião sofria de esquizofrenia paranóide, uma doença que provavelmente estava latente e foi desencadeada por uma combinação de stress, privação de sono e, possivelmente, algum evento traumático que nunca revelou. As vozes que ele ouvia, a paranóia de que todos estavam contra ele, as alucinações, tudo fazia parte do quadro clínico da doença, mas compreender a doença não apagava os crimes.
13 pessoas estavam mortas, 13 vidas foram tiradas de forma brutal e a sociedade queria justiça. E aí, pessoal, está a conseguir acompanhar toda essa tragédia? Se tá impressionado com essa história, deixa lá aquele like por baixo e partilha com alguém que aprecia histórias verdadeiras. Mas, ó, se prepara porque ainda não acabou e o final é de arrepiar.
O julgamento de Sebastião Ferreira da Costa decorreu em Março de 1985, 7 meses depois do massacre. O tribunal estava lotado. Havia gente que tinha viajou de longe só para ver o julgamento do homem que tinha chocado o país inteiro. A segurança foi reforçada porque havia ameaças de que os familiares das vítimas poderiam tentar fazer justiça com as próprias mãos.
Quando Sebastião entrou no tribunal algemado, escoltado por quatro polícias, um silêncio pesado dominou o ambiente. Ele estava irreconhecível. Tinha emagrecido uns 20 kg. O cabelo estava branco, os olhos fundos, a pele pálida. Parecia um fantasma do homem que tinha sido. A defesa composta por um advogado nomeado pelo Estado, Jaque Sebastião não tinha recursos para contratar um particular, alegou insanidade mental.
apresentaram relatórios psiquiátricos, histórico familiar, testemunhos de pessoas que tinham notado as alterações no O comportamento dele nas semanas anteriores à tragédia. O argumento era que Sebastião não tinha plena consciência dos seus atos no momento dos crimes, que estava sobal grave. A acusação, por outro lado, pintou um quadro diferente.
Argumentaram que Sebastião tinha premeditado os assassinatos, que tinha voltado a casa especificamente para procurar mais munições, que tinha caçado cada uma das vítimas de forma calculada, que ele sabia exatamente o que estava a fazer e mesmo assim escolheu fazê-lo. Apresentaram testemunhas que disseram que Sebastião tinha feito ameaças nas semanas anteriores, mostrando que havia intenção. O julgamento durou cinco dias.
Foram dias intensos, com depoimentos emocionados, provas chocantes, fotos dos cenas dos crimes que fizeram vários jurados virarem a cara com nojo. José Roberto testemunhou, contando entre lágrimas como o primo tinha apontado a arma para ele. Vizinhos testemunharam sobre as mudanças de comportamento. Os médicos explicaram sobre a esquizofrenia, mas também admitiram que mesmo doente, em alguns momentos, Sebastião parecia ter consciência do que estava a fazer.
A questão central era: até que ponto a A doença mental pode ser utilizada como justificação para crimes tão ediondos? Era uma pergunta difícil que dividia opiniões. Alguns achavam que ele devia ser internado num hospital psiquiátrico para o resto da vida. Outros achavam que merecia a prisão perpétua ou até a pena de morte se ela existisse no Brasil.
Sebastião, durante todo o julgamento, ficou apático. Ele ouvia os testemunhos via as fotos, ouvia as descrições dos crimes, mas não demonstrava qualquer emoção. Era como se tivesse desligado completamente da realidade. Só reagiu uma vez quando mostraram uma foto de Pedro, o filho caçula. Fechou os olhos e começou a balançar para a frente e para trás, murmurando o nome do menino.
No quinto dia, chegou a hora dos veredictos. O juúri, composto por sete pessoas, se reuniu para deliberar. Eles ficaram fechados numa sala durante mais de 6 horas, debatendo, analisando as evidências, tentando chegar a uma conclusão justa. Era um peso enorme nas costas deles decidir o destino de um homem que tinha cometido crimes tão terríveis, mas que era também claramente doente mental.
Quando finalmente regressaram, o silêncio em tribunal era absoluto. Dava para ouvir o barulho da respiração das pessoas. O juiz perguntou se tinham chegado a um veredicto. O porta-voz do Jurri, um senhor com cerca de 60 anos que tinha sido agricultor a vida inteira e conhecia a realidade do interior. Se levantou. Culpado disse.
Culpado de 13 homicídios qualificados. Um murmúrio percorreu o tribunal. Algumas pessoas festejaram discretamente, outras ficaram em silêncio, processando. A defesa esperava pela parte da sentença, onde o juia recomendar tratamento psiquiátrico em vez de prisão comum, mas a recomendação não veio. O juiz então proferiu a sentença.
Sebastião Ferreira da Costa foi condenado a 390 anos de prisão, 30 anos por cada uma das 13 vítimas, que era a pena máxima na época. Cumpriria a pena em regime fechado, numa penitenciária de segurança máxima, com direito a tratamento psiquiátrico, mas sem possibilidade de sair antes de cumprir o máximo legal, que no Brasil era de 30 anos.
Sebastião não reagiu quando ouviu a sentença. Ele apenas baixou a cabeça, foi levado de volta paraa cela e dias depois transferido paraa penitenciária José Maria Alkim em Ribeirão das Neves, conhecida como uma das mais duras do Estado. Nos primeiros meses na prisão, Sebastião foi mantido em isolamento por questões de segurança.
Os outros presos tinham ouvido falar do caso e queriam fazer justiça, especialmente aqueles que tinham filhos. Recebia ameaças constantes. Mesmo entre criminosos. Havia um código e matar crianças era considerado imperdoável. Mas algo começou a mudar em Sebastião passados alguns meses. Talvez fosse o tratamento psiquiátrico regular, talvez fosse o ambiente controlado da prisão, talvez fosse simplesmente o tempo a processar tudo o que tinha acontecido.
Começou a ter plena consciência do que tinha feito e que consciência destruiu-o por dentro de uma forma que nenhum castigo externo conseguiria. Passou a ter pesadelos todas as noites. Acordava gritando, vendo os rostos da esposa, dos filhos, dos vizinhos, que tinha assassinado. começou a recusar-se a comer, dizendo que não merecia viver.
Tentou matar-se três vezes nos primeiros dois anos de prisão. Uma vez tentando enforcar-se com o lençol, outra cortando os pulsos com um pedaço de metal que encontrou e uma terceira vez a tentar atirar-se da escada do pavilhão. Os psiquiatras da prisão aumentaram a medicação, intensificaram as sessões de terapia.
Sebastião começou a falar sobre aquele dia, sobre as vozes que ouvia, sobre como tinham convencido ele de que toda a gente queria destruí-lo. Chorava compulsivamente, pedia perdão para fantasmas que só ele via. Passava horas ajoelhado a rezar. Fora da prisão, a vida continuava, mas as marcas da tragédia permaneciam. As As explorações Santa Rita e São José foram abandonadas.
Ninguém queria viver ou trabalhar lá. O Sr. Alfredo Mendes tentou vender a propriedade, mas ninguém tinha interesse em comprar uma terra manchada com tanto sangue. As casas foram depredadas com o tempo, tornaram-se refúgio de animais e alvo de histórias de assombração que as crianças da região contavam.
Diziam que nas noites de lua cheia ouvia-se os gritos das vítimas, que a alma de Sebastião deambulava entre as duas quintas, condenado a reviver para sempre o horror que tinha causado. Que estranhas luzes apareciam nos celeiros? Claro que eram apenas histórias, superstições, mas mostravam como aquele acontecimento tinha marcado profundamente o imaginário local.
José O Roberto nunca mais foi o mesmo. Ele se divorciou-se da esposa alguns anos depois, porque simplesmente já não conseguia conectar emocionalmente com ninguém. Começou a beber pesado, perdeu o emprego de mecânico, acabou por se tornar um morador de rua em Montes Claros. Pessoas que tinham-no conhecido antes da tragédia já não o reconheciam.
Ele tinha-se tornado uma sombra, um sobrevivente que carregava o peso de ter visto o inferno e vivido para contar. Ricardo, o noivo de Ana Paula, também nunca recuperou completamente. Ele eventualmente conheceu outra mulher e casou. Teve filhos, mas admitiu anos mais tarde que nunca tinha amado ninguém da forma que tinha amado a Ana Paula.
Todos os anos no aniversário da sua morte, ele visitava o túmulo e passava ali horas a conversar com ela, pedindo desculpa por estar vivo quando ela não estava. Os parentes distantes das famílias Ferreira e Oliveira tiveram de lidar com o estigma. As crianças na escola sofriam bullying por estarem relacionadas com o assassino da quinta.
Alguns mudaram de apelido, outros mudaram-se para longe, tentando recomeçar em locais onde ninguém conhecia a história. Passou-se uma década. Sebastião continuava preso, mas agora em melhores condições. Ele tinha sido transferido para um pavilhão onde ficavam presos mais velhos e menos perigosos.
continuava a tomar medicação, a fazer terapia e tinha até começado a trabalhar na biblioteca da prisão, organizando livros, ajudando outros reclusos que queriam estudar. Ele tinha-se tornado uma figura quase fantasmagórica dentro da penitenciária. Falava pouco, mantinha-se isolado, passava a maior parte do tempo a ler a Bíblia, tinha encontrou na religião uma forma de lidar com a culpa esmagadora que carregava.
Dizia que tinha conversas com Deus pedindo perdão, sabendo que provavelmente nunca seria perdoado. Em 1994, 10 anos depois da tragédia, Sebastião recebeu uma visita inesperada. Era uma mulher jovem de cerca de 25 anos, acompanhada de um advogado. Ela identificou-se como prima de Maria, a filha que tinha matado. Sebastião ficou pálido ao vê-la.
tremeu, tentou levantar-se para ir embora, mas ela pediu-lhe que ficasse. Disse que precisava de falar com ele. A mulher explicou que tinha crescido ouvindo histórias sobre a prima que nunca conheceu pessoalmente, uma vez que vivia em outro estado. Mas a história da chacina tinha marcado a sua vida também.
Tinha-a feito questionar sobre o perdão, sobre a justiça, sobre doença mental. Ela tinha-se formado em psicologia precisamente por causa disso e agora trabalhava com pessoas com perturbações mentais graves. Ela disse que não estava ali para o perdoar, porque isso não lhe cabia, mas estava ali para tentar perceber, para ver o homem por detrás do monstro, para ver o doente por detrás do criminoso.
Sebastião chorou, tentou falar, mas as palavras não saíam. Finalmente conseguiu dizer que lamentava, que se pudesse voltar atrás no tempo, que se pudesse ter procurado ajuda antes, mas não é possível recuar no tempo. Não dá para desfazer o que foi feito. As 13 pessoas continuavam mortas, as famílias continuavam destruídas e Sebastião continuava vivo, carregando um fardo que nenhum ser humano deveria ter de carregar, a vívida recordação de ter matado a própria família e as pessoas que considerava amigas. A conversa durou quase 2 horas.
No final, a mulher levantou-se, olhou fundo nos olhos dele e disse algo que o apanhado completamente de surpresa. Eu espero que um dia consiga se perdoar, porque ninguém merece viver no inferno que criou para si e foi-se embora. Sebastião ficou ali sentado sozinho na sala de visitas, processando aquelas palavras: “Perdoar-se a si próprio? Como? Como é que alguém se perdoa por algo tão horrível?” Voltou para a cela pensando nisso e continuou a pensar pelos meses que se seguiram.
Em 1997, 13 anos depois dos crimes, Sebastião começou a apresentar problemas de saúde graves. Tinha desenvolvido cancro no pulmão, provavelmente resultado de décadas fumando. O cancro se espalhou rapidamente, atingindo outros órgãos. Os médicos da prisão disseram que tinha máximo seis meses de vida. Houve um movimento de alguns grupos religiosos e dos direitos humanos, pedindo-lhe que fosse libertado por questões humanitárias para morrer fora da prisão.
Mas a oposição foi feroz. familiares das vítimas protestaram, dizendo que ele não merecia nenhuma compaixão, que tinha de morrer na prisão, mesmo que fosse o mínimo de justiça que as vítimas mereciam. A justiça negou o pedido de liberdade. Sebastião Ferreira da Costa morreria na prisão, como estava determinado pela sentença.
E foi exatamente o que aconteceu. Numa noite de novembro de 1997, aos 55 anos de idade, Sebastião teve uma paragem cardiorrespiratória decorrente do cancro avançado. Ele estava sozinho na enfermaria da penitenciária quando morreu. Dizem que as últimas palavras que ele murmurou delirando foram os nomes da sua mulher e filhos.
Não houve velório, não houve cerimónia. O corpo foi cremado e as cinzas enterradas num cemitério de indigentes. Ninguém compareceu, ninguém chorou. Sebastião Ferreira da Costa deixou este mundo da mesma forma que tinha vivido os últimos 13 anos, completamente sozinho. José Roberto, que se tinha tornado um alcoólico e sem-abrigo, soube da morte do primo através de um jornal velho que encontrou num lixo.
Ele olhou para notícia pequena no canto da página e não sentiu nada, nem raiva, nem tristeza, nem alívio, apenas um vazio profundo. Tomou mais um gole de cachaça e continuou a sua caminhada sem destino pelas ruas de Montes Claros. Ricardo, o noivo de Ana Paula, também soube da morte. Estava em casa a jantar com a esposa e os dois filhos quando viu o notícia na televisão.
Ele parou de comer, ficou a olhar fixamente para o ecrã. A esposa perguntou-lhe se estava bem. Ele apenas assentiu e continuou a comer, mas todos à mesa repararam nas lágrimas silenciosas que escorriam pelo rosto dele. As explorações de Santa Rita e São José continuam abandonadas até hoje. São ruínas cobertas de mato, paredes descascadas, tetos caídos.
Um memorial foi erguido à entrada da cidade de Montes Claros, em memória das 13 vítimas. tem os nomes de todos, as suas idades e uma frase, para que nunca esqueçamos o valor de reconhecer e tratar o sofrimento mental, porque esta é a verdadeira lição desta tragédia toda. Não foi um mal puro, não foi possessão demoníaca, não foi bruxaria ou maldição, foi doença mental não tratada, ignorada, escondida pela vergonha e falta de conhecimento.
Foi um homem que estava claramente gritando por ajuda através de o seu comportamento, mas ninguém soube reconhecer os sinais ou teve os recursos para intervir a tempo. As vozes na cabeça de Sebastião eram reais para ele. O medo paranóico de que todos estivessem conspirando contra ele era real para ele.
Ele estava a viver num inferno mental que mais ninguém podia ver ou compreender. E quando esse inferno finalmente transbordou, o resultado foi uma das maiores tragédias da história do interior de Minas Gerais. Hoje em dia, com os avanços da psiquiatria, com a maior consciencialização sobre saúde mental, com mais recursos disponíveis, talvez uma tragédia destas pudesse ser evitada.
Talvez Sebastião pudesse ter sido diagnosticado, medicado, tratado. Talvez 13 pessoas ainda estivessem vivas. Mas o talvez não muda o passado, não traz ninguém de volta. Não apaga a dor das famílias que perderam os seus entes queridos de forma tão brutal. José Roberto morreu em 2003, aos 62 anos, de cirrose hepática.
foi encontrado numa rua do centro de Montes Claros, sozinho, sem ninguém que o chorasse. Alguns dizem que morreu de coração partido, muito antes de o corpo finalmente desistir. Ele nunca conseguiu superar o trauma de ter visto o primo que ele amava transformar-se num assassino, de ter fugido enquanto outras pessoas eram mortas, de carregar a culpa de sobrevivente que o perseguiu até ao último dia.
Ricardo viveu até 2015, chegou aos 70 anos nas entrevistas que deu ao longo da vida. Sempre que questionado sobre a Ana Paula, dizia a mesma coisa. Uma parte de mim morreu nesse dia, em agosto de 1984. A parte que acreditava que o amor conquista tudo, que a vida é justa, que as pessoas boas merecem finais felizes. Aprendi da pior forma possível que o mundo não funciona assim.
Os poucos parentes afastados que sobraram das As famílias Ferreira e Oliveira carregam até hoje o peso do apelido. Alguns falam abertamente sobre o caso, participam em documentários, dão entrevistas, acreditando que é importante manter a memória viva para que tragédias como esta não se repitam. Outros mudaram de nome, afastaram-se completamente, tentando construir vidas novas longe da sombra daquele Agosto de 1984.
A chassina da zona rural de Montes Claros ficou marcada como um dos casos mais chocantes de violência familiar no Brasil. É estudada em cursos de psicologia, psiquiatria, direito. É um lembrete sombrio do que pode acontecer quando as doenças mentais são ignoradas, quando os sinais de alerta são negligenciados, quando as pessoas têm medo ou vergonha de procurar ajuda.
Porque no final do dia esta história não é sobre um monstro. É sobre um homem doente que se tornou um monstro porque não recebeu o tratamento de que necessitava. É sobre uma sociedade que não estava preparada para lidar com a saúde mental. É sobre vidas perdidas que poderiam ter sido guardadas.
É sobre Joana, a esposa fiel que amou o marido até ao último segundo. Sobre Maria, a jovem que sonhava estudar. Sobre o João, o menino que amava os cavalos. Sobre Pedro, a criança inocente de 9 anos. Sobre o seu António, o amigo leal. Sobre a dona Lurdes, a vizinha bondosa. Sobre Carlos, o filho trabalhador. Sobre a Ana Paula, a noiva esperançosa.
Sobre Marcelo, o estudante dedicado. Sobre Luía, a menina alegre. Sobre todas as 13 vidas que foram brutalmente interrompidas naquele dia de agosto de 1984. As suas memórias permanecem não apenas no memorial de pedra à entrada da cidade, mas nas histórias que ainda são contadas, nas lágrimas que ainda são derramadas, nas lições que ainda precisam de ser aprendidas.
Elas merecem ser lembradas não apenas como vítimas de uma tragédia, mas como pessoas reais que viveram, amaram, sonharam e cujas vidas tinham valor e significado. E Sebastião, ora, Sebastião também era uma vítima de uma forma diferente, vítima de uma doença que não escolheu ter, de circunstâncias que não soube controlar, de um sistema que falhou em protegê-lo de si mesmo.
Mas ser vítima não apaga a responsabilidade pelos atos praticados, não traz ninguém de volta, não cura as feridas que deixou. No final, todos os perderam. Não houve vencedores nesta história. Apenas dor, trauma, vidas destruídas e memórias que assombram até hoje aqueles que viveram para testemunhar. As quintas abandonadas continuam lá, sendo lentamente reclamadas pela natureza.
O mato cresce sobre as fundações das casas. Árvores brotam onde antes existiam varandas. Os animais selvagens fazem ninhos nos telhados caídos. A natureza segue o seu curso, indiferente à tragédia humana que aconteceu ali. Mas se for lá numa noite silenciosa, quando o vento sopra através das ruínas, há quem diga que ainda é possível ouvir ecos do passado.
O riso de uma criança, a voz de uma mãe chamando os filhos para jantar, o ruído de ferramentas de trabalho, a vida que existia antes de agosto de 1984. E talvez, apenas talvez, estes ecos servir como um lembrete. Um lembrete de que precisamos de prestar atenção aos sinais, de que precisamos de cuidar da saúde mental tanto quanto cuidamos da saúde física, de que precisamos de ter compaixão por aqueles que sofrem com doenças invisíveis e de que precisamos agir antes que seja tarde demais.
Porque se algo de positivo pode emergir de uma tragédia tão devastadora, é a consciência de que as vidas podem ser salvas, que famílias podem ser preservadas, que histórias de horror como esta podem ser evitadas. Mas para as 13 pessoas que morreram nesse Agosto de 1984, para as suas famílias que tiveram de aprender a viver com a ausência, para os sobreviventes que carregam cicatrizes que nunca vão sarar completamente, esta consciência chegou tarde demais.
E é assim que termina a história da chacina da zona rural de Montes Claros, sem redenção, sem final feliz, sem justiça que pareça suficiente, apenas uma recordação dolorosa de um dos dias mais sombrios na história de Minas Gerais. Um dia em que se perderam 13 vidas e incontáveis, outras foram marcadas para sempre.
Que as vítimas descansem em paz, que os sobreviventes encontrem alguma forma de cura e que todos aprendamos com esta tragédia para que nunca jamais ela se repita. Yeah.