O Surgimento de uma Nova Liderança no Comando Vermelho
No complexo xadrez do crime organizado no Rio de Janeiro, onde a violência é a moeda de troca e a lealdade é cobrada com a vida, um novo nome despontou com força nos últimos anos: Thiago dos Santos Barbosa, mais conhecido como TH da Penha. Longe de ser apenas mais um soldado do tráfico, TH ascendeu rapidamente nas fileiras do Comando Vermelho (CV), transformando-se em uma figura central nas disputas por território e na imposição do poder paralelo na Zona Norte carioca. A alcunha carrega não apenas seu nome, mas a força simbólica de seu reduto, o Complexo da Penha, um dos territórios mais conflagrados e historicamente dominados pela facção.
A trajetória de TH no mundo do crime não foi construída de forma isolada. Ele ganhou notoriedade como um dos principais operadores da “Tropa do Urso”, uma das frentes táticas mais letais do CV, liderada por Edgar Alves de Andrade, o “Doca” ou “Urso”. Doca, um veterano com um currículo extenso de criminalidade que inclui invasões, sequestro de aeronaves policiais e a execução de médicos na Barra da Tijuca, enxergou em TH não apenas um subordinado, mas um homem de confiança com perfil operacional implacável. Essa aliança permitiu que TH participasse do planejamento e execução de emboscadas, controle de pontos de venda de drogas, e na defesa feroz contra facções rivais, especialmente o Terceiro Comando Puro (TCP). A Penha sob seu comando funcionava com as engrenagens de um estado paralelo: cobrança de taxas, mediação forçada de conflitos e a aplicação de uma “justiça” sumária e cruel, sustentada por um arsenal militar pesado e sistemas de comunicação criptografados.

A Trama da “Diaba Loira”: De Vítima a Protagonista do Crime
O nome de TH da Penha, até então circulando com mais força nos relatórios de inteligência policial e nos bastidores das favelas, ganhou as manchetes nacionais em 2025 ao ser vinculado à execução brutal de Eveline Passos Rodrigues, a “Diaba Loira”. A história de Eveline foge ao padrão típico da criminalidade carioca. Aos 28 anos, mãe de dois filhos e ex-estudante de Direito, ela tinha um passado de classe média, custeando seus estudos com a venda de doces e cosméticos. No entanto, um evento traumático desvirtuou completamente seu caminho: uma tentativa de feminicídio perpetrada por um ex-companheiro em Santa Catarina. O trauma devastou sua estrutura familiar e emocional, empurrando-a, de forma trágica e complexa, para os braços do Comando Vermelho na busca ilusória por proteção e empoderamento.
Sua inteligência e postura determinada garantiram-lhe espaço rápido dentro da facção. Foi nesse contexto que Eveline cruzou o caminho de TH da Penha. O que começou como uma relação dentro das hierarquias do tráfico evoluiu para um envolvimento pessoal. Contudo, as dinâmicas do crime são voláteis e, por vezes, impiedosas. A relação se deteriorou, e Eveline, motivada por mágoas profundas e um desejo de vingança, tomou a decisão que selaria seu destino: abandonou o Comando Vermelho e aliou-se ao arquirrival, o Terceiro Comando Puro (TCP).
Em áudios e vídeos divulgados nas redes sociais, Eveline justificou sua deserção, que ficou conhecida como “pular o muro”. Ela relatou uma série de “covardias” sofridas dentro do CV, incluindo agressões e a falsa atribuição de responsabilidades sobre homicídios. Mas a acusação mais grave que pesava sobre a facção era a de ter assassinado a mãe de Eveline, uma mulher sem qualquer vínculo com a criminalidade. Movida pela dor e pelo ódio, Eveline passou a exibir armas em suas redes, proferindo ameaças diretas ao Comando Vermelho e declarando que não seria capturada com vida. No código brutal das facções, a afronta pública era um convite para o confronto; a deserção, um crime imperdoável cuja pena é, invariavelmente, a morte.

A Execução e a Exposição como Armas de Terror
Para o Comando Vermelho, a execução de Eveline não poderia ser um crime silencioso. Era necessário enviar uma mensagem clara, um aviso pedagógico aos demais integrantes sobre o custo da traição. O cenário para a emboscada foi desenhado durante um período de intenso conflito armado entre o CV e o TCP pelas comunidades do Fubá e do Campinho, em meados de agosto de 2025.
TH da Penha, como homem de confiança do alto escalão e alguém que conhecia intimamente a rotina e os passos de Eveline, teria organizado a ofensiva. A interceptação ocorreu quando ela deixava o Complexo da Maré, reduto dominado pelo TCP. A ação foi cirúrgica e letal. O corpo de Eveline foi encontrado posteriormente no bairro de Cascadura, na Zona Norte, apresentando características típicas de execuções promovidas por facções: múltiplos disparos e marcas de tortura, garantindo que não houvesse qualquer chance de sobrevivência.
A barbárie, no entanto, não se encerrou com o homicídio. Em uma demonstração de sadismo e terror psicológico, TH da Penha orquestrou a divulgação de vídeos íntimos gravados durante o período em que ele e Eveline se relacionavam. A exposição visava humilhar a memória da vítima, afirmar o domínio territorial e psicológico do Comando Vermelho e intimidar qualquer outro membro que cogitasse seguir o caminho da “Diaba Loira”. A tática de utilizar as redes sociais como plataforma de propaganda do terror alcançou seu objetivo: o caso viralizou. O antigo Twitter, atual X, foi inundado por interações e o caso saltou das páginas de polícia para se tornar um tema de discussão nacional, misturando sensacionalismo com o choque generalizado diante da brutalidade e impunidade.
A Conexão com o Poder e a Proteção do “Estado Paralelo”
O caso também lançou luz sobre a rede de influência e proteção de TH da Penha dentro do Comando Vermelho. Um episódio revelador ocorreu no mês anterior à morte de Eveline, quando a polícia realizou uma operação contra o “Menor Pio”, um ex-parceiro de TH. O confronto se desenrolou na casa de um rapper conhecido, que é filho de Marcinho VP, líder histórico e uma das figuras mais emblemáticas do CV. Após a intensa troca de tiros, o alvo buscou refúgio justamente no Complexo da Penha, o território sob o comando de TH.
A acolhida de figuras ligadas à cúpula da facção evidenciou o prestígio e a confiança depositados em TH da Penha pelos chefões. Essa proximidade com o “estado-maior” do CV garantia a ele não apenas prestígio, mas acesso a recursos bélicos, informações privilegiadas e, principalmente, uma blindagem formidável contra as incursões do Estado. TH utilizava suas redes sociais para ostentar dinheiro e armas, uma estratégia arriscada, mas eficiente para atrair e recrutar jovens da comunidade, seduzidos pela falsa promessa de poder e riqueza imediata.
A Impunidade como Sintoma de um Sistema Falho
Apesar da repercussão nacional do caso e de ser apontado como o principal executor da emboscada contra Eveline Passos, TH da Penha permanece em liberdade. A Polícia Civil abriu inquéritos e realiza investigações, mas esbarra nas barreiras impostas pelo domínio territorial das facções. O Complexo da Penha, assim como outras áreas conflagradas do Rio de Janeiro, atua como uma fortaleza. As operações policiais enfrentam forte resistência armada, rotas de fuga estruturadas, sistemas de vigilância e barricadas, além do silêncio forçado dos moradores, reféns do medo e da lei do tráfico.
A manutenção de TH da Penha como figura ativa e impune no comando do tráfico evidencia a falência estrutural da segurança pública no Rio de Janeiro. É o reflexo de um Estado que se mostra incapaz de retomar o controle efetivo de áreas inteiras da capital, permitindo que o poder paralelo exerça sua própria lei, cobrando impostos, distribuindo justiça e sentenciando à morte de forma arbitrária. A execução da “Diaba Loira” não é apenas mais um capítulo de violência urbana; é a triste constatação de que, nas favelas controladas pelas facções, a traição é punida com requintes de crueldade e o crime, por vezes, consegue se impor acima da capacidade de repressão do Estado.
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