A Aproximação: A Chegada da “Boa Samaritana”
O ano era 2016. Na pacata cidade de Maragogipe, no Recôncavo Baiano, a vida do jovem casal Jefferson Brandão e Adriane Ribeiro dos Santos transcorria com a simplicidade e a luta típicas de quem busca construir um futuro. Juntos desde a adolescência, enfrentando até mesmo a resistência familiar inicial, eles já eram pais de duas meninas: Greice Kelly e Ruth. O casal, que até então apenas coabitava, decidiu que era o momento de oficializar a união. Foi durante essa fase de planejamento que os caminhos da família cruzaram com o de Elisângela Almeida de Oliveira. O encontro ocorreu em um evento religioso na cidade vizinha de Conceição da Feira, a cerca de 40 quilômetros de distância. Elisângela, uma mulher casada, mãe de dois filhos e descrita como uma figura de influência na igreja (alguns relatos a apontam como pastora), rapidamente se aproximou de Jefferson. O que começou como uma aparente amizade fraterna logo assumiria contornos de uma obsessão devastadora, mascarada sob a fachada de um amor maternal divino.
A entrada de Elisângela na vida da família Brandão foi marcada por atos de extrema, e até suspeita, generosidade. Ao saber que Jefferson e Adriane planejavam um casamento simples no cartório, a religiosa se prontificou a arcar com todas as despesas de uma festa digna. O argumento utilizado por ela era irrefutável para pessoas de fé: Deus a havia incumbido de cuidar daquela família e, de maneira especial, de Jefferson, a quem ela dizia amar como a um filho de coração. E assim, com um investimento surpreendente de R$ 15 mil, Elisângela financiou a cerimônia e a festa de casamento. Para a família, que enfrentava dificuldades financeiras, ela representava um verdadeiro milagre, uma enviada dos céus. A gratidão, no entanto, seria o passaporte para o inferno.
A Invasão do Lar e a Imposição de Limites
Com o casamento pago e a gratidão estabelecida, a presença de Elisângela na residência do casal em Maragogipe tornou-se constante. Inicialmente, as visitas eram acompanhadas de sua família – o marido, Valcir Boaventura Soares, e os filhos. No entanto, o que deveriam ser visitas cordiais logo se transformaram em ocupações prolongadas. A “mãe de coração” passou a passar finais de semana inteiros e, posteriormente, semanas ininterruptas na casa de Jefferson e Adriane. A residência, já diminuta, tornou-se palco de uma dinâmica bizarra: para acomodar a hóspede “ilustre”, o casal e as duas filhas pequenas frequentemente desocupavam a própria casa, buscando abrigo na casa dos pais de Jefferson, que ficava nas proximidades. Essa submissão era alimentada pelo sentimento de dívida e pela suposta autoridade espiritual de Elisângela.
A situação, entretanto, atingiu um ponto de ruptura. O comportamento invasivo e a exigência de ser tratada e chamada de “mãe” por Jefferson começaram a sufocar o casal. Diante do desgaste, Jefferson e Adriane tomaram uma atitude necessária: conversaram com Elisângela, estabelecendo limites para suas visitas e permanências. A reação da “boa samaritana” foi de profunda contrariedade. Aparentemente ofendida, ela retornou para sua cidade, Conceição da Feira. Dias depois, ela voltou a Maragogipe, mas dessa vez, não se hospedou com o casal. Curiosamente, instalou-se na casa dos pais de Jefferson, mantendo-se perigosamente próxima do objeto de sua obsessão. O que o casal interpretou como uma acomodação das relações era, na verdade, o início de um plano letal e calculista.
A Sequência Macabra: Três Segundas-Feiras, Três Mortes
A vingança de Elisângela não tardaria e seria executada com uma frieza atroz. A tragédia teve início no dia 30 de julho de 2018, uma segunda-feira. Adriane serviu o almoço para a primogênita, Greice Kelly, de apenas 5 anos, e a deixou sentada no sofá, na companhia de Elisângela. Minutos depois, a criança apresentou um mal-estar agudo, perda de movimentos e intensa salivação. Levada às pressas a um hospital na cidade vizinha de São Félix, Greice não resistiu e faleceu. Os exames iniciais indicaram níveis elevadíssimos de açúcar no sangue. A medicina local, em uma falha que custaria outras vidas, atestou o óbito por causas naturais, atribuindo-o à diabetes. A família, destroçada, tentou seguir em frente.
O pesadelo, contudo, estava apenas no começo. Exatamente uma semana depois, no dia 6 de agosto de 2018, outra segunda-feira, o cenário de horror se repetiu. Elisângela, que continuava orbitando a família, preparou panquecas para o almoço. Em casa, estavam apenas Jefferson e a filha caçula, Ruth, de 2 anos. Pouco tempo após a refeição, a menina apresentou sintomas idênticos aos da irmã. Socorrida para a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Maragogipe, Ruth também faleceu. Novamente, os médicos constataram hiperglicemia e, baseados no diagnóstico da irmã, atestaram a morte como natural. O laudo superficial isentou as autoridades de uma investigação imediata e permitiu que a assassina permanecesse livre para seu último ato.
A terceira e última investida letal ocorreu no dia 13 de agosto de 2018, a terceira segunda-feira consecutiva. Jefferson e Adriane, imersos no luto incomensurável pela perda das filhas, estavam sozinhos em casa. Elisângela, ignorando a necessidade de isolamento do casal, bateu à porta oferecendo uma sobremesa: chocolate quente. Desconfiados das coincidências sombrias que rondavam a mulher, o casal inicialmente recusou. A insistência de Elisângela, contudo, foi implacável. Horas depois, já durante um culto na igreja, Adriane aceitou a bebida oferecida. Por volta das 19h30, os mesmos sintomas mortais se manifestaram. Adriane foi levada à UPA, mas sucumbiu misteriosamente. Finalmente, a morte de mãe e filhas em um intervalo de 15 dias, sempre às segundas-feiras e com sintomas idênticos, despertou as autoridades locais para a iminência de um crime em série.
A Investigação e a Queda da Máscara
A Polícia Civil assumiu o caso e a hipótese de envenenamento tornou-se o eixo central das investigações. Entre agosto e setembro de 2018, as exumações dos corpos de Greice, Ruth e Adriane foram autorizadas e realizadas. O material coletado e enviado para análise pericial confirmou as suspeitas: as três vítimas haviam sido envenenadas com um potente inseticida de uso agrícola. A causa mortis natural foi oficialmente derrubada, e a caçada ao autor do triplo homicídio começou.
As suspeitas recaíram imediatamente sobre a pessoa que estava presente e manipulou os alimentos em todos os eventos fatais: Elisângela. Em 21 de setembro, sete pessoas próximas à família foram intimadas para uma acareação na delegacia. O comportamento de Elisângela durante os interrogatórios foi crucial para as investigações. A mulher, que se dizia uma “mãe” para a família, não demonstrou qualquer emoção genuína, não chorou pelas mortes e não compareceu a nenhum dos velórios. Além disso, o excesso de zelo em relação a Jefferson e as tentativas de desviar o foco das investigações chamaram a atenção da polícia.
Para tentar despistar, a suspeita chegou a inventar histórias absurdas, insinuando que Jefferson havia agredido a esposa dias antes das mortes e espalhando boatos macabros de que o próprio marido seria o responsável pelas mortes. A frieza era tamanha que, ao cruzar com seu marido, Valcir, na delegacia, ela o repreendeu publicamente, temendo que ele a houvesse comprometido no depoimento. A descoberta de que o cachorro da família havia morrido de forma semelhante na mesma semana em que Elisângela se instalou na casa dos pais de Jefferson apenas confirmou a natureza metódica da criminosa. O isolamento de Jefferson, que passou a suspeitar ativamente da mulher, revelou a verdadeira face de Elisângela, que trocou a máscara de “boa samaritana” por um olhar de ódio explícito.
A Prisão e a Confissão do Motivo Torpe
Com provas materiais contundentes e os laudos periciais em mãos, a Polícia Civil efetuou a prisão de Elisângela e de seu marido, Valcir Boaventura Soares, em 11 de outubro de 2018. O casal foi indiciado pelo triplo homicídio. A notícia da prisão gerou revolta popular em Maragogipe, forçando o fechamento da delegacia para evitar o linchamento dos acusados.
Na prisão, Elisângela inicialmente manteve a negativa de autoria. Tentou sustentar a narrativa de que o casamento das vítimas estava em ruínas e que Jefferson seria o verdadeiro culpado. A polícia, contudo, já possuía evidências de que o casal suspeito estava coagindo testemunhas e tentando destruir provas. Diante do cerco fechado e da pressão dos interrogatórios, a farsa ruiu. Elisângela confessou o crime. Ela admitiu que envenenou Adriane e as crianças de forma premeditada. O motivo revelou a natureza sombria de suas intenções: um interesse amoroso obsessivo por Jefferson. A imposição de limites à sua presença na casa foi o estopim para a decisão de exterminar os obstáculos que a separavam de seu objetivo doentio. A “mãe de coração” queria, na verdade, ocupar o lugar da esposa.
A criminosa foi indiciada por homicídio triplamente qualificado, por motivo torpe e uso de dissimulação. O papel de seu marido, Valcir, permanece um dos pontos nebulosos da trama. Inicialmente solto por falta de provas robustas naquele momento, ele voltou a ser indiciado em março de 2019 pelo Ministério Público, que apontou indícios de sua participação na trama macabra, embora o motivo de sua colaboração em um crime motivado pela paixão da esposa por outro homem ainda não esteja totalmente esclarecido. Ele responde ao processo em liberdade.

As Cicatrizes de uma Família Aniquilada
O caso de Maragogipe é um marco perturbador na crônica criminal brasileira. Ele evidencia não apenas a falibilidade inicial dos diagnósticos médicos que poderiam ter salvado vidas, mas, sobretudo, a capacidade humana de dissimulação. A exploração da fé e da caridade como instrumentos para o assassinato em série chocou o país. Jefferson Brandão, o único sobrevivente da família que construía com tanto esforço, carrega as cicatrizes indeléveis de ter aberto a porta de seu lar para a algoz de sua esposa e filhas.
Elisângela Almeida de Oliveira permanece detida no Complexo Penitenciário da Mata Escura, em Salvador, aguardando o Tribunal do Júri que decidirá seu destino. A condenação aguardada pela sociedade não apagará a dor de Jefferson, mas representa a necessária resposta da Justiça a um crime onde a maldade travestiu-se de religiosidade e o assassinato justificou-se por um falso amor. A tragédia serve como um doloroso alerta sobre os perigos da confiança cega e sobre o mal que pode se esconder sob o manto da mais devota das intenções.
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