Posted in

A Trágica História da Adolescente de 15 Anos Colocada em Cela com Homens em Abaetetuba (PA)

Em outubro de 2007, na cidade de Abaetetuba, no interior do Pará, uma adolescente de apenas 15 anos viveu um dos episódios mais graves de violação de direitos humanos já registrados no sistema prisional brasileiro. Acusada de tentativa de furto, a jovem identificada na mídia como L foi trancada em uma cela masculina lotada, onde permaneceu por 26 dias exposta a abusos constantes. O caso chocou o país e expôs falhas profundas no atendimento a menores infratores e na separação de presos por sexo e idade.

O Contexto da Prisão

No dia 21 de outubro de 2007, L, que trabalhava como empregada doméstica, foi flagrada pelo patrão tentando furtar um celular, algumas roupas e uma corrente de prata. Em vez de acionar a polícia de forma regular, o empregador a trancou no banheiro e chamou um tio que era investigador de polícia. Dois outros policiais chegaram ao local e, segundo relatos, agrediram a jovem com socos nas costelas, ameaçaram-na de morte e colocaram uma arma em sua boca, afirmando que aquela seria a última vez que ela cometeria um furto.

Levada à delegacia, a adolescente foi apresentada à delegada plantonista Flávia Verônica Monteiro Pereira. Apesar de L ter apenas 1,50m de altura e pesar cerca de 40 kg — características visivelmente incompatíveis com 19 anos —, a autoridade aceitou um documento de identidade que indicava essa idade maior. Sem verificar a real condição de menor, a delegada lavrou o auto de prisão em flagrante e determinou sua detenção.

A cidade de Abaetetuba não possuía cadeia feminina na época. A única cela disponível abrigava aproximadamente 20 homens. Ignorando as normas do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) e as regras básicas de proteção a menores, L foi colocada junto com os presos masculinos. Ninguém na delegacia questionou a decisão ou avaliou os riscos evidentes.

Hiếp dâm trong tù: Thử thách của Lidiany | Jusbrasil

Os 26 Dias de Suplício na Cela

Os primeiros dias foram marcados por terror. Na primeira noite, L foi violentada por um detento conhecido como Beto, apesar de seus gritos por socorro. Nenhum agente interveio. Pouco depois, outro preso, conhecido como Cão, também a agrediu sexualmente. O que se seguiu foi uma rotina de abusos sistemáticos.

Os detentos confiscavam a comida e os materiais de higiene enviados para ela, obrigando-a a trocar relações sexuais por alimento — prática que os presos chamavam de “empanada”. A jovem era forçada a se deitar sobre um pano estendido no chão da cela para “pagar” pelo que precisava para sobreviver. Seu corpo foi queimado com isqueiros e cigarros. Para esconder que havia uma menina na cela, os presos cortaram seus longos cabelos com uma faca, mantendo-a afastada das grades que davam para a rua.

L relatou posteriormente que sofreu tantas violações que não conseguiu identificar todos os agressores. Durante 26 dias, a adolescente viveu um verdadeiro inferno, com o corpo e a dignidade constantemente violados. Moradores da cidade, que sabiam da presença dela na cela, relatavam ouvir gritos pedindo comida e socorro, mas ninguém denunciou inicialmente.

A Omisão das Autoridades

No dia 23 de outubro, dois dias após a prisão, os autos chegaram à juíza Clarice Maria de Andrade. A magistrada assinou os documentos, mas não determinou a transferência imediata da menor para local adequado, mesmo sabendo da ausência de cela feminina em Abaetetuba. Apenas em 5 de novembro, após ofício do Tribunal de Justiça do Pará, houve determinação para removê-la para um presídio feminino em Belém. No entanto, a resposta da juíza demorou, e a transferência só foi efetivada quando o caso já havia ganhado repercussão nacional.

A situação só mudou quando um preso liberado procurou o Conselho Tutelar e denunciou os fatos, apresentando a certidão de nascimento de L. A conselheira Diva de Jesus compareceu à delegacia, mas mesmo com a prova da menoridade, o delegado exigiu ordem judicial para liberá-la. L foi então retirada da cela coletiva e colocada na cela dos escrivães. No dia seguinte, o pai da jovem compareceu ao local e foi informado de que ela havia “fugido”. L foi encontrada dias depois no cais do porto, bastante machucada, e relatou ter sido levada por policiais civis que a ameaçaram para que deixasse a cidade e não registrasse boletim de ocorrência.

Repercussão, Punições e Consequências

O caso ganhou grande visibilidade na imprensa nacional. A então governadora do Pará, Ana Júlia Carepa, prometeu punições rigorosas, afastamento de responsáveis e um decreto proibindo a mistura de homens e mulheres em celas. Delegados e agentes envolvidos foram exonerados. Em 2010, o Conselho Nacional de Justiça aposentou compulsoriamente a juíza Clarice Maria de Andrade, decisão que o Supremo Tribunal Federal considerou desproporcional em 2012, anulando a aposentadoria. Anos depois, em 2017, a magistrada foi nomeada para outra comarca.

Dois detentos identificados por L como principais agressores foram condenados a 10 anos e 8 meses de prisão. A jovem recebeu indenização equivalente a dois salários mínimos pagos pelo Estado e foi realocada para uma cidade no Sul do país, em busca de recomeço. No entanto, relatos indicam que ela enfrentou graves sequelas psicológicas, problemas com substâncias e dificuldades emocionais decorrentes do trauma.

AMB bày tỏ sự đoàn kết với vị thẩm phán bị CNJ cách chức vì đã giam giữ một bé gái trong cùng một phòng giam với nam giới.

Um Caso que Não Foi Isolado

Relatório da CPI do Sistema Carcerário de 2009 revelou que situações semelhantes ocorreram em outras unidades prisionais do Pará. Em um caso, uma mulher ficou grávida após cinco meses em cela com 38 homens. Em outro, uma detenta teve dois filhos em períodos distintos em celas masculinas. Esses episódios reforçam a gravidade do problema estrutural: a superlotação, a falta de separação adequada e a vulnerabilidade de mulheres e menores no sistema.

Advertisements

O caso de L ilustra claramente as determinações do Estatuto da Criança e do Adolescente, que proíbem o encarceramento de adolescentes junto com adultos e exigem medidas socioeducativas diferenciadas. Uma jovem pobre, ré primária por tentativa de furto, não poderia ter sido submetida a tamanha violência institucional.

Reflexões Sobre o Sistema de Justiça Brasileiro

Passados anos, o episódio continua servindo como alerta sobre a falência parcial do sistema prisional brasileiro, especialmente no que diz respeito à proteção de vulneráveis. A impunidade relativa de autoridades, a lentidão burocrática e a indiferença inicial da sociedade local expõem como direitos fundamentais podem ser violados quando não há fiscalização efetiva.

Histórias como essa reforçam a necessidade permanente de investimento em infraestrutura prisional adequada, capacitação de agentes públicos e rigor na aplicação das leis de proteção à infância e à adolescência. A sociedade brasileira, especialmente aqueles acima dos 30 anos que acompanharam o caso na época, deve cobrar permanentemente transparência e respeito aos direitos humanos, independentemente da condição social ou econômica da vítima.

O drama vivido por L não foi apenas um erro isolado. Foi o resultado de uma cadeia de omissões que transformou uma medida de contenção por furto em um pesadelo de 26 dias. Seu depoimento posterior, marcado por dor e revolta compreensível, continua ecoando como um forte lembrete da importância de se proteger os mais frágeis no sistema de justiça.

A história dessa adolescente de Abaetetuba permanece como um dos capítulos mais sombrios da crônica criminal brasileira, exigindo que o país não esqueça as lições duras deixadas por esse terrível episódio.

Se você quiser ver mais casos semelhantes no futuro, siga e ative as notificações da nossa página para não perder nenhuma notícia importante.