A trajetória de Ernaldo Pinto de Medeiros, conhecido nacionalmente pela alcunha de “Ué”, é um dos capítulos mais sangrentos e complexos da crônica policial do Rio de Janeiro. Nos anos 90, um período marcado por transformações profundas na dinâmica do tráfico de drogas, Ué emergiu não apenas como um criminoso comum, mas como um estrategista ambicioso cujo desejo pelo topo absoluto o levaria a destruir alianças, fundar facções rivais e, por fim, encontrar um desfecho que ainda hoje serve como um aviso visceral sobre a natureza do submundo.
As Origens: Entre a Familiaridade e a Ambição
Diferente de muitos que ingressam no crime sem qualquer vínculo prévio, Ué teve no seio familiar seu primeiro contato com o universo ilícito. Seu pai, embora não fosse um criminoso, mantinha laços estreitos com os chefes do morro, desempenhando o papel de “guardião” de armamentos. Essa proximidade geográfica e relacional foi o terreno fértil para que o jovem Ernaldo rapidamente se envolvesse nas atividades que viriam a definir sua existência.
O que começou com a função de olheiro — vigiando movimentos policiais e sacrificando os estudos para garantir o funcionamento das bocas de fumo — rapidamente evoluiu para posições de maior responsabilidade na segurança dos pontos de venda. Sua ascensão foi impulsionada por uma combinação rara de coragem extrema e, sobretudo, por uma violência deliberada. Com a morte de seu pai e a prisão do mentor que chefiava a comunidade, Ué não perdeu tempo. Em um ato que antecipava seu modus operandi futuro, ele aproveitou a liderança vacante para assumir o controle total, consolidando seu poder com mãos de ferro.
A Traição que Sacudiu o Comando Vermelho
Até o início da década de 1990, Ué operava sob a égide do Comando Vermelho (CV), a facção hegemônica na época. No entanto, o “braço direito” de Orlando da Conceição, o notório Orlando Jogador, nutria ambições que superavam a lealdade ao grupo. O alvo de seu desejo era claro: o domínio absoluto do Complexo do Alemão e do Morro do Adeus, áreas de valor inestimável para o tráfico carioca.
Em 1994, essa tensão atingiu seu ápice. Em uma jogada calculada e brutal, Ué simulou um sequestro por policiais do BOPE e solicitou o auxílio financeiro de Orlando Jogador para o resgate. Apesar da rivalidade crescente, o mentor cedeu aos apelos. Ao chegar ao local combinado, Orlando e seus homens foram recebidos em uma emboscada maciça. A chacina de 13 de julho daquele ano não foi apenas um acerto de contas; foi um marco divisor que selou a ruptura definitiva de Ué com o CV e pavimentou o caminho para o surgimento de uma nova facção: os Amigos dos Amigos (ADA).
A Era da Expansão e o Ousado Modelo de Negócio
Com a ADA, Ué não apenas fragmentou o crime organizado no Rio, mas revolucionou a logística do tráfico. Ele foi um dos primeiros a estabelecer contatos diretos com o Paraguai, garantindo um fluxo constante de armamentos e entorpecentes que abasteceram grande parte do estado. Relatos de autoridades da época, como os da delegada Marina Maguci, confirmam que o império de Ué chegou a operar com aeronaves próprias na fronteira com a Bolívia para o transporte de cargas massivas.
Sua inteligência “empreendedora” também se manifestou na lavagem de dinheiro. Através de identidades falsas, como a de sua esposa, Mônica Constantino da Costa, Ué investiu pesadamente no mercado imobiliário em cidades como Novo Hamburgo (RS). Enquanto outros criminosos da época se concentravam apenas na manutenção territorial, Ué operava uma verdadeira corporação criminosa, transformando o crime em uma máquina de lucro e poder.
O Declínio em Bangu 1: O Acerto de Contas
Após anos de perseguição e um longo período de clandestinidade, a captura de Ué em um hotel de luxo em Fortaleza, em 1996, parecia encerrar um ciclo de violência. Condenado a mais de 200 anos de prisão, o destino de Ué foi selado no Complexo Penitenciário de Bangu 1.
O cárcere, porém, não significou o fim das hostilidades, mas sim a transferência da guerra para um ambiente ainda mais confinado. A dívida de sangue pela morte de Orlando Jogador nunca foi esquecida pelo Comando Vermelho. Em 11 de setembro de 2002, durante uma rebelião que paralisou o Rio de Janeiro por 23 horas, Fernandinho Beiramar e outros líderes do CV executaram um plano meticuloso para eliminar os traidores. O fim de Ué foi emblemático e terrível: ele foi morto, decapitado e teve seu corpo carbonizado. A violência extrema buscava não apenas eliminar um homem, mas apagar sua existência de forma humilhante.
As Cicatrizes que Persistem
O ciclo de ódio não se encerrou com a morte do criminoso. Seu túmulo, localizado no cemitério São Francisco Xavier, no Caju, tornou-se palco de novos ataques, mantendo viva a memória de antigas inimizades através de tiroteios e profanações — marcas visíveis que, até hoje, funcionam como cicatrizes de uma guerra sem fim.
Mais recentemente, em 2019, o assassinato de seu filho, Diego Constantino Medeiros, atingido por dezenas de disparos, reforçou a ideia de que, no mundo do crime, as dívidas podem perdurar por gerações. A trajetória de Ué serve como um estudo de caso sobre como a ambição desenfreada, ao romper os códigos de lealdade, pode construir um império imenso, mas torna sua queda inevitável, violenta e permanente. A história do “homem mais odiado do CV” não é apenas uma narrativa sobre o tráfico, mas um reflexo trágico da instabilidade e da brutalidade intrínsecas a esse submundo.