Terremoto em Londres: a queda de Keir Starmer expõe a crise que o Brexit nunca conseguiu enterrar
A renúncia de Keir Starmer não é apenas a queda de mais um primeiro-ministro britânico. É o retrato brutal de um país que, dez anos depois do Brexit, ainda parece preso no mesmo labirinto político, econômico e social que prometeu abandonar quando decidiu “retomar o controle” de seu próprio destino.
O Reino Unido acordou diante de uma cena que já se tornou assustadoramente familiar: Downing Street em tensão, o Partido Trabalhista em guerra interna, a oposição farejando sangue político e milhões de britânicos se perguntando se existe, de fato, alguém capaz de governar o país por tempo suficiente para produzir alguma mudança real.

Starmer chegou ao poder com uma vitória histórica. Depois de 14 anos de domínio conservador, os trabalhistas voltaram ao governo com uma maioria esmagadora na Câmara dos Comuns. A expectativa era enorme. Para muitos eleitores, Starmer representava estabilidade, competência administrativa e uma ruptura com os anos turbulentos marcados por escândalos, promessas quebradas, inflação, crise migratória e desgaste pós-Brexit.
Mas em menos de dois anos, o homem que prometeu devolver previsibilidade ao Reino Unido acabou engolido pela mesma máquina de frustração que destruiu seus antecessores. A diferença é que Starmer caiu sem ter cometido um único erro espetacular capaz de explicar tudo sozinho. Sua queda foi mais silenciosa, mais profunda e talvez mais assustadora: ele foi derrubado por um país que perdeu a paciência.
Ao anunciar que deixará o cargo, Starmer admitiu que ouviu as críticas dentro do próprio Partido Trabalhista e concluiu que já não era a pessoa certa para conduzir a legenda até as próximas eleições gerais. A transição deve abrir caminho para um novo líder até setembro, embora nos bastidores britânicos já se fale em uma troca muito mais rápida, possivelmente ainda em julho.
O nome que domina o tabuleiro é Andy Burnham, ex-prefeito da Grande Manchester e figura popular no norte da Inglaterra. Sua chegada ao Parlamento foi vista como o movimento decisivo para permitir sua candidatura ao comando do Partido Trabalhista e, consequentemente, ao cargo de primeiro-ministro. Em uma democracia parlamentar como a britânica, não basta ser popular: é preciso estar dentro da Câmara dos Comuns para assumir o poder.
Burnham surge como uma tentativa de salvar o Labour de um naufrágio que já parecia anunciado. Ele carrega a imagem de político mais conectado às regiões industriais esquecidas, aos trabalhadores brancos das antigas zonas de produção, às comunidades que perderam força com a globalização e que, nos últimos anos, passaram a ouvir com atenção crescente o discurso de Nigel Farage e do Reform UK.
O grande drama é que a crise de Starmer não nasceu apenas de sua personalidade ou de sua estratégia. Ela é parte de uma ferida muito maior. Desde o referendo do Brexit, em 2016, o Reino Unido virou uma espécie de laboratório da instabilidade. Primeiros-ministros entram e saem, partidos mudam de direção, promessas são refeitas, alianças desmoronam, mas a sensação de declínio permanece.
O Brexit foi vendido a milhões de britânicos como um ato de libertação. A mensagem era simples, poderosa e emocional: “vamos recuperar nosso país”. O slogan falava de soberania, fronteiras, controle migratório, independência econômica e orgulho nacional. Mas dez anos depois, a promessa envelheceu mal. O país não encontrou a prosperidade rápida que muitos esperavam. As barreiras comerciais aumentaram, o peso burocrático cresceu, a economia perdeu dinamismo e o ressentimento social continuou avançando.
Starmer tentou se posicionar como o político capaz de reconstruir pontes com a Europa sem dizer abertamente que queria desfazer o Brexit. Essa ambiguidade foi uma de suas maiores armadilhas. Para os defensores da saída da União Europeia, ele parecia disposto a trair o espírito do referendo. Para os que se arrependeram do Brexit, ele parecia tímido demais, lento demais, moderado demais.
Enquanto isso, a vida concreta do eleitor britânico continuava difícil. Serviços públicos pressionados, custo de vida alto, impostos impopulares, infraestrutura desgastada e um sentimento generalizado de que Londres segue vivendo em uma bolha distante do restante do país. A velha promessa de que a riqueza financeira da capital compensaria o empobrecimento das antigas regiões industriais já não convence como antes.
A crise financeira de 2008 abriu uma rachadura que nunca foi completamente fechada. O modelo britânico, baseado em Londres como centro global de finanças, tecnologia, capitais e serviços sofisticados, conviveu por décadas com a desindustrialização do interior. Enquanto havia dinheiro suficiente circulando, a tensão parecia administrável. Quando a crise atingiu a City e a austeridade se aprofundou, cidades inteiras passaram a sentir que haviam sido abandonadas.
Foi nesse ambiente que o Brexit floresceu. E é nesse mesmo ambiente que o Reform UK cresce hoje.
Nas eleições locais de maio, o alerta vermelho soou dentro do Partido Trabalhista. A legenda perdeu terreno em várias direções. À direita, o Reform UK de Farage capturou eleitores furiosos com imigração, custo de vida e sensação de abandono. À esquerda, os Verdes avançaram entre progressistas decepcionados com a moderação trabalhista, com os recuos do governo e com a falta de uma agenda social mais ousada.
Starmer ficou preso no meio. Para a esquerda, foi frio, calculista e insuficientemente transformador. Para a direita, foi fraco, burocrático e incapaz de controlar fronteiras. Para o centro, prometeu competência, mas entregou um governo marcado por recuos, desgaste e ausência de narrativa. Na política contemporânea, não basta administrar. É preciso emocionar, mobilizar, convencer. Starmer parecia não conseguir fazer nenhuma dessas coisas.

O escândalo envolvendo Peter Mandelson agravou ainda mais a percepção de descontrole. A revelação de problemas relacionados à verificação de segurança para um cargo sensível em Washington, somada às controvérsias sobre sua proximidade passada com Jeffrey Epstein, atingiu o governo em um ponto vulnerável: a confiança. Mesmo quando Starmer negava conhecimento prévio de detalhes cruciais, a impressão pública era devastadora. O eleitor já irritado não queria explicações técnicas. Queria saber por que mais uma vez o poder parecia protegido por sua própria rede de contatos.
A queda de Starmer também revela uma contradição cruel da democracia parlamentar britânica. O sistema é eficiente para remover líderes enfraquecidos, mas pode se tornar implacável quando a sociedade entra em uma espiral de impaciência. Governos caem antes de testar políticas. Novos líderes assumem sem tempo para respirar. Cada crise vira prova de incapacidade. Cada escândalo vira sentença. Cada eleição local vira plebiscito nacional.
Foi isso que aconteceu com os conservadores depois do Brexit. Agora acontece com os trabalhistas. A máquina que devorou Theresa May, Boris Johnson, Liz Truss e Rishi Sunak chegou também a Starmer. A promessa de normalidade durou pouco. O Reino Unido continua girando em alta velocidade, sem conseguir transformar movimento em direção.
Andy Burnham entra nesse cenário como esperança e risco. Sua trajetória em Manchester oferece uma narrativa poderosa: a de um político regional, próximo do eleitor comum, capaz de falar sobre reconstrução econômica, orgulho local, transporte público, comunidades industriais e dignidade trabalhadora. Ele parece entender melhor do que Starmer a linguagem emocional das regiões que decidiram o Brexit e que hoje se sentem órfãs.
Mas Burnham herdará uma missão quase impossível. Como prometer serviços públicos melhores sem explodir as contas? Como defender políticas sociais robustas com uma dívida pública próxima de níveis historicamente altos? Como conter o Reform UK sem copiar sua retórica? Como atrair a esquerda progressista sem assustar o centro? Como reconstruir laços com a União Europeia sem reacender a guerra cultural do Brexit?
O problema britânico é que todos querem uma saída, mas quase ninguém aceita o preço dela.
Reaproximar-se da União Europeia poderia reduzir custos de transação, aliviar barreiras comerciais e recolocar o Reino Unido em uma posição geopolítica mais forte, especialmente diante de um mundo dominado por tensões com os Estados Unidos de Donald Trump, a guerra tecnológica, a disputa com a China e a insegurança militar no continente europeu. Mas Bruxelas não abrirá as portas como se nada tivesse acontecido. Qualquer reaproximação séria exigiria concessões em regulação, mobilidade, imigração e alinhamento institucional.
E imigração foi justamente uma das grandes feridas que levaram ao Brexit.
Por isso Burnham terá de caminhar sobre vidro. Se parecer pró-Europa demais, Farage o acusará de trair o referendo. Se for duro demais com Bruxelas, perderá a chance de reconstruir a economia. Se aumentar impostos, será acusado de punir trabalhadores. Se cortar gastos, repetirá a austeridade que sua base rejeita. Se moderar o discurso, parecerá Starmer. Se radicalizar, assustará mercados e parte do eleitorado.
A renúncia de Keir Starmer, portanto, não encerra uma crise. Ela inaugura uma etapa ainda mais perigosa.
O Reino Unido está diante de uma pergunta que ninguém em Westminster conseguiu responder desde 2016: que país ele quer ser depois do Brexit? Uma potência global independente? Um parceiro europeu informal? Um Estado de bem-estar renovado? Uma economia liberal agressiva? Um país fechado em suas fronteiras? Uma democracia social moderna? Uma nação nostálgica tentando reviver um passado que não existe mais?
Starmer caiu porque não respondeu a essa pergunta. Os conservadores caíram porque também não responderam. Burnham agora será empurrado ao centro do palco com a obrigação de responder rápido, antes que o eleitorado conclua que a resposta está nos extremos.
O som simbólico que ecoou diante de Downing Street, com a Nona Sinfonia de Beethoven — hino da União Europeia — tocando no dia da despedida de Starmer, resumiu a ironia do momento. Dez anos depois de romper com o bloco europeu em nome da soberania, o Reino Unido se vê mais frágil, mais dividido e mais incerto sobre seu lugar no mundo.
A promessa era recuperar o controle. O resultado, até agora, parece ter sido perder governos em sequência.
Keir Starmer sai de cena como um líder descrito por muitos como decente, sério e institucional. Mas decência, no atual clima político britânico, já não basta. O país quer respostas, quer dinheiro no bolso, quer serviços funcionando, quer fronteiras administradas, quer crescimento, quer dignidade e quer tudo isso agora.
Andy Burnham pode ser o último grande teste do Partido Trabalhista antes de uma ruptura ainda maior. Se ele falhar, o próximo capítulo da crise britânica pode não ser apenas a queda de outro primeiro-ministro. Pode ser a chegada definitiva de uma força populista ao poder, coroando a década de instabilidade que começou com o Brexit e nunca mais terminou.
O Reino Unido não está apenas trocando de líder. Está encarando o espelho de uma década perdida.