O silêncio de uma manhã de sábado no bairro Monte Castelo, em Campo Grande, Mato Grosso do Sul, foi o cenário de um dos crimes mais chocantes e frios da crônica policial recente. De um lado, um profissional respeitado, conhecido por seu traço calmo e olhar crítico através da arte. Do outro, uma mulher movida por um sentimento de posse, ciúme e uma frieza que desafia a compreensão humana. O assassinato do chargista Marco Antônio Rosa Borges, que levou quatro dias para ser descoberto e dois anos para chegar ao banco dos réus, revelou detalhes de uma brutalidade extrema. A frase que resume a apatia diante da morte foi dita pela própria assassina confessa: após esfaquear a vítima, ela cobriu o corpo ainda com vida, limpou o sangue da parede e foi atender o próximo cliente.
Marco Antônio era uma figura carimbada no jornalismo sul-mato-grossense. Desde outubro de 2006, ele colaborava com o jornal O Estado de MS. Durante 14 anos ininterruptos, suas charges ilustraram a página de opinião do diário, cobrindo política, economia e o cotidiano com um misto de humor, ironia e precisão técnica. Seus colegas de redação, como o editor Bruno Arce e o ex-editor-chefe Alex Fraga, o descreviam como um homem dono de um talento único, tranquilo, conciliador e sem qualquer traço de agressividade em sua personalidade. Era um homem de rotinas simples, que jogava futebol amador com os amigos há mais de vinte anos e morava com os pais idosos. O filho único do chargista, Kelvis, na época com 25 anos, resumiu a essência do pai em poucas palavras: um homem de coração gigantesco, do bem, feliz, cuja maior falha, talvez, tenha sido a própria ingenuidade.

Um Relacionamento Oculto e a Semente da Tragédia
Fora do ambiente da redação e das tintas, Marco Antônio mantinha uma vida pessoal extremamente reservada. Nos meses que antecederam o crime, ele vivia um relacionamento que preferia manter sob total sigilo. A família, incluindo o filho, sequer sabia da existência dessa mulher. A pessoa em questão era Clarice Silvestre de Azevedo, de 44 anos, que trabalhava como massoterapeuta em sua própria residência.
O chargista chegou até ela inicialmente como cliente. Com o passar do tempo, a relação estritamente comercial, onde ele trocava seus serviços de artes gráficas por sessões de massagem, evoluiu para um envolvimento íntimo. Segundo os depoimentos prestados à polícia, esse relacionamento durou cerca de nove meses. No entanto, havia um descompasso fundamental entre os dois: enquanto Clarice exigia que a relação fosse assumida publicamente e a desejava como namorada oficial, Marco Antônio resistia. Ele queria manter o romance às escondidas, longe dos holofotes, o que gerava profundo ressentimento nela.
De acordo com a promotora Lívia Carla Bariani, responsável pela acusação, embora Clarice tentasse minimizar o fato de ser mantida em segredo, essa foi exatamente a semente do crime. A denúncia apontou que a massoterapeuta agiu impelida por um ódio vingativo e um ciúme doentio, incapaz de aceitar a recusa do chargista em oficializar a união.
A Manhã do Crime: A Frieza Diante do Sangue
O relógio marcava 7h30 da manhã do dia 21 de novembro de 2020, um sábado. Imagens de câmeras de segurança registraram Marco Antônio caminhando tranquilamente pelo bairro Monte Castelo em direção à casa de Clarice. Ele tinha uma sessão de massagem agendada. Após cerca de 50 minutos de atendimento, o chargista foi tomar banho. Ao retornar ao quarto, o estopim da fúria foi aceso.
Clarice abordou um assunto que a consumia: uma fotografia que Marco Antônio havia publicado recentemente em suas redes sociais, onde aparecia ao lado de outra mulher. Uma discussão teve início. Na versão apresentada pela ré, a briga escalou, culminando em um tapa que ele teria desferido contra ela. Ela alegou que, tomada pela raiva, o empurrou na escada e, aproveitando-se de seu estado de atordoamento, pegou uma faca na cozinha e desferiu os golpes, atingindo as costas e o peito quando ele se virou.
A investigação da Delegacia Especializada de Repressão a Crimes de Homicídios (DEH), contudo, apresentou uma dinâmica muito mais cruel. Os laudos periciais indicaram que Marco Antônio estava deitado na cama, de costas e completamente vulnerável, quando sofreu o primeiro ataque. Não foram encontrados vestígios físicos de que qualquer agressão prévia por parte dele tivesse ocorrido. A conclusão do inquérito foi taxativa: o chargista não teve a menor chance de defesa.
O que se seguiu ao esfaqueamento é o que o juiz do caso, Aloísio Pereira dos Santos, classificou como um ato de extrema crueldade. Em depoimento formal ao delegado Carlos Delano, Clarice narrou suas ações com uma calma perturbadora. Ela relatou que, no momento dos golpes, o sangue do namorado espirrou na parede de seu local de trabalho. Em vez de acionar socorro, ela pegou um lençol, cobriu o corpo de Marco Antônio e virou as costas. O detalhe mais estarrecedor foi confirmado pelo próprio delegado: ao ser questionada se a vítima ainda respirava enquanto estava coberta, Clarice disse que sim. Sua prioridade, no entanto, foi limpar o sangue da parede, pois havia um outro cliente agendado para aquele mesmo dia.
Após limpar a cena, como se nada tivesse acontecido, a massoterapeuta saiu de casa, caminhou até o bar da esquina, ajudou a arrumar algumas mesas, varreu a calçada e retornou. Em seguida, a mulher que alegava ter agido por impulso saiu novamente, desta vez para fazer compras precisas em um comércio local: facas novas, luvas, sacos de lixo reforçados e água sanitária. A perícia foi clara ao afirmar que não houve perda de controle momentânea, mas sim uma premeditação calculada sobre como se livrar do problema que havia criado.
O Esquartejamento e o Fogo
Quando a noite caiu, Clarice ligou para o seu filho, João Vittor Silvestre de Azevedo, de 21 anos. Para atraí-lo até a residência, inventou que o encanamento da casa havia estragado e precisava de ajuda. Ao chegar ao local, por volta das 18 horas, o jovem se deparou com a cena dantesca: o corpo do chargista morto.
Em vez de denunciar a mãe, João Vittor tornou-se cúmplice. Segundo as investigações, confirmadas pelos depoimentos de ambos, o rapaz auxiliou Clarice na macabra tarefa de esquartejar o cadáver de Marco Antônio. Os restos mortais foram minuciosamente condicionados dentro de três malas de viagem. Às 19h30, as malas foram levadas provisoriamente para a casa do filho, no Jardim Tarumã.
A etapa final da ocultação ocorreu na madrugada de domingo. Mãe e filho acionaram um motorista de aplicativo para realizar o transporte. O trabalhador, sem fazer ideia do horror que carregava no porta-malas, foi enganado por Clarice. Ela justificou o volume da bagagem dizendo à vizinhança e ao motorista que estava levando roupas para doação, acompanhada de seu filho e de um cachorro. Pelo serviço de transporte até uma casa abandonada no Jardim Corcovado, no cruzamento das ruas Pampas e Nova Europa, ela pagou a quantia de R$ 70. Ao chegarem ao destino ermo, descarregaram as malas e atearam fogo, na esperança de reduzir as provas a cinzas.
A Investigação, a Fuga e a Justiça
Enquanto a fumaça apagava os vestígios físicos, a família de Marco Antônio vivia o desespero do sumiço. No próprio sábado à tarde, sem notícias, começaram as buscas. Através do rastreamento do sinal de celular do chargista, descobriram que a última localização apontava para as proximidades da casa de Clarice, no Monte Castelo. No domingo, o desaparecimento foi oficialmente registrado na DEH.
Sabendo que era a última pessoa a ter contato com a vítima, a polícia convocou Clarice para depor na segunda-feira, dia 23 de novembro. Duas horas antes do depoimento marcado, seu celular foi desligado. Ela não apareceu. Havia fugido para a cidade de Coxim, a 260 quilômetros da capital, com o intuito de se despedir de suas filhas. Na manhã de terça-feira, com um pedido de prisão temporária já expedido, a massoterapeuta cedeu à pressão. Ela se entregou no batalhão da Polícia Militar de São Gabriel do Oeste, a 140 quilômetros de Campo Grande. Em prantos, confessou o assassinato e indicou o local exato onde havia abandonado os restos mortais.
A equipe da DEH foi até a casa abandonada no Jardim Corcovado e encontrou as três malas carbonizadas. A identidade de Marco Antônio, devido ao estado dos restos mortais, precisou ser confirmada cientificamente através de exames de DNA.

Presa e encaminhada ao presídio feminino Irmã Irma Zorzi, a defesa de Clarice tentou manobras jurídicas para atenuar sua culpa. Apresentaram um histórico psicológico que incluía sete tentativas de suicídio, quadro depressivo severo, instabilidade emocional e impulsos agressivos. O objetivo era conseguir um exame de insanidade mental para provar que ela não tinha plena consciência de seus atos. O juiz Carlos Alberto Garcete, da 1ª Vara do Tribunal do Júri, analisou o pedido em sigilo e o negou, determinando que a ré era lúcida e responderia criminalmente por suas ações, enviando-a para júri popular.
O desfecho legal ocorreu em 2 de junho de 2022. O julgamento foi marcado por uma dor irreparável. Kelvis Borges, filho da vítima, ficou cara a cara com a mulher que esquartejou seu pai, precisando ser medicado com calmantes para suportar a sessão. A tragédia familiar foi ainda maior: a mãe do chargista, Dona Natalina Borges, não viveu para ver a justiça ser feita. Diagnosticada com câncer em 2021, ela faleceu em abril de 2022, uma piora que a família atribui diretamente ao impacto devastador da forma violenta como perdeu o filho.
No tribunal, a tese de legítima defesa apresentada por Clarice desmoronou diante dos fatos e da brutalidade da ocultação. Ela foi condenada a 16 anos de prisão em regime fechado. Os jurados reconheceram as qualificadoras: homicídio por motivo torpe, emprego de meio cruel, e uso de recurso que dificultou a defesa da vítima, somados aos crimes de ocultação e destruição de cadáver. João Vittor, o filho cúmplice, recebeu a pena de 1 ano e 6 meses em regime aberto pela ocultação do corpo, tendo a sua confissão pesada como fator atenuante.
Marco Antônio Rosa Borges não tinha inimigos, não possuía registros de ameaças ou conflitos. Foi apagado de forma bárbara simplesmente por desejar manter sua vida privada fora das vitrines. O caso permanece como uma ferida aberta na memória do estado, uma lembrança sombria de que a violência mais extrema pode se esconder por trás de uma porta fechada, na frieza de quem limpa o sangue para continuar a vida como se nada tivesse acontecido.
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