A lua de mel, se é que ela existiu em algum momento recente, acabou de forma abrupta. Para quem acompanha futebol há mais de três décadas, sabe muito bem que vestir a camisa da Seleção Brasileira em uma Copa do Mundo não é um convite para um cruzeiro de luxo. É uma convocação para o campo de batalha. E foi exatamente esse o recado que os torcedores brasileiros, exaustos de atuações burocráticas e rostos apáticos, deram diretamente na cara de dois dos jogadores mais cobrados do atual elenco: Raphinha e Casemiro. O que se viu não foi apenas um protesto, foi um “esculacho” pedagógico, um choque de realidade para astros que parecem ter esquecido o peso do escudo que carregam no peito.

A cena, que já circula pelos quatro cantos do país, é daquelas que lavam a alma do torcedor raiz. O clima de passividade deu lugar à cobrança nua e crua. De um lado, a torcida pressionando no limite da indignação; do outro, jogadores atônitos, visivelmente desconfortáveis com a situação. O recado foi direto, sem meias palavras, como o futebol exige. “Copa do Mundo é guerra, irmão”, bradou um dos líderes do protesto, apontando o dedo na cara de Raphinha. A frase resume o sentimento de uma nação que não aceita ver sua seleção jogando com o freio de mão puxado enquanto seleções teoricamente menores deixam sangue no gramado.
A dinâmica do protesto foi um espetáculo à parte pela sua clareza. O torcedor brasileiro não foi lá para abandonar o barco. Como bem explicou um dos presentes, o apoio incondicional é inegociável. A torcida vai cantar, vai empurrar, mas isso vem com um “temperinho de cobrança”. É o pacto não escrito do futebol brasileiro: nós cantamos na arquibancada, vocês correm até a exaustão no campo. Raphinha, visivelmente encurralado pela verdade, limitou-se a usar aquele discurso padrão de assessoria de imprensa: “Pode contar que a gente está fechado, a gente está unido e vai para cima”. Palavras bonitas, mas que só ganham valor quando a bola rola. Até agora, ficaram apenas no campo da promessa.
A situação de Casemiro é um capítulo ainda mais melancólico dessa história. O volante, que um dia foi o motor e o cão de guarda absoluto do nosso meio-campo, hoje desfila pelos gramados com uma lentidão que chega a irritar. Durante o protesto, a torcida não perdoou: “Vamos correr, Casemiro!”. A dura realidade é que falta giro, falta velocidade e sobra peso em campo. O jogador parece atuar em um ritmo de amistoso de fim de ano, caminhando em campo enquanto os adversários engolem nosso setor de criação. Pior do que a falta de perna, é a postura apontada por quem acompanhou o protesto de perto: na hora do aperto, do grito cara a cara, Casemiro “pipocou” para os torcedores. Faltou a mesma firmeza que deveria sobrar nos desarmes.
Se a cobrança aos jogadores foi pesada, a análise do que acontece dentro das quatro linhas joga uma luz preocupante sobre o comando técnico. A teimosia do técnico Carlo Ancelotti já começa a testar a paciência de quem entende que Copa do Mundo não perdoa erros prolongados. O último jogo escancarou uma bizarrice tática e de gestão de elenco. Enquanto Vinícius Júnior chamava a responsabilidade, fazia jogada de Real Madrid e marcava um belo gol para o Brasil, Raphinha errava absolutamente tudo o que tentava. E o que o treinador fez? Manteve Raphinha em campo pelos noventa minutos. Um erro crasso, uma barbaridade que custa caro em um torneio de tiro curto.
É difícil tentar justificar o injustificável. Manter um jogador que não está rendendo nada, enquanto talentos explosivos e famintos como o garoto Endrick mofam no banco de reservas, é flertar com a eliminação. O sistema de jogo imposto por Ancelotti se mostra extremamente complicado de ser aplicado com as peças atuais que ele insiste em usar. O espaçamento entre os setores é assustador, prejudicando completamente a fluidez de jogo. O Brasil fica engessado, previsível e dependente de lampejos individuais de Vini Jr., porque a construção coletiva simplesmente inexiste. E parte dessa culpa cai na conta de jogadores que têm muito status e pouca entrega.
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O torcedor tem razão em estar revoltado. Assistimos a seleções como Japão e Holanda jogando com uma organização e uma vontade que parecem faltar aos nossos “intocáveis”. O diagnóstico já foi feito pela própria torcida: dá tempo de mudar, dá para brigar pela Copa do Mundo, mas a mentalidade tem que ser outra. É preciso parar de improvisar, parar de passar pano para medalhão que não está rendendo e colocar em campo quem tem fôlego e vontade de vencer. Se Casemiro não aguenta mais o ritmo, que dê lugar a quem consiga preencher os espaços. Se Raphinha não acerta um cruzamento, que vá para o banco refletir sobre seu futebol.
O esculacho que aconteceu não foi um ato de vandalismo, foi um ato de desespero e amor à camisa. Foi a torcida exercendo o seu papel mais primitivo e necessário: o de fiscal da paixão nacional. Casemiro e Raphinha carregam bagagens pesadas de glórias em clubes europeus, mas aqui a cobrança é em português, e a régua é o pentacampeonato. Passou da hora de pararem de fazer cara feia para a crítica e começarem a jogar bola. A torcida já fez a parte dela, enquadrou, avisou que a Copa é guerra e prometeu o gogó na arquibancada. Agora, a bola está com eles. Ou suam a camisa de verdade, ou o próximo encontro com a torcida não será apenas um aviso amigável com o dedo na cara no saguão do hotel. O recado está dado. O Brasil exige respeito.
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