O Brasil assiste, muitas vezes em silêncio e sob o manto do medo, à consolidação de um sistema jurídico paralelo que opera à margem da Constituição Federal. São os chamados “Tribunais do Crime”, instâncias de julgamento sumário criadas por facções criminosas para disciplinar, punir e, em última instância, eliminar qualquer um que represente um entrave, uma ameaça ou uma dívida pendente em seus territórios de domínio. Casos recentes ocorridos em regiões distintas, como na Serra, em Salvador e em Vitória da Conquista, revelam um padrão de violência que ignora qualquer princípio de direitos humanos, transformando ruas e becos em palcos de execuções filmadas e celebradas pelos algozes.
O primeiro caso que nos transporta para o epicentro desse horror aconteceu em uma região serrana e envolveu uma adolescente. Segundo informações colhidas nos bastidores do submundo, a motivação seria uma dívida relacionada ao tráfico de drogas — um “pecado capital” dentro da estrutura das facções. No entanto, o que torna este episódio particularmente perturbador é o relato de que a sentença inicial não era a morte. O “conselho” da facção teria decidido por uma “correção”, um termo eufemístico usado para descrever uma surra severa que servisse de exemplo para a comunidade. Mas, na lógica distorcida da violência, o controle é uma ilusão. Durante a aplicação do castigo, um golpe de porrete na cabeça da jovem mudou tudo.
Imagens de câmeras de monitoramento e registros feitos pelos próprios criminosos, que não podem ser exibidos integralmente por sua natureza sensível, mostram a jovem entrando em convulsão imediatamente após o impacto. O desespero não partiu dos agressores, mas sim da própria biologia da vítima, que lutava pela vida enquanto continuava a receber socos no rosto. A brutalidade foi tamanha que os próprios executores pareceram confusos por alguns instantes, tentando levantar o corpo inerte antes de abandoná-lo. A perícia técnica, ao analisar o local dias depois, encontrou o objeto do crime, mas o silêncio da vizinhança — o famoso “lei do silêncio” — impediu que nomes fossem ligados ao ato com a rapidez necessária.
Em Salvador, a capital baiana, o cenário do segundo caso ilustra como o simples ato de trabalhar pode se tornar uma sentença de morte quando se cruza uma fronteira invisível entre facções rivais. Um mototaxista, cuja única “falha” foi aceitar uma corrida para uma zona dominada pela facção “Ajeita-se Junta”, ligada ao Comando Vermelho, viu-se cercado por um tribunal improvisado em plena via pública. O interrogatório foi rápido e impiedoso. Sob a mira de armas, ele foi questionado sobre sua origem e se prestava serviços para o “Bonde do Maluco”, o grupo rival. O ápice do terror ocorreu quando os criminosos decidiram colocar a vida do trabalhador nas mãos de uma voz anônima do outro lado de uma linha telefônica.
Mesmo clamando por sua inocência, afirmando ser pai de família e um trabalhador honesto, o mototaxista teve seu destino selado por uma confirmação por telefone. A execução foi sumária, com múltiplos disparos na cabeça, sem qualquer chance de defesa. Este caso levanta um alerta gravíssimo sobre a segurança de profissionais de transporte e entregas, que se tornam alvos colaterais em uma guerra de territórios que eles não escolheram lutar. A ausência de prisões imediatas nestes casos reforça a sensação de impunidade e o poder paralelo que desafia a autoridade do Estado em plena luz do dia.

O terceiro ato dessa tragédia nacional nos leva a Vitória da Conquista, no interior da Bahia. Valen Karine Soares Silva, de apenas 22 anos, caminhava tranquilamente pelo bairro São Vicente quando sua vida foi interrompida por uma emboscada milimetricamente planejada. Dois homens em uma motocicleta se aproximaram e, sem qualquer diálogo ou aviso, o garupa iniciou uma sequência de disparos. Valen ainda tentou correr, um reflexo humano de sobrevivência, mas caiu metros à frente. O assassino desceu do veículo para “conferir” o serviço, disparando repetidamente contra a cabeça da jovem já caída. O que torna este crime ainda mais emblemático da era digital do crime é que os próprios executores gravaram o vídeo da morte, disseminando-o como uma forma de propaganda do terror.
A resposta estatal, neste caso, veio através de uma operação da Polícia Militar que localizou o principal suspeito, Micael Ferreira Bittencur, de 19 anos, escondido em uma casa na cidade de Barra do Choça. O desfecho da operação foi violento: um confronto armado que resultou na morte de Micael e de um comparsa adolescente de 17 anos. Embora a morte dos suspeitos encerre a busca pelos executores diretos, as perguntas sobre quem deu a ordem e qual foi a real motivação — dívida ou conflito de interesses no tráfico — permanecem sem uma resposta definitiva que traga paz à família de Valen Karine.
A análise técnica desses três episódios revela uma realidade aterrorizante: o tribunal do crime não busca a verdade, mas sim a manutenção da ordem através do medo. A rapidez com que as decisões são tomadas, muitas vezes baseadas em boatos, mensagens de WhatsApp ou ligações telefônicas, mostra que a vida humana tornou-se uma moeda de troca sem valor para essas organizações. A filmagem dos crimes serve a um propósito duplo: humilhar a vítima e suas famílias e servir como um aviso visual de que a autoridade da facção é absoluta e inquestionável.
A sociedade brasileira encontra-se em uma encruzilhada. A expansão desses territórios de exclusão jurídica, onde o Código Penal é substituído pela vontade de um líder local, ameaça a própria base da democracia. Enquanto o Estado luta para retomar o controle através de operações pontuais, a estrutura dessas facções continua a se regenerar, recrutando jovens cada vez mais novos para realizar o trabalho sujo de juízes e carrascos. O luto das famílias, como o da jovem Valen ou o do mototaxista em Salvador, é o testemunho silencioso de uma guerra que o país ainda não aprendeu a vencer.
O desfecho cruel dessas histórias não é apenas um registro policial, mas um grito de alerta. A vulnerabilidade de quem vive ou trabalha em áreas periféricas é total, e a linha entre a vida e a morte é tão tênue quanto um boato mal contado. A punição aplicada sem chance de defesa, o interrogatório sob tortura psicológica e a execução gravada como troféu são as marcas registradas de uma era onde a barbárie tenta se normalizar. Que o choque provocado por esses relatos sirva para que a justiça real, aquela baseada em leis e evidências, encontre caminhos para desmantelar esses tribunais de sangue antes que mais destinos sejam traçados por mãos que só conhecem o gatilho.