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EX-COVEIRO REVELA O QUE ACONTECEU APÓS O ENTERRO DE UM ASSASSINO EM 1979

Durante um funeral, em 1979, senti um peso que nunca tinha sentido nos 15 anos que trabalhei no cemitério. Enquanto o padre rezava e as pessoas choravam, apercebi-me de uma mulher parada mais afastada, sozinha, olhando tudo em silêncio. E quando o enterro acabou e foram todos embora, ela ficou. E o que aconteceu depois fez-me entender que eu não tinha enterrado apenas um homem.

Meu nome é Fernando Miguel da Silva, tenho 78 anos e esta é a minha história em minutos. Eu estava a descer o caixão quando senti pela primeira vez uma pressão no peito que chegou lentamente. Não era dor, era um peso, algo que eu não conhecia. Fiquei parado, tentando perceber o que estava a acontecer comigo. Pensei que fosse do calor.

O sol daquela tarde batia com força nas lápides. O chão estava quente e eu já tinha trabalhado durante toda a manhã. Pensei que era o cansaço, o corpo a pedir descanso. Depois respirei fundo e voltei à atenção pro que estava à minha frente. Não era altura de ficar a pensar em mim. O padre rezava em voz alta e as pessoas em redor respondiam baixinho.

Algumas choravam e tudo parecia normal. Um enterro igual a tantos outros que já tinha feito naquele cemitério ao longo dos anos. Mas aquela sensação não passou. Ficou ali quieta, pesando no fundo do peito. Era uma presença estranha que eu não conseguia ignorar. O padre atirou um punhado de terra por cima do caixão e fez o sinal da cruz.

As pessoas em redor ficaram em silêncio durante alguns segundos. Era aquele silêncio que vem sempre nesta hora. Foi quando passei os olhos pelo cemitério que ouvi. Mas afastada, havia uma mulher parada sozinha. Ela não estava perto dos outros, não conversava com ninguém, não olhava para ninguém ao redor, só ali ficava de pé, olhando em silêncio na direção do túmulo.

Dei uma segunda olhada. Ela não se mexeu. Continuava no mesmo local, com o mesmo olhar fixo, como se o resto do mundo não existisse naquele momento. Tinha uns 40 anos, estava com roupa simples, cabelo preso, não parecia perdida, não parecia perturbada, parecia alguém que estava exatamente onde queria estar, só que separada de tudo o resto, sem fazer parte daquele grupo, sem se aproximar de ninguém.

Aquilo chamou-me a atenção, mas não disse nada. Não era da minha conta quem ela era ou o que estava a fazer ali. Fiquei no meu lugar e voltei os olhos para o serviço. O funeral terminou. O padre deu a bênção final e foi cumprimentando as pessoas uma a uma. Aos poucos, o grupo foi-se desfazendo e em pouco tempo o setor foi ficando vazio.

Os passos foram desaparecendo e aquele silêncio de cemitério voltou lentamente. Um silêncio que nunca é igual ao dos outros lugares. É mais fundo, mais pesado. Eu já estava habituado a ele, mas naquela tarde parecia diferente. Parecia cheio de qualquer coisa que eu não sabia nomear. Então preparei-me para começar a fechar a cova. Era o que precisava de ser feito.

Mas antes de começar, olhei de soslaio para o lugar onde aquela mulher se encontrava. Ela não tinha saído. Continuava parada no mesmo ponto, de olho no túmulo, imóvel. Todo mundo tinha ido embora, menos ela. Fiquei a olhar por alguns segundos sem saber o que pensar. Cada um tem o seu forma de se despedir. E eu não era ninguém para julgar o dela.

Eu comecei o serviço. O trabalho seguiu o ritmo de sempre, mas de vez em quando eu olhava para ela e ela estava sempre no mesmo lugar, com o mesmo olhar fixo no túmulo. Não chorava, não fazia qualquer gesto, apenas estava de pé, parada, a olhar. E quanto mais o tempo passava, mais aquele peso que sentia no peito desde o início do enterro ia mudando.

Não estava maior, estava diferente, mais firme, mais real. E naquele momento eu não sabia quem ela era, não sabia nada sobre ela para além do que estava a ver. Eu acenei com a cabeça e tentei me concentrar no que estava a fazer. Trabalho é trabalho. No cemitério não é lugar para deixar o pensamento vaguear. Faz o serviço e vai embora.

Mas naquele dia era diferente. Aquela mulher ali parada, olhando fixamente para o túmulo e aquele peso no meu peito que não parava de crescer, diziam-me que aquele enterro ainda não tinha terminado. Tinha terminado o serviço e estava arrumando as ferramentas quando ouvi passos. No cemitério vazio, qualquer barulho ouve-se longe, aqueles passos eram claros. vinham na minha direção.

Eu parei e fiquei a escutar. Os passos continuavam firmes, sem pressa, mas sem parar. Virei-me devagar e era ela. Não vinha falar comigo. Isso ficou claro desde o primeiro segundo. O olhar dela estava fixo no túmulo. Ela caminhava como se eu não existisse ali, como se todo o cemitério não existisse ao redor dela.

E ela ia até lá com uma determinação que nunca tinha visto. Fiquei parado, sem me mexer, não sabia o que fazer. Em todos os anos que trabalhei no cemitério, já tinha visto muita coisa. Já tinha visto pessoas desabar, as pessoas chegarem tarde demais e se jogar no choro. Mas aquilo era diferente.

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Ela não estava em desespero, estava concentrada, como alguém que tinha esperado muito tempo por aquele momento e estava finalmente a cumprir o que tinha vindo fazer. Ela passou por mim sem olhar para mim e foi direto até ao beira do túmulo e parou. Ficou ali de pé, olhando para a terra. A distância entre nós os dois era de uns poucos metros, mas parecia muito mais do que isso.

Vi o rosto dela de perto pela primeira vez. Estava cansado. Não era o cansaço de quem não dormiu, foi o cansaço de quem carrega alguma coisa pesada. Os olhos estavam secos. mas vermelhos. E havia uma expressão ali que eu não conseguia nomear direito. Não era só tristeza, tinha outra coisa junto com ela, alguma coisa mais dura, como uma raiva.

Ela ficou parada à beira do túmulo em silêncio. Não rezou, não fechou os olhos, não juntou as mãos, só ficava de pé, olhando para a terra com aquele rosto fechado. E aquela tensão que eu vinha carregando desde que o enterro tinha começado, foi chegando a um ponto diferente, mais alto, mais apertado, como se tudo aquilo que eu tinha sentido até ali tivesse a construir para esse momento sem que eu soubesse.

Não sei explicar por não ter ido embora. O serviço tinha terminado, mas não o fiz. Havia qualquer coisa naquele momento que prendia-me ali naquele lugar. Não era curiosidade, era outra coisa, uma sensação de que aquilo era importante e precisava de estar ali até ao fim, qualquer que fosse ele. O vento passou uma vez entre as árvores do cemitério, aquele barulho seco de folha que a gente só ouve quando está em silêncio de verdade.

E então ela respirou fundo, um respirar diferente dos outros, daqueles que a gente toma quando está se preparando-se para dizer alguma coisa que ficou guardada durante muito tempo. Eu senti aquilo antes mesmo de ela abrir a boca. O corpo dela mudou completamente, os ombros baixaram, as mãos fecharam-se ao lado do corpo e depois ela abriu a boca e a voz saiu com uma força que eu não esperava naquele cemitério vazio naquela tarde.

E ela disse, gritando: “Tu merece estar aqui depois do que tirou de mim.” Não era um grito de desespero, era grito de quem finalmente pôde falar, de quem guardou aquilo lá dentro durante meses e meses sem ter para onde enviar. Aquelas palavras foram para o homem que eu tinha acabado de ali enterrar. Eu fiquei parado onde estava.

Não me mexi, não disse nada. Aquelas palavras tinham saído com uma força que o cemitério inteiro parecia ter absorvido. Não eram palavras lançadas ao vento, eram palavras que tinham morada e o endereço era debaixo daquela terra. Fiquei a olhar para ela sem saber o que esperar e depois vi. Os joelhos dela cederam sem aviso. Ela foi descendo lentamente, como se as pernas tivessem chegado ao limite do que conseguiam segurar, e caiu de joelhos na frente daquele túmulo e começou a chorar.

Não era um choro de lágrimas fáceis, era um choro que vinha de um lugar muito fundo. Um choro que a gente ouve e sabe na altura que não começou ali, que aquilo tinha muito tempo dentro dela à espera para sair. Então eu larguei a pá no chão lentamente e aproximei-me dela com cuidado. Eu não sabia quem ela era. Não sabia o que ela tinha a ver com aquele homem que eu tinha enterrado naquele dia.

Mas uma coisa eu sabia com certeza naquela tarde. Aquele choro não era de saudade, era de uma dor. E aquele túmulo guardava uma história que eu ainda não conhecia. Ela ainda estava de joelhos quando me aproximei. Baixei-me ao lado dela, coloquei a mão no braço com cuidado e fui ajudando-a a se levantar devagar.

Ela não disse nada, eu também não. E quando ficou de pé, estava fraca nas pernas. Então fiquei perto enquanto ela se firmava. Ali perto tinha um velho banco de cimento debaixo de uma árvore entre os canteiros. Fiz um gesto com a cabeça na direção dele. Ela compreendeu e foi andando. Sentou-se com as mãos no colo e o olhar ainda no chão.

Perguntei se estava tudo bem. Ela ficou em silêncio por um tempo e quando começou a falar, a voz saiu-lhe baixa e sem força, como se as palavras pesassem antes de sair. Ela disse que o homem ali enterrado tinha matado o filho dela, um rapaz de 12 anos, que regressava da escola numa segunda-feira, às 2as da tarde, numa rua que ele percorria todos os dias desde que tinha começado a ir sozinho para a escola.

O homem estava embriagado quando atropelou o menino. Bateu-lhe com o carro e o veículo ainda foi ao encontro a um poste antes de parar. Ela soube o que tinha acontecido, porque a vizinha foi buscar outro filho à escola e encontrou o movimento na rua. Ela não chegou a tempo de ver o filho com vida. Ela contou isto sem gesticular, sem levantar a voz.

Ela disse que o filho se chamava O Rodrigo, que era um menino calado, gostava de ler e que tinha pedido para ir sozinho para a escola nesse ano porque pensava que já estava crescido o suficiente. Ela deixou porque ele era cuidadoso, porque ela conhecia o caminho e sabia que era uma rua calma, sem grande movimento.

Não era uma rua de perigo, era a rua de todos os dias. Ela contou que quando a vizinha chegou com a notícia, ela não compreendeu de imediato. Ficou alguns segundos parada à porta, sem conseguir processar o que estava ouvindo. Depois saiu a correr descalça. E quando chegou à rua e viu o movimento, o carro contra o poste, as pessoas paradas, ela já sabia.

O corpo dela sabia antes da cabeça. Disse que há coisas que a gente sente antes de ver. e que aquele foi um desses momentos que já não saem. Foi preso naquele dia, mas poucos dias depois já estava em casa respondendo em liberdade enquanto o processo corria. Ela teve de passar pelo enterro do filho sabendo disso. Teve de aguentar aquele dia inteiro, sabendo que quando o sol se fosse embora, aquele homem ia estar na sua própria cama, na sua própria casa, enquanto o menino estava debaixo da terra.

Enquanto ela ia falando, aquele sentimento que senti no enterro ia crescendo. E depois do funeral do filho, a sua vida mudou. De repente, ela foi-se fechando. Parou de ver as amigas, deixou de atender as vizinhas que vinham perguntar como é que ela estava. Deixou de sair quando não era necessário, não por maldade, não por vontade.

Era só que já não havia energia para manter nada. As coisas foram desaparecendo uma a uma. O casamento também se foi desfazendo com o tempo. Ela não falou de briga, nem de culpa de ninguém. Disse apenas que o peso foi separando os dois aos poucos, sem que nenhum dos dois conseguisse evitar. que o marido tentou ficar ao lado, que ela sabe disso e reconhece, mas tem dores que carregamos de um jeito que o outro não consegue acompanhar.

E chegou uma altura em que estavam no mesmo teto, mas cada um num lugar diferente por dentro. A escuridão foi chegando lentamente, sem avisar. Era uma vida que tinha perdido a cor sem que ninguém de fora a visse. E ela foi vivendo assim, dia após dia, enquanto aquele homem vivia livre, esperando um julgamento que não vinha. O processo não andava.

Ela foi chamada algumas vezes, assinou papéis, respondeu a perguntas de pessoas que falavam com ela como se estivessem resolvendo uma questão burocrática qualquer. Esperou por datas que sempre mudavam sem explicação. 7 meses assim, sete meses a carregar aquilo por dentro enquanto o homem que matou o filho dela dormia na sua própria cama toda a noite sem prestar contas a ninguém.

Ela disse que nos primeiros meses ainda esperava que a justiça fizesse alguma coisa, que alguém ligasse com uma data, com uma resposta, com qualquer coisa que parecesse que o mundo ainda funcionava de alguma forma. Mas as semanas foram passando e nada vinha. E ela foi aprendendo da forma mais duro que existe, que esperar por a justiça é uma coisa que consome a pessoa por dentro sem que ninguém de fora perceba.

Ouvi-a contar tudo aquilo, sentado naquele banco de cimento, sem interromper, sem fazer pergunta nenhuma. Ela estava a falar porque precisava falar, não porque alguém o tivesse pedido. E estava a ouvir porque era o que cabia fazer ali naquele momento. Ela disse também que o delegado que tratava do caso ligou-lhe e disse que o homem que tinha matado o filho dela estava morto e que o processo iria ser arquivado sem julgamento.

Ela disse que ficou em silêncio ao telefone, sem conseguir identificar o que estava sentindo. Não foi alívio, não foi tristeza, foi alguma coisa que ficou no meio e que não tinha nome certo. Depois agradeceu ao delegado e desligou. Ela ficou a tentar perceber o que aquela notícia significava para ela depois de tudo o que tinha vivido naqueles s meses longos.

E quando não chegou a nenhuma resposta que fizesse sentido, decidiu que precisava de ver o caixão a descer e sendo aquele túmulo fechado com os próprios olhos. Precisava de ter a certeza de que era real, que aqueles s meses que arrastou sem julgamento, sem resposta, sem nada que se parecesse com justiça, tinham chegado a algum fim.

Não o fim que ela queria, mas um fim. Quando ela terminou de falar, ficou em silêncio, mas era um silêncio diferente do que tinha antes de começar. Era o silêncio de quem acabou de colocar um peso no chão depois de carregar durante muito tempo. Eu vi isso na forma como os ombros dela afroucharam, na forma como a respiração foi ficando mais calma naquele banco de cimento velho.

Passado um tempo, ela levantou-se devagar, sem pressa. Ficou de pé por um momento, olhando para o banco onde se tinha sentado. Depois virou os olhos para o túmulo. Então começou a caminhar lentamente em direção à cova. Parou na beira de pé com as mãos ao lado do corpo, olhando para a terra. Não rezou, não fechou os olhos, apenas ficou ali em silêncio.

Fiquei onde estava, não me movi-me e não disse nada. O que estava ali a acontecer era dela. Então fiquei a alguns metros olhando para ela, esperando. O cemitério estava completamente vazio. Só nós os dois. o silêncio da tarde de agosto e aquele túmulo à sua frente que guardava o homem que eu tinha enterrado horas antes, sem saber nada do que tinha feito.

Então, ela virou-se devagar e olhou para mim. O olhar durou um segundo e depois ela falou com uma voz firme e plana que não esqueci até hoje. Agora está na mão de Deus. Ele vai fazer o que o homem não o fez. Ela disse que sem raiva e sem alegria. Era a voz de quem entrega, não de quem deseja mal. estava colocando aquilo num sítio maior do que ela, maior do que aquele cemitério, maior do que tudo o que tinha acontecido naqueles s meses de injustiça.

E então ela começou a caminhar em direção à saída, sem se despedir, sem me voltar a olhar, sem hesitar um segundo. Foi andando entre as lápides, com um passo diferente do passo de quando ela chegou. Quando entrou naquele cemitério, os passos eram de alguém que carrega um peso que mal conseguia segurar.

Quando saiu, eram de alguém que tinha deixado alguma coisa para trás, não curada, mas diferente da como entrou. Fiquei de pé, parado, vendo-a afastar-se. Ela foi ficando menor à medida que se distanciava entre as lápides até desaparecerem pela saída. Eu esperava que o peso que sentia desde o início do enterro fosse embora junto com ela. Era o que fazia sentido.

Ela tinha chegado carregando aquilo, tinha contado, tinha dito o que precisava falar e tinha ido embora. Era natural que aquela sensação fosse junto, mas não foi. O peso continuou ali depois de ela desapareceu, no ar do cemitério, na terra do túmulo, no silêncio que ficou. Fiquei parado em frente daquela cova por um tempo que não sei dizer quanto foi.

Pode ter sido 5 minutos, pode ter sido mais. O tempo no cemitério funciona diferente quando estamos sozinhos. Não tem barulho para marcar, não tem movimento para contar. É só a gente e o silêncio e o que estamos a sentir por dentro. E eu estava a sentir muita coisa nessa tarde, coisas que não tinham nome fácil.

Tentei organizar, tentei perceber de onde vinha cada uma. Pensei na mulher que se tinha sentado do meu lado naquele banco e contado uma história que não era para eu ouvir, mas que eu ouvi assim mesmo. Pensei no rapaz de 12 anos que regressava da escola numa segunda-feira e nunca chegou a casa. Pensei nos s meses que ela carregou aquilo sem ter onde o colocar.

Pensei nas palavras que ela lançou naquele túmulo antes de cair de joelhos. Pensei também no homem que tinha enterrado nesse dia de manhã. Eu não sabia nada sobre ele. Era mais um nome numa ordem de serviço. Eu tinha chegado cedo, preparado a cova, esperado o cortejo chegar, feito o meu trabalho como sempre fiz, sem saber nada do que aquele homem tinha feito, sem saber que do outro lado da cidade existia uma mulher que ia aparecer naquele cemitério nessa tarde, carregando s meses de dor sem nome. Às vezes pensava que o

trabalho de coveiro era simples. Você abre, fecha. O que ficou no meio não é da sua conta. Mas naquele dia eu entendi que não é bem assim, que às vezes estamos no lugar certo, na hora certa, sem ter pedido para estar. e que ouvir também é um trabalho. Não tem pá, não há ferramenta, não há técnica, mas é um trabalho assim mesmo.

E depois deixei de pensar em tudo isso e prestei atenção apenas no que estava a sentir no peito, no peso que ali estava desde o início do enterro e que não tinha ido embora com ela. Devagar foi ficando mais claro. O peso era diferente do de antes, mais firme, mais denso, como se eu soubesse agora de onde vinha.

Não era mais uma presença sem nome, era alguma coisa que eu conseguia quase tocar se estendesse a mão. O nome do menino ficou na minha cabeça, Rodrigo. Ela tinha falado o nome só lá no banco, quase de passagem, como quem ainda está aprendendo a dizer aquilo em voz alta, sem se partir. Rodrigo, 12 anos. Voltava da escola numa segunda-feira porque tinha pedido para ir sozinho, porque pensava que já estava crescido o suficiente.

E foi ali, parado em frente daquela terra recém fechada, que eu Compreendi o que tinha sentido desde o início daquele enterro. Aquele peso não era dela, nunca foi. Vinha de dentro daquele túmulo. Era do homem que eu tinha enterrado nesse dia sem saber nada sobre o que tinha feito em vida. Era a culpa, era o peso de uma alma que tinha morto um rapaz de 12 anos numa segunda-feira e foi-se embora sem pagar por isso em vida.

E aquele peso estava ali preso naquela terra, sem ter para onde ir, sem ter sido reconhecido por ninguém, sem ter encontrado qualquer acerto antes de o homem fechar os olhos. Eu não sou padre, não sou homem de muitas palavras sobre estas coisas, mas naquele dia senti aquilo como sinto o peso de uma pá na mão, real, sem dúvida nenhuma.

Ela foi-se embora mais leve do que chegou. Disso tenho a certeza. Não curada, não em paz, não sem dor, mas mais leve. Tinha deixado alguma coisa naquele lugar. E o cemitério ficou com tudo o que ela deixou e com tudo o que nunca saiu de dentro daquela sepultura. Terminei o serviço nesse dia e fui-me embora carregando aquilo.

Às vezes um enterro não é apenas um enterro. Às vezes a gente fecha uma cova e descobre que tem outras coisas ali enterradas que ninguém sabia e carrega aquilo consigo, sem pedir, sem escolher. Naquele dia entrei naquele cemitério como coveiro e saí como alguém que tinha ouvido uma história que não era para mim, mas que ficou como se fosse.

Já passaram quase 50 anos daquele dia. Tenho 78 anos e me Lembro-me dessa tarde como me lembro de poucas outras coisas na vida. Não sei o que lhe aconteceu, mas sei o que ela disse antes de se ir embora. E sei o que eu senti quando o cemitério ficou vazio e fiquei sozinho na frente daquele túmulo. Ela foi-se embora mais leve. O cemitério não e eu também não.

Algumas coisas a gente não esquece. Nem quando passa o tempo, nem quando a gente envelhece, nem quando quer esquecer. Ficam na memória, no corpo, no maneira de olhar para as coisas. Aquela tarde de agosto ficou em mim, do mesmo maneira que ficam as coisas que a gente não pediu para carregar. mas que recebeu a si próprio.

Durante anos, depois daquele dia, continuei a trabalhar naquele cemitério. Continuei a abrir covas, descendo caixões, fechando a terra por cima de histórias que nunca ia conhecer por inteiro. E cada vez que eu sentia alguma coisa diferente durante um enterro, algum peso que não tinha explicação, parava um segundo e prestava atenção.

Não porque eu esperava compreender, mas porque aprendi naquela tarde que há coisas que pedem só isso, que paremos e prestemos atenção. E vai ficar, vai ficar até ao dia em que eu também me for embora, como todo o mundo vai. Só espero ir mais leve do que aquele homem foi. Isso não sei se vai acontecer, mas sei que naquela tarde, num cemitério de São Paulo, um mulher que perdeu tudo o que tinha olhou para um túmulo e entregou aquilo a Deus e foi-se embora de pé.

E que, depois de tantos anos, ainda me faz pensar. Tem coisas que a justiça dos homens não resolve e precisamos de aprender a viver com isso, sem deixar que a amargura ocupar o lugar que era para ser da vida. Eu acredito que entregar não é fraqueza, é o ato mais corajoso que existe. Se acredita que existe uma justiça maior do que a dos homens, deixa o seu eu acredito aqui em baixo.

Que Deus abençoe-o e a toda a sua família neste fim de semana. Cuide de quem ama. Até ao próximo relato.

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