A Primeira Dor: O Preço de Uma Tragédia Precoce
Vanderleia, a inesquecível “Ternurinha” da Jovem Guarda, a mulher que marcou uma geração com sua imagem de doce cantora de botas brancas, sorriu para as câmeras de televisão durante décadas. No entanto, por trás daquele sorriso estava uma vida marcada por tragédias e perdas que a maioria dos brasileiros desconhece. As luzes dos palcos não podiam esconder a dor que Vanderleia carregava consigo, uma dor que começou muito antes de se tornar uma estrela da música.
A história de Vanderleia começa em Governador Valadares, uma cidade no interior de Minas Gerais, em 1944. Filha de imigrantes libaneses e a mais nova de 13 irmãos, ela cresceu em uma casa cheia de regras rígidas, onde seu pai, Antônio Sin, um homem conservador e silencioso, não via com bons olhos os sonhos de sua filha. Enquanto o rádio tocava incessantemente em sua casa, Vanderleia, com apenas três anos de idade, já sonhava em se tornar cantora. Aos 10 anos, ela já ganhava concursos de rádio, mesmo contra a vontade do pai.
A dor começou cedo na vida de Vanderleia. Sua irmã mais velha, Leninha, foi vítima de uma bala perdida em meio a uma troca de tiros no Rio de Janeiro. Com apenas 10 anos, Vanderleia enfrentou a perda de um ente querido em circunstâncias trágicas e injustificáveis, algo que a marcou profundamente e moldou sua visão sobre a violência e a imprevisibilidade da vida.

O Surgimento da Ternurinha: O Início da Carreira Musical
Apesar da dor, Vanderleia não parou. Aos 15 anos, ela começou a cantar em boates do Rio de Janeiro, e com o apoio de seus pais, começou a se destacar no cenário musical. Em 1962, ela gravou seu primeiro compacto e, em 1963, lançou seu primeiro LP pela CBS. Foi nesse estúdio que ela conheceu Roberto Carlos e Erasmo Carlos, e a partir daí sua carreira deslançou.
Em 1965, a TV Record convidou Roberto Carlos para apresentar um programa dominical voltado para o público jovem, a Jovem Guarda, que rapidamente se tornou um fenômeno. Vanderleia, junto com Roberto e Erasmo, passou a conquistar as tardes de domingo de milhões de brasileiros. A imagem de “Ternurinha”, a jovem de minissaia e botas até a coxa, encantava o público. Ela se tornou um ícone, um produto de prateleira que era imitado por meninas de todo o Brasil. As bonecas e grifes inspiradas nela eram apenas uma das manifestações dessa idolatria popular.
Mas enquanto o Brasil se encantava com a jovem cantora, Vanderleia já carregava em seu peito o peso das tragédias pessoais que ninguém conhecia. Ela era uma estrela, mas também uma mulher que, por dentro, começava a sofrer com as cicatrizes de perdas irreparáveis.
A Trágica Piscina: O Noivo de Vanderleia e a Segunda Perda
A dor de Vanderleia se agravou ainda mais quando ela se apaixonou por José Renato Barbosa de Medeiros, o “Nanato”, filho de Chacrinha. Juntos, eles sonhavam com um futuro em que ela deixaria os palcos para ser mãe e esposa. Após sete anos de relacionamento, com planos de casamento, o destino cruel se abateu novamente sobre ela.
Durante a Semana Santa de 1971, o casal foi passar alguns dias em uma fazenda no interior. Em uma tarde quente, Nanato decidiu dar um mergulho na piscina, um gesto simples que mudaria sua vida para sempre. Ele mergulhou de cabeça em um ponto raso da piscina e bateu com força no fundo, causando uma lesão irreversível na coluna cervical. Nanato ficou tetraplégico, perdendo o movimento de braços, pernas e mãos.
Vanderleia, em um ato de extrema coragem e amor, reorganizou sua vida para cuidar de Nanato. Ela se dedicou a acompanhá-lo em tratamentos médicos, internações e fisioterapias. Durante aquele período, o Brasil inteiro via a Ternurinha nos palcos da Jovem Guarda, mas por trás das câmeras, ela era uma mulher que passava noites em hospitais, empurrando a cadeira de rodas do homem que amava. Nanato, em um momento de grande sofrimento, pediu que Vanderleia fosse embora e seguisse com sua vida, pois não queria ser um peso para ela. Essa decisão foi um golpe fatal para Vanderleia, que se viu forçada a abrir mão de tudo o que sonhou, incluindo seu futuro ao lado de Nanato.
A Segunda Tragédia: A Morte de Leonardo na Piscina
Vanderleia ainda tentava processar a dor da perda de Nanato quando, em 1984, a vida lhe impôs uma nova tragédia. Seu filho Leonardo, fruto de seu casamento com o guitarrista Lalo Correa, estava com apenas 2 anos quando, em uma tarde comum, se afogou na piscina da casa da família.
Naquele dia, Vanderleia estava em São Paulo, gravando uma participação no programa de Flávio Cavalcanti no SBT, enquanto Leonardo brincava na área externa da casa. Ninguém viu o momento exato em que ele caiu na piscina, mas quando o encontraram, já era tarde demais.
Vanderleia, ao voltar para casa e saber da tragédia, entrou em um estado de luto profundo, que a levou a uma depressão ainda mais intensa do que qualquer outra perda que ela tivesse vivido. Ela sentia a culpa de não estar em casa, de estar longe quando o filho precisou dela. A dor de perder um filho, em circunstâncias tão trágicas, marcou sua vida para sempre. A piscina, que deveria ser um lugar de lazer, tornou-se um símbolo da dor irreparável que ela carregava.
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A Carreira e a Superação: O Luto e a Música
Apesar de todas as tragédias que marcaram sua vida, Vanderleia não parou. A música sempre foi sua válvula de escape, seu meio de sobreviver à dor. Após a perda de Leonardo, ela continuou sua carreira com o apoio do marido Lalo, com quem teve outro filho, mas o impacto emocional das tragédias pesava cada vez mais.
Nos anos seguintes, Vanderleia mergulhou na MPB, gravando músicas de Caetano Veloso, Gilberto Gil e Raul Seixas, distanciando-se da imagem da “Ternurinha” e se reinventando como artista. Mas o luto pela perda do filho, da irmã e de Nanato jamais foi superado completamente.
Sua saúde, já marcada pelo câncer no útero, foi a consequência física de tanto sofrimento acumulado. Vanderleia precisou fazer uma histerectomia, o que a impediu de ter mais filhos e fechou um ciclo de dor que ela carregou durante boa parte da vida. A perda de figuras tão importantes em sua vida, somada ao desgaste físico e emocional, fez com que ela passasse por um dos momentos mais difíceis de sua trajetória. No entanto, ela nunca parou de cantar, de seguir em frente, de trabalhar. O palco foi sua terapia, a única coisa que a manteve de pé.
Conclusão: A Mulher que Superou a Dor e Continuou a Cantar
Vanderleia, aos 82 anos, é um exemplo de resiliência e superação. Sua história, marcada por perdas que poderiam ter destruído qualquer outra pessoa, é uma lição de força e perseverança. Ela passou por tragédias inimagináveis, perdeu pessoas queridas de formas absurdas e teve sua vida pessoal destruída pela dor. Mas, ao contrário do que muitos esperavam, ela não parou.
Com mais de 60 anos de carreira, Vanderleia continua a cantar, a levar sua música para os palcos, mesmo após tantas perdas. Em 2023, ela lançou um disco pelo selo Sesc, um retorno às suas origens musicais, e segue com shows agendados por todo o Brasil. Ela continua a ser uma das últimas representantes da Jovem Guarda, não apenas como uma artista, mas como uma mulher que, apesar de tudo, escolheu não deixar que as tragédias definissem sua vida.
Vanderleia é a “Ternurinha”, a mulher que superou a perda, a culpa e a dor, e ainda encontra forças para subir ao palco e cantar para o Brasil. Ela é a prova viva de que, mesmo quando a vida parece querer nos quebrar, a música pode nos manter inteiros, e o amor pela arte pode ser a chave para a superação.
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