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ADRIANO IMPERADOR: A VERDADE NOJENTA POR TRÁS DA SUA VIDA NA MISÉRIA

Melhor avançado centro da Copa do Mundo, Inter de Milão, 8 milhões de euros por ano. E esse mesmo homem, 3 anos depois, dormia num colchão no chão, numa pensão da Vila Cruzeiro, uma das favelas mais perigosas do Rio de Janeiro, sem frigorífico, sem água quente, com três t-shirts como única roupa e uma pistola debaixo da almofada.

Como é que um homem cai dessa altura em tão pouco tempo? O Adriano não caiu, saltou. pulou pela sua própria vontade e o que empurrou ele à imprensa brasileira nunca teve coragem de contar. Aconteceu na noite de 5 de Agosto de 2004, às 23h20 da noite, num quarto de hotel de Milão. Um telefonema de quatro palavras, quatro palavras que acabaram com o melhor atacante do mundo.

E o nome do homem que estava do outro lado da linha nunca apareceu em jornal nenhum até hoje. Mas antes de chegar nessa noite, tem uma coisa que é preciso entender, porque o que aconteceu no dia 5 de agosto de 2004 não começou aí. Começou 20 anos antes, numa sala escura da vila Cruzeiro, com um homem acabado a carregar um bebé nos braços.

Vila Cruzeiro, 17 de fevereiro de 1982, uma favela da zona norte do Rio de Janeiro, onde se ouvem mais tiros que numa guerra, onde as crianças conhecem o som de uma AK47 antes de completar 5 anos. Ali nasceu Adriano. O pai, o Almir, era pedreiro. 12 horas debaixo do sol, mãos destruídos, coluna torta, R$ 300 por mês.

A mãe, a Rosilda, era empregada doméstica em casa de família na zona sul. Saía de casa às 5 da manhã, regressava às 9 da noite. O menino Adriano cresceu sem a ver durante semanas inteiras. O pai, o Almir, foi quem o criou. E o O Almir tinha um problema, um problema que a família escondeu durante 20 anos e que só apareceu numa entrevista que Adriano deu à revista Placar em 2014, já destruído.

O Almir tinha sido militar durante a ditadura. Quando saiu do exército em 1981, um ano antes do nascimento do filho, já era um homem destroçado [música] por dentro. bebia, chorava em silêncio e só se acalmava com duas coisas: uma garrafa de cachaça e o bebé recém-nascido nos braços. Tem uma foto, tirada em 1984. O Almir, de 32 anos, sentado no sofá da casa humilde de Vila Cruzeiro, sem t-shirt, olhando para a câmara com os olhos perdidos.

Em cima das pernas, o Adriano com dois anos. dormindo. Na mão direita do pai, uma garrafa de aguardente pela metade. No chão, do lado do sofá, uma pistola [música] desmontada que o Almir tinha guardado desde o exército. E ninguém sabe quem tirou aquela fotografia. Esta foto o Adriano guarda hoje em moldurada no seu apartamento.

É a única coisa de valor que sobrou depois da queda. E o que veio depois daquela foto explica tudo o que aconteceu. A Vila Cruzeiro, nos anos 80 e 90 era controlada pelo Comando Vermelho, uma das organizações criminosas mais violentas do Brasil. Se morava ali, tinha duas opções: trabalhar para eles ou ficar de boca calada.

O Almira escolheu a segunda. Eu trabalho honesto, os meus filhos vão trabalhar honesto, mas em Vila Cruzeiro trabalhar honesto fazia tu ser pobre e ser pobre fazia-te ser invisível. O Adriano cresceu a ver como os traficantes tinham tudo: dinheiro, respeito, carro, corrente de ouro. E o pai dele só tinha mãos destruídas e a coluna torta.

Um dia, o O Adriano, com 8 anos, perguntou ao pai porque que ele não trabalhava com eles, porque continuava a rebentar a coluna por R$ 300 por mês. O Almir olhou para o filho um bom bocado e disse cinco palavras que iam marcar o Adriano até ao último dia da vida dele. O futebol vai tirar-te daqui. O futebol vai tirá-lo daqui.

esta frase: “Porque a vida inteira do Adriano cabe nestas seis palavras”. E porque esta frase com o tempo, tornou-se uma jaula. O Adriano descobriu a bola aos 6 anos na rua, sem treinador, sem escolinha, pontapeava contra a parede da fábrica que havia na esquina. E aos 12 anos, um olheiro do Flamengo viu-o jogar numa pelada de bairro.

Subiu o morro à procura de outro miúdo, voltou para casa a pensar só no Adriano. E aqui surge o primeiro pormenor que quase ninguém costuma contar. Quando o olheiro foi oferecer à família para levar o Adriano para as camadas jovens do Flamengo, o pai Almir disse que não. Três vezes disse que não.

Sabe porquê? Porque tinha medo. Medo do futebol tirar o filho dele. Medo da fama destruir o miúdo igual o exército tinha destruído ele. Medo principalmente do Adriano esquecer a favela. A mãe Rosilda convenceu-o. Falou: “Almir, este miúdo vai sair daqui de qualquer jeito. Se o deixar ir pro Flamengo, sai a jogar à bola. Se não deixar, sai por outro lado.

E sabe qual é esse outro lado?” O Almir sabia. Na favela havia dois caminhos em 1994. O futebol ou o comando, a bola ou o pistola. [música] O Almir, a chorar, autorizou, mas antes do Adriano sair de casa, fê-lo prometer uma coisa. E essa promessa repetiu quatro vezes naquela tarde. Esta promessa foi o início de tudo.

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As palavras exatas, segundo o Adriano contou na entrevista de 2014, foram estes: “Filho, promete-me que tu nunca se vai esquecer de onde veio, que nunca vai sentir vergonha da favela e que quando triunfar vai voltar a buscar-me”. O Adriano 12 anos prometeu às quatro vezes. O pai abraçou-o e no dia seguinte o miúdo foi para concentração das camadas jovens.

Imagina o teu próprio pai a fazer-te prometer isso aos 12 anos. Imagina carregar essa promessa para o resto da vida. O Adriano carregou e o que [música] veio depois foi pior. O Adriano subiu rapidamente. Aos 17 anos, estreou-se no equipa profissional do Flamengo. Ano 2000. Entrou no segundo tempo, tocou na bola três [música] vezes, só três.

Primeiro toque, um remate de 30 m que rasgou a rede. Segundo toque, uma assistência de costas que deixou o companheiro cara a cara com o guarda-redes. Terceiro [música] toque, mais um golo de 40 m. Impossível. O Maracanã explodiu. 70.000 pessoas gritando um nome que ninguém conhecia. Adriano. Adriano.

Adriano. Mas o Adriano não festejou. voltou a andar para o meio de campo com cara de quem não estava para aí virado. Quando os jornalistas perguntaram depois porque não tinha festejado, falou quatro palavras: “Não sinto nada.” Os os jornalistas pensaram que era pose, arrogância, frieza de matador. Era a verdade pura.

[música] O Adriano não não sentia nada porque jogava só para tirar a família da favela e já tinha conseguido. Mas, nessa mesma noite, depois do jogo, o Adriano fez uma coisa que ninguém tinha visto antes num estreante do Maracanã, uma coisa que [música] só descobriu a câmara de segurança do estádio. 3 horas depois do apito [música] final, quando todos os jogadores tinham ido embora, quando as luzes estavam apagadas, o Adriano voltou para o estádio sozinho, caminhou até ao meio do relvado, sentou-se no campo, tirou do bolso um telemóvel antigo e ligou ao pai.

A chamada durou 40 minutos. O Adriano chorava, o pai do outro lado também. Esta fita de segurança nunca veio a público. O Flamengo guarda até hoje no ficheiro do clube e um dia vai aparecer, mas não vai ser hoje. Mas enquanto o Adriano ficava famoso, na sua vida tinha alguém a observá-lo de longe, um amigo de infância que tinha escolhido o outro caminho, l a pistola no lugar da bola.

um amigo cujo nome em poucos anos ia aparecer em todos os jornais do mundo ligado ao do [música] Adriano e nós vamos chegar até ele em menos de 5 minutos. 2001, Inter de Milão, 8 milhões de euros, 19 anos. O Adriano assinou o contrato sem ler, tal como [música] o Garrincha 48 anos antes com a digital. As cláusulas estavam em italiano.

O Adriano assinava tudo o que o agente punha à frente dele. Chegou a Milão a falar português [música] mascado, sem saber italiano, sem compreender a cultura [música] europeia. No primeiro dia, o treinador pediu-lhe para chutar para ver do que era feito. O Adriano rematou, a bola saiu igual a um foguete, embateu na trave, voltou, bateu na outra trave, [música] entrou.

Os jogadores italianos ficaram em silêncio. O Vieri, o avançado titular, chegou perto, perguntou de onde tinha vindo. O Adriano respondeu: “De Vila Cruzeiro?” “E onde fica isso?” O Adriano olhou para ele e disse: “No inferno.” O Vieiri riu-se. Achou que era brincadeira. Era verdade. O Adriano não jogou no início no Inter. [música] Era muito novo.

Emprestaram-no pra Fiorentina. depois para o Parma. No Parma encontrou alguém. O Ronaldo, o fenómeno, o melhor avançado do mundo naquela altura, estava a recuperar das lesões. O Ronaldo viu o Adriano treinar duas semanas e disse uma frase que rodou a Itália. Este miúdo tem tudo para ser melhor do que eu, mais forte, chuta mais duro, [a música] é mais completa, mas falta aqui uma coisa.

E apontou para o peito. O Ronaldo enganou-se. No Adriano sobrava coração. O coração inteiro dele estava em Vila Cruzeiro com o pai, com a gente dele. E o futebol europeu pedia para ele deixar o coração no Brasil e jogar com a cabeça. O Adriano não sabia fazer [música] isso e os golos vieram, vieram com força.

O Adriano marcou no dérbi de madonina contra o Milan, marcou na Champions. A imprensa italiana pôs um apelido nele, Limperatore, o imperador, pelo porte, pela força física, pela forma como chutava como se quisesse rasgar a rede e por mais uma coisa, por uma maneira de ser que os italianos não entendiam. Calado, distante, sempre com chilhar perdido, como se estivesse sempre noutro lugar.

[música] e estava noutro lugar. Estava em Vila Cruzeiro. Cada golo que marcava dedicava mentalmente para o pai. Cada vitória era uma vitória que sonhava contar para o pai quando voltasse. O Adriano, no auge da carreira europeia vivia com a cabeça dividida entre Milão e a favela e que, em menos de 3 anos ia destruir ele.

5 de Agosto de 2004, o Adriano esteve na concentração do Inter de Milão para um amigável de pré-época. Tinha 22 anos, estava no melhor momento profissional da vida. tinha acabado de assinar um novo contrato, 8 milhões de euros por ano. A FIFA, em poucos meses, ia elegê-lo entre os três melhores do mundo. E nessa noite, às 11:20 da noite, o telefone dele tocou.

Era a mãe chorando, dizendo apenas quatro palavras. O seu pai se foi. O Adriano não percebeu, pediu para ela repetir. A mãe repetiu. O seu pai se foi. O Adriano desligou. sentou-se na cama do hotel [música] e durante 17 minutos sem se mexer, ficou olhando para a parede. Quando se levantou, foi para a casa de banho e vomitou até não ter mais nada no estômago.

Depois, sentou-se no chão da casa de banho com as costas na parede e ficou ali até amanhecer. Quando abriu a porta era outro homem. A carreira mais brilhante do futebol mundial daquela altura começou a morrer nessa noite. E ainda ninguém sabia. O Adriano nunca tinha amado o futebol. amava o pai. O o futebol era a forma de o fazer feliz.

Quando o pai morreu, o futebol perdeu todo o sentido. Mas há [música] mais uma coisa. Uma coisa que o Adriano disse anos depois numa entrevista sentado num bar de Vila Cruzeiro que quase ninguém escutou. Depois de o meu pai morrer, eu entrava em campo e não sabia o que fazia ali.

Olha para a bola e pensava: “Para quê? Para quem chuto? O meu pai já não estava mais para me ver. Tudo perdeu o sentido. Os psicólogos do Inter tentaram ajudá-lo. É normal sentir-se assim. Faz parte do luto. Vai passar. Não passou. Nunca passou. Porque não era luto normal, era uma coisa mais funda. O Adriano não só perdeu o pai, como perdeu o propósito, a razão de existir e nunca encontrou outra.

Mas esta morte que destruiu o Adriano não foi a versão oficial que a imprensa contou. Tem mais uma coisa, uma coisa que só apareceu numa gravação de 44 minutos feita 7 anos depois. E nós vamos chegar a essa gravação em poucos minutos. O Adriano regressou a Itália duas semanas depois do enterro. O Inter ofereceu mais tempo. Fica no Brasil, descansa, regressa quando estiver pronto.

O Adriano disse que estava bem, que podia jogar, estava acabado por dentro, mas os primeiros jogos foram normais. golos, boas atuações. Por dentro, alguma coisa estava a quebrar. O Adriano começou a beber depois dos jogos, depois dos treinos, em casa, sozinho. Cachaça primeiro, depois a cerveja, depois o whisky, depois o que tivesse. Bebia para dormir.

Confessou anos mais tarde, porque quando estava sóbrio, só pensava no meu pai. Aí bebia até não conseguir pensar mais. O O Inter não sabia ou não queria saber. Enquanto o Adriano marcasse golos, não tinha problema. 2006, Mundial da Alemanha. O Brasil chegava como favorito, o Adriano como titular.

E o Brasil foi eliminado nas quartos pela França. O Adriano levou pancada da imprensa. Gordo, lento. Não está em forma. tinham razão, mas pelos motivos errados, o Adriano tinha engordado 5 kg em plena copa. Era depressão, era álcool, era dor. Ninguém viu ou ninguém quis ver. Voltou ao Inter. O Mancini, o treinador, chamou ele na sala.

O que está a acontecer com você? Nada. Não me mente. Eu vejo-te. Todo o mundo te vê. O Adriano ficou calado. Precisa de ajuda? Não. Então ajeita-se, porque se continuar assim não joga mais. O Adriano concordou, mas continuou igual, sem saber como mudar. O Inter mandou psicólogos, nutricionistas, preparadores físicos pessoais.

Nada resultou, porque o problema era existencial. O Adriano queria estar noutro lugar, em Vila Cruzeiro, onde tudo fazia sentido, onde o pai ainda vivia em cada esquina. E aqui entra uma coisa que quase ninguém te contou. Uma gravação 44 minutos, feita por um jornalista chamado Ricardo Boechá, em 2010, 2 anos antes do Boechá morrer, num acidente de helicóptero.

O O Adriano estava [música] numa pensão de Vila Cruzeiro. O Bohat tinha ido fazer uma reportagem e ficou a conversar informalmente. Pediu autorização para gravar. O Adriano disse que sim. Aquela gravação em parte foi transmitida no programa do Boer Chat, mas 70% do conteúdo nunca passou na televisão.

A família do Boechá guarda hoje numa caixa à espera do momento de divulgar. Nessa gravação, o Adriano confessa quatro coisas. Nós vamos chegar às quatro, mas ainda não. Julho de 2007, pré-época do Inter. O Adriano pediu autorização para ir ao Brasil. Duas semanas. assuntos familiares. O Inter aceitou duas semanas, não mais.

O Adriano apanhou o voo para o Rio, chegou a Vila Cruzeiro e aconteceu uma coisa, uma coisa que ele não esperava. Sentiu-se vivo de novo, andava pelas ruas onde tinha crescido, viu os amigos de infância, os que ficaram, os que não saíram. Alguns eram traficantes agora. Outros estavam presos, outros mortos. Mas os que sobraram receberam-no como rei.

Adriano. O imperador voltou. Deram cerveja para ele, ofereceram-lhe droga. Ele aceitou a cerveja, recusou a droga. Nessa noite, o Adriano ficou na bairro de lata, bebendo, conversando, rindo. Pela primeira vez desde a morte do pai, sentiu-se feliz. As duas semanas passaram, o Adriano não voltou paraa Itália, o Inter ligou: “Onde estás?” “No Brasil.

Precisa de voltar? Começa na época? Preciso de mais tempo. Quanto? Não sei. O Adriano passou três meses em Vila Cruzeiro, de julho a outubro de 2007. Três meses onde o homem mais valioso do futebol italiano desapareceu do mapa. E aqui entra o amigo de infância de que falei antes. O que tinha escolhido a pistola no lugar da bola chamava Fabiano.

O O Fabiano tinha crescido com o Adriano em Vila Cruzeiro. Tinham batido bola juntos na mesma rua. Aos 14 anos, os caminhos separaram-se. O Adriano foi para o Flamengo. O Fabiano entrou no Comando Vermelho. Aos 26 anos, o Fabiano era um dos nomes mais importantes do tráfico da região.

E quando o Adriano voltou ao Brasil em 2007, o Fabiano foi um dos primeiros a procurá-lo. A amizade voltou como se nunca tivessem deixado de ser vizinhos. Tem fotos dessa época. O Adriano em festas na favela, rodeado de homens armados com pistolas visíveis. O Adriano sem camisola, evidente excesso de peso, cerveja na mão, olhos vermelhos.

Essas fotos chegaram a Itália. Os jornais italianos explodiram. Adriano com narcotraficantes, o imperador do crime. O Inter entrou em pânico. [música] Você precisa de voltar agora ou cortamos contrato? O Adriano voltou. Outubro de 2007. 30 kg de excesso de peso. 30 kg em 3 meses. O Inter meteu-o num programa especial.

Treino a dobrar, dieta rígida, vigilância constante. O Adriano perdeu o peso. Em dois meses voltou a jogar. Mas alguma coisa tinha mudado, uma coisa irreversível. Um jornalista italiano perguntou a ele: “É verdade que é amigo de traficantes? São os meus amigos de infância, mas são criminosos. São os meus amigos. A imprensa queria que ele admitisse que era criminoso, mas o Adriano foi uma coisa mais complicada, mais humana.

Foi um homem acabado pela depressão que procurou consolo no único lugar onde se sentia ele próprio. [música] E esse lugar era controlado por criminosos. Mas aconteceu uma coisa [música] em abril de 2009 que ia mudar tudo. Depois do título do Brasileirão com o Flamengo, o Adriano fez uma coisa que ia sair em todos os jornais do mundo.

Comprou um motociclo, uma Kawasaki Ninja desportiva importada, R$ 200.000, e entregou a moto de presente ao Fabiano, sem avisar ninguém, sem passar pelos advogados. A moto ficou registada ainda em nome do Adriano e dois meses depois esta moto foi encontrada num cerco policial do Comando Vermelho com armas no baú.

Durante uma operação em Vila Cruzeiro. O Adriano foi [música] convocado pela polícia. Interrogado durante 6 horas, negou ter dado a moto. Disse que tinha emprestado, mas a desconfiança ficou. A seleção brasileira que pretendia convocá-lo paraa Copa de 2010 tirou-o da lista. O Flamengo, pressionado pelos patrocinadores, não renovou o contrato.

O Adriano ficou sem clube, sem seleção, sem patrocínios em menos de 3s meses. E depois fez a única coisa que ainda sobrava. Voltou para a favela, não para visitar, para viver. comprou um humilde apartamento em Vila Cruzeiro, vendeu o apartamento de luxo da Barra da Tijuca, vendeu os automóveis importados, vendeu os relógios e começou a viver como tinha vivido aos 12 anos.

Cerveja barata, funk na rádio, churrasco na rua, amigos do comando. A promessa para o pai estava agora a ser cumprida ao [música] pé da letra. O Adriano não tinha esquecido da favela, estava na favela. Era a favela, mas houve uma noite em 2010 que quase ninguém conhece. O Fabiano, o chefe do tráfico da favela, foi quem contou anos depois numa breve entrevista para um jornalista do bairro.

32 minutos de gravação. A única entrevista que o Fabiano deu na vida antes da Polícia Militar matá-lo numa operação em 2018. Nessa noite, o Adriano apareceu na casa do Fabiano às 3 da manhã, embriagado, com os olhos vermelhos de tanto chorar, pediu ao Fabiano uma coisa, uma só, que emprestasse uma pistola. O Fabiano perguntou para quê? O Adriano respondeu quatro palavras para falar com o pai.

O Fabiano, que tinha crescido com o Adriano, que o conhecia desde os 6 anos, percebeu logo e disse que não. Serviu uma cerveja. pôs a mão no ombro dele e ficou sentado ao lado do Adriano até ele dormir no sofá. Nessa noite, o Fabiano não dormiu, ficou a velá-lo caso o Adriano acordasse e tentasse pegar na arma sozinho.

Esta pistola que o Adriano pediu nessa noite liga com tudo o que veio depois, com o caderno verde que vamos ver em poucos minutos, com a carta do Inter que estava prestes a chegar, com os 12 anos de exílio na favela. O Adriano tinha decidido morrer, mas não sabia como. E a única pessoa que sabia a verdade durante 8 anos foi um traficante do Comando Vermelho.

Mas ainda há mais uma coisa que precisa de saber. O segundo elemento desta história, uma carta. Uma carta que [música] chegou ao apartamento do Adriano na favela em Março de 2012. Uma carta do Inter de Milão, assinada pelo Mancini, o seu antigo treinador, que naquele momento já estava noutro clube. A carta dizia [música] que o O Inter queria trazê-lo de volta.

ofereceu um contrato de 4 milhões de euros por dois anos. Tarefas reduzidas, sem pressão, sem compromisso de marcar golos. Só queriam que ele voltasse, que se cuidasse, que recuperasse [música] a dignidade, que terminasse a carreira com respeito. O Adriano leu a carta, leu três vezes e rasgou, sem responder, [música] sem avisar ninguém, rasgou-o e atirou-o para a papeleira do apartamento.

E, nessa noite, segundo [música] contou depois na gravação do Boe Chat, chorou. Mas um choro diferente do da morte do pai. Era um choro de alívio. De alívio porque tinha decidido, de alívio porque já não ia lutar mais. Ia ficar na favela, ia cumprir a promessa até ao fim, mesmo que a promessa o matasse. E a promessa estava a matá-lo.

Na gravação do Boe Chat, o Adriano confessou [música] uma coisa que nunca falou em público, uma coisa que a imprensa nunca contou. As pessoas pensam que eu adorava o futebol, que era a minha paixão. Eu odiava o futebol. Odiava desde os 14 anos. Sabe porquê? Porque o futebol me tirou o pai. O o futebol levou-me para Itália enquanto o meu pai morria sozinho numa favela.

O o futebol tornou-me rico [música] enquanto o meu pai continuava a rebentar a coluna. Como é que eu vou amar uma coisa que me roubou a única pessoa que importava para mim? Esta confissão, esta frase explica tudo. O Adriano não se afundou por fraqueza, afundou-se porque, no fundo, odiava a única coisa que sabia fazer e se sentia culpado de ter sucesso [música] numa coisa que internamente desprezava.

Existe um caderno de capa verde. O Adriano guarda-o até hoje na gaveta da mesinha de cabeceira do apartamento de Vila Cruzeiro. Só duas pessoas leram ele. Ele próprio e a falecida mãe. Tem 32 [música] páginas escritas à mão. A letra é tosca, pesada, com muitos erros de português.

O Adriano tinha estudado apenas [música] até à quinta classe. Mas o conteúdo deste caderno, segundo a mãe Rosilda contou numa breve entrevista à revista Veja em 2017, é a coisa mais forte que um atleta brasileiro já escreveu. O caderno chama-se Na primeira página de assim: Coisas que preciso fazer antes de morrer. A lista tem 23 itens.

O Adriano foi riscando cada item que ia cumprindo. Em 2018, quando a mãe encontrou o caderno escondido, já tinha riscado 18 itens. Sobravam [música] cinco. Os cinco que sobravam, escritos em tinta azul, eram estes: primeiro, enterrar a mãe ao lado do pai. Segundo, pagar a dívida do primo [música] Anderson para ele poder sair da favela, terceiro, deixar dinheiro suficiente para os meus três filhos.

Quarto, não deixar que nenhum jornalista conte a minha história enquanto eu for vivo. Quinto, escrito [música] com letra ainda mais trémula, dizia apenas quatro palavras. Quatro palavras que ligam à história inteira. E nós vamos chegar agora. As quatro palavras eram: “Parar de carregar tudo, deixar de carregar tudo.

A culpa por ter ido paraa Europa. A culpa por não ter estado quando o pai faleceu. A culpa por ter tido fama enquanto o pai continuava pobre. O Adriano tinha estado carregando essa culpa durante 14 anos. E o quinto item, o último, era simplesmente deixar de carregar. Mas a pergunta que ligas à história inteira é esta: Quem destruiu o imperador? A resposta do Adriano na gravação do Boe Chatta é esta: Eu destruí o meu pai quando fui para o Flamengo aos 12 anos.

E o meu pai morreu por uma vida que tinha acabado muito antes, porque eu não estava ali para o sustentar. Se eu tivesse ficado em Vila Cruzeiro, ele teria alguém para que viver. Eu troquei o pai pelo futebol e a única forma que achei de devolver a dívida foi trocar o futebol pela favela. Estou a pagar o que cobrei-lhe.

Estou a pagar o que cobrei dele. Esta frase é a chave da história inteira. O Adriano caiu por culpa. Uma culpa que carregava desde os 12 anos sem saber e que a morte do pai transformou em certeza. O Adriano afastou-se da fama por conta própria, porque acreditava, na fundo, que ele e só ele tinha assinado a sentença de solidão do pai quando aceitou a oferta do Flamengo.

Mas tem uma coisa que aconteceu em Setembro de 2018 que quase ninguém conhece. Uma coisa que mudou o Adriano para sempre. A mãe, a Rosilda, encontrou uma garrafa de whisky escondida na cozinha. Uma garrafa especial, Johnny Walker, etiqueta azul. 12 anos. A etiqueta da garrafa estava escrita à mão. Três palavras apenas.

As três palavras eram para cinco, para cinco. O dia, o 5 de agosto, o dia em que o pai tinha morrido 14 anos antes. A Rosilda percebeu na hora. O Adriano tinha decidido a data. Ia tomar aquela garrafa inteiro sozinho na rua onde tinham encontrado o pai. A mesma rua, o mesmo dia, a mesma hora.

e depois ia fazer o que o Fabiano não tinha permitido 9 anos antes no sofá. O Adriano tinha planeado tudo até à hora exacta, às 11:20 da noite, a mesma hora em que o telefone tinha tocado 14 anos antes. A Rosilda pegou no garrafa, saiu para o barranco atrás da casa e partiu-se contra uma pedra, o whisk escorrendo pela rocha e falou sozinha, gritando para o barranco: “Filho, tu não vai fazer isso.

O seu pai não queria isso para si”. A Rosilda morreu 47 dias depois, cancro do pâncreas, diagnóstico tardio, mas a quebra da garrafa, o grito no barranco, tinha feito eco. O Adriano enterrou a mãe, riscou o primeiro item do caderno e, pela primeira vez em 14 de anos, decidiu continuar vivo. Hoje o Adriano tem 42 anos, saiu finalmente de Vila Cruzeiro.

Mora noutro bairro do Rio, mais calmo. Trabalha como comentador esporadicamente, dá palestra sobre saúde mental. Treina crianças numa escola de futebol. perdeu 50 kg nos últimos do anos por conta própria. Quando um jornalista perguntou-lhe em 2024 o que tinha mudado, o Adriano respondeu: “Tive de sair de Vila Cruzeiro porque enquanto eu estivesse ali, ia ser sempre o miúdo tentando fazer feliz um pai morto.

Eu precisava de ser adulto e os adultos saem da casa dos pais.” Em setembro de 2023, [música] o Adriano fez uma coisa que a mãe Rosilda tinha-lhe pedido no leito de morte. pegou na foto de 1984, a do Almir a carregar o bebé, tirou-a da parede, deu-lhe um beijo e enterrou-a do lado da campa dos pais, no cemitério da zona norte do rio.

O Adriano tinha cumprido o último item dos cinco que sobravam no caderno, tinha largado a carga. Numa entrevista de 2024, o Ronaldo Nazário falou: “O Adriano podia ter sido o melhor, podia ter ganho três bolas de ouro, podia ter sido o melhor avançado da história, mas escolheu uma outra coisa. Escolheu ser ele mesmo.

E neste mundo, escolher ser você mesmo é mais corajoso do que ganhar 100 títulos”. Há uma frase que o O Adriano falou para um amigo num bar do Rio em 2024 a falar do pai, uma frase que o amigo gravou no telemóvel sem o Adriano aperceber-se e que rodou durante semanas em grupos de WhatsApp brasileiros. As pessoas pensam que eu perdi a minha vida por causa do meu pai.

É o contrário. O meu pai salvou-me a vida quando me falou aos 8 anos: “O o futebol vai tirar-te daqui”. Eu, como um idiota, percebi. Pensei que tinha de me tirar da favela. O meu pai queria tirar-me do destino que tinha sobrado para ele. Queria que eu tivesse outra opção, qualquer opção. E a opção que ele queria que eu escolhesse era ser feliz. Eu não percebi.

Demorei 30 anos para compreender, mas agora entendo. Hoje o Adriano joga à bola aos domingos numa quadra de cimento da zona norte do Rio, com crianças do bairro, sem câmara, sem jornalista, sem pressão. Remata à baliza, marca um golo e pela primeira vez na vida, festeja, levanta os braços, grita.

E quando termina de gritar, olha para o céu e diz uma coisa para o pai, só duas palavras. As mesmas duas palavras que fala todos os domingos, depois de cada golo faz anos. Consegui, Pai. Há milhões de homens assim neste momento. Homens que transportam a culpa de um pai. Os homens que acham que o único modo de honrar o morto é carregar a dor do morto nas próprias costas.

Homens que abdicam da própria felicidade porque acham que ser feliz depois da perda é [música] trair quem se foi. Homens que apertam a pistola contra a cabeça às 3 da manhã num quarto sozinho. E o único motivo que não apertam o gatilho é porque em algum lugar alguém uma vez lhes falou que valiam a pena. Estes homens têm o coração demasiado grande para um mundo que não ensinou nenhum homem a chorar.

O O Adriano é um deles, o Garrincha era outro. E amanhã, no próximo episódio, vamos contar a história de um terceiro, um homem que ganhou três mundiais. Um homem que viu o melhor amigo morrer numa pista de corridas. Um homem que 18 anos depois dirigiu a Williams a 300 km/h em direção ao muro de Tamburelo. O nome dele conhece.

O seu nome vibra no coração do Brasil até hoje. Mas a verdade sobre a morte do Aton Sena nunca te foi contada. Se a história do Adriano fez-lhe pensar em alguém, liga hoje, não amanhã. Hoje liga para o seu pai, para o seu irmão, para o seu filho, para o seu amigo. Liga, mesmo que ele responda mal, mesmo que diga que não precisa de nada, liga-se a si próprio.

Porque a maior tragédia do Adriano foi que durante 15 anos, ninguém na vida dele teve a coragem de lhe dizer: “Amigo, a culpa não é tua. A culpa da morte de um pai nunca é do filho. Solta essa culpa. Vive. Se conhece alguém que carrega uma culpa assim, fala para ele hoje. Solta essa culpa. Vive, porque a única pessoa [música] que te pode salvar da culpa de um pai morto é você mesmo.

E, por vezes, uma única ligação de um amigo às 3 da manhã pode ser a diferença entre premir o gatilho e dormir no sofá, como aconteceu com o boadriano. E se esta história te tocou, subscreve o canal, [música] porque a próxima vai doer ainda mais.

Disclaimer : This content may be created by AI for entertainment purposes. Any resemblance to real persons, events, or places is coincidental.