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Ela plantou gliricídia como cerca viva e chamaram de doida. Dois anos depois, virou pasto e adubo…

Em abril de 1986, numa propriedade pequena de terra mista entre Caatinga e Mata dos Cocais, perto de Codó, no Maranhão, uma mulher de 29 anos, chamada Raimunda, Aparecida dos Santos, pegou um feixe de estacas verdes, que tinha cortado na semana anterior, colocou debaixo do braço e foi pra divisa norte da propriedade, onde acerca de arame farpado precisava de uma reforma Há mais de 3 anos.

As estacas eram galhos retos, com pouco menos de 2 m cada um, de uma árvore que ela tinha descoberto num sítio mais distante em Caxias, durante uma visita à prima dela no ano anterior. Eram galhos de Gliricídia. Raimunda chegou na divisa, abriu o feixe e começou a fincar as estacas no chão, espaçadas a cada metro e meio, ao longo de todo o trecho de cerca que precisava ser refeito.

Não cavava buraco fundo, só enterrava a base da estaca uns 40 cm, com o ajuste de um pisão de madeira para firmar. O sol já estava forte na metade da manhã e o suor escorria pela testa dela. Mas Raimunda continuava trabalhando com o ritmo de quem sabia o que estava fazendo. Foi nessa hora que José Bento, o marido, apareceu vindo do roçado de mandioca.

Tinha visto a mulher saindo cedo de casa com aquele feixe esquisito e tinha ficado intrigado, mas estava ocupado demais para ir atrás. Agora, no caminho de volta para casa, pro almoço, viu o que ela estava fazendo na divisa. Raimunda, mulher, o que tu tá fazendo aí com esses galhos? Plantando cerca, José. Plantando cerca? Como assim plantando cerca? Cerca a gente faz com mourão de aroeira e arame, mulher.

Cerca não se planta. Essa aqui se planta. José Bento se aproximou, examinou uma das estacas que ainda não tinha sido enterrada, virou na mão. Que galho é esse? É Gliricídia. Conheci na propriedade do compadre Manoel em Caxias, quando fui visitar Antônia ano passado. Tu lembra que eu fui passar uma semana lá? Lembro, mas tu não me falou de galho nenhum.

Não falei porque não tinha a hora certa. Agora tem. Tô plantando. José Bento balançou a cabeça com aquele jeito de homem do interior maranhense que considera que sabe das coisas do mato porque cresceu nele. Raimunda mulher, essa cerca aqui não vai segurar bicho nenhum. Esses galhos vão secar em 15 dias e cair.

A gente vai ficar sem cerca na divisa e o boi do Tobias vai entrar e comer a roça inteira. Não vai secar, José. Gliricídia pega de estaca, brota, vira a árvore. Quem te disse isso? O compadre Manuel disse: “Mostrou para mim acerca dele que tá lá há mais de 10 anos e que ele plantou de estaca igual a essa.

” José Bento ficou em silêncio por um instante. Olhou pra mulher. Era homem que respeitava a esposa, casado com ela havia 8 anos, e sabia que Raimunda não era de inventar moda à toa, mas aquilo parecia, no mínimo, uma teimosia que ia dar trabalho a mais sem precisar. Raimunda, mesmo que esses galhos peguem, mesmo que virem árvore, ainda assim a gente vai precisar fazer a cerca de arame farpado.

Não dá para confiar em árvore para segurar gado. Eu vou fazer a cerca de arame depois, José. Mas plantando isso aqui agora, daqui a um tempo eu vou ter a cerca viva, que segura, que dá sombra, que dá folha para gado comer e que ainda recupera o chão da divisa que tá fraco. É três coisas em uma só. José Bento abriu a boca, fechou de novo, olhou para as estacas já fincadas, contou de cabeça.

Eram quase 30 plantadas no trecho de cerca já preparado e ainda faltavam mais umas 20 que estavam no feixe no chão. 50 árvores, Raimunda, tu vai plantar 50 árvores na divisa? Vou e depois vou plantar mais 50 nas outras divisas. Mulher, isso é loucura. A propriedade vai virar um mato fechado. Não vai virar mato, vai virar cerca.

José Bento balançou a cabeça pela última vez, virou as costas e desceu para casa pro almoço. não discutiu mais, mas no caminho foi resmungando baixinho sobre como mulher dá nessas ideias estranhas quando passa muito tempo com prima da capital sobre como ele ia perder gado pelo buraco da cerca enquanto Raimunda esperava a árvore crescer, sobre como sogra dele, dona Yolanda, tinha avisado quando ele casou que Raimunda era moça leitora demais, que ia ter ideia de cidade na cabeça.

O almoço na cozinha de chão batido com o fogão a lenha aceso pro frescor que entrava pela janela, José Bento contou pra dona Iolanda, que morava com o casal desde a morte do sogro, em 1982, o que tinha visto Raimunda fazendo: “Mamãe, a Raimunda plantou galho na divisa norte, disse que é cerca viva.” Disse que vai virar árvore. Dona Iolanda, mulher de 64 anos, baixa, gorda, com cabelo branco preso no coque firme, ergueu os olhos do prato de baião de dois cerca viva.

Que história é essa? Galho de uma árvore chamada Glicídia. Disse que pega de estaca, que vira a árvore, que vai servir de cerca e de comida para gado. Dona Yolanda riu com aquela risada curta de quem ouviu coisa absurda. Filha, deixa de inventar moda. Cerca a gente faz com Mourão. A gente sempre fez assim.

Tua mãe fazia, tua avó fazia, minha mãe fazia. Para que mexer no que tá certo? Raimunda, que estava servindo o feijão para os dois filhos pequenos, Pedro de 6 anos e Conceição de quatro, não respondeu de imediato. Pôs o prato na mesa, sentou no seu lugar, pegou o pano da mesa, dobrou. Dona Iolanda, com todo respeito, a senhora nunca viu gliricídia.

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Não é mourão comum, é outra coisa. É árvore que pega só com galho enterrado, que cresce rápido, que dá folha o ano todo e que não pega praga. E onde a senhora arrumou essa árvore, Raimunda? No sítio do compadre Manoel em Caxias ano passado. Compadre Manoel é da família de quem? É primo do meu pai que faleceu, dona Yolanda.

A senhora não conheceu? Pois é, filha de homem morto com ideia de gente que a gente não conhece. Eu não confio. José Bento, tu não vai deixar tua mulher mexer na divisa, não, né? José Bento, que estava com a colher na boca, olhou paraa mãe, olhou paraa mulher e respondeu como respondem os homens casados que querem manter a paz no almoço.

Mamãe, deixa a Raimunda fazer o que ela quer. Se não der certo, a gente faz a cerca direito depois. Não custa nada experimentar. Não custa nada. E o tempo que ela tá perdendo plantando galho que não vai pegar? E o trabalho que ela vai dar pra senhora quando o boi do Tobias entrar e comer a mandioca? Raimunda comeu em silêncio. Sabia que dona Yolanda ia repetir aquela conversa pelos próximos seis meses sem parar e que José Bento ia ficar entre a mãe e a esposa, sem saber bem em qual lado ficar.

Tinha aceitado isso quando casou e mais ainda quando dona Yolanda veio morar com eles. Era o jeito que a coisa funcionava no Maranhão dos Cocais. Sogra com nora dividindo cozinha, marido tentando equilibrar. Deixa eu contar quem era Raimunda Aparecida dos Santos. Porque o que ela fez naquela divisa de propriedade em abril de 86 e o que ela ia descobrir nos dois anos seguintes, só faz sentido se você souber de onde tinha vindo aquela mulher que plantava a árvore quando todo mundo plantava mourão morto.

Raimunda nasceu em 1957 em Codó, filha mais velha de seu Sebastião dos Santos e dona Maria do Carmo. Seu Sebastião era lavrador pequeno com uma propriedade de 5 hectares na zona rural de Codó. E dona Maria do Carmo era costureira, que atendia mulheres do município inteiro com aquele talento que ela tinha herdado da própria mãe.

Eram quatro filhos no total. Raimunda, depois Antônia, depois José e por último Sebastião Filho, batizado em homenagem ao pai. A peculiaridade da família Santos não estava no que cultivavam, que era o mesmo que toda a família da região cultiva: mandioca, arroz, milho, feijão, com algumas cabeças de gado e babaçu. A peculiaridade era que dona Maria do Carmo, apesar de morar na zona rural, tinha 5 anos de estudo, coisa rara entre mulheres do interior maranhense naquela época.

E mais raro ainda, ela acreditava que as filhas mulheres deviam estudar pelo menos o mesmo que ela tinha estudado. Raimunda foi matriculada na escola rural mais próxima aos 6 anos e estudou até a quarta série, idade em que a maioria das meninas da região já estava ajudando em casa em tempo integral. Quando completou os 12 anos, dona Maria do Carmo conseguiu com muito custo e com a ajuda da irmã tia Ester, que morava em Codó cidade, matricular Raimunda, numa escola pública na sede do município, com a menina indo e voltando todo dia de carona com vizinhos que

faziam o trajeto. Raimunda estudou até a oitava série, parando aos 15 anos quando dona Maria do Carmo ficou doente e Raimunda precisou voltar para ajudar nos cuidados da casa e dos irmãos menores. Mas Raimunda gostava de ler. Tia Ester, a tia de Kodó, tinha uma estante de livros porque o marido dela tinha sido professor primário antes de morrer jovem.

E Raimunda, sempre que ia visitar a tia, voltava com dois ou três livros emprestados que devorava nas noites de sertão maranhense, na luz fraca da lamparina de Querosene, deitada na rede da varanda. Leu de tudo. Romance de Jorge Amado, José Lins do Rego, Graciliano Ramos, manual antigo de agricultura familiar que tia Ester tinha herdado do marido.

Almanaque da saúde da editora Capivarol. revista Manchete Velha, que chegava amassada nas mãos da tia. Cartilha do Movimento de Educação de Base, livro de história do Brasil, livro sobre plantas medicinais que tinha sido publicado em São Luís nos anos 60. Foi pelos livros que Raimunda começou a ter ideias diferentes das outras mulheres da zona rural.

Não diferentes no sentido de querer ir embora ou virar coisa de cidade, mas diferentes no sentido de questionar porque as coisas eram feitas do jeito que eram feitas e se não havia outro jeito de fazer. Raimunda casou em 1978, com 21 anos, com José Bento dos Santos Filho, lavrador da região, vizinho da propriedade dos pais dela, que ela conhecia desde criança.

José Bento era 5 anos mais velho, tinha já a propriedade pequena dele, herdada do pai que tinha morrido jovem. O casamento foi simples, na igrejinha de São José, do povoado de Garapé Grande, com festa no terreiro da casa dos pais dela. Os primeiros anos de casamento foram tocando a propriedade pequena de José Bento, com mandioca, arroz, milho e umas 10 cabeças de gado e umas 20 cabras.

Em 1980 veio Pedro, o filho mais velho. Em 82 veio Conceição. Em 82 também morreu o pai de José Bento. E dona Yolanda, que morava sozinha na casinha ao lado, veio morar com o casal. Era uma situação para a qual nenhuma das duas estava completamente preparada, mas que se ajeitou com o tempo. A relação de Raimunda com a sogra era cordial, mas tensa.

Dona Yolanda era mulher tradicional do sertão maranhense, que considerava que mulher tinha lugar certo na vida e que o lugar não era ficar lendo livro, nem inventando moda. A imunda, que tinha aceitado morar com a sogra por respeito ao marido e à tradição, suportava as observações constantes com paciência, mas continuava do jeito dela.

Lia nas noites, separava livros pros filhos lerem quando crescessem, conversava sobre coisas que a sogra achava estranhas, observava o que outros faziam em outras propriedades quando ia visitar família. Em 1985 foi quando Raimunda foi visitar Antônia, a irmã que tinha casado com um lavrador de Caxias e morava no sítio da família do marido.

Antônia tinha mandado dizer que estava doente, que queria ver a irmã. E Raimunda pegou o ônibus da empresa cidade de Caxias e foi passar uma semana lá. Antônia tinha sarado em alguns dias e Raimunda aproveitou o tempo para conhecer o sítio do compadre Manoel, primo do pai dela, que ela só conhecia de nome. O sítio do compadre Manoel ficava num lugar bonito, com terra mais úmida, com algumas nascentes pequenas, com uma vegetação um pouco diferente da que Raimunda conhecia.

E na entrada da propriedade, ao longo de quase 300 m, tinha uma cerca diferente de tudo que Raimunda tinha visto antes na vida. Era uma fileira contínua de árvores, todas iguais, com copa baixa e larga, com flores rosadas penduradas em cachos e com arame farpado preso direto no tronco delas. As árvores estavam vivas, frondosas, e ofereciam sombra contínua ao longo do caminho.

Compadre Manuel, que árvore é essa que o senhor tem na cerca? Glicídia, comadre, tu nunca viu? Nunca. Aqui em Codó não tem. Pois é planta boa. Veio do norte do país, de gente que conheceu antigamente um agrônomo da Bahia. Eu plantei essa cerca aqui há 12 anos e ela tá viva, tá produzindo, tá segurando o boi.

Raimunda ficou olhando a cerca, examinando as árvores, pegou um galho que tinha caído no chão, examinou a folha. Compadre Manuel viu o interesse dela e foi explicando. Você pega um galho desses com mais ou menos 2 m e enterra direto no chão. Não precisa de raiz, não precisa de muda em saco, não precisa nada.

Enterra o galho e ele pega. Vira a árvore. Sério, compadre? Sério? Eu tenho aqui umas estacas guardadas porque tenho refeito alguns pedaços da cerca onde estava falhando. Se tu quiser, eu te dou umas para se levar de volta para Codó. Quero, compadre, quero mesmo. Mas comadre, gliricídia não é só pra cerca, não. É pra forragem também.

O gado come a folha, cabra come, ovelha come. É folha rica em proteína, melhor que muita ração de saco. E mais, a folha cai no chão, vira adubo, recupera a terra. Onde tu plantar gliricídia, em dois ou três anos, a terra fica boa de novo. Cerca, forragem e adubo. Tudo numa árvore só. Tudo numa árvore só. E tu poda ela quando quer.

Ela rebrota e o ciclo continua. Raimunda passou o resto daquela semana em Caxias, andando pela cerca do compadre, examinando, fazendo pergunta. Compadre Manuel mostrou para ela como cortava o galho na hora certa, em qual época do ano funcionava melhor, como enterrava a estaca, como podava depois que a árvore tinha crescido.

Raimunda anotou tudo num caderninho que tinha levado na bolsa, com a letra dela cuidadosa de quem só estudou até a oitava série, mas escrevia melhor que muita gente formada. voltou para Codó com um feixe de 40 estacas amarrado com barbante, embrulhado em folha de bananeira para não perder umidade na viagem.

José Bento, quando ela chegou em casa com aquele feixe, não entendeu o que era. Raimunda guardou as estacas num canto úmido atrás da casa, embaixo de uma touceira de bananeira, e foi esperando o momento certo de plantar. Aquele momento veio em abril de 1986, quando a estação chuvosa do Maranhão já estava firme, e ela sabia que as estacas iam pegar com mais facilidade na humidade do início da chuva.

E foi então que aconteceu a cena desse dia, com José Bento perguntando o que ela estava fazendo na fronteira e a dona Yolanda rindo ao almoço. Nos primeiros dois meses, parecia que a sogra ia ter razão. As as estacas plantadas em abril não apresentaram sinal de vida até ao final de junho. Algumas começaram a apresentar sinais que pareciam de morte, com a casca ressecando, ficando a base escura.

Dona Iolanda todos os dias comentava ao almoço ou ao jantar. Raimunda, esses ramos teus estão a morrer, hein? Eu vi hoje passando para alimentar as galinhas. Tá tudo seco. Vai precisar de fazer cerca a sério no fim do ano. Está no tempo, dona Yolanda. O Compadre Manoel disse que demora.

O Compadre Manoel vive em Caxias, filha. Terra de Caxias é diferente daqui. É pouca diferença, dona Yolanda. Era a mesma estação do ano quando ele plantou também. Pois eu acho que tu desperdiçou tempo. Mas no início de julho, com o início das chuvas mais constantes do meio do ano maranhense, Raimunda viu numa manhã, na primeira estaca da divisa norte um pequeno rebento, verde e claro, saindo do tronco enterrado. Quase saltou de alegria.

Foi olhar para as outras estacas. Em três horas de inspeção cuidadosa, encontrou rebento em quase 30 das 50 estacas plantadas. As outras 20, ela ainda não conseguia ver bem se estavam mortas ou se ainda iam brotar. Levou o José Bento a ver. José Bento, que andava cético, mas que tinha a teimosia mais ligeira que a da mãe, olhou os novos rebentos, mexeu levemente, examinou. Olha, Raimunda, brotou mesmo.

Esses ramos brotaram. Eu bem te disse, José. Tu disseste mesmo. Vamos ver se vai ficar. Dona Yolanda veio também, com a visível desconfiança no rosto, examinou os rebentos, fungou. Brotou. Vai ver se aguenta. Brotar é fácil. Aguentar a seca de Outubro é que vai mostrar. Raimunda não respondeu. Continuou a ir ver as estacas. todos os dias.

Em agosto das 50 estacas, 38 tinham brotado e estavam a crescer. As outras 12 ela arrancou e replantou com estacas novas, ajustando a forma de enterrar, escolhendo ramos mais novos com casca mais lisa. O segundo plantio, em agosto, teve melhor resultado. Das 12 estacas refeitas, 10 pegaram.

No final de agosto de 86, Raimunda tinha 48 gliricídias vivas e crescendo na fronteira norte da propriedade. Em outubro, com o calor do meio do ano a apertar e a estação seca chegando, a dona Yolanda continuava a torcer para que as árvores murchasssem. Não murcharam. A glicídia é uma árvore que aguenta seca de um a três meses sem problema.

E o que paraa a dona Yolanda parecia um milagre, na verdade era apenas característica da espécie. As árvores cresceram a um ritmo que surpreendeu a Terra Imunda. No final do primeiro ano, em Abril de 1987, as primeiras gliricídias plantadas já tinham mais de 2 m de altura, com copa a começar a formar-se, com galhos novos.

E foi neste ponto que Raimunda começou a fazer a segunda parte do plano que tinha desde Caxias. Em Maio de 87, ela começou a podar ligeiramente as primeiras gliricídias, tirando folhagem nova, e levou aquela folhagem para o coxo do gado. José Bento, desta vez foi ver com curiosidade real: “Raimunda, o gado vai comer folha de árvore?” “Vai, José, vai comer porque esta folha é rica.

Mais rica que Capim. Olha lá. E despejou no coxo. Os vitelos e as cabras, sem hesitação, atacaram a folhagem como se fosse a melhor coisa que tinham comido em semanas. Comeram tudo em 15 minutos, pediram mais. Raimunda foi cortar mais folha, voltou e o gado voltou a comer com a mesma fome.

A Dona Yolanda, sentada na varanda, viu ao longe e não comentou. Pela primeira vez em meses, não tinha o que dizer. José Bento, nessa noite, deitado na rede da varanda enquanto Raimunda costurava à luz fraca da candeeiro, falou baixinho. Raimunda, hum, aquela tua árvore está a funcionar, tá? Eu devo-te desculpa. Não me deve nada, José. Tu não conhecias.

Devia ter confiado mais. Tu confiaste o suficiente. Tu deixaste-me plantar. Outros homens não deixariam. A mamã ainda não engoliu. A mamã vai engolir no tempo dela. Não vamos forçar. Tu tens mais paciência do que eu, mulher. Eu tenho que ter. Sou a Nora. Os dois riram e a conversa morreu ali. Mas a partir desse dia, José Bento começou a ajudar Raimunda na poda das gliricídias, no transporte da folhagem pro coxo, na manutenção das estacas que ela continuava a plantar em outras divisas da propriedade. No segundo ano, 1987,

Raimunda plantou mais 120 estacas nas outras três estremas da propriedade. Agora com mais confiança, com mais técnica, com mais ajuda. Da 120, mais de 100 pegaram. No fim de 87, a propriedade tinha quase 150 gliricídias plantadas nas divisas, todas em fase diferente da crescimento, todas a pegar. Em 1988, 2 anos depois da primeira plantação, aconteceu o que Raimunda tinha esperado.

As primeiras gliricídias da fronteira norte tinham mais de 3 m de altura, tronco já robusto, e José Bento começou a prender o arame farpado diretamente no tronco delas, eliminando a necessidade de Mourão de Aroeira em quase todo o troço. Cerca de Mourão de Aroeira da fronteira norte, que era a parte mais problemática da propriedade, foi sendo substituída pela sebe, com economia significativa de madeira, mão-de-obra e tempo.

E mais, em Maio de 88, a propriedade enfrentou uma seca mais forte que o normal paraa época. Os pastos secaram mais cedo. Os vizinhos começaram a comprar erva seca e ração na feira de Codó. Raimunda, ela tinha gliricídia. Podou as árvores intensivamente, cortando os ramos novos sem prejudicar o tronco, e alimentou o gado com a folhagem fresca durante semanas.

As gliricídias rebrotaram em 45 dias e estavam prontas para outra poda. O gado de José Bento e Raimunda atravessou aquela seca em melhor condição que o de qualquer vizinho. As cabras, principalmente deram saltos visíveis na produção de leite por causa da giricídia, e os vitelos novos engordaram em meses que outros vitelos estavam a emagrecer.

Foi nesta altura que a história começou a alastrar pela vizinhança. Os vizinhos que tinham ouvido falar nas piadas de dona Yolanda sobre a esquisita cerca de Raimunda, começaram a vir ver o propriedade. Compadre António da divisa sul foi o primeiro. Chegou numa tarde de Junho de 88, examinou as gliricídias, ouviu a explicação de Raimunda e foi embora pensativo.

Comadre, isso aí é coisa séria. Você me dá umas estacas? Dou, compadre. Quantas o senhor quer? Quantas couber numa carroça? O Compadre Antônio voltou no dia seguinte com a carroça e Raimunda separou para ele quase 50 estacas. Ensinou como plantar. O Compadre António agradeceu, levou e plantou na sua propriedade nessa semana mesmo.

Depois veio com padre Sebastião do outro lado do ribeiro. Depois veio a dona Adelina, a única criadora de gado solo da região, viúva que tinha herdado a propriedade do marido. Depois veio o senhor Pereira, o mais cético dos vizinhos, aquele que mais tinha ido à feira quando a dona Yolanda contou a história em 1986. O senhor Pereira chegou meio sem jeito, como quem chega pedindo desculpa sem dizer com palavra.

E Raimunda recebeu com a mesma cordialidade que tinha recebido todos os outros. Ensinou, deu estacas, mandou plantar. Dona Iolanda, em julho de 88, depois de mais de dois anos resmungando, disse finalmente a frase que Raimunda esperara em silêncio. Filha, sim, dona Yolanda. Aquela tua árvore resultou, hein? Deu. Eu fui besta.

Raimunda parou o que estava fazendo, virou-se para a sogra e respondeu com a calma de quem tinha esperado dois anos para essa conversa. Dona Iolanda, a senhora não foi besta, a senhora não conhecia, ninguém aqui em O Codó conhecia. Eu só vi por acaso na propriedade do compadre Manoel em Caxias e quis testar. Foi sorte minha, mais que mérito.

Não foi sorte, filha, foi cabeça boa. Eu devia ter confiado. Confia agora, é o que interessa. Dona Yolanda em silêncio por um instante, depois falou outra coisa que surpreendeu Raimunda. Filha, ainda tens aquele caderninho onde anotaste o que o compadre Manuel te disse? Tenho. Pode me ensinar? Posso, dona Yolanda? Posso ensinar-te tudo.

E assim Raimunda começou a ensinar a sogra, que tinha ainda 66 anos, ainda forte, e que passou a participar no maneio das gliricídias com mais entusiasmo do que muito jovem vizinho. A Dona Iolanda aprendeu a podar, a transportar folhagem, a propagar estacas novas. Em poucos meses, ela já estava plantando juntamente com Raimunda em zonas novas, falando das gliricídias com orgulho, quase como se tivesse sido ideia dela. Os filhos cresceram.

Pedro fez 12 anos em 88 e começou a ajudar nas podas com a foice de cabo curto que José Bento tinha feito para ele. Conceição, com 10 anos, ajudava no transporte da folhagem numa carriola de madeira que José Bento tinha construído. Em 1990, a propriedade já era referência regional. Não tinha mais um único troço de cerca sem gliricídia.

Mais de 300 árvores cobriam as divisas, todas em diferentes fases de crescimento, todas produzindo. A produtividade do gado tinha aumentado, o gasto com ração tinha descido para menos de metade. A terra das divisas, antes erodida e pobre, tinha começou a recuperar com a queda constante das folhas de giricídia, que serviam de adubo verde natural.

Em 1992, um técnico da Embrapa Meio Norte, com sede em Teresina, ouviu falar da propriedade através de um relato de extensionista local e foi visitar. Era o O Dr. Genésio Carvalho, engenheiro agrónomo de 40 anos, especializado em sistemas agroflorestais. esteve um dia inteiro a andar pela propriedade, examinando as sebes, perguntando, anotando, fotografando.

Ao fim do dia, sentado na varanda tomando café com Raimunda e José Bento, falou: “Dona Raimunda, a senhora tem aqui uma propriedade que é caso de estudo. A senhora montou um sistema agroflorestal completo com integração de sebe, forragem e adubo verde, sem ter formação técnica formal, baseada apenas em observação e replicação.

Isto é, na minha opinião, mais valioso do que muita investigação de doutorado. Raimunda Rio de Leve. Doutor, eu só copiei o que o compadre Manuel tinha feito em Caxias, mas a senhora copiou e adaptou para as condições daqui, aplicou à escala maior, sistematizou, ensinou aos vizinhos. Isto é trabalho de extensão rural feito por quem nunca foi extensionista, mas que compreende a função social do conhecimento.

Doutor, eu não fi-lo por mérito, fi-lo por sorte. Não foi sorte, dona Raimunda. Foi observação, foi paciência, foi capacidade de ler o ambiente. Sorte é uma palavra que usamos quando não quer reconhecer o seu próprio trabalho. Raimunda guardou aquela frase. Em alguns meses, Genésio regressou com mais três técnicos, com estudantes de agronomia, com máquina fotográfica profissional.

A propriedade virou estação de demonstração informal da Embrapa e Raimunda passou a receber ao longo dos anos seguintes dezenas de visitantes interessados em aprender o sistema. Em 1995, foi convidada para falar num seminário de agricultura familiar em Teresina. Tinha 38 anos. Aceitou, com a mesma simplicidade com que tinha aceitou anos antes o feixe de estacas do compadre Manuel.

Subiu ao palco do auditório com um vestido azul comprado na feira do codó, sapato fechado, cabelo apanhado em coque alto e falou sem leitura, sem anotação. Eu plantei a primeira estaca de gllicídia em Abril de 86. A minha sogra, a dona Yolanda, riu-se de mim. O meu marido teve dúvida. Os vizinhos acharam que eu estava com a cabeça leve.

Eu plantei na mesma, porque tinha visto a árvore a funcionar no sítio do compadre Manoel em Caxias. E eu tinha aprendi com a minha mãe e com a tia Ester, que quando vemos uma coisa a funcionar noutro lugar, a gente não precisa de esperar que a autoridade diga que pode. A gente experimenta. Se der errado, é apenas uma divisa de vedação.

Se der certo é uma coisa nova que entra na vida. fez uma pausa. Aquela primeira cerca de 50 estacas, 16 dela morreram. 38 brotaram. Dessas 38, todas hoje continuam vivas. 9 anos depois. A propriedade hoje tem mais de 300 pés. O gasto com ração desceu para menos de metade. A produtividade do gado aumentou.

A terra das divisas está mais fértil. E mais importante, a minha sogra, que se riu da minha cara em 86, hoje aos 73 anos, é uma das maiores entusiastas do sistema e ensina às netas com mais paciência do que eu mesma. A plateia riu-se nessa parte. Raimunda sorriu, esperou. A lição que eu queria deixar é uma só. Quando a gente é mulher do interior, gente do mato, gente sem diploma, e queremos experimentar uma coisa nova, toda a gente ao redor tem motivo para dizer que não vai resultar.

Marido tem dúvida porque tem responsabilidade. Sogra tem dúvida porque viu muita má ideia na vida. Vizinho tem dúvidas porque ninguém quer plantar disparates para depois passar vergonha. Mas o verdadeiro teste não é a opinião deles, é o resultado. E o resultado necessita de tempo para aparecer.

Quem não tem paciência não chega ao resultado. Quem tem paciência chega. Aplausos longos. Raimunda desceu do palco sem perceber bem porque estava a ser aplaudida tanto, porque para ela aquilo era apenas simples relato de uma coisa que tinha resultado. Nos anos seguintes, a história foi-se firmando. A propriedade de Raimunda e José Bento em Codó tornou-se referência maranhense em sistema agroflorestal com Gliricídia.

Os estudantes da Universidade Federal do Maranhão fizeram lá trabalho de campo. A A Embrapa publicou uma cartilha técnica em 1998, mencionando o caso, com fotografias da propriedade e citações de Raimunda. Em 2005, uma cadeia de televisão de São Luís fez uma reportagem de 15 minutos sobre o sistema e Raimunda foi entrevistada na varanda da casa com a dona Yolanda sentada ao lado aos 83 anos, com o cabelo todo branco, mas firme e lúcida.

A repórter, no fim da entrevista, perguntou paraa dona Yolanda: “Dona Iolanda, a senhora chegou a duvidar quando a Raimunda começou a plantar essa vedação?” Dona Yolanda riu com aquela gargalhada solta de quem já tem paz com os erros do passado. “Filha, duvidei mais do que devia. Eu fui dura com a Raimunda, mas a A Raimunda foi paciente comigo, esperou eu compreender no meu tempo e ensinou-me depois, sem nunca cobrar”.

Eu hoje só posso dizer paraas outras sogras do Maranhão, confia mais na Nora. Às vezes ela sabe mais do que nós. A repórter riu-se, Raimunda riu-se e a entrevista acabou em clima leve. A Dona Iolanda faleceu em 2010 com 87 anos em paz na cama com Raimunda a segurar a mão dela. Antes de partir falou baixinho: “Filha, tô aqui, mãe.

Era a primeira vez que dona Yolanda chamava Raimunda de filha e a primeira vez que Raimunda chamava dona Yolanda de mãe. Tinham levado 28 anos para chegar nesse ponto. Cuida da gliricídia. Cuido, mãe. Ensina para Conceição. Para Pedro também. Já ensino, mãe. Tu foi a melhor coisa que aconteceu nessa casa. E foi. Raimunda enterrou a sogra em Codó, ao lado do sogro, e voltou paraa propriedade.

José Bento tinha morrido 3 anos antes, em 2007, de problema no coração. Raimunda ficou na propriedade com Pedro, o filho mais velho, que tinha casado e morava com a esposa Marlene, numa casa nova que tinham construído no terreno principal. Conceição tinha casado com um técnico agrícola e morava em Caxias.

justamente onde a história tinha começado. Hoje, Raimunda tem 69 anos, mora ainda na mesma casa que ela e José Bento construíram juntos. A propriedade hoje tem mais de 500 gliricídias plantadas, todas descendentes da primeira leva de estacas que ela trouxe de Caxias em 1985. Pedro toca a propriedade com a esposa Marlene e os dois filhos do casal neto de Raimunda, que estão sendo criados aprendendo a podar gliricídia desde os 7 anos.

O caderninho azul, onde Raimunda anotou as instruções do compadre Manuel em 85, está guardado dentro de uma caixa de madeira na sala, junto com outros papéis importantes da família. Conceição passou um fim de semana inteiro em 2015, digitalizando aquele caderno, página por página, com permissão da mãe, e mandou cópia digital para Embrapa, que arquivou junto com a documentação técnica que tinha publicado nos anos 90.

Em 2023, uma equipe de uma universidade portuguesa esteve em Codó fazendo pesquisa sobre sistemas agroflorestais tropicais e foi até a propriedade de Raimunda fazer entrevista. O pesquisador, no fim da entrevista, perguntou para ela qual era a lição que ela tirava de tudo aquilo. Raimunda pensou um instante, olhou paraa cerca viva que dominava o horizonte da propriedade e respondeu: “Senhor doutor, a lição é simples.

Quando a gente vê uma coisa boa em outro lugar, a gente não precisa esperar permissão para trazer para casa. A gente traz, planta, espera e vê. Se funcionar, ótimo. Se não funcionar, é só uma divisa de cerca perdida. Mas se a gente não experimenta, a gente nunca sabe. Pausa. E quando a família ri, a gente não responde com palavra, responde com resultado.

Demora 2 anos, demora três, mas o resultado chega. E quando chega, ninguém mais ri. O pesquisador anotou, agradeceu, foi embora. Raimunda voltou paraa cozinha terminar o jantar. Lá fora, na divisa norte da propriedade, as gliricídias plantadas em 1986 tinham agora 38 anos. Eram árvores grandes, com troncos grossos, copas largas, cobertas das flores rosadas características da espécie, que floresciam dezembro após dezembro.

O arame farpado estava preso aos troncos, como compadre Manuel tinha ensinado. As folhas caíam todo o ano e se transformavam em adubo no chão. 38 anos depois, acerca que dona Yolanda tinha chamado de loucura e que José Bento tinha duvidado em silêncio na primeira manhã de Plantio, era a única coisa da propriedade que tinha continuado a crescer, a alimentar, a fertilizar e a segurar gado, sem nunca falhar.

38 anos depois, a mulher, que tinha sido chamada de doida em 1986, era a única referência regional em cerca viva. E o caderninho azul, que tinha vindo de Caxias dentro da bolsa de uma viagem de uma semana era estudado em universidade portuguesa. Tudo porque uma mulher de 29 anos numa manhã de abril tinha plantado um feixe de galhos verdes na divisa enquanto a família ria.

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