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“EU NÃO ME ENTREGO VIVA PARA NENHUM DELES, SÓ SAIO NO CAIXÃO!” A ex-estudante de Direito que virou a Diaba Loira jurou que não tinha medo, mas acabou ex*cut*da após trair o Comando Vermelho.

De Estudante de Direito a ‘Diaba Loira’ do Crime: A Linha do Tempo de uma Transformação Radical e Seu Fim Trágico no Rio de Janeiro

A Queda de uma Vida Comum

Nem toda trajetória criminosa começa na marginalidade. Para Eveline Passos Rodrigues, o caminho em direção ao submundo do crime organizado foi pavimentado por uma sequência de eventos traumáticos que desestruturaram completamente o que parecia ser uma vida pacata e assalariada. Natural de Tubarão, em Santa Catarina, Eveline viveu durante anos sob a rotina de uma cidadã comum, equilibrando-se entre responsabilidades domésticas, a criação de dois filhos e as dificuldades financeiras de quem vive com salários que variavam entre R$ 1.117 e R$ 1.346 registrados em sua carteira de trabalho.

Em sua ficha, constavam ocupações formais como cobradora interna e alfaiate. Nas redes sociais, a imagem que projetava era a de uma mãe dedicada, casada, que dividia com seus seguidores as dores e as delícias da maternidade, os detalhes de suas gestações e o cotidiano de um lar. Para complementar a renda familiar e buscar um futuro melhor, Eveline vendia trufas de chocolate, perfumes e maquiagens. O objetivo principal era claro: financiar a faculdade de direito que cursava na época.

Antes de se envolver profundamente com o crime, sua única interação com o sistema judiciário havia sido de natureza civil, no ano de 2020. Na ocasião, uma loja em Tubarão a processou, alegando que ela estava coagindo funcionários e ridicularizando o estabelecimento após relatar ter sofrido um acidente dentro do local. A empresa buscou uma tutela de urgência para mantê-la afastada, mas a Justiça julgou o pedido improcedente devido à falta de provas. Posteriormente, após um acordo judicial por danos morais, o estabelecimento foi obrigado a pagar R$ 1.500 a Eveline. Até ali, ela era apenas uma mulher comum com a ficha perfeitamente limpa.

O Ponto de Virada: O Trauma de 2022

O destino de Eveline começou a mudar de forma drástica e violenta no ano de 2022. Ela foi vítima de uma tentativa brutal de feminicídio perpetrada por seu então marido. Na presença dos próprios filhos, ela foi atacada e golpeada com uma facada que perfurou um de seus pulmões, uma agressão grave que exigiu intervenção cirúrgica imediata e tratamento de urgência. O caso ganhou repercussão nacional, sendo transmitido em canais de televisão como um retrato da violência doméstica no país.

De acordo com o delegado responsável pelas investigações na época, André Pereira, o agressor justificou o ataque alegando que Eveline havia se apropriado de uma quantia em dinheiro que ele enviava de suas viagens de trabalho. No depoimento, o ex-marido afirmou ter descoberto que ela mantinha um relacionamento extraconjugal e utilizava as economias que ele mandava para que ela guardasse. No desfecho do processo judicial referente a essa agressão, o homem acabou sendo absolvido. O trauma físico e psicológico desse episódio, somado ao desfecho do julgamento, marcou o encerramento definitivo de sua vida pacata. Ninguém que assistia àquela mulher fragilizada em uma cama de hospital poderia prever que, em poucos meses, ela ressurgiria sob uma identidade completamente oposta.

A Entrada no Tráfico e a Primeira Fuga

O hiato temporal entre o papel de vítima e o de infratora foi curto. Em maio de 2023, cerca de um ano após sobreviver ao ataque, Eveline foi presa em flagrante em Tubarão. A descoberta ocorreu após ela se envolver em um acidente de trânsito. Ao prestarem atendimento, os policiais militares consultaram a Polícia Civil e descobriram que ela já estava sob investigação ativa pelo transporte de cocaína. Essa prisão em flagrante revelou que a antiga estudante de direito já estava inserida no mecanismo do tráfico de drogas.

Após a audiência, a Justiça concedeu a Eveline o direito de responder ao processo em liberdade, impondo o uso obrigatório de tornozeleira eletrônica e o cumprimento de restrições de circulação. A concessão da liberdade, contudo, não a afastou da criminalidade. Pouco tempo depois, ela violou o equipamento de monitoramento, danificando-o para escapar da fiscalização e tornando-se foragida pela primeira vez.

A liberdade clandestina durou até janeiro de 2024, quando Eveline foi capturada novamente, desta vez ao lado de um comparsa. A prisão ocorreu após a polícia receber denúncias anônimas de que a dupla estava planejando executar um membro de uma facção rival. Com eles, foram apreendidas armas de fogo e substâncias ilícitas de uso proibido. Conforme apontado pelo delegado André Pereira, a essa altura Eveline já havia se filiado formalmente à sua primeira organização criminosa, uma facção que operava no estado de Santa Catarina, expandindo sua atuação de Tubarão para a capital, Florianópolis. Mais uma vez, o sistema judiciário permitiu que ela respondesse à investigação em liberdade sob monitoramento eletrônico, e, repetindo o comportamento anterior, ela quebrou a tornozeleira e fugiu do estado.

A Transformação em ‘Diaba Loira’ e a Exposição Virtual

Buscando abrigo longe do alcance das autoridades catarinenses, Eveline migrou para o Rio de Janeiro. Sua primeira parada foi o Complexo do Alemão, na Zona Norte, migrando posteriormente para a Gardênia Azul, na Zona Oeste. Foi nesse cenário de conflitos intensos que ela rompeu com suas alianças sulistas e se filiou ao Comando Vermelho (CV). No interior da organização, seu antigo codinome de “Pit” foi substituído por uma alcunha que logo ganharia as redes sociais: “Diaba Loira”.

Diferente do comportamento padrão adotado por integrantes de organizações criminosas, que costumam agir nas sombras, Eveline utilizou sua experiência prévia com redes sociais para se transformar em uma espécie de “influenciadora do tráfico”. Administrando contas populosas no Instagram e no TikTok — onde acumulava 70 mil seguidores em um perfil e 30 mil em outro —, ela passou a exibir fuzis, pistolas e a rotina dentro das comunidades controladas pela facção, além de divulgar jogos de azar como o “jogo do tigrinho”.

A exposição ostensiva era acompanhada de provocações diretas às forças de segurança e aos grupos rivais. Em uma de suas publicações mais emblemáticas, que viralizou após sua morte, ela declarou textualmente: “Não me entrego viva, só saio daqui no caixão”. A postura desafiadora atraiu a atenção tanto das delegacias especializadas quanto dos inimigos do grupo ao qual pertencia.

A Mudança de Lado e a Construção da Tensão

A dinâmica de Eveline no Rio de Janeiro sofreu uma nova reviravolta quando ela decidiu romper com o Comando Vermelho. A justificativa apresentada por ela mesma em suas redes foi a de que havia sido agredida fisicamente por um dos integrantes da liderança da facção. Esse episódio a motivou a “pular de lado”, integrando-se à facção rival, o Terceiro Comando Puro (TCP), mais especificamente na ala conhecida como “Tropa do Coelhão”, liderada por criminosos conhecidos pelos vulgos de Coelho e Lacoste.

Para selar o pacto de lealdade com a nova facção, a influenciadora tatuou em suas costas a imagem de uma mulher segurando um fuzil, fazendo com os dedos o número três — símbolo do TCP —, flanqueada pelas figuras de um coelho e de um jacaré, em alusão direta aos novos chefes. As provocações ao Comando Vermelho intensificaram-se. Em julho, postou uma foto vestindo trajes camuflados com uma arma oculta por emojis de fogo e urso, escrevendo na legenda: “terror do urso marcando a #penha”, uma afronta direta ao líder do Complexo da Penha.

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Quando ameaçada de morte por antigos aliados nas caixas de mensagens, a “Diaba Loira” desdenhava abertamente. “É para eu ter medo? Meio difícil, né? Eu tava do lado de vocês esse tempo todinho. Eu sei que vocês são despreparados. Para de querer ameaçar, tá chato”, disparou em uma ocasião. Questionada por um seguidor se temia o fim da vida, respondeu: “Se eu tivesse medo da morte, tinha fugido para bem longe”.

Dias antes de seu assassinato, a tensão atingiu o ápice quando Eveline publicou um desabafo afirmando que sua mãe havia sido executada por seus inimigos, classificando o ato como uma “covardia” que quebrava o código de ética do crime de não envolver familiares. Contudo, as investigações policiais não encontraram nenhum registro de homicídio com essas características. Posteriormente, uma mulher que se identificou como mãe biológica de Eveline compareceu a uma delegacia em Tubarão em busca de notícias sobre a morte da filha, deixando dúvidas se a publicação se referia a uma figura de criação ou se tratava de uma estratégia de desinformação na rede.

O Desfecho no Morro do Fubá

A alta exposição e a alternância entre grupos rivais transformaram Eveline em um alvo prioritário. Na noite do dia 14, uma quinta-feira, o ciclo de confrontos encontrou seu desfecho no Morro do Fubá, situado na Zona Norte do Rio de Janeiro. A região vinha enfrentando uma disputa territorial sangrenta entre o Comando Vermelho e o Terceiro Comando Puro ao longo dos últimos dois anos, sendo este o quinto tiroteio em larga escala registrado na localidade em um curto período.

Eveline foi morta a tiros durante o tiroteio que assolou a comunidade. Seu corpo, contudo, não permaneceu no local do confronto. Em uma tentativa de ocultação ou descarte, ela foi envolta em um lençol e transportada por alguns quilômetros, sendo abandonada no bairro vizinho de Cascadura. Os exames periciais constataram perfurações por projéteis de arma de fogo na região do tórax e da cabeça.

A Delegacia de Homicídios da Capital instaurou um procedimento investigativo para apurar a autoria do crime. A principal linha de investigação aponta que a execução foi coordenada e executada por lideranças do Comando Vermelho como retaliação pela traição e pelas constantes provocações feitas na internet. Uma linha secundária avalia se divisões internas ou desconfianças por parte do próprio Terceiro Comando Puro poderiam estar envolvidas, embora a primeira hipótese seja considerada a mais robusta pelos investigadores. O fim da “Diaba Loira” encerrou uma sequência de metamorfoses que transformou uma estudante de direito e mãe de família em uma das figuras mais expostas do cenário da criminalidade carioca.

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