O guarda-redes mais louco do futebol, autor do escorpião. Cinco títulos conquistados com o Atlético Nacional de Medelim. E este mesmo gajo a sair drogado em cada partida, preso na cadeia por um sequestro ordenado pelo Pablo Escobar. Hoje vai saber exatamente quantos milhões de dólares o Renê ganhou no rapto nojento de uma menina colombiana de 15 anos. E o mais repugnante de tudo, irmão, o que a própria polícia ofereceu ao Igita em troca de entregar o Pablo Escobar? E por exatamente o guarda-redes disse que nunca entregaria.
Mas antes de se entender por o Renê Guita preferiu apodrecer 9 meses dentro de uma cela em Bogotá, em vez de entregar o narcotraficante mais procurado da história do mundo, tem de saber de uma coisa, porque tudo o que vai ouvir neste vídeo, irmão, tudo volta sempre para o mesmo lugar: uma casa de dois quartos no bairro da Castilha de Medelim. Uma mulher pobre deitada numa cama de ferro e um miúdo de 13 anos a segurar a mão dela pela última vez.
Medelim, Colômbia. Ano de 1979. O José Renê Guita Zapata tinha 13 anos de idade, vivia com a mãe biológica, Maria Joselina e Guita, e mais cinco irmãos. Do pai ninguém falava naquela casa. O homem tinha ido embora quando o O Renê tinha 4 anos. Uns vizinhos do bairro da Castilha diziam que o pai nunca chegou a conhecer o filho em condições. O apelido paterno desapareceu da certidão do miúdo e Guita Zapata era tudo da mãe.
A Maria Joselina trabalhava de empregada doméstica. Saía de casa às 5 da manhã com um saco de pano que levava uma muda de roupa e um pedaço de pão duro. Apanhava dois autocarros até ao bairro Elpoblado, do outro lado da cidade, onde vivia a gente rica de Medelim. Limpava casarões com piscina e jardim. Regressava às 9 da noite, acabada, transportando os restos de comida que as patroas deixavam-na levar. Aquilo era o jantar dos seis filhos.
O Renê era o segundo mais novo e era o único que não queria nem saber de estudo. Os outros irmãos iam logo para a escola. Ele pulava o muro e caminhava seis quarteirões até ao campinho de terra da comuna sete. Lá passava o dia inteiro a jogar à bola com miúdos 5, 6, 7 anos mais velhos que ele.
E aqui entra o detalhe mais estranho da infância dele, irmão. O Renê nunca jogava à baliza, jogava a atacante. Marcava golo em cada bola que tocava com a perna direita, mas tinha a mania que deixava os outros miúdos do campinho doidos. Quando a equipa dele estava a ganhar por 6-0, 7-0, 8-0, o Renê exigia trocar de posição com o guarda-redes. Queria agarrar a bola com a mão, queria ficar parado dentro da baliza e de lá sair driblando até ao meio-coampo do adversário.
Os miúdos do bairro diziam-lhe uma frase só, viu? Uma frase nada mais. “Estás maluco, Renê? Goleiro não sai da área. Guarda-redes não joga com o pé.” E o Renê, com 12, 13 anos, parava o jogo, olhava para a cara deles e respondia sempre a mesma coisa, a mesma frase de sempre. A frase que 20 anos depois ia tornar-se a marca registada da toda a sua carreira profissional. A frase que ia marcar cada glória e cada queda da sua vida: “Quem é que disse que um guarda-redes não pode jogar?”
A Maria Joselina via tudo isto e desesperava. Para ela, o futebol em Medelim no final dos anos 70 era a pior coisa que um filho podia escolher. E tinha razão, viu? O Pablo Escobar estava a montar o cartel de Medelim nessa mesma cidade. Os sicários da comuna 13 eram miúdos de 15 e 16 anos com motos e pistolas. O bairro da Castilha ficava meia hora a pé do bairro de Manrique, onde se concentravam os branqueadores de capitais do cartel. E a mãe do Renê tinha um pavor constante de perder o filho naquela guerra toda.
Toda noite, antes de dormir, a Maria de Oselina sentava-se na beira da cama do miúdo, pegava-lhe na mão esquerda e fazia-o repetir uma promessa, uma só, a mesma promessa todas as noites durante anos: que o Renê ia estudar, que ia tirar a família do bairro da Castilha, que não se ia misturar com os homens errados da rua, que nunca, nunca da vida, ia acabar dentro de uma cadeia. E o miúdo, com a mão segura pela mãe, jurava sempre a mesma coisa: “Eu prometo, mãe. Eu prometo, mãezinha”.
Mas no dia seguinte, 7 da manhã, saltava o muro da escola de novo e ia direitinho para o campinho de terra batida jogar à bola. A Maria Joselina adoeceu in 1980. O Renê tinha 14 anos. A mulher começou a perder peso de jeito acelerado. Baixava 1 kg por semana. As patroas do poblado disseram-lhe que não dava mais para continuar a limpar casa. Mandaram-na para o hospital público de Medelim, que naquela época era um edifício velho onde os pobres morriam nos corredores sem atendimento. Lá deram para ela um diagnóstico que o Renê, com 14 anos, nunca quis repetir em entrevista pública.
Imagina por um momento ser um miúdo de 14 anos numa casa pobre de Medelim, vendo a tua mãe emagrecer dia atrás de dia, sem poder fazer nada. Imagina chegar do campinho às 9 da noite e ver a tua mãe na cama de ferro daquele quarto pequeninho com a respiração entrecortada segurando uma foto velha em preto e branco que você não consegue reconhecer. Aquela foto, irmão, vai voltar a aparecer nesse vídeo. 20 anos depois, quando se menos esperar.
A Maria de Joselina Iguita morreu em 1980, pelo que o próprio Renê contou anos depois numa entrevista pra revista Bocas. O moleque tinha 14 anos recém-completados. Velaram ela na casa do bairro Castilha. O caixão era de madeira barata. Os vizinhos puseram flores cortadas do próprio jardim da quadra. O Renê, segundo o mais novo, foi o último dos filhos a entrar no quarto onde estava o corpo. Pegou a mão esquerda dela, igual ela segurava a dele todas as noites, e repetiu a promessa pela última vez.
Três meses antes, numa das últimas tardes lúcidas dela, a mãe tinha perguntado para ele de frente: “Meu filho, me fala a verdade, você vai mesmo ser jogador de futebol?” E o Renê tinha respondido com a cabeça baixa: “Vou sim, mãe, eu vou ser jogador.” E a Maria Diocelina tinha respondido para ele com uma frase que o moleque nunca esqueceu. Uma frase só, irmão, que você vai ver como aparece transformada em cada erro grande da vida do Renê Guita: “Então, me promete mais uma coisa, meu filho, que o futebol não vai te custar a liberdade.”
Guarda essa frase aí na cabeça, irmão, que o futebol não vai te custar a liberdade. Porque dentro de 13 anos exatos, numa madrugada de junho do ano de 1993, o moleque do Castia, já virado estrela mundial, vai lembrar da voz da Maria de Joselina dentro de uma cela da cadeia lá modelo de Bogotá e vai chorar.
Depois da morte da mãe, o Renê ficou aos cuidados da avó materna. A mulher já passava dos 60 anos, vivia da aposentadoria miserável do estado colombiano e tinha as mesmas vontades da filha de proibir o futebol, mas o moleque já estava lançado. Aos 15 anos, começou a ir nas peneiras das categorias de base do Atlético Nacional. Caminhava todo sábado do Castilha até o campo de treinamento do clube. 1 hora e meia a pé, chegava com um sapato cheio de poeira da avenida e a camisa molhada de suor.
Recusaram ele três vezes. A primeira por baixinho, a segunda por magro, a terceira porque ele brigou com o treinador das categorias de base quando o cara falou para ele que não podia ser atacante. O moleque deu meia volta e foi embora. Na quarta vez, já com 16 anos completados, chegou no campo com 2 cm a mais de altura, 5 kg a mais de peso e uma ideia fixa na cabeça. Falou pro treinador sem nem cumprimentar: “Hoje me testa no gol.” O cara riu. Botaram ele para pegar chute. O moleque defendeu nove de cada 10 chutes. O décimo pegou com a mão, saiu correndo com a bola no pé até o meio-coampo, driblou três zagueiros e fez gol do outro lado. Contrataram ele naquela mesma tarde.
Três anos depois, em 1986, o Renê Guita Zapata já era goleiro titular do Atlético Nacional de Medelim. Tinha 20 anos. O técnico se chamava Francisco Maturana, um homem de pouca conversa, de olhar duro, que tinha entendido uma coisa que ninguém mais no futebol colombiano dos anos 80 tinha entendido. O goleiro podia ser um jogador de campo a mais. O goleiro podia sair da área, o goleiro podia dar o primeiro passe do ataque. O Maturana falou pro Renê uma coisa só no dia que subiu ele pro time profissional: “Joga do jeito que você sabe, moleque. Eu te respaldo.”
E o Renê começou a fazer o que fazia aos 12 anos no campinho de terra da comuna 7. Saía da área, dava passe longo de 40 m com a perna direita, driblava a atacante rival, marcava gol de falta. Naqueles anos, o público colombiano nunca tinha visto coisa parecida. As arquibancadas do estádio Atanásio Girardó lotavam só para ver o goleiro loco do Nacional jogar com o pé.
Mas tem um dado do ano de 1987 que pouquíssima gente lembra. E esse dado muda tudo o que vem depois na história do Renê Guita. Porque em 1987, num jogo do Campeonato Colombiano, um homem que estava sentado no camarote do Atanásio Girardó viu o moleque jogar pela primeira vez ao vivo. Um homem gordinho, de bigode espesso, com três seguranças do lado. Um homem que naquele ano já era o sétimo mais rico do planeta. De acordo com a lista oficial da revista Forbes, um homem que se apaixonou pelo estilo do goleiro naquela mesma tarde: Pablo Escobar Gavíria, o patrão do mal.
1989, o Atlético Nacional disputava a final da Copa Libertadores da América contra o Olímpia do Paraguai. Era a primeira vez que um time colombiano chegava tão longe na história do torneio continental. A partida da segunda mão foi em Bogotá no dia 29 de maio, no estádio Elcampim. Empate a 2 no agregado, prolongamento sem golos. A final foi decidida nos penáltis e depois o Renê Guita Zapata escreveu a primeira página gloriosa da carreira profissional.
Defendeu quatro dos cinco grandes penalidades do Olímpia. Chutaram na direita, jogou para a direita. Chutaram na esquerda, jogou para a esquerda. Chutaram no meio, ficou parado e travou com o joelho. Atlético Nacional ganhou a final e tornou-se o primeiro time colombiano a levantar a Taça Libertadores na história inteira do futebol do país. A foto do Renê a beijar a taça com a camisola verde do Nacional e os olhos fechados saiu na capa do jornal El Tiempo no dia seguinte. A avó materna do miúdo recortou aquela capa com a tesoura da cozinha e colou-o na parede do quarto onde a Maria Diocelina tinha morrido 9 anos antes. Aquela foto vai voltar a aparecer neste vídeo, irmão, quando se menos espera.
Três meses depois da Libertadores, o Renê foi convocado pela primeira vez para valer para a seleção da Colômbia. O técnico era o mesmo Francisco Maturana. Aquela geração tinha nomes que qualquer brasileiro de 55 anos para cima recorda com clareza: o Carlos Valderrama, o Pibe com aquela juba loira gigante; o Faustino Asprila, o Tino com os dentes brancos e o sorriso de menino; o Fred Rincón, o cabeça dura que marcava um golo de bola parada; e o louco guarda-redes do Atlético Nacional debaixo das três traves, saindo jogar com o pé como nenhum arqueiro sul-americano tinha feito antes.
A Colômbia qualificou-se pra Copa do Mundo de Itália de 1990 pela repescagem contra Israel. Era a primeira Taça do Equipo Cafetero em 28 anos. A última participação tinha sido em 1962, no Chile. Uma geração inteira de colombianos, nascidos entre os 62 e os 90 nunca tinha visto a seleção numa Taça do Mundo. O sentimento do país era de festa nacional permanente.
No dia 9 de junho de 1990, a Colômbia estreou-se na Taça da Itália contra os Emirados Árabes Unidos, no estádio Renato da Lara, na cidade de Bolonha. Ganharam por 2-0. Quatro dias depois, no dia 13 de junho, enfrentaram a Jugoslávia no mesmo estádio. Perderam de 1 a 0 e no dia 21 de junho, em Milão, jogaram contra a Alemanha Ocidental, futura campeã do mundo. Empataram a 1 a 1. O Pierre Litbarsky abriu o marcador aos 88 minutos e 2 minutos depois o Fred Rincón empatou com uma bola entre as pernas do guarda-redes alemão Bodo Ilgner. Esse empate classificou a Colômbia pras oitavas como terceiro melhor do grupo. Era um sonho tornado realidade. Pela primeira vez na história, a seleção cafeteira estava na fase eliminatória de um Campeonato do Mundo.
Nas oitavas, o adversário foi os Camarões, Os Leões Indomáveis. Uma equipa que ninguém no mundo do futebol esperava que chegasse àquela altura do torneio, não é? Mas que eliminou a Argentina, a campeã do mundo anterior, no jogo de abertura. O avançado dos Camarões chamava-se Roger Milla, tinha 38 anos de idade, tinha saído da reforma precisamente para disputar essa Taça e já tinha marcado quatro golos na fase de grupos.
O que aconteceu no dia 23 de junho de 1990 no interior do estádio São Paolo de Nápolis ainda hoje, 36 anos depois, surge em cada compilação dos piores erros da história dos Mundiais. Tá no YouTube, está no TikTok, está em cada documentário que foi feito posteriormente sobre a Taça da Itália. E o Renê Guita Zapata, hoje com 59 anos de idade, ainda transporta esta cagada feita uma pedra atada no pescoço.
A partida começou às 9 da noite, hora italiana, calor pesado em Nápolis, 32º a sombra. O estádio São Paolo estava lotado, 60.000 pessoas. Os 90 minutos regulamentares terminaram empatados a zero. A partida foi para a prorrogação. Mais 30 minutos, morte súbita no futebol mundialista da época. Aos 108 minutos de jogo, o Roger Mila marcou 1-0 para os Camarões. Gol limpo, cabeceamento dentro da área, o Iguita sem culpa. A Colômbia atirou-se para o ataque desesperada por empatar.
E aí, irmão, chega o momento que todo o adepto de futebol latino-americano de 55 anos para cima recorda com vergonha alheia. O minuto 112 da partida, o defesa colombiano Luís Carlos Perea recebe a bola perto da área dele, tem tempo, olha para a frente e decide recuar a bola para o guarda-redes. Uma bola mansa, lenta, sem perigo. O Renê Guita Zapata recebe a bola à altura da grande área e em vez de chutar para longe, em vez de mandar para a bancada, em vez de simplesmente bater pontapé de baliza e reiniciar a jogada, o Renê faz uma coisa que nenhum guarda-redes do planeta faria num oitavo de final de Campeonato do Mundo: sai a correr com a bola no pé, atravessa a área, cruza o círculo central, chega perto do meio-coampo e na frente dele, esperando-o agachado, vem o veterano avançado dos Camarões, Roger Mila, 38 anos de idade, com o olhar fixo na bola. O Iguita tenta dar um chapéu, o Mila rouba a bola. O Iguita fica parado, olhando como um turista. O Mila corre para a baliza vazia e bate o segundo golo de Camarões com a perna direita, suavinho dentro da rede. Colômbia eliminada da Taça 2-1. Final da partida.
O que aconteceu no balneário da Colômbia depois daquela partida? O Renê Guita contou 30 anos depois numa entrevista à revista Bocas do jornal El Tiempo. As palavras textuais foram as seguintes: “Me crucificaram em vida, queriam tirar-me da seleção.” O técnico Francisco Maturana entrou no balneário, olhou para o Renê diretamente nos olhos e disse uma frase que o guarda-redes nunca esqueceu: “Vamos, Renê, para conferência de imprensa. E aí a gente fala sobre esta cagada.”
O Renê abanou a cabeça, caminhou pelo corredor até à sala de imprensa, sentou-se perante 200 jornalistas internacionais e assumiu a inteira culpa em público, sem se esconder, sem jogar a culpa no defesa Perea, sem culpar o técnico, sem se justificar com o calor de Nápolis ou o cansaço do prolongamento.
Nessa mesma noite, no bairro da Castilha de Medelim, a avó materna do Renê ligou uma televisão a preto e branco pequenina, viu a cagada na repetição do telejornal colombiano, desligou o aparelho e caminhou até ao quarto, onde a Maria tinha morrido 10 anos antes. Olhou para a foto que a avó tinha colado na parede. A capa do jornal El Tiempo, com o Renê a beijar a Taça Libertadores, tinha descolado com a humidade. A pontinha de baixo do lado direito pendurava dobrada para o chão.
O que se realizou depois da Taça da Itália, irmão, é a verdadeira queda do Renê Guita Zapata, porque a cagada de Nápolis foi uma vergonha desportiva, uma ferida no orgulho nacional colombiano, uma história para rir 20 anos depois num tasco do centro de Bogotá. Mas o que veio em seguida, no regresso a Medelim, foi uma espiral de cocaína, as mulheres erradas, amizades perigosas e dinheiro sujo, que terminou três anos depois exatos com o Renê Guita Zapata engessado da perna esquerda, algemado dentro de um helicóptero do bloco de busca da polícia colombiana, voando para Bogotá, acusado do crime mais grave da carreira profissional dele.
Mas antes de chegar nessa noite, há uma coisa que precisa de entender. Porque a primeira vez que o Renê cheirou cocaína pelo nariz, irmão, foi exatamente 48 horas depois de regressar de Itália. E a pessoa que lhe entregou, essa pessoa você vai conhecer daqui a pouco.
O voo da seleção Colômbia de Roma até Bogotá durou 14 hours. O Iguita ia sentado na fila 32, janela, sem falar com ninguém. O companheiro do lado, Faustino Asprila, tentou por duas vezes começar conversa. O Renê respondeu as duas vezes com a cabeça virada para a janelinha do avião. Quando aterraram no aeroporto Eldorado, o guarda-redes esperou todos os outros descerem. Depois caminhou sozinho pelo corredor até à imigração. Recebeu ele cartazes. Um falava “assassino da taça”. Outro falava “vendido”. Outro dizia “que o Pablo Escobar pague-te o salário, traidor”. O Renê não respondeu. Caminhou até o carro que o esperava com os vidros escuros e regressou a Medelim de estrada, mais 12 horas de viagem para evitar a imprensa do aeroporto José Maria Córdova.
Quando chegou ao bairro Castilha, a avó materna abraçou-o na porta da casa de duas divisões. A mulher não disse nada do jogo contra Camarões. Serviu-lhe feijão com arepa, aqueceu água para o banho e arrumou a cama do quarto onde a Maria Joselina tinha morrido 10 anos antes. A capa do jornal El Tiempo continuava colada à parede com a ponta de baixo do lado direito dobrada para baixo. O Renê olhou a foto e pela primeira vez desde o jogo de Nápolis escorreram lágrimas pelo rosto dele. Mas lágrima, irmão, dura o que dura. O que veio nessa mesma semana, 48 horas exatas depois de regressar a Medelim, marcou o início da espiral, que terminou 3 anos depois dentro de uma cela em Bogotá.
E a pessoa que apareceu à porta da casa do Castilha na terça-feira às 10 da noite, com uma garrafa de cachaça numa mão e um saquinho de plástico na outra, era um velho conhecido do Atlético Nacional, um companheiro de vestiário. O nome do companheiro o Renê nunca disse em entrevista pública, mas a cena contada anos depois, de forma anónima por um ex-jogador do Atlético Nacional, pro jornalista desportivo Hernan Peláez Restrepo, foi a seguinte: o companheiro entrou em casa, cumprimentou a avó com respeito, pediu autorização para conversar a sós com o Renê. A senhora aceitou.
O companheiro levou o Renê para o quintal de trás da casa, onde estava um cão magro amarrado num cano. Tirou a saco de plástico do bolso, abriu em cima de um balde de plástico virado de cabeça para baixo e falou pro Renê uma frase só: “Isso aqui, irmãozinho, vai tirar-te a cagada de Itália da cabeça.”
O Renê olhou para o saquinho, olhou o companheiro, olhou o cachorro magro amarrado no cano, olhou a lua em cima do telhado de zinco da casa do vizinho e pensou por um segundo na mãe, Maria Diocelina, na cama de ferro, segurando a mão esquerda dele, fazendo-o prometer que nunca se ia misturar com os homens errados da rua. Pensou na frase exata que a mãe lhe tinha dito três meses antes de morrer, que o futebol não vai custar-lhe a liberdade, mas pensou também nos cartazes do aeroporto Eldorado, nos 200 jornalistas internacionais da sala de imprensa de Nápolis, no silêncio do voo de 14 horas desde Roma, na frase do técnico Maturana: “Vamos, Renê para a conferência de imprensa. E depois falamos sobre essa cagada.” O Renê agachou-se e enfiou o nariz dentro da sacolinha de plástico. Foi a primeira vez em 24 anos de vida, já viu? Não ia ser a última.
O que aconteceu depois na cabeça do Renê Guita? Irmão, nenhum psicólogo desportivo do futebol latino-americano conseguiu explicar direito, porque a cocaína do fim dos anos 80 em Medelim tinha uma pureza de 92%. Era a cocaína que era exportada direto para Miami, para Nova Iorque, para Los Angeles. A mesma cocaína que financiou a guerra do cartel contra o Estado colombiano. A mesma cocaína que matou o ministro da justiça, Rodrigo Lara Bonilla, em 1984. E aquela cocaína entrou pelo nariz do Renê Guita Zapata no quintal das traseiras da casa da avó no bairro da Castilha, de graça, sem cobrar um tostão de dinheiro.
Passou quase um ano, o Renê continuou a jogar pelo Atlético Nacional, defendeu golo, marcou falta, saiu da área para driblar atacante adversário. O Campeonato Colombiano continuava. As feridas da Itália iam sendo cobertas com uma manchete desportiva nova, mas alguma coisa tinha alterado dentro dele. O pessoal do vestiário notou que chegava atrasado aos treinos, tinha o nariz vermelho de manhã, pedia autorização ao corpo técnico para faltar nas concentrações de fim de semana.
E depois veio o dia mais polémico de toda a sua carreira, 30 de junho de 1991. O Renê Guita Zapata, guarda-redes titular do Atlético Nacional e da seleção Colômbia, apanhou um carro particular em Medelim, conduziu 50 km até ao concelho de Envigado e entrou pela porta principal de um complexo prisional chamado La Catedral, a cadeia do Pablo Escobar.
A catedral não era uma cadeia normal, não é? O Pablo Escobar tinha-a construído, ele próprio com o próprio dinheiro, depois de se entregar pro governo colombiano em junho do mesmo ano. Tinha um campo de futebol com relvado natural, bar com karaoke, sauna, discoteca, quartos com casa de banho privado para cada recluso e um system de túneis secretos que permitia entrar e sair quando o Escobar quisesse.
Nesse dia 30 de junho, o Renê Guita entrou na catedral como convidado especial do patrão do mal para jogar um jogo amigável de futebol com a camisola do Atlético Nacional vestida e com um fotógrafo pessoal do Escobar registando cada momento. As fotos saíram na imprensa colombiana no dia seguinte. O escândalo foi gigantesco. A Federação Colombiana de Futebol citou-o para dar explicações. A imprensa internacional reproduziu as imagens nos Estados Unidos, em Espanha, no Brasil. Todos perguntavam a mesma coisa: por que razão o guarda-redes mais famoso da Colômbia jogava à bola com o narcotraficante mais procurado do planeta? Porque sorria nas fotos? Porque abraçava-o no final do jogo? O Renê respondeu nessa altura com uma frase que ficou famosa, dolorosamente famosa em toda a América Latina: “Eu sou um agradecido. O Pablo me ajudou. E para um amigo não nos viramos as costas.”
Guarda esta frase também na cabeça, irmão: “Para um amigo, a gente não vira as costas.” Porque esta mesma frase, exatamente esta, o Renê vai repetir dois anos depois, dentro de uma cela da cadeia La Modelo de Bogotá, quando um major da polícia colombiana oferecer-lhe a liberdade em troca de entregar o Pablo Escobar Gavíria.
Depois do escândalo da Catedral, o Atlético Nacional começou a afastar o guarda-redes. Os dirigentes não falavam em público, mas as decisões internas foram rápidas: reduziram as aparições dele em eventos institucionais; apagaram-no do programa de marketing do clube. A diretoria sugeriu-lhe, numa reunião a portas fechadas que vazou meses depois para a revista Semana, que procurasse jogar fora da Colômbia. O Renê percebeu o recado.
Em 1991, aceitou uma proposta do Real Valladolid, clube espanhol da primeira divisão. Pagaram-lhe uma luva razoável, apresentaram-no no estádio José Zorrilla, deram-lhe uma casa mobilada no centro da cidade. E pela primeira vez na sua vida, o Renê Guita Zapata atravessou o Oceano Atlântico. Foi para longe do bairro Castilha, para longe da avó, para longe do quarto onde a Maria tinha morrido, mas também para longe dos companheiros do Atlético Nacional com quem cheirava cocaína todos os domingos à noite. E que naquele momento foi a única coisa boa que aconteceu.
A temporada do René no Valladolid foi um fracasso desportivo. Jogou apenas 16 partidas oficiais. O clube estava na zona de descenso. Os adeptos espanhóis, habituados a goleiros tradicionais do estilo do Andoni Zubizarreta, vaiaram-no cada vez que tentou sair da área para jogar com o pé. As críticas na imprensa de Madrid foram brutais: chamavam-lhe palhaço, chamavam de irresponsável, chamavam de indigno da camisa do Valladolid. No final da época, a equipa caiu para a segunda divisão e o Renê pegou nas malas, vendeu o carro que tinha comprado e voou de volta para Medelim, onde o quintal das traseiras da casa da avó, o balde de plástico virado de cabeça para baixo e os companheiros de balneário do Atlético Nacional esperavam por ele.
O Pablo Escobar faleceu no dia 2 de dezembro de 1993, encurralado pelo bloco de busca num telhado do bairro Los Olivos de Medelim. Uma bala de calibre 9 mm entrou pela orelha direita e saiu por cima do olho esquerdo. Mas antes de morrer, o Escobar tinha deixado toda a Colômbia com cicatrizes que demorariam décadas a fechar. E o Renê Guita Zapata carregava uma dessas cicatrizes marcada para sempre. Uma cicatriz que a gente vai destapar completa na parte final desse vídeo.
Em 1994, já com o Escobar morto, o Renê voltou ao golo titular do Atlético Nacional. E nessa estação, contra todo o prognóstico, o clube venceu o Campeonato Colombiano pela 10ª vez na história. O Renê estava no melhor momento técnico da sua carreira, defendia um penálti, marcava falta, dava passe longo de 40 m com a perna direita. A malta do estádio Atanásio Girardot esqueceu por momentos da cagada da Itália, das fotos da catedral, dos rumores de cocaína, voltaram a gritar o nome dele.
E aqui, irmão, chegou o momento mais glorioso de toda a carreira do Renê Guita Zapata, o momento que qualquer brasileiro dos 55 anos para cima viu repetido mil vezes pela televisão nos últimos 30 anos. O momento que está em cada compilação das melhores jogadas da história do futebol mundial. O momento do escorpião.
6 de setembro de 1995. Estádio de Wembley, Londres. Partida amigável internacional Inglaterra contra Colômbia. A temperatura em Londres era de 14º. Chuviscava desde as 5 da tarde. O estádio estava cheio: 75.000 adeptos ingleses, a maioria homens com mais de 50 anos, com lenço branco e vermelho da seleção inglesa. A partida estava empatada a 0-0. Minuto 78 do segundo tempo. O médio inglês Jamie Redknapp, filho do treinador Harry Redknapp, agarrou uma bola a 30 m da baliza colombiana, olhou em frente e pontapeou com toda a força.
A bola voou para a baliza do Renê Guita Zapata. Uma bola mansa, alta, fácil de pegar com a mão para qualquer guarda-redes do planeta. Mas o Renê Guita não era um guarda-redes qualquer, não é? O Renê Guita era o miúdo da comuna 7 que aos 12 anos exigia trocar de posição com o guarda-redes do campinho de terra. O Renê Guita era o miúdo que se perguntava quem é que disse que um guarda-redes não podia jogar.
E depois, ao minuto 78 da partida frente à Inglaterra, o Renê fez uma coisa que nenhum guarda-redes do mundo tinha feito antes numa partida oficial entre seleções: se agachou para a frente, se atirou para o chão com as mãos pela frente, levantou as duas pernas para trás da cabeça num movimento semelhante ao de um escorpião com o ferrão erguido e bateu na bola com o calcanhar dos dois pés para a frente, com tanta precisão que a bola saiu disparada em linha reta de volta para o campo da Inglaterra.
O estádio esteve em silêncio durante exatamente 2 segundos e depois explodiu em palmas, viu? 75.000 ingleses, adeptos da equipa rival, batendo palmas ao guarda-redes louco do Atlético Nacional de Medelim. O narrador da BBC falou em direto 30 segundos depois, palavras que ficaram famosas em todo o mundo: “Ele acabou de fazer a defesa mais extraordinária da história do futebol. O guarda-redes colombiano acabou de fazer o impossível.”
A jogada chamou-se O escorpião. Apareceu na capa dos jornais de Inglaterra, Espanha, Itália, Brasil e Argentina no dia seguinte; apareceu depois em cada livro sobre a história do futebol mundial; apareceu nas compilações desportivas do século XX e 30 anos depois, no ano de 2026, continua a ser o exemplo mais citado de criatividade pura dentro de um campo de futebol profissional.
Mas naquela noite em Londres, irmão, enquanto os ingleses aplaudiam-no de pé em Wembley, o Renê Guita Zapata tinha dentro do bolso direito do seu casaco uma sacolinha de plástico, igual à do quintal de trás da casa da avó. E dentro do quarto do hotel Park Lane, nessa mesma madrugada, enquanto toda a Colômbia festejava o escorpião pela televisão, o Renê enfiou o nariz dentro da saquinha e adormeceu às 5 da manhã com os olhos abertos.

Depois do escorpião, o Renê tentou uma segunda viagem para fora da Colômbia. Em 1996, aceitou uma proposta do futebol argentino. Contrataram-no como reforço de um clube de meio da tabela do torneio nacional. Pagaram bem, prometeram continuidade na baliza titular. E o Renê voou para Buenos Aires com a avó materna, já doente, que tinha aceitado viver com ele nos últimos anos de vida. Mas a cocaína viajou dentro da mala do guarda-redes. E em Buenos Aires, o Renê encontrou cocaína ainda mais fácil de obter do que em Medelim. A ligação vinha direto da Bolívia, atravessando a fronteira por Tartagal, chegando à Avenida Corrientes por tonelada. Os amigos do futebol argentino apresentaram-lhe contactos. As noites portenhas eram longas. A avó no apartamento alugado do bairro Belgrano via-o chegar de madrugada com as mãos a tremer.
Em 1997, a Associação do Futebol Argentino fez um controlo antidoping de rotina depois de uma partida oficial do torneio. O Renê Guita Zapata deu positivo para cocaína. O resultado tornou-se público uma semana depois. A punição foi brutal: dois anos de suspensão sem possibilidade de jogar partida oficial em nenhum país filiado na FIFA. A carreira do Renê parecia acabada, tinha 31 anos de idade, tinha sido o melhor guarda-redes sul-americano do momento e agora carregava dois anos de suspensão, uma avó doente à sua espera num apartamento alugado e uma espiral de cocaína que mais ninguém conseguia controlar.
Quando a suspensão acabou, em 1999, o Renê iniciou uma peregrinação por equipas pequenas do futebol latino-americano que durou 11 anos exatos. Cada ano uma equipa nova, cada ano um salário mais baixo, cada ano um contrato mais curto: 1999, Independiente Medellín, o eterno rival do Atlético Nacional; 2000, Real Cartagena, equipa da segunda divisão colombiana; 2001, Júnior de Barranquilla; 2002 regressou por época e meia ao Atlético Nacional, agora como reserva do jovem guarda-redes Faryd Mondragón; 2003, equipa Bajo Cauca, clube da região mineira do norte de Antioquia; 2004, Aucas do Equador.
Em cada equipa rolava a mesma coisa: chegava com a camisa vestida, defendia dois ou três penáltis espetaculares, fazia um escorpião na pré-época pros fanáticos. E depois, exatamente seis meses depois, a cocaína voltava a assumir o controlo. Os adeptos se decepcionavam, os dirigentes não renovavam o contrato dele. A avó materna, que tinha falecido de causas naturais em 1999, naquele apartamento do bairro Belgrano de Buenos Aires, já não estava mais esperando-o às 5 da madrugada, quando regressava com as mãos a tremer. O Renê estava completamente sozinho.
A mãe tinha morrido aos 14 anos, a avó tinha falecido em Buenos Aires. O time grande tinha-se esquecido dele. Do milhão e meio de dólares que tinha ganho nos melhores anos do Atlético Nacional, já não sobrava um tostão guardado; sem namorada estável, sem amigo verdadeiro, sem ninguém para esperar acordado de madrugada.
E depois veio a queda pública mais humilhante de toda a carreira profissional dele. Uma queda que apareceu na capa dos jornais desportivos do continente todo. Uma queda que o Renê tentou esconder durante semanas, mas que acabou por vir a público por culpa de um técnico equatoriano que aplicou uma cláusula de contrato sem dó nem piedade.
23 de Novembro do ano de 2004. Estádio Olímpico Atahualpa de Quito, Equador. Partida do Campeonato Equatoriano, Sociedade Esportiva Aucas contra Centro Desportivo Olmedo, da cidade de Riobamba. Faltava exatamente meia hora para o início do jogo. O Renê Iguita Zapata, com 38 anos de idade entrou no balneário do Aucas com o equipamento de guarda-redes já vestido. Os companheiros notaram-no estranho: tinha o nariz inflamado, os olhos vidrados, as mãos a tremer, mas ninguém disse nada em voz alta. A partida terminou 0-0. O Aucas perdeu dois pontos importantes na luta para evitar o rebaixamento. E no final do jogo, os oficiais da Federação Equatoriana de Futebol fizeram o controlo antidoping obrigatório.
Chamaram três jogadores, um do Aucas, dois do Olmedo. O jogador do Aucas selecionado foi o guarda-redes titular, o Renê Iguita Zapata. O Renê entrou no quarto onde rolava o comando, urinou dentro do frasco de plástico, assinou os papéis, saiu do estádio no carro particular dele e voltou para o apartamento alugado do bairro La Floresta de Quito. Nessa noite dormiu de fio a pavio. Pela primeira vez em meses, dormiu de cabo a rabo.
Mas o laboratório de Lima, no Peru, onde a Confederação Sul-Americana de Futebol mandava as amostras de dopping da época, encontraram metabolitos da cocaína na urina do Renê Iguita Zapata, quantidade alta. Consumo confirmado nas 24 horas anteriores ao jogo. Seis dias depois, no dia 29 de novembro, a Federação Equatoriana de Futebol citou o Renê para uma reunião privada na sede de Quito. Receberam ele três dirigentes. Botaram em cima da mesa o resultado do laboratório, pediram uma explicação e o Renê, irmão, fez uma coisa que ninguém esperava: assumiu a culpa inteira de cara. Não chamou o advogado, não pediu prazo, não negou a prova.
“Sim, senhores, consumi cocaína na noite anterior ao jogo. Sei que era proibido, sei que era irresponsável, sei que era uma vergonha, mas vocês não compreendem o que é estar dentro da cabeça do Renê Guita. Vocês não entendem o que é ter sido o guarda-redes do escorpião em Wembley e estar agora a defender o golo no Aucas de Quito por 4.000 por mês?”
A declaração foi gravada por um dos dirigentes com um gravador portátil de bolso. A fita vazou para o jornal El Universo de Guayaquil, três dias depois e o escândalo, irmão, virou continental. A Federação Equatoriana de Futebol suspendeu o Renê Guita Zapata durante seis meses. O Aucas ativou uma cláusula do contrato que permitia despedi-lo sem pagar indemnização. A direcção do clube pediu para ele que devolvesse as chaves do apartamento arrendado em La Floresta. Deram-lhe um prazo de 72 horas para abandonar Quito.
O Renê fez as malas, subiu para o táxi caminho do aeroporto Mariscal Sucre e na sala de embarque, antes do voo da Avianca com destino a Bogotá, encontrou-se por acaso com o comentador desportivo colombiano César Londoño, uma figura conhecida do canal RCN. O Londoño tinha viajado para Quito para cobrir o escândalo do dopping, já com o voo de regresso marcado para a mesma tarde. Quando se cruzaram na sala de embarque, o Londoño se aproximou-se do Renê com um gravador portátil na mão. Perguntou-lhe se queria dar declaração sobre o resultado do dopping. O Renê respondeu com três palavras: “Não quero falar”, mas o Londoño insistiu, aproximou o gravador na cara dele. Perguntou se era verdade que ele tinha consumido cocaína na noite anterior ao jogo; perguntou se era verdade que ele carregava anos com um problema de adição; perguntou se era verdade que tinha amizade recente com um narcotraficante colombiano ligado ao cartel de Cali e o Renê, irmão, perdeu o controlo. Sem avisar, sem dizer uma palavra a mais, levantou o punho direito e atingiu o comentador César Londoño no olho esquerdo, com tanta força que o jornalista caiu no chão da sala de embarque.
As câmaras do aeroporto Mariscal Sucre gravaram a cena toda. O vídeo apareceu nos noticiários da Colômbia e do Equador nessa mesma noite. O César Londoño ficou com um olho negro durante duas semanas. Processou o Renê por agressão física. O processo terminou num acordo extrajudicial, mas o vídeo, irmão, o vídeo do soco, este vídeo ainda hoje circula pelas redes sociais como exemplo da mais humilhante queda pública de um ídolo do futebol latino-americano dos anos 90.
E o Renê Iguita Zapata, com 38 anos de idade, embarcou no avião da Avianca rumo a Bogotá nessa tarde, sabendo que o futebol profissional, da forma que ele tinha conhecido durante duas décadas, tinha acabado para sempre.
O que veio a seguir, irmão, foram reality shows. Mas antes de falar disso, há uma coisa que precisa de saber. Uma coisa que aconteceu 11 anos antes do dopping do Aucas. Uma coisa que aconteceu dentro de uma cadeia em Bogotá em 1993. Uma coisa que envolve uma rapariga colombiana de 15 anos, um sequestro repugnante, 3 milhões de dólares em dinheiro vivo e uma proposta exacta que a polícia colombiana fez ao Renê Guita Zapata dentro de um calaboço do bloco de busca.
Quando aterrou em Bogotá na tarde do dia 29 de Novembro de 2004, depois do soco no César Londoño, o homem conhecido por Renê Guita Zapata não tinha para onde ir. A casa da avó no bairro da Castilha tinha sido vendida 5 anos antes para pagar dívida ao banco. Os irmãos viviam cada um para seu lado. As filhas que o Renê tinha tido com três mulheres diferentes durante os anos de fama não atendiam o telefone. O guarda-redes do escorpião dormiu naquela noite num hotel barato do centro de Bogotá chamado Hotel Continental, num quarto de três estrelas com casa de banho partilhada.
O canal RCN, principal rede de televisão privada da Colômbia, ofereceu-lhe duas semanas depois um contrato, um reality show, programa chamado A Ilha dos Famosos, adaptação colombiana do formato Survivor, que já fazia sucesso nos Estados Unidos. Levavam 12 celebridades para uma ilha das Caraíbas colombianas. Deixavam-nas sem comida durante 3 meses. Faziam-nas competir em provas físicas. O último que ficava levava 200.000 de prémio. O Renê aceitou. Precisava do dinheiro e precisava voltar a aparecer na televisão para limpar o nome.
Gravaram-no durante 12 semanas numa ilha deserta do arquipélago de San Andrés. Apareceu no ecrã bronzeado, magro, com a barba descuidada. Competiu com cantores de vallenato, atrizes de telenovelas, ex-jogadores, modelos. Perdeu na sétima semana, voltou para Bogotá com 20.000 de cachet. Depois veio a Grande Aposta, outro reality do canal RCN. Depois, um programa de comentários desportivos numa emissora de rádio modesta do Atlântico Colombiano. Depois, clínicas de guarda-redes para miúdos pobres em bairros esquecidos de Medelim. Depois, contratos curtos com equipas da quarta divisão na Venezuela, Equador, Bolívia: Guaros Futebol Clube, Deportivo Rionegro, Deportivo Pereira.
O Renê reformou-se oficialmente do futebol profissional no dia 24 de Janeiro de 2010; tinha 43 anos de idade. A despedida foi no estádio Atanásio Girardot de Medelim, o mesmo estádio onde o Pablo Escobar Gavíria tinha-o visto jogar pela primeira vez 23 anos antes. Lotaram as bancadas, foram jogadores históricos do Atlético Nacional, foram jornalistas de toda a Colômbia. O Renê fez um escorpião no último minuto do jogo e saiu do estádio sem falar com a imprensa.
Mas tudo o que se acabou de ouvir, irmão, os reality shows, as equipas de quarta divisão, a despedida do Atanásio Girardot, tudo isto aconteceu porque em 1993, exatamente 11 anos antes do dopping do Aucas, o Renê Guita Zapata tomou uma decisão que custou 9 meses da vida dele dentro de uma cela da cadeia La Modelo de Bogotá. Uma decisão ligada com uma menina colombiana de 15 anos, um rapto repugnante, 3 milhões de dólares em dinheiro vivo e a proposta exacta que a polícia colombiana fez dentro de um calaboço do bloco de busca. Precisa de voltar pro 30 de Abril de 1993 para compreender completo.
30 de abril de 1993, cidade de Medelim, bairro El Poblado. 5 da tarde. Uma menina de 15 anos de idade saía do colégio privado no carro Mercedes-Benz, blindado do pai, conduzido por um motorista profissional com guarda-costas armados no banco do passageiro. O pai da menina chamava-se Luís Carlos Molina Yepes; era empresário de Medelim, era banqueiro e era, pela própria Fiscalia Geral da Nação Colombiana, um dos principais lavadores de dinheiro do cartel de Medelim, o homem de confiança do Pablo Escobar Gavíria, para movimentar os dólares da cocaína de Miami até à Suíça.
O carro Mercedes-Benz ia pela rua 10 do bairro El Poblado em direção à casa da família, quando um comando de seis homens armados com espingardas de assalto soviéticas interceptou-o no cruzamento com a rua 43. Mataram o guarda-costas com dois tiros na cabeça, feriram o condutor na perna esquerda e levaram a menina dentro de uma carrinha Toyota 4×4 com destino desconhecido do Oriente Antioquenho.
A polícia colombiana abriu uma investigação imediata. O pai Luís Carlos Molina Yepes recebeu uma chamada anónima no telefone da casa naquela mesma noite. A voz do outro lado da linha era conhecida. Era a voz do Pablo Escobar Gavíria. A gravação daquela ligação arquivada anos depois pela Fiscalia Colombiana no expediente número 7122 contém as palavras exatas que o patrão do mal falou nessa noite: “Seu Luiz Carlos, aqui fala o Pablo. A sua filha tá bem, está comigo. 3 milhões de dólares de grana viva, notas usadas de 100, no prazo de 72 horas. E a menina volta sã para casa. Se a polícia souber, a menina não volta. Tá entendendo?”
O Luís Carlos Molina Yepes era um empresário, não um herói. Aceitou pagar os 3 milhões de dólares na hora, mas precisava de um intermediário de confiança, alguém que o Escobar respeitasse, alguém que pudesse entrar e sair dos círculos do cartel sem levantar suspeita da polícia. Alguém que, no ideal, tivesse figura pública e popularidade nacional, alguém intocável. E então o Molina pensou no Renê Guita Zapata, o guarda-redes do Atlético Nacional, o amigo confesso de Pablo Escobar, o homem que dois anos antes tinha jogado bola com o patrão do mal dentro da cadeia La Catedral, o único homem de Medelim, para além do próprio Escobar, que conseguia lidar com aquela situação sem que a polícia ficasse a saber.
O Molina ligou ao Renê diretamente para casa dele. A conversa durou exatamente 14 minutos, explicou o rapto, contou do resgate de 3 milhões de dólares e pediu o favor, pela memória da mãe, Maria Joselina, que servisse de intermediário para recuperar a menina sã e salva. O Renê aceitou.
Durante os quatro dias seguintes, irmão, o Renê Guita Zapata encontrou-se com emissários do Pablo Escobar em lugares secretos de Medelim: uma quinta no município de Guarne, um restaurante de comida típica antioquenha na rua 70, um parque de estacionamento subterrâneo de um prédio do bairro Laureles. Levava mensagens do pai para os raptores, levava número de conta bancária, levava proposta de pagamento. A polícia colombiana, que já monitorizava cada movimento ligado ao cartel de Medelim nessa altura, registou cada um dos encontros em relatório oficial do bloco de busca.
A menina foi libertada sã no dia 4 de maio. Caminhou pelos seus próprios pés até à porta da casa do pai dela em El Poblado, vestida com a mesma roupa do colégio que estava a utilizar cinco dias antes. O Molina Yepes pagou os 3 milhões de dólares completos e o Renê Guita Zapata, de acordo com a imputação posterior da fiscalia colombiana, recebeu das mãos do pai, como gratificação pela mediação, uma quantia exata de 64.000 dólares em dinheiro vivo. O Renê sempre negou ter recebido aquele dinheiro. A fiscalia sempre afirmou que existia a prova bancária. A verdade última, irmão, está num cantinho qualquer enferrujado de um arquivo do Palácio de Justiça de Bogotá.
Mas o que veio depois daquele 4 de maio de 1993? Isso sim está documentado e filmado, porque a polícia colombiana demorava meses perseguindo o Pablo Escobar; queriam capturá-lo ou matá-lo desesperadamente. O bloco de pesquisa tinha contactos infiltrados em cada lugar de Medelim, onde o patrão do mal podia estar escondido. E a operação de resgate da filha do Molina Yepes deu-lhes, pela primeira vez em dois anos, uma pista concreta sobre os movimentos recentes do Escobar, uma pista que passava directamente pelo guarda-redes do Atlético Nacional.
A decisão do procurador-geral colombiano Gustavo de Greiff foi rápida: iam utilizar o Renê Guita Zapata como isca para chegar ao Escobar.
5 de junho de 1993, 10:47 da manhã, centro de treinos do Atlético Nacional, no concelho de Guarne, Antioquia. O Renê Guita Zapata encontrava-se na sala de fisioterapia do clube, deitado numa maca de cabedal com a perna esquerda engessada do tornozelo até ao joelho. Tinha torcido o tornozelo na partida do campeonato colombiano dois dias antes contra o Independiente Santa Fé. O médico do clube tinha posto um gesso preventivo para evitar agravar a lesão. Quando o massagista do Nacional, Juan Guillermo Montoya, entrou na sala de fisioterapia com cara de susto, o Renê percebeu na altura que alguma coisa estava rolando.
O Montoya falou-lhe em voz baixa, sem se aproximar da maca: “Renê, há um monte de homens armados lá fora. Tão a perguntar por você. Falam que são da fiscalia de Bogotá.” O Renê sentou-se na maca, olhou para o gesso, olhou para o relógio da parede, olhou para o Montoya e respondeu com uma frase que ele próprio contou anos mais tarde numa entrevista para a Fox Sports Radio: “Eu vou falar com eles. Visto-me bem. De repente vieram-me convidar para um almocinho.”
Se levantou da maca com o gesso na perna esquerda, caminhou a coxear até ao vestiário, botou calças limpas, camisa branca passada, sapato social por cima do gesso, penteou o bigode em frente ao espelho e caminhou até à entrada do centro de treino, onde o esperava um major da polícia colombiana, acompanhado de 12 homens do bloco de busca armados com espingardas de combate.
O major mostrou-lhe uma ordem assinada pelo procurador-geral, leu as acusações: associação a uma organização criminosa, branqueamento de capitais, coautoria em sequestro extorsivo; pediu-lhe que entregasse os documentos pessoais, falou que tinha direito a um advogado e pediu-lhe para subir para o helicóptero estacionado no campo auxiliar do centro de treino. O Renê subiu no helicóptero com o gesso na perna esquerda e as mãos algemadas atrás das costas. Voaram duas horas em linha reta para norte, Bogotá, aterraram numa base militar do cantão norte e o Renê passou os dois dias seguintes numa cela de isolamento da Fiscalia Geral, enquanto os advogados do Atlético Nacional tentavam perceber o que exatamente estavam a imputar para ele.
Na noite do dia 7 de junho, exatamente 48 horas depois da detenção, um major da Polícia Nacional Colombiana entrou sozinho na cela onde estava o Renê Guita Zapata. Levou um café quente numa caneca de alumínio, pediu autorização para se tentar no catre de ferro e falou-lhe em voz tranquila, sem ameaça, sem pressão visível, tal como um pai a falar com um filho rebelde. As palavras exatas daquela conversa, irmão, o Renê repetiu anos depois numa entrevista à revista Bocas do jornal El Tiempo, publicada no dia 25 de fevereiro de 2021.
As palavras são as seguintes: O major começou: “Olha, Renê, tu não és um delinquente, és um herói do futebol colombiano. Eu vi-o pegar um penálti contra o Olímpia no 89. O meu filho de 12 anos veste a camisola do Nacional com o teu número. O que fizemos hoje em Guarne? Algemá-lo na frente dos companheiros, levar de helicóptero para Bogotá, pôr numa cela de isolamento… Isso foi só pressão. Pressão para si compreender a gravidade do caso. Mas você não precisas de passar 9, 10, 12 anos da tua vida dentro da cadeia ali, Modelo de Bogotá, por culpa de um rapto que nem sequer planeou.”
O Renê escutou sem responder. O major continuou: “Vou fazer-te uma proposta, Renê. Entregas-me o Pablo Escobar e não tem delito. Você dá para nós um endereço só. Uma pista concreta, apenas um número de telefone, apenas uma cara conhecida só do círculo do Pablo. E amanhã mesmo sai daqui caminhando, livre, sem antecedente, com o passaporte intacto. A imprensa nunca vai ficar a saber que essa conversa existiu. A tua carreira profissional continua. O teu nome fica limpo. As tuas filhas vão crescer com o pai vivo e livre dentro de casa.”
E depois o Major, irmão, disse ao Renê a frase que selou tudo, a frase que apareceu depois em cada documentário, em cada livro, em cada análise do caso. A frase que selou os próximos nove meses da vida do guarda-redes do escorpião dentro de uma cela de Bogotá: “Mas se não me entregar o Pablo Escobar aqui mesmo, esta noite a gente vai-te falar da lei 40 do Código Penal. 5 a 7 anos de cadeia, sem possibilidade de redução, sem liberdade condicional, sem prisão domiciliária. Você decide, Renê: Pablo Escobar ou 5 a 7 anos.”
O Renê Guita Zapata, com a perna esquerda engessada, sentado no catre de ferro de uma cela de isolamento da Fiscalia Geral de Bogotá, olhou para o major da polícia colombiana directamente nos olhos e respondeu-lhe, palavra por palavra, com a frase exata que ele próprio contou anos depois na entrevista à Fox Sports Radio, a frase que lhe custou 9 meses da vida: “Eu sou um gajo que não tem problema, major, que também não sabe nada e até sabendo também não falo.”
No dia 1º de Julho de 1993, o procurador-geral colombiano Gustavo de Greiff assinou a ordem de transferência do detido Renê Guita Zapata para o pavilhão especial número 4 da cadeia La Modelo, na zona ocidental de Bogotá. A modelo era naquela altura a cadeia mais perigosa do sistema penitenciário colombiano. 5000 presos amontoados num edifício projetado para 1500. Guerrilheiros do ELN, sicários do Cartel de Medelim, assassinos comuns do centro de Bogotá e agora um guarda-redes estrela da seleção Colômbia com a perna esquerda ainda engessada.
O Renê entrou no pavilhão especial 4, caminhando com muleta no dia 1º de julho, às 2h30 da tarde. Receberam ele os guardas com deboche. Os presos do pavilhão, no entanto, receberam-no em silêncio. Muitos eram adeptos do Atlético Nacional. Conheciam-no do Escorpião, da Taça dos Libertadores de 89, das defesas de grande penalidade. Deram-lhe a melhor cela do pavilhão com janela pro pátio. Partilharam café, feijão, cigarro e começaram os nove meses mais longos da vida do Renê Guita Zapata.
Mas o dia mais doloroso de todos estes nove meses, irmão, chegou exactamente dois meses após a entrada na modelo, no dia 5 de setembro de 1993. Nessa noite, a seleção Colômbia jogou no estádio da Bombonera, em Buenos Aires, contra a seleção Argentina, pelas eliminatórias da Copa do Mundo dos Estados Unidos de 94. E o Renê, com a perna esquerda ainda engessada, viu tudo numa televisão a preto e branco de 14 polegadas, instalada no refeitório comum do pavilhão especial 4 da modelo.
A Colômbia entrou em campo no estádio da Bombonera de Buenos Aires com uma equipa quase idêntica ao que tinha jogado a Taça de Itália 3 anos antes: Carlos Valderrama de capitão, Fred Rincón no meio-coampo, Faustino Asprila e Adolfo Valencia no ataque. A única alteração importante era o guarda-redes. Na baliza da Colômbia jogava Oscar Córdoba, o substituto natural do Renê Guita Zapata, porque o Renê estava preso em Bogotá.
A partida começou às 9 da noite, hora Argentina. A Colômbia abriu o marcador aos 9 minutos com um golo do Fred Rincón, cabeceamento dentro da área, empatou a Argentina aos 21 minutos. E depois veio o que nenhum adepto argentino tinha vivido nunca na história da Bombonera. A Colômbia marcou quatro golos seguidos: Faustino Asprila aos 50 minutos, Fred Rincón aos 69, Adolfo Valencia aos 73 minutos, Faustino Asprila, outra vez aos 80. Resultado final: Argentina zero, Colômbia 5. A maior humilhação do futebol argentino na história inteira, vivida dentro do estádio mais sagrado do futebol argentino.
E no refeitório comum do pavilhão especial 4 da cadeia La Modelo de Bogotá, o Renê Iguita Zapata viu cada um dos cinco gols colombianos numa televisão em preto e branco de 14 polegadas, sentado num banco de madeira com a perna esquerda ainda engessada, apoiada em cima de uma caixa de papelão. Os 250 presos do pavilhão comemoraram cada gol com um grito que se ouviu na cadeia inteira. Quando terminou a partida, os presos começaram a cantar o nome do Renê. Primeiro baixinho, depois mais forte, depois com tanta força que os gritos chegaram até o pátio principal, até as celas dos outros pavilhões, até a entrada da cadeia: “Liberdade, Renê! Liberdade! Liberdade, Renê! Liberdade!”
O Renê Guita Zapata chorou naquela noite com a cara enfiada dentro do travesseiro da cela. Chorou pela vitória histórica que ele não tinha podido viver dentro do gol colombiano. Chorou pela Copa do Mundo dos Estados Unidos de 94, na qual ele já tinha certeza que não ia. Chorou pela avó materna que esperava ele na Casa do Castilha e que cada vez tinha menos força para viver sozinha. E chorou sobretudo pela voz da Maria Joselina Iguita, que naquela noite voltou pra cabeça dele depois de 13 anos: “Me promete mais uma coisa, meu filho, que o futebol não vai te custar a liberdade.”
O Pablo Escobar Gavíria morreu no dia 2 de dezembro de 1993, encurralado pelo bloco de busca num telhado do bairro Los Olivos de Medelim. Uma bala de calibre 9 mm entrou pela orelha direita e saiu por cima do olho esquerdo. A morte do patrão do mal eliminou automaticamente a utilidade do Renê Guita Zapata como isca da polícia colombiana. Já não tinham mais a quem entregar, já não tinham endereço para confirmar, já não tinham pista para verificar.
No começo de 1994, exatamente 9 meses depois da detenção em Guarne, um juiz colombiano assinou a ordem de soltura do Renê Guita Zapata. Soltaram ele numa manhã de fevereiro, sem imprensa, sem câmara, sem declaração pública. Devolveram para ele os documentos pessoais, devolveram o relógio, devolveram os 4.000 em dinheiro vivo que tinham achado no bolso dele no dia da detenção e deram para ele um papel com o selo do procurador geral, onde dizia que a investigação ficava arquivada por falta de provas conclusivas. O Iguita saiu caminhando pelos próprios pés, sem gesso, sem algema, sem escândalo nenhum. 32 anos mais velho do que o moleque da comuna 7, que aos 12 anos se perguntava quem é que falou que goleiro não podia jogar.
E ao chegar em Medelim, dois dias depois, a primeira coisa que ele fez, antes de cumprimentar a avó, antes de tomar banho, antes de comer uma comida decente, foi caminhar até o quarto, onde a Maria Joselina Guita tinha morrido 14 anos antes. A capa do jornal El Tiempo, com a foto do Renê beijando a Copa Libertadores, continuava colada na parede do quarto. A pontinha de baixo, do lado direito, continuava dobrada para baixo, gastada pela umidade de 14 invernos colombianos. O Renê sentou no chão do quarto, encostou as costas na parede, olhou pra foto e falou pra mãe dele em voz alta, sem saber se a avó estava ouvindo da cozinha: “Mãezinha, me custou a liberdade, mas eu não entreguei um amigo.”
E aí, irmão? O Renê Guita Zapata fechou os olhos e dormiu ali no chão do quarto com a cara olhando pra foto. O que o Renê não sabia naquela noite, irmão, é que esse quarto, essa foto, essa promessa quebrada iam perseguir ele durante os 30 anos seguintes da vida dele. E que em 2009, exatamente 16 anos depois de sair da modelo, ele ia entrar num hospital privado de Bogotá com um diagnóstico que ia lembrar para ele as palavras exatas da mãe.
2009, o Renê Iguita Zapata tinha 43 anos de idade, estava tentando um dos últimos contratos profissionais no Deportivo Pereira da Primeira B colombiana. Carregava meses com dor de cabeça constante, visão embaçada, tontura quando se levantava. O médico do clube pediu uma ressonância magnética do cérebro numa clínica privada de Bogotá. O resultado chegou duas semanas depois: toxoplasmose cerebral. Um parasita tinha conhecido o cérebro do Renê e estava danificando o tecido mole do lobo occipital. A toxoplasmose era uma doença comum em gente com o sistema imunológico enfraquecido pelo consumo prolongado de cocaína.
O médico explicou pro Renê, com palavras diretas, que ele tinha duas opções: tratamento agressivo durante 6 meses ou continuar consumindo e morrer antes dos 50 anos de idade. O Renê escolheu o tratamento: remédio três vezes ao dia, injeção semanal, zero álcool, zero cocaína, zero estresse. E pela primeira vez em 30 anos, o Renê Guita Zapata cumpriu a promessa que tinha feito para a mãe Maria Joselina Iguita numa noite do bairro da Castilha de 1979. Se manteve limpo durante os seis meses do tratamento, baixou a inflamação cerebral, devolveram-lhe a visão completa, tiraram a tontura.
E no dia 24 de janeiro de 2010, o Renê entrou pela última vez no estádio Atanásio Girardot de Medelim, com o uniforme verde do Atlético Nacional e despediu-se do futebol profissional perante 50.000 pessoas. Fez um escorpião no último minuto do jogo, cumprimentou os adeptos, caminhou até ao centro do relvado, se ajoelhou-se em cima da relva e beijou o relvado do Atanásio Girardot durante exatamente 3 segundos. Depois se levantou-se, caminhou até ao túnel do vestiário e desapareceu da vida pública do futebol colombiano para sempre.
O Renê Guita Zapata completou 59 anos no passado dia 28 de agosto de 2025. Vive hoje numa casa modesta do bairro de La Estrella, no sul de Medelim. Dá clínicas de guarda-redes para miúdos pobres nos fins de semana, aparece de vez em quando como comentador em programas desportivos de televisão por cabo, recebe uma modesta reforma da Federação Colombiana de Futebol e todas as noites, antes de dormir, olha uma foto emoldurada que tem em cima da mesa de cabeceira do quarto, onde dorme sozinho.
A foto é de 1989. Saiu na capa do jornal El Tiempo. Aparece um miúdo colombiano de 23 anos com a camisola verde do Atlético Nacional beijando a Taça Libertadores da América com os olhos fechados. E por baixo da moldura da foto, num gavetão pequeno que o Renê abre todas as noites antes de apagar a luz, tem uma folha de papel envelhecido dobrada em quatro, escrita à mão com caneta de tinta azul. A folha contém uma só frase, escrita por uma mulher colombiana de 39 anos de idade, empregada doméstica do bairro da Castilha durante uma das últimas tardes lúcidas dela em 1980, antes de morrer: “que o futebol não vai custar-te a liberdade.”
A Maria Diocelina Iguita não tinha razão em tudo, irmão. O filho dela ficou famoso. O filho dela viajou pelo mundo. O filho dela conheceu reis e presidentes. O seu filho beijou a Taça Libertadores à frente de 40.000 pessoas no estádio El Campim de Bogotá. O seu filho fez o escorpião mais famoso da história do futebol mundial no estádio de Wembley, perante 75.000 adeptos ingleses. O filho dela apareceu em livro, em documentário, em compilação do século XX do Esporte Rei.
Mas o filho dela também passou 9 meses dentro de uma cela em Bogotá. O filho dela cheirou cocaína durante 20 anos seguidos. O filho dela perdeu uma taça inteira por estar preso. O filho dela deu um soco a um jornalista no aeroporto do Equador. O filho dela terminou a fazer reality show numa ilha do Caribe para ganhar 20.000 dólares. E o filho dela, irmão, ainda hoje, aos 59 anos de idade, olha uma foto antiga todas as noites antes de apagar a luz e pede perdão para uma mulher morta faz 46 anos.
Essa, irmão, é a verdadeira queda do Renê Guita Zapata. A cagada da Itália não foi. O doping do Aucas também não. Os nove meses na modelo de Bogotá também não. A verdadeira queda foi quebrar a única promessa que tinha feito para a única pessoa do mundo que tinha amado ele sem condição e viver o resto da vida sabendo que aquela promessa nunca poderia ser feita de novo.
Se esta história te fez pensar em alguém que conhece, num irmão, num primo, num amigo do bairro que também prometeu e não cumpriu, envia-lhe esse vídeo essa noite, viste? Que ele veja sozinho antes de dormir. E se quer que a gente continue a contar as histórias que ninguém tem coragem de contar dos ídolos que viu jogar quando era mais novo, subscreve o canal, carrega no sininho e vemo-nos no próximo vídeo. Até a próxima, irmão.
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